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Caminhar é preciso

História de: Hilda Maria de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2020

Sinopse

Infância na fazenda, interior de Minas de Minas Gerais. Trabalho e modo de vida na fazenda. Mudança para o Rio de Janeiro. Trabalho no Rio de Janeiro. Criação e educação dos filhos. Vida em comunidade.

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História completa

P/1 – Boa tarde, dona Hilda, eu gostaria de começar a nossa entrevista pedindo que a senhora me dê o seu nome completo, local que a senhora nasceu e a data de nascimento.

R – Hilda Maria de Oliveira, fui nascida em Minas, em Tarumirim, fui criada... Nasci e fui criada em Tarumirim. Minha família era muito bem de vida, depois foi acabando tudo. A gente foi acabando, sem ver, sem sentir nada. A minha vida foi muito boa de solteira. No tempo de solteira, na casa da minha avó, tinha missa, quase todo mês tinha missa, tinha comida para os padres, tudo. Tinha festa de caboclo, todo fim de ano... Tinha imagem de São Sebastião, tinha festa dos caboclos na casa da minha avó. A minha avó fazia a maior festa. Na hora que os caboclos chegavam na casa, tinha missa para os caboclos.

P/1 – Como é que era essa festa, dona Hilda?

R – Eu não entendo.

P/1 – A senhora não lembra.

R - Tinha altar na casa da minha família... Da minha avó tinha um altar, assim, tinha tudo quanto era santo que tivesse dentro da casa da minha avó.

P/1 – Um altar.

R – Que era uma fazenda, tinha de tudo. Tinha bom gado, tinha animal, tinha tudo, a fazenda da minha avó. Tinha 42 alqueires de terra, a minha avó, 42.

P/1 – Em Tarumirim?

R – Em Tarumirim. Acabou tudo. Ela morreu, o meu avô morreu e foi dispondo as coisas, se foi dispondo, dispondo, acabou em zero, em nada.

P/1 – Como é o nome dos seus avós?

R – Joaquim Serrador e Maria Serradeira.

P/1 – Ah, é? E eles eram pais da sua mãe ou do seu pai?

R – Do meu pai, pai do meu pai.

P/1 – Essa localidade da fazenda era... Tinha um nome próprio ou vocês... Como é que se chamava a região?

R – É, é Dourado.

P/1 – Dourado?

R – Lago Dourado, a fazenda do meu avô era Lago Dourado. Nós tinha tudo, nós tinha de tudo e acabou tudo. Eles acabaram em nada, não tem nada mais, ninguém tem nada. Acabou com tudo. Eu não sei porque que acabou as coisas da minha família. Aí, eu casei, fui lutando, lutando, aí eu casei. Tive os meus filhos, tinha um primeiro filho com o meu marido. Não deu certo, fui morar com _____, arrumei mais quatro filhos. Lutei muito para criar os meus filhos, passei muita fome para criar os meus filhos, marcou muita a fome. Quando eu vi que não dava, que eu sou de Tarumirim, vim para o Rio para acabar de criar os meus filhos. Morei aqui no Morro muitos anos e trabalhando, correndo atrás para poder sustentar os meus filhos, todos pequenininhos. Aí, foi crescendo, eu tenho uma filha e um filho. A filha mais velha casou primeiro, depois o filho mais novo... A filha mais nova casou, o mais velho casou depois. Aí, eu fui vivendo, fui vivendo. Quando eu vi que não dava certo, que eu já estava cansada de lutar, mudei do Morro, mas eu não tenho nada que reclamar do Morro. Gosto de todo mundo e tenho muita amizade no Morro. Gosto muito aqui do Morro dos Prazeres. Adoro Morro dos Prazeres, gosto de todo mundo e tenho muita amizade de todos. Ninguém nunca me prejudicou em nada, graças seja Deus, vivi muito bem.

P/1 – Tá. Agora vamos voltar um pouquinho. A vida lá de vocês é em Minas, né?

R – Ela quer o negócio do caboclo. Você quer o negócio dos caboclos.

P/1 – Não, eu queria que a senhora contasse um pouco, como é que era a vida dos seus pais, qual era a profissão do seu pai e da sua mãe?

R – O meu pai era lavrador, minha mãe era... Como é que fala?

P/1 – Trabalhava na roça também.

R – A minha mãe também trabalhava muito na roça...

P/1 – O que vocês tinham?

R – Lavoura de café, era muito café. Nós tínhamos comprador, era o Dilauzinho que era nosso comprador de café até, crente, era comprador de café. Todos anos era cafezeira que nós vendia, muito café. Quando nós não estávamos mexendo com café, era com cana, moendo cana para fazer rapadura para vender para os outros.

P/1 – Vocês, os filhos, ajudavam os pais?

R – Ajudava muito, nós ajudemos muito os nossos pais, muito mesmo.

P/1 – Quer dizer, além do café, tinha cana de açúcar.

R – Tinha cana de açúcar, a gente fazia rapadura para vender e ficar para o ano todo para a gente não ficar mexendo. Colhia muito lá, colhia muito mantimento. Nós trabalhemos muito e não temos nada, nós não tenho nada.

P/1 – E como criança, vocês tinham tempo assim, para brincar? Como é que são as suas lembranças da sua infância?

R – Brincar, nós brincava muito, nós fazia gangorra de pau e botava o travesseiro e balançava ____ para lá e para cá, o dia inteiro balançando. Aí, quando nós chegava em casa, o meu pai matava “capado”, nós fala assim: “Agora, nós vamos fazer comidinha.” Aí, eu tinha um fogãozinho, tinha as panelinhas, nós ia fazer comidinha. Ele dava aqueles pedaços de toucinho, aqueles pedaços de carne, arroz, feijão, para a gente cozinhar no fogãozinho, aquele fogãozinho de lenha, que nós sabe cozinhar desde pequenininho. Ele mandava, nós fazia tudo direitinho, depois nós ia para cá, falava: “O papai, você não quer comer um pouquinho da comida nossa mais e a mamãe, não?”. Aí, falava: “Quero sim”. Nós botava nesses “coités”, coitezinho da roça, que tem assim... Aqueles coitezinhos, levava aquela comidinha para eles, para ______.

P/1 – O que é “matar capado”? O que é isso?

R – É porco, é porco [risos]. É capado, a gente __________, de porco vira capado.

P/1 – Pois é. É bom, é bom a gente aprender.

R – A minha avó matava gado na fazenda, distribuía gado para os filho dela todinho. Era 11 filhos que ela tinha, 11 filhos. Ela distribuía para os filhos todinhos e os filhos tudo morava dentro da fazenda dela. Todo mundo morava dentro da fazenda.

P/1 - Nessa região de Dourados?

R – Na fazenda dela, que era 40 alqueires de terra, é muita quantidade de terra, 40 alqueires de terra é muita terra, era muita terra mesmo. E aí, quando ela morreu mais meu avô, teve que distribuir, partir as heranças, né? Partir as heranças. Os filhos foi pegando e vendendo, que não sabia dar valor.

P/1 – Em termos de religião, a sua família também seguia uma certa religião? Vocês comemoravam alguma festa?

