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História

Calçando Araraquara

História de: Maria de Paula Bueno Circelli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2005

Sinopse

A infância bastante agitada em Araraquara e o relacionamento com os vizinhos. A mudança para Rio Claro. O primeiro emprego, em uma confecção. Os bailes que frequentava durante a juventude e o emprego em uma rádio de Rio Claro. A mudança para São Carlos. Os bailes e as paqueras durante a juventude. A infância, com dificuldades financeiras. O relacionamento com o primeiro companheiro, pai de seu filho. O casamento, em São Carlos. Início do trabalho no comércio, passando pelas lojas onde foi funcionária. A relação com o marido. Considerações diversas sobre o funcionamento das lojas onde trabalhou.

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História completa

P/1 – Dona Maria, para começar a entrevista diga o seu nome completo, o local e data de nascimento.

 

R – Maria de Paula Bueno Circelli, é, olha, tem que ter o endereço né? Avenida Dr. Carlos Botelho…

 

P/1 – Que a senhora mora hoje?

 

R – É. 1983, Centro.

 

P/1 – Que dia que a senhora nasceu?

 

R – Dia 19 de janeiro de 1935.

 

P/1 – Onde?

 

R – Em Araraquara.

 

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe ?

 

R – Benedito de Paula Bueno e Jorvina Alves de Godoy Bueno.

 

P/1 – E de onde que eles são?

 

R – O meu pai é de Jundiaí e a minha mãe, de Itirapina.

 

P/1 – Itirapina. E o que é que eles faziam profissionalmente?

 

R – Meu pai era maquinista da Paulista da Fepasa e minha mãe era doméstica, do lar.

 

P/1- A senhora tinha irmãos?

 

R – Dois irmãos.

 

P/1 – Qual o nome deles?

 

R – Silas de Paula Bueno e Cleonice de Paula Bueno Zanor que ela é casada, né?

 

P/1 – Ah tá, e o que a senhora lembra da sua infância, da rua onde morava aqui em Araraquara?

 

R – Araraquara não lembro, porque sai pequena de lá, e lembro bem de Rio Claro, onde fui criada lembro bem da infância, foi uma infância bem agitada viu!

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque eu era pior que moleque. A minha mãe passava um doze comigo, porque eu era mais velha né, depois de mim é meu irmão, estou com 64 anos, meu irmão tá com 56 e a minha irmã tá com 53, então eu era muito levada e minha mãe mandava olhar os irmãos só que eu saia pra olhar os irmãos e entrava pras brincadeiras também, mas tive uma infância muito gostosa, boa, sempre no meio da criançada brincando muito levada, aprontava muitas pra família toda, então tem histórias bem engraçadas da infância.

 

P/1 – Que brincadeiras vocês faziam?

 

R – Ah, brincava com a molecada, corria com a molecada, se escondia, jogava bola, eles queriam aprontar, fazer malandragem, assim pra derrubar aqueles... amarrava aqueles barbantinhos no copinho com água pra derrubar nos outros, eu estava no meio daquela turma lá, tudo que era brincadeira, mas tinha as meninas, mas mais era com os meninos que a gente tinha que as brincadeiras que eram mais engraçadas, então eu estava no meio da meninada, aí saia pra olhar os irmãos também quando via eu estava envolvida lá, aí, ó, entrava no “couro”, apanhei tanto da minha mãe até, mas tive uma infância e batia, tacava pedra, uma vez minha avó morava e tinha uma vizinha muito querida, né, e nós estávamos todos brincando lá, briguei com o menino da vizinha, dei uma tijolada no moleque, abriu a testa do moleque, aí dois saíram correndo pra me pegar pra bater, da família, a família toda minha acudindo o menino lá, que levou pra pronto-socorro, minha avó acabou discutindo lá com a vizinha e eu chegava na minha avó, se você visse, era chegar lá e todo mundo de cara feia comigo e eu tinha que ficar sentadinha lá no canto de castigo, mas era tudo muito válido, muito bacana, foi uma infância muito gostosa em Rio Claro, viu?

 

P/1 – Quem era a sua turminha , nome dos meninos, das meninas, a senhora lembra?

 

R – Claro, tinha João, Toninho, Celso e as meninas tinha a Áurea, Cidinha, tinha Cecília, Isaura, tinha a meninada que a gente tinha bastante amizade, brincava tudo junto, então essa foi uma infância gostosa.

 

P/1 – Em que rua que a senhora morava em Rio Claro?

 

R – Olha, em Rio Claro quando mudei pra lá fui morar na Vila Alemã, era Rua 6-A número, acho que era 151, que morei lá muitos anos, fui criada ali, nesse lugar.

 

P/1 – Tinha muito alemão lá?

 

R – Não tinha, bom tinha alguns sim, porque a vila era Vila Alemã, né, e hoje derrubaram tudo, a casa logo depois derrubaram, depois de muitos anos derrubaram a casa que eu morava, aí que já fui pra outras casas, mas em pequena foi ali, nessa Rua 6-A, Vila Alemã.

 

P/1 – E a escola?

 

R - É a escola aí me puseram no Grupo Escolar Leonor Penteado, e lá fiquei do primeiro ano até o quarto ano, também dei trabalho, era levada, mas sempre eu gostei de fazer brincadeira e gosto até hoje de contar piada, fazer brincadeira, então eu dava trabalho por causa disso falava muito, virava pra trás falava, virava pra frente falava, não dava sossego pra professora e aprontava com todas elas, mas assim, em questão de brincar, ficar falando um com o outro eu não parava, né, mas fui boa aluna mas dava trabalho nesse sentido.

 

P/1 – Como era o uniforme?

 

R – Ah, o uniforme era azul-marinho e branco, era blusinha branca e a saia azul-marinho, então era um uniforme bacana também.

 

P/1 – Lembra de alguma professora que a senhora gostava ?

 

R – Lembro, a dona Filica, a dona Maria de Lourdes Jordão, a dona Amália Pignatari essa foi do quarto ano, a dona Filica era gordona. me pegou no primeiro ano, a dona Filica acho que fiquei o primeiro e segundo ano com ela, depois o terceiro ano foi com a dona Maria de Lourdes Jordão, acho que ela é viva até hoje, porque de vez em quando encontro com uma nora dela, que mora aqui em São Carlos e depois tive a dona Amália Pignatari, que foi muito legal, professora do quarto ano, era casada com médico, doutor Pignatari tinha até hospital e deve ter também até hoje e, foram assim as minhas professoras, mas tive também foi muito gostoso, viu, eu gostava de cantar, gostava quando levava ela pro pátio pra cantar, né, lá eu abria a boca pra cantar o Hino Nacional, cantar sempre foi o meu fraco, Rio Claro tem umas passagens gostosas, tinha uma vizinha minha, uma portuguesa dona Mariquinha e então ela tinha uma sobrinha chamada Júlia que mora em Jaboticabal até hoje, tá viva ainda, agora não sei mas até um ano atrás estava viva ainda e eu gostava de cantar, então essa sobrinha dela chegava e a minha casa tinha assim, era uma chácara, e tinha muitas árvores e eu vivia que nem macaco em cima das árvores, trepava na mangueira, trepava na laranjeira, trepava, tinha as goiabas, eu ficava o dia inteiro lá pelo quintal brincando e no pé de fruta, então essa Júlia, sobrinha da dona Mariquinha chegava e falava pra mim assim: “Eu te pago um sorvete se você cantar uma música pra mim.” Aí eu trepava lá no pé de ameixa, me ajeitava num galho lá e cantava, ela gostava do “Destino Desfolhou”, “O Ébrio”, aquelas músicas antigas, cantava, acabava de cantar e falava assim: “Cada música é um sorvete?” Aí eu queria bastante, então cantava mais música, trepada lá na ameixa... e ela sentada assim, porque tinha minha casa, um muro baixinho que já era assim a frente da cozinha da tia dela e era uma área comprida, então ela sentava ali e ficava olhando eu cantando, e eu em cima da ameixeira, cantando.

 

P/2 – Por que em cima da ameixeira?

 

R – Eu achava que de lá de cima eu cantava mais alto ela ia ouvir melhor, se cantasse no muro assim, eu achava que não dava certo, então eu subia lá no pé de ameixa, me ajeitava bem num galho bem firme, e cantava de fechar os olhos, assim sabe, cantava punha alma naquela música sabe, cantava aquelas coisas gostosas aí via quantos sorvetes deu, aí no outro dia eu já perguntava: “Quer que canta mais? Paga mais sorvete?” Mas é uma coisa que ficou tão gravado, daí mudou um senhor que veio da Itália também, era uma vila que começou nova depois, né, era tudo assim eucaliptos, e depois foi formando vila, aí mudou mais um senhor um italiano, que agora não lembro o nome dele e esse gostava que eu cantava então ele falava: “Vou te ensinar música italiano e você vai cantar.” Aí eu já ia numa outra árvore lá do fundo porque daí o outro era mais no fundo, aí ele ensinava alguma coisa e eu cantava Sole mio, sabe, Mamma son tanto felice e ele falava: “Bravo, menina, você vai longe.” E daí me entusiasmava, sou cantora, me entusiasmava, quando ele mandava cantar, lá ia cantava, depois vinha na ameixeira cantava pra Júlia, foi uma coisa bem marcante da minha vida porque depois mudei aqui pra São Carlos e aí encontrei uma irmã dessa Júlia aqui, a Leopoldina, encontrei ela aqui então, ela mora por aqui, ela é da Terceira Idade, são duas irmãs e uma sobrinha dessa Júlia, que estão na Terceira Idade, aí encontrei com elas aqui e mandei recado, pra ela vir aqui, ela foi me visitar algumas vezes lá na loja onde eu trabalhava, mas ela já tá bem velhinha não sei se ela era professora ou trabalhava no grupo, em Jaboticabal mas tenho essa lembrança muito boa, das músicas que eu cantava pra ganhar o sorvete.

 

P/1 – Onde a senhora tomava sorvete ?

 

R – Passava um homem, com aquele apito, apitava ela ia lá já comprava e via quantos ganhei, comprava o sorvete entrava toda feliz, chupava tudo, era na rua ali, nessa Vila Alemã mesmo, era ali.

 

P/1 – Como aprendia as músicas?

 

R – Ah no rádio, naquele tempo não tinha televisão, era o rádio, então cantava Vicente Celestino, cantava muito e eu prestava bem atenção depois abria a goela lá em cima cantando “O Ébrio”, cantando “Porta Aberta’ sabe, mas cantava mesmo, você tem que ver viu, agora “O Destino Desfolhou” essas outras músicas eu já ia aprendendo, o Francisco Alves eu gostava muito dele e já de mocinha eu ia pra baile, os meus tios tocava na banda eu tinha o meu tio Oscar, o meu tio João e tinha um outro tio em Itirapina que tudo eles tocavam, mas lá em Rio Claro tocava na banda meu tio Oscar Alves de Godoy e João Alves de Godoy e então como eles tocava e eu vivia no meio da música eu também estava sempre junto e lá em Rio Claro eu já era meninota ainda, já ia no grêmio na Cidade Nova dançar, dançava punha salto alto, puxava o cabelo pra cima, fazia um penteado meio alto pra parecer mais velha, pra poder entrar, porque eu era nova e dançava viu e falo sempre se dançar gastasse perna não tinha nem toquinho, de tanto que já dancei na vida viu, gostava de baile.

 

P/1 – A senhora pegou lá em Rio Claro a época do serviço de alto-falante?

 

R – Peguei.

 

P/1 – Como era isso?

 

R – Ah, o alto-falante lá é aquele negócio grande assim, que eles ficavam anunciando tudo, como é hoje o microfone pequeno, né?

 

P/1 – Ficava na praça.

 

R – Na praça, a banda tocava na praça eu era mascote de banda, meu tio tocava ah, quando ele punha aquela farda branca linda, né, eu já me ajeitava toda e ia lá pra praça, a banda tocando e eu marchando lá, dançando na praça correndo e ia muito em baile, dancei muito em Rio Claro também. Rio Claro foi depois comecei trabalhar, já bem mocinha comecei trabalhar, trabalhei numa fábrica de costura, do Rubens Rego e estudava e trabalhava já ali também, né?

 

P/1 – O que é que a senhora fazia na fábrica?

 

R – Lá eu marcava os botões, era uma fábrica só de calça, a mãe dele tinha fábrica de calça e ele vizinho era de paletózinho, roupa de criança, de adulto, então ficava num balcão atrás, e marcava os bolsos, os botões onde ia, chuleava, pregava o forro no paletó pra depois costurar e ali trabalhei muitos anos sem registro também e depois fomos tudo junto pra Junta, veio um fiscal lá pegou todo mundo, foi tudo pra Junta eu tinha bastante anos, então lá trabalhei muitos anos, antigamente não tinha esse negócio muito de registrar, a gente trabalhava sem registro, eles perguntavam você quer ganhar mais ou menos, a gente não sabia do tal de registro que era uma garantia pra aposentadoria:. “Ah não quero ganhar bastante. Então, não vou te registrar.” Não, até o dia que conversei com ele, falei: “O que será que é registrar, né.” Fui trabalhando lá, trabalhei anos, quando me pegaram provei, ganhei na Justiça tudo, mas foi coisa assim, que a gente trabalhou, você vê me aposentei agora em 92, por falta dos anos todos que foi, mas mesmo assim você sabe que sou feliz, não tenho mágoa de não ter sido registrada porque era uma fábrica com muitas moças, tinha muitas moças, tudo da minha idade e a gente era tão feliz naquela fábrica, sabe, os papos de namorado, de baile, tinha minhas amigas que gostava muito, então era um ambiente muito gostoso e tudo pra mim era felicidade, sabe, sempre vivi cantando, sorrindo alegre, tive a vida marcante assim, porque não me preocupava com nada, sabe, não achava assim que tal coisa me prejudicou, falava: “Ah passou, agora vou partir pruma outra melhor, né?” Ah, e estou sempre vencendo na vida por causa dessa fé, sou muito devota de Santo Antônio, a minha mãe ensinava que tinha que rezar bastante pra Santo Antônio pra casar, então tinha que dar pão pra pobre. “Você minha filha, você leva pão pra pobre, ajuda bastante pobre, que Santo Antônio é casamenteiro e você vai casar.” Mas eu não tinha aqueles sonhos assim de casar vestida de noiva, com aquelas coisas toda eu ia nas lojas assim com as minhas amigas olhava aquelas lojas de noiva, via aquelas noivas bonitas, mas já ficava de olho nos vestidos das madrinhas, no chapéu, no vestido, no sapato, porque eu era de família humilde e pobre, mas gostava de andar bem vestida, bem arrumada, sempre gostei de combinar sapato com vestido, com roupa, me pintar, tinha o cabelo bem comprido até na cintura, então eu me entusiasmava, a turma falava: “Você é bonita, né?” Então eu olhava no espelho e falava: “ Sou bonita , então precisa andar bem arrumada.” Então botava pra, a minha mãe coitada, costurava, comprava aqueles paninhos baratos, de tamine, e fazia aqueles vestido tudo vermelho de florzinha branca, branco de florzinha vermelha, sei que vivia com os meus vestidos sempre bem nos trinques, minha mãe fazia abajur pra fora, flores pra fora e o dinheirinho ela aplicava tudo pra fazer roupa, porque ela também gostava demais de baile, ela adorava baile, meu pai já era meio crente, não gostava, então ela me deixava bem bonita e falava: “Vou fazer um vestido bem bonito e você fala pro seu pai, que você que ir no baile, porque se eu falar que sou eu, ele não vai deixar, então você fala que você quer ir”, aí ela já falava pras vizinha: “Eu vou levar sua filha, sua fita, ela reunia lá umas amigas minhas e falava pras vizinhas: “Pode deixar que eu olho, né, então as vizinhas tudo deixava por conta dela e ela pra pode ir pro baile, pra mim levar que ela queria ouvir a música que desde criança ela viveu em fazenda, também ia de uma fazenda na outra pra dançar aquela época, e naquela época diversão era aqueles bailes de sitio, de fazenda, e meu avô levava, meu avô tinha, trabalhava numa fazenda em Itirapina, né , no Itaqueri da Serra por lá, é uma fazenda grande, e então meu avô levava as filhas, né, todas dançavam e a minha mãe gostava demais, então minha mãe me entusiasmava pra mim querer ir pro meu pai poder deixar ir, então eu vivia em baile e gostava e aí arrumava os namoradinho, ia toda...sabe? Minha mãe pegava meu cabelo, suspendia assim, punha uma flor, vivia com uma flor combinando com os vestidos, então ia bem chique.

