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História

“Caminar se hace el camino”

História de: Dilson Dalpiaz Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2004

Sinopse

“O primeiro DDD”, Dílson Dalpiaz Dias vem de uma família que retrata o “caleidoscópio da formação étnica do brasileiro”. Nasceu em Caçador, Santa Catarina, mas já aos seis anos precisou ganhar maturidade para morar em uma pensão longe de casa e seguir com os estudos, sustentados pelo pai. Leitor assíduo e influenciado culturalmente pelo amigo, “irmão de coração”, ainda na juventude descobre a vocação para as Ciências Exatas e decide pela Engenharia Mecânica, na Universidade Federal de Uberlândia, cidade em que se sentiu acolhido. Da roça às telecomunicações, acompanha desde cedo a trajetória da CTBC, tendo podido aprender e desenvolver seus projetos na empresa.

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História completa

P/1 – Bom dia, senhor Dílson. Eu gostaria que o senhor, por favor, dissesse seu nome completo, a data e local do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Dílson Dalpiaz Dias, eu nasci dia 15 de agosto de 1947, em Caçador, Santa Catarina.

 

P/1 – O seu pai e a sua mãe, senhor Dílson, por favor.

 

R – Meu pai se chama Nabor Tibes Dias, é catarinense também, de Curitibanos, tem 77 anos. Minha mãe é Maria Elísia Dalpiaz Dias, ela é gaúcha, de Santa Maria, e tem 72 anos. Ambos vivem em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

 

P/1 – O senhor conheceu seus avós?

 

R – Conheci, só não conheci o meu avô paterno.

 

P/1 – O senhor se lembra do nome dos seus avós?

 

R – Sim. A minha avó paterna se chamava dona Rosa Tibes Dias, minha avó materna, Hermínia Comaski Dalpiaz, e meu avô paterno Celeste Dalpiaz.

 

P/1 – Qual é a origem da sua família, o senhor tem conhecimento?

 

R – Eu diria que a minha família, considerando a minha origem do Sul, ela é um caleidoscópio da formação étnica do brasileiro. Santa Catarina tem índio também, e ela foi colonizada inicialmente por açorianos, que hoje ficam no litoral. Então a origem do meu avô paterno era de portugueses, e da minha avó paterna... Ela era filha de um alemão com uma índia. E da minha mãe, o meu avô materno era filho de italianos imigrantes, e a minha avó era filha de poloneses, que lá no Sul a gente chama de ‘polaco’. Eu sou fruto dessa salada de fruta racial.

 

P/1 – Os seus avós é que foram os imigrantes, né?

 

R – Não, os meus bisavós.

 

P/1 – O senhor se lembra da sua casa da infância lá em Caçador, como é que ela era, onde é que ela ficava?

 

R – Olha, eu tenho uma lembrança muito vaga, porque eu era muito jovem, devia ter quatro anos. Nós morávamos na fazenda, a atividade básica era a pecuária, e lá a região, essa região, fica no alto da serra. Hoje Santa Catarina é muito conhecida pela beleza das praias, pelo litoral e pelo Vale do Itajaí, onde tem a colonização alemã. Mas eu nasci na serra, no alto da serra. Dali começa as planícies, que vão até a divisa da Argentina, onde hoje é conhecida pelas empresas da área de avícola. E lá era, à época, a região dos pinheiros. Então houve uma exploração muito forte da madeira do pinheiro. Os campos eles eram... Como aqui nós temos um cerrado, lá a árvore predominante era o pinheiro. Então me lembro muito disso, algumas passagens na fazenda com os meus pais. Depois, a gente mudou para o Mato Grosso. Inicialmente o meu pai foi para uma cidade que chama Porto Espiridião, próximo de Cárceres, que é divisa de Mato Grosso com a Bolívia, no Rio Paraguai. E foi um choque, porque a diferença de temperatura é muito grande. Ele falava que ele estava cansado de passar frio lá em Santa Catarina, então, ele quis um pouco de calor. Só que ele exagerou na dose, né? Ainda bem que ele corrigiu a tempo, voltou para Campo Grande logo depois. Mas, então, ele foi primeiro, e depois eu lembro que nós fizemos uma viagem de trem lá em Santa Catarina até Curitiba; depois tomamos o avião e fomos até Cuiabá, no Mato Grosso e, finalmente, chegamos a Cárceres, na divisa da Bolívia. Ficamos pouco tempo lá, e depois a gente se radicou em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Campo Grande eu me lembro bem. No início, a gente morava na fazenda, meu pai sempre teve atividade rural, ou pecuária ou agricultura. Eu fui alfabetizado na fazenda (risos). Nesses momentos a gente lembra de coisas interessantes, eu aprendi a ler em inglês, só que eu falava em português. Eu não sabia o que era isso. Na fazenda, à época, a iluminação era com... Aqui chama candeeiro, lá era lamparina. Você usava as latas de freio, do fluído de freio para o breque dos carros... Tem até hoje, se assemelha a uma lata de azeite de oliva. E eu aprendi a ler, meu pai me alfabetizou lendo naquilo. A gente lia a palavra em português, só muito mais tarde que eu descobri que aquilo era uma palavra inglesa (risos). É uma coisa interessante, eu fui alfabetizado assim. “Fuel” acho que foi a primeira, “oil”... Foram as primeiras coisas que eu aprendi a soletrar. Acho que era Mobil, era da Mobil. Mobil Oil, se eu não me engano. “Hidraulic”, né? Aí eu aprendi aritmética, tal, e fui alfabetizado pelo meu pai. Quando eu tinha por volta de seis anos de idade, ele me levou à Campo Grande, e acertou com os proprietários de uma pensão que eu ia estudar, ia ficar lá. Então me deixou, nunca esqueço isso. Eu fiquei... É muito interessante, ele era muito democrático nesse sentido. “Você quer estudar? Então você vai estudar. Você vai ficar sozinho, porque eu não posso vir te buscar, e quando terminar...” Ele foi, me matriculou em um colégio, com o diretor do colégio, e foi dada a data que terminava as aulas. Ele combinou com o motorista, o dono do... Lá chamava-se jardineira, seria o transporte coletivo que tinha. Porque naquela data ele ia passar na pensão onde eu morava e ia me pegar para me levar para casa passar as férias, foi a única informação que eu tive.

 

P/1 – Com seis anos de idade?

 

R – Com seis anos de idade. Isso foi em 1950... Acho que foi em 1955, tinha sete para oito anos de idade. Então eu já fui alfabetizado. Eu lembro que o primeiro ano do primeiro grau tinha três escalas: A, B e C. Eu fiz um teste, já entrei no C, porque eu já era alfabetizado, já sabia aritmética, aquelas coisas básicas. E foi curioso, eu até viajei [recentemente], na Semana Santa, na Páscoa, fui ver meus pais em Campo Grande. E, por uma questão de facilidade, a gente foi de carro; fui eu e minha esposa. E nós fomos conversando, lembrando esses negócios. Eu lembrei que a minha primeira nota eu chorei, tive um sentimento de fracasso terrível porque eu tirei terceiro lugar. Eu fui com uma, uma... Que eu tinha que tirar nota dez em tudo. Mas foi o primeiro mês de escola, pô! (risos) Então nunca esqueço isso. Eu tirei terceiro lugar, mas no mês seguinte tirei segundo e depois era só o primeiro lugar, porque meu pai estava lá na fazenda, lá na roça. 

 

P/1 – A fazenda distava quanto de Campo Grande?

 

R – Olha, a distância geográfica não é muito longe, não era muito longe, coisa aí de cento e poucos quilômetros, talvez, mas podia levar um dia ou dois. Dependia da estrada, se chovia, se o carro quebrava, se não quebrava. Até eu fiz um comentário com meu pai agora, uma semana atrás, que mudou a temperatura lá em Campo Grande, esfriou. Eu comentei com ele: “Olha, o maior frio que eu passei na minha vida foi quando eu voltei nas primeiras férias.” E o ponto – que a gente chamava – da jardineira ficava um pouco distante da fazenda. O transporte era cavalo, mas como o meu pai sabia o dia e a hora que eu deveria sair... Mas não sabia quando eu chegava, então não tinha condição dele ir lá me esperar. A gente chegou era tarde da noite, eu conhecia o caminho e eu fui até a casa de uns agricultores que eram vizinhos, mas era um vizinho que, considerando o horário, não dava para chegar. Era escuro, de noite, frio, eu estava sozinho, um garoto de sete anos, poxa! E eu dormi. Aquelas pessoas me abrigaram, eu dormi em uma rede, e foi a noite mais fria que eu tive na minha vida. E olha que eu já conheço alguns Alpes, algumas montanhas por aí. Mas, porque eu dormi em uma rede – e a rede fica exposta – e, pela própria situação da região de Campo Grande, era uma casa simples, chão batido e com frestas, porque lá é muito quente, frio nunca existia. E você fica encolhido, então foi o maior frio da minha vida, doía no osso, assim. Eu estava comentando essas coisas com ele. Lógico, não morri, não foi nada de excepcional, mas eu não via a hora do sol nascer. O sol nunca demorou tanto para nascer (risos). Então são algumas passagens interessantes que a gente se recorda, sabe?

 

P/1 – O seu pai era... O nome da fazenda do seu pai, qual era?

 

R – Essa que eu estou citando se chamava Fazenda Salobra, porque o rio que passava tinha a água um pouco salgada.

 

P/1 – A fazenda de Caçador?

 

R – Eu não me recordo o nome da fazenda, eu não me recordo. Eu sei que era São João. Na época, você tinha uma fazenda grande, então era Fazenda São João, aí tinham várias propriedades. Quer dizer, a fazenda, propriedade do meu avô, ela chamava Fazenda São João.

 

P/1 – Voltando à Campo Grande; esse garoto de oito anos, de sete, oito anos, morando sozinho, como é que ele se divertia, como é que ele se relacionava? Como é que era a sua vida nessa pensão?

 

R – Eu sempre tive um temperamento muito fácil, muito aberto, sabe, de [se] relacionar. Então é evidente que o desconhecido sempre te atemoriza, né? Mas eu acho que até pela própria vida de quem nasce no campo, os seus valores pessoais... Você acaba tendo autoconfiança. Eu tive uma formação religiosa também dentro de casa. Tinha o dia de ir à missa, tinha o catecismo, tinha um ritual do domingo e o colégio. E tinha outros... O filho da dona da pensão também era um garoto um pouco mais velho do que eu, aquilo permitia um relacionamento, e eu brincava lá normalmente com os outros garotos, na escola. Eu me relacionava. Eu até comento com meus filhos, eu tive uma passagem interessante, porque, como eu era muito obediente, disciplinado... Quer dizer, o adulto fala, a criança escuta, não tem que responder. E, no início, a dona da pensão começou a me dar uns serviços que no meu entendimento não estava no acordo que o meu pai fez. (risos) Ele pagava a pensão para mim. Quando eu cheguei das férias, comentei aquilo com ele. Ele falou: “não, você não tem que fazer isso.” Porque isso era usual na minha casa, você tratar da... Numa fazenda você cria galinha, cria porcos, tem a vaca, você separa o bezerro, ordenha leite, cuida do cavalo, trata dos porcos. Então é normal a sobra de comida, você ir depositando e depois complementa a ração alimentar dos animais. E na pensão você imagina o quanto que tinha de sobra de comida. Então eles lá me botavam para tratar dos porcos, juntar sobra da comida... E eu fazia aquilo, para mim era normal, porque na minha casa isso era uma das minhas atribuições. Porque na fazenda todo mundo colabora. Então, eu lembro disso, sabe? De certa forma, a dona da pensão deu uma encostadinha em mim, e eu fiz aquilo com naturalidade, e faria, continuei fazendo, mas não com obrigação, e sim como uma colaboração. Eu estou contando isso porque é essa dosagem, quer dizer, você... Eu tinha uma educação, uma disciplina, mas tinha um senso crítico da razoabilidade daquilo.

