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História

Café de família

História de: Álvaro Vieira da Cunha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/02/2005

Sinopse

Nascimento em São Paulo. Descrição do pai, que morava no Hotel Parque Balneário, quando solteiro. Descrição da casa de infância e dos vizinhos. Trabalho do pai como corretor de café desde 1902. Convivência com famílias de estrangeiros em Santos. Estudos em colégio inglês. Idas para São Paulo. Como conheceu a esposa no bonde. Ida para Santos para trabalhar com o irmão na empresa do pai. O comércio de café. papel do corretor de café em Santos. Crise do preço do café. Mercado atual e os tipos de café. A Bolsa de Café. Vida atual.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Álvaro Vieira da Cunha, nascido em São Paulo, capital, em 23 de dezembro de 1927.

FAMÍLIA
Nome dos pais Meu pai era Carlos Vieira da Cunha e minha mãe Zilda Vieira da Cunha. Avós Não conheci meus avós. Nenhum deles. Os meus avós portugueses ficaram em Portugal e meus avós maternos, que eram de Sorocaba, morreram antes de eu ter nascido. A minha mãe era a última filha entre 14 irmãos. Quando ela nasceu, minha avó morreu. Irmão Meu irmão era um lutador, era um idealista. Ele foi o primeiro a brigar com o Prefeito, o Bandeira Brasil, que estava tirando os trilhos de bondes. Ele foi o maior defensor dos bondes, tanto que na Praça Mauá tem uma plaquinha com o nome do José Carlos. José Carlos Vieira da Cunha, Buck Jones (o apelido dele era Buck Jones). Buck Jones era um artista de cinema que fazia filme de cowboy. Ele era um cowboy famoso. Usava chapeuzinho. E ele lutava, caia da montanha, caia do cavalo e o chapeuzinho sempre firme. Não caia nunca o chapeuzinho no chão. E meu irmão usava chapéu permanentemente. Ele levantava da cama, punha chapeuzinho. O Bill Rainer - a pracinha que tem em frente à Bolsa, praça Bill Rainer apelidou o José Carlos de Buck Jones. Então, tem lá a plaquinha em homenagem a ele que foi o grande defensor dos bondes em Santos. Ele moveu uma ação contra o Prefeito Bandeira Brasil, uma ação popular, mas era a época do AI 5... então, um dia tinha três gorilas na casa do meu irmão e disseram: "Olha, o senhor tem uma ação contra o prefeito. O senhor sabe que general não erra." "Eu não sabia." " Mas é bom saber. O senhor tem filha, tem mulher..." Quer dizer, eles sugeriram que de repente a filha dele podia cair no meio da Amazônia, num avião militar. Então aí ele se acovardou e desistiu da ação. E aí tiraram os bondes, tiraram tudo. Depois, ele ainda tentou lutar contra a poluição. Muito antes de se falar em poluição, como se fala hoje, ele já alertava para a chuva ácida... em Cubatão, Santos. Porque Santos também tinha chuva ácida comendo todas as estátuas. Lutou, lutou e não deram bola. Achavam que ele era Judas falando no deserto. Então ele, vamos dizer, se desligou da raça humana e achou melhor proteger os animais. Cachorro, todo mundo trata bem. Gato, não tem ninguém que trate. Gato está sendo abandonado. Então, ele tinha uma casa alugada em São Vicente, que tinha uns 300 gatos. Todo o gato que estava meio machucado, meio doentinho, ele levava pra casa. Tinha uma senhora que morava de graça lá, pra tratar dos gatos. Mas aí os vizinhos reclamaram e ele teve que espalhar os gatos. Ele tinha uma freguesia certa. Naquele prédio que está caindo, em frente ao Valongo, tinha uns gatos que moravam lá. E todo dia ele comprava carne de frango, pé de frango, asa de frango, moía aquilo tudo junto com fubá... fazia uma comida e distribuía pro gatos. Então lá, na Rua do Comércio, naquela ruazinha que tem na Rua São Francisco ao lado do Expresso de Luxo, onde mora até a mãe do Paulo Barbosa, o vereador, ele também tinha uns gatos que ele levava comida. Então, ele ia chegando, os gatos já vinham todos chegando e ficavam raspando nele. E ele tratou o resto da vida de gato. Esqueceu do resto.

FILHOS
Tenho oito filhos. Eu tenho quatro homens e quatro mulheres. O mais velho é dentista formado na USP e está trabalhando comigo. Agora vai desistir porque ele não gostou da Odontologia e o negócio de café não dá mais. Então ele está abrindo uma pousada pra pescador na fazenda dele lá em Presidente Epitácio. O segundo dos homens, o Eugênio, é politécnico e tem uma empresa de consultoria de cálculos e engenharia de mecanismos do solo, em São Paulo. O terceiro é comandante da Varig. O quarto tem uma firma de contêineres frigoríficos, aqui em Santos. Todo mundo trabalhando. As meninas são as quatro do lar. Uma mora em São Paulo, uma em Sttutgart na Alemanha, e as duas outras em Santos. Essa de Sttutgart voltou pra lá ontem. Ela esteve de férias 15 dias aqui em casa. É casada com um brasileiro que trabalha na Bosh. Ele é de Campinas e trabalha na Bosh em Campinas. E ele foi escolhido pra fazer um estágio de três anos na Alemanha. Então, ela vai ficar três anos lá. Meus netos já falam digets, alfvindersen...