 

P/1 – E qual o vestido que a senhora mais adorava?

 

R – Ah, tinha um vestido muito bonito que ele era vermelho, com umas flores brancas, era decote princesa que aquele tempo já usava, aquele decote princesa assim e a minha mãe fez uma flor, botou a flor assim, já tinha flor aqui que eu usava no cabelo também e aquele cabelão solto que eu usava, então aquele lá era o meu preferido, aquele parece que é o que dava sorte, é, eles eram compridos, eles tinham cintura, e eram rodados, aqueles vestidos bem rodado e a gente era magrinha, aquilo era elegante, e a minha mãe punha um salto alto em mim parecer mais velha, pra poder entrar no salão também, lá ia eu de salto, às vezes ela pegava fazia um fofo aqui no meu cabelo e punha bombril por dentro, sabe? A gente soltava aqui o cabelo assim e aqui fazia aquele cheio assim com bombril aqui dentro e lá ia eu com aquele cabelão todo, aquele vestido, né, aquela cinturinha fina e lá ia eu, trouxe uma foto daquela época que fui madrinha do moço e eu trouxe pra vocês ver também, então sei lá, eu vivia no baile e os vestidinho, ela fazia aqueles abajur, flor, vendia, e corria comprar o paninho barato e já costurava meu vestido, ah, no sábado eu punha a roupa, ficava entusiasmada, aí, hoje estou toda, era tudo aquelas roupinhas baratinha mas ficava tudo tão bonitinho, tão ajeitadinho, aí ia no baile aparecia cada baile que arrumava um fã novo, os mocinho. E eu dançava que eu não parava, então era daí, me entusiasmei tanto por baile, que você vê que estou há 25 anos nessa Terceira Idade, em Araraquara já estou há dois anos na Terceira Idade de lá, né, e falou que tá tendo baile em algum lugar, estou me aprontando e estou indo, é difícil você não me ver numa festa, quer me ver numa festa assim e gosto sabe, de fazer amizades, conversa ... e viajei muito, fiz muita excursão também, quando casei aqui em São Carlos viajei demais, uma turma muito legal, agora Rio Claro passei os momentos muito bom da minha vida, minha mocidade foi muito importante.

 

P/1 – A senhora disse que o vestido vermelho dava sorte, por que?

 

R – Dava sorte.

 

P/1 – Sorte em quê?

 

R – Cada vez que eu punha ele, chegava lá no baile já aparecia um mocinho novinho assim, já me olhava, tirava pra dançar, lá ia eu, e virava naquele salão e falava: “Ah, esse aqui deu sorte”, então eu tentava sempre, trocava no outro sábado o outro mas daqui a pouco ia o vermelho de novo.

 

P/1 –Como que eram as paqueras?

 

R – As paqueras, aquele tempo era tão bonito menina, não é como é hoje, aquele tempo você arrumava um paquera e começava a conversar, mas era só no baile porque a mãe não deixava namorar, não podia sair, e não podia pegar na mão também, as mães já avisava a gente: “Olha, cuidado que começa pegando na mão, hein!” Então, coitado conversava comigo um mês seguido, vinha pra pegar na minha mão falava: “Não, na mão não! Ficava de longe, num adianta. Eu tive um namorado chamado Sérgio que era crente, eu entrei na Igreja Batista, eu era da católica, primeiro eu ia com uma filha de Maria vizinha minha na católica, cantava no coral com ela, né, tinha aquelas festinha das filhas de Maria, o padre vinha, isso foi lá em Rio Claro na igreja Nossa Senhora Aparecida, que é também nesse bairro da Vila Alemã, mas só que é na Rua 1, e é lá no fim, agora tem a igreja até hoje, tem o padre Paulo, então ia naquelas festinha filhas de Maria já dançava lá também, então é aquelas festas gostosas. aí cantava no coral daquela igreja, mas eu queria cantar, tinha na procissão de Sexta-feira Santa, era ali tudo era muito católico, então saí naquelas três de preto, das três Marias, e foi uma história tão engraçada porque a gente foi nessa procissão, e essa minha vizinha foi a Verônica que cantava abrindo, e nós três de preto atrás e lá fui eu, aí quando acabou a procissão era uma Sexta-feira Santa, acabou mais de meia-noite até que viemos a pé pra casa, naquele tempo eu tinha bicicleta só, viemos pra casa, chegou em casa, entramos em casa, menina, me aparece um rato era aqueles casarão antigo grande, apareceu um rato e eu com aquele vestidão preto, levantava o vestido e corria atrás daquele rato e com vassoura daqui, foi um fuzuê naquela Sexta-feira Santa, então essa também num esqueço por causa desse negócio interessante, né? E lá tinha aquelas as festas, dos santos, então tinha as barraquinhas, aquele tempo era footing, os moços ficava tudo parado e a gente ficava andando, passeando e paquerando um daqui outro dali e depois na hora de ir embora é que a gente via o que interessou mais, é o que a gente deixava vir com a gente até perto de casa, dois quarteirão antes de chegar em casa, pra família não ver, se não já brigava e sem pegar na mão, um na beirada aqui outro lá no canto, era uns namoro tão gostoso, viu era uma coisa boa, porque não tinha essa liberdade que tem hoje, então é gostoso sabe, você estava sempre querendo ver, acho que hoje a liberdade é muito grande, então a pessoa vê o outro já viu se interessou ou não já nem liga mais, acha que depois, naquele tempo não aquilo prendia, né, essa distância, esse respeito todo prendia mais as pessoas um no outro, aí depois fiquei crente outra vizinha me convidou para ir pra Igreja Batista, fui pra Igreja Batista.

 

P/1 – A Igreja Batista, né?

 

R – A Igreja Batista de Rio Claro, a primeira foi...

 

P/1 – A igreja luterana, de origem mais alemã.

 

R – Não essa igreja já era mais aqui pro centro lá em Rio Claro era na rua, acho que na Rua 2, Avenida 11 por ali, mas a vizinha vinha e me trazia, né, aí fui cantar nesse coral também, porque queria cantar, aí cantava nesse coral aí lá arrumei um namorado chamado Sérgio, um moço muito bom, gostava muito de mim, esse também fui namorando lá dentro da igreja, ele se interessava queria que eu me batizasse, então a gente ia pra rua de domingo, né, o pessoal ia ler a Bíblia, cantar, na praça, e falar sobre a religião, né, então eu ia junto, cantava com eles, falava, eu passei assim na igreja batista e nessa igreja católica que minha família toda é católica, fiquei lá muito tempo também, depois saí daquela também, aí depois já mudei aqui pra São Carlos, aqui em São Carlos freqüento a católica e divulgo muito a filosofia da Seicho-no-iê, hoje sou católica porque a Seicho-no-iê não é religião, é uma filosofia de vida feliz e já fui muito em Centro porque tive minha mãe muito doente, né, a minha mãe ficou muito doente eu estava vendo que assim com remédio e com médicos não estava indo muito, então fui freqüentar assim pra ver aonde eu ia me encontrar bem, então fui em Centro, levei minha mãe, gosto muito, respeito muito todas as religiões porque o Deus de todas é um só, né, e nós, e eu acho assim que até é bom, quando você passa numa dificuldade com questão de doença principalmente mãe e pai que é pessoas muito importantes pra gente, acho até bom que a gente vá em várias porque daí você tira uma opinião certa, do que você acha que é o certo, porque se você fica sempre naquela que você veio de origem que a família é, e fica sempre naquela, você não tem oportunidade de aprender outras coisas boas também, porque todas são boas. todas ensinam coisas boas, mas freqüentando, você já se define mais no que você acha que encaixa mais com você, então sou católica de origem, mas gosto da Seicho-no-iê, falo muito, divulgo muito, sou divulgadora deles, né, e onde vou sempre tenho um livrinho da Seicho-no-iê pra passar, principalmente se converso com alguém que fala que tá com problema ou de dor, ou qualquer tipo de problema converso muito com a pessoa e já passo um livrinho da Seicho-no-iê falando: “Lê isso aqui você vai encontrar uma resposta pro que você tá procurando, né?” Dou folhinha, fim de ano meus presentes pra advogado, médicos, meus amigos, são a folhinha da Seicho-no-iê, que traz aquelas mensagens maravilhosas, que você levanta, você já faz a sua prece, você já imagina você filha de Deus perfeita, que o seu dia tá maravilhoso, se tá chovendo sempre agradecer a Deus porque está chovendo, né, se tá sol ,agradecer a Deus porque tá sol, porque tudo é motivo de agradecimento e hoje baseada nessa filosofia que eu encontro assim, um motivo pra viver contente feliz com tudo, se não briga falo: “Mereci porque alguma coisa tenho que, isso aí tinha que acontecer pra me acordar pra alguma coisa, se me trata bem agradeço mais ainda porque sou assim muito feliz, porque desde infância eu era criança querida, sempre fui amiga de todo mundo, né, sempre por onde eu passei marquei muito, é difícil você me esquecer. Pelas coisas, gosto de contar piada, faço palhaçada, brincadeiras assim sabe, então a gente encaixa muito, né?

 

P/1 – Em Rio Claro, a senhora só trabalhou na fábrica da confecção?

 

R – Em Rio Claro trabalhei na rádio, na PRF2.

 

P/1 – Na rádio? O que a senhora fez na rádio?

 

R – Eu era escriturária ali na frente, marcava as música, os pedido de músicas, ficava sentadinha ali atendendo o público, trabalhei criança também, trabalhei numa fábrica de calçados, na Buri do seu Rubens Fontes, trabalhei uns anos nessa fábrica de calçados, trabalhei na PRF2. tudo sem registro.

 

P/1 – PF...

 

R – PRF2.

 

P/1 – É a rádio?

 

R – É a rádio de Rio Claro.

 

P/1 – De quem que era a rádio?

 

R – A rádio era do seu Waldemar Cartolano e tinha o Ribeiro Mancuso, que era um locutor muito bom, tinha o Raul Brunini que foi deputado depois ele trabalhava também, a Luizinha que era a bibliotecária que punha os disco, né? Disco...

 

P/1 – Discotecária.

 

R – Discotecária. A Luizinha namorava ele, né, e casou-se com ele, trabalhei com essa Luizinha na rádio. Na rádio foi uma vida gostosa também, com música, trabalhei nessa rádio, trabalhei nessa fábrica de calçado do seu Rubens Fontes, que era de calçado, era uma fábrica e trabalhei nessa costura, né, na costura onde eu fiquei mais tempo.

 

P/1 – E vocês vieram pra São Carlos por quê?

 

R – É aí, depois o meu pai tinha casa aqui, a gente estava em Rio Claro eu tinha meu filho pequeno, que meu filho nasceu em Rio Claro, Aí então a gente resolveu vir se juntar tudo aqui e ficar aqui junto, né, que meu pai não ia mudar mais pra lugar nenhum, porque ficava aquele muda pra lá, muda pra cá, então o meu pai se fixava numa cidade e a gente ficava lá, aí viemos todos pra cá, que foi em 57 que o meu filho nasceu.

 

P/1 – Vamos dar uma paradinha?

 

R – Vamos.

 

P/1 – Queria voltar um pouquinho, né, a senhora estava falando, é em Rio Claro ainda, do serviço de alto-falante, da paquera que a senhora estava falando.

 

R – Ah sim, então, o serviço de alto-falante era interessante porque falava tudo muito alto, e era legal porque a gente ia nessas festas quermesses, né, e a gente ficava virando assim, aí dali um pouco falava lá naquele alto-falante: “Agora o Roberto, ou o João - falava o nome do rapaz, né -, está oferecendo essa música para uma morena muito simpática que está de saia preta, blusa branca, sapato preto e tem cabelo comprido e dava as dicas sabe, então já todo mundo olhava e falava: “É você, né.” Então tocava aquela música, a gente ficava toda, aí já começava aquela paquera, né, e o alto-falante era um negócio super interessante, era legal aquelas músicas gostosas, antigas, né, e às vezes era a gente que ia lá, também, se você olhava num cara que você se interessava, a gente já corria lá, pagava, né....

 

P/1 - Pagava?

 

R – É, pagava, opa, e tinha o correio elegante, o correio elegante os moço mandava bilhetes pra gente, chegava uma pessoa na gente e falava assim: “Ó um cara tá mandando isso pra você, né, é o seu fã, tá mandando isso aqui, é seu paquera, então dava aquele bilhete, a gente abria assim, lia e punha só por exemplo Roberto ou José, aí menina você ficava rodando lá e olhando e falando: “Qual será que foi, né”, aí você via aquele estava mais piscando e ficava fazendo assim, na hora de embora, né, então você já desconfiava que era aquele, então era um negócio, era uma coisa assim tão simples mas tão gostosa, por causa assim do que eles aplicavam assim da simplicidade, cê entende? Era um negócio gostoso diferente, então eu achava bacana e tinha os periquitinhos que lia a sorte, aquela era uma gaiola bacana, né, e o cara com aquele realejo, sou do tempo do realejo, o cara ficava virando aquela manivela e a música tocando, e chamava realejo, ele ia virando aquela manivela, a musiquinha tocando, ele falava: ”Quem quer ver a sorte o periquitinho vai tirar, então a gente chegava ali, pagava também, o periquitinho já, ele parava a música, periquitinho ia lá pegava um bilhetinho, né, já vinha e dava pra gente abria e ficava com aquele sabe, estava dizendo: “Você ia conhecer um moreno bonito simpático, você ia ficar rica, ganhar muito dinheiro, então nossa, aí você vivia naquelas esperança, né, você sabe que sou uma pessoa assim, tenho muita ilusão, muita esperança, vivo sempre esperando coisas boas, coisas maravilhosas, estou sempre esperando coisas, você entende, e hoje com essa filosofia eu espero mais ainda porque é o que ela ensina, né, que você é rica, você é próspera, você é feliz, você tem tudo e às vezes você não sabe que tem, então nós sempre estamos falando, sou maravilhosa, nós temos que sempre ali aprendemos a sonhar sempre muito alto, com tudo que é o melhor, então eu sou uma sonhadora, desde pequena pobre, esqueci de contar um detalhe pra você da infância também.