 

P/1 – “Até que ponto eu sou obrigado a fazer isso...”.

 

R – Até que ponto eu sou obrigado e [que] não me prejudique, né? É diferente.

 

P/1 – E a reação à sua volta depois dessas primeiras férias, como é que ficou o novo quadro da sua vida na pensão?

 

R – Eu creio que, como disse, entrou nos trilhos (risos). Porque não poderia ser diferente. Eu não tive nenhuma represália, em absoluto, como não deveria ser. Era uma relação muito... Assim, muito, de certa forma, tranquila. Naquela época a educação era normal, a persuasão física, chegar ao chinelo mesmo, chegar ao cinto, o arreio, isso era normal. Mas a dona da pensão, esse pessoal... Nunca vi um relacionamento desses, nunca tive esse tipo de problema, sabe?

 

P/1 – O senhor tem irmãos?

 

R – Eu tenho uma irmã.

 

P/1 – Ficou na fazenda nessa época?

 

R – Nessa época ela era bem jovem, porque ela nasceu... Ela já é campo-grandense.

 

P/1 – Essa escola em Campo Grande que o senhor estudava, o senhor se lembra da sua primeira professora, o nome da escola?

 

R – Eu lembro, se chamava Externato São Francisco. Eu me lembro do diretor, que era o professor Ernesto. Era uma pessoa que o meu pai tinha conhecido, e ele era o dono da escola, era o diretor, era uma pessoa bem intelectualizada. Lembro que isso passa alguns valores para você. Eu tive muita sorte com isso. Depois eu fui para outra escola que tinha outro professor que tinha sido seminarista, chamava professor Aguiar, tinha a oratória muito boa, era o professor de português e de latim. Isso marcou muito esse lado mais... Eu diria menos da área de exatas. E é até interessante que depois eu acabei sendo engenheiro. Hoje a engenharia é um background fabuloso, me orgulho muito disso, mas as atividades que a gente desempenha acabam tomando outro rumo.

 

P/1 – A escola... De onde veio essa compulsão de querer ser sempre o primeiro aluno, desempenhar-se bem na escola? Isso é uma coisa que o senhor trouxe de quem?

 

R – Eu trouxe do berço. Eu acho que, literalmente, a resposta é ‘do berço’. Eu não sei o quanto tem de DNA nisso e quanto tem da postura, da educação que eu tive.

 

P/1 – O senhor fica em Campo Grande até quando?

 

R – Eu fiquei em Campo Grande até terminar o terceiro colegial. Acertei a minha vida de reservista né, Serviço Militar... Campo Grande sempre foi uma cidade muito militarizada, então tinha uma oferta muito grande de Serviço Militar, e eu fui dispensado do Serviço Militar, eu estava no terceiro colegial. Fiquei em Campo Grande até essa época. Agora, a gente sente pela educação dos filhos, era muito mais multidisciplinar a formação da garotada naquela época. Eu fazia teatro, escrevia peça de teatro, a gente pesquisava. O modelo da educação eu acho que era muito mais humanístico, muito mais europeu. A gente tinha aula de Latim, tudo isso; Filosofia, muito pesada a História, né? História Antiga, Moderna, História das Américas, do Brasil. Eu diria que o método não era muito amigável, que você tinha que ralar, era decorado e tal, mas eu não sei por que, eu sempre gostei muito de ler, sou um leitor fanático, sou um contumaz. Às vezes a gente está fazendo alguma coisa no dia-a-dia e a minha mulher me pega, às vezes: “não, me ajuda aqui, vamos embrulhar isso.” E pega um pedaço de jornal. De repente ela me flagra: eu estou embrulhando e lendo (risos). “Mas de quando que é isso?” “Sei lá de quando que é o jornal! Tem uma notícia interessante.” (risos) Então isso sempre puxou muito, esse lado do sistema educacional da época. E eu fiquei em Campo Grande até terminar o terceiro colegial. Chamava-se Científico na época; você tinha o Clássico, que era as pessoas que já iam para o Direito, eram mais da parte mais filosóficas, fazer Letras e tal; você tinha a área contábil e tinha o Científico, que era para as [Ciências] Exatas e Médicas. O pessoal que faria Medicina, Odontologia, Engenharia, fazia o Científico. Eu fiz o Científico.

 

P/1 – Durante todo esse período, senhor Dílson, indo à sua casa, à fazenda, apenas nos períodos de férias?

 

R – Apenas nos períodos de férias. Eu tive um ano que eu fiquei estudando na escola na fazenda, porque o meu pai perdeu toda a safra agrícola dele, ele não teve dinheiro para eu voltar.

 

P/1 – Safra de que?

 

R – A safra agrícola. Ele plantava arroz, era agricultor. Ele teve três anos seguidos de perda. Um ano foi a seca que torrou tudo; no ano seguinte ele plantou, aí choveu demais, ele perdeu tudo de novo. Lembro que no outro ano veio uma praga de lagartas, e aquelas... Comeram todo o caule do arroz. Então foi uma fase muito terrível para a gente, aí eu fiquei estudando na fazenda. Tinha uma escola rural, e o curioso dessa escola é que todas as classes ficavam em uma mesma sala, era uma mesma professora (risos). Hoje isso é um pouco inédito, mas à época isso acontecia. Então, a professora era uma heroína, né, porque ela pegava desde as crianças... Tinha uma turminha que ela alfabetizava, tinha uma turminha de um grau melhor e tinha uma turma de um grau mais evoluído. Eu lembro que eu fiz o meu segundo ano primário nessa escola.

 

P/1 – Como é o nome dessa heroína?

 

R – Abigail, era dona Abigail. Eu ia a cavalo para a aula, e eu levava dois litros de leite para a professora (risos). Era uma maneira de custear a escola, né?

 

P/1 – Nesse período, as suas atividades dentro da fazenda, independentemente da escola, o senhor ajudava, tinha suas atribuições?

 

R – Ah, sem dúvida, sem dúvida, ajudava. Porque a vida na fazenda é muito solitária, tem que ter a solidariedade. Era eu, minha irmã, meu pai, minha mãe: todos trabalhavam. Nessa época a gente não tinha máquina agrícola, usava o cavalo como auxiliar, aqueles arados para ajudar fazer a limpeza da roça. A minha mãe ajudava, ela tinha um cavalo com o seu arado, meu pai tinha um com o dele e eu e a minha irmã cuidava da logística, da retaguarda... Cuidar de que o feijão ia ficar pronto na hora do almoço. Teve uma vez eu queimei o feijão. Nossa Senhora!

 

P/1 – Conta essa história, senhor Dílson.

 

R – (risos) Minha irmã devia ter dois, três anos; eu tinha sete, oito, por aí, e nós cuidávamos do feijão. Meu pai e minha mãe na lavoura, quando chegava a hora a gente preparava o almoço. E a gente se distraiu, lógico, garoto, criança, fomos brincar não sei com o que lá, [nos] distraímos, e quando vi foi o cheiro, a fumaça do feijão. Não tenha dúvida, foi compreendido, mas houve uma corretiva, levamos uma senhora coça, viu? (risos)

 

P/1 – Eu queria que o senhor refletisse hoje: era muita responsabilidade para crianças em tão tenra idade? O senhor foi morar sozinho, em uma cidade estranha; o senhor e a sua irmã cuidando da retaguarda, da infraestrutura de trabalho dos seus pais. Como é que o senhor avalia isso na distância do tempo, o que isso significou no seu espírito, na sua alma?

 

R – Eu acho que isso... Eu diria que é pioneirismo. Acho que são coisas dos pioneiros. Você tem o risco e tem o perigo – até aprendi uma brincadeirinha. A minha sogra faleceu, mas eu adorava a minha sogra. E tem uma história de sogra: diz que o perigo... O risco é a sogra morar na mesma cidade. Se tem uma sogra, morar na mesma cidade é um risco. Agora, o perigo é ela morar na sua casa (risos). Eu diria que a minha mulher ia dizer a mesma coisa do sogro.

 

P/1 – Provavelmente.

 

R – Mas, então, eu acho... Por que eu digo do pioneiro? Porque o pioneiro ele arrisca. E é interessante como isso reflete. Os meus dois filhos moram fora, estudam fora. A minha filha foi morar no exterior com 15 anos, e foi fazer parte da formação dela [lá]. Lá ela enfrentou o desconhecido, viajou sozinha, fez vários transbordos, morou nos Estados Unidos, no interior, e passou as dificuldades dela. Ela voltou, morou com a gente mais algum tempo e hoje ela mora em São Paulo. Em uma semana ela dirigia dentro de São Paulo, aquilo para ela foi uma coisa normal. O meu filho foi interessante; um dia, nós estávamos em uma convenção do grupo, num Codex, a gente chegou ele só nos informou. Ele tinha 16 anos, falou: “olha, eu fiz a reserva do meu intercâmbio internacional, a data é tal, se vocês tiverem de acordo eu estou indo.” (risos) Foi morar na Califórnia, isso há oito anos. Hoje é muito mais rotineiro isso. Eles moram só, moram sozinho. De fato sozinho, foi opção deles de morarem sozinhos. Acho que, de certa forma, isso fica em uma cultura hereditária. O meu pai morava lá em Santa Catarina, isso 50 anos atrás. A migração no Brasil não era uma coisa normal como é hoje, até pela dificuldade de transporte, e ele leu alguma coisa no Mato Grosso, que tinha no Mato Grosso e conversou com a minha mãe, que também era filha de imigrantes italianos, que tinham uma colônia, uma vinha, e falou: “olha, eu estou disposto a fazer uma aventura, de conhecer esse mundo, ver lá, diz que é uma amplidão de terras. Eu tenho lido, tem o Pantanal, tem onça, tem isso, tem aquilo. Eu quero ver isso, topa?” “Topo.” Quando ele foi eu era pequenininho, e ela estava grávida da minha irmã. Algum tempo depois, alguns meses, ele mandou uma carta: “oh, o caminho é esse. Você vai.” Ele acabou de vender as coisas que ele tinha para receber o dinheiro e foi embora.

 

P/1 – Esse tipo de atitude que acaba temperando o espírito das pessoas?

 

R – Eu creio que sim. Os filhos acabam vendo isso, ouvindo isso, e é interessante que tem certo planejamento, e tem outro que é do acontecer. Como diz o poeta espanhol: “caminar se hace el camino.” Então... Quando eu fui casar, a minha esposa era a última de cinco filhos, quatro filhas. Ela era a caçula, bastante jovem. Ela se casou com 18 anos. O meu sogro falou para ela: “olha, minha filha, você quer casar, faço muito gosto, mas eu tenho uma preocupação: acho que eu vou te ver muito pouco, porque pelo que eu sei do Dílson, você vai ser uma pé na estrada. Oh, não sei para onde você vai, [não] estou preparado para isso.” E foi incrível, nos primeiros dois anos, nós mudamos oito vezes (risos). Casamos aqui, morávamos aqui em Uberlândia; fomos para Ituiutaba, lá mudamos duas vezes de casa; viemos para cá, fomos para uma casa, para outra, para apartamento, para outro, para outro... Um dia ela falou para mim: “acho que o meu pai tinha razão, viu?” Mas paramos aí. Só [por] três anos que a gente teve uma mobilidade maior, aí acabamos ficando em Uberlândia. É interessante esse tipo de coisa.

 

P/1 – Senhor Dílson, nesse período de Campo Grande o senhor fica até o terceiro Científico. Ficou morando na mesma pensão o tempo todo, onde o seu pai havia lhe deixado?

