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Cala-boca já morreu

História de: Isis Lima Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/05/2019

Sinopse

Com apenas dezoito anos, Isis é uma jovem que já tem uma década de atuação com a questão da democratização da comunicação entre crianças e adolescentes. Seguindo os passos dos pais, que também atuam em ONGs, iniciou uma rádio comunitária na zona Oeste de São Paulo, na qual, juntamente de outros jovens, trabalha na produção de programas de rádio direcionados para o público infantojuvenil. Com a colocação das questões ambientais como tema central do programa, iniciou-se o contato com a Fundação SOS Mata Atlântica. Isis conta que, apesar de tão jovem, já trabalhou muito pela promoção da educação ambiental, pela disseminação dos meios de comunicação entre crianças e adolescentes e participou de divernos encontros importantíssimos, como o RIO+10. 

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História completa

P – Boa tarde, Isis.

R – Boa tarde. 

P – Eu queria começar com você falando seu nome completo, data e local de nascimento.

R – Sou Isis Lima Soares e nasci no dia 10 de novembro de 1986, em São Paulo. 

P – E qual o bairro, Isis?

R – Butantã.

P – No Butantã?

R – Quase perto daqui. 

P – E seus pais são de São Paulo?

R – Minha mãe é do Paraná, cidade de Monte Alegre, lá dos Klabin por sinal. E meu pai é daqui, de Vargem Grande do Sul, quase divisa com Minas Gerais. 

P – E o quê que seus pais fazem?

R – Os meus pais são comunicadores, são professores. Têm uma assessoria educacional chamado GENS e também coordenam uma organização da qual eu faço parte, que é o projeto “Cala-Boca já morreu”, que é uma proposta de educação em comunicação, aí desde 1995 em São Paulo. 

P – E você sempre morou no Butantã?

R – Eu morei dois meses no Butantã, hoje moro no Jaguaré, que é ali do lado, mas que é o lugar que eu cresci e estou até hoje. 

P – E você estuda lá perto?

R – Sim, eu terminei o colegial hoje, ano passado na verdade. E atualmente faço cursinho no Butantã. 

P –E quando você estava no colégio, primário, ginásio e tal, você sempre fez ali no Jaguaré? 

R - Sim, sempre naquela região. 

P – Na sua infância como que era a região e o que mudou para hoje? 

R – O Jaguaré é um bairro muito de interior, então não vejo muitas diferenças assim. Os comércios são todos aqueles que já existem a mais de vinte anos. Então você passa na rua, tem que sair dando tchauzinho para todo mundo, que nem vereadora, aquela coisa. Então é um bairro que está crescendo, hoje a gente tem ali um supermercado Extra, que fez crescer muito a região que eu estou, mas de movimento de carro só. De outras diferenças não vejo nenhuma de fato. É uma região muito tranquila, você acorda com o passarinho. Tranquilo. 

P – E você tem irmãos? 

R – Tenho uma irmã mais velha.

P – Mais velha?

R – Mais velha, tem vinte e dois anos. Eu sou tia de uma menininha de três anos. Não fiquei para titia, é diferente. 

P – E a sua irmã estudou? Faz faculdade, alguma coisa?

R – Ela faz atualmente faculdade de Filosofia lá no Mosteiro de São Bento, no Centro da Cidade.

P – E como que foi assim a sua infância? Você poderia falar um pouquinho? 

R – Eu sempre fui muito falante, muito tagarela, então minha infância foi muito falando mais do que fazendo qualquer coisa. Com oito anos, quando eu era ainda criança, surgiu uma rádio comunitária no bairro que eu moro, que foi um ponto marcante e que fez ter uma infância mais diferente a partir de então. Foi uma rádio comunitária chamada Rádio Cidadã e que surge... Minha mãe, como psicopedagoga, foi chamada para fazer um trabalho nessa rádio com uma das meninas que ela atendia na clínica, conhece a emissora e então tem a ideia de levar para uma emissora de rádio a prática que ela tinha na clínica de psicopedagogia. Então nisso, como eu ficava desde muito pequena na escola dos meus pais à noite, depois que eu chegava da escola... Eu conhecia o pessoal que ela atendia, as crianças que são chamadas de fracassadas desde muito pequenas pela família, pela escola etc, criava amizade com elas e aí a ideia foi juntar eu, essas crianças e outras que tivessem interesse para ir para essa rádio. Então, até os oito anos foi muito brincar, essas coisas de sempre. Fui para escola só com seis anos, e aos oito comecei então a fazer um programa de rádio nessa rádio comunitária, junto com um grupo de dez crianças. E aí começa o “Projeto Cala-boca já morreu”, que é o que eu faço parte até hoje. São dez anos. 

P – E esse programa com esse nome, o quê que era? O programa falava do quê? 

R – Inicialmente era uma proposta que é muito interessante de a gente pensar. Os meios de comunicação que existem hoje, para criança, são feitos por adultos, seja rádio, seja jornal, seja programa de televisão. Qualquer coisa, qualquer tipo de veículo de comunicação para criança é feito por adulto. Quando abre essa rádio, quando junta esse monte de coisa nessa rádio da nossa região, a ideia era a gente fazer um programa de rádio feito por criança para criança. Então nós falávamos absolutamente sobre tudo, desde espaço sideral. A gente tinha alguns blocos. Temos até hoje alguns blocos que a gente fala no programa, dos temas que nós tratamos no programa. E a gente fala desde a nossa vida com a mãe, com o pai, com os amigos na escola, até relação nossa enquanto consumidor, enquanto qualquer outro tipo de coisa aí relacionada com a vida. 

P – E esse programa você faz desde os oito anos? 

R – Desde os oito anos. A gente começou em 1995 com um programa de rádio e de 1995 para cá a gente começou a trabalhar com outros veículos aí de comunicação, rádio, jornal, TV, internet. 

P – E ele sempre foi pensado, elaborado por vocês? 

R – Sempre. Uma das características principais do projeto é que a gente criou, nesses dez anos de trabalho, um jeito de fazer as coisas. Uma metodologia nossa de fazer as coisas, que é a pauta, a produção, a apresentação, a parte técnica etc. É tudo feito pelos próprios integrantes, sejam eles quantos forem. A gente costuma trabalhar com grupos de dez, no máximo. Então, nesses dez, a gente consegue definir junto a pauta e pensar justamente no modelo que vai ser o programa ou o produto que a gente quer chegar, de comunicação. E aí vai caminhando até chegar ao produto final, seja no programa de rádio, seja com os outros veículos de comunicação. 

P – E como que foi isso assim na sua casa, uma coisa que começou pequena e que cresceu, e que já tem dez anos?

R – Sim. 

P – E como que foi isso para a sua mãe, para o seu pai?

R – Foi muito legal., dentro de casa tem alguns pontos em particular que é importante destacar. Família aprender a trabalhar junto é um desafio monstruoso. Você aprender não a separar, que eu não sou família, que você não é minha mãe, que você não é meu pai e que eu não sou filha. Mas aprender a lidar com outras pessoas também, principalmente quando é criança. “Ah, está protegendo a filha”. Não, não é por aí, a coisa é diferente. Então, dentro de casa, além de essa coisa ter virado um baita projeto e proposta de vida minha, Isis, que sou filha e que estou nessa história desde o começo, e que meus pais acreditam na proposta também e trabalham com ela há muito tempo. Seja para relação entre a família, que é aprender a trabalhar junto, que é aprender a falar de outras coisas que não seja só o quê que vai comprar no supermercado ou outras coisas que a gente está acostumada a ver que, infelizmente, é pouco ainda. A gente acabou ultrapassando muito e é muito legal hoje conseguir falar de tudo quanto é assunto, seja profissional, seja qualquer outra área. 

P – E, assim, nesses anos de programa, tem alguma coisa que você lembra e que te marcou muito? Pode ser uma coisa engraçada que tenha acontecido. 

R – A gente fez, durante seis anos, programa de rádio ao vivo, de duas horas. Era pauleira, todo domingo a gente estava lá. Então, aconteceu de tudo assim. Ligando já com o tema SOS, o Samuel Barreto que foi uma das pessoas que a gente primeiro teve contato na fundação, estava com a gente quase que semanalmente no programa de rádio. Então a gente chegou a fazer análise de água num programa de rádio ao vivo. E a gente lá, fazendo análise, a criançada toda quase em cima, no colo dele, para ver direito, de repente começa a encher de criança a rádio. O pessoal estava ouvindo e queria ver o que a gente estava fazendo, porque estava muito legal. Assim, começou esse tipo de coisa. Até denúncia. Uma vez a gente estava conversando sobre crianças e pais, pai que bate em criança, quem apanha de irmão etc. Liga uma menina. “Oi, como você chama”? “Luiza”. Quantos anos você tem”? “Seis”. “Diga, Luiza, o que você quer falar”? Telefone no ar: “Ah, minha mãe me bate”. E começa a chorar e alguém desliga o telefone. Então assim, dois extremos, desde animação total, experiência total de você conseguir fazer uma análise de água num programa de rádio, até um instrumento de denúncia sendo utilizado por criança que percebe que aquele espaço também é dela. E percebe porque é rádio comunitária, porque ela pode falar, se ela ligar ela vai ser ouvida e etc e tal. 

