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História

Caminhando por estantes

História de: Evandro Affonso Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

O escritor Evandro Affonso Ferreira nasce na cidade de Araxá, em Minas Gerais, e enfrente grandes guinadas ao longo de sua vida . Vai para Brasília quando criança após uma situação de falência em sua família e cresce na recente capital brasileira após seu estabelecimento no comércio da cidade. Aos dezoito anos parte para São Paulo. Uma prisão realizada por órgãos de repressão da ditadura militar, logo antes do nascimento de sua filha, lhe rende alguns traumas. Casa com sua esposa após uma tentativa de suicídio dessa, passando quarenta anos em um casamento difícil, rodeado por brigas e álcool. Passa a trabalhar em sebos e livrarias de São Paulo onde frequenta círculos literários como o “Geração 90”. 

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História completa

P/1 – Bom dia, Evandro.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Para a gente começar a nossa entrevista, você pode começar me dizendo o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome é Evandro Affonso Ferreira. Nasci no dia dezesseis de abril de 1945, em Araxá, em Minas Gerais.

 

P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Geraldo Alves Ferreira e minha mãe Celeida Affonso Ferreira.

 

P/1 – Eles são de Araxá também?

 

R – Minha mãe nasceu em… (pausa)

 

P/1 – Vamos lá, retomando. Você me disse o nome dos seus pais...

 

R – Sim. Geraldo Alves Ferreira e Celeida Affonso Ferreira.

 

P/1 – E ambos eram de Araxá?

 

R – Não, meu pai nasceu em Araxá e minha mãe nasceu em Sacramento. Uma cidade vizinha.

 

P/1 – Perto de Araxá?

 

R – É, vizinha de Araxá.

 

P/1 – Qual é a atividade profissional deles?

 

R – A minha mãe era dona de casa e doméstica. O meu pai era jornalista correspondente do Estado de Minas e nas horas vagas vendia as coisas. Vendia carro usado, vendia um monte de coisas. Vivia fazendo negócios. Era um péssimo negociante. Ele comprava um carro por dois mil reais e vendia por mil e duzentos. Era um péssimo negociante. Eu acho que eu herdei isso dele.

 

P/1 – Me conta um pouco mais dessa figura do teu pai. Ele ser jornalista e ao mesmo tempo negociante. Isso era um bico ou algo para gerar uma renda extra?

 

R – Na verdade ele não ganhava nada como jornalista porque ele era correspondente de jornal do Estado de Minas. Mas ele vivia mesmo era de vender, revender as coisas, e de expedientes. Gostava muito de ler. Acho que é isso que eu puxei dessa parte dele. Lia muito. Ele tinha uma biblioteca que tinha uma frase que eu nunca mais esqueci. Ela dizia que "somente aqueles que têm biblioteca sabem o quanto é desagradável emprestar livros."

 

P/1 – Muito bom. Você tem irmãos?

 

R – Tenho. Nós somos em quatro irmãos. Uma irmã morreu recentemente, há dois anos atrás, de AIDS. E até suscitou um livro, que é o Zaratempô. Sofri muito na época que ela morreu. Eu quis conversar com ela, entre aspas, e escrevi uma carta. Essa carta foi se transformando em um livro. Que é o meu penúltimo livro, Zaratempô!. Eu sou o segundo. Tem uma irmã mais velha. É uma escadinha, cada ano ia nascendo. Nós vivemos os primeiros dez anos em Araxá, depois fomos para Brasília. Então eu costumo dizer que ao contrário do Drummond me… (pausa)

 

P/1 – Vamos lá, Evandro. Retomando aqui, você estava comentando de Brasília, da tua mudança.

 

R – É, eu estava dizendo que nós saímos de Minas. Eu saí com dez anos de idade, fomos para Brasília. Meu pai montou uma loja de calçados em Brasília. Eu fui um dos primeiros estudantes de Brasília. Existia nos anos 1960 o souvenir, que tinha uma foto, eu estava no meio. Um dos primeiros estudantes de Brasília. Estudei no Colégio Dom Bosco. Estudei entre aspas, porque eu fiz até o quarto ano primário, depois fugi da escola. Nunca mais estudei. Sou autodidata ou, como diria o Mário Quintana, sou ignorante por conta própria. Mas o fato de ter saído para Brasília com dez anos... Eu costumo dizer que Minas é o contrário de Drummond. Minas para mim é apenas um retrato na parede, não dói nada.

 

P/2 – E por que motivo foi que seus pais se mudaram para Brasília?

 

R – Bom, mudança por motivo de falência. Meu pai não tinha dinheiro, a situação estava péssima. Meu pai tinha um irmão que era prefeito de Anápolis, cidade de Goiás. Ele tinha uma loja de calçados em Anápolis e propôs para o meu pai: "Vamos montar uma filial no Núcleo Bandeirantes? Cidade satélite de Brasília." Então meu pai topou e nós fomos para lá. Fomos, mas no segundo ou terceiro ano pegou fogo na loja, porque era tudo madeira. Essa cidade satélite, o Núcleo Bandeirantes, era todinha de madeira, e aquele calor infernal. Era interessante porque quando chovia era aquele barro, parecia uma cidade de faroeste. A gente via o Juscelino atravessando a rua, assim, de bota. Era uma aventura, uma aventura. Fomos para lá em 1956, Brasília foi inaugurada em 1960, e ali começou a minha vida. Primeira namorada, primeiro cigarro, primeira mulher. E em Brasília eu morei até os dezoito anos de idade. Trabalhei na Novacap, que era a prefeitura de Brasília, cujo presidente era o Israel Pinheiro, e vim para São Paulo.

 

P/1 – Certo. Eu queria que você retomasse um pouco do seu período escolar em Brasília, como é que foi? Você ia para as aulas…

 

R – Meu período escolar gira em torno dos quatro primeiros anos primários em Araxá. Era um período fértil. Era um período em que a educação no Brasil era risonha e franca. Era infinitamente melhor do que é hoje. Eu, com os meus quatro anos primários, sabia declinação em latim. Eu sabia falar de uma a cinquenta em francês. Quer dizer, hoje eu conheço muitos, tenho muitos amigos universitários que não sabem a metade do que eu sei. E que eu aprendi até o quarto ano primário. Quer dizer, o país está em total falência educacional. Basta saber que o Joaquim Nabuco foi deputado. E ele ia para Paris, ia para Roma assistir peças e lia Dante no original. Vê se algum deputado... Hoje um deputado não lê Rubem Fonseca no original. Então piorou muito, o país piorou muito. Mas é isso, não temos nada com isso não. Nosso problema é outro. Nosso problema é literatura.

 

P/1 – Toquemos em frente. E eu queria saber melhor, você comentou... Como é que eram as suas brincadeiras de infância, então?

 

R – Na minha infância em Minas Gerais eu jogava pião, brincava de botão, jogo de botão, trocar figurinha, jogava bola. Eu fui um bom jogador de futebol. Eu fui uma espécie de Tostãozinho da minha cidade. Eu jogava no melhor time da cidade, cujo técnico eu nunca mais esqueci o apelido – era Beijo. Eu não sabia por quê. Era um sujeito aleijado e ele formou um time. A gente jogava nas cidades vizinhas. E meu pai odiava, odiava. Ele detestava que eu jogasse bola. Ele queria que eu fosse advogado. Era o sonho dele ser advogado. Tanto é que meu nome Evandro, é por causa do Evandro Lins e Silva. Ele tinha um fascínio por advocacia. E eu adorava jogar bola, então eu jogava bola escondido. Eu ia de sapato e de meia, tirava o sapato e a meia. Jogava descalço. Depois lavava os pés e voltava. Mas às vezes ele desconfiava, me batia com vara de marmelo. Uma vara assim que doía para burro. E eu, o meu sonho era jogar bola. E fui um bom jogador. E aí joguei bola até uns onze anos de idade. Depois fomos para Brasília, e em Brasília a minha vida mudou. Em Brasília eu estudei, na verdade, até a admissão ao ginásio. E aí a vida começa a se despertar.  Eu começo a tomar umas cervejinhas logo cedo, a fumar. Então com doze, treze anos eu já tomava cerveja, já fumava. E já não jogava mais futebol. Aí que eu comecei a me encantar por outras coisas, com namoradinhas etc. Então meu mundo futebolístico foi até onze anos de idade, lamentavelmente.

 

P/1 – E você vive uma transição então? Com doze anos você já não era mais criança, por assim dizer.

 

R – Já não era criança, trabalhava com meu pai na loja. Meus irmãos ajudavam meu pai na loja e eu estudava. Passava a manhã inteira no colégio, estudando, brincando, nessa admissão ao ginásio. E fiquei um ano. Depois larguei e fiquei só trabalhando na loja. Depois eu me desencantei com a loja e fui trabalhar na Novacap, que era a prefeitura de Brasília.

 

P/2 – Quantos anos?

 

R – Eu tinha treze, catorze anos. Depois eu entro para o banco. E foi minha carreira, deu início à minha carreira bancária. Eu trabalhei dez anos, doze em banco, e o desfecho da minha carreira bancária foi tenebroso. Foi em São Paulo. Aos dezoito anos eu mudo para São Paulo e vou trabalhar em um banco, porque eu vim transferido para cá. Banco Auxiliar de São Paulo. Era um banco do grupo da CICA [Companhia Industrial de Conservas Alimentícias]. Trabalho quatro, cinco anos em São Paulo. Nesse período eu já havia me casado, minha mulher estava grávida de oito meses e eu era chefe do expediente. Naquela época chamava-se expediente. É você entrar no banco. Todo mundo que você vê ali no banco, chama-se expediente: caixa, atendente etc. E eu tinha autonomia de vôo. Eu autorizo o pagamento de um cheque de trinta mil reais, porque naquela época a gente tinha muita prática. Não precisava olhar a assinatura. Você já convivia tanto com a clientela que você via um cheque seu, olhava e autorizava o pagamento. Esse cheque era falso. E nesse período, coincidentemente eu ia sair de férias. Volto no dia seguinte ao banco para assinar os papéis e tem dois brutamontes me esperando no balcão. Dois policiais do DEIC [Departamento Estadual de Investigações Criminais] me esperando. Eu me aproximo do balcão o sujeito diz: "O Evandro é esse aí." Ele diz: "Evandro, você quer nos acompanhar?" Eu disse: "Por quê?" "No carro nós vamos conversar melhor." E eu passo seis horas com eles dentro do carro andando pela cidade com eles dizendo: "Você vai nos contar? Quem mais faz parte da quadrilha, etc?" E eu dizendo: "Eu não faço parte de quadrilha nenhuma." E essa era na época da repressão. Um período terrível. E eu começava a dizer que eu não estava me importando com dinheiro, que eu tinha um ideal etc. Aí que complicava mais ainda: "Ah, bom, então você está juntando dinheiro para algum aparelho. Você é comunista." Bom, resumo da ópera: fiquei trinta horas no DEIC, fiquei preso. Minha família não sabia onde eu estava. Minha mulher grávida de oito meses. E meia-noite, duas horas da manhã, abre a cela e entra um negro, todo ensanguentado, todo suando. Esse negro era um bandido que se chamava Pelezinho, que no dia seguinte ele morto pelo Esquadrão da Morte. Então ele passou ali, do nosso lado. Conversei uma hora com ele, mais ou menos.

 

P/1 – Conversaram, como é que foi?