IMIGRAÇÃO
Vinda do pai Meu pai veio pra cá com oito anos em 1888. Ele veio com um tio. Veio pra Santos recomendado pela família Souto Maior, e chegando em Santos já foi trabalhar na casa Pedro dos Santos, que era na esquina da Rua XV de Novembro com a Rua do Comércio. Era uma das melhores casas de presentes, cristais finos e importados, que tinha em Santos. Ele ficou até os 18 anos. Quer dizer, com oito... Ele ficou 10 anos na empresa. Aos 18 anos ele teve tuberculose e a firma o mandou pra Suíça arcando com toda a despesa. Aquele tempo o negócio era um pouco diferente que o de hoje. Passando por Portugal, os amigos e os médicos de lá disseram: "Não. Que Suíça. Fica na Serra da Estrela que é a mesma coisa". Então ele ficou um ano na Serra da Estrela, voltou completamente curado e nunca mais ficou doente. Quando ficou doente, foi pra morrer. Costumes O negócio é meio complicado. As famílias que eles chamavam de famílias, não nobres, mas famílias de gente, de fidalgas, viviam de rendas. E quando a renda caia, eles pegavam um dos irmãos e mandavam para o Brasil pra ganhar dinheiro e mandar dinheiro pra lá. Eles eram 14 irmãos também. Ele veio com um tio pra cá, pra ganhar dinheiro no Brasil e mandar dinheiro pra família. Ele mandava dinheiro mas, nunca mais voltou pra Portugal. Ele morreu em 39, com 59 anos. Morreu novo. E nunca mais voltou pra Portugal.

FAMÍLIA
Sobre o pai e a mãe Meu pai morou sempre em Santos. A minha mãe nasceu em Sorocaba, mas quando ela nasceu a mãe dela faleceu. Então ela foi criada pela irmã mais velha dela que morava em São Paulo. Essa minha tia com o marido vinham sempre a Santos passar as férias no Parque Balneário. E meu pai morava no Parque Balneário. Ele era solteiro e corretor naquele tempo podia morar no Parque Balneário. Tanto que ele casou-se e minha mãe disse: "Olha, agora você não está mais no Parque Balneário. Negócio de três camisas por dia, negativo. É uma só e te vira." Porque ele usava uma camisa de manhã cedo. Na hora do almoço ele vinha, trocava de camisa e ficava até de tarde com a outra camisa, e de noite, ele morava no Parque e então ele usava outra camisa com peito engomado, aquele troço todo. Três camisas por dia. Mamãe nos primeiros dois, três meses, tá bom. Naquele tempo a gente não tinha essa mesma intimidade que tem hoje. Mas depois que ganhou o controle da coisa, disse: "Não. Negativo. Nada de três camisas por dia."

Casamento dos pais
Ele casou em 1920. Ele casou-se com 40 anos e minha mãe tinha 18 anos menos que ele, tinha 22. Foram morar em São Vicente. Ele tinha uma casa, tinha um quarteirão inteiro. Onde está o Clube Tumiarú hoje, aquilo tudo era nosso. Nós é que vendemos pro Tumiarú, quando ele morreu. Então, morava lá. Mas São Vicente não tinha nem o Hospital São José naquela época. Então, na hora que estava chegando o momento do parto, minha mãe ia pra São Paulo, pra casa da minha tia e nós nascíamos em São Paulo. Meu irmão e eu nascemos em São Paulo. Fomos registrados na Bela Vista, mas 45 dias depois voltamos pra Santos.

INFÂNCIA
Casa da infância Minha infância foi em São Vicente. Me lembro de nossa casa, na Praça Coronel Lopes. Era um quarteirão inteiro. Era um quarteirão grande porque inclusive nós tínhamos emprestado um pedaço do terreno pro futebol. O Bentevi Futebol Clube tinha um campo de futebol no terreno nosso. Eles usavam o terreno lá. Cresci lá, com um jardim imenso, horta, frutas... Era uma vida muito tranqüila. Inclusive a casa do Barão, que hoje é museu, eu era muito amigo do Lilo, que é o Alex Carl Kurt von Pritzelwitz, que era o filho do dono da casa que era o Barão von Pritzelwitz. Ele era nosso colega do colégio, a gente ia na praia andar de barcos juntos, íamos ao Colégio São Paulo, em São Vicente, todos juntos. Tinha muito estrangeiro, então o Pritzelwitz, o Teuber, o Ziegert, von Wolman... A alemãozada toda que trabalhava nas grandes firmas de café, morava toda em São Vicente. Inclusive os ingleses. O Broderick, esse pessoal todo do café, morava em São Vicente, que tinha a temperatura um ou dois graus abaixo de Santos, no verão... Tinha essa diferença. Acho que questão de correntes de vento, sei lá. Era sempre mais baixa a temperatura em São Vicente do que em Santos. E os estrangeiros gostavam muito de São Vicente.