 

R – Não. Eu fiquei nessa primeira pensão, aí aconteceu aquele fato que eu tive que ficar um ano estudando na fazenda, na escola rural. Eu acho que isso são coisas que marcaram muito, porque a gente tinha que improvisar, essa professora ajudava na improvisação. A gente criava tudo ali. Eu acho que isso foi uma coisa que eu guardei aqui dentro. Depois eu voltei, já fui para outra pensão, que hoje é tombada. É um monumento histórico de Campo Grande, está lá, chama Pensão Pimentel. É um prédio, um estilo colonial meio rococó, sabe? É um museu. Não sou peça de museu ainda, mas... (risos) E essa pensão ficava próxima do colégio que eu fui estudar quando fiz o ginásio, que era o Colégio Oswaldo Cruz. Eu ia a pé, era só um quarteirão do colégio, e isso ajudou. Aí ao longo do ginásio eu fui fazendo amizades, e eu tive um colega que era filho único. Quando a gente terminou o ginásio, ele me convidou para morar com ele, porque os pais eram pessoas que tinham o poder aquisitivo bem razoável, e tinham construído uma casa, e a casa ficou muito grande, ele era filho único. Falou: “puxa, você já vive lá comigo e tal, a gente estuda muito...”. Eu ia muito fazer dever, aí eles me convidaram para morar com eles, e fui morar com eles. Isso foi... Teve uma influência muito grande na minha formação cultural, intelectual e cultural, porque eles eram pessoas bastante voltadas para essa área de leitura. Ele estudava piano em conservatório, então eu comecei a tomar gosto por música, em compreender música clássica, com a vida dos compositores, a própria música popular, à época. Primeiro era aquela, a invasão americana de Elvis Presley, Paul Anka, Neil Sedaka, com a influência latina, porque em Campo Grande é muito próximo do resto da América do Sul, influência boliviana, paraguaia. Então as músicas latinas, os tangos, os boleros. Aquilo fez a gente ir tomando gosto e também a frequentar os meios sociais. Eles eram sócios dos clubes da cidade, e aquilo permitiu eu ter acesso a informações e a um relacionamento... Porque eu acho que isso influiu muito ao fato da gente começar a se sentir a vontade em qualquer ambiente, em qualquer meio e, com isso, poder crescer, evoluir. Você poder ser contributivo nisso, né? Eu sempre gostei muito de ler, então o meu pai, teve uma época que ele passou a ser o encarregado de uma grande fazenda que tinha tanto atividade pecuária como de lavouras. E as pessoas que... Eram dois sócios que eram proprietários dessas fazendas. Um morava em São Paulo e o outro morava em Campo Grande. Então assinavam revistas internacionais. Hoje, ainda existe a Reader’s Digest. Eu lia muito Reader’s Digest, e lá eles têm aqueles livros condensados. Era um acesso a um mundo, porque eu, puxa vida, através da leitura, eu conhecia o mundo, eu viajava. A Bíblia sempre ajuda muito, talvez até pela solidão da fazenda, mesmo em férias, dois, três meses. Lia a Bíblia profundamente, e muito pelo lado histórico. E meus pais sempre tinham muita curiosidade com isso. Eu lembro que a minha cota de leitura era uma vela (risos). Lia até queimar a vela, porque eu, acostumado... Na cidade, de qualquer forma, você vai dormir um pouco mais tarde. Na fazenda, a ordem de você ir dormir é o entardecer. Escureceu, o que você vai ficar fazendo? Porque no outro dia a faina diária é também com o raiar do dia, então eu já tinha uma... Já era um pouco diferente o meu regime, até ter sono eu ia ler. Então essa convivência com eles foi uma mudança de patamar muito grande na minha vida.

 

P/1 – Como é o nome desse casal, seu Dílson?

 

R – Era seu Nilton Évora – ele é falecido –, e a esposa dele, a dona Hercília Barbosa Évora. Ela é viva ainda, mora aqui em Ribeirão Preto, porque o filho, Paulo Roberto, que é esse meu irmão de sangue... Não de sangue, mas irmão de coração, irmão de fato, o irmão que eu tive, de fato. Ele estudou Medicina. Ele foi um ano antes, nós fizemos o colegial juntos, aí ele foi para São Paulo fazer cursinho de Medicina, e eu fiquei mais um ano em Campo Grande, e optei por fazer Engenharia. Fui para São Carlos, porque Campo Grande à época só tinha Direito e Filosofia, que eram os padres salesianos. Eu fui fazer Engenharia em São Carlos e... Bom, aí é outra parte da história, né?

 

P/1 – E de onde veio essa vocação, essa descoberta? Por que o senhor quis fazer Engenharia?

 

R – Olha, eu pensava muito em Medicina, mas eu nunca tive muita... Eu gostava de contas, e quando eu comecei a ter aula de Física, de Química, aquilo me despertou, sabe? E eu não sei, talvez Medicina eu tivesse que ir para São Paulo também, e as condições de recurso eram muito mais difíceis... Eu não sei também, no fundo talvez para não parecer que eu estava simplesmente querendo seguir o Paulo Roberto. Talvez, eu não sei. Eu nunca parei muito para refletir nisso não. Ou talvez uma outra situação, de falar assim: “Puxa, médico não tem hora. Não tem hora para dormir, não tem hora para levantar.” Aí eu digo, se foi por isso, eu tive um ledo engano, caí do cavalo, porque eu fiz Engenharia, fui trabalhar em telecomunicações,  que não tem hora, é 24 horas por dia, ‘rock around the clock’. Eu passei mais de 25 anos da minha vida plantonista permanente, vamos dizer assim.

 

P/1 – E São Carlos, São Carlos o senhor entrou na Universidade, fez o vestibular lá?

 

R – São Carlos foi... Eu acho que São Carlos foi o primeiro choque que eu tive dos patamares de recursos que você tem disponível até para o aprendizado. Porque em que pese todo o esforço, eu estudei em um colégio estadual lá em Campo Grande, professores muito dedicados, mas os recursos didáticos, vamos dizer assim, a profissionalização era muito mais voltado para o lado das humanas, era muito mais humanístico. E eu “paff”, quase caí de paraquedas. Caí de paraquedas em um curso de Engenharia, que eu vinha só com a minha formação normal, aí eu fui fazer um cursinho e eu vi que o furo era muito mais embaixo. Então eu tive que me aprofundar muito na área de Física, de Matemática, na parte de exatas mesmo, porque o meu colegial não contemplou isso. E lá tem um outro fato que vai dar um link com uma pessoa que está no grupo até hoje, que é o Weber Pimenta de Melo, diretor de operações da CTBC. Eu fui para São Carlos e, chegando lá, fui me arrumar, consegui dormir em uma república. E fui me ajeitando, e conheci uma pessoa que, conversa vem, conversa vai, ela era de Minas [Gerais], eu era do Mato Grosso, ele era o mineiro. Fizemos um cursinho rápido, um preparatório de um mês, um mês e meio. Eu fiz, não passei naquele vestibular, senti a diferença que era do meu nível de preparo. E esse mineiro sumiu, nunca mais vi. Aí eu fiquei um ano estudando em São Carlos, e me preparei para fazer vestibular lá, e também me inscrevi no Rio de Janeiro, na Nacional de Engenharia. Quando estava terminado o ano letivo, me aparece o tal mineirinho: “oh, você sumiu...”. “Não, eu estou fazendo Engenharia. Eu descobri uma escola Federal em Minas.” “Em Minas? Aonde? Juiz de Fora, Ouro Preto, Belo Horizonte?” – que era só isso que a gente conhecia – “Não, Uberlândia.” “Onde é que é essa tal Uberlândia?” “No Triângulo Mineiro, perto de Uberaba e tal.” Falei: “mas como é que é?” “Não, é uma escola Federal que está no segundo ano de funcionamento, de Engenharia, tal, tal, e tal. Por que você também não se inscreve, não faz vestibular lá?” “Ué, por que não? Você leva os meus negócios?” “Levo.” Vestibulando sempre tem um kit pronto; ele levou, trouxe o meu kit para cá e eu fiz vestibular em São Carlos, fiz na Nacional do Rio e vim fazer aqui em Uberlândia também. Eu vim para Uberlândia quando já tinha feito os outros dois.

 

P/1 – Nós estamos falando de que ano, senhor Dílson?

 

R – Nós estamos falando de 1967. Em 1966 foi o ano que eu morei em São Carlos. Foi o primeiro ano que eu votei., votei para governador, era o Carvalho Pinto. Nunca me esqueço disso, meu primeiro voto não esqueci não. E era o auge do Regime Militar, vocês imaginam. Era o segundo ano da revolução, era o ativismo estudantil muito forte, eu tinha professores altamente contestadores. Depois, eu soube que um deles foi até metralhado na época pesada da repressão. Mas também foi a época que começaram os grandes movimentos. Começou Tropicália, começou Jovem Guarda, Caetano, Gil, Vinícius, Jobim. Eu nunca esqueço que eu conheci os sonetos do Jobim, eu conheci o Soneto da Separação.

 

P/1 – Soneto de Vinícius.

 

R – Desculpe, de Vinícius. Antes de ele ser... Ele ainda era poeta e diplomata, muito antes dele se tornar músico. Então eu vim para São Carlos por indicação de um dos sócios que era proprietário da fazenda que o meu pai era encarregado. Ele era de Ribeirão Preto, ele falou: “Olha, lá perto de Ribeirão tem uma cidade que eu escuto falar, uma cidadezinha lá muito fria, mas disse que tem uma escola de Engenharia muito boa, por que seu filho não vai para lá? Eu acho que ele devia fazer Contabilidade, porque aí ele ia ganhar dinheiro logo, ia te ajudar, mas se você teima que ele quer fazer engenharia, se você der conta de sustentar ele lá, São Carlos é uma cidade módica que ele vai poder viver com aquilo que vocês puderem, com os seus meios.” Aí eu fiz... Fiquei esse ano em São Carlos, eu aprendi muito. Tenho essa grata lembrança até hoje, sabe? Mas, são coisas interessantes. Eu conheci televisão ao vivo em São Carlos. Eu tinha 17 anos, a TV estava recém... Mas lá em Campo Grande não chegava ao vivo, não tinha os meios de transmissão, era tudo videoteipe, tal. É interessante essa parte.

 

P/1 – Essa vinda para Uberlândia, portanto, foi um pouco provocada por esse seu amigo Weber?

 

R – Foi. Foi uma recomendação dele, foi provocada. Aí eu vim para cá fazer o vestibular. Eu nunca me esqueço, era Viação São Bento, que está até hoje aí.

 

P/1 – Você veio de ônibus de lá?

 

R – Eu vim de ônibus. Vim de ônibus de São Carlos até Ribeirão Preto e Ribeirão foi uma dificuldade danada, porque eu não achava esse ônibus para Uberlândia. Tinha uma tal de fazenda Usina Junqueira que eu não sabia onde era, e tinha um tal de Araguari, porque a linha de ônibus era Ribeirão Preto/Usina Junqueira/Araguari, e Uberlândia era um ponto de parada, uma passagem. E eu vim para cá. Eu costumo dizer que eu trouxe uma carteira de identidade e alguns trocados, porque a gente achou que ia morar, ia ficar na república. Quando eu cheguei, não tinha vaga na república, então eu fiz minhas contas: eu tinha dinheiro ou para pagar pensão ou para pagar comida. Quer dizer, ou eu almoçava ou eu dormia (risos). Optei por dormir, porque ficar no relento não dava. Essa passagem é muito interessante, porque eu fiquei em um hotel, que até pouco tempo tinha... Ele fica ali ao lado do Uberlândia Clube, em um sobradinho. E quando eu saí à tarde, no domingo, que eu estava atravessando a avenida, eu encontro o mineiro Weber lá: “Oh, tal, como é que é, como é que não é? Oh, Mato Grosso, você veio mesmo?” “Vim.” Conversa vem, conversa vai: “Eu estou indo para a minha casa. Vamos para lá? Vamos tomar um lanche?” Não tinha nada... “Tá, vamos tomar um lanche.” Chegando lá, conversa vem, conversa vai, ele falou: “Onde é que você está?” “Eu estou aqui, aqui ao lado, nesse hotel aqui, pa, pa, pa.” Aí ele falou: “Você está com tudo resolvido, acomodado, tudo bem?” “Não, está mais ou menos. Amanhã vamos ver como é que fica. Hoje estou...” Ele falou: “Não, então fica hospedado aqui comigo, na minha casa. Eu moro aqui no apartamento e tem dois rapazes lá da minha terra, eles estão de férias. Fica lá com a gente.” Falei: “Mas não tem problema? Não tenho dinheiro para pagar não, hein.” “Não, vamos falar com meu pai.” O pai dele, o seu Antônio, a mãe, a dona Iracema... Falecida, o pai dele é vivo ainda. Ele falou: “não rapaz, fica aí, o que é que é isso, depois você vai passar mesmo no vestibular.” “Se eu não passar eu vou sumir no mundo.” “Não, você vai passar, vai morar com a gente. Você vai ver.” Ele foi um...