 

P/1 – Pode falar.

 

R – Era aquela pobreza, né, porque o pai ganhava pouco a família, três era uma vida dura, né, era muito difícil, então minha mãe ia comprar sapato, comprava pro meu irmão que era um pouco mais novo, e o pé era do tamanho mais ou menos do meu, o meu era menor, então comprava uma botina, não podia comprar sapato de mulher porque tinha que usar os dois, então comprava assim uma botina que era de homem, então pra ir na festa se o meu irmão ia eu não podia ir, mas eu já pegava primeiro o sapato e lá ia eu na frente que o sapato era maior que meu pé, né, então a roupa outra coisa que lembro muito também que hoje dou muita risada, hoje tenho um guarda-roupa, se vocês for na minha casa eu te mostro quatro guarda-roupa lotado que não tem mais onde enfiar roupa, mas acho que já é aquele trauma de lembrar que na infância eu queria ter tudo e não tinha, eu tinha uma roupa pra trabalhar nessa fábrica, era de saco, minha mãe fez a saia de saco e a blusa de saco, aqueles sacos que vinha com açúcar, que ela alvejava, então ela fez a saia de saco azul-marinho tingiu e a blusa branca e eu trabalhava a semana inteira com aquela roupa, né, então a gente ia trabalhar quando chegava no sábado lavava mas o saco demorava pra secar, não é que nem essas blusa hoje de tergal, né, que seca tudo rápido, voil, essas roupa é dez minuto ali tá seco, aquele tempo era roupa de saco, que você tinha que no sábado lavava e tinha que ficar e eu tinha aqueles paquera bacana, marcava encontro com os paquera e quando chegava no sábado não podia ir porque não tinha roupa pra por, você entende, aí eu olhava eu marcava eles mandava os bilhetinhos lá na fábrica pra mim, que eu era de menor vinha os bilhetinhos marcava no sábado o encontro, chegava na hora eu chorava, falava não posso ir, cadê roupa agora pra ir, né, a roupa estava lavando, porque era um tempo bem duro, feliz que a gente era feliz, mas sabia que não tinha aquela roupa pra por, até que uma vizinha minha um dia ficou com dó e falou: “Ah, minhas roupas serve pra você, vou te dar umas blusinha pra você, aí já fui, e ganhava, mas o que ganhava tinha que aplicar na família porque era, né, tinha os irmãos pequeno, minha mãe ficou teve uma época ficou muito doente, então tinha que pegar o ordenado e aplicar na família e não sobrava dinheiro pra comprar, sapato cheguei a trabalhar numa fábrica de sapato, essa fábrica do seu Rubens Fontes, trabalhei anos nessa fábrica, eu trabalhava numa fábrica de sapato que podia comprar mais barato e o meu sapato tinha um buraco desse tamanho embaixo, e eu ia trabalhar e andava muitos quilômetros para trabalhar porque a minha casa era na Vila Alemã e a fábrica era na Rua 8, né, era longe da minha casa e pegava o estradão da, tinha o muro da Paulista, eu ia pra aquele estradão, na hora de vim almoçar o sol estava quente conforme pisava queimava a sola do pé onde tinha o buraco e não podia comprar outro menina, hoje se você vê o maleiro de sapato que eu tenho e os quatro guarda-roupa, eu tinha três guarda-roupa lotado, aí quando meu marido morreu dei tudo a roupa dele e enchi de roupa minha, então hoje eu abro assim, então hoje eu falo assim: “Aquele tempo era nova, bonita, cheia de ilusões e não tinha roupas pra poder passear e encontrar com os namorados que eu tinha, hoje estou cheia de roupa e de sapato tudo combinando do jeito que eu sonho, mas não tenho mais aqueles paqueras, hoje já a vida é outra, né, já não tenho os moços bonitos paquera me esperando, mas ainda mesmo assim agradeço a Deus e sou feliz porque aquela época eu não tinha a roupa mas tinha os paquera, hoje tenho a roupa, aliás, naquele tempo tinha os paquera e não tinha a roupa, hoje tenho a roupa e não tenho os paquera, mas uma coisa tenho, então ainda sou feliz porque sempre uma coisa tá compensando, e o sapato, né, é o sapato do meu irmão tinha que usar os dois tinha que usar o mesmo, então tinha que ser aquela correria, aquele que pegava primeiro a botina enfiava no pé e eu olhava eu com aquele vestidinho todo elegante mas com a botina no pé eu falava: “Não tá combinando.” Que eu era vaidosa, combinava de pequena eu já queria combinar, olhava naquela botina maior do que meu pé, né, machucava mas tinha que sair correndo, porque aquele que pegava primeiro até conseguir começar, quando melhorou minha vida foi quando entrei nessa fábrica de costura, porque já fui comprando, mas passei apertado com sapato só pros dois, viu, foi a vida do pobre e a fé no Santo Antônio, que estava te contando também, eu ia lá em Rio Claro no asilo, então minha mãe falava: “Tem que dar esmola pra pobre em nome de Santo Antônio.” Então vivia naquele asilo com os velhinhos, com criança, chegava dia de Santo Antônio eu já acendia uma vela pra Santo Antônio, né, e corria com saquinho de pão levar lá e conversava, sempre gostei muito de pessoa de idade e de criança, conversava com aquelas pessoas de idade, abraçava, beijava, ouvia as histórias deles, e levava o pão, então eles falava assim: “Aí que bom, você mocinha aqui visitando pessoas de idade.” E eu falava: “Não eu trouxe o pão de Santo Antônio porque minha mãe fala que Santo Antônio é casamenteiro, ajuda casar e que a gente tem que dar esmola.” Mas acostumei com aquilo e tenho a tradição até hoje quando alguém perde alguma coisa, sabia que se perdia tinha que pedir pra Santo Antônio, tenho uma fé, meu filho chama Décio Antônio em homenagem a Santo Antônio por causa da fé que eu tenho nele. E tudo que perdia eu já corria fazer o responso pra ele, a oração dele, né, aqueles cinco minutos diante dele e achava, era eu perder alguma coisa já encontrava, achava logo, então um dia perdi um brinco, eu tinha um brinquinho assim de enfiar na orelha eu cheguei em casa na hora do almoço, minha mãe tinha mesa posta assim, então caia arroz, feijão a gente ia comendo caia farelo de pão, e tirei o brinco, lavei o brinco e botei assim no cantinho assim perto do prato, deixei o brinco ali, aí ficou aquele brinco ali, acabei de almoçar e um eu enfiei na orelha e o outro eu não enfiei eu fui enfiar acho que alguém chamou, ficou o brinco lá e fui embora trabalhar, quando foi de tarde falei: “Meu brinco, minha mãe foi lá no galinheiro chacoalhou a toalha lá e lá foi meu brinco.” Cheguei de tarde: “Mãe, a senhora achou meu brinco. Não eu peguei a toalha dai e chacoalhei lá no galinheiro pras galinha comer os farelo das coisa, não achei.” Aí eu falei agora vou falar pra Santo Antônio, que tudo era Santo Antônio que eu corria, e falava pras pessoa: “Confia em Santo Antônio, ele é poderoso se acha tudo, né?” Aí fui no galinheiro, virei o galinheiro inteirinho e olhava pra todo canto e não achei, eu falei já sei vou esperar amanhã, que se a galinha bicou e comeu amanhã vai sair, no outro dia fui lá cutucava tudo as chichica da galinha, achei o brinco no meio de uma aí falei: “Santo Antônio você é poderoso.” Aí conversava com as meninas, né, todo mundo falava: “Eu não arrumo namorado.” Aí eu falava: “Reza pra Santo Antônio, faz aquela oração.” Assim entusiasmava, sabe que todo mundo fazia oração e arrumava namorado e falava: “Ó, o seu Santo Antônio.” Eu falava: “Meu não, é nosso, né?” E vela pra Santo Antônio sabe sempre rezando aqueles cinco minutos diante dele, e você sabe que é interessante, porque não casei mas eu tive esse meu primeiro, que considerei como marido ele morreu, vim pra São Carlos, casei com outro, e agora tenho um terceiro que é um companheiro muito bom, que não pretendo casar, mas é um companheiro e falava assim: “Olha ajudou mesmo, estou no terceiro já, né?” Então acho importante, mas o mais é a fé no Santo Antônio que eu via a pessoa contar, né, minha costureira contando que tudo na base daquele contadinho, ela fez as costura guardou o dinheirinho na gaveta pra pagar o aluguel da casa e aí fui lá pra provar uma roupa, ela estava triste falei: “O que é que foi?” “Ah! Você não sabe, o dinheiro certinho do aluguel aqui dentro dessa gavetinha sumiu, agora não sei o que faço.” Falei: “Santo Antônio, reza com aquela fé, acende a vela pede porque se você pedir com fé esse dinheiro volta.” Ela falou: “Ah vou fazer, já me falaram. Então você tem fé.” “Tenho. Pra mim acontece tudo, nada do que eu peço ele falha comigo, mas você tem que levar todo ano, no dia dele, pão pra pobre e num esquecer de acender a velinha pra ele, rezar e pedir e fé muita fé.” Aí ela começou, rezar tinha oração, eu vivia coração pra dá pra quem procurava namorado e pra quem perdia as coisas, e ela fez e o quarto de costura dela era o quarto da frente, então ela abaixava os dois vidros, aquelas vidraças de erguer e de abaixar, ela baixava os dois e tinha uma cortininha transparente e ela ficava ali porque na parte de cima entrava ar pra ela ficar costurando, acho que demorou uns três ou quatro dias, ela disse que viu jogarem uma coisa por cima do vidro assim, ela estava ali costurando, e ela viu quando um pacotinho foi jogado lá da rua e caiu no chão, ela terminou de passar a máquina naquela peça e foi lá olhar ela falou: “Isso é moleque que jogou alguma porcaria, pedra, um pacotinho enrolado, ela abriu era o dinheiro do aluguel, aí ela pegou aquilo, menina ela falou: “Maria que milagre que ele fez ,o dinheiro voltou, porque se você faz com muita fé, a pessoa que tá com o dinheiro, ele fica com aquela consciência pesada, ele acaba te devolvendo mas você tem que ter muita fé pra isso acontecer, né, pois o dinheiro dela voltou, aí aquela também ficou fanática pelo Santo Antônio. Sei e até hoje sabe, todas as pessoas quanta gente que eu converso, né, fala que conseguiu milagres muito grandes, né?

 

P/1 – A senhora já chegou a colocar Santo Antônio de castigo?

 

R – De castigo, não.

 

P/1 – Como o pessoal fala?

 

R – É a turma fala que amarra ele, passa uma fita nele, acho que até eu cheguei uma vez passar uma fita nele pra arrumar um namorado, que eu queria aquele, mas depois fiquei com medo, vai que ele vem fica comigo e depois não dá certo, desamarrei, falei: “Santo Antônio você tá livre, viu.” Sabe, porque eu tinha vício, eu pedia uma coisa e de repente tinha medo que não dava certo, porque tem uma porção de coisa que cheguei a pedir e aconteceu, mas deu errado, né, e principalmente com questão de namorar, dá daquele cara ficava no seu pé e eu já estava de olho no outro, aí peguei a fita, passei a fita em volta do Santo Antônio com o nome dele, mas depois pensei bem falei: “O que, de repente ele vem, gruda, e não é esse.” Fui lá, falei: “Santo Antônio não é nada disso, viu, faz de conta que eu num passei essa fita, ni você, entende.” E fui lá tirar a fita depressa mas é umas coisas que a gente traz, a tradição, né, mas que funciona muito bem viu, esse do Santo Antônio quanto a achar coisas, vocês podem acreditar que, casamento também, quanta gente fez o pedido e foi fazendo, fazendo, fazendo, e casou com aquele cara, pode até não ter dado certo, mas que casou com o cara que quis, casou. Então eu já pedia pra ele pra vir aquele que eu achava que fosse bom pra mim. Não me arrependi dos três que eu tive, porque foi bom. Então pra mim não cheguei não, quando eu amarrei eu corri desamarrar de medo. Mas pedido de achar coisa, vocês podem crer viu gente, é perder uma coisa e pedir pra Santo Antônio olha, é difícil falhar viu, não falha mesmo, ele é muito poderoso.

 

P/1 – A senhora é poderia falar sobre o seu primeiro marido?

 

R – É esse primeiro assim foi um companheiro, que foi muito legal, ele foi muito bom, uma pessoa de muita experiência, né, então ele com a idade que ele tinha, só me passou coisas boas, passeei muito com ele, viajei muito Poços de Caldas, fui muitas vezes ia pra Poços com ele, que ele ficava num hotel de um amigo dele lá, e a gente ficava hospedado lá ,então comecei viajar, passear e conhecer muita coisa boa através dele, que ele foi uma pessoa maravilhosa.

 

P/1 – Qual o nome dele? Se não quiser, não diga.

 

R – É o mesmo, era Décio também, né, tive ele, fui muito amiga do Ulisses Guimarães que era de Rio Claro era amigo dele também, esse Ulisses Guimarães sempre foi da política e eu era fanática, porque ele gostava muito do Ulisses, então saia sempre com eles assim com campanha, que o Ulisses foi de Rio Claro também, E então fui feliz com esse primeiro companheiro meu também, que Santo Antônio me trouxe, não casei, mas vivi muito feliz, que o casamento não é tudo na vida não, se você tem um companheiro leal e dedicado, que você se dedique a ele e ele se dedica a você, é o verdadeiro casamento, então o verdadeiro casamento não é aquele que vocês vão na igreja, faz aquela festa maravilhosa, convida todo mundo e depois você não é feliz. Ás vezes aparentemente pro outros você é feliz, mas você sabe que você não é,, Eu não me casei com o primeiro, mas fui feliz, tenho um filho, né, que o filho é a minha alegria, meus netos eu tenho três netos, e então fui feliz, não casei, não teve festa não teve nada, praticamente tive ele assim muito oculto, porque era uma coisa naquele tempo a turma exigia muito casamento, inclusive tem minhas tias que brigou com a minha mãe, minha avó ficaram tudo de mal com a minha mãe que eu tinha esse caso, né, mas fui feliz, então pra mim o que importa é que eu enfrentei, a sociedade daquela época sim, mas fui feliz , o que importa é isso é que fui feliz.

 

P/1 – Quantos anos a senhora tinha?

 

R – Ah eu tinha 14 anos.

 

P/1 – E ele?

 

R – Ah ele tinha já uns 58 anos. Eu acredito que nele vi mais um pai do que um companheiro, mas ele foi pai, foi companheiro, porque ele era muito compreensivo, uma pessoa muito fina, muito culta, e fui muito feliz com ele. Aí depois ele morreu, mas daí eu já tinha um filho e tudo, eu já estava mais afastada dele que ele foi ficando doente, né, então a gente tinha ele numa cidade e eu na outra, né, foi-se meu companheiro.

 

P/1 – Onde a senhora o conheceu?

 

R – Ele? Eu conheci ele em Rio Claro.

 

P/1 – Mas foi em baile?