LAZER
Eu fazia passeios de barco. Praticar nunca pratiquei esporte. Às vezes jogava uma peladazinha no colégio. Quando eu estive na escola de aviação, como tradutor, a gente trabalhava das sete à uma da tarde. Então a uma da tarde a gente ia pra casa, almoçava, e eu morava a um quarteirão do Paulistano. Eu era sócio do Paulistano e então ia jogar, em São Paulo. Ia jogar tênis lá, mas nunca com continuidade e com idéia de concorrer a qualquer coisa.

EDUCAÇÃO
Estudos Colégio Anglo Americano Porque depois eu estive no Colégio Anglo Americano, que era um colégio inglês que tinha aqui em Santos, na Presidente Wilson . Depois pegou fogo o colégio. Mas a professora, era a dona do colégio era Miss Hogan, uma inglesa, que até no fim da vida dela foi agraciada pela rainha da Inglaterra com um chá no palácio de Buckingan. Ela foi convidada pra tomar um chá em Buckingan com a rainha, por ter sido a professora inglesa que mais teria divulgado a língua inglesa no exterior. Foi a coroação da carreira dela. Mas era um colégio muito bom e então às vezes eu jogava uma pelada, às vezes jogava um pouco de tênis. Nós éramos semi-internos. A gente entrava de manhã cedo e passava o dia inteiro na escola. Evidentemente as aulas de Português eram em português. Mas as outras aulas todas eram todas em inglês. Então, você era obrigado a falar inglês. O almoço - era uma escola que tinha o que? 50 alunos. Pequena. No almoço sentava todo mundo na mesa e a Miss Hogan, que ficava na cabeceira, ia conversando de um por um. Em inglês. E se não soubesse pedir em inglês ficava sem comer. Então, você tinha que aprender. Eu aprendi aquele inglês instintivo, de criança. Eu devia ter uns oito anos quando entrei nesse colégio. Estudei os primeiros anos no Colégio São Paulo, em São Vicente. Depois fui pro colégio Anglo Americano e aprendi aquele inglês básico. Depois, eu sempre gostei muito de ler e então eu mantive o vocabulário lendo a vida inteira.

TRANSPORTE
Ia pra escola de bonde. De preferência no reboque que a gente gostava mais. Era mais bagunçado.

EDUCAÇÃO
Estudos no Colégio Santista Depois eu entrei pro Colégio Santista que é um colégio tradicional aqui em Santos, de irmãos Maristas. Em 1937 eu fiquei interno em São Paulo. Minha mãe estava meio doente e eu então eu e meu irmão ficamos internos no Colégio Arquidiocesano, na Vila Mariana. Então, eu fiquei 37, 38 e 39. Em 39, meu pai morreu e nós voltamos pro Colégio Santista. O José Carlos meu irmão e eu. Meu irmão achou horrível. Eu achei razoável. Eu me dava muito bem com os meninos, com os colegas e a gente saía uma vez por semana. Só domingo. Então domingo, mesmo que meu pai não fosse de Santos, o meu tio mandava o chofer lá nos buscar. A gente saia lá pras nove e meia do colégio e voltava de tardezinha. Passava o dia na casa do meu tio. Em São Paulo. Eu não achei tão ruim. Meu irmão achou horrível. Ele ficou muito bravo com o negócio de colégio interno. Era um bom colégio. Se estudava naquele tempo... Não era coisa meio no vai da valsa hoje. A gente estudava mesmo. Eu já tinha uma certa facilidade, mas hoje eu traduzo, faço traduções de inglês, francês e espanhol. Versão é que só me arrisco no inglês, porque pra fazer a versão, passar de português pra outra língua, você precisa ter um domínio muito grande da língua pra qual você está escrevendo. Então, é meio complicado. Terminei o ginásio aqui e aí fui pra São Paulo de novo morar na casa da minha tia - meu tio já tinha falecido. E fiquei e fiz o primeiro e segundo ano de colegial no Colégio Osvaldo Cruz. Mas a essa altura eu já estava namorando minha atual mulher. Eu disse: "Eu não estou aprendendo nada de novo nesse negócio de colegial. Eu não vou estudar mais. Eu quero trabalhar pra casar." Então, nós estávamos na guerra e essa escola de aviação tinha sido trazida de Miami pra São Paulo pra formar sargentos especialistas de Aeronáutica. Pra consertar os aviões. E eles precisavam desesperadamente de quem pudesse começar a trabalhar na hora. Eu fui pra lá, fiz um teste e eles disseram: "Quando é que o senhor pode começar?" Eu disse: "Posso começar agora, se quiser." " Puxa, não diga. Então vá lá no departamento tal e fica trabalhando." Comecei na hora.