R – É, a festa de... De São Sebastião, tinha festa na fazenda. Dia de São João fazia reza todinha. São João, a reza de junho todinho. Quando chegava mês de... De São João, no dia de São João, tinha a maior festa na fazenda da minha avó, maior festa que tinha. Casou a minha tia na fazenda da minha avó, casou o meu tio na fazenda da minha avó, dentro da casa da minha avó. Foi escrivão, foi padre, tudo na casa da minha avó.

P/1 – Quer dizer que a senhora tem boas lembranças da sua infância?

R – Eu tenho muitas lembranças. E eu, hoje em dia, eu sou pobre, mas já aproveitei muito bem a vida, já gozei muito da minha vida e os meus filhos não teve nem a metade que eu tive na minha vida. Os meus filhos não teve nada. Só passava era fome. Essa daí...

P/1 – Rosa.

R - Essa daí era o que fazia comida para os mais pequenos. Ela, com dez anos, ela já sabia fazer comida e lavar roupa. Não aguentava nem pegar a bacia de roupa. Precisava de eu ajudar, botar na cabeça, sair doido com a bacia de roupa. E eu doida na enxada, trabalhando para tratar deles.

P/1 – Quer dizer, os seus filhos nasceram em Minas?

R – Em Minas, tudo em Minas. Só veio casar aqui. O meu mais velho, quando eu vim para aqui, ele estava com 12 anos. Criei tudo aqui, os meus filhos não me dá trabalho, graças a Deus, até nessa hora presente. É a riqueza que eu sou rica, graças seja Deus. Eu tenho muita riqueza, que os meus filhos não me dá trabalho.

P/1 – E escola, a senhora e os seus irmãos frequentaram a escola? Vocês foram à escola em Minas?

R – Foi só um que saiu mais lindo um pouco, só um ___________. É o compadre (Feio?).

P/1 – Quem é?

R – Compadre (Feio?), Liberato, Liberato José de Oliveira.

P/1 – Libe?

R – Liberato José de Oliveira era o nome daquele coiso... Ah, eu esqueci, meu Deus.

P/1 – Não tem problema não, não tem problema.

R – Da novela do Sílvio Santos, como é que chama _________. É Liberato que chama.

P/1 – Ah, o ... Eu sei quem a senhora está falando.

R – Sabe, a senhora sabe.

P/1 – Sei, Gugu Liberato.

R – O Gugu, o Gugu Liberato [risos].

P/1 – Bom, e irmãos, quantos vocês são?

R – Somos... Irmão meu?

P/1 – É.

R – Sete.

P1 – Sete.

R – Sete. E meu... Filho meu são seis, cinco, cinco filhos.

P/1 – E política, a família era envolvida com política naquela época?

R – Era PSD [Partido Social Democrático], tudo era PSD. Morreu por causa de PSD, tudo era PSD.

P/1 – Lembra de alguma figura que ia na casa dos seus avós? A senhora lembra de algum político, quando a senhora...

R – Doutor Jairo, o doutor... Ah, eu esqueço o outro nome. O doutor Afonso já era _______.  O doutor Jairo era PSD, do papo amarelo. Doutor Jairo era o nosso médico e era prefeito da nossa terra.

P/1 – Do que amarelo que a senhora falou?

R – É o do papo amarelo.

P/1 – O que é do papo amarelo?

R – É brincadeira, o doutor ______, muito bom também, muito médico, muito bom.

P/1 – É, mas o que significa essa do papo amarelo?

R – É, porque era brigadeiro, menina.

P/1 – Brigadeiro.

R – É, e o doutor Jairo era PSD, que a minha família era doida era para o PSD. E eu esqueci, é Getúlio Vargas, não sei qual é o outro. Eu esqueci, eu esqueci.

P/1 – A senhora não me disse a data de nascimento da senhora.

R – Eu falei para você quando eu nasci.

P/1 – Qual foi a data? Vamos repetir só para ficar gravado.

R – 25 de setembro.

P/1 – Hoje, a senhora tem 65 anos.

R – 65.

P/1 – E os pais registravam as crianças direitinho? Como é que era isso?

R – Registrava nada... Não, não vou falar não. Não, não vou falar. Registrava que era coisa, o cara registrou eu, com outro filho com o “nome meu” como gêmeo e nós não éramos gêmeos. O mais novo, o mais novo era mais novo. E aí botou a minha idade com a idade dele, me atrapalhou, eu receber a minha pensão. Por isso que eu não recebo, que eu estou com 65 anos e com 67, a coroa velha disse que recebe, ainda vou fazer 66, como é que eu vou receber? E eu estou doida para receber esse...

P/1 – Por que é que era assim? Porque deixava, não registrava e tinha... Tinha o ...

R – Esperava quando era eleição. Doutor Jairo recebeu... [risos]. Registrar eu sei... Doutor Jairo registrar. Falaram que era festa do doutor Jairo, todo mundo: “A festa dele, vai ganhar, nós vamos registrar os “meninos tudo””. Aí, registrava todo mundo de graça, que um negócio desse era de graça, não podia pagar.

P/1 - ______ de eleição?

R – É.

P/1 – Era o período de eleição.

R – É, quando tinha eleição registrava os filhos. Era tudo assim. A Eva, minha irmã, registrou para casar.

P/1 – Ah, é [risos]?

R – A Eva, minha irmã, registrou para casar, tadinha dela. Já morreu.

P/1 – Agora, em relação, vocês tinham... Já na sua juventude, a senhora se casou com quantos anos? O primeiro casamento da senhora, a senhora tinha...?

R – 18 anos.

P/1 – 18 anos.

R – É. Casei só no padre, não casei no civil não. Casei só no padre. Aí, casei, vivi  acho que quatro anos, aí tive o primeiro filho. Aí não deu certo, larguei o marido, fui viver com outra pessoa, me envolvi com essa outra pessoa. Fui morar com ele. Até no começo foi muito bom, mas já depois, Deus me livre.

P/1 – É?

R – Nossa senhora, passei muita fome, já passei muita fome. O que eu já passei, não desejo ninguém passar e eu não tinha coragem de dar os meus filhos para os outros não.

P/1 – Não tinha coragem de fazer o que?

R – Dar os meus filhos para os outros, eu não tinha não.

P/1 – Dar o seu sítio para os outros?

R – Meus filhos.

P/1 – Ah, os teus filhos.

R - Deus me livre, não dava não. Lutei muito para criar os meus filhos, muito! Eu tenho filho de 48 anos.

P/1 – É esse o teu primeiro filho?

R – É, mais velho que ela, que ela está com 45.

P/1 – Mas a senhora quando tinha os filhos, morava aonde? Tinha um... Era na roça ainda?

R – Era... Não, morava dentro de Tarumirim numa cidade pequena. Aí, a minha irmã mudou para o Rio e eu vim aqui no Rio, cheguei aqui...

P/1 – Então, me conta desde o comecinho, por que a senhora veio para o Rio de Janeiro e quando, dona Hilda?