 

P/1 - Categórico.

 

R – Categórico, foi um Píton (risos), Pitonisa. Então eu fiquei lá com eles, fiz vestibular e tal, fiquei muito mais motivado para fazer o tal do vestibular, puxa vida. E fui bem sucedido, fiquei aqui. Agora, o interessante... Aquela nossa turma de São Carlos, nós invadimos Uberlândia. Nós viemos... Eram 60, 42 eram a nossa turma de lá, com uma premissa: “Nós vamos passar no vestibular, vamos ficar um ano nessa cidade, vamos voltar para trás” (risos). Voltou um. Só um voltou, de Rio Claro, o apelido dele era Lilico. Todos os demais ficaram, terminaram o curso em Uberlândia. E, eu digo sem medo de errar que 25% deles casaram em Uberlândia. Dentre eles, eu.

 

P/1 - E que cidade era essa, senhor Dílson, essa Uberlândia do seu tempo?

 

R - É uma cidade que, como hoje, manteve uma característica, ela surpreende quem chega pela primeira vez. Não sei se isso aconteceu com você. Ela surpreende. Eu lembro que eu cheguei de ônibus em um sábado à tarde e de um determinado local eu vislumbrei no horizonte uns prédios altos. “O que é que é isso? Será que é a tal da Goiânia que eu estou chegando, dormi?” (risos) E era Uberlândia. Era uma cidade muito limpa, muito bem cuidada, e com cara de cidade grande, metida a cidade grande. A gente tinha essa... Essa foi a primeira impressão que trouxe. E eu sentia a hospitalidade mineira, porque... Primeiro por pessoas terem me acolhido dessa forma, isso é uma maneira de ser. E depois, a maneira como nós começamos... A gente não tinha linha de ônibus para a Faculdade. Chamava Escola de Engenharia na época, era um prédio só, ficava longe, tinha mato para chegar lá, que era o antigo Colégio Salesiano, e nós tínhamos uma jardineira. Saía da porta da catedral dez para as sete da manhã, que levava a turma para a escola, e, quando terminava a aula, de certo meio dia, alguma coisa, voltava. Tinha essa... Esse transporte que a gente tinha. Se você perdesse isso era a pé, ou você pegava alguma carona genial com um carroceiro.

 

P/1 - Sei (risos).

 

R - Uberlândia ainda tem os carroceiros de entrega, até hoje tem isso aqui. Entregava o material de construção, cimento, telha, tijolo. Era muito comum a gente ir no meio da telha e do tijolo para a aula. Isso já é irreverente, já é descompromissado disso. E as charretes, charrete era chique. Tinha taxi, ponto de charrete na rodoviária. Era interessante. Essa era Uberlândia. Já tinha Uberlândia Clube, um senhor clube, vale a pena conhecer. É um estilo art decó, que é único, muito interessante. Já tinha o Praia Clube, o Cajubá estava recém inaugurado. Nós chegamos aqui, conseguimos um convênio com o clube... Porque nós tínhamos um mentor, que era o doutor Genésio de Mello Pereira. Foi uma pessoa de grande visão nessa área, era um engenheiro que ajudou a criar a escola. Ele era o nosso mentor, e conseguiu que a gente fizesse uma classe especial de sócio para frequentar o Praia Clube, frequentar o Cajubá. Era uma sociedade fechada, muito fechada, mas desde que você tivesse uma possibilidade era muito bem recebido.

 

P/1 - Nasceu uma paixão pelo lugar, né? Quer dizer...

 

R - Mas foi uma paixão pelo lugar... Porque foi interessante, isso me chamou muito a atenção, e a gente comentava: Uberlândia tinha festa de segunda a segunda, e que trazia duas coisas para nós, estudantes de fora, porque eram festas familiares, era a tal brincadeira, chamava brincadeira. Então era o aniversário de alguém, e o aniversário de alguém se comemorava com uma galinhada. A galinhada é uma coisa fácil de ser feita. Então as mães... Aquilo não era um grande transtorno. Fazia uma galinhada, botava música na vitrola e o pau quebrava. A gente, que era de fora, alguns – eu era um desses... Eu tinha outro colega, o Brasiliano, que era assim também, nós acabávamos indo para a cozinha. Talvez isso seja uma questão de origem, da minha criação, aquilo ficou em mim. Se eu estou chegando na casa de um estranho, ninguém me conhece aqui, né? E quando você era apresentado para o pai ou para a mãe de uma menina: “Qual que é a sua família? Quem é seu pai? Quem é sua mãe? Você não é daqui!”. Então primeira coisa era me apresentar: “Olha, eu sou estudante aqui da Engenharia, venho lá de Mato Grosso, meu nome é tal, fomos convidados pelo fulano, estamos aqui na sua casa.” (risos) Como quem diz: se der qualquer coisa aí, estou apresentado (risos). A gente acabava indo para a cozinha, e isso criou uma coisa que eu tenho até hoje aqui em Uberlândia; a gente conhece, lógico... A cidade hoje tem 500 milhões de habitantes, mas eu conheço muita gente por isso, por essa facilidade que você teve da origem, da origem das pessoas.

 

P/1 - Não havia nenhum tipo de distância ou preconceito com relação às pessoas de fora?

 

R - Como eu te falei, tinha sim. Tinha, e quando nós chegamos aconteceu um fato interessante. A elite da moçada, da rapaziada, era no Batalhão do Exército, [de] onde vinham os rapazes de fora, com 18 anos. Tinha uma turma que era o Exército. Depois, começaram a vir os universitários de fora. De certa forma, houve um overlap, assim, houve... Veio junto, mas nunca houve conflito. Em absoluto, sabe, nunca houve conflito. Agora, acontecia o seguinte – e é natural –: essa turma que veio nova ela começou a disputar o mesmo espaço dos garotos que eram daqui (risos). Aí, dependendo, em determinados níveis, havia certa resistência. Mas o garoto sempre tem uma irmã. Se você é amigo da irmã, você fica amigo do irmão, você fica resolvido (risos).

 

P/1 - O senhor se sustentava como aqui em Uberlândia? Trabalhava?

 

R - Eu tinha... Eu tinha uma mesada do meu pai, que ele me ajudava e logo eu comecei a trabalhar dando aula. Eu comecei dando aula particular, aula de reforço, de Matemática, de Física e outras matérias e, depois, eu comecei a dar aula no segundo grau, nos colégios, nos horários que te permitia a faculdade, e, por último, aula em cursinho. Aula no cursinho já te permitia um ganho maior, porque já era uma coisa mais diferenciada. Então eu, logo, logo, eu comecei a já mandar um dinheirinho para casa de volta...

 

P/1 - Tá certo.

 

R – Porque... E eu sempre tive essa facilidade. A gente já tinha um nicho de mercado de aula particular aonde você podia ter uma remuneração mais... Eu não diria mais tranquila, mas você tinha, você criava aquela clientela. Hoje eu tenho pessoas que eu dava aula particular que são médicos, são engenheiros, são dentistas, são meus amigos. Foram meus alunos, aluno particular. Depois fui... Me profissionalizei mais, mas, durante todo esse tempo... Aí tem um parênteses, uma particularidade: eu comecei... Eu frequentei a casa da minha esposa dando um reforço de aula de francês para ela (risos).

 

P/1 - Assim que tudo começou?

 

R – É, mais ou menos. Isso foi um... Professor pode ir na casa da menina e, principalmente, em um horário... Meu sogro, como era um mineiro muito esperto, um dia falou para ela: “Engraçado esse teu professor, ele é muito esforçado, porque ele vem dar aula para você seis e 15 da manhã.” Porque eu falei para ela, ela tinha aula muito cedo e eu também. Então eu saía, passava lá, dava aula para ela das seis e 15 às dez para as sete; pegava a nossa jardineira e ia para a escola. E ele falou isso. Passou um mês ele virou para ela, falou assim: “eu não vi a conta desse professor” (risos).

 

P/1 - Começou a desconfiar que os interesses eram outros (risos).

 

R - Mas isso é uma outra história (risos).

 

P/1 - Mas, de fato, foi aqui que o senhor a conheceu, né?

 

P/2 - Quando o senhor citou a Escola Salesiana, onde começou a Escola de Engenharia, é hoje no Campus onde está a...

 

R - Onde tem aquele primeiro prédio, que é ainda um prédio que fica diferente.

 

P/2 - Lá no Santa Mônica?

 

R - Ele é um caixotão lá no Santa Mônica.

 

P/2 - Sim.

 

R - Tem umas vidraças verticais.

 

P/2 - Depois começou a surgir o restante, né?

 

R - Aí começaram a ser construídos os primeiros prédios mais técnicos. Quando eu saí da Engenharia, eu diria que a metade daqueles pavilhões já estavam construídos. Ela teve uma época muito forte.

 

P/1 - Seus pais, no Mato Grosso, tinham telefone?

 

R - Não. A comunicação era por carta. Agora, a família da... O seu Nilton e a dona Hercília tinham telefone. Então, a comunicação... Você dar notícia por telefone não era muito usual não. O nosso pensionato com a dona Iracema, depois dos três, uns dois, três anos que nós estávamos morando com eles, aí nós colocamos um telefone lá. E aí começa uma outra história; lá que eu e o Weber conhecemos o doutor Luiz Alberto Garcia.

 

P/1 - Lá em...

 

R - Nessa casa, nessa pensão. Porque os professores de pilotagem moravam conosco. E o Luiz começou a tomar aula de pilotagem. Como essa casa era vizinha da CTBC... Hoje é onde tem aquela Pharma ali, é a casa ao lado.

 

P/2 – Sim, depois do Posto de Serviço.

 

R - Depois do Posto de Serviço. E o Luiz morava no prédio da própria empresa, da telefônica, ele tinha um apartamento lá. Ele saía dali e pegava os pilotos para ter aula de pilotagem. Passava, já tomava um café da manhã com a gente ali. Ele é muito, muito brincalhão, então começou a criar alguma coisa. Um dia, o Weber foi fazer um estágio com ele e algum tempo depois o Weber formou-se, foi trabalhar na CTBC, e nessas conversas falei: “Como é, tem um estágio?” “Não, não, vai lá, faz um estágio lá.” Começou por aí a história.

 

P/1 - Isso ainda... Estudante em que ano?

 

R - Era meu último ano. Naquele tempo, se formar em Engenharia era um grande appear. Você tinha três, quatros empregos, facilidade; era IBM, Petrobrás... Eu lembro que eu tinha requisito para ir para o Alasca quando estavam construindo aqueles polidutos, e também na Arábia Saudita. Era dólar, era uma coisa assim. Então o meu espírito de aventura não chegou a esse ponto. Eu estava aqui na CTBC... Teve outra particularidade, porque a minha formação é em Engenharia Mecânica, que na época aqui só tinha Mecânica e Química. E, na ocasião – isso há 20 e... 1971, né? 28 anos atrás – os equipamentos de telecomunicações eram eletromecânicos. A eletrônica ainda estava engatinhando. Então tinha muito a ver com aquela formação nossa, ainda dos aparatos que envolviam conceitos de eletricidade e de mecânica. São os relés, né? Porque você tem uma coisa indutiva que você passa corrente elétrica e aí permite os contatos que é o chaveamento, as suits da telecomunicação. Que hoje é tudo eletrônico. Naquela época, a gente... Quando eu estagiei, terminei e ele me convidou se eu queria continuar na empresa, mas a opção... Falei: “Olha, eu tenho que me especializar nisso.” “Não, você vai estudar. Você vai continuar estudando telecomunicações.” Eu fui estudar telecomunicações com o próprio fabricante. Fui morar em São Paulo, estudar na Ericsson, na Siemens, que eram os grandes fabricantes da época, e eu comecei desenvolver a minha carreira técnica em telecomunicações.