JUVENTUDE
Bailes Os bailes eram com aquelas orquestras muito boas, que tocavam aquelas músicas das Big Bands - ou então, como no Clube dos Ingleses, a maioria dos bailinhos era feito com disco, os Vitrol Dance, como chamavam. Dança de vitrola. Então, você dançava com uma música romântica, gostosa de dançar. Eu parei até de ir nas festas do Clube dos Ingleses porque só tem barulho - 200 decibéis - e umas músicas abaixo da crítica. A música que eles fazem hoje é insuportável. Esses rocks, essa coisas, não tem o menor valor musical. Não tem nada. Então, você não consegue conversar num baile. Mas os bailes eram muito gostosos. E nós tínhamos o Clube dos Ingleses...Era bem diferente de hoje. No bar não podia entrar mulher. Se entrasse uma mulher, ela tinha que pagar a bebida de todo mundo que estava lá dentro. Ficavam os homens batendo papo no bar e as senhoras, as moças, as meninas ficavam tomando chá ou batendo papo lá fora. À noite geralmente as moças, em dia comum não estavam. A gente ficava então ouvindo música deitado no chão, sentado, do jeito que fosse. Foi quando eu me apresentei à música clássica. Tinha o filho do cônsul francês aqui em Santos que tinha um conhecimento brutal de música. Então, ele colocava Beethoven e dizia: "Olha, você vai ouvir a Sexta Sinfonia. Veja agora esse terceiro movimento. Veja as flautas... agora vão entrar. Veja os oboés.." Ele acompanhava a música, explicando como era a coisa. Daí é que eu fiquei viciado em música clássica até hoje. Mas era muito gostoso.

LAZER
Cassino A questão do jogo. A gente era estudante, tudo meio duro... ficavam os amigos ali batendo papo e de vez em quando jogavam, arriscava uma fichinha na roleta ou em algum outro jogo qualquer... Eu nunca fui de jogar, mas gostava muito do ambiente, porque era muito gostoso. O Parque Balneário era uma beleza. Não ganhava muito. Às vezes dobrava o que estava. Entrava com 10 mil réis e saia com 20 mil réis. Também nunca arrisquei coisa nenhuma. Se eu perdesse as duas fichinhas da entrada, acabou naquela semana.

PARQUE BALNEÁRIO
Descrição O Parque Balneário era um prédio magnífico. Os lustres... Era coisa como se fosse na Riviera Francesa, o Carlton lá. Se equivalem. E o serviço de qualidade, que não fazem mais hoje. Era um hotel finíssimo. E o jogo tinha sua desvantagem. Eu realmente, de uma forma geral, eu sou meio contra o jogo, porque se o sujeito não souber se controlar, o sujeito acaba tirando o dinheiro da firma, do patrão, roubando, só pra poder jogar. Fica meio louco. Mas que é um ambiente gostoso, é. E traz muito dinheiro. O que vinha de gente pro Parque Balneário, pra Santos, pra jogar, era impressionante. Vinham o ano inteiro. A gente ficava lá batendo papo e comendo de graça, fumando de graça, charuto... Era um hotel muito bonito, muito bom.

SANTOS
Década de 30 A vida era muito mais tranqüila. Quando eu estava no colégio, no Santista, às vezes a gente saia um pouco mais cedo e eu ia pra cidade; ficava no escritório do meu pai esperando que ele terminasse pra nos levar pra casa. Não tinha essa quantidade de automóveis que tem hoje, você vinha, descia a Ana Costa e ia pela praia. Quando chegava no Zé Menino, você entrava na praia, porque não tinha rua. Aquele tapetão não existia. Então, o sujeito ia pra praia. Às vezes chegava em certo ponto, a maré estava alta e aqueles riachos de águas pluviais e esgoto, que atravessavam a praia, estavam muito altos. Então, tinha que voltar pra trás pra ir pra São Vicente pela linha do bonde 1, que é a linha da Avenida Nossa Senhora de Fátima hoje. Porque se passava pela praia. Se a maré estivesse alta, não podia passar. Então, o que fizeram? A população de São Vicente, que eram as pessoas de mais categoria, se uniram e construíram a avenida. Eu tenho lá em casa um livrinho que é da construção da Rua Manoel da Nóbrega. Não como está hoje, que está asfaltada e tal. Então o Toyber, Pritzovits, o von Hulma, meu pai, aquela turma toda de São Vicente, se juntou e cada um deu um conto, dois contos, 200 mil réis, 500 mil réis, levantaram o dinheiro e construíram a avenida por conta própria. Aí, a gente ia já pra São Vicente pela rua. Era rua de paralelepípedo.

CASAMENTO
A minha mulher era filha de um exportador de café. Eu vinha do escritório no bonde R, na hora do almoço. Ela subia no bonde 3, branquinho, pra ir pro colégio. Eu via aquela morenona no banco do jardim... Um dia eu vi que ela estava junto com uma moça que eu conhecia, filha do Teixeira do cartório. Então eu saí mais cedo, peguei o bonde 3, branquinho na cidade e ela subiu no Zé Menino. Eu então falei com a Teixeira: "Como vai? Você não quer me apresentar sua amiga?" Me apresentou, nós começamos a namorar e estamos casados há 50 anos. Eu comecei a namorar minha mulher em 1944. Casei em 49. Em 50 eu mudei pra Garça. Fiquei nove anos em Garça.

