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"Cair a gente cai, pega, levanta, acolhe"

História de: Francislane Araújo dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/01/2015

Sinopse

A educadora infantil Francislane contou sua história a Museu da Pessoa em dezembro de 2014. Ela falou sobre a origem da família, da cidade de Visconde do Rio Branco, em Minas Gerais, dos irmãos e da mudança da família para Osasco. Relata a primeira experiência profissional, no McDonald´s e como começou a namorar um colega de trabalho e engravidou aos 17 anos. Casou-se e foi morar com a sogra. Por causa de um incidente com a sogra, perdeu o bebê e acabou por se separar do marido. Ela recorda a dor da perda da filha e como conseguiu se recuperar através de terapia. Relata os trabalhos desenvolvidos com orientadora social na Associação Camila e como ingressou na ONG Quintal Mágico, em Osasco. Finalizando o depoimento falando sobre os passeios que a sua turma no Quintal Mágico fez ao programa da Xuxa. 

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História completa

Meu nome é Francislaine Araújo dos Santos, eu tenho 21 anos. Eu nasci em Minas Gerais, em Visconde do Rio Branco, em 3 de dezembro de 1991. Meus pais são Rute Araújo dos Santos, nasceu também em Visconde do Rio Branco. E José Francisco Teixeira dos Santos, também nasceu em Visconde do Rio Branco. Tenho três irmãos, dois de sangue e a minha irmã mais nova tem 15 anos, ela é adotada. Meu pai trabalhava nas usinas e às vezes ele precisava vir pra São Paulo. Tinha o meu tio que trabalhava aqui com ele, falou: “Tem casa, se você quiser casa, essas coisas pra morar eu arrumo pra você”. Eles vieram.

Eu entrei no McDonald´s, nossa, foi tudo novo, muito diferente! Eu fui criando responsabilidade de comprar o que eu tinha que comprar, estudar e além de eu fazer isso eu tinha os cursos que a professora Lígia me passava. Eu queria ter Instituto Unibanco que tinha uma parceria com a escola de trabalhar, tudo, mas eu falava: “Professora Lígia, mas eu não tenho cara de ficar sentada no computador. Não é minha cara.” “Ai, Fran, eu sei, mas vai ser bom, você vai ganhar muito dinheiro.” “Olha, não quero”. Foi que eu fui me interessando e eu fui. Trabalhei no Mc, fiquei lá um ano e oito meses, depois eu saí de lá. Eu fiquei grávida. Quando eu fiz 17 anos, eu estava terminando o terceiro ano do colegial e eu namorava um rapaz que eu conheci no McDonald’s. A gente namorou bastante tempo, eu entrei lá, aí a gente ficou namorando um ano e seis meses e eu fiquei grávida. Eu fui pra contar pra minha mãe. Só que eu tinha contado pra ela que eu já tinha tido relação com ele, ela falou: “Você teve coragem de me contar. Então agora você vai ter coragem de arcar com as suas consequências”. Eu falei pra ela: “Agora eu não sei o que eu faço, não sei se eu tomo remédio, o que eu faço, mãe?” “Você vai bem tomar remédio, você vai se cuidar e ele também vai cuidar de você, entendeu? Só que agora tem regras. Você entra tal hora, sai tal hora”. Tudo bem que eu já tinha, eu sempre obedecia bastante. E passou um tempo, quando eu fiquei grávida a gente conversou, tudo, ele foi na minha casa, foi falar com a minha mãe e com o meu pai. A minha mãe: “Não, tudo bem. O que vocês decidirem”. Eu falei: “Mãe, eu vou morar com ele. Eu não vou ficar na casa da senhora.” “Não, vocês vão ficar aqui.” “Não, mãe, vou pra casa dele”. E a minha sogra não gostava muito de mim. Então quando eu ia fazer 18 já, faltavam três meses pra eu fazer 18 quando eu descobri que eu estava grávida. Eu fui e pedi as contas do Mc. Falei pra ele: “Eu vou pedir as contas do Mc mesmo eu grávida, porque não vai dar pra eu vir trabalhar pra cá”. E fui e casei. E eu já tinha feito minha casa, tudo, construindo na casa dela. Nos fundos da casa dela, que ela não tinha nada, tinha a casa dela feita e ela tinha um quintalzão. Eu construí dois cômodos lá no fundo da casa dela. E estava terminando de fazer, continuei morando na casa dela.