 

P/1 - Vamos detalhar um pouco mais essa trajetória na CTBC? Primeiro, a convivência com doutor Luiz nos cafés da manhã, junto com o senhor Weber, acabaram provocando a sua ida como estagiário para a CTBC.

 

R - Exato.

 

P/1 - O senhor pensava em ser um engenheiro de telecomunicações? O senhor fazia Engenharia Mecânica.

 

R - Exatamente. Eu fazia Engenharia Mecânica e eu me identificava muito com a minha formação acadêmica. Porque eu já tinha realizado estágio em outras empresas de Mecânica. Vilares, de aços, voltado à isso, de materiais, SKF, (Home?), em Americana, e outras empresas. Eu fiz um estágio também... Acho que isso teve a ver com esse lado do desafio, da cidadania, de estar envolvido com os outros. Eu acho que isso é uma troca muito forte. Se a gente teve o privilégio de encontrar pessoas que deram a mão... Você acaba também tendo, instintivamente, fazendo essas contrapartidas. Então eu participei da... Chamava Operação Mauá, que era um estágio para estudantes de Engenharia ligados ao Exército. E aqui em Araguari tem um Batalhão de Engenharia do Exército, e eles estavam fazendo a retificação do trecho Araguari-Brasília. Eu fiquei três meses com o Batalhão de Engenharia dos militares, acampando no mato junto com os próprios soldados. Manutenção era muito voltado para a parte mecânica de manutenção, né? Eu me lembro que a gente estava no Centro Acadêmico, eu era diretor social, então a gente promovia as festas do diretório para fazer esse congraçamento com os estudantes e a comunidade, e na porta ficava, às vezes, estacionado uma perua, uma Rural Willys, que era uma van, a Cherokee de hoje, escrito lá um desenhinho, um poste, uns fios e a Companhia de Telefones do Brasil Central - UHF/VHF – eu nunca esqueço disso –, que são os sistemas de transmissão. E estava começando a Embratel naquele tempo, então você começava a ouvir falar disso. Aquilo me chamou a atenção, e isso tem um... “Eu vou me permitir buscar uma coisa que depois ela fica válida”. Eu convivia em Campo Grande com os familiares do General Rondon. Ele é mato-grossense, e ele que emprestou o nome dele, porque ele desbravou, ele ligou... Se o Barão do Rio Branco fez a anexação política da consolidação das fronteiras brasileiras com a Bolívia, anexando Acre, etc., foi o Rondon que tornou essa integração de fato, quando ele estendeu o telégrafo até a ponta do Acre, de Rondônia, que até é em homenagem à ele Rondônia, né? A gente convivia... Eu convivi com netos e filhos dele. E eu lembro que um dos trabalhos que nós fizemos no colégio – eu acho que foi o centenário dele –, nós escrevemos uma peça e dramatizamos essa peça contando a vida do Rondon. Isso trouxe em mim uma coisa da comunicação, da importância disso. Eu sentia que eu tinha um chamamento para isso. E veio a oportunidade. Então, no fundo, tinha alguma coisa que levava à telecomunicações e, para aqueles que acreditam em algum desígnio é... 25 anos antes o meu pai tinha batizado o primeiro “DDD”, que é o Dílson Dalpiaz Dias (risos). Isso dá um outro... Dá para conversar um pouco, para quem gosta de coisas esotéricas (risos).

 

P/1 - E na CTBC, o que o senhor começou a fazer nesse momento em que o senhor entra como estagiário até o momento que o senhor é de fato admitido na Companhia? Qual era a sua função?

 

R - Eu comecei bem do começo. Foi interessante que eu comecei na área de transmissão, área de longa distância que se chama, sabe? O chefe dessa área era o Walter Machado, que é irmão do Celso, o diretor da ABC Propaganda, esposo da Rosilei. E nós éramos todos muito jovens, quase todos da mesma idade. Eu estudava Engenharia, e o meu tempo de estágio era duas horas e meia por dia, duas horas. Tinha toda uma programação. Então eu comecei fazendo manutenção de fusíveis, nunca me esqueço. Um ferro de solda, aqueles fiozinhos, você tinha que soldar, queimava a ponta do dedo. Falava: “Isso é trote desse pessoal.” “Vai ser engenheiro, né?” Mas eu agradeço muito porque eu não tomei aquilo como trote. E não era, de fato não era.

 

P/1 - Em que local era isso, senhor Dílson?

 

R - Era aqui na esquina da Machado de Assis com a João Pinheiro, onde fica ali a CTBC. Eu comecei... Ali eu comecei a querer entender por que aquele fusível... Para que funcionava aquilo. Aí eu fiz um acordo com ele: “Olha, eu vou cuidar da parte de manutenção um determinado tempo, mas eu quero estudar para compreender isso.” “Não, perfeitamente.” Eu começava a abrir – eu nunca esqueço – uma sala grande, abria aqueles esquemas, aqueles fios, aonde os fios vão, para começar a entender a lógica dos equipamentos. Eu fui muito autodidata em telecomunicações, no que refere ao funcionamento dos equipamentos.

 

P/1 - Até o momento de se formar?

 

R - Isso foi um ano. Eu estagiei naquele setor algum tempo... Viajava muito, porque é manutenção, e tinha as linhas físicas, os fios, e esses equipamentos tinham uns rádios, e tinha uns outros que iam sobre os fios. Tanto um como o outro eu aprendi a ter uma familiaridade com aquilo. O passo seguinte foi ver as estatísticas do funcionamento dos circuitos. Tinha um setor que fazia o controle da operação, se o circuito estava operando, se não estava. E cada defeito desse, cada anomalia gerava um repórter, então eu passei a estudar o comportamento daquilo. Aí eu já estava aplicando aquilo que eu tinha na minha formação de engenheiro. Fazia as primeiras estatísticas, os primeiros levantamentos daqueles defeitos. Não que o pessoal não fizesse as manutenções adequadas, mas trazia pouco do lado científico, da estatística da coisa. Eu passei por isso, aí o passo seguinte foi na parte da rede externa. Então acompanhar os cabos, os fios. O meu estágio nesse ano de CTBC foi um estágio técnico, na área de operação e na área técnica. Eu não fui para a área de administração, em absoluto. Isso foi muito importante, porque eu tive a oportunidade de não ter o constrangimento do aprendizado.

 

P/1 - Você teve algum mestre, assim, uma pessoa que ensinava, que estivesse mais próxima do senhor?

 

R - Olha, nessa época a gente conviveu com muitas pessoas. Sempre foram pessoas de muito boa vontade para ensinar. O chefe da área era o Walter, na possibilidade que ele tinha ele me passava. Eu tinha um colega de Engenharia que era estagiário lá também, um japonesinho, é o Katsunori, que era meu colega de sala. Eu descobri que ele era estagiário lá, o dia que eu fui ele já estava, isso ajudo. E tinha a pessoa que cuidava dessa parte do controle das linhas, que a gente chama de exame de linha, que era o Itelino. Era uma pessoa também que eu tinha muito contato, muita convivência. Depois eu fui para a área das centrais telefônicas, então tinha o Jaime, que era um técnico, o Gumercindo, que era outro técnico. Essas pessoas sempre passavam orientações. Tinha o responsável pela rede, que era o José Leonardo, com ele também eu tive a oportunidade de aprender muita coisa. Mas passado isso eu me tornei um engenheiro e eu fui para a área mais de engenharia. Na ocasião, tinha recém adquirido o controle da telefônica de Uberaba, e o Weber foi para assumir, ser o gerente geral responsável pela empresa.

 

P/1 - Nós estamos falando de 1976?

 

R - Não, nós estamos falando de 1972.

 

P/1 - 1972.

 

R - Fim de 1971. Eu me formei em 1971.

 

P/1 - Perfeito.

 

R - Eu me formei em 1971. Então, quando eu me formei, tive uma conversa com o Luiz: “Olha, eu estou me formando, tenho possibilidades, esse leque de alternativa de trabalho, tem interesse?” Ele falou: “Não, o Weber já está trabalhando com a gente há um ano, se você quiser, você já está entrosado. Eu vou precisar de engenheiros, a empresa está expandindo.” “Mas a minha formação é mecânica.” “Não, não, você vai estudar. Você vai ter um tempo aí para entender telecomunicações, senão não adianta.” Fizemos esse acordo. Eu falei isso era novembro, dezembro. Fim de ano a gente procura resolver logo a vida para não correr risco de não formar, imagina, né? Então tinha dezembro por conta. Ele falou: “Não, você fica aí até dezembro, aí você tira...” Depois da formatura. Acho que eu me formei dia 18 de dezembro, se não me engano. “Mas, até lá você vai estagiar.” Aí deu Uberaba. O Weber ficou muito mais voltado na área de Engenharia, e começou dar muita demanda na Administração, porque o pessoal de Uberaba começou cobrar de Uberlândia.          Tinha um bairrismo muito forte à época, aí ele falou: “Dílson, você que é muito... Meio jeitoso, você vai lá para Uberaba, você vai ser o gerente lá da parte administrativa.” “Mas, meu Deus do céu” “Não, você se dá muito bem com o Weber, vocês vão resolver, vai ajudar ele lá.” “Está bom, vou ajudar”. Lá fui eu para Uberaba atender cliente, naquela parte do atendimento de clientes, porque essa parte é muito personalizada, a pessoa quer falar com o gerente. Hoje a prestação de serviço já está... O cliente já está mais acostumado com essa profissionalização, mas antes tinha que falar com o dono, com o gerente. Então eu fui para lá. Eu tive passagens incríveis, porque eu era recém-formado, era uma pressão política muito forte, porque os clientes de Uberlândia (compraram?) Uberaba. Onde se viu isso? Via a placa do carro Uberlândia, “Uberabinha”, “Uberabinha”. E você tinha que... Tinha gente que chegava brava lá... Eu lembro que chegou um senhor – isso eu nunca esqueço –, mas ele estava colérico, quase ao ponto da agressão física, porque o telefone não funcionava, não funcionava, e com muito custo eu comecei a acalmar para entender o que acontecia. Para resumir, o telefone dele não funcionava, não funcionava, eu descobri que ele tinha mudado de casa, mas não tinha ligado o telefone. Não ia falar nunca.

 

P/1 - Nunca.

 

R - São passagens interessantes, você vai tomando aquilo como um desafio.

 

P/1 - Literalmente o senhor caiu de paraquedas no meio de um pequeno conflito generalizado.

 

R - Eu não diria que era tão pequeno não, sabe?

 

P/1 - Um conflito mesmo (risos).

 

R - É. Eu acho que isso vai por essa coisa que nós estávamos conversando de você não temer o risco. Você vai para o risco e assume o risco. Daí eu fiquei algum tempo e começou a minha formação. Eu tinha que ir para São Paulo para fazer os cursos da Ericsson. Eu fiquei seis meses estudando especificamente equipamentos de telecomunicações e, em uma dessas voltas fui convocado... Em uma dessas voltas, que tinha terminado um curso e iniciaria outro, porque tinha uma necessidade na área de São Paulo, o gerente estava em uma transição, se desligando, e precisava de um reforço lá. Eu fui convocado para assumir a área de São Paulo, a região de São Paulo, como engenheiro. Nós tínhamos o Luís Márcio, que está até hoje, que é responsável por Franca, que era uma parte da região, mas o Luís Márcio era uma pessoa que fazia o atendimento, ele era o gerente geral. E tinha um engenheiro em Ituverava, que era o Antônio Cassiano, mas da outra parte, das outras cidades que estavam automatizando e tinha muito conflito, porque os telefones ainda eram de manivela. Eu tenho um na minha casa até hoje, com um fio só. Trazia as centrais telefônicas automáticas e aqueles telefones eram desligados. E muitos clientes não se conformavam, estavam na fazenda, aquilo gerava um conflito. Eu fui para esse conflito, fui em um caminhão carregado de fios e de cruzetas para postes, cheguei de noite em Orlândia, não tinha aonde dormir. Eu lembro que eu dormi em um... Tinha só um bar. Eu falei com a dona do bar, ela falou: “Não tem hotel, a cidade é muito pequenininha.” Falei: “Não, dona, vamos fazer o seguinte, a senhora não importa, vamos juntar essas mesas aqui, eu durmo em cima das mesas. Na hora que a senhora abrir o bar eu levanto.” (risos) Na minha primeira noite de Orlândia eu dormi em cima das mesas do bar (risos).