PRIMEIRO EMPREGO
Tradutor Eu era tradutor, mas fazia de tudo. A necessidade de tradução deles era daqueles Tecnic Manuals, os Manuais Técnicos dos aviões. Alguns até eram segredo de Aeronáutica. A gente tinha que traduzir aquilo e depois era organizado. O que não pudesse ser divulgado eles cortavam. Traduzia do inglês para o português pra ensinar a alunos brasileiros. Os professores usavam aqueles manuais que nós traduzíamos, pra ensinar os alunos. Eu fiquei lá de 44 a 47. Foi meu primeiro emprego e único. Depois de 47 eu tive essa firma de importação. Aliás, antes de terminar e sair da escola de aviação, eu já estava com essa firma de importação.

IMPORTAÇÃO
Empresa Importava de tudo. Chegamos até a importar aqueles automóveis Kaiser, que eram da fábrica de navios. Estavam fazendo os carros Kaiser e Fraiser. Eram carros muito modernos. Nós importamos alguns. Mas nós importávamos tudo: geladeira, máquina de lavar roupa. Importávamos de tudo.

IMPORTAÇÃO
Produtos Era fácil importar. O Brasil estava com um saldo muito grande. Porque durante a guerra quase não se podia importar, e o Brasil exportou muito. Antes de entrar na guerra nós exportávamos pros dois lados. Exportávamos pros aliados e pros alemães. Depois é que nós entramos na guerra a favor dos aliados e paramos de exportar pra Alemanha. Mas, estávamos com um saldo cambial muito grande lá fora. E importava-se de tudo. Quando terminou a guerra, as grandes industrias, a General Motors, a General Elétric, a Zenith, aquelas firmas toda, a RCA, estavam voltando a produzir produtos domésticos pra suprir o mercado americano, porque ficaram anos lá sem comprar nada. A gente não tinha. Se quisesse comprar uma geladeira GE não existia. Um rádio Philco, não tinha. Tinha umas firmas de porão lá nos Estados Unidos, que faziam rádio com lata de bolacha. Aquela peça aonde vão presas as peças a válvulas, o sujeito tirava e por baixo estava escrito "Nabisco" - National Biscuit Company. Era lata de bolacha que eles cortavam e faziam a base pras coisas. Feito de qualquer jeito. Importava-se de tudo. Importou-se colherinha de plástico, faquinha de plástico. Ai um dia, o Dutra, que era o presidente, foi olhar e disse: "Não tem mais um tostão. Acabou todo o dinheiro brasileiro." Então, ele proibiu a importação e aí saiu uma relação dos únicos artigos que podiam ser importados. Era só coisa de máquinas, ferramentas, coisas de aço, ferro. Então nós saímos aí. Fechei a empresa de importação porque não dava mais jeito. Mas o Brasil torrou todo o saldo de dólares que tinha lá fora. Aí eu fechei isso aí e vim pra Santos, e fizemos a firma de automóveis, representação de automóveis Volvo.

COMÉRCIO
Automóveis Nós éramos representantes, distribuidores da Volvo do Brasil. Eram carros importados. A Volvo do Brasil importava os caminhões e alguns automóveis. O grosso eram caminhões, que a gente vendia. Mas naquela época, a guerra tinha terminado, mas não estavam fazendo carros pra exportação nos Estados Unidos, e os carros suecos - a Suécia estava fora da guerra, era neutra - só tinha caminhão Volvo. Então, nós não tínhamos nem estoque. O sujeito ia comprar um caminhão Volvo; a gente punha anúncio no jornal, e o sujeito dizia: "Eu quero comprar um caminhão Volvo. Onde a gente pode ver?" "O senhor vê na rua. Está cheio de caminhão Volvo, na rua. O senhor quer, escolhe. Eu tenho o LV 127, o LV 170." Ele vinha, dava o cheque no valor total do caminhão, a gente telefonava pra São Paulo, mandava descer um caminhão e entregava pra ele. Não tinha negócio de venda a prazo, não tinha nada. E nem podia ver o caminhão. Dizia: "Olha, caminhão Volvo não precisa ver. O senhor vê a fotografia e pode ter certeza que ele não quebra nunca." Era um caminhão muito bom Aí terminou a guerra e entrou a concorrência de Ford e Chevrolet especialmente. E Dodge também. Aí começaram a pulverizar os distribuidores de tudo quanto é marca. E começaram a vender a prazo e nós saímos do mercado. "Isso aí não é pra nós." Fechamos a distribuidora. Aí, eu já tinha casado e fiquei nove anos em Garça.

COMÉRCIO
Café Meu pai, durante esse tempo, continuou trabalhando com a corretagem de café. Quando meu pai morreu, em 39, meu irmão tinha 15 anos. Pra poder entrar no sindicato ele alterou a identidade, pra dizer que já tinha 16 anos pelo menos. E começou a trabalhar. Depois eu também fui. Nós nos revezávamos. Ele ficava na firma do Volvo e eu ia pra lá, pro escritório e vice e versa. A gente se alternava.