P – E o programa era ou é ainda uma vez por semana? 

R – Então, durante seis ou sete anos a gente ficou uma vez por semana, todo domingo, duas horas. Aí nos últimos dois anos a gente interrompeu, porque o “Cala-boca já morreu” virou ONG efetivamente, e aí a gente está com outro foco, que agora é não só ficar mais com nós vinte, integrantes do “Cala-boca”, mas dar oficina de comunicação para outros grupos. Então hoje nós temos uma sede, hoje nós temos cerca de setenta pessoas que frequentam a nossa casa para aprender a fazer rádio, jornal, tv, internet e vídeo. Esse ano de 2005, um dos planos é voltar para a emissora de rádio. Que assim, eu sinto que a formação que eu tive foi no rádio mais do que em qualquer outro lugar, e é fundamental. E o pessoal está no pique de ir para a rádio de verdade de novo, que a gente justamente tinha desgastado um pouco. Então vai voltar e provavelmente seja semanal de novo, ao vivo. 

P – Então vamos voltar um pouquinho. 

R – Ta. Uuuuu...

P – Quando você ainda estava fazendo o programa de rádio, as outras crianças, que começaram com você, eram todos da escola e do bairro?

R – Sim, tinha desde amigos tipo criança que minha mãe atendia na clínica, que levou a irmã, que levou a vizinha. E aí eu, que levei a amiga da escola, e o outro, que ouviu no rádio e quis ir junto. Então era um grupo muito misto, mas da região da Zona Oeste de São Paulo, não só Butantã. Tinha [Jardim] Bonfiglióli, tinha Morumbi, tinha alguns outros bairros. 

P – E como que era a sua relação com as outras crianças? Isso eu estou falando de quando você era criança. Das outras crianças que não faziam parte da rádio e que você se diferenciava, você era alguém que tinha um destaque. Como que era isso na escola, na vizinhança? 

R – Foi muito tenso por muito tempo. Eu tinha muito medo que as pessoas vissem que eu estava querendo... porque, pelo fato de eu fazer coisas que eles normalmente não fazem, que é fazer rádio, pouca gente faz rádio com essa idade que eu tinha, infelizmente, eu tinha medo que olhassem estranho, que falassem alguma coisa. Então eu não contava, eu mantinha a mesma relação com todo mundo, me dava super bem na escola, mas não contava as coisas que eu fazia. Até que num determinado momento o “Cala-boca” começa a aparecer na mídia, começa a sair em matéria no jornal e na televisão e etc, e o pessoal começa a ver. E aí teve um momento que eu me recuava um pouco e não queria falar, ficava com vergonha e tal. Mas foi muito tranquilo, eu acho que talvez por eu ter segurado um pouco isso, de não querer falar mesmo, por ter medo do que as pessoas achassem... Não sei como teria sido se eu tivesse agido diferente, mas eu tinha muito medo mesmo, de que as pessoas se afastassem de mim ou achassem que eu estava querendo me achar diferente, ou qualquer coisa do tipo. Era muito mais, assim, não tem nada a ver.

P – E o Samuel Barreto, quando que ele começa a ir lá na rádio? 

R - Em 1996, mais ou menos, de janeiro a fevereiro. Reunião de pauta a gente tinha uma vez por semana, temos ainda. “E aí, do quê que a gente vai falar”? “Ah, vamos falar de meio ambiente, vamos falar de algum assunto nessa linha”. “Ah, o que de meio ambiente”? “Rio Tietê”. A gente mora ali perto de um dos córregos do Pinheiros. “Vamos falar. Só que com quem que a gente vai conversar sobre isso?”. A Gracia, que é minha mãe, que é coordenadora do projeto, então, por ser a adulta na época, ligou para algumas organizações e diversos grupos para perguntar quem que toparia dar uma entrevista para gente. Ligou para umas cinco, seis organizações e grupos do Governo do Estado mesmo. Ninguém estava disposto ou não tinha agenda, um monte de coisa. Por acaso ela ouviu, acho que na Eldorado, nem lembro como é que foi, ouviu falar da SOS. Ligou, falou com o Samuca, e aí ele foi super receptivo. No domingo mesmo ele já estava lá e aí virou caso de amor. Samuca e “Cala-boca” até hoje, aquela relação. 

P – Vocês já tinham a preocupação com o meio ambiente ou entrou na pauta porque surgiu assim do nada, ou vocês já pensavam?

R – Não. Surgiu aquela coisa: “O quê que a gente vai falar nesse programa”? Como são duas horas, a gente tinha os blocos, como eu comecei falando. Que blocos eram esses? Tinha “Notícia quente com a gente” e notícias quentes de tudo quanto é natureza; “Acorda meu Filho” e um bloco de reclamação; “Espaço Sideral” para falar sobre o espaço. A lua estava sendo super investigada na época, como é até hoje, isso era meio auge da moda também. Então esses eram os assuntos. “Criança e Ecologia” era outro bloco, que a gente pegava, às vezes, um livro da escola e falava sobre animais, mas uma coisa de pesquisa nossa. O Tietê, acho que era na época que tinha enchente, alguma coisa, não estou bem lembrada. Enchente na região, é por causa do rio. “Ah, porque o rio?” “Porque está poluído”. E começa a puxar a origem da coisa, e aí veio o tema. Nunca foi alvo principal o meio ambiente. Mas, com o passar do tempo, hoje é o nosso “eixo temático” que a gente chama. Não é a preocupação inicial, mas hoje é a preocupação indispensável para trabalhar qualquer assunto. 

P – E o Samuel foi entrevistado e gostou?

R – Sim. 

P – Aí ficou indo sempre?

R – Sim. Começou com a gente, praticamente ele estava na Rádio Cidadã, seja no “Cala-boca já morreu”, seja em outros programas de outros apresentadores que ouviram e quiseram chamar ele durante a semana. Então, acho que toda segunda feira também pela manhã ele estava lá falando sobre problemas de meio ambiente da região. E começou então o Samuca, pela SOS, dentro dessa rádio comunitária, a se fazer valer de um espaço de comunicação comunitária para trabalhar os temas com uma região, não numa região. Então a população ligava, os ouvintes iam lá, mandavam perguntas etc e tal. Então começou mais ou menos por aí, até que, certa vez... o Samuca fala do programa “Mãos à Obra”, Fundação SOS Mata Atlântica, e fala que gostaria muito que o “Cala-boca”, que tem tudo a ver com isso, fizesse a abertura desse programa. E aí que a gente começa a não conhecer mais só o Samuca e conhece as outras figuras, Mario Mantovani, o próprio Klabin, etc. 

P – E como que foi essa chegada lá na SOS, com outras pessoas?

R – Estranho, bem estranho. O Mario contando isso é engraçado, ele fala, imagina uma pivetada, a gente tinha nove, dez anos, para apresentar o programa de lançamento do “Mãos à Obra”. Então, eles não conheciam a gente, foi só pela fé que o Samuca colocou mesmo: “Não, eles vão e tal”. Então foi muito bacana porque, assim como eles estavam assustados, a gente também estava, nunca tinha falado em público, tanta gente ao mesmo tempo, ainda mais fazer a abertura de evento. E aí virou uma relação muito tranquila da SOS, principalmente falando de Mário Mantovani, e Samuca, e Fabrício, essas três pessoas, começarem a acompanhar muito mais de perto as nossas atividades e contar com a gente para outras atividades da SOS. Então foi mais ou menos esse o caminho que a gente seguiu. 

P – E aí você continuou nessa relação com a SOS até hoje?

R – Sim, até hoje. Nesse meio tempo a gente fez diversas coisas, principalmente relacionado à Mata Atlântica mesmo, projeto de lei da Mata Atlântica. Então o “Cala-boca” continua com uma parceria com a SOS, mas é uma coisa muito mais de olhares, assim. A gente nunca chegou a trabalhar efetivamente junto, sem ser na época do “Observando o Tietê”, quando a gente fazia análise de água do Tietê, foi quando começou essa história. Hoje a gente volta a fazer análise de água e com o objetivo mesmo de conseguir afinar e trabalhar mais a fundo com essa orientação. 

P – E depois disso que o “Cala-boca já morreu” virou uma ONG? Me conta um pouquinho como que aconteceu isso. 