 

P/1 - Era um momento de grande expansão da CTBC...

 

R - Grande expansão, muito...

 

P/1 - Um momento heroico também, na troca dessa tecnologia...

 

R - Era um momento heroico, porque a CTBC era limitada aqui ao Triângulo [Mineiro]. Era basicamente a grande cidade de Uberlândia e algumas outras aqui pela região de Patos de Minas. Mas Uberaba era uma telefônica própria, independente, Ituiutaba era outra telefônica própria, independente, tinha sido recém-incluídas essas cidades ali da região de São Paulo, a gente foi para lá para poder dar o suporte técnico à região. Tinha uma pessoa em Ribeirão Preto que era o supervisor geral da área, que era o senhor Wilson Luís da Costa. Posteriormente ele veio para Uberlândia, foi superintendente da CTBC e faleceu recentemente, há dois anos. Foi uma outra pessoa que a gente aprendeu muito. Mas a minha permanência em Orlândia foi curta. Foi muito rica, muito intensa, mas foi curta, porque a CTBC assumiu a telefônica de Ituiutaba e eu fui convocado para ser a pessoa para implantar toda a cultura e toda a gestão da CTBC lá em Ituiutaba.

 

P/1 - Como é que era essa transposição? Quer dizer, de uma empresa que já vinha desde 1954 atuando dentro de uma determinada cultura – para usar esse termo que eu acho mais adequado –, no momento em que agrega, encampa uma Companhia que tem lá a sua história particular. Como modificar isso, como chegar lá e estabelecer um novo modus vivendi naquela nova companhia, sob nova ótica de gestão e resultado?

 

R - Eu acho que isso passa pelo espírito empreendedor, espírito de pioneiro. Porque você chegar e assumir isso como o senhor Alexandrino fazia, [como o] doutor Luiz fazia, já era uma questão pioneira, uma questão de possibilitar o crescimento. Mas por trás você tinha a convicção que você estava levando, você ia agregar muito valor àquilo, ao cliente. Sabe, eu acho que isso era a grande força motriz que você tinha. A tua motivação é que você ia para lá para melhorar aquilo. No início você tinha um choque, tinha a rejeição do estranho, você imediatamente assumia todos os ônus do serviço que não era prestado adequadamente, você era cobrado por aquilo, mas, por outro lado, você tinha a expectativa do cliente que aquilo iria fazer uma transformação no estado das coisas, e era para melhorar. E o nome CTBC, a reputação da CTBC, nasceu com essa marca registrada de estar levando o melhor. Ela era querida, era bem recebida porque ia à frente. Ia à frente.

 

P/1 - Como é que o senhor avaliaria o papel inspirador, digamos assim, do senhor Alexandrino em todo esse processo, em que o senhor começa a se internar nesse processo? O papel animador do senhor Alexandrino nesse aspecto?

 

R - É, ele estava presente porque ele, ao mesmo tempo que estava fazendo a estratégia, ele ia ao fronte. Ia fazer a picada, decidir onde ia a picada do mato para passar a linha, e também decidia a maneira de fazer a negociação para assumir o controle, comprar a parte dos outros sócios, dos proprietários do controle acionário daquela empresa. Porque essas empresas eram muito ligadas às pessoas. Então Uberaba era a telefônica dos Cunha Campos, da dona Anita. Ituiutaba era o senhor Valico, que era o presidente, era o fundador; o seu Geraldo, que era um sobrinho dele, que era o administrativo, e as pessoas que estavam ali. Essa empresa tinha 20 anos, os que estavam em Poços Chaves tinham 21 anos lá também. Mas isso trazia um relacionamento que acabava... O estado daquele momento requeria uma relação mais profissional, e ainda era uma relação muito familiar, muito paternalista. Para se ter uma ideia, quando fui em Ituiutaba, cada cliente, quando mudava, tinha um pedacinho do fio que sobrava escrito o nome dele. Tinha uma área enorme com pedacinhos de fios com o nome de cada pessoa. Quer dizer, você nunca ia encontrar aquilo, não era prático, mas trazia essa visão. A contrapartida é que às vezes as pessoas não pagavam a conta telefônica. “Não, isso está muito caro, eu não vou pagar.” Mas exigiam o serviço. Aí eu posso citar uma passagem do seu Alexandrino. Como nós, o grupo aqui tinha também as revendas GM, os Irmãos Garcia – que é uma empresa com mais de 60 anos –, e essa... É uma confraria, os dealers GM. O seu Alexandrino era amigo dos dealers GM do Brasil inteiro, e lá em Ituiutaba tinha um dealer GM também, que por sinal era de origem portuguesa, como ele. E o dealer da Ford também. Então, quando cheguei, uma das primeiras coisas que eu vi... Eu tinha que melhorar a qualidade do serviço e tinha que otimizar o desempenho econômico-financeiro da empresa. Eu fui verificar as contas telefônicas, as pessoas mais humildes todas estavam em dia, pagando as contas telefônicas, e os grandes clientes faziam aquilo na gestão do seu fluxo de caixa, da melhor maneira que dava. E eu comecei tomar algumas atitudes de gestão, e não foi muito agradável para eles. Eu recebi alguma dessas pessoas coléricas. Chegava, via um moleque lá, um garoto... Eu pus bigode, porque era muito... Tinha que mostrar alguma coisa, não é verdade? (risos) Quando eu me formei em Engenharia, pus o bigode para ficar um pouquinho mais sério. “O que você está pensando que você é?” “Não, o senhor foi notificado, o senhor não pagou a sua conta, o seu telefone está desligado. Sinto muito.” “Eu vou falar com o Alexandrino, vou te pôr na rua.” “Eu acho que o senhor deveria refletir um pouco.” “Eu sou amigo do Alexandrino.” “O senhor me desculpe. Eu acho que senhor Alexandrino deve ser amigo do senhor, o senhor não é amigo dele. O que o senhor está fazendo com a empresa dele um amigo não faz.” Você começava a fazer uma devolução. Então o nome dele era usado, mas a hora que você potencializava o nome dele para aquilo que aquele amigo... A reputação dele pesava, isso a gente sentia muito. Eu nunca me esqueço, isso levou a Associação Comercial e Industrial de Ituiutaba a [me] convocar para uma reunião. Puxa vida, eu era um garoto, falei: “Meu Deus do céu.” Eu procurei ver... Falei: “Não, eu vou chamar Uberlândia, vou pedir socorro lá pra direção, o doutor Luiz, o senhor Alexandrino”. E eles estavam em viagem. E aquelas convocações assim, pra... Eu falei: “Não tem problema. Vou encarar.” E fui lá. Tudo aquilo que eu fui perguntado, eu respondi. Respondi a verdade. Às vezes a verdade não era o que o pessoal queria ouvir, mas era a verdade, não é? E a empresa tinha aquela reputação, o presidente tinha aquele nome. Eu sei que quando terminou a reunião eu fui convidado para participar das outras reuniões como um membro lá (riso).

P/1 – Um membro. (riso)

R – Mas era uma... Eu diria que foi um dos grandes desafios profissionais que eu tive, porque não era só a minha pessoa física, eu estava representando a organização, a empresa ali. Se saísse mal eu ia ter um reflexo... Todas as repercussões desse desempenho. E até hoje é usual a CTBC participar de reuniões de câmaras municipais, em associações de classe. Até no próprio Congresso nós fomos chamados. Então existe um folclore paralelo com o nome do senhor Alexandrino. Ele é uma legenda, não é? Durante todo o tempo, toda essa vivência veio os regimes, veio... No início as concessões eram as prefeituras que davam, o município que dava a concessão. A concessão era municipal, era negociada com cada município, em cada um negociava-se um prazo. Alguns eram dez anos, outro eram 20 anos, 25 anos, 30 anos. E as tarifas eram a câmara de vereadores que aprovava o valor da tarifa. Você imagina: 30, 40, 50 cidades, tinha que ir lá justificar perante os vereadores que o custo era esse, passou a ser tanto. Aí vinham os grandes clientes não querendo pagar, faziam pressão nos vereadores. Tudo isso exercitou uma competência de relacionamento legislativo, que isso (trago?) até hoje. Uma das razões da CTBC estar aí até hoje é que ela manteve essa questão de cidadania. Outro valor era o seguinte: a CTBC é uma concessionária de serviço público, então nós estamos prestando serviço ao poder instituído. Não é ao prefeito do partido tal, é ao poder instituído. É a figura do prefeito, a figura do presidente da câmara. Isso permitiu que a CTBC sempre mantivesse um posicionamento democrático e não partidário. Porque era um espírito público impregnado. Eu acho que até cabe eu lembrar, quando nós inauguramos o novo sistema em Ituitaba, eu já não estava mais lá, não era mais o gerente, mas o governador era o Aureliano Chaves. Era uma pessoa ligada à Arena, ao Regime Militar forte, e já tinha o modelo de estatização de todas as empresas telefônicas. Então tinha que ser só uma por estado, e nós éramos muito assediados para vender, para sermos encampados, generais, aquela coisa toda. O Aureliano, ao inaugurar a CTBC – ele tinha sido professor do Doutor Luiz Alberto na Escola de Engenharia, então ele conhecia a saga da CTBC –, ele virou e falou assim: “A CTBC é uma empresa privada impregnada de serviço público”. Aquilo foi muito forte, porque uma pessoa como ele dizer isso... Era uma mensagem, como quem diz, não...

P/1 – Resistam.

R – Resistam, e se vocês são impregnados de espírito público... Tirou um mote de ser estatal.

P/1 – Isso foi um desafio hercúleo, num momento desse assédio?

R – Hercúleo. Foi de décadas, de décadas.

P/1 – E qual foi o segredo dessa resistência que segurou a Companhia em mãos privadas?

R – Aquilo que você falou, que a gente comentou aqui: que dá muito rendimento a consultores, que está muito em voga. Um jargão, mas praticar é um desafio: é um profundo respeito ao cliente. E que hoje nós traduzimos como encantamento ao cliente. Quando havia as motivações fortes, os clientes estavam do nosso lado. Quando venceu a concessão unificada que a CTBC tinha, venceria em 31de dezembro de 1991, e a saída regulatória, legal... Porque tinha uma lei para determinar o novo prazo, nós votamos isso em todos os âmbitos do Congresso Nacional. Entrou no Senado, foi votado em duas comissões no Senado. Foi no plenário do Senado. Veio para a Câmara Federal, foi para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que já tinha passado na Comissão de Justiça do Senado. Foi pra Comissão de Comunicação, Informática e Tecnologia da Câmara. Foi examinado. Passou. Dali foi para o plenário da Câmara Federal. Uma lei para uma empresa, num momento crítico da privatização. Então era muito forte o espírito sindical. O PT [Partido dos Trabalhadores] crescia muito. Porque era toda a política do Estado como empresário. Então aquilo foi um ponto de mutação. E houve uma passagem muito interessante: o sindicato dos telefônicos fez uma assembleia na véspera da votação no plenário da Câmara para que todos os funcionários fossem contra a empresa continuar privada. E só teve um voto para a pauta que o sindicato pôs. Foi do presidente do sindicato. Só um.