 

R – Não. Ele foi me apresentado assim por uma amiga, ele era muito amigo do marido dela e ele me conheceu assim, junto com esses amigos, aí ele ficou sabendo também da vida meio dura que eu levava, ele começou na minha vida assim mais me ajudando, cê entende, é ele tinha parente médico, então ele me ajudava muito assim, ele tinha esse parente que era médico, mandava me ver que ele era amigo desse dono da fábrica também, então ele me mandava eu ir lá no médico que é o parente dele, me dava remédio, me consultava cuidava, e aí formou aquela amizade bonita e depois da amizade é que achei que ele seria um homem que seria um companheiro bom pra mim, assim por meu pai não estava perto da gente, né, e meu pai morava fora em Bebedouro, que ele trabalhava lá, e então fui tendo ele primeiro como uma pessoa que cuidava de mim, um amigo que cuidava que se interessava por mim, estava sempre preocupado comigo aí depois a gente já foi se envolvendo, depois mais de ano que eu era como amiga dele, aí que fui me envolvendo e ele me tratava também como uma boa amiga, mas depois quando ele convidou eu pra ser companheira dele eu até aceitei porque eu já confiava muito nele, você entende, eu confiava nele, foi uma coisa bonita porque começou com uma boa amizade, aí depois fui a companheira dele, acompanhei muito ele, ia muito pra Poços de Caldas, eu viajava bastante com ele, mas ele morava em outra cidade e eu em Rio Claro, aí ele foi um companheiro bom, era dedicado, me entendia em tudo, outra, ele me comprava tudo que eu queria, tudo eu ia no parque assim, a gente viajava eu ia num parque eu falava: “Eu quero virar na roda-gigante.” Ele falava: “Pode montar.” Aí eu virava, ele comprava maçã do amor eu ficava mordendo aquela maçã assim, então ele falava assim pra mim: “Quer parar.” Eu falava: “Mais umas voltinhas.” Ele falava: “Pode virar.” Aí eu descia realizada, porque você vê, no tempo da minha mãe e do meu pai eu não podia, né, e ele deixava eu fazer, era pipoca, amendoim, algodão, tudo que eu queria, eu realizei tudo aquilo, e ele se divertia porque a idade dele pra minha, pra ele era uma diversão realizar aquelas coisas que eu gostava e ia pra Poços de Caldas, sabe o que eu queria? Ele falava: “O que você quer fazer?” Eu falava: “Eu quero montar naquela charretinha lá do bode e dar volta na cidade.” Ela chamava o menino e falava: “Dá volta, né?” Tem aquelas charretinhas em Poços de Caldas, lá montava na charretinha e andava, aí nesse hotel que eu me hospedava, vinha umas moças de São Paulo e essas moças andavam de moto e de bicicleta, eram professoras que iam passar umas férias, aí me ensinaram também montar na moto sair, aí que me realizava, andava de moto, de bicicleta, então sabe, com esse homem eu realizei todos os sonhos que não tive na minha infância que eu não pude realiza. Então pra mim ele foi um companheiro maravilhoso, mas a gente nem morava junto, ele vivia na cidade dele e eu na minha, mas eu respeitava ele muito e ele também me queria bem e sei lá, uns momentos muitos bons da minha vida passei com ele, aí depois tive noivo, né, fui noiva, quando foi pra apertar pra casar eu pulei fora do casamento, porque aquela história, eu pedia pra Santo Antônio pra me proteger, mas não era pra casar, sabe, eu pedia pra ele assim, mas não sonhava é que nem eu te falei, eu via os vestido de noiva, olhava naqueles vestido de noiva ali mas já ficava de olho nas madrinha, aquele chapéu combinando aquelas coisas, então nem cheguei a sonhar de entrar numa igreja de noiva assim, né, então não cheguei entrar mesmo, aonde realizei mais ou menos isso foi agora com segundo casamento, né, casamento não, com o segundo que eu me casei ,que não me vesti de noiva mas pus um tailleur branco e combinei tudo com esse sapato que eu te falei que era da liquidação mas era dois tons de rosa bonito, fiz a blusa, o meu cabeleireiro me enfeitou botou uma flor, tem as foto aí cês vão ver como eu saí bonita e a minha amiga conversou com o padre e marcou o casamento e todo mundo foi pra ver porque ia casar com o mesmo marido, foi uma coisa interessante, você vai casar com quem? Com o meu marido. O cara do cartório, porque todo mundo achava que eu era casada com ele, então que eu vivi com esse outro também, você vê que destino, o segundo também vivi ele era desquitado e eu solteira, então conheci, fui vivendo com ele e ele falou de casar, eu falei não, de fato ficar viúva amigada fica meio, eu falei vamos casar sim, já estava com ele há tempo, né?

 

P/1 – Quanto tempo?

 

R – Ah, já estava há 20 anos com ele, aí casei fiquei mais 10 anos casada, mas eu considero os 30 anos de um casamento que fui muito feliz com ele, era um homem muito respeitado esse homem, Antônio Circelli.

 

P/1 – Como ele se Chama?

 

R – O Antônio Circelli, ele jogava xadrez com o São Carlos Clube, né?

 

P/2 – Mais um Antônio na sua vida.

 

R – É mais um Antônio, é, aí vivi o Antônio então que ele jogava com o São Carlos Clube, ele trabalhava como professor de uma escola muito boa, era muito respeitado, muito querido, aí marquei o casamento lá e fui toda feliz da vida, casar sem o vestido de noiva, e o padre fez um casamento comprido, né, fez um discurso bonito, esse que é o verdadeiro casamento, que tão junto há tempo, sabem o que quer, então falei: “Ó é comigo mesmo, olha só acho que fiquei toda importante.” Porque ele falou: “Se conhece hoje, casa amanhã, se larga, esse não, ficou junto, ficou junto tanto tempo agora estão fazendo aquilo que eles acham que é o certo, né?” Tenho a foto o padre abraçado comigo e com ele lá no altar, então gosto muito de fotografar tudo pra marcar bem os momentos, que o tempo de Rio Claro nem máquina tinha, não tinha nem máquina.

 

P/1 – Agora a senhora casou, já estava aqui em São Carlos, então vamos voltar ao tempo em que senhora chegou aqui em São Carlos, o que mais marcou foi ter encontrado a dna. Júlia?

 

R – É o que marcou muito aqui é, bom aqui tenho muita amizade todo mundo me conhece aqui porque estou no comércio há muitos anos, né, hoje sou muito conhecida, mas aqui pra mim o que foi gratificante foi encontrar, quando eu estava fazendo a ficha, porque fazia um fichário quando entrei na Cabochard eu fazia o fichário na outra loja, aí encontrei e conversando falo que a minha família é de Rio Claro, mas eu era de Rio Claro, quem que era é assim, assim aí falei: “Ah é a dona Mariquinha, era minha vizinha, então você é parente da Júlia, nossa eu subia na árvore pra cantar pra Júlia, né, e ela: “Ah eu lembro”. Aí ela ligou pra Júlia, avisou a Júlia, a Júlia veio na loja pra me visitar, aí ela falava: “Dá pra você subir na árvore pra cantar. Pra cantar dá, pra subir na árvore já não dá mais.” (riso) Agora já não dá, não tem nem a ameixeira pra você subir, então sabe encontrar as pessoas, eu sou uma pessoa assim, eu sou muito boa fisionomista, eu vejo as pessoas, aí depois muito anos que eu vejo, posso tá num lugar ali assim, se eu ver a pessoa passar e cismar que é, saio correndo e vou atrás: “Você não é fulano de tal de Rio Claro? ” Principalmente Rio Claro que foi o começo da minha vida, então essa dona Maria de Lourdes Jordão que foi minha professora, um dia vi passando eu trabalhava numa loja, vi aquela mulher passando eu falei: “Mas aquela mulher é a dona Maria de Lourdes.” Falei pra freguesa: “Dá licença um minuto.” Saí como um tiro atrás da mulher, acho que alcancei depois de um quarteirão, né: “A senhora não é a dona Maria de Lourdes de Rio Claro? Sou. “Sou a Maria que era a sua aluna.” Aí ela pensou: “Ah, a Maria.” Foi aquela alegria, mas um filho dela é casado com uma moça daqui, inclusive tem uma loja vizinha de uma loja que trabalhei, então daí que a gente foi e até hoje fico sabendo da dona Maria de Lourdes através da nora dela, né, então sabe acho assim, e passava gente de Rio Claro também, eu trabalhei sempre na avenida ali, no movimento, era passar uma pessoa que eu lembrava que era de Rio Claro, já saia correndo atrás, daí começava a falar de Rio Claro, porque sabe é umas coisas da sua mocidade, da sua infância que marca bastante, hoje marca muito também, ontem veio um amigo que eu não vejo há tempo já saio correndo e vou lá chamar se é, né, aí agora depois aqui em São Carlos estou há 42 anos, que eu estou com 64.

 

P/1 – E qual foi a sua primeira impressão quando chegou aqui em São Carlos?

 

R – Ah foi bonita porque eu mudei, cheguei aqui, mudei aqui já no outro dia foi aniversário de São Carlos, aí saímos lá pra avenida com um menino no colo, e aqueles desfiles, aquela coisa toda, nossa eu achei isso aqui maravilhoso, aquelas banda, eu sou vidrada numa banda, porque eu fui criada na família das pessoas que tocavam de banda, né? Ah, passava aquelas bandas eu já, eu vejo banda já começo me chacoalhar, me mexer, porque tudo que é música mexe comigo, então gostei, adorei São Carlos, né, achei uma cidade maravilhosa e pensei em Santo Antônio: “Aqui vou ser feliz. Aqui vou realizar, porque agora tenho um filho pra criar, agora tenho um filho pequeno, aqui vou me realizar, vou encontrar coisas boas na minha vida.” E encontrei viu, aqui sou feliz, fui feliz, né, desde o momento que cheguei aqui sempre fui muito feliz, morei muitos anos na Rua Conte, ali no fim da Rua do Pinhal e depois que encontrei o Antônio que eu me juntei com ele, aí que já fui morar lá vizinho da igreja de São Sebastião, fui morar no Centro, né?

 

P/1 – A senhora começou a trabalhar logo?

 

R – Comecei porque eu estava com filho pequeno, tinha um menino pequeno e morava com a minha mãe e com meu pai, então já fui na loja que sempre adorei o comércio, o meu fraco é o comércio, gosto muito de falar, mostrar coisas, mostrar que combina esse com aquele, então eu entusiasmo estando numa loja, meu sonho é trabalhar numa loja que tem sapato, roupa, bijuteria porque já ponho sapato, já ponho a roupa, já ponho os colares, o brinco, né, ver tudo combinando, gosto dessas coisas tudo certinho combinando, então. trabalhei numas lojas menores mas agora as últimas lojas que trabalhei eram boutiques muito finas, né?

 

P/2 – Vamos pegar essas menores primeiro Quais eram os nomes, que tipo de produto era, a primeira onde a senhora trabalhou?

 

R – A primeira foi uma loja de calçados, chamava Magda Calçados, era uma rede do Rei dos Calçados era o pai e dois irmãos que tinha uma loja, era os Penedos, era Durval Penedo e o Eduardo Penedo, então um tinha Rei dos Calçados o outro era Magda Calçados, fiquei na Magda Calçados foi a loja que fui trabalhar primeiro, fiquei trabalhando lá, trabalhei muito tempo sem registro também, porque tenho muitos anos de comércio mas a maioria sem os registros, trabalhava lá, vendia sapato, e o comércio fechava meio-dia por exemplo, eu vendia mais depois do meio-dia que fechava ,do que antes. Porque antes vinha o pessoal, comprava. Aí, meio-dia fechava a loja e eu ficava atrás da porta esperando, vinha aquele pessoal do sítio, eles fazia as compras no supermercado depois desciam por ali, aí via eles passando e falava: “Ó, mais de olho nos fiscais se não vinha vindo, e um dos fiscais mora vizinho meu hoje, que era bravo, então já conhecia aquele lá que era o bravo, o patrão falava: “Cuidado com aquele e com aquele, aquele outro é bom.” Então eu ficava ali atrás da porta e ficava de olho lá, quando eu via o bravo, né, que era severo que multava, eu ficava quietinha na porta, como quem estava varrendo limpando, ele passava, aí eu já via freguês: “Pode entrar, vem cá que dá pra vender sim, vem cá que tenho alpargata roda.” Era o tempo do alpargata roda, de lona em cima e sola de corda, botava o pessoal pra dentro, aí punha o pessoal pra dentro e falava assim pro meu patrão, o meu patrão é aquele tipo que não queria tirar desconto, era aquele preço, tinha que ser aquele preço, eu falava pra ele: “Ah, olha vendi mas o homem não tem o dinheiro certo.” Vamos dizer que custava 1,50, cruzeiro que é da época, ele não tem, ele tem 1,20, ele falava: “Não pode.” Eu falava: “Pode sim. Eu vou vender esse pra ele por 1,20 e quando vier um outro que pode, eu vendo e não dou o desconto e paga o que faltou desse aí.” Fiz muito disso na vida sabe, eu via que era humilde, que era simples que não tinha dinheiro, eu falava: “Não. Eu vou fazer esse aqui por 1,20 porque quando esse custava 1,50 e a pessoa tinha só 1,20 eu falava: “Vamos vender pra esse nesse preço, u te prometo que o próximo que eu vender pra um que tem dinheiro eu não falo do desconto e compenso que faltou desse.” Ele falava: “Ah, você sempre com dó das pessoas.” Eu falava: “Não, nós temos que ser assim, tem que pensar no que tem menos e outro que tem mais às vezes nem lembra de pedir desconto, cobra o que tirou desse.” Aí eu ficava ali falando: “Pode, o homem já experimentou, serviu, coitado, né, a mulher, aquela gente do sítio com criança.” Aí ele falava: “Tá bom, mas quero ver se você vai vender pro outro sem desconto pra cobrir.” Eu falava: “Pode marcar aí, aí vendia aquele... A loja hoje é uma outra loja, ali já ficou muitos anos tocando aquilo, agora mudou ali na Geminiano Costa, mas a loja permaneceu ali, que o Penedo morreu, morreu todos os Penedos e ali já ficou ali tocando, aí eu sai daquela loja.

 

P/1 – Porque é que a senhora saiu?

 

R – Apareceu uma outra que pagava um pouquinho mais, né, aí fui trabalhar na outra que era a Mobiliadora São Carlos, era aqui, a Mobiliadora era aqui em frente àquele outro hotel da frente ali, do lado de baixo, nós estamos aqui, tem um hotel na esquina, né, um hotel.

 

P/1 – Tem uma loja de moldura na frente.

 

R – Isso, ali era essa Mobiliadora São Carlos, fui trabalhar lá pra vender móveis. Aí trabalhei um tempo lá também vendendo móveis, mas não era registrado também, porque daí que fui descobrindo que registrar era uma segurança pra aposentadoria, né, aí por isso que fui mudando de loja até chegar em uma que me registrou, pagava todos os meus direitos e de lá fui passando sempre pra melhor, mas eu trabalhei na Magda Calçados, aí trabalhei nessa Mobiliadora São Carlos, fiquei muito tempo e depois dessa daí, fui trabalhar na Camisaria Olaio com seu Milton Olaio e o Antônio Olaio, que tinha o apelido de Totó.

 

P/1 – A loja é super tradicional.

 

R – É, essa Camisaria Olaio é tradicional de muitos anos, né, vinha dos pais deles, e os pais deles eram os donos da Camisaria, o seu Milton tinha a loja, eles vendiam as camisas ali na loja e a gente fazia as camisas na fábrica, a fábrica é na 9 de Julho, na 9 de Julho também entre o calçadão e a Geminiano Costa, lá fui trabalhar também, fiquei um bom tempo lá, né?