Eu casei no sábado, quando foi na terça-feira eu tinha ultrassom pra fazer. Eu fui lá, descobri que era uma menina. Eu tinha uns exames pra fazer e mais um ultrassom uma semana depois. Nessa semana o Felipe estava ainda trabalhando no Mc e ele saiu cedo nesse dia e eu fui lavar roupa, eu que lavava as roupas dele, fazia tudo dele, que também minha sogra largou ele de mão. Quando minha sogra fez isso eu fui lavar essas roupas e subi pra pendurar essas roupas, e eu tinha que passar pelos fundos da casa dela. Aconteceu uma bela de uma tragédia. Eu estava subindo com o balde daqueles cestos grandes cheio de roupa preta, quando eu estou subindo ela dá um berro gritando lá, falando: “Não, você não vai colocar essas roupas aqui, entendeu? Não vai colocar, se você quiser você que faça o varal na sua casa”. Quando ela empurrou com a mão e com o pé eu caí com a minha barriga e tudo da escada. Cheguei o médico passou um objeto na minha barriga e eu fiquei doida lá: “Ai, doutor, eu não estou ouvindo nada. Antes eu escutava o coração do neném. Não estou ouvindo nada”. Ele falou: “Você sabe o que é?” “Sei.” “É uma menina?” “É.” Ele foi lá fora avisar que a neném tinha entrado em óbito, não dava pra salvar mais. Eu sangrei muito, eu vim de Carapicuíba até Osasco correndo, mas também ele falou: “Só tem um problema, tem que levar ela urgente”. Porque ainda lá em cima eu apertei um negócio que eu falei: “Está sangrando demais”. E eu estava ficando roxa. Ele falou: “Ela pode morrer a qualquer momento. Só tem um problema, o hospital não está fazendo curetagem. Vai ter que sair com ela daqui”. Eu fui pra Vila Mariana ainda. Eu cheguei lá desacordada, não estava vendo mais nada, a hora que eu vi o bebê estava dentro de uma garrafa. Eu falei: “Nossa, que horror”.  Daí eu fui, fiquei casada depois desse tempo dez meses. Então eu ia fazer um ano de casada eu falei pra ele, já estávamos indo comprar as coisas, eu já tinha ganhado muito presente e eu falei: “Não. Não quero mais saber. Felipe, segue a sua vida e eu não quero mais”. Eu dormia querendo matar a minha sogra. Fiquei transtornada, não podia ver uma criança, um neném na rua, um chorinho. Eu escutava choro de criança. Fiquei muito transtornada. Eu estava grávida de quatro meses e 15 dias. Eu estava com um barrigão enorme. Seis anos vai fazer agora. Minha mãe arrumou um psicólogo, terapeuta, tudo que ela pode fazer ela fez. E depois disso eu falei: “Não. Não quero mais, mãe, não vou mais ficar com o Felipe”. Se eu ia pra casa da minha mãe era motivo dela falar alguma coisa, então eu falei: “Mãe, estou saindo dessa vida. Eu não quero mais isso pra mim”. Saí, demorou pra sair meu divórcio, depois disso eu fiquei três anos sozinha mesmo sem arrumar ninguém, só trabalhando, fazendo os meus cursos. Eu voltei pra minha mãe, fui lá, perguntei se ela me aceitava de novo, ela falou: “Lógico, você nunca saiu daqui, pelo amor de Deus, essa casa é sua”.