 

R – Conversei, mas não lembro bem. Conversou. Eu sei que era uma figura forte, um sujeito de fibra, de opinião própria etc. E ele não estava nem um pouco gemendo. Ele tinha saído do pau-de-arara. E no dia seguinte eu fui solto porque meu pai recorreu a um parente que era professor do Rio Branco, que falou com o delegado geral de Polícia e me encontraram lá no DEIC. Então assinei uns papéis e tal. Mas eu fiquei, nesse período, um ano sendo vigiado. Criou-se uma paranóia danada. Eu tinha medo de comprar uma camisa, porque eu ficava preocupado, dizendo que "poxa, eu comprei uma camisa eles devem estar pensando: 'Pô, ele está começando a gastar o dinheiro.'" E nasce a minha filha. A minha mulher estava grávida de oito meses e pouco. Nasce a minha filha. Um ano depois descobrem a tal quadrilha. E meu pai, meu irmão foram ao banco, xingaram o presidente. Ele escreveu uma carta etc. Ficou por isso mesmo. E eu me desencantei com banco, fui trabalhar em agência de propaganda. Trabalhei vinte, dezoito anos como redator publicitário.

 

P/1 – Deixa eu retomar. Isso em que ano? O caso do cheque foi em...?

 

R – O cheque já foi em 1975, por aí.

 

P/1 – Você estava em Brasília?

 

R – Eu sou muito ruim para datas.

 

P/1 – Não tem problema. Aproximadamente.

 

R – Sou péssimo. Em 1975.

 

P/1 – Certo.

 

R – Eu tinha 22 anos, 23.

 

P/1 – E você estava em Brasília, no caso?

 

R – Estava em São Paulo.

 

P/1 – Estava em São Paulo. Já trabalhando...

 

R – Tudo isso, a prisão... Tudo aconteceu em São Paulo. Em Brasília eu fiquei até os dezoito anos. Na verdade, em Brasília, quando eu tinha meus catorze, quinze anos, meus pais e meus irmãos mudaram para São Paulo. Eu não quis ir para São Paulo. Eu fiquei sozinho em Brasília. Dos catorze aos dezoito anos. Morava lá no Núcleo Bandeirantes. E eu me lembro que teve um período, tinha uns quinze anos, em que eu morava em um quartinho de madeira. E no fundo tinha um terreiro de macumba. Então às vezes eu acordava onze horas, meia-noite… Aqueles atabaques, aquela barulheira danada, e eu não conseguia dormir direito, porque tinha uma macumba brava lá. E fiquei até os dezoito sozinho em Brasília. Então venho para São Paulo morar com os meus pais e encontro a minha futura mulher. Ela era vizinha, jovenzinha. Se apaixona por mim, mas eu não quis no começo. Vivia tomando as minhas cachaças. E ela tenta se matar. Ela toma trinta, quase trinta comprimidos. A mãe interna no hospital de loucos. Eu fui visitá-la. O médico me chama em um canto, um psiquiatra. Falou: "Amigo, está nas suas mãos. Porque ela é louca por você, apaixonada por você etc." E começou um casamento que foi, de certa maneira, mal sucedido porque começou errado. Mas, eu bêbado, ia passando. Fomos vivendo. Vivemos quarenta anos. Nesse mês nós estamos nos separando, mas vivemos quarenta anos, aquele acomodamento. Você, o boêmio, precisa de um porto seguro, então eu bebia e voltava para casa. Tive uma Amélia verdadeira por quarenta anos, que me aguentou quarenta anos. De fato, na realidade, me aguentou 25, depois eu parei de beber. Depois de 25 anos de bebida eu tenho um infarto, vou para a UTI, fico trinta dias no hospital. Opera, não opera. Vai viver, não vai viver. Aqui no Instituto do Coração fiquei dez dias na UTI, depois eles resolveram me operar. A partir daí eu opero o coração, não bebo mais e não fumo mais. Virei um monge trapista, comecei a ler. Eu não lia, vivia nos botequins falando, discutindo Marx. Discutindo todo mundo sem ter lido um livro. Lia uma orelhinha e ficava ouvindo, era um bom ouvinte. Era uma espécie daqueles aedos lá do Homero: o cara contava uma história, eu reproduzia. Tive a sorte, o privilégio aqui em São Paulo, de conviver com muita gente interessante perto do Teatro de Arena, ali no Redondo. Então conheci Guarnieri, conheci João do Vale, conheci Zé Keti, conheci Plínio Marcos, e conheci muitos jornalistas, muitos teatrólogos. E ficava ouvindo. Eu tinha amigos que liam muito Machado de Assis, eu ficava perguntando. Outro lia Graciliano Ramos, então eu sabia da história de Vidas Secas, por exemplo, sem nunca ter lido Vidas Secas. Encontrava um amigo socialista e ficava perguntando: "Quem é esse tal de Marx? Quem é esse tal de Engels?" Eles ficavam falando. Tinha um amigo carioca, um jornalista, que ele sabia tudo de Dostoiévski, então eu ficava ouvindo sobre Dostoiévski. Então eu sabia muito de literatura de ouvido. Não lia, dava preguiça. Vivia de ressaca, não tinha paciência para ler. E a partir do momento em que opero e vou para casa, não sabia o que fazer, então começo a ler. Vou lendo, lendo indistintamente, lendo de tudo. Sem critério, sem nada. Esse é o critério do autodidata: você vai aprendendo. É aquilo que o Mário Quintana fala, eu acho ótimo, quer dizer: "O autodidata é ignorante por conta própria."

P/1 – Eu queria retomar, a gente está falando de leitura, você comentou um pouco das outras leituras. Eu queria retomar um pouco, voltando bastante, o teu primeiro contato sério com literatura e que te interessou. Onde você encontrou o livro? Ainda jovem?

 

R – Eu encontrei um livro em Brasília. Nessa época tinha, aos catorze ou quinze anos, um colega – não me lembro exatamente quem e se era lá da prefeitura em que eu trabalhava – que era comunista. Ele me deu um livro: Geopolítica da Fome, do Josué de Castro. Depois ele me deu Os Subterrâneos da Liberdade, do Jorge Amado. Livro comunista, tudo. Eu lia, não entendia nada, achava diferente. E me lembro desses dois livros. E acho que eu cheguei a ler um ou outro livro do Drummond, mas não entendia nada não. De maneira que eu fiquei até os 35 anos sem ler. Lia jornal. Eu ficava é ouvindo, bebendo e ouvindo as pessoas, catando tudo no ar. Quer dizer, eu era um bom ouvinte. E teve um período, quando eu tinha 29, trinta anos, que eu discutia com todo mundo sobre tudo e não tinha lido nada. E era um período meio falacioso, um período de muita mentira. Porque você vivia nos bares, você falava que era de esquerda, era bem recebido e ponto final. Não precisava saber. O sujeito podia ser um idiota, um imbecil, mas era um mundo em que você era de esquerda ou era de direita, não tinha meio termo. Ou você era contra a ditadura ou a favor da ditadura. Então era um balaio de gato. Eu frequentava bares frequentados por intelectuais e eu vivia. De repente eu estava na mesa com cineastas, com escritores. Eu era bem recebido, porque você tinha um discurso de esquerda e pronto. Nessa eu fui malandramente convivendo com um monte de caras interessantes e aprendendo, aprendendo. E a partir do momento em que eu comecei a ler eu já tinha uma bagagenzinha interessante, de tanto ouvir. Óbvio que é diferente, depois, você lidar com a palavra propriamente dita, ela escrita.

 

P/2 – Quais foram as suas surpresas, decepções e alegrias, depois que você passou da palavra contada para a palavra escrita? Como foi isso?

 

R – Por exemplo, Jorge Amado contado era interessante. Na hora de ler achava uma porcaria. Graciliano Ramos o contrário. Contado era banal: "Ah, uma família de retirante que vem, morre papagaio, morre não sei o quê. E morre o Fabiano, e morre isso, morre a Baleia, a cachorra." Nada interessante. A hora que você tem o contato com a palavra, com a forma do Graciliano Ramos, você vê o quanto ele é gigantesco, o quanto ele é maravilhoso. Acho que o melhor escritor brasileiro de todos os tempos, para mim, é Graciliano Ramos. Não é Guimarães Rosa, não é Machado de Assis. Esse sabe tratar a palavra com carinho de cabo a rabo. Todo livro dele é bem feito, bem escrito. Esse levava a forma a sério. Porque o Guimarães você vai do Grande Sertão: Veredas, o maior romance brasileiro, na minha opinião, mas tem muita coisa chata. Muita. O Graciliano não, ele segura o tempo todo. Ele é linear. Esse foi uma surpresa agradável que eu via e não achava lá tão interessante nada. Mesmo porque eu costumo dizer que qualquer porteiro de prédio de São Paulo, que de um modo geral é nordestino, tem histórias maravilhosas para contar. Mas quem vai escrever isso? É o Graciliano Ramos. Porque história... Todo mundo tem história boa para contar. Todo mundo tem algo interessante. O Museu que está aqui prova isso: todo mundo tem uma bela história para contar. Escreva isso. Escreva isso como São Bernardo, escreva isso como Vidas Secas. Como Insônia, como Infância. Então eu, de um modo geral, como escritor não dou muita bola para  história. Eu, particularmente, privilegio a forma. A história, o narrador é meu cavalo, como se diz na macumba. Eu subo em uma história só para ela me conduzir ao meu show, entre aspas, de palavras e forma propriamente dita. Meus livros, acho meus livros muito chatos por causa disso. As histórias estão em quinto plano. Eu quero é dar o meu showzinho particular. E estou pouco me lixando para o leitor. Uma coisa antipática, eu sei que é. Mas eu não dou bola para o leitor não. Complico cada vez mais para o leitor ficar chateado. Tem leitor que não passa da décima página do meu livro. E eu considero isso um elogio. O que na opinião do Bosi é uma coisa estúpida, porque a literatura é encantamento. Você quer, então eu acho que eu sou o anti-escritor, o anti-literário. Deve ser uma vingança do meu autodidatismo. Como eu não estudei, eu não tenho uma cultura bem estruturada, quero me vingar fazendo livros chatos, complicados.

 

P/2 – E consegue, os leitores?

 

R – Consigo. Eu tenho uns quinze, vinte leitores, só que são mais chatos do que eu. De um modo geral nem parentes, nem nada, olha: "Vai cara, eu não consegui passar da décima página do teu livro. Que livro chato, eu não entendi nada. Um monte de palavra esquisita." É a minha vingança, eu digo: "Ôpa, venci. Consegui atingir meu objetivo."

 

P/1 – Eu queria que você comentasse um pouco em relação ao seu processo para escrever. Tem um dia que você acorda inspirado? Como é que funciona?