 

P/1 – Lá, a senhora ficava na fábrica ou na loja?

 

R – Eu ficava na fábrica, ficava na fábrica e fiquei muito tempo lá trabalhando também, aí o seu Totó, conhecia um senhor que era português, que se chamava seu Virgílio dos Santos e o seu Totó ficou sabendo que o seu Virgílio ia ser gerente de uma firma que vinha de São Paulo que se chamava Tecidos Pereira Queiroz, porque o seu Virgílio era viajante dessa firma, e aí eles resolveram abrir uma loja aqui em São Carlos, então convidaram o seu Virgílio pra ser o gerente da loja, como o Totó também era português e era muito amigo, falou: ”Olha eu tenho uma moça muito boa, muito desembaraçada, adora vender e falar e negociar e acho que ela vai ser uma boa funcionária pra sua loja e tô com a fábrica aqui meio fraquinha, a gente tá pensando até em não tocar muito tempo pra frente, que nós temos a loja”, ele disse: ”Então se você quiser se pôr ela lá na loja, apresento ela, vou me responsabilizar porque ela é uma pessoa muito boa e ela é muito comunicativa, eu sei acho que pra vendedora ela vai dar muito melhor do que aqui na fábrica”, e aí o seu Virgílio mandou me chamar, me entrevistou, veio um pessoal de São Paulo, da firma dos Tecidos Pereira Queiroz, que é na Florêncio de Abreu, 195, me entrevistaram, gostaram, falou: “Aí, essa aí vai ser uma vendedora e tanto, aí me puseram pra vender e pra fazer a limpeza da loja, aí foi aonde comecei a ficar muito famosa, porque daí eu passei a ser a Maria Pereira Queiroz, aí não era Maria de Paula Bueno, aí eu era solteira, não estava casada, mas aí eu era Maria Pereira Queiroz, que daí eu me deslanchando, né, todo mundo que vinha, mostrava, vendia era uma firma muito boa, viu, a gente tinha os tecidos, tecidos muito fino, a gente trabalhava só com fábricas famosas, né?

 

P/1 – Que fábricas, a senhora lembra?

 

R – A Bangu, a gente trabalhava com a Bangu, trabalhava com a gente vendia muitos cortes pra terno, então vendia um linho Yorkstreet , vendia Vicunha, vendia tergais do bom, e ali nós formamos uma freguesia danada, porque esse seu Virgílio era viajante, a mulher dele é professora da industrial, era professora da industrial junto com esse um que eu casei com ele depois, que foi eles que me apresentaram, então o seu Virgílio era amigo, jogava xadrez no São Carlos Clube, então vinha aquela gente fina, médicos, gente muito fina, né, aí então que já foi começando a minha vida já me entrosar na sociedade com o pessoal, que as outras eram lojas mais assim mais simples, humildes, agora Pereira Queiroz já era uma firma, importante então aí comecei trabalhar, aí comecei fazendo faxina, limpando e era vizinho do Unibanco e do Banco Itaú, a loja era no meio na Avenida São Carlos em frente as lojas Marisa, hoje é 1,99 lá, ali fiquei 10 anos, né, ali trabalhei bastante e tinha o seu Virgílio como gerente e ali fui ficando muito conhecida porque passava mulher na porta eu já grudava: “Vem cá, ó, tenho aqui um tecido que cê vai fazer um vestido.” E a gente tinha os figurino sabe, então você vendia o tecido e já pegava o figurino e falava qual o modelo que ia ficar bem, então desenhava num papel de seda, botava papel de seda, desenhava o modelo, vendia já o corte e já desenhava o modelo pra pessoa fazer, indicava até costureira, aí a pessoa depois vinha agradecer que ficou bonito, que ficou lindo, os tecidos eram poucos cortes pra não encher a cidade de coisas iguais, e tinha cortes exclusivos também.

 

P/1 – Ah é!

 

R – É, tinha cortes exclusivos.

 

P/1 – Como é que funcionava isso?

 

R – Ah funcionava assim que você já sabia uma senhora da cidade que não gostava, que gostava de exclusividade que não gostava que outros tivesse a coisa mais ou menos igual, então já ligava, né, eu já tinha a lista de todo mundo que eu já estava no comércio a tempo e eu ligava pra aquela pessoa e falava: “Olha, eu recebi um corte muito fino, muito bonito e vai ter dois cortes.” Só na cidade ou três mas eu tinha freguesia de fora, tinha gente de Araraquara de todo lugar comprar então eu já dava exclusividade pra aquela e procurava vender outro corte para uma pessoa de outra cidade pra num bater com aquele, então vendi aí já tinha o modelo e tudo aí foi ficando aquilo, eu tinha já a lista das senhoras, dos homens porque eu trabalhava com a seção de casimira, linho, tropical, tinha a seção de homens e a seção de mulheres, então já ligava pros homens também, ligava nas firmas: “Ô Dr. Samuel ganhava cortes da freguesia, Dr. Samuel era famoso na época grande médico, então ligava chegava o aniversário dele, dia do médico, fim de ano eu já ligava pros amigos e falava: “Olha, tem um corte aqui que é coisa bacana, fina, né, dá de presente pro Dr. Samuel porque ele vai gostar, aí já descobri outro médico também, ligava pro outro amigo, você entende, passei sabe por que marquei muito nessa cidade no comércio, porque me comunicava muito com as pessoas, ligava eu sabia o tipo de roupa que a mulher de um médico, uma pessoa fina gostava eu ligava: “Eu tenho aqui um corte que a senhora vai adorar com exclusividade, né?” Elas vinham aí aquele tratamento, cafezinho, sentava na mesa olhava o figurino, escolhia, e eu sempre ligando das coisas finas que chegava com exclusividade e assim me fiz dentro dessa firma também porque daí fui até gerente dela, porque depois o seu Virgílio saiu, ficou um outro que era funcionário que trabalhou muitos anos na Riachuelo, ficou de gerente depois ele também saiu, veio gente de São Paulo tomar conta mas não se adaptava muito aqui com o tipo da cidade porque estava acostumada com São Paulo, aí cheguei ficar como gerente tinha um que vinha dar assessoria, era firma grande, vinha toda semana um olhar, então cheguei ser gerente e sempre me comunicando e criando meu filho, né? Levava o filho na escola, quando o filho saia da escola vinha pra loja ficava sentadinho, aí ia num bar de frente, as meninas do bar fazia lanchinho dava fazia a mamadeira dele, dava pra ele ficar a parte da tarde às vezes comigo ali, aí tinha a Padaria do Caruso e um bar da Diva, a Diva levava o meu filho um pouco ficar com ela lá, outra hora ficava com a Lucia do bar do Bogas de frente, onde hoje é a Vogue é uma loja grande chamada Vogue, era um bar, né, daí eu era amiga do gerente do seu Altino Deonero que era gerente do Unibanco e era amiga do gerente do outro Banco Itaú e amiga dos funcionários todos, porque daí de tarde eu chamava todo mundo pra vim ver o que eu tinha na loja, aí ia abrindo ficha pra todo mundo e trazendo todo mundo pro crediário, né, aí a minha vida era no banco ali falando, então quando um ia fazer aniversário já avisava o outro amigo e falava: “Ele gostou desse corte aqui, pode dar que vai agradar.” Entende e fui fazendo e fui vendendo.

 

P/1 – Quem era os seus clientes famosos da cidade?

 

R – Bom, o doutor Samuel Valentim de Oliveira era o meu cliente, o doutor Romeu Santini com a família, o seu Antoninho Estela tinha a irmã dele, Dona Anita Estela que já morreram tudo a muitos anos, essa dona Anita Estela era solteira professora, e essa família Estela é uma família também tradicional da cidade, né, então ela saía e comprava muito presente, pra dar pra médico ela estava muito relacionada com essas pessoas assim, então a gente chamava essas pessoas que eram os clientes, o seu Toninho do Palácio da Borracha, o Dr. Arsênio eu procurava ligar pra essa gente porque os tecidos que eu vendia era umas roupas caras, eram coisas muito finas e já eram mais caras porque naquela época já tinha a Pernambucana, a Riachuelo, né, que vendiam as coisas mais em conta, eu tinha as coisas mais caras, aqueles linhos, coisa fina então eu já ligava pra essas pessoas e fui trazendo toda essa a nata pra dentro da loja e o que era gerente seu Sílvio também, o outro também era amigo, que ele era viajante e a mulher professora então nós formamos toda aquela nata da cidade de gente fina, médicos, advogados, a gente já foi trazendo todo esse pessoal, fábrica ligava muito em fábrica, chamava as meninas abrir a ficha, né, e formamos clientela muito boa que foi uma loja tradicional nessa cidade.

 

P/1 – Era comum as pessoas fazerem ficha, é pra crediário?

 

R – Crediário é.

 

P/1 – Como é que funcionou o crediário?

 

R – No crediário a gente tem aquela ficha que põe o nome da pessoa, o endereço, o nome do marido, firma onde trabalha, quanto ganha, e três lojas aonde comprava, então eu abria aquele crediário pra todo mundo, enchi de ficha, chamava o pessoal de fábrica, porque sei que o forte da gente são o pessoal da fábrica também, então eu fazia aquele fichário grande pro pessoal de fábrica e um pessoal muito bacana porque você tem que vê que maravilha no dia do pagamento eles vinha com o envelopinho na mão: “Oi dona Maria, hoje estou passando aqui pra pagar pra senhora.” Abria o envelopinho tirava o pagamento, a gente já recebia, vendia mais, aquele papo com as pessoas, sempre ouvi muito as pessoas, um tinha problema com a mãe, outra com marido e outra com filho e vendia mas ouvia as pessoas também dava conselho, falava, né, orientava o que podia ser feito, então formei olha, aqui nessa cidade não tem quem não me conheça, aqui marquei muito pelas lojas que trabalhei, no Pereira Queiroz eu fui Maria Pereira Queiroz muitos anos, tinha aquela gente de mais idade, mais simples que me via na rua: “A dona Maria do Queiroz.” Aí não passei mais ser Maria de Paula Bueno e depois Circelli, passei Maria do Pereira Queiroz ou Maria do Queiroz, tinha aquelas pessoas que eram guardas-noturnos bem humilde, mas nunca dispensei meu bom dia, meu boa tarde, meu boa noite, um sorriso, um aceno, sabe, que eu sou de se abanar a mão, saio na rua saio de carro, estou dirigindo com essa mão estou só aqui com essa, daqui a pouco ponho a mão no volante, meu filho chegou a falar pra mim: “Compra aquelas duas mãozinha e põe aqui, então você só vai sorrindo e cumprimentando todo mundo e as mãozinha vai fazendo assim.” Porque ele falou que qualquer dia você se arrebenta, porque abana a mão daqui, já vi outro daqui, dia de desfile você morre de rir porque eu tinha loja lá em cima tanto uma das lojas é aqui na avenida, dia de desfile eu ficava aqui, aí todo carro alegórico que passava eu já gritava: “Ô João, ô Zézinho, ei!” Sabe: “Ei! Ei!”, aquilo lá que eu gosto, sou espalhafatosa, eu grito: “Ó vai ter tal coisa, tal dia, chegou tal coisa.” Desfile passando e eu gritando dessa calçada pra outra calçada do lado de lá: “Chegou aquele sapato que cê quer.” Meu marido me cutucava: “Cala boca aqui não é hora disso.” Eu falava: “Não tem que avisar se não ela perde.” Você entende, sou desse jeito menina, quando vejo já estou gritando, falando com o outro do lado de lá todo mundo, é desse jeito, é um negócio assim de louco mesmo, mas depois eu chego em casa eu começo rir de noite, de eu avisar o outro que chegou aquilo que ele quer ou saiu uma noticia, o outro morreu também um conhecido já falo: “Ô, psiu ó, morreu.” A outra: “Quem? O João de tal.” Sabe quando viu eu já alarmei todo mundo, né, ou casou ou vai casar, você entende, quando vejo eu já estou me comunicando com o outro na outra calçada, falando coisas que às vezes, que até num podia, já estou lá, isso o outro tá lá dentro que eu também num tô podendo chegar eu passo também o negócio, é um negócio (riso) entende, depois eu falo: “Que é que eu fiz.” Sabe e inventar coisa pra distrair as pessoas, sabe quando as pessoas estão assim chateadas e triste, se você vê o que eu invento pra poder, o que conto de história assim pra poder, distrair a pessoa e então começou aqui eu era a Maria do Queiroz ou do Pereira Queiroz, e os humilde é os que eu trato melhor ainda, porque é o que mais precisam da palavra do carinho, e ainda foi no Pereira Queiroz que eu conheci o Tenente Vanderlei que vinha sempre dava um livrinho da Seicho-no-iê, às vezes ele passava lá eu estava rindo contente, brincando pois ele falava assim: “Tá tudo bem Dona Maria? Estou olhando pra carinha da senhora e estou percebendo que a senhora hoje não tá muito bem.” Aí eu falava: “Não, cá entre nós, o senhor que saber mesmo, não tá não, o meu filho tô tendo problema com ele na escola, um problema com a mãe ou com pai, aí ele tirava esse livrinho de uma pasta, né, ele era dos bombeiro, e ele tirava aquele livrinho e falava: “Dona Maria lê esse livrinho aqui que a senhora vai encontrar uma solução muito boa pra isso aqui.” Eu falava: “Ah, muito obrigada.” Ele falava: “A senhora quer assistir uma reunião lá.” Eu falava: “Não, estou ocupada, num vou poder ir, mas vou ler o livrinho.” Aí eu olhava no livrinho e falava: “Imagina que esse livrinho aqui vai resolver um problema, ah num vai.” Aí eu guardava na gaveta, guardei vários livrinhos na gaveta, mas depois um dia resolvi ler e engraçado que conforme eu abria encontrei uma coisa que vinha de encontro, sabe aí foi quando comecei a me interessar pela leitura daquilo e fui vendo que realmente ali acordava você pra tudo que é bom, um problema difícil na sua vida é como uma nuvem, dá um tempo.

 

P/1 – Bom vamos voltar um pouquinho, né, a senhora estava lá na Tecidos Pereira Queiroz e depois a senhora foi pra Cabochard?

 

R – Depois fui pra Cabochard.

 

P/1 – Por que a senhora saiu da Pereira Queiroz?

 

R – Bom daí conheci o marido, pode entrar essa parte?

 

P/1 – Pode.