R – Em 1995 a gente começa com rádio, 1996 a gente começa a fazer jornal, em 1997, televisão, em 1998 trabalhar com Internet. Foi um crescimento muito repentino, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, o que é muito legal, mas que começou a exigir da gente para caramba, dedicação integral. O “Cala-boca” começou a ter sede só em outubro do ano passado, então, até então a gente passou por vários lugares. Como eu falei, meus pais têm uma assessoria educacional chamada GENS, a gente se reuniu durante quatro anos lá. O GENS teve que fechar a sede porque começou a trabalhar no interior, então a gente começou a se reunir na minha casa, ficou três anos se reunindo na sala da minha casa. Então, ao mesmo tempo que o crescimento fora estava muito grande, dentro a gente estava necessitando de uma infra-estrutura maior e a vontade, a necessidade mesmo, de trabalhar com outros públicos. Sempre fomos convidados para dar oficinas de rádio em outras organizações, em escolas, em eventos e tal. E a vontade era mesmo de conseguir trabalhar pelo “Cala-boca”, fazer disso um espaço nosso. Não só de, para alguns, diversão, para alguns, trabalho, para alguns, estudo, mas um espaço de trabalho, no maior sentido da palavra, que é se trabalhar, e de uma forma legal que é também recebendo. Como isso? Virando ONG. Então a gente conseguiu finalizar a documentação, graças a Deus, só em agosto de 2004. E de lá para cá a gente virou ONG mesmo e estamos batalhando agora para virar uma Oscip [Organização da Sociedade Civil de Interesse público], que facilita muito mais os caminhos. 

P – E, o “Cala-boca”, basicamente, como ONG, vai trabalhar com o que? O quê que vocês querem?

R – Com educação e comunicação. Com educação pelos meios de comunicação. Fazer com que o público, principalmente criança e adolescente, se aproprie da linguagem dos meios de comunicação, seja ela qual for, para entender o mundo em que vive e falar dos assuntos que têm a ver com a própria vida. Entender que a linguagem do rádio, do jornal e da televisão, têm que ser dominada por todos, assim como a escrita. Então é mais ou menos nessa linha que a gente trabalha. E é com dois eixos principais, que é meio ambiente e saúde. Entendendo que o meio ambiente é muito mais que a água e o bichinho de árvore, mas o lugar que a gente vive e a relação que a gente estabelece com as pessoas. E saúde porque, a partir do momento que você se trabalha, você está fazendo um trabalho de promoção de saúde, você está cuidando de si mesmo e consequentemente da relação que você estabelece com os outros. 

P – E você acha, assim, que essas idas pro meio ambiente e para saúde caminham juntas? Tem a ver com a SOS? 

R – Tem a ver, acho que mais que com a SOS, com algumas pessoas em particular. Como eu falei, o nosso trabalho com a SOS nunca foi de fato efetivado, foi muito mais com as pessoas que, por elas a gente conseguiu alcançar outros caminhos e participar de diversas atividades. Pelo “Cala-boca” e por indicações da SOS, falando de Mário Mantovani principalmente, participamos de diversos eventos e de diversas organizações de movimentos que trabalham com o meio ambiente. Por exemplo, ano passado aconteceu a Conferência Nacional de Meio Ambiente Infanto-juvenil. Pela primeira vez na história, criança e adolescente foi chamado para discutir, em nível federal, política pública de meio ambiente. Então o “Cala-boca” acabou entrando nessa história. Hoje nós fazemos parte da Secretaria do Estado de São Paulo que está cuidando desse programa. Então, assim, são caminhos trilhados a partir dos contatos, mas não diretamente pela fundação. 

P – E antes dos seus dezoito anos, como que era a sua relação, e eu não digo quando você era criança, você já estava crescendo, com os outros adolescentes? Porque você tem um esclarecimento, você tem um ideal, você pensa algumas coisas. E como que era isso para alguém que não tinha uma bandeira?

R – Eu não sei se eu sei te responder bem, porque ainda está em processo. Muita coisa aconteceu nesse meio tempo. Durante quatro anos, de quinta à oitava série, a fase que e a gente está mais crescendo, eu estava numa mesma escola, então o pessoal que, desde que eu conheci, eu entrei no ano que a escola abriu, então a gente, eu já conhecia o pessoal meio que, não como sendo novidade, estar no “Cala-boca” ou fazendo essas coisas todas. Então eu cresci junto com eles, meio eles já sabendo o quê que eu faço e tal. Eu sempre faltei muito na escola por viagem e evento que a gente vai participar, então uma relação até que mais tranquila nisso. Quando eu fui pro primeiro colegial, eu mudei de escola, porque a minha escola ia só até a oitava. Eu estudava em escola cooperativa, que é outra cabeça, é outro lance, é outra linha de trabalho. Eu fui para uma escola particular no primeiro colegial, e aí foi o pânico, o stress. Isso foi em 2002, foi o ano que eu fui para RIO + 10, que várias coisas começaram a acontecer. E, primeiro, para a escola que tem a cabeça centrada em fazer os alunos passarem no vestibular e mostrar que a escola sabe fazer com que os alunos passem no vestibular. Imagina uma aluna que falta o tempo todo, mas mesmo assim dá conta do conteúdo? E pros meus companheiros de sala eu ficava de novo com aquilo: “E aí, conto como são as coisas? Não conto? Não quero que isso vire um motivo de qualquer coisa, mas ao mesmo tempo eu preciso contar, porque eu preciso do apoio deles para continuar fazendo as coisas que eu faço”. Então isso gerou um stress para mim, pessoalmente, muito grande. Saí dessa escola no ano seguinte e fui para uma escola pública, fui experimentar os diversos tipos de escola. Fiz o segundo. Pros amigos, super tranquilo, muitos talvez não entendam o que eu faço, talvez por eu não contar ou por qualquer outro motivo, mas a dificuldade é muito maior da escola entender o que eu faço. E isso não é falta de contar, isso eu sempre tentei de chegar e falar na direção: “Olha, está acontecendo isso e isso e tal”. Até que, em 2004, agora, eu estava no terceiro colegial no Fernão Dias, em Pinheiros, no meio daquele ano, um monte de coisa acontecendo, a escola começa a me pressionar por causa de falta, não de nota, em momento algum. E eu começo a falar: “Tudo bem, eu venho para escola, mas não tem aula. É muito complicado a gente vir para escola e não ter aula. Tenho milhões de coisas para fazer”. Eu resolvi até no meio do ano passado interromper a escola, parei. Queria estudar, queria entrar no vestibular, mas ir para escola para não ter aula e ter essa cobrança de repetir o ano, inclusive, não estava valendo a pena. Comecei a fazer cursinho, estudei para caramba. Eu acabei não entrando no vestibular, mas isso é o de menos. Vou resolver minha história do diploma com o supletivo, que não vai ser isso que vai mudar minha vida. Mas eu consegui então me livrar dessa pedra, infelizmente, que se tornou a escola, que é de não entender que a vida também acontece de fora dela e de não admitir que os alunos também tenham que viver e têm que entender as coisas à parte da escola. Então isso foi algo meio complicado que aconteceu aí, faz seis meses. Agora eu volto a fazer cursinho esse ano e resolver minha história do completar o segundo grau esse mês ainda. 

P – E você vai prestar cursinho para que, você vai prestar a faculdade?

R – Geografia.

P – Geografia?

R – Geografia. Prestei agora na Fuvest, por dois pontos não entrei. Volto agora esse ano, mas com mais calma e estudando de fato mesmo, com dedicação para isso, que foi o que eu comecei a fazer o ano passado, mas seis meses é pouco. No colegial a gente tem que dar uma ralada. 

P – E, Isis, nessa sua caminhada de tantas coisas, quais eventos que você participou, que você foi representar o “Cala-boca” ou que você foi falar, assim, que foram importantes? Como que é chegar no meio de pessoas tão mais velhas, alguém tão jovem? 