P/1 – Eu gostaria de ter um pouco mais de detalhes sobre esse episódio, que esse episódio é um episódio, digamos, emblemático na história da Companhia. Eu gostaria que o senhor fizesse uma remissão histórica em torno desse episódio de constituição da CTBC, das gestões que houve desde a Associação Comercial, em Uberlândia, até a constituição da Companhia como ela é hoje.

R – Perfeito. Isso nos remete à figura, mais uma vez, do senhor Alexandrino Garcia. Ele era presidente da Associação Comercial de Uberlândia. Essa associação teve sempre uma presença marcante no desenvolvimento da cidade, e os grandes temas sempre passavam pela Associação Comercial e Industrial. O asfaltamento, da... O asfalto que veio pra cá, a ferrovia, o aeroporto, então sempre passava pela Associação Comercial. E o senhor Alexandrino era o presidente da entidade, e a empresa telefônica que chamava Teixeirinha, Companhia Telefônica Teixeirinha. Eram 500 telefones, e ela não estava conseguindo atender à altura a demanda da cidade. Na Associação Comercial, tinha vencido essa concessão, era a Câmara de Vereadores, e não iriam, não tinha mais condições daquela entidade continuar prestando serviço. Então a Associação Comercial assumiu aquilo. Fez um Livro de Ouro, criou uma nova entidade, assumiu o patrimônio da Teixeirinha e cotizou-se entre os empresários da cidade uma nova Companhia. E foi criado uma comissão para gerir esse negócio na Associação Comercial nessa fase de implementação. E o senhor Alexandrino, como presidente, foi convidado para ser o presidente dessa empresa. Passou a chamar Companhia de Telefones do Brasil Central. Nós estamos aqui em fevereiro de 1954. Ele manteve as duas atividades e, como uma empresa telefônica requer um forte espírito de doação – porque é um serviço de 24 horas – imagine hoje... Pensa naquela época, que era um dos poucos meios de recurso que se podia ter com o mundo exterior. As pessoas, aquela comissão, conforme foi tomando mais tempo, foi requerendo, eles foram se posicionando: “Olha, eu tenho meu negócio, eu tenho minha atividade, eu tenho minhas obrigações, eu não vou poder ficar aí.” E o senhor Alexandrino foi tomando gosto por aquilo, ele mesmo dizia. Eu e o Celso tivemos uma oportunidade uma vez de gravar um longo depoimento dele, e aquilo foi entrando como um germe, contaminou o sangue dele, ele foi tomando gosto por aquilo. Ele fazia uma brincadeira dizendo o seguinte: é que a dona Maria, esposa dele, foi mais compreensiva que as esposas dos outros. Porque como convivia lá com as telefonistas, que eram os plantões de 24 horas, as outras eram mais ciumentas (risos), e que a dona Maria foi mais compreensiva. E ele tomou gosto por isso e, com o desenvolvimento da telefônica, ele passou, então, a dedicar mais parte do seu tempo à empresa telefônica. Foi que os irmãos, o senhor Agenor e os outros passaram a tocar mais a parte do empreendimento de veículos. A Associação Comercial, a CTBC nasceu ali dentro, e foi tão forte que esse (spin off?), como a gente diz hoje, ele levou junto o seu presidente (risos). Passado alguns anos, na década... No fim dos anos 50, quer dizer, não foi tanto tempo assim. Dos anos 70, quer dizer, 25 anos depois, o filho do senhor Alexandrino, o Luiz Alberto, foi o presidente da Associação Comercial também, da Aciub [Associação Comercial e Industrial de Uberlândia]. E na época que o senhor Alexandrino era o presidente da Aciub, ele diz que ele era um empresário já realizado e que ele pretendia até se aposentar. Ele tinha 47 anos de idade. E eu tive mais um daqueles desígnios de ser eleito presidente da Aciub, sem nenhuma premeditação da minha parte, com 47 anos de idade. E sendo vice-presidente da CTBC, isso 40 anos depois.

P/1 – Tem uma lógica aí.

R – Eu acho que isso é uma coisa que traz um élan, não é?

P/1 – Hum, hum.

R – Foi muito gratificante para mim ser esse agente de manter uma ligação forte da Associação Comercial, da Aciub, com a CTBC ao longo dessas cinco décadas, praticamente.

P/1 – Uma ligação histórica, arraigada...

R – É, uma ligação histórica, arraigada. E quando essa parte da concessão dos novos prazos, da lei que foi votada para a CTBC... A Aciub teve um papel importante, como as Associações Comerciais e Industriais de todas as cidades servidas pela CTBC participaram ativamente.

P/1 – Eu gostaria que o senhor detalhasse um pouco isso, porque, afinal de contas, a CTBC teve uma retaguarda muito grande em nome da identidade que ela tinha na área de atuação dela. Como é que isso se transcorreu em Brasília? Como é que se deu essa conquista do novo prazo de concessão?

R – Aqui é interessante a gente resgatar só um pouquinho como é que funciona esse negócio da concessão, não é? A gente havia dito que, desde o Império, o Brasil, o serviço de telefone desde Dom Pedro foi por concessão. Então ele nasceu privado. Quando chegou em 1967, com a Constituição de 1967, ele continuou privado, só que veio uma nova ordem, uma nova lei: a criação do Ministério das Comunicações, da Embratel, posteriormente da Telebrás, e aí por uma política de governo passou-se a fazer uma por estado. E o grande recurso que se tinha era do Estado, através do Fundo Nacional de Telecomunicações, que era uma sobretaxa de 25%. Aí o Estado começou a estatizar as empresas que aí estavam, porque elas não prestavam um bom serviço, porque não tinham tarifa, e não se dava tarifa, porque não tinham bom serviço. Aí o Estado veio e começou a unificar. E também, como era a prefeitura que no passado dava, nós tínhamos alguns milhares de empresas telefônicas, então era muito difícil também a conexão dessas empresas. Mas tinha que se separar o joio do trigo, e a CTBC era diferente, por isso ela acabou ficando a única empresa privada. Como esses prazos eram variáveis, quando chegou em 1984, no governo do Presidente João Figueiredo, acertou-se de fazer uma avaliação dos prazos que iriam além do ano 2000 e de prazos que já tinham vencido. Então chegou-se ao número de oito anos. Ficou para 31 de dezembro de 1991 que expirava esse prazo. Nesse ínterim, veio a Constituição de 1988. Lá, as forças estatizantes da esquerda eram muito fortes, e conseguiram colocar na Constituição Federal que o serviço de telecomunicações sob o regime de concessão para empresas de controle estatal. Então pela primeira vez criou-se a figura do Estado no controle. Aí de fato nós ficamos completamente fora desse contexto estatal. Mas tinha que se respeitar o prazo da concessão, que ia até 1991. Nós entendemos que o tempo que nós tínhamos para mudar esse estado de coisas era o de 1989 a 1991. E o caminho que nós entendemos estrategicamente tinha que ser um caminho muito público, um caminho de hora da verdade, pela competência. Estrategicamente, acertamos que seria uma lei, eu fui o operador de todo esse processo. A pessoa que... Como eu era o diretor da CTBC, quando, em 1987, houve o agravamento do estado de saúde do senhor Alexandrino e do estado de saúde do senhor Wilson Luiz da Costa, e uma forte crise econômico-financeira que o grupo passou a ter, também em função do momento do Plano Cruzado, de toda crise econômica que tinha o país – eu tenho certeza que isso foi assunto de outras pessoas que entraram nessa parte – houve uma reformulação da estrutura da profissionalização. O doutor Luiz Alberto falou: “Vou profissionalizar as empresas”. E me convidou, me deu essa honra de eu liderar a primeira diretoria executiva profissional da CTBC. Eu fui o diretor superintendente, que não tinha nenhum laço familiar da carreira profissional, e convidei os meus diretores, ele me delegou isso. Foi uma responsabilidade muito grande. Foi um diretor técnico, que foi o José Cândido, ele ajudou a fazer o start up da Tess, e hoje não está mais no grupo. O diretor de operações, que é o Nelson Cascelli, que hoje é o vice-presidente de operações da Algar Telecom, foi superintendente da CTBC, foi até o meu sucessor. E o financeiro, que é o Geraldo Caetano. Então eu convidei o Geraldo a ser diretor. Montamos essa primeira diretoria profissional da CTBC Telecom, a gente teve essa honra. E isso era pra permitir também uma relação forte no Congresso, na Telebrás e no Ministério. Porque como um diretor estatutário, eu tinha legitimidade para tratar dessas coisas no meio burocrático do país, sempre mantendo a possibilidade do presidente, uma instância legitimada que podia tratar disso, com essa estratégia do presidente poder atuar no momento que fosse mais perfeito, mais adequado.

P/1 – Como é que o senhor preparou essa operação da conquista da concessão?

R – É, o nosso vice-presidente executivo era o doutor Mário Grossi. Ele compreendeu muito bem isso, e nos deu toda a força, todo o respaldo para que acontecesse. Então nós constituímos em Brasília uma assessoria parlamentar para nos permitir preparar a lei de maneira tecnicamente adequada, e de fazer um relacionamento junto do Congresso, a influência dentro do Congresso de maneira democrática, legítima, mostrando o que era a empresa. Porque a única maneira é que os parlamentares compreendessem o que era a empresa. Porque são 600 e tantos deputados de todos os lugares do país. Somente os dessa região conheciam a gente, e ainda o espírito estatizante era muito forte. Nós estamos falando aqui no início, antes de vir o Governo Collor, antes. Começou em 1989. Então nós preparamos um projeto, teve um senador de Rondônia... Vê que coisa incrível, de Rondônia, Aldacir Soares, e ele tinha essa sensibilidade, falou: “Não, eu vou preparar o projeto de vocês e nós vamos entrar com esse projeto no Senado.” A estratégia começou até de onde entrar, porque um projeto de lei pode ser de iniciativa do executivo, de uma subscrição popular de algumas milhares de assinaturas.

P/1 – Que a Constituição de 1988 já contemplava, não é?

R – Já contemplava, ou por meio da Câmara, ou do Senado. Muito pouco são os projetos oriundos do Senado, porque o Senado é Câmara Alta, não é?

P/1 – Hum, hum.

R – Ele tem mais um papel revisor, mas a estratégia foi essa. Ele entrou no Senado, foi aprovado, passou pelas Comissões do Senado. Por negociação já com a esquerda, com o PT, ele teve que ir ao Plenário do Senado, não foi possível aprovar a nível de Comissão. Então ele ficou explícito. O pedido era de 30 anos, esse prazo foi aprovado no Senado. Quando nós descemos à Câmara, essa estratégia passou para que os deputados relatores do projeto fossem favoráveis a essa compreensão do novo estado de coisas. E foi o deputado Ibrahim Abi-Ackel, de Minas Gerais, ele foi o relator na Comissão de Infraestrutura e Constituição, ele é respeitado como constitucionalista. O projeto demonstrou ser constitucional, porque tinha uma grande: “É constitucional ou não é?” Porque é o prazo de uma empresa privada, ele foi muito bem elaborado tecnicamente, passou por esse crivo. Quando ele foi para a Comissão de Constituição e Tecnologia da Câmara, toda a oposição, a esquerda... Nós já estávamos no governo Collor, no auge, o Lula foi ali, aquela disputa... Então era muito forte o poder estatizante, a corrente estatizante. Não só da oposição, mas da própria situação. Tinha muita gente estatizante. Foi um trabalho de convencimento, primeiro no âmbito da Comissão, de todos os seus deputados. Se não me engano, era por volta de 38, 39 membros, de todos os partidos e de todos os Estados da Federação.

P/1 – A Companhia tinha um staff montado em Brasília; quantas pessoas estavam lá?

R – O staff era uma pessoa e eu, morando aqui. E ainda sendo superintendente da empresa (risos).

P/1 – Ah, entendi. Bater o escanteio e correr pra cabecear com a obrigação de fazer o gol.