 

R – O marido era freqüentador da loja e jogava xadrez com o dono da loja e era muito amigo da mulher do gerente da loja que era a dona Angelina que era professora junto com ele, então nos intervalos de aula ele vinha lá pra jogar uma partidinha de xadrez, bater um papo com amigo e foi me vendo, aí foi se interessando quem que é essa moça tal e meu gerente falando: “Ela é muito dinâmica e tal.” Aí ele foi se interessando aí veio o gerente começou a falar comigo: “Olha ele tá interessado, tá querendo namorar você, né.” Perguntei a idade dele, vi que era muita diferença da minha mas eu falei o primeiro também já era e deu certo, até que me interessei bem porque preciso de um homem de responsabilidade, uma pessoa boa e ele era, já era professor, já estava com a vida estabilizada, aí comecei bater papo com ele e foi batendo papo tal, fomos se entendendo bem, ele sempre dando apoio, dona Angelina que era esposa do seu Virgílio fui conhecendo bem ele, achei que ele era a pessoa ideal pra mim e fui tocando o barco assim com ele, namorando foi que ficamos 20 anos assim, aí morreu minha mãe, meu pai casou de novo aí achei que eu tinha que ficar com ele mesmo daí ele já era um apoio muito grande pra mim, e foi que eu fiquei com ele e depois ele convidou pra casar que a gente já estava junto a tempo, então casamos 20 anos depois que estava junto já como companheiros, né, aí o Pereira Queiroz foi a falência, houve um problema na firma em São Paulo, foi um problema grande e tudo, aí fechou a loja e nós ficamos sem o emprego, aí arrumei minhas malas e falei: “Bom vou pegar meu filho e vou pra São Paulo passear um pouco.” Que eu trabalhei muitos anos aí, quase não tinha férias porque precisava tá ali trabalhando, eu era a única mulher era eu balconista, os outros era tudo homens, era sempre três, aí o Zé Carlos ainda tá vivo até hoje ainda tenho ido dar muito apoio pra ele porque era um funcionário da loja, ele tá muito doente agora, então eu visito ele converso muito, e aí então falei: “Agora arrumo minhas malas e vou embora pra São Paulo, ficar uns dias lá com parentes, né, pra me distrair um pouco.” Estava com a minha malinha pronta na minha casa, chegou o gerente da Samello que era vizinho da Cabochard e falou: “Olha você tá sem o seu emprego aí, entra na justiça tinha que esperar ser resolvido ele falou a Cabochard tá precisando de uma balconista e sou muito amigo do gerente ele tá precisando de uma balconista, indiquei você, falei que você é uma grande balconista, ele se interessou por você e quero que você vá bater um papo com ele pra entrar lá.” Aí falei: “Ah não, estou com a mala pronta vou sair por uns dias, vou descansar um pouco depois eu volto e vou falar com ele.” Aí ele falou: “Não tem que ser já porque ele tá precisando agora, ele tá com necessidade.” Aí eu olhei pra minha mala, olhei pro meu filho, pra minha mãe e meu pai e falei: “Meu Deus e agora?” E eu sabia que quando voltava tinha que ir procurar emprego mas aí sabia que estava encaixada no que gosto, né, então eu fiquei naquela dúvida, eu vou viajar, eu vou pegar, aí fui bater um papo com o gerente lá da Cabochard ele falou: “Eu estou precisando de uma balconista mas tem que ser pra já, você tem que começar trabalhar amanhã já, eu já fiquei sabendo da sua pessoa, você é muito dinâmica, você é uma grande balconista é você que eu estou querendo aqui.” Aí conversamos, batemos papo bom eu falei: “Tá bom vá eu não vou viajar mas depois você me dá uns dias pra mim fazer essa viagem.” E vim pra Cabochard, sai do Pereira Queiroz, dali já uma semana fui correr atras da papelada, porque entramos tudo na justiça, né, aí já entrei na Cabochard, comecei trabalhar na Cabochard com ele de balconista e na Cabochard fiquei meus 25 anos.

 

P/1 – Quem era o dono da Cabochard?

 

R – O dono ainda é, era e até hoje Rubens Simões, ele é de São Paulo.

 

P/1 – Ele não mora aqui?

 

R – Não, ele tem a casa dele em Campinas, que ele mora em Campinas, e ele é advogado então ele tem um escritório em São Paulo, então ele fica a semana toda em São Paulo, ele ficava em São Paulo, de sexta-feira ele vinha pra cá, ficava sexta e sábado aqui e já no sábado a tarde quando fechava a loja ele ia pra Campinas e depois no domingo a noite ou na segunda cedo ele já ia pra São Paulo, então ele mora em Campinas e em São Paulo e tem a loja aqui, a loja dele, e sempre foi dele.

 

P/1 – É uma loja que vende o quê?

 

R – É vende calçados e bolsas. Ela teve vários nomes, era Estabelecimento de Lojas Reunidas depois foi Calçados Nupcial depois foi Boutique Cabochard, ela foi trocando de nome, então lá fiquei todos esses anos, já fui balconista muitos anos e depois de balconista ele falou: “Eu vou montar uma loja pra você e você vai ser a gerente da loja.” Aí ele montou a Predileta Calçados que era no Rack Center em frente à Escola Normal, lá fiquei 18 anos deu os 25 contando com a Cabochard mais 18 que fiquei lá em cima, a primeira loja foi feita o Rack Center, então alugou as lojas, a primeira loja a ser alugada foi do Samuel Lebuti que era uma ótica e a segunda foi a Predileta Calçados que era a minha que já entrei como gerente.

 

P/1 – É uma galeria a Rack?

 

R – Lá era, são várias lojas, então a primeira loja que montou foi a do Samuel Lebuti de ótica e a minha de calçados e bolsas, a Predileta Calçados.

 

P/1 - E o que mudou de tecidos pra Cabochard?

 

R – Não pra mim foi a mesma coisa porque o importante é você pegar o freguês e fazer a cabeça dele pra comprar, mas tanto faz se é tecido como calçado como bijuteria, você tem que ser uma boa balconista ter um bom papo, né, e fazer a cabeça do freguês pra sua venda, agora quanto a mercadoria não tem problema mais é você ter a tática de conversar com o freguês, agradar o freguês e em primeiro lugar a honestidade e a sinceridade, porque se você não for honesto com o freguês, vender uma coisa que não é o certo também ele vai ficar desconfiado de você e não volta mais, então sempre prendi a freguesia toda comigo os mesmos fregueses que eram das outras lojas que foram os da Tecidos Pereira Queiroz, eu levei todos pra Cabochard aqui eu vendia roupa e lá vendia sapatos, né, e bolsas mas os fregueses eram o mesmo porque fui prendendo, sempre fui muito honesta, esse tecido custa tanto mas ele não tem a mesma durabilidade e a qualidade desse outro, esse outro é uma fábrica da Bangu, é uma fábrica da Vicunha são fábricas famosas que a senhora vai comprar e não vai ter prejuízo com que a senhora comprou, pagou mais caro mais a durabilidade é outra e é uma coisa bem, uma coisa de visão melhor pra pessoa, então explicava bem porque que o preço era diferente, por causa da qualidade então isso marcou muito porque a pessoa confiava em mim, o pessoal confiava muito. Pereira Queiroz eu tive um senhor que trabalhava no Banco do Brasil, seu Virgílio dos Santos também, esse senhor ele ficou amigo meu, comprava um dia ele apareceu falou: “Dona Maria vim comprar um vestido pra minha namorada, quero que a senhora escolha um bem bonito.” Escolhi ele comprou o tecido, deu o vestido pra ela porque estava começando a namorar, passava um tempo ele veio de novo: “Dona Maria hoje vim escolher um vestido que vou ficar noivo, eu quero um corte de vestido.” Escolhi o modelo, vendi fez o vestido, aí passou mais um tempo ele veio e falou: “Hoje vou ficar noivo.” Então quando começou namorar, quando foi em casa pedir, quando ficou noivo: “Hoje vou ficar noivo.” Deu um corte de vestido passou mais um tempo ele falou: “Hoje vim comprar dois cortes, um pra casar no civil e outro pro religioso.” Vendi dois cortes, casou aí quando foi um dia ele veio e falou: “Minha esposa tá grávida.” Falei: “Que maravilha.” Porque entusiasmava tudo, tudo era lindo e maravilhoso, andava com aquele entusiasmo: “Agora minha esposa tá esperando um filho.” Eu falei: “Não vai esquecer, o dia que nascer vem correndo aqui me avisar que vou lá na maternidade.” Porque eu ia, ia visitar quem estava doente, quem casava, quem ficava noivo, participava de tudo, porque eu era amigo da freguesia, não era balconista, era balconista amiga, aí lá um dia: “E como é que tá a gravidez? Tá indo, tá gordinha, tá isso, tá aquilo.” E vinha comprar mais roupa: “Agora preciso de um vestido soltinho.” Eu tinha os modelos soltinhos de jardineira de soltinho, então desenhava tudo foi levando, tudo bem, lá um dia ele passou correndo de carro na avenida e gritou: “Dona Maria nasceu, é uma menina, tá lá na maternidade no quarto número tal.” Lá fui eu com um buquezinho de flor, visitar primeira filha, dali uns tempos lá vem ele de novo: “Está grávida de novo.” Ele teve três filhas, está grávida de novo, você entende, aí passado um tempo eu já estava na Cabochard ele já veio falar que a filha estava com 15 anos, precisava trabalhar se eu queria pegar a filha pra trabalhar comigo, mas a filha já veio falando: “Ah Dona Maria, nós conhece a senhora de quando meu pai começou a namorar minha mãe.” Então tem essas histórias de que eram tudo solteiro, vendi roupa pra ficar noivo, pra casar depois eu já vendia pros filhos, né, são as histórias que vem então tenho essa vida de comércio pelas pessoas que se casaram, namoravam, largava daquela arrumava outra, então é coisas maravilhosas que se passou na vida do balconista, é uma vida muito bacana. Fui pra Cabochard, fiquei na Cabochard, fiquei muito tempo a mesma freguesia levei tudo.

 

P /1 – Como a senhora fez, ligou?

 

R – Ah ligava, nossa, passava a mão no telefone e falei pro gerente, falei: “O movimento aqui é fraco. É, o movimento nosso tá meio fraco. Então vou trazer toda aquela freguesia minha de tecido.” Ligava: “Agora estou aqui na Boutique Cabochard sapatos e bolsas, né, e falava com aquele entusiasmo aí eles vinham aí eu já corria na porta: “Olha esse aqui era o meu freguês lá.” Então eu já fazia a ficha sem tirar no S.P.C. porque sabia os que era bom e os que não era, mas até gente que era ruim comigo era bom, porque falava muito e se encontrava na rua e falava: “Aquela lá tá vencendo.” Cê entende, às vezes eu falava: “Tá vencendo.” Ninguém sabia o que estava vencendo, era a conta, você entende, então pessoal foi tudo pra loja e então veio aquela freguesia, movimento melhorou, eu era a vitrinista fazia as vitrinas, e a vitrina era por minha conta, todo mundo limpava, desmontava e eu que montava, tudo combinando tudo certinho, e aquele atendimento bom, daí o meu patrão veio de São Paulo me conheceu, né, já se interessou e falou: “Nossa, a mulher é boa vendedora, e fui criando meu filho nesse meio todo, pondo na escola, tudo aquelas coisas foram se passando, eu era muito amiga dos professores do meu filho, da primeira do jardim da infância até quarto ano, tanto é que hoje um dos professores do meu filho é o seu Oscar Picci, foi o professor do segundo ano do meu filho que hoje tá na Terceira Idade tá na diretoria comigo lá, ele é da diretoria Oscar Picci, foi professor e todos os professores marcaram, todo mundo lembra de mim porque no dia do professor eu mandava um cartão e um presente no natal, no aniversário, cê entende, casamento, né, então marcou muito meu filho na escola porque eu me comunicava muito com os professores, eu vivia lá dando um presentinho e sabendo como estava o filho porque meu intuito era mais saber como estava indo meu filho dentro da escola, então marcou bastante essas coisas e a Cabochard trabalhei também teve momentos muitos bons, o Golias, o Ronaldo Golias tinha a Paula filha dele, que era menina e ele vinha fazer compra lá, ele entrava pra fazer compra quando ele entrava eu levava ele no estoque pra escolher o que ela queria e eu contava coisa engraçada que ele ria eu falava: “Que engraçado na televisão você faz eu rir, aqui faço você rir, entende, então.

 

P/1 – Ele não é daqui?

 

R – O Golias era daqui, e agora está pra São Paulo, mas ele vinha muito pra cá, ele tem fazenda acho por aqui ainda, né, então ele vinha pra cá e fazia compra na Cabochard então quando entrava artista eu já conhecia: “Você é o fulano, sou sua fã.” Sabe, então eu estava sempre por dentro de tudo pra saber tudo, e o balconista tem outra coisa também que é interessante porque sou corinthiana roxa, só que dentro do balcão você não pode ter partido político e nem time de futebol e nem religião, você tem que esperar o freguês entrar e começar a conversar com você se ele falar assim: “Não sou muito devota de todos os santos, santo isso, santo aquilo, vou muito na missa.” Então você sabe que ele é católico, eu sou católica aí vinha um crente conversava eu também era admiradora da religião dele como eu ia, dava convite tinha até uma palestra com o pastor eu ia assistia, eu defendia a dele, aí vinha o outro que era espirita eu também você gostava do espirita, sempre gostei de todas as religiões pra agradar o meu público, eu era corinthiana roxa tinha um, eu tive um Dophine cor-de-rosa depois eu tive um Dophine verde, depois tive um Gordini, depois tive uma DKV tudo que o Antônio Circelli me dava, de quando eu conhecia ele já foi me dando, mas o primeiro ele falou: “Como você tá dirigindo de novo agora vou te dar um Dhofininho.” Esse Dophine era uma orquestra em cada esquina porque enguiçava, encrencava e eu era conhecida porque “Lá vem a Maria com Dhofine cor-de-rosa” então eu vinha a 30 por hora, enchia de tarde punha tudo as meninas dentro do carro que trabalhava comigo e lá subia a avenida naquele Dophininho e encrencava, de domingo me aprontava toda, me pintava punha a roupa branca, né, falava pro meu pai: “Hoje nós vamos dar uma volta conhecer Vila Monteiro, vila isso, vila aquilo montava meu pai, eu ia toda feliz da vida de repente o Dophine encrencava e eu achava que ia resolver, levantava a tampa dele atrás, cabelo era meio comprido eu enfiava a mão, mexia numa coisa, mexia na outra aí o cabelo caia eu tacava a mão aqui, esquecia que estava cheia de graxa passava a mão jogava e falava num tá indo, aí começava a chamar o Breno que era que tinha a casa vermelha, o Breno vinha pra acudir na parte elétrica, eu já chamava o Zézinho Volante que era o meu mecânico, aí ligava de qualquer casa por ali, vinha os dois lá vinha da auto elétrico e o mecânico, aí fazia funcionar mas enguiçava em cada vila menina, vinha até molecada pra ajudar empurrar, ajudar tudo e o Dophine não ia, então o Dophine ficou famoso, no dia do Corinthians ganhar eu pegava bandeira do Corinthians e descia a avenida chacoalhando aquela bandeira, gritando e buzinando, porque daí eu podia me expandir mas quando chegava freguês eu procurava saber se era São Paulo, se era Palmeiras, o time que ele fosse eu era também. Partido político, todos os prefeitos de São Carlos sempre beijei, abracei sempre fui amiga de todos mas nunca um descobriu pra quem eu votei porque não pode ficar na defesa... O Raí é meu amigo, agora teve o baile nosso do Jubileu de Prata, fui lá na mesa dele beijar e abraçar ele, a esposa dele, né, que ela era minha freguesa e ele meu freguês, então a gente respeita todos então você é o que eles são, do time de futebol deles, do partido deles, é tudo mas você votava naquele um que era o seu predileto mas não podia falar pro outro porque é amigo de todos, sou amiga dos deputados, o Vicente sempre foi muito meu amigo, a esposa dele foi minha freguesa ajudava ela na campanha do câncer, pedia sempre pra todo mundo ajudar na lista e no fim-do-ano eu dava dinheiro pra ela levar pro Hospital do Câncer, então eu sempre ajudei em tudo, colaborei em tudo e sempre sendo do partido que era aquele que estava comprando, cê entende amiga de padre, amiga dos pastores, moro vizinho da igreja São Sebastião tem o padre Fulgêncio que as vezes precisava sair correndo pra dar uma extrema-unção na Santa Casa ou lá nas monja, encontrava com ele vinha vindo dava carona pra ele e os pastores e todos, então eu concilio todos, todas as religiões, todos os times de futebol, um é de um sou amiga dele, não seu time meu Corinthians não apanhou quatro de uma vez agora, mas fui do lado dos palmeirenses e cumprimentei: “Vocês estão com tudo hoje, mas depois vai ser eu, hein, que vai bater.” Aí quando o meu bater, vou lá e falo: “Você viu o meu que bacana.” Não tiro sarro de ninguém porque respeito muito o ser humano na dele, cada uma na dele.