 

R – Não, não tem. É aquilo que nós estávamos falando com relação à publicidade. Isso é uma coisa que eu aprendi na propaganda, que a propaganda você não tem que ter inspiração, não tem que ter nada. Você tem um job. Você chega na agência e tem lá um pacote de envelopes, eles chamam de job, que é o envelope de trabalho. E está lá. Você abre o primeiro envelope, está lá: "escrever sobre melancia, sobre parafuso," não sei o quê lá. Tem uma campanha assim, assim. Você vê o briefing e começa a escrever sobre parafuso. No dia seguinte você escreve sobre banco. No outro dia você escreve sobre margarina. E não tem que ter inspiração coisa nenhuma. Você tem prazo para entregar: "Olha, amanhã às catorze horas tem reunião na Honda. Tem dez japoneses esperando vocês lá para apresentar a campanha. Amanhã às catorze horas. Se vira." Você não tem inspiração. Isso aí é bobagem. Você tem que fazer e acabou. Faz, rasga, discute, vai de novo. Faz, não está boa, você refaz. Então isso de certa maneira me deu uma  bagagem para a literatura. Então eu, com a literatura faço o seguinte: eu termino um livro. Passa um mês, dois meses, me dá vontade se eu estiver lendo um livro muito interessante. Sempre que eu estou lendo um livro brilhante me dá vontade de escrever. Então eu começo a ler um livro, da quinta página eu falo: "Puxa, me deu uma vontade danada de escrever." Aí eu vou para o computador. Se eu já comecei o livro eu dou andamento, obviamente. Mas se eu não comecei nenhum livro, o que é que eu faço? Eu tenho uma técnica, que eu não sei se outros escritores fazem isso. Eu faço. Eu falo: "Vou começar um livro." Eu boto um título provisório, uma epígrafe, dedico o livro a alguém e ponho assim: "Capítulo Um." Para mim já comecei o livro. Então é uma maneira de dizer assim: "Comecei um livro." Então eu vou criando a primeira frase. E eu não sei o que é que é. Eu não tenho a menor idéia do que é que é. Ou imagina, uma mulher vai falar. Pronto, aí começa: "Fulano de tal ainda não chegou? Que diacho, não sei o que lá, não sei o que lá, não sei o que lá." E no meio dessa frase digo: "Bom, mas onde é que está essa mulher?" "Essa mulher está no hospício. Ela é velha." Aí a ideia vai surgindo através da forma. Eu primeiro estou preocupado com a forma. Eu vou fazer uma frase interessante, que eu vou achar interessante, a partir daí vai surgir uma ideia. Isso eu estou dizendo exatamente. Esse meu último livro, que é o Catrâmbias!, eu começo a escrever uma frase. Digo: "Bom, essa mulher está falando com quem?" "Em que lugar que ela está?" E surge a ideia: ela está em um hospício, ela tem setenta anos. Ela se interna no hospício por conta própria porque ela está com saco cheio do mundo que está aqui. Ela é muito culta. Ela é filha de um bicheiro. Ponto. Aí já falei: "Poxa, aqui..." "Mas quem está chegando?" "Ah, é o filho dela que está chegando." Então o filho, em um domingo, supostamente um domingo à tarde, e o filho está chegando. Filho de trinta e poucos anos, dentista. E ela é muito gozadora. Já começa o livro com ela gozando o filho, dizendo: "Ah, o que é que isso, não se preocupe. Não sei o quê lá..." E começa o livro. Quando eu começo o livro escrevo três páginas. Demoro para escrever três páginas. Porque eu fico mexendo naquelas três páginas. E rebuscando, lapidando etc. E aí eu começo o livro e não me preocupo mais. Digo: "Bom, já comecei um livro e pego a hora que eu quiser." Às vezes fico dois dias, um dia, meio dia, dez dias. Não me incomoda. Eu não tenho essa coisa, esse chamado processo que vários escritores têm. Que fica montando um livro na cabeça etc. Eu acho que os verdadeiros escritores eles têm isso mesmo, eles criam um negócio na cabeça etc. E vai formando...

 

P/2 – Mas você tem um processo, sim. Ele é diferente, mas não deixa de ser um processo.

 

R – Ele é diferente. Mas eu acho que esses grandes escritores, eles têm. Imagina, um Dostoiévski escrevendo o Crime e Castigo. Ele deve ter aquele Raskolnikov na cabeça todo. A personalidade do cara. Eu não tenho isso. Eu não crio personagem. Eu tenho um livro Araã!, que quase todo mundo diz que é um personagem maravilhoso etc. Mas que nasceu por acaso. Não é por acaso, acho que nasceu porque ele é uma imitação do próprio autor. Porque ele é um vendedor de enciclopédia, ele adora livros etc. Mas é um personagem que nasceu por acaso. Ele foi muito bem elogiado. A crítica de um modo geral falou bem desse personagem. Mas que foi por acaso. De um modo geral o personagem entra ali para me auxiliar na forma etc.

 

P/1 – Então você constrói uma literatura quase que estética? Estética da linguagem?

 

R – É, a estética. Tanto é que eu tenho um dicionário próprio de duas mil palavras que eu fui juntando ao longo de catorze anos. Eu me encantei pela primeira vez, entrei em um sebo e vi um dicionário qualquer, não me lembro qual. E vi uma palavra: bangalafumenga. Eu falei: "Ó, é uma palavra sonora." Depois eu descobri que é uma gíria carioca de cem anos atrás, ou oitenta. Aí eu falei: "Vou anotar." E comecei, peguei um caderninho, anotei a primeira palavra e fui anotando. Eu via uma palavra no Graciliano Ramos, anotava. Via uma no Guimarães... Todo mundo tem a mania, os críticos, de querer me enquadrar na família do Guimarães Rosa. Eu tenho, conheço um dicionário que fizeram a propósito da obra do Guimarães Rosa, não tem absolutamente nada a ver comigo. A minha preocupação é sonoridade da palavra. O Guimarães, ele criava palavras. E ele colocava palavras que os mineiros lá da região falavam. Então poderiam ser palavras feias, palavras esquisitas. Eu não. Eu me preocupo com a sonoridade. Eu sou, acho que, um músico frustrado. O meu negócio é o som. Então eu tenho duas mil palavras sonoras: araã, erefuê, catrâmbias, juruó, zoropitó. Tudo tem som. Bangalafumenga, bocó, brocoió. Agora, o que acontece na minha literatura também, que é uma coisa que pouca gente comenta, e a crítica raramente fala isso, é porque não tem muito crítico por aí. Tem resenhista. Não tem mais… O país não tem mais crítico. Tem resenhista. São garotões, jovenzinhos que ficam escrevendo sobre livro e mal lê o livro. Lêem três páginas, devem ler a orelha, lêem a quarta capa e escrevem. E vamos que vamos que o mundo está com pressa, entendeu? E quem é o próximo. Mas eu descobri uma coisa que é juntar palavras. Então, eu não contente em dizer assim: "O Fulano é louco." Eu digo: "O Fulano é zuruó." Mas eu não digo só zuruó. Eu descubro outra palavra que também quer dizer louco. Então zoropitó. Então eu digo: "Você é zuruó zoropitó." juntando já dá outro som. Vai multiplicando o som. Eu não digo que o cara é bobo, eu digo que ele é bocó. Mas não contente eu digo: "É bocó brocoió." E aí vai. Isso eu fui descobrindo, é um fetiche, tudo bobagem. Mas, de qualquer forma, tem som. Ao longo das páginas vai tendo som. Uma vez quem fez a orelha do Araã!, que era o Rodrigo Lacerda, que era editor lá da Cosac, escritor, belo escritor. Eu mandei o Araã! para ele, ele me ligou uma vez e disse: “Ó, Evandro, aqui está cheio de projetos, etc. Se você quiser esperar um ano, um ano e meio…” Aquela coisa de editor. "E eu estou dizendo…” Ele dizendo para mim, como escritor. “Eu acho que você deveria tirar o livro e partir para outra editora, que aqui vai demorar muito. Mas o que eu posso lhe dizer é que eu estou há três dias com o som do teu livro na minha cabeça.” Eu falei: “Pô, isso é um elogio. Então isso significa que você gostou do livro?” “Não, gostei muito.” "Então você gostou, você faz a orelha?" "Faço." Aí começou. Isso é outra coisa desagradável: pedir orelha, pedir alguma coisa para um cara. Às vezes o cara não gosta, é constrangedor. Imagina... Você me mostra um livro de poesia e diz: "Evandro, faz a orelha desse livro para mim?" Sem eu conhecer o livro. Quer dizer, eu acho que nenhum autor deve fazer isso. Deve ficar ali na espreita, na malandragem e esperar. Igual eu mandei o meu dicionário para o Francisco Dantas. Ele é meu amigo, frequentou o sebo, nós nos demos muito bem. E eu falei com ele sobre o dicionário. Ele falou: "Manda para eu dar uma olhada." Ele mandou um texto legal. Ele mandou o texto, eu digo: "Olha, quando sair eu posso colocar esse texto na quarta página?" "Claro." Porque é muito desagradável você, tanto de um jeito como de outro, pedir, como alguém te pedir. Você não gosta, é chato. Dizer: "Não, eu não vou escrever a orelha do seu livro porque eu acho o teu livro uma merda."

 

P/1 – Já te aconteceu isso, de alguém pedir para você: "Evandro, faz aqui um trabalho..."

 

R – Não, porque eu sou bobão. Eu sou meio Jorge Amado para isso. Se o cara pedir eu faço sem ler o livro do cara. Então eu não dou nem bola, não dou a menor bola para isso. Eu escrevo qualquer coisa lá, falo que é maravilhoso e pronto. Não levo isso muito a sério. Acho uma coisa carinhosa, uma coisa generosa, só isso. O Jorge Amado diz que os prefácios dele não valiam nada. Porque ele fazia para todo mundo. Chegava um menininho lá na rua: "Ô, Jorge, faz um, escreve um negócio no meu livrinho de poesia." "Tá bom, menino." No dia seguinte ele entregava qualquer coisa para o menino lá, diz que tinha a assinatura dele, todo mundo ficava feliz da vida e pronto. E aí? Não compromete nada, não tem problema nenhum. Quem tem que falar dos livros são os críticos. Nós somos passarinhos, não somo ornitólogos, entendeu? Eu sou passarinho. Quem tem que falar de livro são os estudiosos da matéria. Então se eu falar que teu livro é bom, e daí? Eu estou falando que ele é bom. Problema meu. Não tenho que te dar satisfação nenhuma. Eu acho ele bom, e daí? Você não achou, dane-se. Escreva um livro sobre isso. Então eu acho que o escritor tem que ser generoso, nada mais do que isso. E se ele não gosta do cara, ele fala: "Eu não vou fazer não, porque eu não gosto de você. Vai plantar batata." Entendeu? E é isso. Eu sou emocional, meu negócio é emoção. Se eu gosto de você, eu escrevo qualquer coisa para você e ponto final. Se não gostar, eu te mando à merda. Não quero nem que você frequente a minha loja. Sou radical.

 

P/2 – Aproveitando o gancho, conta um pouco para a gente como que veio, surgiu…. Além do Avalovara você teve outros sebos ou livrarias?