R – Destaco primeiro a RIO+10, que eu já citei, aconteceu em agosto de 2002 em Johanesburgo, África do Sul. Antes de acontecer a RIO+10 Internacional aconteceu uma no Brasil em junho, por conta da Fundação SOS Mata Atlântica, do Mário. Me indicaram para participar de um painel de abertura desse Seminário RIO+10 Brasil, foi no Rio de Janeiro. Esse painel chamava Diálogo de Gerações, tinha como objetivo reunir representantes do mundo todo, desde a época da primeira Conferência do Mundo de Meio Ambiente em Estocolmo, na Suécia, da segunda conferência que foi a Rio 92 e da terceira da RIO+10. Me chamaram como geração da RIO+10, tinha desde Maurice Strong, várias pessoas e tal, era uma mesa enorme para caramba. Essa mesa começa a acontecer com evento super atrasado, participação do Fernando Henrique, maior pompa, tal, começa às cinco da tarde, era para ter começado às duas, mais ou menos. A gente começa a falar, começa pelas gerações, primeiro de 1972, 1992 e a gente. Quando a gente vai falar, quando eu vou falar, eu olho para a mesa, não tem mais ninguém. As pessoas falaram e saíram, porque tinha um jantar com o Fernando Henrique, que todo mundo da mesa ia participar, mas eles estavam atrasados e saíram. E o Diálogo de Gerações, que era o nome do painel, de fato não aconteceu. Então a minha fala foi muito nesse sentido, nessa mesa. Teve uma repercussão super bacana, porque eu fiz meio que analogia: “Puxa, a gente está falando de diálogo de gerações, estamos falando de movimento de juventude, estamos falando de um monte de coisas, e olha que bonito essa mesa, olha nós aqui de novo, sozinhos”. Então isso foi interessante que, saindo dessa mesa, eu fui para esse tal de jantar também, que foi antecedido por uma reunião de trabalho. Mal entro na sala ta o Fábio Feldmann mediando a mesa com o presidente e com alguns convidados. Ele fala: “Ah, está chegando agora aqui no nosso espaço a Isis do “Cala-boca já morreu” e o Rodrigo Agostinho do “Vidágua”, e eu gostaria muito que eles falassem aqui para o nosso presidente um pouco sobre o quê que a juventude tem feito nessa área”. Tipo eu abrindo a porta, “Oi Fábio, tudo bom?”, aquela coisa. Pego o microfone super... e falo, conto o que aconteceu na mesa anterior e falo que é um absurdo num evento daquele, preparatório para RIO+10 Internacional... De jovem, primeiro, só tem eu e mais o Rodrigo, mais a filha da princesa da Jordânia, que era da mesa também, e a Apoema, que é uma outra menina do Brasil. Só a gente de jovem num evento com quinhentas pessoas, o Brasil inteiro, o mundo todo praticamente. E falo: “E aí, o quê que a gente está falando, que desenvolvimento sustentável é esse? Que responsabilidade, inclusive de relações, é essa?” Então propus para o presidente que fosse criada uma comissão de juventude que integrasse a delegação para RIO+10, oficial. E aí o pessoal fez meio assim, tipo “o quê que essa menina está falando” e tal. Aí ele olhou, ele falou: “Não, tudo bem. Eu não garanto a criação de um comitê, mas você vai”. Enfim, não era muito por aí o caminho, mas acabou acontecendo, eu acabei indo para o RIO+10 com o comitê presidencial, uma pompa de novo. E eles não entenderam que a minha solicitação era de participar do evento não só enquanto Isis, mas enquanto o “Cala-boca já morreu” e algumas outras organizações. E falaram que se eu quisesse ir por conta do governo, eu teria que ir no avião do presidente, num dia e voltar no dia seguinte, que foi o que acabou acontecendo, porque eu não tinha grana para ir para lá antes. Enfim, a gente acabou marcando posição, conversamos com ele depois e tal. Fomos no dia 28 e voltamos dia 30, sendo que são 12 horas de viagem. A gente considera que foi um bom tempo na África do Sul. 

P – Tudo bem que esse tempo longo que você passou lá...

R – Pois é. 

P – Como que foi isso, assim, como foi estar lá?

R – Foi muito maluco. Não falava inglês, o meu inglês até hoje não é muito lá essas coisas. Então, primeiro, nunca tinha saído do país, começa daí, já era uma cara nova, um pano de fundo diferente para aquilo que você está entrando. Segundo, estava indo já meio brava, porque eu estava indo fazer uma coisa que não era do meu interesse, quer dizer, que era do meu interesse, mas que não era tão por aí que eu estava querendo fazer. Chego, muita novidade, muita coisa acontecendo. Foi interessante por alguns contatos que eu fiz, seja dentro do governo, ou seja com a sociedade civil do Brasil e de países da América Latina que estavam participando da RIO+10, os contatos que continuam até hoje, ainda bem. Enfim, foi meio loucura. Acabei conseguindo fazer uma entrevista com o presidente. Foi interessante e trouxe pro “Cala-boca já morreu” um retorno bastante interessante, não só de mídia que consegue cobrir esse tipo de atividade, mas enquanto organização mesmo, que conseguiu trabalhar os temas da RIO+10 de uma outra maneira e com outro público, que é criança e adolescente. Então foi meio muvucão assim, mas foi super interessante. Então, você perguntou de evento, né? Esse é um, e eu acho que talvez o segundo que eu destaco foi o Congresso Mundial de Juventude que aconteceu no Marrocos, 2003, em agosto. A gente conseguiu formar uma delegação de doze jovens brasileiros e conseguimos financiamento pela Amana-Key, uma empresa daqui do Brasil, que bancou a gente para ir para lá participar de vinte dias do congresso, que reuniu mais de mil jovens, cento e quarenta e oito países e tal. Foi uma experiência bem interessante também, tanto para mim, quanto pessoa e curiosa, quanto pro “Cala-boca já morreu”, que tinha duas representantes lá. 

P – E, falando do Marrocos, basicamente era de jovens. Na convivência você percebe que as preocupações são as mesmas que vocês têm aqui?

R – Mais ou menos. O congresso era sobre a ação juvenil e desenvolvimento sustentável, então já era um pouco na linha do que a gente trabalha. As preocupações, ao mesmo tempo que são as mesmas, eu diria que são as mesmas as geralzonas: com a água e a educação, erradicar a pobreza etc. Que o tema de trabalho do congresso era as metas do milênio da ONU. Ao mesmo tempo o foco nosso enquanto “Cala-boca já morreu”, que é educação e comunicação, infelizmente a gente não viu nem uma outra organização lá, explanações muito frustrantes. Por quê? Porque o trabalho do “Cala-boca”, mais do que tudo, está comprometido com a democratização dos meios de comunicação. E aí, quando a gente vai para um lugar fora do Brasil com vários, muitos países do mundo, que a gente sabe que a questão, principalmente a América Latina, de democratização dos meios, é muito delicada e não vê nenhuma organização que trabalha com isso, você fala: “Caramba, o quê que está acontecendo?” O movimento, ao mesmo tempo que existe, não estava lá. E aí a gente percebe, “Puxa, quase não tem jovem fazendo isso. Ou se tem, cadê? Porque que a gente não se conhece? O que acontece”? Então, assim, as preocupações são as mesmas em aspectos mais gerais, eu diria. Agora, na nossa área de trabalho específica, que é educação e comunicação, infelizmente a gente não conseguiu encontrar pares de diálogo. Foi triste, bastante. 

P – E, Isis, me fala uma coisa. Você está trabalhando nessa área ligada ao meio ambiente. Qual você acha o tema que é mais preocupante?

R – Educação, sem dúvida alguma. Acho que a gente, quando falta uma base não só para criança, mas para todo mundo, falta uma base de educação, e que aí está ligada diretamente a todas as outras questões políticas, econômicas, sociais, ambientais etc... Infelizmente, hoje a gente tem os formadores nossos, enquanto educadores mesmo, sem dúvida, é a família, é a escola e os meios de comunicação. E que não se relacionam. A gente tem uma escola que praticamente ignora a presença dos meios de comunicação, e a família, que ao mesmo tempo acha que é importante a criança estar lá na frente da TV, que não dá tanto trabalho. Não se preocupa como que ela ta chegando e etc e tal. São três pontos que não se cruzam. Então, por conta disso, eu vejo que a gente está numa questão muito delicada. Se a escola conseguisse trabalhar, e se as faculdades também conseguissem trabalhar os temas dos seus cursos, pedagogia, farmácia, medicina, agropecuária, qualquer coisa, de uma forma política, com a dimensão política nacional que nós temos, milhões de coisas seriam diferentes. Falta uma base, falta às pessoas aprenderem a conversar. Isso, sem dúvida alguma, é nesses espaços, principalmente família e escola. Acho que é isso que falta muito e que eu sinto que seria um ponto prioritário para a gente conseguir fazer qualquer coisa. 

P – Quando o “Cala-boca” faz essa opção, um dos eixos temáticos é o meio ambiente. Isso foi uma coisa que partiu de vocês, eu digo, as crianças, quando eram, ou veio também por parte da sua mãe, do seu pai, que estavam ali com vocês?

R – Acho que dos dois lados. Uma coisa que eu considero muito importante, quando a gente cria laço afetivo com uma pessoa, a gente começa a desenvolver com ela temas diversos. Com o Samuca foi muito por aí, foi um laço afetivo que se criou. Mas ao mesmo tempo também pode virar oba-oba, quer dizer, pode, mas a gente não queria que virasse só oba-oba. E aí veio uma preocupação, sem dúvida alguma, dos meus pais enquanto coordenadores, de fazer: “Não, vamos manter isso como um tema importante”. E aí não só o rio Tietê, mas como outros temas, Mata Atlântica, água, ar, entre outras atividades. Então foi uma coisa meio dos dois lados. O interesse nosso, talvez, pela figura Samuel, e uma preocupação da coordenação do projeto mesmo, em fazer com que esse tema não virasse mais um tema e sim o tema principal, que a gente conseguisse, a partir dele, ter a dimensão das outras coisas. 

P – Quando vocês fizeram essa opção, o cotidiano de vocês, em hábitos, mudou ou continuou? Vocês já tinham?

R – Não, muda, sem dúvida. A gente lembra disso. Todo fim de ano a gente faz uma retrospectiva: “Ah, você lembra quando fulano, não sei o que e tal”? Coisa de papelzinho no chão, fatal isso aí, de mudar e, principalmente, dentro de casa. Não só a gente fazer as coisas, mas família mesmo, de ficar cutucando, de ficar falando. Mas é aquela coisa, às vezes casa de ferreiro o espeto é de pau. As avós de todo mundo do planeta, a gente chegou à conclusão, que não ouvem a gente. Estão todas lá, quase tomando banho dentro da pia, aquela coisa. Mas isso, mudança de hábito pessoal, é fatal. Quando você entende, imediatamente acontece a mudança, porque você não está nem repetindo, nem só reproduzindo, você está entendendo, você está incorporando aquilo que você ouviu e que você conversou. Então, em todos os sentidos, não só nesses mais práticos aí, de lixo, água, mas de postura mesmo, de estar vendo na rua alguma coisa e falar e fazer. Ou então dentro da casa do “Cala-boca” mesmo, da gente se preocupar com o lixo e outros tipos de cuidado com a casa. 