MIGRAÇÃO
Mudança de cidade Mudei para Garça, porque justamente o contrário do que está hoje, que o mercado está muito ruim, muito baixo, o preço tinha subido demais. O Dutra tinha declarado que o IBC tinha vendido todo o estoque de café, que não tinha mais um saco de café em estoque. Então o preço do café dobrou e o mercado ficou parado porque o outro lado não estava querendo pagar esse preço. Outro lado que eu falo, são os importadores externos. Estava meio em paralisado e o meu sogro e o sócio dele que é o Ercílio de Camargo, foi inclusive presidente da Associação Comercial, tinham ganho muito dinheiro com essa dobra do café. Eles quiseram abrir uma máquina em Garça e me convidaram pra ser sócio, pra eu tomar conta lá. Eles não podiam ir pra lá tomar conta. Eu disse: "Vou visitar Garça." Fui visitar Garça, achei a cidade muito gostosa, muito bonitinha, tinha um clube... O Tênis Clube de lá é uma beleza. Eu então resolvi, me associei a eles e fomos pra Garça. Eu fiquei tomando conta da máquina. Eu era sócio gerente.

PRODUTOS
Beneficiamento de café Nós comprávamos café e arroz e beneficiávamos também café e arroz por conta de terceiros. Era uma máquina de benefício, grande. Você põe o café em coco, a cereja e ela beneficia aquilo, limpa, tira a palha e sai o cafezinho verde, essas duas metadezinhas. Que é o café que depois a gente torra e mói. A grande maioria era café comprado por nós. A gente comprava café em coco, beneficiava... Depois vendíamos mais caro. Mas, às vezes, quando o mercado estava meio difícil, a gente também pegava café pra beneficiar por conta de terceiros. Então a gente cobrava uma taxa de benefício. E nesse meio tempo meu sogro também tinha comprado uma fazenda em Garça e eu ajudava na administração da fazenda de café.

PRODUTOS
Plantação e colheita de café Não era difícil administrar, naquele tempo. Nós tínhamos colonos, uma colônia, com casas de alvenaria, telhado, banheiro, tudo direitinho. E as famílias iam morar na fazenda. O que a gente chama de uma enxada, que é uma pessoa adulta, tratava de mais ou menos 3 mil pés de café. Então a família tinha quatro adultos, então 12 mil pés de café. Discriminava o talhão dele e atribuía a essa família um pedaço de terra, que era calculado, pra eles plantarem pra eles, pra consumo próprio. Eles, além de morar de graça, tinham leite de graça, lenha de graça, água de graça, luz de graça e ainda tinham um terreno pra criar porco, criar galinha e plantar verdura ou o que ele quisesse: milho... Aí, o negócio foi modernizando - é o que eu digo: "não sei quem aproveita essa modernidade toda." - extinguiram-se as famílias de colonos. Tem fazendas com um monte de casas abandonadas, que não usam mais. O sujeito mora na cidade. Debaixo da ponte, miseravelmente, mas mora na cidade. E tem o "gato", que é o sujeito que tem o caminhão, que arrebanha aquela turma toda de manhã cedo, leva pra fazenda e os explora terrivelmente porque ele cobra X por dia do patrão, do dono da terra e paga a metade pro sujeito. E o sujeito fica morando na cidade. Agora ficou difícil completar, porque tem dias que você tem um serviço pra fazer e não tem... O "gato" não conseguiu ninguém pra ir pra sua fazenda.

MIGRAÇÃO
Volta para Santos Eu estava sentindo falta de um local mais cultural, pra estudo. Eu já estava com cinco filhos naquela época e já todos crescendo e em Garça só tinha aquele colégio do Estado, meio... Não era muito eficiente. Então, achei que estava na hora de voltar pra cá. Voltei pra cá. Mas a vida em Garça era muito gostosa. Principalmente naquela época em que nunca se ouviu falar de assalto. Estupro, assalto. Não existia. Você largava o carro no meio da rua de porta aberta, janela aberta. Se começasse chover alguém abria a porta e fechava a janela pra você pra não molhar o carro dentro. Não acontecia nada. Eu vim pra Santos em 59, que também era bem mais tranqüilo. Tinha muito menos carro do que hoje e a vida era bastante tranqüila.

COMÉRCIO
Loja de Presentes Meu pai contava como era a loja em que trabalhou. Era uma beleza. Naquele tempo, os funcionários moravam no próprio prédio da empresa, em se tratando de casas grandes de comércio, então, ele morava na firma e era a melhor firma de materiais importados, cristais, pratarias. Normalmente o sujeito ficava até morrer nessas empresas, se fosse bom funcionário. Mas como ele estava na esquina da Rua XV com a Rua do Comércio, os corretores naquele tempo ganhavam muito dinheiro e compravam muito na loja. Em 1902, ele resolveu sair da empresa e abrir um escritório de corretagem. Então ele abriu o que é hoje o meu escritório, começou a trabalhar com corretagem de café, em 1902.