R – Eu vim em 1969 para o Rio. E aí eu cheguei aqui, a minha irmã estava aí, morava aí mesmo. Aí eu cheguei, fiquei uns dias, mas eu gostei muito do Rio. Gostei muito, fiquei toda _____. Aí eu falei: “Quer saber de uma coisa, minha irmã? Eu vou em Minas, eu vou buscar os meus filhos.” Mas é uma coisa muito esquisita. Falei: “Eu vou lá em Minas, vou buscar.” Ela falou: “Você vem?” “Eu venho. Você pode contar comigo que eu venho”. Eu era muito doida. Aí, cheguei lá, arrumei os meus filhos, tudo, tudo. Levei um bocado de roupa, _______ não tinha roupa não. Levei roupa, chinelo de dedo, tenho...vim de chinelo de dedo aqui para o Rio. Aí, catei a roupa e um bocado de ______, trouxe num saco, esse saco branco, enchi de roupa, soquei de roupa e panela, e botei tudo dentro do saco e vim embora aqui para o Rio. Quando eu cheguei, a minha irmã ficou boba. A minha irmã: “Mas você é muito doida mesmo.” Eu falei: “Eu sou sim”.  “Você veio mesmo?”. “Vim.” Fiquei, eu acho que uma semana, na casa da minha irmã.

P/1 – Como é o nome dessa irmã?

R – Evanir de Oliveira.

P/1 – Ela é viva ainda?

R – É, viva. Aí, cheguei, ela falou assim: “Oi, e agora?”. Eu falei: “Eu não vou ficar com você, né?”. A casa dela é pequenininha. Eu falei: “Mas eu vou ficar com você até eu alugar para eu morar”. Aí, eu estava morando na casa dela, ela falou: “Você fica uma semana ou duas na minha casa. Eu tenho uma prima, que eu arrumo um servicinho pra você”. Aí, quando foi no outro dia, eu gostava muito de trabalhar, falei ____________________________. E eu fiquei na casa da minha irmã. Ela falou: “Vamos lá na Rua Áurea, que é perto da igreja….da Rua Áurea.” Eu falei: “Então eu vou.” Cheguei lá, arrumei o meu serviço, eu sabia até o nome da mulher. Ela falou assim: “Você vai arrumar”. Aí eu cheguei lá, fui chegando nela, logo me quis para trabalhar. Aí, eu fiquei na casa dela, trabalhando. Trabalhei, eu acho, que um ano e pouco. Aí, depois eu saí, fui trabalhar numa padaria. Trabalhei 13 anos numa padaria.

P/1 – 13? Aonde, em que bairro?

R – Na rua, na rua... Na _______, na Lapa. Trabalhei 13 anos numa padaria de nordestino para fazer pão. Trabalhava eu e a Zefa para... Fazendo pão. _________. Aí, eu trabalhei 13 anos na casa dela para fazer pão, para nós fazermos pão. Quando é de madrugada, eu descia. Iá para a padaria, quando era cinco, seis horas, os pães já estava pronto para entregar.

P/1 – Só um minutinho, dona Hilda. Quando a senhora veio para cá, a sua irmã morava no Morro dos Prazeres?

R – Morava.

P/1 – Como é que foi a sua primeira impressão quando a senhora chegou aqui? A senhora chegou, então, em 1969?

R – Em 1969.

P/1 – Como é que...

R – Vim, voltei, fui em casa, só vendi as minhas coisas e ó...

P/1 – Qual foi a sua impressão quando a senhora chegou aqui?

R – Ah, eu gostei muito. Eu achei muito bonito o Rio de Janeiro, muito bonito mesmo. Cheguei, fiquei toda folgada mesmo, que eu era muito danada mesmo. Eu cheguei, falei: “Mas eu vou buscar os meus meninos”. Estavam bem pequenininhos. Cheguei, ela falou: “Mãe, a senhora vai?” Eu falei: “Vou”. E as mulheres de lá, todas, ficaram chorando por causa de mim. Todo mundo gostava de mim. Eu falei: “Eu vou embora. Eu vou e depois venho aqui, passear”. Aí, fez um ano... Estava faltando uns dias, poucos dias, eu recebi um telegrama. Eu recebi um telegrama, o meu pai estava muito mal. Aí, eu deixei ela com a minha... Na casa da minha tia, que ela trabalhava, junto com a minha tia. Ela olhava criança. Aí eu fui embora. Quando eu fui chegando lá, com dois ou três dias, o meu pai morreu e a minha irmã veio embora e deixou eu lá, o meu pai estava vivo. Aí, no mesmo dia que ela veio embora, o meu pai morreu. O meu pai morreu, andando assim, pulou da janela assim, pulou lá do lado de fora e morreu. Um negócio _____, pulou. Ele estava dizendo: “Eu sou homem até na hora de morrer.” Pulou lá do lado de fora, quando pegou ele, já estava acabando de morrer. E aí ficou a minha mãe, a minha mãe rodou, rodou, rodou. Depois a minha mãe veio para o Rio, nós lutamos. Ela ficou doente, ela lutou, lutou, foi até a minha mãe morrer. A minha mãe morreu com 61 anos.

P/1 – Aqui, no Morro do Prazeres também?

R – Aqui, no Morro dos Prazeres.

P/1 – Como é que era o Morro dos Prazeres quando a senhora chegou no final da década de 1960? As casas como tem hoje, como é que era?

R – Tinha menos casa. Tinha mais casa do que barraco de tábua. Menos. Tinha mais casa de barraco. Agora, sempre tem mais ______. Tinha muita casa de barraco de tábua, aquelas casas todas caindo. Agora tem muito. Essa igreja aqui, já assisti missa aqui dentro dessa igreja. A missa, a primeira missa quando a minha mãe morreu, foi aqui dentro dessa igreja.

P/1 – Que igreja?

R – Aqui.

P/1 – Qual?

R – Essa daqui, aqui.

P/1 – Aqui, no casarão, onde a gente está?

R – Assisti missa da minha mãe de sete dias aqui, desse casarão, da minha mãe. Assisti missa da minha mãe, assisti missa do meu pai, tudo aqui dentro desse casarão. Papai morreu, assisti a missa lá, de sete dias, assisti de um mês aqui da minha mãe e do meu pai dentro desse casarão. 

P/1 – Que ano foi isso, dona Rosa... Dona Hilda?

R – Aí, eu não estou bem a par.

P/1 – Mas assim, quantos anos, mais ou menos, depois que você já estava aqui, que a sua mãe faleceu?

R – Tinha uns três anos, tinha uns três anos que a minha mãe tinha morrido. Ai, eu não estou bem a par, quando a minha mãe morreu.

P/1 – E quem celebrava essa missa, você lembra?

R – O padre, o padre... O padre, eu não lembro qual é o padre que celebrava a missa aqui não [pequena interrupção]. Você está gostando, né?

P/1 – Estou gostando. Então, a senhora me conta; como é que era conhecido aqui, o casarão?