 

P/1 – Dona Maria, a senhora falou da avenida, né, que descia. A avenida era a principal rua de comércio?

 

R – A principal, a Avenida e a General Osório o calçadão, é sempre foi o ponto principal, a General, as lojas todas ali e a avenida.

 

P/1 – A avenida era mão dupla?

 

R- A avenida era mão dupla, agora que o Coca lá de Araraquara veio e mudou, agora só vai pra lá, porque aquele tempo vinha e voltava, ele mudou as mãos aí, mas a gente sempre vinha e voltava.

 

P/1 – E o que a senhora lembra assim de promoção de natal, época de natal, decoração o que a senhora lembra dessas coisas?

 

R – Ah, o Natal é uma data maravilhosa, uma data festiva nascimento do nosso pai, de Jesus é uma coisa muito religiosa muito importante pra qualquer religião, é um motivo de muita festa, muita coisa boa, o Natal pra gente era cansativo, né, porque a Cabochard ficava aberta até a meia-noite na véspera.

 

P/1 – Até meia-noite.

 

R – Meia-noite. A Missa do Galo estava começando nós estava lá guardando sapato, a gente trabalhava muito, entrava 7:30 da manhã tinha que tá lá 7 horas já ajeitava tudo, 7:30 abria as portas, e abria e já começava a trabalhar porque aquela época não era esse movimentinho de hoje, naquela época você atendia muito era muita freguesia, gente eu chegava atender de cinco freguês, sentava elas todas juntas assim subia, porque o estoque era em cima aquilo eu vivia com esse ossinho aqui com pulso aberto, porque eu descia com aquele monte de caixa e já pegava o par dessa aqui e o dessa aqui olhava, incentivava, ajeitava, já subia pegar mais, pegava o menino lá que ajudava, enchia de sapato mas eu atendia de cinco freguesa, ali na Cabochard na minha época fui a maior balconista a que mais vendia era eu, dia de festa no fim do dia ia somar as vendas era fulana, fulana, Maria estava em todas quer dizer, fui a maior vendedora dali, fui uma grande vendedora e além de vendedora, amiga de todos os fregueses tenho passagens bonitas com os meus fregueses que eu ganhava pãozinho feito em casa, tudo que eles faziam de gostoso já trazia pra Maria, Pereira Queiroz, eu tinha a família dos Caputo que tinham o bar de frente e eles iam em Mato Grosso pegavam aqueles peixe enorme, fazia peixe a semana inteira, ensopado, frito, assado, chama a Maria do Queiroz, né, os Caputo, tinha a dona Maria Caputo que trabalhava no Unibanco e mais os irmãos dela, então tinha um que trabalhava no pronto-socorro é o que pescava, hoje ele mora na Quinze em frente ao Roça de Prata, trazia aquele peixão a semana inteira eu saia da loja e ia lá comer peixe e era uma amizade muito bonita, seu Altino Del Nero que era gerente do Unibanco que era outro nome naquela época agora não lembro, aquele lá de tarde quando saia ele cantava tango, ele gostava de cantar tango, ele fazia muita festa de aniversário dos funcionários, cantava um tango eu ia comer salgadinho com eles, eu cantava as vezes a gente dançava, é um tempo bom o funcionário do banco tudo amigos, né, e aquele tempo eu andava muito eu ia tomar café no seu Antoninho que é o do Estela, irmão da dona Anita Estela que eu falei, ia eu, Dr. Arsênio, o seu Ercílio mais seu Francisco, era uma turma de homens tudo ali que tinha umas firmas, ia tomar café com esse seu Antoninho que era solteirão e que tinha problema no pé, a gente que ia tomar o cafezinho e ia fazer visita pra ele e depois acabou, continuou as mesmas pessoas, os amigos bons, sabe o que eu fazia pra vender? A mãe entrava começava a ver um sapato bonito pra ela, a menina que eu falava: “Mãe, compra aquele lá pra mim.” Ela falava: “Não hoje não vou comprar pra você. Eu vou comprar só o meu, o da sua irmã.” Da mais velha, e aquela não comprava então a menininha começava a chorar: “Eu quero aquele sapatinho.” Eu ia lá via o número da menina punha o sapato no pé da menina e falava: “Fica correndo e brincando aqui e sai ali na calçada que depois sua mãe não pode devolver.” E a mãe lá envolvida com o sapato dela mais a irmã mais velha e a pequenininha ia ficar sem o sapato porque ela chorava então a mãe falava: “Hoje não vai sair o seu.” Aí quando a mãe ia tirar a nota do sapato, a mãe falava: “Então vou levar esse pra mim e esse pro meu marido, esse aqui pro meu filho, esse aqui pra minha filha e tá tudo aí.” Eu falava assim: “Não mas tem o da menina.” Depois que eu já estava tirando nota. Ela falava: “Não o da menina não vai.” Eu falava: “Ah bem mas eu já experimentei nela ela já saiu na calçada, já riscou ai não dá pra devolver mais. Mas eu não ia levar. Não mas a gente põe na conta, se vai.” Eu conseguia então as crianças saia tudo feliz comigo porque consegui fazer levar o sapato, isso fiz com uma que hoje é também de balé e tudo ela não esquece isso, que saia o sapato dela porque eu fazia ficar correndo, né?

 

P/1 – Época de começo de aula, vendia mais sapato?

 

R – Ah vendia, época boa era final de ano, né, de setembro pra frente a turma já começava comprar coisas, era época boa e quando começava aulas a gente vendia muito sapato pra escola, vendia bastante sapato sim, nós tinha as vassouradas, a Cabochard fazia “vassouradas” em janeiro.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Em janeiro e fevereiro, as vassouradas a gente pegava o sapato dava 50% de desconto naqueles mais caros e mais fino dava menos, mas a maioria era 50% e os sapatos que iam sobrando um pé de um ou dois que não dava pra formar um estoque com a numeração completa a gente até hoje faz as vassouradas mas aquele tempo a Cabochard tinha um movimento muito grande, a freguesia danada toda era nossas freguesas essas mulheres muito finas, o pessoal fino, então a gente vendia muito, então na vassourada a gente já ligava pra todo mundo: “Vai começar a vassourada, né?” Então punha aquelas faixas “Vassourada da Cabochard”, aí a gente abria a loja às 7 horas da manhã e fechava meia-noite porque vendia o dia inteiro, vendia sapato até porque todo sapato que custava 50 caia pra 25 então eu já ligava, e chamava todo mundo e falava aquele sapato que cê gostou tá os médicos chegava na época que o sapato também era caro eu ligava, né, Santa Casa eu ia vender na Santa Casa eu ia lá vendia pro pessoal, para as meninas do escritório, tem uma que é da Santa Casa que eu vendia lá, hoje ela trabalha na loja nossa aqui, na Cabochard ela trabalha na loja do lado, então ia vender lá, não ficava vendendo só no balcão, ia vender nos lugares também, na Santa Casa eu vendia muito quando era aniversário do que tomava conta da Santa Casa eu ia lá e falava para as funcionárias: “Ó por que vocês não dão uma pasta de couro, um sapato bom, né?” Eu dava idéia, procurava sempre conversar com as pessoas e ver o que ela gostava pra indicar pro outro que ela gostou pra que ele ganhar aquilo que ele gostava e vendia sempre estava vendendo, o meu negócio era vender então eu procurava os meios de como vender.

 

P/1 – Agora dona Maria, como é que funcionava o estoque?

 

R – O estoque a gente tem em cima, né, então a gente ia pro estoque chega o sapato, você tem que separar tudo por ordem, por número, por cor e você forma aquele estoque bonito, tudo arrumadinho, certinho, com a numeração, cada fileira é uma numeração, cores, e os estoque de bolsa tudo muito bem anotado pra ter o controle certinho, então a gente ficava, os dias de menos movimento nós ficava tudo no estoque acertando, às vezes ficava de sábado a tarde também e sempre mantendo o estoque em dia e sempre dando baixa, né, todo dia dá baixa, dia você vai vendendo e todo dia faz a saída da mercadoria, saiu quando o viajante chegava você sabia já o que estava faltando, a cor, a numeração.

 

P/1 – E naquela época não tinha computador, como era colocado isso?

 

R – Sem computador, era tudo aqui no crânio, é a gente pegava duas funcionárias subia, anotava todas as coisas que estavam faltando os números e tudo na cabeça, nós tinha já aquela lista, que fazia a saída das coisas, então a gente sempre estava por dentro do que estava sobrando, do que estava faltando, e era bom os viajantes vinha muito gostoso meu patrão dava muita festa, fazia muito jantar a gente ia muito no Roda Chopp do Nelsão, o Nelsão comprava na minha loja e nós pagava com venda de sapato, então a gente ia comer lá, meu patrão devia pra ele de comida então ele comprava sapato pra família inteira, aí depois o meu patrão ia lá dar jantar pra todo mundo e descontava no sapato, então foi bacana era aluguel o Torreta tinha a relojoaria dele era dono do prédio, aí ele tinha relojoaria e o meu patrão sapataria, aí depois o Torreta pegou vendeu o prédio, então hoje ele é dono do prédio, o seu Rubens é dono do prédio da Cabochard, e ele tem mais uma loja, chegou ter 12 lojas ele montava uma loja em cada shopping, abria um shopping ele montava uma loja aí a gente ia tudo ajudar arrumar no dia da inauguração, o Nelsão levava o buffet dele, servia as bebidas, salgadinhos era festa o dia inteiro e nós já começava comer e beber, já pondo o povo pra dentro pra começar comprar, né, eu sempre lá comendo eu participava de tudo, ia chamava já passava gente, a última que inauguramos quase foi o do Shopping Araraquara, mas depois foi fechando todos, a situação foi ficando ruim, a gente inaugurou em Limeira, em Bebedouro, inauguramos em Araraquara, teve loja pra muitos lugares Campinas mas depois foi fechando agora tinha sobrado três, a minha quando aposentei já saia ele fechou a minha, aí cheguei vim pra Cabochard fiquei um pouquinho na Cabochard até parar de trabalhar, a Predileta minha fechou e daí ele foi fechando as lojas, agora ultimamente ele fechou a Magrife, agora ele ficou com a Gabriele e Cabochard mas dali eu, ah tenho uma história engraçada pra contar pra vocês da mulher do Pascoal é um que tem uma loja aqui na General, o Pascoal tem uma loja de camisaria ali e a mulher dele tinha três filhos, quase da mesma idade e contava umas histórias engraçadas pra freguesia que marcava também, então ela chegou lá pra comprar sapato, comprou sapato para os três, então ela falava: “Maria esse sapato é bom? Se garante que a sola é boa, o couro é bom, tudo é bom.” falava: “Ah, esse sapato é um espetáculo, é um couro maravilhoso é muito bom, só que se der um trovão e bater você tira o sapato do pé, porque o couro encolhe.” Mas na brincadeira, entende, que ela tinha os três filhos e os meninos coitados falavam pouco mas ficavam prestando atenção e eu fazendo brincadeira com freguês que sempre eu fazia, não isso aí é maravilhoso, quando vendia tecido eu falava: “Se der um trovão e bater você toma cuidado com o vestido, não deixa molhar que ele encolhe, ele vai ficar aqui em cima, né?” Mas depois falava: “Mentira, eu estou brincando, o tecido é ótimo, né?” E sapato a mesma coisa, então marcou muito porque ela tinha os três filhos e ela foi comprar o sapato ela falou: “Então o sapato é bom, né? Não o couro é bom, é tudo bom, a sola é couro é coisa boa só que se der um trovão vai bater, num deixa molhar o sapato porque ele mancha, ele encolhe, né?” E ela falava: “É verdade.” Eu falava: “Não estou brincando.” Mas o menino gravou, o menino guardou aquilo e ela foi um dia lá na loja falou: “Ah, Maria cê falou aquilo lá perto do meu filho que se desse um trovão ou chovesse que o sapato ia manchar e encolher e eu estava com meu filho no ponto de ônibus em frente da escola normal e falaram que estava chovendo, começou chover lá perto do cemitério disse que o menino ficou desesperado queria tirar o sapato do pé falou: “A mulher da loja que vendeu falou que mancha, que encolhe tudo eu quero tirar o sapato.” Disse que foi uma luta pra fazer ele ficar com o sapato no pé viu, então sabe ela vinha contar pra mim eu ria que me matava sabe, porque eu achava engraçado como que a criança guardou aquilo, as que eu punha o sapato no pé fazia a mãe comprar porque riscou falava: “Oh, jóia ganhei o sapato, né.” Mas sabe tinha tanta história engraçada que acontecia de coisa errada que no fim dava certo que foi a diversão, de noite eu ria em casa que se matava de lembrar de tudo, né, das festas que saia coisa errada, um dia fizemos uma festa tudo fizemos, salgadinho compramos bebida, trouxemos convidado era festa de final de ano do amigo secreto, só que meu patrão queria saber de vender, e nós pedimos ninguém ia almoçar pra comer aquele bolo salgado, aquilo tudo que fizemos e tinha que fechar a porta, só que na hora de comer vendemos, falamos agora deu um espaço na hora do almoço vamos comer vamos entregar os presentes, trouxemos uma mulher boa pra ser nossa convidada, né, quando começamos a corta o bolo, começamos a comer. Começou a entrar gente, então todo mundo sentado ali comendo e a mulher querendo comprar, meu patrão falava: “Tem que atender.” Nós falamos: “Nós combinamos com o senhor que tinha que fechar a porta, agora é lógico que tá comendo entra gente tem que tá atendendo, né?” Aí o meu patrão, eu falava assim: “Mas nós queremos comer, nós respeitamos não fomos nem almoçar, nós quer comer.” Então meu patrão pegava cortava aquele pedaço de bolo salgado, cortava cada tolete deste tamanho, maiava no pratinho falava: “Morto de fome, come logo.” E eu tinha um funcionário que hoje é médico, ele era o menino que me ajudava a fazer vitrina, ajudava a pegar sapato, que eu pus muita gente dentro da minha loja, que ficou muitos anos tem gente lá de 20 anos eu botei lá, tá lá até hoje inclusive a gerente a Cleide que é do caixa da Cabochard é a gerente de lá, tirei ela de uma fábrica e pus ela lá e ela tá lá até hoje, muitos que estão lá tão lá até hoje tão muitos anos, então quando chegou nesse magrinho ele era magrinho, meu patrão catou um pedaço maior assim: “Tá ‘monte de osso’, vê se você come isso aqui e engorda um pouco.” Eu sei que todo mundo comeu tão correndo porque entrava gente nós com a boca cheia lambuzada assim, tinha que tá atendendo e com a mão lambuzada, foi um negócio de louco, nós ficamos tão enfezado, levamos tudo pra cima nem pudemos comer direito, né, mas todo mundo começou sabe, uma porção começou passar mal porque engoliu aquilo daquele jeito, então esse do ‘monte de osso’ ele foi estudar em Botucatu hoje ele é médico, né. Até hoje quando eu vejo ele eu falo: “Eh, Reginaldo você lembra, o meu patrão vai ver que você não engordou o rapaz, que desse jeito tá ‘monte de osso’, como isso aqui depressa e vê se você engorda, né?” E ele depois fazendo água com coisa lá, foi buscar aquele leite de magnésia aquelas coisa pra dá pra turma que começou passar mal que comeu tudo correndo, acabou com a nossa festa, cê entende, e acabava sempre com festa porque já combinava de parar, não adiantava porque quando via estava e eu sempre brigando com o patrão pra defender empregado, defendia muitos os empregado que eu convivia com eles, ajustava gente e não ajustava quem não sabia trabalhar, tinha que aprender da minha maneira, do meu jeito como atender, aí que eu fui pra Predileta a vida já era outra, eu tinha minhas freguesas eu tinha três freguesa que tinha ciúmes de mim, quando uma chegava na porta elas gostavam de vim comprar e bater um papinho, né, e eu dava muita atenção então uma chegava no meio da loja assim olhava falava: “Xi, aquela lá já chegou agora a Maria não vai dar bola pra mim, vai conversar só com ela, já não vai ligar pra mim.” Eu tive uma delas que quando ela vinha da casa dela ela trazia um lanchinho, o pão doce alguma coisa que ela fazia e ela apanhava uma florzinha e isso aí não vou esquecer nunca, já falei que se viver 100 anos não vou esquecer o carinho dessa gente teve comigo, ela apanhava uma flor mas ela vinha ali pela meio-dia com o sol quente, com aquela florzinha segurando e quando ela chegava na porta da Predileta do lado de lá em frente à Escola Normal ela começava: “Maria vem me buscar aqui desse lado. “ Ela já era de idade, a dna. Antonieta e vem me buscar aqui, então a turma falava: “Alá, chegou a sua relíquia, sua freguesa.” Aí eu ia, atravessa ia pegar ela aquela florzinha murcha já caída aqui, ela falava: “Eu trouxe um pãozinho, um doce e apanhei essa florzinha pra você.” Então eu falava assim: “Me desse um anel de brilhante não tinha tanto valor.” Como aquela flor murcha caidinha aqui na mão dela que eu pegava um copo d’água e punha aí aquela flor já voltava de novo, mas cê via o carinho dela vim com aquela florzinha caída aqui murchinha, na hora de ir embora levava ela do lado de lá também, e punha ela pra ir embora. É eu tive freguesas marcantes lá na Predileta também na Cabochard, que foi onde mais vivi, assim elas gostavam de coisas finas, coisas que eram bem do momento, então tinha a Dona Hermínia Bruno que ela chegava ela falava assim: “Maria, quero um sapato bem fino, bem atualizado.” Eu falava: “Tá aqui, esse aqui.” Pegava o sapato mostrava falava: “Olha que coisa fina isso aqui, isso aqui tem uma história, isso aqui é uma coisa finíssima, a senhora tem que ver que gente importante calçou isso aqui.” Ela falava: “É quem?” Eu falava: “Olha, quando Dom Pedro Primeiro proclamou a República, a mulher do Dom João Sexto estava com um sapato desse e uma bolsa dessa, na festividade é uma coisa histórica.” E ela ali embalada com aquilo que eu estava falando porque eu falava muito, eles não tinham muito tempo de falar porque eu falava muito, então ficava com sapato assim, com a bolsa eu falava: “Olha que conjunto, o Dom Pedro Primeiro proclamando o negócio e a mulher do Dom João Sexto sentadinha naquela cadeira de veludo com essa bolsa e com esse sapato, isso aqui é histórico é finíssimo.” Aí ela falava: “Nossa é importante, né?” Mas daí ela começava a olhar outras coisas e acordava daquilo que falei né, aí ela passava a mão no sapato e falava: “Ô vou te dar uma sapata, imagina o Dom Pedro proclamando e a mulher do Dom João com um sapato desse, isso aqui é coisa antiga não quero saber.” falava: “ brinquei com a senhora.” Porque eu gostava muito de brincar porque ela era muito séria, muito assim sabe, tudo certinho então fazia essas brincadeiras, era um tal de lembrar do Dom João Sexto, do Dom Pedro sabe, aí lembrava de cada coisa incrível, né, perguntava se o ônibus era chique, eu falava: “É o mesmo que levo todo mundo lá pro Ibirapuera, na proclamação das coisas lá, mas aí eu inventava coisa que depois de noite morria de rir, deitava na cama, queria dormir, começava a lembrar de tudo que falei de besteira durante o dia, assim, mas com isso marcado, porque o marido dela quando ela levantava meio chateada, meia triste , falava: “Ó, vai conversar lá com a Maria do Pereira Queiroz, vai conversar com a Maria da Cabochard, pra vê se você volta mais animadinha, essa fazia doce, levava e depois ela falava: “Às seis horas quando você sair daqui, passa lá em casa que tem mais, aí saia, passava, ela morava no caminho da minha casa, chegava lá, debruçava com ela na janela, conversava um pouco, depois ia embora, ela morreu já também, mas marcou, muita gente marcou na minha vida, sabe.