 

R – Tive. Eu trabalhava em agência de propaganda. Aos 45 anos de idade eu opero do coração. E no meio publicitário... De um modo geral, no meio, você com quarenta e poucos anos já é expelido da sociedade. Você já não vale nada. Você já é um velho, já é um dinossauro. E na propaganda eu fui saindo aos poucos. Um belo dia, com quarenta e poucos anos fui pedir um emprego. Tinha uns dezoito jovenzinhos na recepção. Então o diretor de Criação me viu, falou assim: "Você não aposentou ainda?" Aquilo me chocou. Eu com 45 anos e o cara fala: "Você não aposentou ainda?" Eu falei: "Pô, o que eu estou fazendo nesse mundo de merda, nojento, idiota? Mundo de cabeças ocas." Eu trabalhava para ganhar dinheiro, porque é um bando de imbecis. Raríssimas, salvo raríssimas exceções, é um bando de idiotas. Mas o mundo de um modo geral é idiota. Bernard Shaw dizia que 90% dos americanos são 100% idiotas. Então o mundo inteiro é idiota. Vide o mundo inteiro comprando Paulo Coelho adoidado. Quer dizer, Paulo Coelho faz sucesso no mundo inteiro. Então o mundo inteiro é idiota. De Berlim a Araxá. Mas o que é que acontece? Eu tinha uns três mil livros em casa, desempregado, vivendo às custas da minha mulher e dos meus filhos. E eu tento vender os meus livros. Vou em três, quatro sebos que eu conhecia. Já frequentava sebo. E o cara: "Ah, dou dois mil." O outro: "Dou 1500." Eu falei: "Ah, vocês estão loucos." Hoje eu entendo por que eu tenho sebo. Hoje eu estou do outro lado do balcão. Um cara de sebo disse: "Olha, porque você não monta um sebo para você? Você tem uma bela biblioteca. "Eu falei: "Ah, boa ideia." E comecei a esparramar para os amigos, dizendo que eu ia montar um sebo, eu e quem tivesse livro para doar. Acabei juntando lá uns seis mil livros, sete mil. Montei o Sagarana. Fiquei três anos com o Sagarana. Mas na época do Sagarana eu não era tão radical. Eu colocava... Tinha duas prateleiras. Eu colocava o Jô Soares, o Luís Fernando Veríssimo, a Danielle Steel, o Sidney Sheldon…. Essas merdas todas do lado de cá. E botava do lado de cá o Kafka, o Bruno Schulz, e Dostoiévski etc. Então quem entrava percebia. Era sutil o negócio. Então eu monto três anos depois, eu. A coisa começa a não ir muito bem, porque eu não sou bom comerciante. Eu tinha um primo rico, milionário. Ele falou: "Eu quero montar um negócio." Eu brinquei com ele assim: "Se você montar uma livraria eu te ajudo." Um mês depois ele falou: "Eu pesquisei e quero montar uma livraria." Eu vendi o sebo e fui trabalhar com ele na livraria. A Livraria Boa Vista, na Faria Lima, que durou uns cinco anos. Está fechando agora. Livraria sofisticadíssima. Ele gastou 400 mil reais só para montar. Gastou uns dois milhões na livraria. Muito bonita. E eu propus bate-papos. Todos os sábados tinha encontros. Levei um monte de gente interessante para falar lá. Muita gente, muito intelectual, muito professor, escritor. Eram tardes, você chegou a ir? Eram tardes maravilhosas.

 

P/1 – Várias vezes.

 

R – Mas não deu certo. Negócio é negócio.

 

(PAUSA)

 

R – Umas historinhas do Sebo Sagarana. Sebo Sagarana, eu fiquei três anos lá e foram três anos deliciosos. Uma vez entra uma senhora, olha na vitrine e diz: "Nossa, já escreveram a biografia dele?" Eu falei, pensei comigo: "Não tem nenhuma biografia na estante." Fui me aproximando, era Ulisses, de Joyce. Mas foi na semana que morreu Ulysses Guimarães. E o outro dia entrou um rapaz todo espavorido, todo cara de bêbado, disse: "Ó, moço, eu sou alcoólatra e queria que você me indicasse um livro." E eu, mais que depressa, digo: "Amigo, eu também bebi muito durante muitos anos, e quem bebe... Eu não sei se hoje acontece, mas na minha época quem bebia sempre jogava um golinho para o santo. Então está na hora de um santo retribuir para a gente. Eu sugiro que você leia Santo Agostinho, as Confissões, de Santo Agostinho." Ele deu risada e levou o livro de Santo Agostinho. Entrou muita gente interessante lá no sebo. Entrou gente de todo tipo. Foram três anos deliciosos, Sebo Sagarana.

 

P/1 – Tem alguma figura marcante, algum escritor, por exemplo, com que você tivesse contato e que foi lá? Algum intelectual?

 

R – Ah, intelectual que ia muito lá, que ficou meu amigo e morreu agora recentemente foi João Alexandre Barbosa. Meu querido João Alexandre Barbosa. O José Paulo Paes esteve um dia lá. Que foi meu padrinho literário. O Jorge de Almeida, que é professor da USP. O Roberto Schwarz. Muitos jornalistas. Marcelo Coelho. Ali que eu conheci o Mirisola, Marcelo Mirisola. Ele entrou, viu um livrinho dele lá pendurado, ficou todo emocionado. E ali é que surgiu esse grupo chamado “Geração 90”. Porque ali é que eu tinha um grupo de literatura, que era de leitores. Eu montei um grupo de literatura lá na Vilaboim, no Fran’s Café da Vilaboim. Era o Alípio que traduziu Joyce, o Guilherme, e mais umas amigas psicanalistas. Um grupo de gente que gostava de ler. Esse grupo durou uns dois anos. Todo sábado a gente se reunia para discutir sobre livro. Cada um levava, uma semana, um livro. Era um, e eu tive a ideia de cada sábado levar alguma figura. Levei Marcos Reis, levei Fernando Paixão, Bernardo Ajzenberg. Cada semana a gente levava um cara para bater papo com a gente. O cara ficava nervoso, mas depois ele via que era uma turma legal. E esse grupo se desfaz porque alguém se apaixonou por alguém. Sabe aquela coisa? E se desfez. Então eu monto o Sagarana e penso: "Poxa, eu queria montar um grupo de escritores." Ingênuo para burro. Era muito ingênuo. Porque eu não havia lançado o meu primeiro livro. O meu primeiro livro, Grogotó!, estava na Editora Top Books há dois anos. Eles me enrolando, me enrolando. E eu muito ingênuo, ou ao mesmo tempo malandro demais... Eu não saberia detectar. Porque eu pensei: "Se eu montar um grupo de escritores, a gente chamar jornalista, bater papo e tal... Quem sabe eu entro nesse meio?" Eu acho que foi meu lado publicitário que falou mais alto, e eu falei: "Poxa, tinha um grupo de leitores... Por que eu não criar um grupo de escritores?" Um belo dia entra o Marcelino Freire no sebo, todo simpático. Era uma figura doce, comunicativa. Ele entra no sebo e começamos a bater papo. Todo cliente que entrava eu batia papo. Ele falou: "Ah, eu escrevi um livro. Eu tenho até um livro aqui de..." E eu um ex-publicitário. Ele mostra o Era o dito, dele. Eu me lembro que eu olhei e falei: "Não, não, não. Espera aí, meu amigo, eu estou falando de literatura. Isso aqui é livrinho publicitário." Ele deu risada. "Não, eu tenho um livro de conto." "Então trás o livro de contos, porque esse aqui, não. Isso aqui... Eu já fiz isso aí brincando." E aí uma semana seguinte ele aparece, lê. Ele lê maravilhosamente bem. Ele lê uns contos dele. Eu fiquei encantado. Eu falei: "Pô, que bacana. Coisa bonita." Liguei para o Guilherme, falei: "Ô, Guilherme, estou querendo montar um novo grupo aí, você topa?" "Topo." E eu falei para o Marcelino. O Marcelino falou: "Olha, tem um pessoal ali da Hedra, tem o Fran’s Café, eles são muito simpáticos, a gente poderia se reunir lá." Então eu junto quatro, cinco pessoas e monto esse primeiro grupo. Eu e o Marcelino.

 

P/2 – Quem eram as outras pessoas?

 

R – Não, aí começa. Ali que nasce a “Geração 90”. Começa pelo seguinte: levo o Sérgio Alcides, o Sérgio Alcides leva a Maria Rita Kehl, a Maria Betânia Amoroso, que é professora da Unicamp. Um belo dia está no primeiro encontro. Estamos nós quatro, cinco, o Marcelino, eu e mais quatro, cinco que não eram escritores, eram leitores. E eu digo: "Ô, Sérgio Alcides, você quer ir lá para você falar para a gente?" O Sérgio Alcides estava casado com a Maria Rita Kehl. Ele leva a Maria Rita Kehl e a Maria Betânia Amoroso. Conversa vai, conversa vem, e a Maria Rita Kehl fala: "Mas que interessante, que grupo simpático. Vocês conhecem o Marcelo Mirisola?" Eu falei: "Conheço, eu já li um livro dele, muito interessante. Você que apresentou. Gosto muito dele. Olha, dois caras que eu gosto muito jovens. O livro do Mirisola, Fátima fez os pés, que eu achei muito engraçado. E Naquela época tínhamos um gato, do Nelson de Oliveira, um jovenzinho." Morre aí. Semana seguinte chegamos ao Fran’s Café para nos reunirmos Marcelino e eu. Marcelino sempre passava no sebo antes de ir. Passava, ficava forçando: "Vamos, vamos." Eu falava: "Espera, deixa eu fechar, pô. O comércio está bom." E eu fechava sempre cinco horas. Levei um prejuízo filho da puta, porque eu sempre fechava às cinco no dia de sábado. Imagina, sábado é o melhor movimento de loja. Mas eu ia e a gente se reunia. E nós estamos entrando, tinha dois caras sentados. A menina do café falou: "Tem esses dois jovens querendo falar com vocês." Eu venho, era o Mirisola e o Nelson de Oliveira. O Mirisola: "E aí? A Rita disse que tem um grupo de uns caras que falam de literatura, pé, pé, pé." Eu falei: "É lá em cima." “Ó, lá em cima eu não vou, não, pô. Vou subir escada?” Sempre encrenqueiro. Eu falei: “Querido, nosso grupo se reúne lá em cima. Você não quer subir escada, até logo.” Eu sempre mal humorado. Ele: “Ô, estou brincando.” “Então tá.” Então foi o Nelson, mais educado, subiu. Era um negócio fantástico. Cada reunião que terminava o cara dizia: "Eu posso chamar o Fulano?" Foi triplicando. O Nelson de Oliveira e o Mirisola. Termina a reunião, aquele bate-papo, fala-se de literatura, pergunta-se sobre os caras, enche a bola dos caras. Termina a reunião e o Nelson fala assim: "Escuta, vocês já viram falar no Marçal Aquino?" "Não, não." Eu não acompanhava muito a literatura contemporânea. Eu falei: "Não." "Ah, eu posso trazer?" "Pode." Vai o Marçal Aquino. Termina a reunião, o Marçal Aquino diz: "Poxa, que grupo legal. Vocês conhecem o Ruffato?" "É, eu já ouvi falar dele." "Poxa, se eu ligar para ele, posso trazê-lo aqui?" “Pode.” E foi assim, o Ruffato falou que era o Bonassi. O Bonassi falou que era não sei quem. De repente, tinha trinta escritores neste grupo. Tinha sábado que tinha trinta caras. E acho que o Nelson de Oliveira tem a ideia de fazer essa tal “Geração 90”. E essa “Geração 90”, eu me lembro que eu não era, fazia parte. Primeiro que eu não tinha livro. Segundo que eu não era “Geração 90”. Já tinha 62 anos. Na época tinha 60. Eu tenho hoje 62 anos. Só que o Nelson tem a ideia de fazer essa coletânea, de botar o Brasil inteiro, não sei o quê. E eu fui, entre aspas, discordando ali, em off, de certa maneira. Porque era uma coisa que foi nascendo aleatoriamente. "Vamos fazer uma coletânea do Brasil inteiro." Então eu sei que tem um Bruno que é da Paraíba. Eu peço um conto para o Bruno, o Bruno manda um conto que não é essas maravilhas. Mas eu já pedi o conto para o Bruno. Eu falei: "Pô, isso não vai dar certo." Porque a coletânea, de verdade, é aquela que eu escolho. A que o Borges fez, por exemplo, o melhor conto que eu acho do Guimarães Rosa, o melhor conto que eu acho do Graciliano, o melhor do Dalton Trevisan. E eu monto a minha coletânea. Eu vou escolhendo. Agora eu falar: "Vou fazer uma coletânea dos principais poetas do Brasil e vou pedindo para o cara mandar uma poesia?" O cara pega lá no fundo da gaveta e manda uma poesia qualquer. Bom, por esse desentendimento o grupo se desfaz. Quer dizer, não se desfaz, eu me afasto do grupo. E o grupo, depois que eu me afastei, não durou um mês. Eu que levava o pessoal, eu que aglutinava tudo. Marcelino sabe disso. Porque eu era que conhecia os intelectuais. Marcelino era muito comunicativo mas ele era de um outro mundo. Ele era do mundo do teatro, da música. E eu não, eu que levava. Eu que levei o João Alexandre Barbosa, para falar. E o João Alexandre Barbosa que conheceu o Marcelino, que apadrinhou o Marcelino, que deu o empurrão para o Marcelino. O Marcelino reconhece isso tranquilamente. Tanto é que eles escreveram um artigo e disseram que eu que sou o pai da “Geração”, ou o avô da “Geração”. Mas nasceu essa “Geração 90” e deu nisso que deu. Essa bobagem toda.