Lá era a Associação Camila, fica aqui no Jardim Conceição, também era pertinho da minha casa, era só descer a rua estava lá. Lá eu trabalhava como orientadora social. Entrei como orientadora social de crianças de três a sete anos e todas essas crianças tinham que participar desse projeto. Depois eu fui pro Computer Clubhouse que era de dez anos a 18. Dos 18, depois como eu trabalhei bastante lá foi sempre seguindo, mas eu trabalhava com essas crianças durante o dia inteiro, eram três períodos. À tarde de novo trabalhava com o Projovem, os jovens tinham que ter 15 até 18 anos. Fiquei lá três anos. Depois que eu saí de lá fui trabalhar um ano e pouco numa loja de material educativo.

Pra eu voltar a trabalhar na loja de brinquedo educativo foi porque estava feio em casa. Estava só o salário do meu pai, meu irmão estava desempregado eu falei: “Vou trabalhar”. E ele falou: “Vou trabalhar, não.” “Então o problema é seu. Você não vai comer uma bala do meu dinheiro”. Minha mãe falou: “Não, Fran, não pode ser assim.” “Mãe, ele é folgado”. Eu conheci o meu esposo.  Eu trabalhava na loja e eu saí da loja, fui numa pizzaria e o namorado da minha amiga o conhecia. O Jerônimo já tinha me visto várias vezes, me apresentou pro meu esposo, que é o rapaz que eu vivo hoje. É Amarílio. Eu fiquei com ele um ano, eu engravidei da minha filha hoje. A Alicia hoje vai fazer dois anos já.