P – E, Isis, me conta uma coisa, que eu to muito curiosa. 

R – Conto.

P – Me falaram de uma capa de uma revista Capricho. 

R – Quem te falou isso? Como assim, contam essas coisas?

P – Não vou dedar. 

R – Ah, Mário Mantovani talvez. Eu amo o Mário, exatamente. 

P – Como que foi isso? O quê que você estava fazendo lá? 

R – Heim? Ah, enfim, isso foi no passado. Acho que foi, ligou. A Capricho, por estar na região nossa e por conhecer o “Cala-boca”, eu acho que entrei em contato com eles a primeira vez na época da RIO+10. Eles vieram fazer matéria com a gente, comigo. Acabei criando um vínculo com algumas pessoas lá dentro, de contar e de manter, dar sugestão de pauta algumas vezes e tal. E aí ligaram: “Isis, a gente está fazendo uma matéria sobre meninas superpoderosas de diversas áreas do nosso país, e a gente está destacando você como a menina superpoderosa da área social”. “Heim?” “Enfim, você topa fazer a matéria”? “Topo”. Acabei fazendo. Daí estava eu lá do lado da Sandy e da Mariana Ximenes. Nada contra ela, mas é muito engraçado uma foto daquela no meio da revista.

P – E como você se sentiu?

R – Ai, sei lá, é muito estranho. A Capricho é um bicho estranho. 

P – Teve repercussão essa?

R – Teve. É incrível, na minha ex-escola a única coisa que o pessoal lê é Capricho. E leem, de cabo a rabo. Hora do intervalo, primeira semana, sei lá, quando saiu a revista, todo mundo lá lendo, você vai ver o quê que é, é a Capricho. Menino, menina, professor, a revista passa por todo mundo na sala de aula, inclusive os professores. E aí todo mundo... Aí a direção coloca: “Parabenizamos a nossa aluna por estar na matéria”, coloca no negócio e tal. É engraçado isso, porque, quando sai na imprensa, eles reconhecem uma coisa que a gente tenta falar para eles a vida inteira e não dá. Então, na escola teve esse tipo de repercussão. Amigos zoam, até o Mário, meu querido Mário, me sacaneia até hoje por isso. Mas aí a gente releva e fala: “Que legal”. Foi uma matéria bacana, sem dúvida senti o reconhecimento, é super importante, não vou dizer que não também. Mas fico meio assim. Eu não sou tão... enfim, tenho minhas vergonhas, essas coisas. 

P – E quais as regiões de atuação de vocês?

R – Zona Oeste de São Paulo. A única coisa que a gente pede pras pessoas que vão fazer parte do “Cala-boca” é que possam frequentar a casa uma vez por semana, e ou para reunião de pauta, que é uma reunião mais do grupo gestor mesmo, o pessoal que está há mais tempo, ou para fazer oficina. Então, para participar do projeto tem que estar na região da Zona Oeste, ou não, mas conseguir estar lá uma vez por semana. Além disso, a gente trabalha, como eu falei, a gente da oficina fora, daí dependendo do caso, em eventos a gente costuma fazer um trabalho de comunicação, seja o Fórum Social Mundial, Fórum de Educação Ambiental em Goiânia, a gente foi, o último que a gente participou. Então, qualquer coisa nesse sentido a gente participa. Mas para fazer parte de fato do projeto tem que estar na Zona Oeste. 

P – E esses fóruns, vocês vão para qualquer lugar do Brasil?

R – Não, qualquer lugar a gente já foi. 

P – Fora também? 

R – Fora também. “Bora lá, vamos fazer a fila”! É bacana, porque às vezes a gente vai participar do evento e acaba dando a oficina. Então, às vezes não é só para isso, assim, isso aconteceu poucas vezes, aliás. Mas é um trabalho que a gente gosta muito e que foi importante. Por exemplo, na Conferência Nacional de Meio Ambiente que eu falei, é infanto-juvenil, foi uma conferência que, para acontecer em Brasília, ela foi antecedida por conferências nas escolas, que não eram obrigadas a fazer, mas as escolas de interesse recebiam uma cartilha e faziam uma conferência interna. Votavam, escolhiam delegados, faziam uma proposta, mandavam. E, por estado, quatorze delegados crianças foram para Brasília. No Brasil inteiro a gente teve quatrocentas e poucas crianças assim. E elas todas, que foram para Brasília, aprenderam a metodologia “Cala-boca já morreu”. Como que foi isso? O ministério consultou, os Ministério da Educação e do Meio Ambiente contrataram a minha mãe, a Gracia, para fazer uma consultoria na conferência. Então ela fez a formação dos facilitadores, éramos sessenta na metodologia. E aí a gente trabalhou com grupinhos de crianças, entendeu? Então, nesse sentido, o “Cala-boca” tem uma metodologia de trabalho que está aí, que já é utilizada em diversos lugares, municípios de São Paulo, no projeto Educom, rádio também. Então ela é utilizada em vários lugares, e a metodologia é nossa, mas que não é nossa enquanto pessoas, é uma metodologia que a gente criou, que a gente quer mais é que as pessoas se apropriem dela para produzir a comunicação local. 

P – E hoje, assim, o quê que mais te preocupa nessa questão ambiental? 

R – “O que não preocupa”, mais fácil. A questão, para mim, que está muito forte atualmente, é a água. Que tem a ver com saneamento, que tem... daí entra para habitação. Nessa conferência o tema chave foi à água, as crianças mandavam a maioria das propostas, água fonte de vida, que virou chavão e tal. Por mais que, de qualquer coisa, qualquer crítica em relação a isso é um tema que precisa ter o seu cuidado especial e entendimento, principalmente. Não só de fechar a torneira enquanto escova o dente, que eu acho que é muito mais que isso, é muito além disso. Mas é entender mesmo a questão política que tem a ver com a água, é o que está me inquietando muito e que eu estou atrás atualmente, sem dúvida alguma. 

P – Quais as propostas que vocês, vocês enquanto “Cala-boca”, têm com relação a isso?

R – Nossa maior proposta é fazer com que as pessoas entendam os assuntos. É facilitar mesmo um espaço para que as pessoas, independente da idade ou de qualquer outra coisa, consigam entender o quê que acontece com determinado tema. Então o tema água foi assunto de inúmeros programas nossos. Atualmente a gente também está com um outro projeto que é o Ambiente 21, que pretende trabalhar com essa vertente. Mas a idéia é principalmente fazer com que as pessoas se apropriem do tema, e aí cada região, cada pessoa, tem uma ação pontual ou um pouco maior que deseja e pretende fazer. Mas o nosso compromisso é com o entendimento das questões, é facilitar que as pessoas se apropriem do tema antes de propor. A gente sente muita falta do entendimento e da apropriação. 

P – E, isso você falou de vocês enquanto “Cala-boca”. Enquanto as outras ONGs que estão discutindo a questão ambiental, quais as propostas que você acha mais interessantes que têm aparecido?

R – Educação ambiental. Retomo de novo aquilo que eu falei, eu acho que a educação é ponto principal. E se a gente está falando de água ou qualquer outro tema, é fundamental que você haja de duas maneiras. E aí falando da SOS mesmo e parabenizando, porque é uma atividade muito legal, que é primeiro o lado político, estar lá em Brasília, estar nas assembleias, estar nas câmaras cobrando maior participação e exigindo mesmo compromisso com essa questão; e um segundo passo, que não é secundário, é paralelo, sem dúvida alguma, é com educação ambiental, não só para criança, mas para qualquer público. E a educação ambiental não como lição de moral, não como “faça isso e não faça aquilo”, mas entender mesmo e fazer com que as pessoas entendam, principalmente, a própria região. Então o lance do “Observando o Tietê” é bacana porque você vai ver o rio que está lá no teu espaço. Você vai ver aquilo que é o teu esgoto que está indo para lá. E aí você chega ao Oceano Índico até. Você vai caminhando e percebe a relação de todas as coisas. 

P – E, assim, desses ambientalistas, a questão, que aí você deve conhecer muitos, quais assim que te marcaram, que você lembra, você fala: “Nossa”?

R – Uma pessoa que eu não conheço, mas nem sei se está vivo, é uma vergonha não saber disso, mas tudo bem, é o Samuel Murgel Branco. Já li muita coisa dele e ele é uma pessoa que não conheço pessoalmente, eu sei que é um velhinho, agora, como é, não conheço. Mas é uma figura que, sem dúvida alguma, respeito bastante. O Mário também, sem palavras. Falei dele o tempo todo, mas é uma das pessoas que eu mais tenho respeito e que mais me incentivou e está comigo para qualquer coisa que eu faça por aí. Desde conselhos pessoais e etc até na área de trabalho mesmo, de perceber o quanto eu, Isis, não só o “Cala-boca”, mas quero estar dentro dessa área e conseguir fazer esse links assim. Eu acho que devo ser muito parecida com o Mário, é o que eu quero ser quando eu crescer. Capobianco também é uma figura que foi importante para mim, uma história que respeito para caramba e que hoje  está como Secretário de Biodiversidade, eu diria. Samuca, figuraço. São as pessoas de casa que a gente vê que são chaves importantíssimas no trabalho e na vida.