 

P/1 – Bom, dona Maria está acabando nosso tempo, e queria fazer uma última pergunta antes de encerrar. O que achou de ter ficado aqui com a gente, de ter falado sobre o comércio, de ter dado essa entrevista pro Museu da Pessoa, pro SESC?

 

R – Eu achei maravilhoso, porque gosto muito de passar para as pessoas tudo aquilo que foi bom pra mim, tudo na minha vida foi bom, a vida, a criação do filho, o meu contato com todo esse público, com patrões, acho que tudo foi válido, tudo foi maravilhoso, o comércio é uma escola, aprendi muito, aprendi a conviver com todas as pessoas, sabe, uma hora vinha um com um problema, tinha que falar de religião, outra hora tinha que dar conselho, outra hora tinha que chacoalhar pra vê que não era aquilo, entende, sempre fui muito procurada pra conversar, pra falar e marquei muito para os outros, como todos marcaram pra mim e eu agradeço muito à Deus, porque acho assim que tudo foi importante na minha vida, porque desde criança mesmo com misérias, com vida difícil, tudo foi lição de vida pra mim hoje chegar no que cheguei, porque hoje entendo tudo, compreendo tudo, aceito tudo e agradeço à Deus, porque tudo é baseado nele, é reforçado por ele e é com muita fé nele e sempre com amizade com todo mundo, procurando sempre ser amigo de todo mundo é que conquistei tudo isso, porque hoje, recebi, fui homenageada como, entre 23 gerentes que mais se destacaram pelo desenvolvimento do comércio de São Carlos, estava no meio, fui uma das mulheres que foi homenageada, fui homenageada como gerente do ano, recebi muita homenagem e a homenagem maior pra mim é o carinho desse público que aonde chego todo mundo: “Olha a Maria da Cabochard, olha a Maria do Pereira Queiroz, olha a Maria da Predileta”, meu marido não cheguei a contar, que eu chegava em casa, trabalhava até dez horas da noite, chegava em casa ele estava de pijama sentadinho na cadeira do papai, esperando eu chegar pra ir dormir, eu chegava, falava pra ele: “Que, dormir, não, tem um baile lá na associação bacana, nós vamos”, já ia arrancando o pijama e o chinelinho do pé dele, pondo meia, sapato, enfiando a calça, o paletó, camisa, gravata borboleta ou cravo no bolso, aquele cravão, né, quando ele via ele estava de terno, passava perfume: “Pra que perfume, quero ir dormir Maria”, eu falava: “Não, nós vamos numa festa, num baile”, já deixava as mulher me esperando, quando eu chegar, vocês me ajudam subi ali pelas escada, que ele tinha idade, então, pegava lá meu carro, montava ele, ajeitava ele, passava perfume, “pra que perfume. Porque se alguma amiga minha for dançar com você ou beijar você, já vai sentir o perfume.” Passava lá e tirava o pijama, o chinelinho, louco pra ir pra cama levava, aí chegava lá mandava minhas amigas tirar ele, todo mundo ia beijar ele e abraçar ele, né, e todo mundo fazia aquele carinho com ele, quando acabava o baile 4 horas da manhã assim eu chegava em casa e falava: “Nós podia tá dormindo.” Eu falava: “Mas você não gostou, você não achou essa festa ótima. Achei. Essa festa foi maravilhosa, então você não tá contente, valeu.” Dali um pouco, dali uns dias lá ia eu tirando o pijama, eu sempre dei muita vida, entende, foi quando depois de 20 anos ele quis casar, foi um casamento bonito, todo mundo foi ver pra ver se eu ia casar mesmo, esse Paulino que foi, porque daí sai da Cabochard um ano e fiquei numa outra firma chamava Finarte era decorações e pintura, aonde o menino que trabalhava comigo, hoje é um grande artista e pintor, dono da galeria, que trabalhei com eles, dobrei o movimento deles que vendia, por exemplo três vendi 12, tripliquei o movimento então passei por loja, onde sempre passei eu sempre trouxe todo mundo atrás, o movimento sempre foi bom por causa do atendimento, mas tive sorte de trabalhar em firmas boas, pessoas boas que ajudou a eu elevar aquilo que a gente já tinha de bom, e depois que sai da Cabochard, daí casei fiquei amigada depois casei, foi um casamento na igreja muito bonito como se fosse uma mocinha, entrei com o meu sobrinho Antônio Eduardo Zanolo que me acompanhou, que entrou no altar comigo e meu filho também casou com uma moça filha de um fazendeiro também vive muito bem, minha nora é assistente social lá na cidade dela, tenho três netos, né, tem meu filho que é Décio Antônio Paula Bueno, a Eliana Aparecida Bombarda Bueno, e tenho três netos, tem o Decinho, tem o Guilherme e tem o Pedro, o Decinho tem 17 anos, o Guilherme tem 16 e o Pedro tem 7, e sou feliz porque eu falo pra você, esse carinho essa atenção que vocês estão me dando hoje é o que sempre recebi nessa cidade das pessoas mais importantes porque sou amiga de todos, de juiz, de advogados, de médico, dos operários, dos lixeiros de todo mundo sempre marquei, por todo lugar que passei sempre marcou muito e foi uma vida muito legal, muito boa, foi uma escola muito boa, e hoje ainda estou feliz porque as homenagens que tenho, tenho foto, tem tudo e tem esse carinho do público e ainda hoje vocês também lá me puxaram, a mulher do seu Hélio aquele dia que viu vocês convidando falou: “Maria vai lá contar a sua vida, né, você tem uma vida nesse comércio.” Corri lá e fui depois vocês ligando, achei bom porque é sempre importante pra mim conhecer mais pessoas, hoje faço parte da Terceira Idade de Araraquara, que sou amiga de todo mundo lá também, adoro aquele pessoal, fui numa festa em Gavião Peixoto, me fotografaram e saiu no jornal tudo, então onde chego vou já me entrosando, conversando, fazendo novas amizades, e adoro Araraquara porque além de ser nascida lá, sou da Terceira Idade de lá, da Terceira Idade daqui e gosto de toda a terceira idade que é o meu meio e gosto da juventude porque sempre eles me ouvem e eu posso passar alguma coisa de bom. Vocês são maravilhosos, atenciosos.

 

P/1 – Que bom, queria agradecer a sua entrevista.

 

R – Agradeço esse momento bom que passei com vocês podendo passar pra vocês, coisas boas que houve e espero que vocês quando chegarem no 64 como eu vocês também tenham bastante história pra contar porque é importante, sempre tem os mais novos que ficam ouvindo as experiências que a gente já passou, e sou feliz porque vivi pobre mas ganhei essa experiência de ter fé em Deus, em alguns santos que é os meus protetores, sempre ouvindo coisas boas, tudo quanto é religião pra mim tá boa, vou ouvir, né, e sempre todo mundo me ouve muito, presta atenção e indico médico, hoje faço parte da Faculdade de Odontologia lá de Araraquara, me trato lá adoro os professores e os alunos, me entroso com todo mundo lá também, e os médicos, tem um médico em Araraquara tem os meus daqui, adoro todo mundo porque todo mundo é muito bacana e a humanidade é maravilhosa é só saber entender as pessoas que chegam em você, né, uns mais sérios outros mais alegres, conto sempre muita piada, falo muita coisa engraçada pra divertir as pessoas, também me divirto, excursão de terceira idade, já pergunta: “Maria vai, então a alegria tá garantida.” Por causa de piada, de cantar, trago diplomas eu vou muito na Colônia do Comerciário em Santos e lá danço com a Irene Volpati da Rádio Cultura que ela é locutora lá, e trouxe já três diplomas de lá como os Melhores Dançarinos, só que tenho que ser Julio Iglesia e ela é Marta Rocha ou Sophia Loren porque tem que dançar casal, como tem pouco homem eu me visto ponho chapéu e então sou Julio Iglesia e ela vem, eu já trouxe três diplomas lá dos Melhores Dançarinos, eu e a Irene Volpati. O Cazuza é repórter policial, vai o Cazuza, o Samuca, vai a Irene, né, é todos eles são da rádio, lá da Cultura, então viajo muito com eles, mas é uma turma muito legal, muito bacana, o Aldo Gomito que é o presidente de lá também é legal, tenho uma colhida muito boa lá sabe, e essa Leonice Piovani que é a dona da Art Dança que é que me apresentou esse terceiro namorado, que é o que estou com ele há seis anos, mas esse é um bom amigo, um bom companheiro que tenho, não pretendo me casar mais, mas ele é um companheiro bom que tenho como um bom amigo e respeito e considero muito, como considero todas as pessoas, que é que preciso de muitos amigos bons, muito obrigada por vocês terem dado essa oportunidade porque é a maneira de eu expressar pro público de São Carlos e de todas as cidades onde passo, o carinho muito grande que tenho por eles como eles devem pra mim porque sou feliz por causa dessa amizade, são uns parentes porque onde chego todo mundo me conhece e isso aí eleva muito a gente, a gente sabe que não tá sozinho, que tem muitos amigos. A Terceira Idade daqui é muito bacana de Araraquara e de todos os lugares, então entrosava com terceira idade e mais a juventude, quantos jovens vem: “Dona Maria, queria ter uma mãe como a senhora, né.” Então me entroso com todas as idades, com a criança, tenho promessa com Cosme e Damião, vivo dando pirulito pra todo mundo e dou agora no Cosme e Damião também distribuo doce pra ajudar, né, tenho muita fé neles pra proteger criança também, então levo a minha vida assim baseada em coisas boas, sempre procurando motivos bons alegres, momentos bons pra não lembrar de coisas tristes, que eles vêm também, então obrigada pela oportunidade e quero que vocês sejam feliz como sou e não esqueçam de mim, que vocês conheceram uma Maria alegre e feliz.

 

P/1 – A gente agradece, e pode ficar tranqüila.

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