 

P/2 – Existe uma, digamos assim... A crítica fala em relação à “Geração 90”, que é uma geração muito…

 

R – Marqueteira.

 

P/2 – É, exato.

 

R – E é verdade.

 

P/2 – E que isso foi uma coisa que o Nelson de Oliveira compreendeu bem e explorou bem. O que é que você fala para ele?

R – Sim, sim, é marqueteira porque eles são marqueteiros. O Marcelino é um cara comunicador de marca maior. É extraordinário. O Marcelino não será surpresa se disserem: "Ele será o Ministro da Educação, Ministro da Cultura." Porque ele é impressionante. Eu odeio, detesto, abomino coletânea, mas eu costumo dizer que eu prefiro errar sozinho. E eu já entrei em uma coletânea do Marcelino. Vou entrar pela segunda vez. Porque ele é envolvente. Ele é um diabo. Ele é um capeta. Ele sabe, por exemplo, que eu gosto do Dalton Trevisan. Ele sabe que eu gosto do Millôr Fernandes. Um belo dia ele entra na livraria e fala: "Evandro, eu quero falar com você sobre coletânea. Mas espera um minutinho por favor, não fique nervoso. Espera aí, Evandro, espera. Essa coletânea que eu estou organizando, eu quero dizer o seguinte: Olha, eu consegui autorização do Dalton Trevisan, do Millôr Fernandes, do Haroldo de Campos.” Citou uns dez vezes melhor do que eu. “Só está faltando você." Quer dizer, você se sente um trapo. Você diz: "Espera aí. Shakespeare quer, Dante quer, Dostoiévski quer. Você, um idiota, não quer?" Então ele sabe conduzir. O cara é um mestre, é um mestre. Mas é um mestre na comunicação. É um mestre para agitar, um agitador cultural. Então eles fizeram isso mas não privilegiaram a obra. Porque o que fica, o que é importante na literatura é a obra. Não adianta espernear, não adianta você me achar simpático, comunicativo, interessante, viado, machão, conquistador, comedor, ou seja lá o que for. O que vale é a obra. Hoje você pega uma obra do Kafka... É a obra do Kafka. Não queremos saber se ele era doente, se ele era isso, se ele era aquilo, o que ele fez, quantas noivas, se tem aquele fetiche... O que vale é a obra. E o que a “Geração 90” achou? Que ela se sustentaria com o poder de bala, de comunicar, de agitar, de criar situações e que a mídia pobre, imbecil, precisa ser abastecida. "Vai, vai, vai, pauta, pauta." E o Marcelino é mestre nisso. "Pauta. Ô, Cassiano Elek Machado, da Folha, é o seguinte: eu montei um grupo que vai fazer isso, que vai plantar bananeira, que vai..." "Ô, que legal." Pronto, já arrumou um espaçozinho para ele. Porque ele tem que preencher um espaço. Então, quer dizer, vai abastecendo, abastecendo. "Ó, criei uma coletânea aqui de gays." Agora, eu vou participar de uma coletânea gay do Marcelino, porque eu tenho um miniconto que é de uma freira lésbica. E ele conhece esse miniconto há muito tempo. E ele me liga: "Ó, vai entrar o Rui Fonseca, a Lígia Fagundes..." Ele sempre bota uns nomão para me convencer, porque se bota a “Geração 90” eu já caio fora logo. Mas ele já me conhece e já fala: “É isso.” Só que eu sempre caio nessa armadilha, porque depois sai a coletânea, tem esses quatro nomes e cinquenta caras. (risos) Mas não adianta, ele é envolvente, ele é mesmo. É uma pessoa amável, uma pessoa doce, ele não é do mal, ele é do bem. Mas eu questiono muito o trabalho dele, a literatura dele. Ele sabe disso. Questiono a do Mirisola, esse pessoal todo. E eles me respeitam, gostam de mim. Sabem que eu sou rabugento mesmo. O Mirisola tem uma coisa fantástica: nós somos amigos, nós nos amamos, nos adoramos, somos queridos amigos e um odeia a literatura do outro. E não tem problema nenhum. Isso é muito difícil na literatura. Você chegar para o Ruffato, ou para o Marçal aqui: "Pô, teu último livro é uma merda." O mundo cai, não olha mais para ninguém. Todos eles, 99%. Então nesse ponto eu admiro o Mirisola que ele tem uma personalidade legal. Ele: “Seu livro é uma merda.” “O seu também é uma merda, acho você artificioso. Acho você um Bukowskizinho requentado dos anos 1970.” Ele diz: “Você é leitor de dicionário, você é um babaca. Sua literatura é artificiosa.” Ele fala assim, mas a gente se dá maravilhosamente bem. Em resumo, esse mundinho da literatura é muito complicado, muito difícil. E todo artista é vaidoso para burro.

 

P/2 – Ainda sobre literatura, conta um pouquinho para a gente como que veio essa ideia dos minicontos, que você estava falando que era um pouco herdada da publicidade.

 

R – É, o miniconto surgiu, o meu primeiro livro de miniconto surgiu quando eu li o Julio Cortázar, Histórias de Cronópios. Eu vi aqueles negócios pequenininhos, eu falei: “Poxa, eu poderia fazer alguma coisa parecido com isso. Que eu sou publicitário, eu fiz humor. Eu colaborei com O Pasquim. Eu tenho dois livros de humor, frases de humor etc. Poxa, eu fui publicitário, tenho textos curtos. Eu fiz humor.” Então eu comecei a escrever minicontos, mas não sabia que era miniconto. Comecei a escrever histórias pequenininhas. Só que com começo, meio e fim. Isso depois virou uma praga nacional. Teve um período que todo mundo fazia minicontos. Só que eu fui entrevistado para o Correio Braziliense, disse para o cara: "Olha, meus minicontos são como mini miss. A miss, ela mesmo sendo mini, tem cabeça, tronco. Ela tem tudo de uma miss, só que ela é pequenininha. O que ninguém está entendendo é que quando se fala conto, o meu é miniconto. Mas ele tem começo, meio e fim de conto. É um conto. Só que é mini. O que está acontecendo por aí é uma chuva de você dizer assim: 'atravessei a rua, andei, vi um poste, resolvi voltar para casa.' Pronto acabou o miniconto." E eu fiz, e fiz mesmo, a crítica toda reconheceu. Fiz minicontos com começo, meio e fim, e surpreendentes. Quem leu Grogotó! sabe. Ele começa a ler e não sabe se o cara está falando, se é mulher, se é uma lagartixa, se é uma barata. Quando ele vê ele se surpreende. Eu estou falando de uma lagartixa que está puta da vida porque a dona da casa pintou a parede de tinta óleo, ela escorrega toda hora. Está lendo um miniconto e você pensa que está falando de um adolescente que foi expulso de casa por causa de droga, mas eu estou falando de um urubu jovenzinho que foi expulso porque viciou em legumes e frutas frescas. (riso) Então tem mil histórias geniais.

 

P/1 – Você consegue retomar uma história aqui?

 

R – Ah, eu não saberia. Não saberia por causa da forma; São aquelas palavras. Eu sei contar histórias de… Inclusive o Marcelino, retomando o Marcelino Freire, é louco para editar um livro meu de minicontos só de bichinhos. São bichinhos que falam latim. São bichinhos todos maluquinhos e que é a aranha, o vovô aranha que se mata no próprio fio.

 

P/2 – Enforcado?

 