R – É. Isso puxou para uma nova estrutura organizacional da CTBC, onde eu fui... Eu, como o líder da diretora, assumi esse papel de desenhar uma nova estrutura, o que os tempos requeriam. Nós tínhamos mais de 12 níveis hierárquicos, e a empresa tinha um modelo... Era privada, mas era um modelo de gestão estatal. Então eu desenhei com a minha diretoria, eu fui o líder desse desenho, é o modelo de gestão da CTBC hoje, que a gente chama de bolograma. Ele está guardado entre as minhas coisas num flipchart, onde a gente quebrou a hierarquia tradicional tayloriana. Isso é um exemplo que está aí hoje, e quando eu terminei esse projeto da estruturação, eu levei para o vice-presidente, para o Mario Grossi, falei: “Olha, está aqui, está perfeito, só que não sou eu quem vai tocar esse projeto. Eu, na minha competência, para tocar esse projeto interno de reestruturação da empresa, não sou eu.” Tinha todo um elenco de razões, da minha tradição interna na empresa, da minha maneira de se relacionar com as pessoas e também as funções que eu já fazia lá. Então ele falou: “Onde é que você cabe aqui? É o vice-presidente?” Eu falei: “Eu acho, se vocês acharem que se eu continuar fazendo essa missão que eu faço lá, tem que ter uma...” Foi quando eu assumi a vice-presidência e a diretoria da CTBC continuou executiva como era, só que com um outro modelo de gestão. E o indicado, a pessoa que eu indiquei para me suceder foi o Nelson Cascelli, que ficou até o ano passado, quando veio o José Carlos. Aí eu passei a me dedicar à questão da renovação da concessão da empresa, ao relacionamento com órgãos de prefeituras, associações de classe. Porque era muito forte isso, estava inerente. E a holding criou uma diretoria de comunicação pra poder se relacionar com o mundo lá fora, como holding. Eu fui designado para montar essa diretoria, que eu respondo até hoje, que é uma parte da minha vice-presidência. Tem a Comunicação, tem a Relações Institucionais – que fica lá em Brasília –, que foi quem puxou isso aí. São três pessoas, à época eram duas. Hoje eu tenho... Mas é uma missão a parte de sistemas, de IET na holding. Mas isso é uma missão que eu tenho, transitoriamente, esse ano vai ter outra destinação. A minha vice-presidência é a Comunicação, a parte de Relações Públicas, relação com imprensa e tal. Toda a parte corporativa, a reputação empresarial, a cidadania empresarial...

P/1 – Que é um valor.

R – Que é um valor. Então nós somos os guardiões dos valores da reputação da organização, e a gente passou a atuar muito forte na lei. Eu paguei um preço por isso, eu assumi uma hérnia de disco violenta, fiz duas cirurgias. Muita parte disso eu fiz na cama. Eu tive duas fases de um mês e meio imobilizado numa cama, depois mais três meses. Foi um preço, mas foi um preço que valeu a pena, não é? E essa interação com parlamentares, eu tinha três telefones na minha cama, porque eu tinha que explicar para essas pessoas em quê ele estava votando, qual era o valor que estava ali. Porque a moeda do parlamentar é o voto, e um parlamentar da Rondônia, nós não tínhamos nada em Rondônia. Um do Acre, do Rio Grande do Sul (riso). Era uma questão de conceito, de valores, de reputação. Aí entrou toda essa questão de cidadania da CTBC. Eu era engenheiro recém-formado, e eu era responsável pelos projetos. Eu lembro que eu fui fazer um projeto para implantar telefonia numa cidadezinha. É uma cidade até próxima hoje, está bem mais próspera, era Pedrinópolis. Eu mostrei pro senhor Alexandrino, eu falei: “Senhor Alexandrino, em 20 anos isso não se paga. Eu sou um engenheiro, um técnico tem que... Não é a minha instância aprovar isso”. Ele falou assim: “Dílson, não se preocupe, as maiores ajudam. Um rio não nasce grande, ele não é grande sozinho, ele é feito de seus pequenos afluentes. Então Uberlândia aguenta. As pouquinhas ligações telefônicas que forem daqui para lá e que vierem de lá para cá, Uberlândia aguenta”. Ele trazia esse espírito de cidadania, do compartilhar, sabe? Você vê, a gente vai e volta e cai na presença  dele.

P/1 – Na empresa como ente social, não é?

R – Como ente social.

P/1 – Ativa na sociedade.

R – Como ente social. Esse é um valor que a CTBC... O que chega tem que receber com a sua saudação de boas vindas, é o papel social que a empresa desenvolve. Ela tem seu negócio rentável, um bom negócio, tem que atender os tradicionais tripés, tem que remunerar o investimento daquele investidor que acreditou nesse negócio; ela tem que ser um lugar motivador, saudável, que permite o propício desenvolvimento ao crescimento das pessoas que aqui estão, os associados; mas, acima de tudo, tem que cumprir o seu papel de atender ao cliente. Na medida em que ela atende bem esse cliente, ela entra no circuito da cidadania. A CTBC realmente sempre foi uma empresa cidadã, impregnada mesmo do espírito público pelo seu próprio modelo de crescimento. Nós recebíamos e recebemos até hoje cartas de líderes comunitários e de prefeitos pedindo que nós façamos o atendimento do serviço de telecomunicações naquela sua comunidade. Muitas vezes não é possível porque a legislação não permite, mas eu ainda quero estar aí, porque no fim do ano que vem essa amarra regulatória desaparece, aonde alguém pedir você vai poder chegar lá com esse serviço.

P/1 – Sem lhe pedir nenhum exercício de futurologia, senhor Dílson, como é que o senhor está enxergando esse futuro desregulamentado e como é que a Companhia se prepara para enfrentar esses novos tempos de desafio?

R – Olha, eu diria que a CTBC faz... Completou 56 anos, não é?

P/1 – Vai fazer 46.

P/2 – 46.

R – 46, não é? Fez 46. “54 – 2000”, ela completou 46.

P/1 – 46.

R – Faz 46 anos que ela está exercitando isso. Ela faz, o seu caminho é o caminhar. E cada líder, cada pessoa que chega nessa empresa, ele é um líder, ele pega essa bandeira e leva, isso é o que sensibilizou aqueles parlamentares.

P/1 – Quer dizer, o poderio do argumento que os senhores usaram lá foi exatamente esse argumento baseado na identidade e na reputação construída durante todos esses anos?

R – É.

P/1 – Foi isso que funcionou?

R – Foi isso. Eu acho que uma das coisas mais caras da relação é o bem querer. A CTBC sempre foi bem querida porque ela se doou. Quando tinha uma pequena comunidade isolada, se era o poste e o fio que tinha que ir lá, ia plantar o poste lá, e fazia junto com a comunidade através de seus instrumentos constituídos. A lei votada na Câmara, a permuta com a Prefeitura, isso sempre andava de braço dado. Eu vivi ao longo de todo esse tempo milhares de projetos feitos de maneira... De parcerias. Às vezes as palavras ficam um pouco gastas, mas era mais que a parceria, era cumplicidade. E isso criou um valor no Congresso. Então até hoje, eu que ando por aí, eu ouço, encontro parlamentares ou ex-parlamentares que lembram: “Ó, eu votei aquela lei de vocês, hein. Vocês estão aí. Eu acreditei. Vocês estão fazendo bonito, vamos ver daqui para a frente”. Quando a gente teve a oportunidade... Porque a primeira foi a celular banda B, Rio de Janeiro, onde nós, aqui, mineirinhos do interior, fomos disputar Rio de Janeiro, segundo mercado telefônico de telecomunicações do país. Com gigantes, AT&T, a maior Companhia de telecomunicações do mundo, parceira da Rede Globo, a maior empresa de comunicações do Brasil, de maior influência política; do Bradesco, o maior banco de varejo do país. E a nossa cesta de valores e tarifas deixou o Ministro Sérgio Mota perplexo. Perplexo. E os adversários derrotados (riso). Nós ganhamos.

P/1 – Está lá a ATL.

R – Está lá a ATL. E o jornal O Globo, no dia seguinte veio aqui em Uberlândia e fez uma matéria. “Quem são eles?” E para mim teve uma... Foi emblemático. O repórter retratou com fidelidade, mas foi emblemático. Quem deu a resposta foi um carroceiro, com telefone celular. Isso há três anos, que telefone celular ainda era um status, quando tocava todo mundo olhava. Três, quatro anos atrás.

P/1 – É porque esse pioneirismo também está muito vinculado à história, quer dizer, à própria (brust?) tecnológica que a CTBC encampou, veio por conta da sua gana pioneira, vamos dizer assim.

R – Veio. Mas aí ela trouxe junto o seguinte, se você não é o maior, realmente você tem que ser o melhor e mais ágil. E isso foi sempre um valor da CTBC. Foi a vanguarda tecnológica, a primeira fibra ótica comercial que operou nesse país foi aqui nessa cidade, e a CTBC que fez. Foi a primeira fibra ótica industrial por uma empresa da Algar, a XTal. Um dos folclores que tem: o senhor Alexandrino e o doutor Luiz contrataram uma central automatizada da Ericsson e o governo não permitiu que ela entrasse no país porque tinha lei de informática, um monte de coisa. Mas, no fundo, no fundo, era porque as empresas estatais não tinham adquirido aquilo. Mas quando foi possível nós colocamos, a primeira central computadorizada do interior brasileiro foi aqui. A telefonia celular do Estado de Minas Gerais e de São Paulo falaram no celular pela CTBC celular, não foi pela Telesp, não foi pela Telemig. Mas quando a gente chega lá no fundo, é buscar encantar o cliente. O lema... Quando eu entrei na CTBC, que eu fui no primeiro prédio dela, do lado de fora tinha um luminoso quadradão assim, e estava escrito: “O assinante é o nosso maior patrimônio.” Quer dizer, encante o teu cliente. Aí o Congresso votou essa lei, teve que ser negociada. Deixou de ser 30 anos, passou a ser oito mais oito, votado do plenário da Câmara. Muitos deputados da oposição falaram: “Eu só vou votar por uma questão ideológica, mas eu não tenho nada contra essa empresa”. Pessoas altamente estatizantes quando consultadas falavam: “Olha, eu sou estatizante, mas essa empresa tem que ficar.” E os líderes da oposição, do próprio PT, quando os nossos associados foram lá: “É democracia? Então respeite a nossa vontade. Se o cliente quer, se o associado quer e se o serviço é bem prestado, qual a razão?” Mais uma vez a CTBC foi pioneira e assumiu o risco de ser o ponto de mutação do sistema de telecomunicações sair, permanecer estatal e se tornar privado. Porque quando veio a discussão da privatização, todo o trabalho de mídia, toda a opinião pública, a CTBC foi o parâmetro de comparação.

P/1 – Hum, hum.

P/1 –­­­­­­­__________________

R – Exatamente.

P/1 – A gente só tem a agradecer o excelente depoimento que o senhor deu pra nós, espero que a gente volte a conversar outra vez e contribuir ou acrescentar coisas, porque esta história é interminável.

R – Sem dúvida.

P/1 – História contada de múltiplas visões e todas elas com uma característica muito peculiar, quer dizer, a construção dessa reputação que faz o diferencial.

R – Sem dúvida, sem dúvida.

P/1 – Maior que toda a Companhia.

R – É. Inclusive nós fizemos uma discussão há alguns dias, nós temos um projeto que chama Algar 2100, que é o fórum que nós temos para discutir sem a mínima preocupação de qualquer envolvimento pessoal, porque dificilmente nós vamos chegar lá no 2100, não é? Então qualquer coisa que a gente discuta nós estamos desprovidos de qualquer influência pessoal, e a gente validou esses valores, sabe? Um dos pontos fortes foi isso, a validação dos valores da organização.

P/1 – Perfeito, senhor Dílson.

R – Ok. Foi um prazer estar aí com vocês também.

P/1 – Muitíssimo obrigado, muitíssimo obrigado, o prazer foi todo nosso.

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