P – E, como que você vê a questão da biodiversidade?

R – Como assim, por exemplo?

P – Se você vai a fundo, se você tem estudado? 

R – Não. É um dos temas que eu pouco conheço, que, infelizmente... de novo, que vergonha falar isso. Mata Atlântica foi uma das coisas que eu estudei um pouco mais a fundo, mas não tenho propriedade para falar sobre isso, para falar da questão da biodiversidade em especial. É algo que eu tenho como plano aí, pros próximos anos, conseguir estudar e entender, sem dúvida alguma. Mas eu vejo que é fundamental de novo que, dentro da escola, quando a gente trabalha, entende do lobo-guará e outros, que consiga ter essa noção de biodiversidade. Caramba, a escola não sabe. Assim, não estou generalizando, claro, mas se soubesse, se a escola falasse sobre isso, as coisas seriam diferentes. O filho chega em casa, fala pro pai, o pai pode ter uma relação grande com isso etc. Então eu pouco entendo por parte pessoal mesmo, de não ter ido atrás, de não ter pesquisado, e de base também que chegou até mim. Infelizmente. 

P – E, me fala uma coisa, Isis. Quando você começou a ter contato com a SOS, quais as outras ONGs que você conheceu e que você sabe a respeito?

R – Na área ambiental, você fala? As grandes, né? “WWF”, “Greenpeace”. A “Conservation International” também um pouco. Tive mais contato com algumas organizações que trabalham a questão ambiental em níveis locais mesmo, e como proposta de educação ambiental. E com o “Projeto Saúde & Alegria”, em Santarém, no Pará, que é super bacana. Algumas organizações daqui de São Paulo, o Instituto Sincronicidade, que são pessoas que a gente se relaciona talvez até mais fácil por trabalhar mais na mesma linha e, enfim, outras identificações também. Então, conheço algumas nesse sentido. 

P – Pelo que eu vi, você é uma pessoa assim que não fica quieta, você está sempre em movimento. Você costuma trocar muita informação, por e-mail assim, com pessoas do Brasil todo?

R – Sim. 

P – Ou até fora. Como que é essa comunicação, já que você também está na área da comunicação?

R – Atualmente eu sou animadora de uma rede chamada Rejuma, Rede da Juventude pelo Meio Ambiente e Sustentabilidade, que foi criada nesse processo da Conferência Nacional de Meio Ambiente, que permanecem até hoje. A gente já está aí com um ano, quase um ano e meio de existência. Essa Rejuma tem representantes em todos os estados, sem exceção. Então, assim, por fazer animação de rede e por ser viciada em computador, é algo que eu faço o dia inteiro. Eu estou em casa, estou trabalhando com isso, seja conversando e trocando mesmo informação, seja trabalhando, escrevendo projetos. E conhecendo mesmo outras, não só organizações, mas como pessoas aí, não só no Brasil, mas como do mundo, que desenvolvem trabalhos importantes e que eu acho que a gente tem que estar juntos. Então, computador é meio vício assim. 

P – Essa troca de informações, às vezes elas acabam se tornando denúncias, uma troca de denúncias?

R – Também, mas talvez em menor escala. Denunciar eu acho que é algo meio delicado ainda de se falar, infelizmente. É mais de, talvez de entendimento dos assuntos. A gente troca muito texto, participa de muito fórum de discussão mesmo, que é discutindo e conversando, dialogando com outras pessoas sobre algum tema especial, não só de meio ambiente, mas de outras áreas. Eu esqueci a tua pergunta. 

P – Eu perguntei se nessa troca de informações acaba acontecendo uma troca de denúncias.

R – Então, é mais nessa linha. De denúncia acaba rolando uma coisa ou outra, mas a pessoa fica muito acuada com esse tipo de coisa. Não só na Rejuma,  mas na Rebea que é a Rede de Educação Ambiental, rola umas coisas meio... denúncias em níveis maiores talvez, governamental ou de organizações internacionais e tal. Mas não de pontos específicos em... sei lá, na Serra do Guaraú, por exemplo. Então esse tipo de coisas acaba não rolando mas, sabe, “O governo está desviando”, ou então “O governo diminuiu tanto de verba”. Daí a gente discute mesmo para entender o que está acontecendo, se é por aí mesmo. Então denúncia nesse sentido. 

P – Isis, eu queria assim, de todas essas suas viagens, qual foi a maior aventura que você teve?

R – Ir pro Acre, quarenta graus, com o pé quebrado, engessado até a perna, de muletas, sozinha. Foi uma aventura, sem dúvida. Participar do Fórum Estadual de Juventude do Acre foi fantástico, mas passei um dia lá também, com fuso horário, com sete horas de viagem, foi meio loucura, com o pé quebrado ainda. Acabei largando a muleta e andando de gesso. 

P – Tudo isso por um dia?

R – Um dia. Um dia, porque tinha um evento em Brasília. Isso assim, eu saí de São Paulo na quarta à noite. Ia passar a quinta feira lá e tinha que estar sexta ao meio dia em Brasília, num outro evento. Então acabou sendo nessa pauleira. Foi uma aventura interessante. É, mas eu só falo de coisa assim mesmo. Acho que, voltando, a conferência foi para mim uma experiência maravilhosa, o encerramento da conferência foi com as quatrocentas e poucas crianças, mais uma ministra, não sei quem mais. Adoro a Marina, mas foi uma zona, porque ela no meio da criançada, o pessoal querendo bater foto, querendo fazer de tudo, e a gente precisando encerrar o trabalho de uma maneira diferente. Queria primeiro sair do senso comum de finalização de evento, que era ler a carta final etc. Precisando apresentar os programas de rádio feitos pelas crianças na oficina, com a metodologia “Cala-boca já morreu”. As crianças querendo assistir o vídeo que elas fizeram. Então a gente acabou fazendo um programa de televisão, de auditório, com as crianças e a ministra, eu e mais três pessoas apresentando. Foi super interessante, foi uma das coisas que mais marcaram, assim, nos últimos anos, a gente conseguir dar conta desse público todo, e dar conta do conteúdo, de falar, de trazer as crianças para lerem a carta de propostas e ouvir os programas e saber da Marina, o quê que ela estava achando das coisas, e dar continuidade pro assunto, para discussão. Então foi um movimento marcante, sem dúvida alguma. E a minha aproximação com a Marina também, foi bom porque depois, enfim, nem ia falar disso. Aconteceu em setembro desse ano um evento chamado Fórum DNA Brasil, não sei se vocês ficaram sabendo. Aconteceu em Campos do Jordão e reuniu cinquenta pessoas de cinquenta áreas do conhecimento. Tinha Rubem Alves, tinha Marina Silva, tinha Carlos Vogt, tinha... o Mário Mantovani foi. Eram cinquenta pessoas que têm a ver com diversos temas. O Celso Lafer e tal. E eu estava como jovem entre esses cinquenta. E é aí que eu encontrei com a Marina e com algumas outras pessoas e foi o que me deu mais um chão assim, o fato de você estar no meio de tanta estrela daquele jeito, mas podendo se centrar em discussões e em fatos, e não em estrelas, que é outra história. Mas esse fica para uma próxima. Enfim, foi um evento punk. Está gravando, né? O DNA Brasil é uma proposta super interessante, mas muito ousada. 

P – Da para você contar como que é isso?