R – É, enforcado. Tem coisas tenebrosas. E tem o coelhinho que em sinal de protesto não saiu da cartola. Porque… Como é que chama? A cenoura está rareada no circo. Eles estão boicotando ele. Então ele boicota. Imagine na cena, e por aí vai. Mas eu faço primeiro o teste. Eu faço, escrevo duzentos minicontos e mando. Conheço o Bernardo Ajzenberg, nessa época era da Folha. Ele tinha uma coluna de crítica literária e faz uma resenha. Eu nunca fiz isso na minha vida. A primeira e única vez que eu fiz isso... Ele faz uma resenha e cita uma frase. E eu olho e digo: "Essa frase que ele está citando não é deste autor que ele está se referindo." Ele estava resenhando um livro do Fausto Wolff. A Mão Esquerda, algo assim. E ele cita, fala: "A melhor coisa desse livro é isso." E eu mando um... Não era e-mail, era um fax. Mando um fax para ele dizendo: "Ô, meu caro, se a única coisa que você gostou deste livro é isso então você não gostou de nada. Porque isso aqui é do autor tal, está na página tal.” E ele vê meu telefone e liga. "Ô, ô, Evandro, tudo bem? É o Bernardo Ajzenberg." O Bernardo Ajzenberg é um doce, um cara educado, culto, gente finíssima. Maravilhoso. Bernardo Ajzenberg, um cara maravilhoso. E ele: "Ô, poxa, obrigado pela dica. Quem é você?" Eu falei: "Ah, cara, eu sou um cara que está tentando escrever um troço. Tem uns minicontos que eu nem sei que diabo é isso." Não tinha mostrado para ninguém. Ele: "Manda para mim se você quiser. Se você não se importar." "Ah, mando sim. Dá o endereço." Eu pego duzentos minicontos e mando para ele. Ele detona 199, detona. De uma maneira brilhante. Eu fiquei puto da vida. Ele dizendo: "Eu estou sentindo que o autor está muito presente. O autor não deve estar em uma fase boa da vida dele." Eu estava desempregado, fodido. Olha que coisa brilhante. Eu não comentei isso com ele. "Ele não deve estar em uma fase boa. O autor tem que se ausentar mais. Mas tem um conto aqui que é muito bom." A primeira semana eu fico atordoado. Eu mando um bilhete para ele: "Você deve ser daquele tipo de crítico que conhece o caminho mas não sabe dirigir." Eu fui mal educado para burro. Eu não sabia que ele era escritor. Eu não acompanhava nada da literatura. E ele diz: "Olha, Evandro, se você não se incomodar eu posso mandar alguns livrinhos que eu tenho e tal." Putz, ele manda três livros dele. Fiquei com uma cara desse tamanho. Quer dizer, ele não era um crítico que sabia o caminho mas não sabia dirigir. Ele sabe dirigir e sabia o caminho. Passa e eu pego aquele conto que ele falou que era bom. Detono, jogo fora os 199 e deixo do lado aquele lá. Eu com aquele conto do lado falei: "Ah, um dia eu retomo esse troço." Me senti um fracassado. De duzentos minicontos o cara detona 199. Mas eu deixo aquele do lado, um belo dia eu pego e retomo. Vou fazendo, fazendo. É como eu disse. Esqueço Bernardo Ajzenberg. Fazendo, fazendo. Eu chego a 84 minicontos. Eu digo: "Agora eu vou voar mais alto. Eu vou mandar esses minicontos para um crítico, um grande escritor.” Um grande não sei o quê, mando para o Zé Paulo Paes, mando para o Moacyr Scliar. Mando para o Wilson Martins. Mando para o.... Mandei para quatro caras assim: "Tá." Dez dias depois eu estou conversando com o zelador do prédio e entra debaixo da porta assim, na cozinha, um cartão postal. Eu olho curioso e vejo José Paulo Paes. E o zelador falando comigo um negócio de instalação que estava quebrada. Eu: "Sim, sim." Olhando, louco para pegar. E eu: "Putz, esse cara não vai embora." De repente ele vai embora, eu cato, leio o texto do Zé Paulo Paes. "Não costumo fazer esse tipo de coisa que você está me pedindo." Eu falei: "Puta, fudeu." "Mas, para você vou fazer uma exceção. Você poderia esperar trinta dias?" Eu mando um telegrama para ele: "Poeta, espero a vida inteira." Ele estava traduzindo o Ovídio, por isso pediu os trinta dias. Trinta dias depois recebo um envelope debaixo da porta, era o prefácio do Zé Paulo Paes. Dez dias depois recebo um textão desse tamanho do Moacyr Scliar: "Evandro, querido, desculpe o atraso. Eu estava na Europa. Mas escrevi um textinho para você, vê se você gosta." E escreveu o texto.

 

P/2 – Você conhecia algum deles?

 

R – Nenhum deles. Eu mandei por correio. E mandava da seguinte forma: "Caro José Paulo Paes, não sou jovem, tenho 55 anos, calejado, ex-publicitário. E se você não gostar, neca de tapinha nas costas, porque eu não tenho futuro. Ou isso está bom ou acabou." Não tem aquele negócio de dizer: "Ai, esse cara promete." Tanto é que no prefácio ele fala: "Ele não me conhecia e fala do publicitário." Moacyr Scliar, idem. O Wilson Martins mandou um cartão pedindo desculpa, dizendo que ele não escrevia para ninguém, mandava plantar batata. Eu falei: "Tudo bem, obrigado." Mandou um negócio simpático. Bom, aí começa a minha novela do primeiro livro. Porque o Zé Paulo Paes assume o comando, ele foi meu padrinho in totum. Quer dizer que não era um padrinho de fazer um textinho e sumir, não. Ele ligava todo dia. Ele ligava para o Luiz Schwarcz: "Olha, estou mandando um autor aqui que eu acho brilhante." Passava uma semana o Zé Paulo me ligava: "Evandro, fomos gongados. O Luiz Schwarcz diz que está por aqui de contista." "Ô, que pena, hein, Zé Paulo." "Mas não se preocupe." Passava dez dias: "Ó, Fulano da editora diz que não sei o quê lá. Mas sabe como é, né, Evandro? Eles querem tudo mastigado. Tem que estar tudo mastigadinho. Eles nem sabem o que quer dizer grogotó. Nem o que quer dizer não sei o quê. Mas não se preocupe." Um belo dia ele diz: "Evandro, você tem alguma coisa inédita?" Disse: "Tenho." "Então manda para os nossos estúdios no SEBRAP [Serviço Brasileiro de Aprendizagem Profissional], manda para a Folha, manda para não sei o quê." Foi meu padrinho. Eu não precisava fazer nada. Ele fazia tudo. Ele com o nome dele. Ele traduziu cem livros. Traduziu em dez idiomas. Querido pôr todo mundo. Mas ele adorou meu trabalho e virou meu padrinho. Até o último minuto da vida dele. Me ligava toda terça-feira, a gente se falava. Fim de semana eu ia visitá-lo. Ele me apresenta na Top Books do Rio, o cara concorda, mas me enrolou dois anos. O Zé Paulo morre e aí eu ligo para o cara e digo: "Olha, você demorou muito. Eu vou tirar o prefácio do Zé Paulo porque eu mudei muito o livro e não seria decente, não seria justo eu fazer isso com o Zé Paulo. Porque ele comenta vários contos que nem existem mais.” E foi passando e eu fui mudando o livro. O Borges dizia: "Eu edito um livro para me livrar dele." E é verdade, se você não publicar você mexe em um livro toda semana, todo dia. Você sempre tem coisas para mexer. E livro de contos então você tira um, põe outro. E troca: "Ah, esse não vai ficar aqui em primeiro, vai ficar em último." Você vai mexendo ternamente. E deu um rolo porque eu falo que vou retirar o prefácio, só que a capa do Victor Burton já estava pronta e ele não quis mexer. E na capa estava assim: "Prefácio de José Paulo Paes." Então foi uma confusão. Porque o livro sai, eu recebo livro e está lá: "Prefácio de José Paulo Paes", e não tinha mais prefácio. E todo mundo veio me perturbar. Todo mundo falava: "Como é que você diz que tem um prefácio e não tem?" Eu tive que contar ad nauseam essa história. Contei para umas 500 pessoas. Agora eu acho que a 34 vai reeditar com o prefácio. Mas esse prefácio... A minha salvação é que o prefácio saiu na Folha de São Paulo. Tinha uma seção na Folha que eram prefácios de bacana. Botava lá: “Prefácio de Antonio Candido.” “Prefácio “de não sei quem.”

 

P/2 – O Jornal de Resenhas, esse?

 

R – Acho que era o Jornal de Resenhas. E tinha um, o Zé Paulo falou: "Evandro, eu estou mandando o prefácio que eu fiz para você lá para o Fulano de Tal." Eu não me lembro quem era o editor. E saiu, foi publicado. Porque não era o Márcio, não. Era o João Moura. Eu não sei quem era. Mas foi publicado e me salvou, porque todo mundo achava que era...

 

P/1 – E esse foi seu primeiro livro?

 

R – Foi meu primeiro livro de literatura propriamente dita. Porque eu era... Eu havia publicado quatro livros de humor. Eu queria ser Millôr Fernandes e não consegui. Agora eu quero ser o Antonio Lobo Antunes e estou vendo que não vou conseguir também. E daqui a pouco eu largo tudo. Eu vou tentando ser alguém. Eu nunca quero ser eu mesmo.

 

P/1 – E, me fala um pouco, você mencionou o Antonio Lobo Antunes. Como é que você descobre um livro do Lobo Antunes e passa a ler? E ao que parece você se considera um dos grandes divulgadores da obra de Lobo Antunes no país.

 

R – É, eu gosto do Lobo Antunes porque ele privilegia a forma também. Se você me perguntar o que é que o Lobo Antunes fala nos livros dele, eu não sei e não quero nem saber. Parece que ele fala de Moçambique, fala de guerrilha, de não sei o quê. Eu fico encantado com a maneira que ele escreve. Só isso. Tem gente que fica discutindo horas e horas um livro dele. Um dia eu estava lá na Livraria da Vila, estava o meu amigo Isaías que trabalha lá, e mais um outro menino que estuda na USP e que está estudando Lobo Antunes. Eles ficaram falando três horas lá, para mim era tudo grego. Eu não lembro de nada disso. Porque eu fico só preocupado com a forma. Então eu acho ele um escritor brilhante nesse sentido. E eu gosto tanto do Lobo Antunes que, uma vez, eu fazendo compra nessas pontas de estoque nessas distribuidoras... Que é muito comum isso porque os livros encalham. A maioria. Então você vai em uma ponta de estoque, tem lá pilhas e pilhas de todo mundo. De caras geniais, tem pilha lá. E você compra barato. E eu em um belo dia fui em uma distribuidora e vi uma pilha enorme. Fui me aproximando falei: "Poxa, será que é isso que eu estou imaginando, cara?" Era um livro do Lobo Antunes, A ordem natural das coisas. Tinha uns 250 livros. Eu levei 50.

 

P/2 – Que ano foi isso?

 

R – Tem um ano. Há um ano atrás. É encalhe de livro, foi editado pela Rocco há quatro, cinco anos atrás. Ficam aqueles encalhes lá anos e anos. Eu levei 50, mas não contente, no dia seguinte liguei para o cara: "E se eu levar tudo? Quanto você me faz?" E ele falou: "Ah, se levar tudo é um real cada um." "Tá bom então." Peguei 250 livros do Lobo Antunes e joguei lá no fundo. Então eu me dou ao luxo, até hoje, um ano e meio de loja, de dar ou vender. A maioria eu dou. O cara que compra três, quatro livros, eu vejo que a pessoa é interessante, gosta de literatura, eu pego e falo: "Ó, você já ouviu falar no Lobo Antunes? É o melhor escritor do mundo hoje." Eu falo assim, só para impressionar. "Como? Não é o Saramago?" "O Saramago é uma besta. O Lobo Antunes é o maior escritor do mundo. Aliás ele..." E eu fico contando historinhas do Lobo Antunes contra o Saramago. Eles são inimigos. E eu digo: "Ó, o Lobo Antunes costuma dizer que o Saramago é a mistura ruim de García Márquez com Umberto Eco. E conto outras histórias... Que o Lobo Antunes uma vez esteve na UNICAMP e os alunos sem saber dessa briga deles... Um aluno diz: "É, porque o Saramago não sei o quê lá." O segundo aluno: "O Saramago, não sei o quê." O terceiro aluno que fala no nome do Saramago, o Lobo Antunes diz: "Olha, para vocês brasileiros o Saramago já está bom demais." Quer dizer, o cara abusado. Mas eu gosto e não sei por que também. Eu gosto, gosto porque gosto. E eu acho que ele escreve diferente. Eu não sei, eu não sei analisar. Uma vez a Interlivros falou: "Ó, Evandro, você gosta do Lobo Antunes? Quer escrever um livro sobre o Lobo Antunes?" "Eu, não. Eu não sei escrever livro, eu não sei escrever sobre livro. Eu sou passarinho, não sou ornitólogo. Eu não sei se é bom ou se é ruim. Eu não sei, talvez seja em função do meu autodidatismo. Eu não saberia escrever uma lauda sobre um livro." Agora se eu disser que o livro é bom, e o cara disser que não é, ele vai ter que rebolar. Porque eu gosto e acho que tenho bom gosto para a literatura.

 

P/2 – Como que você lê um livro? Que tipo de livros você gosta de ler? E eu faria uma pequena diferenciação nessa pergunta, duas vias: as coisas que você gosta de ler, de vida pessoal, mas que te despertam ou te encantam. E você lê algumas coisas também que te instruem para a função de escritor?