SERVIÇOS
Mudança para o ramo de corretagem de Café O corretor era muito necessário para o conjunto de negócios porque o produtor, o fazendeiro, não tinha nenhuma informação sobre o mercado. Não tinha telex, fax, televisão. Não tinha nada. Nem rádio não tinha naquele tempo. Então, o corretor é que informava o cliente, o fazendeiro, sobre as possibilidades do café dele. Então, o vendedor, o produtor, tinha que ter muita confiança no corretor. Um corretor confiável tinha muito sucesso. Hoje com a modernidade, além da prostituição dos costumes todos, com essa permissividade que começou num ramo, mas se espalhou pra todos os outros. Então hoje, ninguém mais se incomoda com cheque protestado, cheque sem fundo, roubar, fazer ponte. Hoje o negócio é absolutamente normal e todo mundo acha que isso não tem problema nenhum. O fazendeiro hoje tem telefone, fax, celular, tem informação imediata do que está acontecendo em Londres, na Europa, no Vietnã, no diabo. O corretor ficou meio sem função.

SERVIÇOS
Corretagem de café Normalmente o produtor vinha ao escritório. Ele muito pouco viajava. Mas um cliente ia recomendando pro outro e então o sujeito geralmente tinha mais, digamos, uma clientela maior numa determinada região. Ele tinha uma clientela muito grande na Mogiana, com cafés muito finos e depois ele quase que abriu o Paraná. Quando o Paraná começou a produzir, ele foi um dos primeiros corretores a trabalhar com café no Paraná. E, naquele tempo era muito mais simples. A modernidade, eu não sei quem aproveita. Ele, às cinco e meia, mais ou menos, sentava na máquina de escrever e preparava todos os telegramas: "Fechei o seu negócio. Consegui tanto. Não fechei. Não deu pra vender." Fazia os telegramas, mandava pra estação - os telegramas eram passados na estação ali do Valongo e ia pra casa. Acabou. Não tem mais telefone, chamar de madrugada, não tem nada. Hoje não. Você está permanentemente ligado. O sujeito telefona às cinco horas da manhã pra dizer: "Olha, eu vou pra fazenda. Como é que está o mercado?" No dia seguinte, de manhã cedo, ele chegava no escritório e já estavam os telegramas. "Pode vender. Pode vender. Fecha. Não Fecha." Com as instruções. Com a instrução na mão, ele não precisava nem ter empregado. Ele fechava o escritório, que o telefone não funcionava. Ia tentar fazer aqueles negócios, cruzar as ordens que recebeu e voltava pro escritório tranqüilo. Hoje é uma loucura. O sujeito sozinho não pode mais trabalhar, porque se você está na rua, tem que ficar alguém no escritório pra receber o telefonema. Porque o pessoal liga o dia inteiro. Liga, inclusive sem utilidade nenhuma. Só pra saber. "Como é? Tal. Melhorou? Piorou? Como é que está a bolsa?" Sujeito que nunca ouviu falar em câmbio, hoje pergunta: "Como é que está Nova York?" Neviork? Como é que está?" Ele não sabe muita coisa, mas ele quer saber. "Nova York subiu? Nova York caiu?" Houve uma deteriorização muito grande na coisa, inclusive na qualidade. Na qualidade de ambas as partes. Do corretor e do exportador. Caiu muito.

MIGRAÇÃO
Retorno a Santos Eu voltei pra Santos e fui morar no edifico Biaritz no Zé Menino. Voltei pra corretagem. Eu, em Garça, trabalhava em máquina e continuei como sócio do escritório porque eu mandava a clientela toda de Garça pra Santos. E meu irmão trabalhava os cafés do pessoal de Garça em Santos, e falava só comigo. De noite, naquele tempo não tinha DDD, 10 horas, 11 horas da noite, ele conseguia falar comigo. Eu anotava todas as ofertas e no dia seguinte eu as transmitia pros clientes e fechava ou não fechava o negócio. Continuei trabalhando como agenciador de café pro escritório. Quando voltei pra Santos, voltei pro escritório e continuamos os dois juntos. Ele aí tranqüilizou um pouco mais. Voltei a trabalhar no escritório e fui quatro vezes presidente do Sindicato dos Corretores de Café. Sou diretor da Federação do Comércio desde 86, 84, por aí, e fui Juiz do Trabalho de 89 até 97. Estou na quarta gestão, mas não seguidas.