R – É Casa dos Padres. “Vamos lá na Casa dos Padres, vamos passar lá para a Casa dos Padres”. Eu carregava muita água daqui, dos bombeiros, do Xororó e eu lavava roupa aqui, subia com bacia de roupa na cabeça, chegava lá, lavava roupa lá, botava na corda. Descia, buscava. Depois, quem botou essa água legal aqui foi um crente que mudou para aqui, não aturou muito tempo não. ______ tudo, botou água, nunca mais faltou água. E esse __________ morreu lá em Bonsucesso... É, eu acho que foi no Bonsucesso que ele morreu atropelado no carro dele, morreu atropelado, que foi para a feira... É Bonsucesso sim. É Bonsucesso, morou em Bonsucesso, mas ele era muito legal, era até um crente. Aí, nunca mais faltou água aqui no Morro. Nós carregávamos água direto. Era água, faltava muita água aqui no Morro.

P/1 – E a senhora morava aonde? Muito em cima?

R – Eu morava lá em cima, lá em cima, lá perto do... Eles não moram aí, mais. Morava perto do Levi, lá em cima, ___________. Mas nós carregava muita água, eu botava os meus filhos todos para carregar, os meus filhos __________ quase não estudou. Ela mesmo não estudou nada. Ela e o mais velho têm pouca leitura. Agora, quem estudou muito foram os mais novos. Foi a Eva, o Zezé e o Geraldo, os dois mais velhos não.

P/1 – Essa Casa dos Padres, vocês entravam sem ser no dia da missa aqui?

R – Não.

P/1 – Pois é. Como é que era? O que vocês como moradores, o que vocês achavam, pensavam desse local?

R – Ah, eu não sei, mas eu não sei como é que eles arrumaram isso agora, que não é Casa dos Padres. Isso que eu não entendi, mas era casa, a Casa dos Padres.

P/1 – Eles moravam aqui?

R – Não sei. A senhora sabe: “Vamos lá na Casa, vamos passar lá na Casa dos Padres.” “Na Casa dos Padres, vamos passar lá?”.

P/1 – Mas quando a senhora pegava água, a senhora passava por lá?

R – Subia por aqui, subia por lá, subia por lá atrás, lá nos bombeiros, subi quantas vezes pelo bombeiro...

P/1 – Quer dizer, você podia entrar pela Rua Almirante Alexandrino, por essa subidinha de pedra?

R – Essa subidinha de pedra, aí saía lá. Quando a gente vem, passava por lá com a bacia de roupa. Ia lá para o Xororó. Lá no Xororó tinha uma coisa assim, a gente abria, era um poço de água. Tinha uma biquinha, a gente lavava a roupa o dia inteiro, brincando e cantando. Trabalhava a semana toda, quando era sábado, domingo, lavar roupa. Eu, a Noêmia... Tinham várias pessoas, várias mulher que trabalhavam lá.

P/1 – Vocês conversavam, cantavam?

R – Um dia cantava, brincava lá nos _______, aquela alegria. Não sei, por isso, porque a gente é novo.

P/1 – O que vocês cantavam?

R – Não sei. A gente canta aquelas “bobageadas” lá, ficava brincando, cantando. Não sei.

P/1 – Mas a vida era muito dura?

R – Era muito, mas a gente tinha alegria. Por isso que eu falo, “não tem nada que reclamar daqui.” Eu mudei daqui, mas eu gosto daqui, e eu não sei nem como é que eu não voltei para aqui. Eu gosto daqui, todo mundo é legal, muito legal.

P/1 – Quem eram os seus vizinhos quando a senhora veio morar aqui?

R – Era a Néia, Noêmia, Rosária, a Darlê, a dona Maria já morreu, mãe do (Grimão?). Todas eram as minhas vizinhas, legal mesmo.

P/1 – Agora, tinha muitas pessoas de Minas Gerais também, você sabe?

R – Só tinha o que eu conhecia mesmo, era a minha família, né? Tinha muito era Paraíba, muito Paraíba.

P/1 – Aonde? Perto de onde vocês moravam também?

R – E era Paraíba: “Vamos lá passar no Morro dos Paraíba”. “Vamos passar por lá.” Aquilo, às vezes, você lavando a roupa e voltando assim, no morro, no meio do mato assim, para ir secando um pouco para escorrer a água _____ para vim trazer. E os meninos carregando aquelas latas de água, tadinho assim ___________. Lutei muito, eu lutei muito. Por isso que eu falo: “Eu tenho a minha vitória porque eu lutei muito. Eu lutei muito”. Me dá gosto, né? Os meus filhos me dá gosto. Eu sou satisfeita, sou pobre, mas vivo alegre. Trabalho muito, eu trabalho muito ainda.

P/1 – É, né? Agora a senhora fala “a gente passava no Morro dos Paraíbas”, mas não é o mesmo Morro dos Prazeres ou vocês...

R – É Morro... Aqui é tudo Morro dos Prazeres. Nós falava assim: “Vamos lá no Morro dos Paraíbas.” Paraíbas porque mora muito Paraíba, né?

P/1 – Nesse lado assim, esquerdo?

R – É, esse lado aqui. Esse lado aqui é muito Paraíba que mora aqui.

P/1 – Mais de vista aí, para o Cristo?

R – É, por aqui. Eu já fui uma vez.

P/1 – A senhora já foi uma vez?

R – Uma vez. Aí, todo aqui assim: “Vamos passar no Morro dos Paraíba. É mais perto.” Aí, passava, ia embora lá para casa.

P/1 – Mas quando vocês tinham que dizer o seu endereço, vocês diziam Morro dos Prazeres?

R – É, falava Morro dos Prazeres. “Onde é que tu mora?” “Eu moro no Morro dos Prazeres”, que eu morava no Morro dos Prazeres mesmo, moro no Morro dos Prazeres. Agora, Paraíba por causa ______, mas aqui é Morro dos Prazeres, tudo é Morro dos Prazeres. Nós íamos. Às vezes, nós descia todo mundo: “Vamos sair? Vamos passear? Vamos para a praia?”. Aí eu vou para a praia, mas eu não gosto de praia. Eu tenho medo de praia, eu vou lá para ver os meus filhos trabalhar na feira. ______ na feira também.

P/1 – Na feira?

R – Na feira, carregando carrinho de compra para as madames. ________, isso me ajudou muito. O que é a gente fala: “Não ajudaram muito, por isso que não estudou”.  A Rosa não sabe nada, _______ aprendendo um pouquinho porque está na escola, mas a Rosa não sabe nada. O outro mais velho sabe porque aprendeu depois de velho, casado.

P/1 – A Rosa te ajudou muito?

R – Ajudou.

P/1 – E os seus outros filhos?

R – Eles tudo me ajudaram. Eu não posso reclamar de nenhum dos meus filhos. Todos eles me ajudaram e ainda me ajudam porque ________. _________ eu vou. Se ela me dá o dinheiro, eu vou. Ela dá. _________ Vou. Se ela me dar, eu vou lá buscar os recados para você ver. Vou trazer aqui para você ver.

P/1 – Quer dizer, a senhora tem retratos bacanas lá de ______ em Minas com a sua família?

R – Tenho, tenho com a minha família, minhas tias, meus tios, tem muito.

P/1 – A senhora estava falando que foi passear no Cristo, como é que foi esse passeio? Foi do grupo aqui, dos colegas daqui?

R – Não, a gente foi de carro, voltou rápido, não demorou muito não. Foi só... Eu acho que umas três pessoas, nós foi de carro e voltou a pé. Eu queria passear era no bondinho e nunca fui no bondinho. Aquele bondinho que sobe no mato ali. Não tem um bonde que sobe?