 

R – Sim.

 

P/2 – Um pouco nessas duas.

 

R – Eu só leio para me instruir. Eu não leio por diversão. Eu só leio se eu começo a ler um livro na primeira página, se na segunda o autor não me encanta eu não quero saber. Eu boto do lado. Pode ser do William Faulkner, pode ser do Dante, seja lá o que for. Então eu tenho um tipo de literatura que me agrada, que eu só leio aquele tipo. É o tipo de literatura da forma, do encantamento, do texto bonito. Os portugueses, de um modo geral, têm isso. Então eu leio, releio, Bruno Schulz, Giorgio Manganelli, Hermann Broch, Muzio, Lobo Antunes, Herberto Helder. No Brasil Vicente Cecim, um poeta lá de Belém, que tem um texto encantador em dois livros lindos. Que foram editados pela Iluminura: Silencioso como o Paraíso, e Viagem a Andara. E cria um mundo imaginário. Textos lindos, emocionantes. Eu gosto do encantamento, eu não gosto de história. Todas essas coisas que o Borges cita eu nunca gostei. De nenhum escritor que o Borges cita que são belos contadores de história, que não sei o quê. Borges, eu adoro Borges. E gosto muito, mas não leio muito, não. Sempre que eu leio Borges eu gosto. Mas não sou fanático. Eu gosto do Borges, do lado ensaístico dele. Agora a poesia... Não entendo de poesia. Eu tenho dificuldade com poesia. Eu falava para o Zé Paulo Paes e falava: "Zé Paulo Paes, rima me incomoda sobremaneira. Eu tenho a sensação de que rima é aquele obstáculo que tem no meio da rua, entendeu? Que você está andando..." O Zé Paulo morria de rir quando eu falava isso. Eu falei: "Então, não gosto, eu tenho dificuldade..." Eu gosto da prosa, eu gosto da prosa poética. Então eu li Dante em prosa. Eu li Homero em prosa. Isso para os poetas é a morte. Mas eu não consigo, então eu leio em prosa. Eu li A Divina Comédia umas três vezes em prosa. Fico encantado e acabou. Li Homero em prosa, e por aí vai.

 

P/2 – Você gosta do Carpentier, do cubano? Além do Tempo _______.

 

R – Não, não acho. Li muito tempo um livro dele. Não é meu, não me lembro de ter gostado, não. Não sei se...

 

P/2 – Ele é um cara que também se preocupa um pouco mais com ________. Tem o Cabrera Infante.

 

R – O Cabrera Infante é mais bem humorado, mais gozador. Cheio dos trocadilhos e coisas. Mas cubanos, cubano não me diz muita coisa não. Na música talvez. Nem música, eu gosto de jazz e de clássico.

 

P/1 – Falando de música então, o que é que você costuma ouvir de música?

 

R – Eu ouço demais Billie Holiday e Chet Baker. Eles fazem a trilha sonora dos meus livros. Todos eles estão sempre nos meus livros. Eu sou fanático por Billie Holiday e Chet Baker. Gosto de jazz de um modo geral, mas cantado. Não instrumental. Eu gosto de voz.

 

P/1 De onde vem isso?

 

R – Esse gosto acho que foi algum amigo de bebedeira que indicou em um belo dia: “Ah, você já ouviu Fulano e Fulana?” Eu ouvi e fui gostando. E música clássica foi em função da Rádio Cultura. Eu comecei a escrever e não queria aqueles locutores chatos falando, aquelas músicas horrorosas. Então um belo dia eu viro, vejo a Cultura, tocava música classe. Eu falei: "Puxa, é aqui que eu quero ouvir." E há vinte anos eu ouço a Rádio Cultura direto. Todo sebo meu eu ligo nove horas da manhã na Rádio Cultura e fica direto. E uma historinha curiosa no Sagarana, é: entra um rapaz enquanto eu estava ouvindo a Cultura, e ele fala: "Interessante, você gosta da Cultura?" Eu falei: "Eu não só gosto da Cultura, eu escrevo livros ouvindo a Rádio Cultura. Eu ouço a Rádio Cultura das nove às dezenove horas, direto. E essa é a minha grande paixão.”Quem que você gosta mais assim?” Eu falei: “Gosto do Júlio Medaglia, acho ele muito inteligente. Faz umas observações pertinentes. Ele é ferino tanto quanto eu.” O cara deu uma risadinha e falou assim: “Você quer ir para lá?” Eu falei: "Quer ir lá onde?" Ele falou: "Eu sou o produtor do programa e gostaria muito que você fosse lá. O Júlio ia simpatizar muito com você." Depois que eu falei que era escritor. E eu fui entrevistado em um programa inteiro do Júlio Medaglia. Ele falou assim: “Você pode levar umas músicas que você gosta?” Eu só levei jazz. Falei para o Júlio: “Olha, trouxe um monte de Billie Holiday.” “Ah, Evandro, fique à vontade.” Eu falei: “Ó, não vai falar sobre música que eu não entendo.” Ele falou: “Menos eu. Eu é que não entendo nada de música.” O cara foi legal, descontraído. Fiz um programa inteiro com ele. Bacana para burro. Tenho essa gravação. “Mas não entendo. Eu sou autodidata em tudo. Eu gosto de música, não entendo de música. Eu gosto de literatura, não entendo de literatura. Mas gosto de coisas boas, e não sei explicar por que."

 

P/1 – E dos teus hábitos assim, em geral, do que mais que você gosta? Música, literatura... Como é o teu dia-a-dia?

 

R – Nada, sou um monge trapista, sou um lobo da estepe. Não saio, não gosto de cinema, não gosto de teatro, não gosto de nada. Não gosto, não, e tenho birra. Cinema eu vejo de vez em quando. Costumo dizer que sempre que eu saio do cinema saio com a sensação de quem acabou de ler a orelha de um livro. Então não acho essa arte tão poderosa como dizem, não. Há um fetiche com relação ao cinema. Todo mundo sabe de cinema, qualquer idiota. Tinha uns vizinhos meus completamente idiotas e eles falavam de cinema o dia inteiro. Então acho que o cinema atrai, de um modo geral, a idiotice. O que tem de nego idiota que fala de cinema, dia e noite. Eu tenho uma raiva desse troço, não gosto. Teatro, sim, é uma coisa mais séria, mas também não tenho paciência de sair de casa e ver teatro. Eu gosto de ler. Eu gosto de ler as tragédias gregas. Eu gosto de literatura, eu gosto de livro. Literatura, eu gosto de literatura. Filosofia, leio bastante filosofia. Não entendo também mas leio. Fico encantado. Já li duas vezes A República, de Platão, recentemente. Acho demais. Aliás, A República, de Platão… Uma coisa interessante é que é tão atual. Parece que foi escrita no Rio de Janeiro semana passada. Porque tem uma hora que Sócrates está montando uma cidade e ele diz: "Olha, nenhuma cidade vai dar certo. Porque toda cidade terá o lado pobre e o lado rico." Isso ele diz há quinhentos anos antes de Cristo. É isso.

 

P/1 – Beleza.

 

R – Chega que eu estou com fome.

 

P/2 – Eu queria dizer, em último lugar, que eu queria ter a não sabedoria que você tem, Evandro. Eu achei que a sua não sabedoria, se eu posso assim chamar, é fantástica, brilhante.

 

R – Tem um filósofo pré-socrático, esqueci o nome. Não, não é pré-socrático, senão ele não teria dito isso. É pós-socrático, esqueci o nome dele. Aceselau, acho que é Aceselau, que ele dizia assim: "Sócrates dizia que nada sabia, eu nem isso sei."

(risos)

 

P/1 – (risos)

 

P/1 – Evandro, você queria... Deixa só a gente pegar uma coisinha, porque ficou um buraquinho. É que você estava falando teve o Sagarana, teve a Boa Vista e agora foi para o...

 

P/1 – Eu só queria completar uma passagem, que você estava contando para a gente do Sagarana, o primeiro sebo que você montou quando deixou de ser publicitário, depois montou a Livraria Boa Vista. E agora...

 

R – Depois eu montei o sebo Avalovara. Como eu estava dizendo, o sebo Sagarana eu me dava ao luxo de separar na vitrine, por exemplo, o que eu achava bom e o que eu achava porcaria. Na minha opinião, evidentemente. Só que eu monto o Sagarana mais radical ainda, eu não deixo entrar coisa ruim. Claro que sempre escapa alguma coisa. Mas eu digo, de um modo geral, que me recuso a vender – no meu Avalovara – Jô Soares, Danielle Steel, Paulo Coelho etc. Quer dizer, eu radicalizei mais. Uma vez entrou lá o Ruy Castro e a esposa dele, a escritora Heloísa Seixas, que é uma escritora que eu gosto, por sinal. Eu brinquei com ele. Ele olhou, falou: "Nossa, que acervo bom." Eu falei: "Aqui você percebeu que o pior é o Borges." E ele deu risada. E eu fiz uma brincadeira também, que eu não sei se ele gostou ou não. Porque eu dedico um livro a eles e digo: "Ao biógrafo Ruy Castro, e à grande escritora Heloisa Seixas." E é isso.

 

P/1 – Deixa só eu retomar, comentando em relação ao acervo: quando alguém entra no sebo, por exemplo, procurando. Chega lá no Avalovara procurando por Paulo Coelho ou esses livros que você põe em uma outra categoria que não literatura. Você indica para a pessoa: "Ó, tem esse aqui que é genial?" Como é que é a tua reação?

 

R – Não, não, não. Não, porque se a pessoa está procurando Paulo Coelho... eu não acredito nesse negócio de que tem conserto. Que a pessoa começa lendo um, depois vai multiplicando. Se a pessoa gosta de ler Sidney Sheldon, Paulo Coelho etc, ela não vai chegar nunca. Quando você gosta de literatura mesmo, sempre tem alguém que o orienta para antes. Sei lá, eu não sei. Não saberia explicar. Mas quem é que gosta de ler esses troços? Eu não me preocupo com isso, não. Eu não sou catequizador. Eu gosto de falar com quem gosta de livro. Evidentemente quando há uma predisposição. Tem cliente que chega e diz: "Olha, eu li recentemente um livro tal, eu gostei muito." E eu já digo: "Poxa, se gostou deste livro..." Mas eu não sou muito de ler. E eu digo: "Já que você gostou deste livro, você vai gostar desse, desse, desse e desse." Então a pessoa se encanta e começa a aparecer mais vezes. "Você pode me indicar mais. Eu gostei tanto daqueles livros que você me indicou..." Porque isso já aconteceu comigo na Livraria Boa Vista. Por exemplo, eu indicar o Giorgio Manganelli, o Hilarotragoedia, é um livro em que o sujeito ensina o sujeito a decair. Você a cair. Ensina como ser um fracassado, mas com humor. Uma coisa maravilhosa. Um escritor italiano genial. Ele tem o livro Centúria, e tem Hilarotragoedia. O cara voltou no dia seguinte e quase me bateu. "Ô, cara, que livro depressivo, você que me matar?" Então é um cara, um público alvo errado. Se eu tenho uma livraria razoavelmente sofisticada eu não posso indicar um livro para quem está habituado a ler. O sujeito que está habituado a ouvir Chitãozinho e Chororó etc, você não pode jogar um Beethoven na cara dele. Ele tem que passar primeiro por Paulinho da Viola, por Cartola, por não sei quem, até chegar em um Villa-Lobos. Você não pode jogar um Villa-Lobos na cabeça dele. E não é o meu trabalho. Seria muita pretensão. Eu tenho um sebinho e ponto final. Mas eu procuro. Sempre, se alguém se interessa, nunca parte. Ontem mesmo entrou uma menina e ela falou: “Ó, me falaram do Rubem Braga, o que é que você acha? Eu quero dar um presente para um amigo meu.” Eu falei: “Um belo presente. É um cronista. Tenha sempre em mente que é um cronista. O que você vai ler aqui são crônicas que saíram em jornais. Uma coisa que pode, de repente... Você vai ver coisas datadas. Mas ele é um sujeito que escrevia bem. Conhecia a palavra, conhecia o português como ninguém. Mas não se iluda. Você não está levando um livro, não está levando literatura. Não está levando coisa de primeiro escalão. Você está levando uma crônica que, por melhor que seja, é uma crônica. De repente você vai ver, ele está falando da moça que passou ali na calçada, tinha um vestido tal que você não vai decodificar. Porque esse vestido nem existe mais. É dos anos 1960, 1970, então tem muita coisa datada. Mas esse, sim, é um cara que vale a pena ler para você começar a se encantar com a palavra. E a partir daí você parte para outros.” Mas sempre perguntando, se não perguntar eu não dou nem bola. Eu não dou bola para cliente, para leitor, para nada. Se perguntar eu estou sempre disposto a falar. Mas se não perguntar eu ignoro.