R – O DNA Brasil pretendia reunir essas cinquenta pessoas para chegar ao que eles chamam de mínimo denominador comum entre essas pessoas em relação ao Brasil dos próximos cinquenta anos. Ou melhor, qual que é a vocação do país. O DNA completou cinquenta anos agora, acho que no ano passado, a descoberta do DNA e tal. E aí, segundo eles, o Brasil ainda não tem o seu DNA descoberto. E o evento pretendia conseguir, pelo menos, chegar um pouco mais próximo a isso. Era um evento assim, que gastou mais de três milhões de reais numa coisa meio monstruosa assim, organizado pelo Caio Túlio Costa, Ricardo Semler e tal. Super bacana, eu fiquei super honrada em participar, em ser convidada, mas ao mesmo tempo me deparei lá com pessoas que, para mim, eram referências muito fortes. Tinha Paulo Markun, apresentador do Roda Viva, Paulo Henrique Amorim, o próprio Rubem Alves, que, para mim, é uma figura muito importante. E uma coisa é você ler o que as pessoas escrevem ou ouvir entrevistas, outra coisa é você conviver três dias com elas e tal, num evento muito grande e enfim, com todo tipo de registro possível. Então eu me senti muito perdida, muito “Espera aí, não é disso que eu estou falando”, assim. A dificuldade daquelas pessoas em discutir o tema juventude foi absolutamente grande, a ponto de falarem para mim: “Isis, você está mentindo, a juventude não se interessa por política. Que absurdo, a juventude, todas as palestras que a gente vai dar, a gente pergunta a faculdade, quem aqui vai se candidatar a um cargo político, ninguém levanta a mão. Como que você fala que a juventude está envolvida com política”? Eu falei: “Gente, pelo amor de Deus, a gente está falando de outra organização política, outra forma de organização da sociedade, outra relação de poder. Se ninguém quer se candidatar, se é alguma coisa, é que parece que esse tema está falindo. Uai, não é isso que a gente percebe? Então, se não quer ninguém se candidatar, a coisa tem que ser diferente”. Enfim, outro tipo de coisa começa a se estabelecer. E um evento muito tenso assim, o tempo todo, com todos os canais de televisão ao mesmo tempo, e aquela coisa. “Como você ser todo o tempo uma jovenzinha vindo participar com esse bando de gente importante”. Eu falei: “Gente, tudo bem, eu sou uma jovenzinha, mas também estou aqui por uma história que eu trago de dez anos e tal. Não estou aqui a passeio e tal também”. Então, uma cobrança muito forte que me deixou muito “Caraca, não era isso que eu queria para mim”. Mas enfim, hoje estou no Instituto DNA Brasil como presidente da unidade de reflexão sobre juventude, que é para a gente conseguir pautar esse sistema de outras maneiras lá dentro e conseguir dialogar com essas pessoas que são super importantes, que têm uma trajetória invejável, mas que eu queria muito ter conhecido mais elas enquanto pessoa, do que enquanto, sei lá, enquanto cinquenta brasileiros que melhor pensam no país, uma coisa assim. 

P – Quando você estava falando, que você citou algumas pessoas da área de comunicação, de todas as emissoras da TV aberta, qual é a que mais trata da questão ambiental ? É a Cultura, que tem alguns programas? 

R – Claro. 

P – Como que você vê esses programas, essa linguagem que é usada?

R – A Cultura, mil parabéns, sem dúvida alguma. O Repórter Eco trabalha e o jornal... A Lia de Souza conseguiu pautar dentro da emissora mesmo uma linha de meio ambiente super importante, mas que eu ainda acho que é muito pouco. A gente tem lá programas fantásticos, lindos, maravilhosos, Ilha Rá-Tim-Bum, Cocoricó, que também podiam estar com esses assuntos. Eu acho que, ao mesmo tempo que está super de parabéns  de tratar esses temas para um público adulto, e não só adulto, mas que tenha a paciência de ouvir por uma outra linguagem, eu acho que isso é muito bom, tem que se preocupar também um pouquinho com os menores que ainda não conseguem, não têm paciência, não têm, enfim, não têm ouvido para conseguir ouvir essas coisas, e conseguir pautar isso em outros programas, em outras atividades. Afinal, criança, o “Cala-boca” é “Projeto Cala-boca já morreu” porque nós também temos o que dizer. Mas aí nem quero focar tanto na Cultura, acho que as grandes emissoras mesmo, zero em relação a isso. Não tem quase nada, e quando tem é de uma forma moralista e um senso comum absurdo assim. Tudo bem, existe o Globo Rural, existem vários outros, mas são muito para um público restrito, seja TV a cabo, seja seis horas da manhã a participação do programa do Serginho Groisman, mas falta ainda perceberem o quanto, não perceber, seria inocência minha fala em “perceber”, mas colocar isso como prioridade, e se perceber enquanto formadores de pessoas e perceber o comprometimento que eles têm e que eles têm que ter. Talvez falte mais cobrança da sociedade civil, eu não sei também. Mas falta ainda uma cobrança do Governo Federal para que essas emissoras façam o papel deles mesmo, que é de formadores de opinião. Tem que ter esses assuntos, inevitavelmente. Acho que falta muito isso.
(Pausa)

R – O Rodrigo vai gravar o depoimento também, sabe? Você que contatou tudo?

P – Ele estava falando, o Fernando também estava falando com algumas pessoas.

R – É, mas você sabe quem que é o Rodrigo?

P – Eu já, eu ouvi. O nome é um nome conhecido. 

R – É comum. 

P – É, tanto que quando você estava falando eu fiz "hummm", já sei quem é. 

R – Ele é outro que cresceu por lá.

P – Eu quero que você me conte também desse projeto que você foi. 

R – Tá. 

P – Então manda. 

R – Começa disso? É uma coisa que nem é o “Cala-boca”, mais que está focado diretamente. É o GENS, e o Donizete, meu pai, que está diretamente... É um instituto chamado Instituto Saber Aprender, que pretende fazer com que uma região do interior do estado, seja um ponto... Enfim, Santa Rita do Passa Quatro está entre Campinas, está entre São Carlos, entre vários municípios aí, grandes para caramba, pólos turísticos, estudantis e comerciais, e Santa Rita é um buraco negro ali no meio do estado. Então a ideia é conseguir fortalecer tanto o comércio local quanto as escolas, é fortalecer nos cursos de pós-graduação e graduação daquela região e tal. E aí foi a abertura desse seminário, desse programa que eu esqueci o nome, que é muito nessa linha. Conseguiu reunir todos os comerciantes da região e fazer um bate papo sobre a necessidade de eles começarem a se relacionar, enquanto barateia custo, comprarem juntos algumas coisas. É uma coisa nesse sentido assim. E aí talvez, eu estava lá porque provavelmente, como Santa Rita tem escola que fez conferência na época da Conferência de Meio Ambiente, e o trabalho de continuidade do Ministério pretende trabalhar com as dezesseis mil escolas do país inteiro que fizeram conferência, a ideia é a gente conseguir trabalhar com todas as escolas de Santa Rita de uma vez. Então fui para lá para conhecer mais isso, assim, não o programa em especial. Mas já aproveitar esse movimento e pegar carona e fortalecer um ponto também que é importante. 

P – Isis, eu queria que você falasse, que nós tínhamos conversado, sobre os programas da SOS, no que a SOS está focando. Como é que você vê isso, essa importância?

R – Eu vou falar especificamente do Mãos à Obra pelo Tietê, que tem o Observando o Tietê, que é o que a gente está acompanhando mais de perto. Foi um passo muito grande, sem dúvida alguma, para a sociedade civil, o fato de a SOS ter assumido o recurso do Banco Mundial para despoluição do rio, mas um recurso destinado à educação ambiental. Investir isso na questão do acompanhamento de grupos monitorando o próprio rio. Eu acho que essa, como eu falei, é uma experiência fantástica e que, se feita de uma maneira super focada mesmo, promove modificações assim muito importantes. O “Cala-boca” está entrando. Além da SOS estar com esses grupos, eles têm uma verba por solicitarem e conseguirem desenvolver o seu projeto, ou seja, comprar um computador, ou seja, para fortalecer o próprio grupo. O “Cala-boca” apresentou um projeto para a SOS e que acho que vem a calhar justamente com isso, é fazer com que os grupos não só realizem o monitoramento, mas também que comecem a dialogar. Então a ideia é que a gente faça um programa de rádio entre esses grupos, que rode entre os grupos, e que eles falem deles mesmos. Que a gente comece a se conhecer e não só a trabalhar pela mesma coisa sem saber quem que é o vizinho. Então é uma das coisas que a gente está caminhando e que eu considero fundamental e de grande importância a SOS estar encabeçando e tocando isso em frente. Já que é um projeto antigo, estar retomando. E agora com grana, que é o que falta para caramba para muita gente. 

P – Do que você gostaria de falar, que nós não falamos?

R – Assim, de expectativa em relação à SOS pros próximos anos, pode ser?

P – Pode sim.

R – Eu acredito que seria importante, como eu falei... O nosso vínculo com a fundação começou por conta de uma pessoa e numa rádio comunitária, numa emissora comunitária que é um dos nossos comprometimentos e que a gente acredita ser um ponto do-in, como o Gilberto Gil fala. Você foca ali que com certeza a região vai ganhar muito com isso e vai se conhecer e vai fazer outras coisas junto. Acredito que é fundamental para a SOS, já que está trabalhando especificamente com a questão de educação ambiental nos últimos anos, conseguir perceber que os meios de comunicação comunitários são, principalmente, são pontos principais para trabalho. Porque você não pode trabalhar, não só com criança, não só com adolescente, não só com velho ou não só com um público. E quando você trabalha com comunicação, você pega uma região inteira. E os meios de comunicação comunitários estão ali do lado do rio, estão ali do lado da mata, estão recebendo denúncia... São um dos principais recebedores, sei lá como é que fala isso, de denúncias, seja ambiental, seja de qualquer área. Então eu acredito que a fundação teria muito que, e tem muito a ganhar inclusive, se focar o trabalho nas emissoras comunitárias. Não só eles indo pras emissoras, mas as emissoras tendo o contato direto e ter a SOS como fonte contínua de trabalho. Acho que contínuo, acho que é isso. Que tinha lembrado, do que era importante falar hoje era... Parabéns, né? Dezoito anos, sou do mesmo ano que a SOS, acho que isso é importante. Parabéns para nós duas.