P/1 – Tem.

R – Eu tinha vontade de ir nele.

P/1 – Quer dizer, a senhora sempre via daqui, do Morro dos Prazeres?

R – E aí _______ bonde, aí tinha muito bonde, nossa, como tinha bonde.

P/1 – Aqui em Santa Teresa?

R – Bonde aqui? Menino, você podia descer de um bonde e pular no outro, descia de um, pulava no outro. Eu gostava muito de carona de bonde. Eu era muito sem vergonha, gostava muito de carona de bonde, mas quando meus filhos estava, eu ficava igual uma santa, a santinha, ficava santinha. Quando os meus filhos não estavam comigo, eu ia mais era nos trilhos. Eu gostava muito de andar nos trilhos e não queria que os meus filhos andassem nos trilhos. Quando eles estavam comigo, eu sentava dentro do bonde, parece que eu estou andando de bonde, que eu reclamava deles andarem nos trilhos, né? Que não pode. Aí, eles chegavam: “Ah, se menino estava andando nos trilhos do bonde.” Eu falei assim: “Eu vou pegar e vou dar uma coça”. Mas _______ bater nada. Mas, aqui eu andava, mas eu não deixava ninguém andar... Mas era muito bonde, garota!

P/1 – Que atendiam o bairro de Santa Teresa?

R – Tudo, mas era muito bom...

P/1 – Quais eram as linhas, a senhora lembra de onde para onde que ia?

R – Só tem no final do coiso... Da Carioca, da área Carioca aqui e da Carioca lá. Para lá e para lá. Carioca, Dois Irmãos, Cario..., Dois Irmãos, mas era muito bacana. E pau na máquina, né?

P/1 – Aqui, perto desse Raposo Lopes, nesse prédio grande aqui?

R – É, era aqui nesse prédio grande.

P/1 – Esse é o ponto final aqui...

R – Ponto final dele. Agora, ____________ não está indo nada para lá.

P/1 – Não, um pouco. Eu acho que não está indo não.

R – Não está não. Desse tempo meu, não tinha bonde para assim, não. Só tem dali para baixo, para cima e para baixo.

P/1 – E o tabuleiro da baiana, a senhora já tinha ouvido falar isso?

R – O que, tabuleiro?

P/1 – Também era o ponto final do bonde, tinha um pouco ali, no Largo da Carioca. Por ali, não, né? Não lembra. A senhora, quando trabalhava, ia de bonde, descia de bonde?

R – Descia de bonde, subia de bonde. Qualquer hora que eu descia de bonde, só de madrugada que era difícil. Quando não tinha bonde, a gente ia a pé. Apesar do coiso no... Lá no Carioca. Na Carioca... É na Carioca que nós ia a pé, ali no coiso.

P/1 – Pela Lapa?

R – Não, na Ponte dos Arcos, ia a pé daqui lá, a pé para trabalhar, que às vezes, não vinha o ônibus, não vinha. A gente tinha que ir, porque tinha horário para a gente trabalhar. Tinha horário, aí quando era uma hora, duas horas, estava indo embora para casa. Já tinha feito tudo. Eu estava indo embora. Era eu e uma outra moça.

P/1 – Mas quer dizer, a senhora quando chegou, foi morar com a sua irmã num período e depois o que a senhora fez, alugou uma casinha aqui, um quarto?

R – Aluguei um quarto, cozinhando... para você ver como é que é as coisas... cozinhando no fogão de querosene, Jacarezinho, aquele fogãozinho Jacarezinho. Botava o bujãozinho embaixo e botava aquele fogãozinho assim, fogareiro e cozinhar. Eu fazia comida que dava para o almoço para os meninos, depois eu chegava de tarde, uma hora assim, eu fazia comida, dava janta a eles e deixava aquela comida para eles comerem no outro dia. E no outro dia, a gente não podia esquentar aquela comida de novo, você comia aquela comida fria até eu chegar para fazer outra para jantar. Eles comia aquela comida fria para não acender o fogo, que eu tinha medo demais que era querosene que a gente usava.

P/1 – Ah, vocês usavam querosene. A senhora tinha...

R – Mais querosene ________

P/1 – Era perigoso.

R – Era perigoso. Eu tinha medo de botar fogo neles ou botar fogo na casa. E era pequenininho o meu quarto, tudo dormia, todo mundo coladinho.

P/1 – Na casa de quem que a senhora alugou o quarto?

R – Foi do Zé Mineiro. A primeira casa que eu aluguei foi do Zé Mineiro, aqui no escondidinho, ali no escondidinho, aqui.

P/1 – Sei.

R – Como é que fala aquilo ali?

P/1 – É escondidinho mesmo.

R – O primeiro quarto que eu alugue foi desse. Eu lembro que, hoje, não sei se foi dois mil réis, se foi três mil réis. Depois eu mudei para cima, fui lá, ____ para ver como é que são as coisas. Meu terreno, me pedaço de terreno que todo mundo ______ comprou barraquinho aí.

P/1 – Vendeu terreno de onde? De Minas?

R – Vendi e comprei um barraquinho aí. Todo mundo vendeu, também vendi. Vendeu por 13 mil réis, 13 mil réis, sete alqueires de terra, 13 mil réis. Aí, chegou, cada um ficou com um pouquinho, eu fui e comprei um barraquinho, que até perto da casa da Rosa. Comprei uma casinha, morei, morei, depois eu vendi a casa. Aí, eu vendi uma de Minas, eu tinha uma casa em Minas, eu vendi. Acabei com tudo, não tenho nada também não. Vendi _________.

P/1 – Quando a senhora veio para cá, já se falava Morro do Escondidinho também?

R – Já, já.

P/1 – Já se usava esse nome, Morro do Escondidinho.

R – Lá no... Morro não, Escondidinho e Morro dos Prazeres. Escondidinho e Morro dos Prazeres.

P/1 – E sobre os festejos de carnaval, a senhora lembra do carnaval aqui, se era comemorado, se tinha bloco?

R – Tinha bloco na rua.

P/1 – Como que era isso, dona Hilda?

R – Não tinha aquele negócio lá não, aquele, aquele... Mas era muito gostoso. Uma vez eu fui vender cerveja, mas eu não vendi nada, amor. Não vendi nadinha porque ficou tudo... Que todo carnaval, que é no meio da rua, da chuva, não sei por que! Aí, pegou, choveu, eu vim embora, guardei a minha cerveja tudo dentro de casa. Outro dia, eu fui para a praia, não vieram cerveja. Aí, não voltei nunca mais, não comprei mais nada.

P/1 – Para onde? Para o Sambódromo, que a senhora está falando?

R – Que Sambódromo! Sambódromo é depois que eu moro aqui no Rio. Sambódromo é depois que eu moro no Rio, Ponte Rio-Niterói depois que eu moro no Rio, que foi... Como é que fala?

P/1 – Construída, né?

R – É, construída a festa da ponte, da ponte...

P/1 – Inauguração da ponte.

R – Eu morava lá em cima no morro, aqui ficava “sisisi”, mas era lindo, garota!

P/1 – Como é que era? Conta para mim um pouquinho.

