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História

Caminhando a passos largos

História de: Leonie Rosenthal
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Identificação. Vinda para o Brasil. Estudos na Antuérpia e seu primeiro trabalho. A vida na fazenda em Marília. A vinda para São Paulo e a abertura de uma loja de calçados em Moema. O bairro nessa época. A dificuldade para atender a clientela. Os sapatos que vendia e a especialização em números grandes. As embalagens e as formas de pagamento. A clientela da loja. Como parou de trabalhar e a atual administração da loja. O que gosta de fazer atualmente.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Leonie Rosenthal. Eu nasci dia 26 de julho de 1900, na cidade de Ham, perto de Dusseldorf. IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL Nós saímos de Dusseldorf foi em 1937, e fomos para o Brasil. Ficamos os primeiros meses em Marília numa fazenda. Saímos por dois motivos: a gente sentiu que vai ter guerra e também nós não queríamos viver na Alemanha no tempo de Nazismo. Vim com meu marido e meus dois filhos pequenos, de navio, da Antuérpia até Santos. Os meninos se divertiram, tinha mais criança, eles brincaram muito. PRIMEIRA IMPRESSÃO DO BRASIL A primeira impressão foi muito boa. Tínhamos amigos de Dusseldorf que compraram aqui uma fazenda e eles nos convenceram de ir juntos. Quer dizer, ele trabalhou na fazenda e depois meu marido e eu também. Devido a carta do amigo que tínhamos a gente arrumou o visto fácil. EDUCAÇÃO E TRABALHO NA ALEMANHA Na Antuérpia, estudei Contabilidade. E trabalhei num banco. Não era tão comum que as mulheres trabalhassem, mas muitas já trabalhavam. TRABALHO NAS FAZENDAS DE SÃO PAULO A fazenda em que trabalhamos era perto de Marília, era de algodão e café. Era a Fazenda Flor Roxa. Ele trabalhou no almoxarifado. Eu trabalhei no escritório. E tinha os cadernos, cadernetas dos colonos, eles sempre tinham algumas dívidas e a gente fez esses cadernos deles. Foi uma fazenda bem grande. Trabalhei no escritório e ganhei dinheiro. A casa que a gente tinha não custava aluguel e na fazenda tinha o armazém que a gente podia comprar de tudo. Os filhos tinham a escola e os dois meninos aprenderam muito depressa o português. Mais depressa do que os pais, do que nós. Aprendemos na prática, tínhamos livros também. Mas o mais importante foi a prática. MUDANÇA PARA SÃO PAULO Na escola que tinha na fazenda, trocava continuamente a professora, o professor, e bastante tempo não tinha nem professor, nem professora e nós não queríamos que os rapazes perdessem tanto tempo de escola. Esse foi um motivo [que viemos para São Paulo]. O outro foi que os meninos também sofreram de feridas, porque a diferença do ar parece que não fez bem pra eles. TRABALHO EM SÃO PAULO Em São Paulo, eu arrumei muito depressa lugar para trabalhar num escritório de gente alemã. Eu não sei bem o que eles faziam, em todo o caso eu aprendi mais português lá. A firma não estava muito bem e abriram falência. Naquele tempo meu marido arrumou uma pequena loja em Indianópolis. Agora a gente fala Moema. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO Meu marido não tinha nada a fazer, então ele foi ver os bairros pra conhecer mais. Conheceu o senhor que se interessou por ele, perguntando o que estava procurando. Perguntou o que os pais faziam na Alemanha, ele contou que os pais tinham uma loja de sapatos. Este senhor falou: "Ah, então tenho uma muito boa ideia. Tal e tal bairro têm só armazéns. Não tem nenhum negócio especial. Falta imensamente uma loja de sapatos.” Então, dito e feito. SÃO PAULO ANTIGA – MOEMA Moema foi um bairro industrial. Tinha fábricas, oficinas e, naturalmente, também ruas comuns de habitantes. Tinha uma vila, tinha uma firma de tintas. E tinha uma fábrica de parafusos, e uma grande indústria. Não me lembro o que fabricava. Eram indústrias e oficinas, relativamente pouco comércio varejista. O bonde de Santo Amaro que passava lá e tinha muito pouco movimento de carros. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO Meu marido foi nos bairros onde tem indústrias de sapatos e devagar ele fez compras. Primeiro pagava à vista e depois o amigo deu palpite de comprar a prazo senão nunca ia ter crédito, não pode comprar tudo à vista. A gente tinha amigos que deram palpites, que falavam com outras lojas. E a gente procurou fornecedores. Mas precisava trabalhar muito porque meu marido fazia as compras, saía e eu ficava sozinha na loja para atender. Não falávamos muito bem o português, os próprios fregueses ajudavam. Desde o primeiro dia, já tínhamos o movimento mais ou menos significante. E uma freguesa veio e pediu sapatinho vermelhinho. E eu não sabia e não queria mostrar que a gente não entendeu. Fui mexer nos sapatos de criança e ela mostrou o tamanho. Fui olhar e de repente eu vi sapatos vermelhos. Eu falei: "Sim, temos bonitos modelos." Mostrei alguns modelos vermelhos e ela se encantou. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO - SOCIEDADE Meu marido estava muito autoritário, não estava muito meigo. Cada dia ele tinha outras pessoas e me falava antes em não dar muita confiança em pessoas que a gente nem conhece, e nós não falando em português. Então eu falei: "Vamos deixar de procurar sócio, a gente está um pouco assustado, não conhece ninguém por perto e deixa eu ficar como sócia." Dito, feito. PRODUTOS Nós tínhamos de tudo, pra criança, pra mulher, pra homem. [Comprávamos] numa fábrica bem grande, que no momento não me lembro, que oferecia um preço muito baixo. Sapatos que ficavam em estoques na fábrica, tamanhos maiores do que em geral, e fizeram um preço tão barato que meu marido ficou com todo o estoque. Eram uns tamanhos grandes e no bairro tinha muitos europeus, alemães, poloneses etc. Meu marido recebeu os sapatos e colocou na frente da lojinha uma parte com o preço baratíssimo. Muitos homens que passeavam no tempo de folga, de almoço, ficavam na frente da loja olhando e achando barato. Nós liquidamos muito depressa os tamanhos grandes. Já veio uma parte da ideia de trabalhar com números grandes. Com o tempo passamos a trabalhar quase só com tamanhos grandes. E ficamos conhecidos com isso. Pra homem tínhamos acima de 44, 45 e, às vezes, a fábrica nem tinha formas pra isso. A gente mandou fazer a forma por conta própria. E para as senhoras também acima de 37, 38, até 40. Agora nós estamos com essa loja, mas se eu não me engano, ainda estão trabalhando com os tamanhos grandes. FILHOS NA LOJA Em dias especiais eles, os dois filhos ajudavam. Por exemplo, no Carnaval me lembro que vendíamos muitos tênis. Até fregueses ajudavam, subiam na escada e tirava a mercadoria. EMBALAGENS [Os sapatos sempre] foram vendidos em caixas. E no começo, nós pensamos que o lugar foi pouco, mas foi bastante e nós nem tínhamos tanta mercadoria. De forma que a gente que ainda comprou caixas vazias pra encher bem, pra dar uma boa impressão. PAGAMENTO Naquele tempo, as pessoas pagavam mais com dinheiro. A gente naturalmente não podia dar crédito, porque nós não conhecíamos as pessoas. Isso veio só com os anos, até hoje não é uma loja de prestações. CLIENTES Nós tínhamos uma freguesia que tinha bons meios de pagar. Quer dizer, tínhamos sempre uma freguesia boa. Gente sem nada não tínhamos, porque tudo sabia que a gente não vende quase nada a crédito. CASA Primeiro, nós moramos quase pegado num pequeno sobrado. Domingo tínhamos muita amolação, porque gente tocava a campainha e queria que nós atendêssemos, também de noite. A gente trabalhava o dia todo e tinha ainda abrir de noite. Com o tempo nós mudamos para o Brooklin, Brooklin Paulista. Nos primeiros tempos moramos em cima da loja, e mais tarde saímos para aumentar a frente da loja. Nos primeiros tempos não deu [para comprar o prédio da loja], por causa da guerra, o eixo, os italianos e alemães não podiam ter propriedades. Mais tarde, depois da guerra a gente podia comprar, tendo dinheiro. E nós compramos o prédio onde antes foi a venda e depois foi a loja. SEGUNDA GUERRA MUNDIAL Teve um tempo que não podia [falar alemão], estava proibido [no Brasil]. Naquele tempo a gente já falava mais ou menos o português com bastante sotaque, como eu estou falando agora. MODA [A moda] mudou bastante naturalmente. E a gente sempre tem de ver, de liquidar os modelos que já saíram da moda. A gente fazia, de vez em quando, uma liquidação. Isso também hoje em dia vai ter efeito. Já veio pela moda os calçados baixos. Agora já mudou de novo para os saltos largos. Solas embutidas. A moda muda, muda muito e a gente tem que estar a par e liquidar em tempo aqueles que não são tão 100% modernos. PICOS DE VENDA Vende mais antes das festas, especialmente antes de Natal, antes de Ano Novo, Páscoa. Carnaval agora já não sei, antigamente, tênis saía em grande escala. E a moda de tênis, antigamente não estava tão grande como está nos últimos tempos. TRANSIÇÃO Tem um gerente que está na loja há 25 anos, ou mais ainda, e uma moça que entrou, não sei com 15, 16 anos e agora tem 45, e ainda está trabalhando. Minhas três netas também entraram para trabalhar. Trabalhei até os 80 anos. Quando parei, n os primeiros tempos eu senti muita falta. Mas com o tempo a gente se conforma do que gosta. Não precisa trabalhar mais, mas gostei demais meu serviço. LAZER Hoje em dia eu leio muito.Leio o jornal primeiro. E a Veja e livros da Rachel de Queiroz, que eu gosto muito. Em alemão e em português, tanto faz. VIAGEM À ALEMANHA Eu voltei uma vez. Fiz uma viagem junto com uma das minhas netas, em 1980, já faz algum tempo. Não [tiver vontade de morar na Europa]. Eu gosto de morar aqui e quero morrer aqui. A viagem foi depois da guerra, ainda tinha muitas ruínas. Muitos prédios que não foram reconstruídos.

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