P – Vocês têm a mesma idade. 

R – É verdade. A SOS é de setembro, eu sou de novembro. 

P – E, Isis, me fala uma coisa assim. Hoje, dez anos que você está trabalhando com essas coisas, comunicação, monta uma ONG, tão ligadas ao meio ambiente, viajando, conhecendo outras pessoas. Que importância que tem a questão ambiental na sua vida hoje?

R – Muita. Como eu falei, eu quero fazer Geografia. Não quero ser professora, também não sei se eu quero atuar na área de Geografia. A gente costuma falar que o “Cala-boca” é um corredor com várias portinhas. Você abre a portinha, vê o quê que tem e se quiser entra, ou não. Eu acredito que Geografia é muito por aí também, é um curso bastante amplo. Conversando com o Mário, inclusive, sobre esse curso, uma das áreas que eu posso atuar e que eu me interesso, é com certeza conhecer mais a fundo, não mais como curiosa, mas talvez como profissional, é na questão ambiental. Então eu ainda estou no meio termo. Não sei ainda se eu vou muito por aí na área profissional pós faculdade ou durante a faculdade, mas sem dúvida alguma é algo que está  na minha vida experimental hoje. Cresci trabalhando com ela, é impossível desvincular de qualquer outra coisa que eu trabalhe, seja conversando com a minha sobrinha de três anos que veio me perguntar hoje porque que tinha uma favela ali do lado ou por, enfim, qualquer outro motivo. Acho que é, está no sangue já, não tem jeito. 

P – E, Isis, assim, me ocorreu agora enquanto você estava falando, nesses encontros que você foi, tanto no Brasil quanto fora, a cultura indígena aparece ou eles estão muito distantes disso? Não são chamados, não...

R – A gente sabe da existência de algumas rádios comunitárias indígenas, mas que a gente não, eu pelo menos não tenho tanto contato direto. Um movimento interessantíssimo que aconteceu agora, que de 2002 para cá, 2003 para cá, entrou uma menina no projeto que é indígena, que é a Silvia. Ela é de uma tribo do Paraguai, veio morar no Brasil com o tio, o pai, é uma história meio confusa, e que está trazendo não só, não é preocupação, ela está resgatando a própria história. Ela tem oito anos, está no projeto há dois. Então, ela está resgatando a própria história dela. E por ter no “Cala-boca”, inclusive, um grupo de amigos, ela trás esses temas e que para gente está aflorando um pouco mais. Além disso, a gente já deu oficina em Goiás, acho que foi uma vez, é, exatamente, Conferência Criança Brasil no Milênio. A gente deu uma oficina para dez crianças indígenas, entrevistando e elas contando um pouco da vida delas mesmo. Foi interessante, mas são realidades diferentes. E tanto para eles quanto para a gente, esse não saber lidar, e alguns cuidados, eu acho que é uma barreira ainda para a gente conseguir trabalhar junto. Mas é interesse nosso, inclusive, através da Silvia, começar a conhecer mais de perto e tal. Eu falei no começo de um projeto chamado “Educom.rádio”, da prefeitura de São Paulo, que utiliza a metodologia “Cala-boca já morreu”, um projeto da USP com a prefeitura, e por conta da Silvia e do pai da Silvia, que é formador nesse “Educom.rádio”. Eu sei que lá em Parelheiros, aqui no sul de São Paulo, tem uma tribo que está fazendo um programa de rádio, uma escola indígena que já está fazendo rádio também, que é muito legal. Porque a gente percebe que a comunicação é só ter na mão que o pessoal adora fazer. Imagina, você se ver na tela, você ouvir a sua voz, para você mostrar para sua mãe que é você, gera uma auto-estima. Várias outras coisas que surgem que são fantásticas. Uma vontade de entender sobre assunto, que você está falando pros outros, você não está falando só para tua mãe ou pro teu vizinho ou pro teu amigo. Então, a gente está se aproximando aos poucos. Mas sinto que há interesse de ambos os lados, seja dos homens brancos, seja dos indígenas, em conseguir entender e trabalhar junto com o tema comunicação. 

P – E, Isis, você que é tão ligada à comunicação, tem alguma campanha que você viu, televisiva, que tenha te marcado, com relação ambiental?

R – Duas, recentes por sinal. Uma que é do Greenpeace, que está muito legal, que é uma folhinha, umas folhinhas assim, eles pegam aquele matinho que nasce em calçada, em parede etc, e aí vai mostrando e aparece atrás “Nós não vamos desistir nunca”. A música, enfim, a composição sonora está muito legal, marcou bastante. E outra que é da SOS, que eu não tinha visto, que fiquei profundamente assustada, que é um olho que vão tirando os cílios, e está falando de desmatamento, mata ciliar etc. E aí vai tirando e aí desce uma lágrima assim. É algo marcante, eu quero saber como é que foi feito aquilo, que cílios não nasce de novo. Que medo daquela propaganda, mas muito bem feita, pena que só passa à noite. Eu vi no canal 21, acho que duas da manhã. Duas propagandas bem fortes. 

P – Você acha que funciona essa propaganda mais forte, mais pesada, assim, que choca as pessoas e isso grava mais, ou é uma coisa momentânea?

R – Eu acho que é importante, mas eu não diria que é determinante para que as pessoas se interessem e queiram saber mais sobre isso. É importante porque fala uma coisa que nunca foi falada, e a forma com que fala, marcante sem ser agressiva, agressiva no sentido que a gente está acostumado a ver de facas, sangue etc. Marca muito e fala: “Puxa, que legal isso aí”. Mesmo que não entenda, “Puxa, que legal essa SOS”, ou esse SOS, como todo mundo chama. Acho que é um primeiro passo. As pessoas vêem, acham legal, acham bonito, daí vão, pega adesivo e talvez entra no site. Enfim, é um primeiro passo fundamental e que, infelizmente, ainda é pouco. Mas alguns que tem, são muito bem feitos, sem dúvida.

P – E, Isis, você que anda no meio de tantos jovens, você acha que o jovem hoje, assim da sua idade, um pouquinho menos, ou até um pouco mais, ele está mais antenado com essa questão do planeta, efeito estufa?

R – Sem dúvida. A preocupação nos movimentos e organizações de juventude, que estão articulados hoje em rede, como a gente chama, é um ponto fatal entrar a questão ambiental, seja sob diversos âmbitos, local ou mesmo internacional ou extra global. Eu percebo que, ao mesmo tempo que esse movimento é muito forte... Por exemplo, efeito estufa, a preocupação às vezes com o rio ou com a serra do lado ou o parque do lado, às vezes acaba se tornando muito maior do que essas geralzonas, que são super importantes e que eu ainda sinto que falta mesmo. Isso falando de Brasil, não estou falando de fora. A preocupação é muito mais com o local do que com as outras coisas que não são tão bem mensuráveis, não sei se essa é a expressão mais correta para ser utilizada. Mas estão pautadas sim, estão cada vez mais. É inevitável, como eu falei. 

P – E, Isis, você queria falar alguma coisa que nós não conversamos, que eu não te perguntei?

R – Além do parabéns para a SOS? Não estou...

P – E, assim, além do parabéns para a SOS, você quer mandar um recado para ela?

R – Sem dúvida. Primeiro, que bom que estamos juntos ainda aí. São dezoito anos de vocês e da gente. A gente vai caminhando, sem dúvida, de forma combinada. Caminhando de forma combinada é legal. Mas eu vejo que é importante cada vez mais a gente ir afinando o laço, não só por ser a organização da qual eu faço parte, que eu gosto bastante e gostaria muito que tivesse mais junto, mas por trabalhar com comunicação, que eu sinto que falta muito não só na SOS, comunicação e educação que eu falo, não só na SOS, mas como em muitas outras organizações. Eu acho que um recado importante é: continuamos a trabalhar com a educação ambiental, mas tendo essa outra perspectiva talvez. Não é importante só a gente fazer no local, se a gente não conseguir falar pros outros o que a gente faz, dificulta muito. A gente está acostumado a ver na escola, falar de professores por exemplo, ninguém partilha coisa boa. Só o aluno que fala: “Ah, imagina, um projeto legal dificilmente é partilhado”, ou quando é partilhado é em grandes dimensões e não de quem faz para quem faz também. Um cara muito importante para mim, Sérgio Gomes, fala que a gente tem que ser ao mesmo tempo que lago, tem que ser fonte. A gente tem que conseguir reunir as coisas e tem que conseguir passar para frente. Um recado para a SOS sem dúvida é: vamos começar a focar mais na área de comunicação. Comunicação nossa com nós mesmos, nossa com os nossos grupos, nossa com as nossas organizações pequenas. E sem dúvida, nossa com a massa, que é com o meio de comunicação de massa e grandes outros veículos. Mas é importante a gente começar a fazer as pessoas se verem e se ouvirem. É muito importante que elas se reconheçam no trabalho e não só o resultado final. Acho que esse é um recado importante.

P – Obrigada, Isis, de você ter vindo aqui. 

R – Obrigada para vocês. Foi legal.

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