Busca avançada



Criar

História

Café sempre

História de: Silvano Bonjiovanni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/11/2014

Sinopse

Silvano Bonjiovanni tem toda a sua trajetória marcada pela relação com o café: desde o cultivo na pequena propriedade que os pais tem desde a sua infância, no município de Marilândia, passando pelo café torrado pela mãe, feito no coador de pano e servido para a família em todas as refeições, bem como para as visitas no fim do dia. Hoje, trabalha gerente geral de uma das maiores comercializadoras de café do Espírito Santo, a Custódio Forzza.

Tags

História completa

Silvano Bonjiovanni, nasci em Colatina, 20 de maio de 1971. Meu pai, Jacir Bonjiovanni, nasceu em Marilândia, Espírito Santo; e minha mãe, Dorelina Camargo Bonjiovanni, nasceu em Mimoso do Sul, Espírito Santo. Meus pais eram agricultores. A minha mãe, a descendência dela... O meu bisavô... A minha bisavô é descendente de escravo. E do meu avô, eu acho que é austríaco. Mas o meu pai é descendente de italiano. Então o pessoal fala: “Poxa, mas Silvano, você é italiano? Meio moreno?”. Mas é porque a minha mãe é mais morena e meu pai é bem branco. Mas tem ascendência de italiano. A minha mãe, além de doméstica, era também costureira. Na juventude dela, ela foi enfermeira. Não era nem um hospital, era uma clínica, mas isso há muitos anos, ela era solteira. Depois de casada ainda continuou como parteira, fez diversos partos. Então, lá em casa eu tenho uma assessoria boa, que ela era enfermeira e também parteira. Hoje não, com 77 anos, ainda é costureira. E meu pai na agricultura, trabalha até hoje. Com a idade, já está com 77, não é mais igual antes. Mas mora no mesmo lugar onde nasceu, o meu pai.

É uma propriedade pequena. É um sítio. Um sítio de 15 hectares, uma propriedade rural, nós somos de família humilde, fica a sete quilômetros da cidade de Marilândia. Na realidade, eu nasci em Colatina, mas a nossa cidade mesmo é Marilândia, norte do estado. Eles cultivam café. A região é bem montanhosa, mas sempre foi café. Café conilon. Muitos anos atrás, eu diria uns 30 anos atrás, ainda nos altos, que é morro, tinha ainda café arábica, mas depois foi instalado o conilon, todo mundo na região nossa parou de mexer com café arábica. E o conilon porque ele era mais produtivo. E, de fato, até hoje ele ficou instalado em toda região norte nossa, porque o café arábica se desenvolve mais nas regiões altas, por causa de sabor, não sei. Mas a minha família é todo mundo pequeno produtor e mexe com café até hoje.

A região nossa, pra você ter ideia, ela fica sete quilômetros de Marilândia. Marilândia é um município que hoje tem 12 mil habitantes. Doze mil habitantes hoje. Então, a localidade nossa lá fica a sete quilômetros da sede, então é bem na roça mesmo. Eu falo que eu nasci em Colatina porque eu fui para o hospital, mas na realidade, a minha família mora no mesmo lugar até hoje, a sete quilômetros, 100% agrícola, montanhas, muita montanha.

A nossa casa é uma casa boa, porque sempre foi casa de alvenaria. Eu era bem criança, mas eu lembro que energia, se eu não me engano, eu nasci em 71, mas acho que chegou em 74, 75. A Copa de 74, eu não lembro, mas a Copa de 78, eu sei que lá em casa já tinha televisão, já tinha energia, os vizinhos iam lá a casa assistir, porque em volta tem as propriedades pequenas e o pessoal ia bastante lá em casa. Nós fomos uma das primeiras famílias que tinha televisão, então o pessoal ia lá em casa. Mas novela mesmo, novela quando davam seis horas... Porque lá na roça geralmente você almoça... Hoje um pouco mais tarde, mas época que eu era criança, oito e meia, nove horas, você almoçava, depois ao meio-dia merendava, às três horas, merenda de novo, às cinco horas, a janta. Depois, como era novidade de televisão, os vizinhos lá vinham assistir novela. Então, lá na minha casa vinham os meus amigos, mas vinham não só as crianças, mas vinham os pais lá em casa pra assistir, assistir novela. Ficavam até as sete, oito horas, por aí, que depois tinha o jornal, depois do jornal iam embora. Eu lembro que como lá em casa tinha, então tinha umas cinco, seis famílias que iam lá a casa, aí era uma festa pra gente, que enquanto os adultos ficavam assistindo televisão, a gente ficava brincando. Depois, com um ano, dois anos mais, aí começou todo mundo comprar a sua televisão. Na verdade, essa coisa de ir a casa foi acabando, porque cada um já tinha a sua televisão preta e branca. Depois passou a comprar colorida, então acabou.