R – Nossa, mas foi muito bonita a ponte.

P/1 – O que a senhora via? Tinha fogos?

R – Era fogos para todo lado, na Ponte Rio-Niterói, aquilo ascendia para todo lado, fogo, de foguete e coiso. Como é que fala? A gente tem um jeito de falar.

P/1 – Fogos de artifício?

R – Não, na ponte.

P/1 – Eu sei, mas eles jogavam aqueles fogos...

R – Não, lá nela mesmo. Como é que fala?

P/1 – Inauguração.

R – É, inauguração dela. Foi muito bonito, garota! Eu já morava aqui e o carnaval, esse sambô aí, é depois que eu morei aqui no Rio, que foi feito aquilo ali. Não era aquilo ali não.

P/1 – Mas a senhora lembra do carnaval de rua?

R – De rua, todo ele era de rua, todo ele, e era melhor do que lá.

P/1 – Você vendia cerveja na rua no carnaval. Que rua?

R – Vendia na rua, encostava só nos cantos. Ali na Avenida Rio Branco, a gente vendia por ali a fora. Vendia ali perto do ponto de bonde, no final da Rua da Carioca, a gente ficava por ali afora, com as caixas de isopor ali vendendo. Os caras botava as caixas __________, mas era muito difícil porque chovendo, como é que ia vender? Quer agora, quase não chove mais, mas antigamente chovia muito. Agora, quase não chove. Você pode prestar, quase não chove, mas antigamente chovia e não tinha _________. Depois que eles pegou, prendeu o pessoal lá, acabou. Você não vê mais nada. Você só vê ali, aquele bloquinho ali na Avenida Rio Branco, acabou. Mas _______ era muito bonito.

P/1 – O que a senhora lembra assim, do carnaval? Das fantasias, a senhora lembra do pessoal fantasiado? A senhora brincava o carnaval?

R – Eu não, nunca brinquei de carnaval, nunca brinquei. Só gostava de ficar trabalhando, para ganhar algum trocadinho, mas nunca... Só daquele menino, como é que ele chama? É rosa e branco, né? Rosa e branco, é rosa e branco. Rosa e verde, né?

P/1 – Essa é a Mangueira.

R – A Mangueira. É rosa e branco, lembro dela.

P/1 – Mas aqui no morro, você lembra se tinham blocos ou... Tinha um bloco de carnaval?

R – Ah, tinha. De vez em quando, tinha o bloquinhos dos meninos aí, saía, mas não é bloco muito... Eu nunca fui. O bloco aqui não era muito bom, igual era ________. Agora é melhor os blocos, ensaiavam os blocos __________. _______ saía daqui do morro mesmo, um bloco desse.

P/1 – Pois é. A senhora lembra disso?

R – Lembro. Saiu o bloco dos meninos daqui do morro, saía.

P/1 – Mas saíam fantasiados?

R – Saía todo mundo fantasiado, brincava aí no Rio Comprido, saía sim.

P/1 – E qual era a cor dele, você lembra, dona Hilda?

R – Não lembro. Só sei que saía, mas eu não lembro a cor da roupa deles não.

P/1 – Teus filhos participavam?

R – Não, os meus filhos nunca gostou de nada dessas coisas. Os meus filhos nunca me pediram, chegasse perto de mim assim, falava: “Minha mãe, eu vou no baile.” Nunca!      

P/1 – Como é que é... Como é que é o nome dos seus filhos, por ordem do mais velho?

R - _____.

P/1 – Mais velho, como é o nome dele?

R – Adão Martinho de Oliveira.

P/1 – Espera aí, Adão...

R – Adão Martinho de Oliveira.

P/1 – Martinho?

R – De Oliveira.

P/1 – Martinho de Oliveira. Ah...

R – Rosa Maria de Oliveira da Felicidade, que tem Felicidade [risos].

P/1 – Depois.

R – Eva Maria de Oliveira.

P/1 – Ah?

R – José de Oliveira.

P/1 – Uh?

R – Geraldo de Oliveira.

P/1 – Geraldo?

R – É.

P/1 – E os seus filhos, todos moram aqui?

R – Todos moram aqui no Rio.

P/1 – Aqui. E moram todos no Morro dos Prazeres?

R – Não, só mora a Rosa.

P/1 – Ah, só a Rosa.

R – O outro mora aqui comigo, aí na Rua _______ Felipe.

P/1 – Qual deles?

R – Geraldo.

P/1 – Geraldo.

R – É. E o mais velho mora em Caxias.

P/1 – Sei.

R – E um mora em Niterói, o José mora em Niterói.

P/1 – Sei. E a Eva?

R – Mora aqui também comigo...

P/1 – No escondidinho?

R – Aí... Não, lá no coiso, no _______ Felipe.

P/1 – Ah, tá.

R – Na chácara, na chácara. O outro mora em Niterói, um mora em Rio Comprido e um mora em Caxias. O meu mais velho mora em Caxias, esse que estou falando para vocês com 48 anos. _______ se eu falar, está falado.

P/1 – É, né [risos]?

R – Ele não levanta voz para mim não. Não dou essas confianças para eles não. Fui muito brava, uma mãe brava. Muita brava com vocês, mas foi bom, não foi?

P/1 – Educou todo mundo, né? Com a vida de dificuldades que vocês...

R – Dificuldade, eu sozinha para criar eles...

P/1 – A senhora sozinha com cinco filhos.

R – Cinco filhos...

P/1 – Numa época que não era fácil, né?

R – Não, era sim.

P/1 – Era mais fácil do que hoje, dona Hilda?

R – É, era.

P/1 – Era?

R – Ganhei muita coisa que as pessoas me davam. Só não ganhava cesta básica que, hoje em dia, tem cesta básica, você tem cesta básica, na escola tem comida para as crianças comer. No meu tempo, com os meus filhos não tinha, não tinha nada disso. Não tinha cesta básica, não tinha comida, não tinha nada. O que eu queria, se a minha patroa não me desse, tinha que tirar nos braços. Trabalhei muito, ralei muito para criar meus filhos, mas eu tenho uma vitória muito grande, que Deus me deu: sossego! Só o sossego que eu tenho, sou rica, eu sou rica! Eu não tenho questão de ser pobre não, não tem não, que eu vejo muito rico que não tem sossego.

P/1 – A senhora dorme tranquila, né?

R – Quando eu deito na cama, eu durmo tranquila. As minhas noras me respeitam muito...

P/1 – Isso é importante [risos].

R – As noras gostam muito de mim, tá?

P/1 – Agora, só para a gente ir finalizando, então, dona Hilda, em relação ao bairro de Santa Teresa, alguma... A senhora era católica, costumava frequentar igreja?

R – Era não, sou católica, sou muito católica. Qual você quer saber, qual a igreja que eu vou muito?

P/1 – É.

R – É lá na Lapa.

P/1 – Qual é a igreja?

R – É Igreja das Almas, vou muito nela.

P/1 – A gente vê uma fotografia onde a senhora aparece no casamento da dona Rosa com o seu José Antônio, que foi aqui na igreja.

R – Foi na igreja aí, da rua...

P/1 – Da Rua Áurea. A senhora lembra desse dia?