 

P/1 – Você é um escritor alfarrabista, ou um alfarrabista escritor? Se pode brincar um pouco com essa?

 

R – Pode. Eu acho que eu sou mais alfarrabista do que escritor. Eu não me considero escritor. Não é conversa fiada. Eu não me considero escritor porque escritor é Graciliano, Guimarães, Drummond, Cornélio Pena. Eu estava lendo um livro do Cornélio Pena em que me senti humilhado. Porque uma página dele vale a minha obra inteira. Então eu não sou escritor. Eu sou um cara que vivi uma vida confusa, uma vida cheia de bebedeiras, uma vida procurando me agarrar em alguma coisa. Eu não tive estudo suficiente para ter coisas boas. E no fim da vida tenho um infarto e fico perdido sem saber o que fazer, dizendo: “Pô, porque eu não tento escrever?” Então eu comecei a escrever, velho. Literatura eu comecei a escrever com cinquenta anos e estou tentando ainda. Só que eu descobri um caminho diferente, que é uma linguagem diferente. Quer dizer, eu estou na contramão da história. Se hoje a literatura é “jornalistizada”, eu estou escrevendo uma coisa confusa, cheia de palavreado, etc. Estou na contramão. Sem querer eu entrei na contramão da história da literatura. Bem ou mal eu entrei na contramão. Eu costumo dizer que a literatura contemporânea é “jornalistizada”. O melhor escritor hoje é Bernardo Carvalho, ele escreve é reportagem, na minha opinião. Reportagem bem feita. Esses escritores que estão vivos, se eles vivessem. Eu, inclusive, se vivesse nos anos 1970, perto de Graciliano, de Guimarães, de Osman Lins, era nada. É como futebol na época do Pelé, do Garrincha. É isso. Na literatura acontece a mesma coisa, na música a mesma coisa. Vê a música que está acontecendo hoje e vê Paulinho da Viola, Cartola, Tom Jobim etc. Bom, o mundo ficou chato. Não é saudosismo, não, ficou chato mesmo. Em contrapartida a tecnologia cresceu. Está tudo, você pega um laptop... Tinha uma amiga que estava sentada em um barzinho e abriu um laptop. E eu: “O que você está fazendo?” “Eu estou comprando uma passagem.” “Blé, lé, lé, lé.” “Como comprou uma passagem?” Ela, em um minuto, comprou uma passagem, reservou tudo certinho. Não precisou ir a lugar nenhum. Chegou no aeroporto: "Meu nome é Fulana." "Pode pegar o avião." "Tum." Quer dizer, na época do Sócrates, que tem aqueles papos maravilhosos... Mas acho que se um cara tivesse uma febrinha qualquer morria na esquina. Então há a compensação. E, pensando bem, a literatura constrói o quê? Constrói um... Acho que vale mais o sujeito que descobre uma pílula para curar um aidético do que essa pentelhação nossa de escrever livrinho.

 

P/1 – A literatura salva? Muda o mundo?

 

R – Nada, eu particularmente, eu... Piora. eu costumo dizer que se cada cara que lesse meu livro se matasse, diminuiria o número de gente. Tem gente demais. Gente chata. A proporção é aquela lei de Malthus. Então, acho que tem gente demais não fazendo nada que preste. Vendo Faustão, vendo sei lá o quê, vendo televisão.

 

P/1 – Um mundo bobo?

 

R – Um mundo completamente idiotizado. Mas sempre foi assim. A gente está falando isso por ranzinzice, porque sempre foi assim. Se não fosse assim não fariam na Grécia antiga. A gente canta em verso e prosa, os sábios. Não fariam o Sócrates tomar cicuta. A maioria fez ele tomar cicuta. Um bando de imbecis. Não viram a genialidade ali ao lado. O cara toma cicuta e por aí vai. Então é, o mundo foi idiota desde sempre.

 

P/2 – Só retomando mais uma informaçãozinha que ficou solta. Além da sua filha... Como é que você falou da sua filha…

 

R – Eu tenho uma filha, tenho um filho. Eu não falei deles. A filha é Gisele Antunes Ferreira, e o meu filho é João Rodrigo Antunes Ferreira. A filha tem 38 anos e o filho tem 28. Eu fiquei dez anos em um bar e eu esqueci de voltar para casa.

 

P/2 – Qual a profissão deles?

 

R – A minha filha trabalha comigo no sebo, e meu filho trabalha com celular. Trabalha em uma subsidiária da Vivo.

 

P/2 – Eles são leitores?

 

R – Não, a minha filha lê um pouquinho porque ela trabalha no sebo. Mas não são apaixonados por livro, não. Eles vivem bem.

 

P/2 – Porque quem é apaixonado por livro não vive bem?

 

R – Não. Eu acho que, de um modo geral, quem escreve, são pessoas amarguradas. Pessoas de um modo geral ressentidas etc. Então acho que viver bem é você amar, ser amado. Você ir para a praia e jogar frescobol. Não ficar discutindo Kafka dia e noite. O intelectual de um modo geral é mal resolvido. Se ele tivesse uma Luma de Oliveira, ele não estava esquentando a cabeça em estudar Kafka, Dante.

 

P/1 – A literatura de certa forma, então, transforma o sujeito para pior, você diria? A vida dele fica mais difícil, a convivência com o mundo? Como você define isso?

 

R – Não é a literatura, acho que é o conhecimento. O conhecimento. Você começa a se questionar, você começa a viver mais próximo da morte, você começa a desacreditar nas coisas. Eu vou te dar um exemplo de Santo Agostinho. O sujeito chega para Santo Agostinho e diz: "Que é que Deus estava fazendo antes de criar o mundo?" Ele diz: "Fazendo o inferno para mandar cara chato como você." Entendeu? É isso. Você começa a questionar, é o óbvio que você vai cair em um niilismo até redundante. Você começa a dizer: “Não, e aí? Viver para quê? Para morrer?” “Que troço mais sem graça, pô. Fico aqui…” O Henry James que costumava dizer que a vida é ingrata, porque quando você começa a aprender alguma coisa você morre. Eu já estou no auge da minha, no meu cérebro. Sessenta e dois anos, safenado. Só uma fitinha aqui funcionando. Se eu já sou hoje um idiota imagina há vinte, trinta, quarenta anos atrás. Hoje eu parei para refletir, para ler, para escrever. Ter noção do que é. Não faço parte desses cordeirinhos que vão atrás: "Ó, porque o negro é legal, porque o índio é legal." "Não, é legal e não é. Se eu achar que o negro é um babaca ele é um babaca." Não estou preso a nada. Nada politicamente correto, a coisa nenhuma. Se eu achar que a televisão é coisa de imbecil, é coisa de imbecil mesmo. Não quero ir no Jô Soares, ponto. O Jô Soares que vá plantar batata. Gordo escroto, bobão, babaca. Mas todo mundo: "Ãh, ãh." Gordo bobalhão, um abestalhado. Mas é o fetiche de: "Não, o Fulano está em primeiro lugar." Dane-se que está em primeiro lugar. Não me diz nada. Então quando você começa a se libertar de tudo isso: "Ah, esquerda? Esquerda vá à merda. Direita vá à merda. Vá todo mundo à merda." Você não está atrelado a nada, para fazer grupinhos. Para dizer: “Eu vou fazer isso para agradar a esquerda da USP [Universidade de São Paulo].” Eu quero que a esquerda da USP vá plantar batata. Eu quero que a USP vá plantar batata. Porque eles vão me estudar quando eu estiver morto. Depois de morto que se dane. Eu quero que o Antonio Candido, o Roberto Schwarz, todo mundo vá à merda. Eu não tenho nada com eles, eu sou passarinho. Eu quero é voar e voar à minha maneira. Se o meu vôo agradar. muito bem. Se não agradar, eles que joguem o estilingue em mim, pedra de estilingue e acabou. Não preciso deles. Eu tenho o meu cérebro, eu tenho meu trabalho e ponto final. Não preciso de ninguém. Só preciso do meu médico. Meu cardiologista. Esse, sim. Eu preciso dele. De vez em quando eu tenho um baque, ele aumenta o meu remédio. Um cara importante para mim é, o meu mestre é o meu médico. Doutor Cláudio Stort. Eu coloco ele no nível. Eu chamo ele de meu anjo da guarda, puxando o saco dele. Ele também não cobra. Além do mais ele não cobra. Então é um anjo. E é isso. Obrigado pela gentileza de vocês.

 

P/1 – Obrigado o senhor.

 

R – Eu acho o trabalho de vocês maravilhoso.

 

P/1 – Obrigadíssimo. Eu acho que a gente coletou um material bem bacana, e eu acho que assim, só aproveitar que a gente está gravando um pouquinho. Eu perguntaria para você se você acha que, além dos nomes que você citou, teria alguma sugestão para a gente. Você teria alguma indicação?

 

R – Bernardo Ajzenberg.

 

P/1 – Bernardo Ajzenberg.

 

R – Figura maravilhosa.

 

P/1 – Para a gente conversar.

 

R – Sujeito culto, decente, sereno. Isso seria maravilhoso. Fala para ele. "O Evandro disse que você tem que ir lá porque você é o máximo."

 

P/1 – Legal.

 

R – E ele é o chefão lá do Instituto Moreira Salles. Aquela revista, como é que chama? Caderno.

 

P/2 – Cadernos de Literatura.

 

R – Ele é o tal lá. E ele é bacana. Mas gente finíssima. Não sei se ele vai arrumar tempo porque ele é importante. Importante, ele fica lá que direto

 

P/1 – Ele é ombudsman lá.

 

R – Ele era ombudsman da Folha, tem belos livros. Um cara simpático, bacana, culto, sereno. Não tem essas baboseiras minhas, não. Um cara que deve dar uma bela entrevista.

 

P/2 – Perfeito.

 

P/1 – Bom, a gente agradece.

 

R – Eu é que agradeço.

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