Sempre tivemos o hábito de beber café em casa. O café, primeiro torrado num torrador, esses grandes, no fogo. Eu mesmo era bem criança, não vou dizer pra você que eu já torrei café, mas sempre via a minha mãe torrar, ou meu pai ajudar a torrar, a minha avó torrar. Mas basicamente na época era café arábica, que ainda tinha nos morros. Hoje a gente tem um cuidado especial no ponto de torra, mas então era sempre um café mais escuro, um café mais preto, mas era o café do coador de pano, de manhã cedinho, sete horas, seis horas da manhã, o café já estava pronto. Minha mãe sempre foi de acordar muito cedo, quatro e meia, cinco horas. Mantém esse hábito, mesmo com 77 anos, mas praticamente até hoje. E meu pai também. Meu pai nunca gostou de fazer café. E a minha mãe não, minha mãe sempre é a que fez. Nós sempre tivemos o hábito de tomar café. E aquela coisa: de manhã cedo, café; e depois do meio-dia, o café, o café da tarde, era um café novo, tinha que fazer café de novo. E se tivesse às três horas, café novo. E tinha um costume, hoje menos, mas à noitinha se tivesse visita, alguma coisa, fazia café.

Eu comecei a frequentar a escola com sete anos. Olha, eu lembro bem que saíamos de casa eu, uma prima que era vizinha, mais dois vizinhos, a gente em quatro, cinco, a gente ia a pé, três quilômetros de casa. E essa professora era de Marilândia e ela vinha de bicicleta, então a gente a esperava passar perto de casa, a gente ia com ela e depois voltava junto com ela. E nesse percurso que a gente ia pra estudar tinha estrada e às vezes não tinha cerca, então às vezes tinham animais no meio da estrada, tinha boi, tinha vaca, tinha bezerro, então a gente ia com ela porque ela sempre tocava. Então de certa forma ela protegia a gente. Desde dar aula, também ela protegia a gente na volta. Era uma escola rural pequenininha. A gente estudava assim, de manhã era primeiro e segundo ano, e à tarde, terceiro e o quarto. A sala era tão pequena, eu acho que ela tinha mais ou menos tamanho dessa sala aqui, quatro por dez, mais ou menos. Então estudava metade... Com dois quadros, aí ficava uma turma de costas pra outra. Então a professora vinha, passava os exercícios para o primeiro ano, depois passava para o segundo ano. Isso foi praticamente até o quarto ano. Só depois de alguns anos que a escola mudou, que veio pra Marilândia e tudo, mas esse período meu e de outros amigos meus foi nessa escolinha pequenininha, de 40 metros... Acho que não dava nem isso tudo, mas com as turmas assim, uma de costas pra outra. Mas era um ambiente muito bom.

Tem uma história da época bem de infância, tem algumas coisas interessantes, que aconteceu... Eu fui saber depois. O que aconteceu com o meu avô, acabou acontecendo comigo. Eu fazia a quinta série, quer dizer, eu saía de Marilândia, lá de casa, e eu ia de bicicleta até Marilândia pra estudar. E eu sempre gostei muito de chocolate. Lá em casa sempre teve, mas assim, a mamãe sempre: “Não pode comer doce demais. Não pode comer demais”. Um dia eu falei assim: “Quer saber uma coisa? Eu vou juntar e vou comprar uma barra de chocolate pra mim”. Um belo dia eu cheguei, acabou a aula, que eu estudava de manhã, acabou a aula, eu comprei uma barra de chocolate, peguei a bicicleta e fui pra casa, fui pedalando e fui comendo chocolate. Fui pedalando. Mas de lá da escola até em casa davam sete quilômetros. Quando deu três quilômetros, por aí, quatro quilômetros, no meio da estrada, eu já não podia nem olhar a barra de chocolate. E eu falei: “Nossa!”. Aquele nojo. E eu vou jogar fora? Não vou jogar fora. O que eu fiz? Cheguei a uma comunidade chamada Santo Hilário, que é antes da nossa comunidade, que é Santana, lá tinha uma escola e atrás da igreja tinha um tanque, e lá a gente lavava a mão, tomava água. O que eu fiz? Parei lá morrendo de sede, tomei água, água, tomei, tomei, tomei, peguei aquela barra de chocolate, fui a um pé de café, enrolei-a e coloquei lá. Peguei a bicicleta e fui pra casa. Mas não falei nada com ninguém lá em casa. No outro dia quando eu ia pra escola, eu passava ali em frente aquela igreja a mil por hora de bicicleta, porque eu tinha nojo do chocolate, mas eu não contei nada em casa. Um dia, dois dias, no terceiro, quarto dia me deu vontade comer chocolate de novo, falei: “Eu vou parar lá pra olhar”. Quando eu cheguei ao pé de café, cadê? As formigas já tinham comido tudo. Tinha mal o papel. Depois de um período eu contei isso pra minha mãe. Ela foi me falar que o meu avô, quando ele veio para o Brasil... Ele nasceu no Brasil, mas os pais moraram em Córdoba, na Argentina. E quando ele tinha 12, pra 13 anos, ele ia pra escola, fez a mesma coisa, comprou uma barra de chocolate, aí ele passava em cima de uma ponte, ele comeu muito e botou debaixo de uma ponte. E toda vez que ele passava em cima dessa ponte, ele passava correndo de nojo do chocolate. Eu falei é muita coincidência que acabei fazendo uma coisa parecida com o meu avô. Mesma família, o meu avô. Será que isso é de geração? Então eu repeti, a minha parte eu já fiz. Mas eu só fui saber disso depois que eu contei pra ela, porque eu não contei logo, eu demorei pra contar. Foi um fato que eu não esqueci nunca mais. Eu conto isso pra minha hoje pra minha filha.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+