R – Lembro, lembro muito desse dia.

P/1 – Como é que foi o casamento da sua filha?

R – Foi muito bacana o casamento da minha filha, foi muito bacana.

P/1 – A senhora ficou feliz com esse casamento?

R – Eu fiquei, fiquei. Minha filha, _______, mas eu fiquei muito feliz. De vez em quando, eu brigo com ele, ele ficou quietinho. Eu brigo, eu brigo com ele, eu brigo... Às vezes, eu acho que ele... Um dia, eu cheguei lá no ponto do ônibus, ele estava lá com a namorada lá, eu cheguei, falei: ________. Deu vontade de voar nele. Me deu vontade de voar nele mesmo! Ele estava assim, conversando: “A senhora não pode fazer isso, que não tem nada a ver, é amiga.” Eu falei: “Eu não quero saber de amiga não. Você está me devendo, você está me devendo”. Eu falo isso na cara dele: “Você está me devendo, tá?”. Falo. Ah, mas ele ficou danado. Aí ele foi lá para onde que o meu filho trabalha: “Pois é, dona Hilda, foi me chamar atenção no meio...” Eu disse: “Chamo em qualquer lugar! Chamo! Você está me devendo”. “Não, não tem nada a ver com isso.” ________. “Só vi lá, falei e está falado. E não estou arrependido de falar nele não”. Não tenho mesmo.

P/1 – Ele está devendo o que, dona Hilda?

R - _______ arruma mulher e fica fazendo hora _______ eu não gosto. Eu não gosto porque ele falou comigo:  “Que se não casasse com ela, matava ela”. Por isso que eu falei: “Você está me devendo”. “Se eu não casar com ela, não caso com mais ninguém, eu mato ela”. Eu falei: “Você vai casar, mas você vai dar valor a minha filha”. Eu tinha medo, eu morava no morro. Eu tinha medo dele fazer algum mal a minha filha. Aí, eu deixei casar. Agora, se ele fazer hora com a cara dela, eu brigo mesmo. Eu não quero nem saber, estou brigando em qualquer lugar.

P/1 – Naquela época tinha esse tipo de coisa? Quer dizer, um pouco essa... Tinha essas...

R – Não, tinha, mas era mais oculto, né?

P/1 – Mais oculto, né?

R – Tinha essas coisas, mas é mais oculto. A gente não pode falar que ninguém prejudicava a gente, né? A gente não pode falar que ninguém nunca me prejudicou. Eu morei muito…. eu morei 18 anos aqui dentro. Ninguém nunca me _______, todo mundo me tratava bem, tratava os meus filhos. Se visse eu com peso: “Ô tia, deixa que eu carrego isso aí para a senhora”.  Levava. Como é que eu vou reclamar das pessoas?

P/1 – Quer dizer, tinha uma... Tinha uma boa vizinhança...

R – Era bons vizinhos que eu tinha.

P/1 – Vocês eram colegas?

R – Tudo colega, tudo colega da gente. A gente podia misturar as coisas com coisa. Então não tinha nada a ver, não prejudicava a gente em nada, _____ respeitava muito a gente no morro...

P/1 – Vocês se ajudavam? Quer dizer, tinha essa relação de vizinho que emprestava alguma coisa?

R – Emprestava.

P/1 – É?

R – Um emprestava. Quando não eram as coisas, você: “Hoje não tenho assim, assim.” “Eu também não tenho, mas a senhora quer o dinheiro para eu poder ajudar a senhora? Depois a senhora me dá”. Eu pegava o dinheiro, às vezes eu comprava as coisas. Outra hora, se eu tivesse... “Eu não tenho assim não”. Se eu tivesse, eu emprestava.

P/1 – Mas para quê? Comida, por exemplo?

R – Para comprar qualquer coisa que quisesse. O dinheiro, o que era para comprar, eu emprestava. Eles também, seu eu precisasse, eles me emprestavam. Assim, às vezes, um quilo de arroz, um quilo de açúcar... “Tem para me arrumar?” “Tem, pode levar que eu tenho”. Era muito bacana, a gente era muito bacana no morro. A gente era muito amiga. Quando eu mudei ________ minhas colegas, que todo vida, eu morei, eu morei perto. Morei aí na Lapa, mas sempre eu vim aqui, sempre eu parei para cá, sempre para cá, com a minha filha ficou aí, né? Eu mudei, ela ficou. E os meus filhos _____, todos solteiros. Só tinha casado ela, a Rosa e o Adão. O resto todos solteiros, os três. Aí, eu mudei para a Lapa.  _____ ficar sozinha, só com a outra menina. Depois eu fui andar atrás dos meus filhos. Eu não vou embora por causa dos meus filhos. Eu vou se eles... “Só se a senhora for sozinha, nós não vamos. A gente tem que ficar aqui, que aqui que tem lugar para trabalhar.”

P/1 – Mas a senhora chegou a pensar em voltar para Minas, por exemplo?

R – Eu tive vontade de ir embora, eu tive. Não adiantou, não adianta. Não dá para morar lá não, porque eu vim para cá porque eu estava criando eles. Se eu for ficar, não criava eles não, menina! Que aqui, todo mundo me deu uma força, aqui serviço tem demais. Não trabalha quem não quer, quem não quer trabalhar. Eu trabalho direto, eu trabalho de noite.

P/1 – É?

R – Eu vendo cerveja, quinta, sexta e sábado na Lapa.

P/1 – Aonde?

R – Na Lapa. Vendo a noite todinha.

P/1 – Onde tem aqueles barzinhos ali perto do Circo Voador, por ali?

R – Por que você não vê? Não tem show ali?

P/1 – Tem.

R – E eu vendo naquele show que tem ali, naqueles shows que tem ali, eu vendo todinho. Sempre que tiver briga, estou lá, se não tiver, eu estou lá, tiver chuva eu estou e trabalho direto. Trabalho quinta, sexta e sábado a noite todinha. O meu horário de eu sair é cinco, cinco e meia, seis horas. _______ sete horas, saio cinco, seis, ___________ direto [risos].

P/1 – Agora, em relação... A senhora contou, então, que não tinha água. Água, vocês pegavam, cozinhavam com querosene. Luz, e luz não tinha no morro também?

R – Luz, eu tinha.

P/1 – Tinha?

R – Toda vez eu tinha luz.

P/1 – Sempre, é?

R – Sempre teve luz. É água que faltava muito. Eu não sei, por quê? Por que é que faltava?

P/1 – Não sei. O abastecimento da cidade aqui era ruim, precário, era difícil, né?

R – Era muito difícil. Às vezes, passavam 20 dias sem receber uma gota de água no morro. Algumas certas pessoas conheceu a ideia _______ de tanto que nós carregamos água. Agora, está no céu, _____ tem água à vontade.

P/1 – Agora tem, né?

R – Eu lavava roupa até __________ da semana. Lavava sábado, domingo e quando dava segunda-feira para os meninos saírem para a escola, para trabalharem, tá? E eu também _____ para trabalhar.

P/1 – Agora, sobre os seus filhos aqui, eles brincavam onde? Eles brincavam, não tinha...

R – Não tinha nada.

P/1 – Não tinha.