Eu conheci o Quintal pelo meu esposo, ele é amigo do Erick, que é o esposo da Jú. Ele falou que estava precisando de professores pra trabalhar aqui, eu liguei aqui pra conversar e me contrataram, a Ju me atendeu super bem, tudo. Eu vim pra trabalhar, eu vim, fiz a entrevista, eu estava levando a minha filha no médico e meu marido falou: “O Erick pediu pra você ir lá rapidinho, não vai demorar, a Ju vai te atender”. Eu vim, conversei com a Sheila que é a coordenadora também e ela me chamou e falou: “Amanhã você começa, sete horas da manhã você está aqui”. Gostou bem do meu perfil. Eu achei até que aqui só aceitava quem tinha registro em carteira, tudo isso, tanto que no dia que eu liguei, que ele pediu pra eu ligar, a Sheila falou: “Então, você tem experiência na carteira?” “Não, mas eu tenho um contrato da onde eu trabalhei, que eu fui orientadora social, trabalhava com criança de tal idade a tal idade, tudo, tal.” “Não, tudo bem”. Falou que depois ligava, esse dia morreu e ela não me ligou. Eu estava indo pro médico foi que o meu marido ligou e pediu pra eu vir. Iniciei no Quintal, iniciei no berçário com os bebezinhos que eu já nem gostava tanto. E quando eu entrei eu falei pra minha mãe: “Mãe, eu vou trabalhar já amanhã e eu vou ficar com as crianças...” a Sheila já tinha falado qual sala que eu ia ficar “Eu vou ficar com as crianças da idade da Alicia, mãe.” “Mentira.” “Verdade”. Eu já tinha parado pra fazer faculdade, mas eu namorava o Boy, o Boy estava fazendo a faculdade, que Boy é o meu esposo, e eu ia fazer a faculdade também. Foi que eu descobri que eu estava grávida, falei: “Agora não vou fazer faculdade, não, porque é eu entrar e vou sair”. A Alicia nasceu, quando foi esse ano também eu ia fazer faculdade, não deu porque minha mãe queria voltar pra Minas. Deu um surto nela que ela queria voltar e tudo. Quando eu entrei aqui eu falei: “Ju, eu vou ficar, mas eu vou fazer faculdade, tudo, pode ficar tranquila”. As meninas, algumas meninas já estavam fazendo faculdade, então eu ficava: “Elas têm faculdade. Ai que legal”. Eu queria aquilo pra mim também. Com o Quintal, trabalhando aqui, eu conheci mais pessoas, experiências diferentes, sempre conversei com as meninas, até com as que ficavam mais quietas eu ia lá pra conversar. Tem 11 meses que eu trabalho aqui. Eu fico no berçário com as crianças, a gente faz bastante atividade. Eu sou uma pessoa que eu tenho um perfil muito livre. Eu não sou daquela que fica: “Ah, não, não faz isso. Não, não vá lá que você vai cair”. Eu não sou muito protetora, eu sou mais livre, deixo a criança descobrir. Até as meninas têm meio receio comigo porque elas falam: “Duvido que você faz isso com a Alicia.” “Não, eu deixo”. Cair a gente vai lá, pega, levanta, acolhe. Está chorando a gente acolhe. Agora eles já estão com dois anos, mas quando eu entrei aqui eles tinham 11 meses. Quando eu entrei aqui foi incrível porque eles não andavam, eles tinham a carinha de bebezinho e acompanhar esse crescimento dessas crianças foi incrível.  Quando iniciou o projeto do Floresta, antes a gente tinha muito receio de levar as crianças lá pra baixo por causa das pedras que tinham no chão, as plantas a gente tinha medo deles arrancarem as plantas que eram plantadas. E como tinha aqueles pneus, no começo, antes de plantarem a gente falava: “Eles vão destruir isso, mas a gente tem que ensinar que eles não vão destruir”. A gente foi fazendo com que essas crianças, tanto a gente quebrando essa barreira, descemos, pegamos algumas plantas, sentamos com eles e mostramos as plantinhas, como eles poderiam cuidar, a forma como eles poderiam jogar a água, não tirar terra dali, porque a gente os deixa brincar com muita terra lá embaixo. Com o projeto eles gostam bastante, o berçário que é a sala que eu trabalho não acompanhou muito, mas as outras salas, nossa, como eles gostam. Eles gostam de ver plantar, eles querem plantar, eles querem cuidar daquela planta. Se eles veem subindo eles dão um alerta pra criança: “Não, não, não.” “Tia, olha, vem ver isso”. Então eles começam a entender a importância de tudo aquilo. Então eu acho que o projeto é bem bacana, eles gostam bastante, é grande, mas eu acho que podia ocupar mais, encher aqui de bastante coisa pra eles, eu acho que seria bem interessante. O berçário fica mais assim porque eles são bem bebês, eles levam muita coisa na boca. A Amanda que está à frente do projeto, o Pedro, eu tenho pouco contato com eles. Eu sou muito curiosa, então às vezes se eu vejo criança reunida eu quero saber o que está acontecendo. E o Criança Esperança eu penso que essa parceria vem beneficiar essas crianças pra que eles tenham uma visão melhor da vida, das coisas que acontecem, tanto esse projeto que está acontecendo do Floresta no Quintal, pra um incentivo de trazer a comunidade, de fazer esse vínculo, sabe? Da escola. Deixa-me ver mais assim... É bem pouco o que eu sei. Criança Esperança só os projetos que eu vejo quando passa na TV. Tem música, essas coisas pra incentivo. Não só pra tirar a criança da rua, essas coisas, mas pra que eles entendam qual a importância disso, o quanto é bom pra eles, o quanto eles podem levar isso pra frente. Ajudou. Ajudou. Olha, não só nesse projeto, eles fazem passeios, tanto que eu fui num ontem. Eles mandam pra cá, a gente vai acompanhando, vai fazendo esses passeios que eles trazem esses recursos. Teve o passeio agora pro museu do Catavento, pras crianças também de ciências, essas coisas, pra eles saberem bastantes coisas sobre os animais. E teve outro passeio também esses dias da Xuxa, que eu lembre também. Era uma gravação de Natal, as crianças iriam cantar e eles também participaram desse projeto com as crianças.

 

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