R – Não brincava nada. Eles iam muito... O mais velho ia muito é para o cinema, ele gostava de ir para o cinema, o meu filho mais velho. Agora, os outros, os pequenininhos, não. Ia para a feira, como é que eles iam brincar? Sábado e domingo, eles iam para a feira. No meio de semana, eles iam trabalhar. Eu tenho Inps [Instituto Nacional de Previdência Social] pago do meu filho mais novo. Eu tinha do mais velho, o mais velho casou, fiquei com o mais novo. Eu tenho Inps do meu filho, que eu tratava pelo Inps dele. Ele tinha 13 anos, o meu mais novo, Geraldo. 13 anos que ele começou trabalhar. Ele estava com 13 anos de carteira assinada.

P/1 – Hoje, qual é a profissão dele? Ele trabalha...

R – Ele trabalha nesse negócio... Como é que fala? De matar cupim, como é que fala isso?

P/1 – Ah, empresa de “descupinizar”.

R – É. Como é que fala aqui? É...

P/1 – “Descupinizar”, para matar cupim.

R – É, é trabalha nesses prédios assim.

P/1 – Ah, sei, “descupinizar”.

R – É, trabalha nisso aí.

P/1 – Agora, a senhora lembra do período em que o Casarão serviu como posto de saúde e como escola? A senhora lembra dessa época?

R – Esse aqui?

P/1 – É.

R – Não lembro.

P/1 – A senhora lembra mais do período que era dos padres, você chamava “Dos Padres.”

R – É, lá na Igreja dos Padres. “Vamos passear lá na Igreja dos Padres”. Agora, eu vou...vir casarão aí __________, “tá bom.”

P/1 – Nós estamos fazendo entrevista aqui, no segundo andar do Casarão, a senhora subia aqui, nesse andar, nessa época?

R – Não, nunca subi aqui não.

P/1 – É a primeira vez que a senhora está subindo?

R – É a primeira vez que eu venho aqui em cima, é a primeira vez...

P/1 – Quer dizer, a missa era embaixo?

R – Era só lá embaixo.

P/1 – Como é que era mais ou menos?

R – Tinha o altar lá e a missa lá, todo mundo assistia a missa, o altar era nesse cantinho aqui.

P/1 – O altar era no térreo, para baixo?

R – É, é aqui embaixo. E agora virou Casarão [risos]. Perguntava, o _______: “Cadê a _____?”. “Ela está lá, foi lá na Igreja dos Padres” [risos]. Que era antigo, pode perguntar para qualquer um.

P/1 – Muita gente fala isso, se refere a isso.

R – É, a Igreja dos Padres.

P/1 – Igreja dos Padres.

R – É, _______ dos Padres.

P/1 – Tá, agora sobre Associação de Moradores, a senhora se lembra quando foi fundada, os rapazes que fundaram essa associação? Não, né? Aliás, a fundação foi antes da senhora chegar. Foi em 1962, a senhora chegou em 1969, né?

R – 1969.

P/1 – Tá. Bom, agora então, para finalizarmos, dona Hilda, eu queria perguntar uma coisa para a senhora: se a senhora pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória da sua vida, a senhora mudaria alguma coisa?

R – Ficar nova, né [risos]? Voltar a ficar nova de novo, não dá mais para ficar. O resto está tudo bom, tudo bem.

P/1 – Algum sonho que a senhora...

R – Ah, sonhei, sonhei muito, mas não deu certo o meu sonho. Sonhei muito, sonhei muito alto. Eu queria muito era o meu Inps. Isso aí eu queria sim, parar de trabalhar um pouco. Estou cansada. Isso aí eu queria sim, o meu Inps. ________, estou pagando o Inps, agora diz que foi para 40, né? Eu pagava 36, 40 ______.

P/1 – É, aumentou. Parece que vai aumentar agora.

R – Ah, aumentou o salário, diz que é 200, né?

P/1 – O salário mínimo, a partir de ___ de abril...

R – Pois é. Eu estou doida para me aposentar e eu pago Inps. Eu tenho que trabalhar muito, não tem?

P/1 – Tem, a senhora trabalhou muito já...

R - _________.

P/1 – A senhora ainda tem que trabalhar muito, né?

R – É. O meu Inps eu preciso muito.

P/1 – Mas se Deus quiser, vai conseguir.

R - __________ aposentar, para descansar ____ descansar. Estou muito cansada, muito cansada.

P/1 – Se parasse de trabalhar, o que a senhora faria? O que a senhora gostaria de parar de trabalhar para poder fazer... Ter tempo para que?

R – Ah, nem sei. Trabalhar um pouquinho, ficar ______ não pode não. Tinha que trabalhar um pouquinho, cuidar mais dos meninos...

P/1 – Meninos são os netos?

R – Meus netos. Os netos que moram comigo, eu tenho que cuidar. Não moram comigo? Eu tenho que cuidar. Já tem uma, está com 23 anos, agora tem dois. Tem um de dez e um de nove que é filho da minha filha, que ela tem defeito no braço, que é irmã dela, que ela fala, né? Mas eu ajudo muito ela por causa dos meninos.

P/1 – Ela quem? A Eva?

R – A Eva tem defeito no braço, ela tem defeito, por isso que eu ajudo os meninos dela. E ela vai para a casa de saúde, que ela tem pressão muito alta. Aí, eu ajudo. O que eu posso fazer, eu faço. O que eu não posso, eu não vou fazer, né? Mas eu ajudo muito ela, mas ela tem defeitos. Ela só faz as coisas com esse braço direito. Com esse aqui, ela não faz nada. Já esqueci, __________.

P/1 – O que a senhora acha dessa vista maravilhosa que a gente tem aqui, no Morro dos Prazeres, em qualquer lugar que a gente olha, tem uma vista bonita.

R – Mas é muito gostoso, né? É isso que me deixou paixão. Isso daí me deixou muita paixão _______, muita paixão. Para mim foi bom, que eu não aguento ficar subindo isso aqui mais. Não aguento não. De vez, eu venho aqui na casa Rosa, eu subo muito cansada. Ah, eu estou velha, uma mulher de 65 anos não está velha? 60 que eu estou contando, fora os dias, os meses que o papai, os anos que o papai enterrou. Se ele não tivesse enterrado, eu aposentava pela idade, não era pelo meu tempo de casa não. Eu aposentava, de 67 anos, qualquer um ____. Mas eu não tenho...

P/1 – Mas vai conseguir, dona Hilda, eu tenho certeza. Bom, o que a senhora, então, achou de ter participado assim, contando um pouquinho da sua história nesse casarão?

R – Gostei, gostei. Precisando de mim, eu estou aí, se eu puder buscar os papeis de novo, eu vou buscar mesmo, se eu pudesse falar com _______, vou trazer. O que eu puder trazer de lá, vou trazer do meu pai...

P/1 – Fotografias.

R – Do meu pai tem na casa em Belo Horizonte, Belo Horizonte, mas eu vou trazer do meu pai, da minha avó, do meu avô, dos caboclos e dos padres na casa deles.

P/1 – Está bom. Então, eu agradeço, então, a sua contribuição. Muito obrigada, dona Hilda.

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