SERVIÇOS
Mudanças na corretagem de café O que mais prejudicou o corretor foi o DDD. Quando não tinha DDD o cliente tinha que confiar no corretor, porque ele mandava um telegrama de noite e dizia: "Pode vender por tanto." Na madrugada deu uma bruta geada e o café dobra de preço e quem vendia aquele café e podia fazer uma fonte. Então ele precisava confiar no seu corretor. Além do mais, ele não tinha maneira de trabalhar. Ou ele vinha pra Santos com a amostra, ficava uma semana aqui oferecendo café pras empresas pra vender, ou ele tinha um corretor em Santos que vendesse o café dele. Aí, veio o DDD e o cliente vendia um lote pra uma firma e depois ele telefonava e dizia: "Aqui é Fulano de Tal. Vendi um café pra você na semana passada. Você não quer comprar mais um lote?" Telefone já facilitou, já começaram a vender direto. Além do mais, com o telefone fácil, as firmas começaram a botar agentes compradores no interior. Eles compravam direto no interior. Tanto que no dia seguinte, apareceram dois diretores da Telesp naquele tempo, e perguntaram: "O senhor não gosta do DDD?" "Não. Acho horrível. Primeiro que eu detesto falar no telefone. Segundo, que o telefone está acabando com a nossa função. Odeio" É verdade. Ai, além do DDD surgiu o fax e a Internet. Então agora, o sujeito pode ter uma firma em Manaus e exportar café por Santos. Não é problema. Ele entra na Internet, pu, pu, pu, pu, pu pu, entra no Siscomex faz o registro e manda exportar café. Então, houve uma pulverização de centros de comercialização. As firmas todas, por uma burrice, porque a parte mais cara da empresa é a parte de classificação, de compra do café hoje. O sujeito que entende do grão, ele prova o café, ele vê o estilo e faz um café igual àquele que o comprador quer. Esse é o empregado mais caro que existe. Tem um desses em cada lugar. Um aqui, em Varginha, outro em Bauru, outro em Garça, comprando café direto. Então, o que acontece? O cliente nos manda a amostra e telefona. Você fica telefonando: "O café está assim, o mercado está assim... , a tendência é esta, a tendência é aquela..." Aí ele pergunta: " Quanto é que está valendo meu lote? " " Olha, vou dar uma trabalhada." Dou um trabalhada e : " Olha, seu café vale 105 no máximo. Vamos vender?" " Não, espera um pouquinho. Vou pensar, falar com papai e depois te falo." Some. Ele já tem a idéia máxima de Santos, atravessa a rua, vai lá e diz: " Olha, eu estou com 105 de Santos. " Tá bom, eu pago 106." E vende lá e não paga corretagem. Então, a Rua XV já morreu. Só falta cremar. Não falta mais nada. O corretor talvez ainda dure um pouquinho mais que a Rua XV, porque o exportador vai acabar também. As cooperativas estão fazendo padrões e vão começar a vender na Internet, pra fora. Hoje em Santos, tem o que? Cinco firmas de café, exportadoras. O produtor entrega o café pra cooperativa que classifica, faz a composição e oferece pra fora. Faz uns padrões com a Cooperativa de Guaxupé que é a maior, a mais organizada, já tem RA1, RA2, RA3, RA4, que são várias qualidades. O comprador lá fora já conhece essas variações e diz: " Olha, eu quero 500 sacos de RA2. Pago tanto." " Não. Só vendo por tanto." " Tá bom, está fechado." Elimina o exportador, elimina todo mundo do negócio: o exportador, o armazém geral, tudo. O despachante e o corretor. E não vende mais caro por causa disso. Quem ganha é o outro lado. O americano, o europeu que compra o nosso café... Porque toda essa vantagem, que ele não paga corretor, não paga armazém, não paga isto, aquilo, ele dá pro outro. Ele abate do preço do café. Ninguém ganha mais nada com isso. Santos acabou. Não tem ninguém que ganhe dinheiro em Santos. Deixa de comprar automóvel - automóvel ainda compra, porque como é muito barato (quer dizer... muito barato É muito fácil de comprar), você entrando com 500 reais numa empresa você compra um automóvel. Depois, se vai pagar ou não, não sabe. Mas comprar compra. Então, geralmente o automóvel é a primeira coisa que o sujeito compra quando ganha um dinheirinho e a primeira coisa que vende quando fica em situação difícil. Ninguém tem dinheiro pra jantar fora, viajar. Santos está acabando.

PRODUTOS
Café - Melhoria na qualidade A tecnologia, talvez, tenha ajudado alguma coisa. Eu tenho a impressão que deve ter sido o trato do solo, algum enzima, alguma coisa que eles põem. Por exemplo, a Zona da Mata só dava café Rio. Café Rio, a gente diz, é aquele café que tem cheiro de iodofórmio e que é terrível. Muito ruim. Um gosto muito enjoativo. Eles andaram tratando melhor do chão com algum aditivo, tirando a acidez do solo, e andaram caprichando mais na colheita. Então, tem cafés muito bons hoje, produzidos na Zona da Mata. O torrador nacional, com um trabalho muito bem feito pelo Nathan, pelo Abic, buscando qualidade, está controlando muito mais, esses cafés muito baixos, café tipo 8, abaixo de 8, 600 defeitos... Eles são usados quase que exclusivamente hoje no café solúvel, que se exporta lá pro Japão, Arábia Saudita. Mas o café bom é vendido pra exportação de café verde e é consumido pelas torrefadoras nacionais, que estão muito mais exigentes hoje, sobre a qualidade. Então, o café que se toma hoje, comprado em mercearia, tem uma qualidade muito melhor do que tinha anos atrás. Naquele tempo tinha muito café rio, e muito café baixo, que precisava dar um consumo nele. Então vendiam-se esses cafés a preço muito abaixo e as torrefadoras compravam pra fazer ligas, e isso destinado ao consumo interno. Hoje não. Hoje, o café rio, rio zona, a gente vende pra Arábia Saudita, pra aqueles países árabes que gostam desse café, que é um café com gosto muito forte. Eles acham que isso é bom. Então nós exportamos pra eles. Então, a qualidade melhorou bastante, graças a esse programa de qualidade da Abic.

PRODUTOS
Café orgânico O café orgânico é uma coisa nova. Eu, inclusive, tentei coordenar os produtores de Minas, de Varginha, através do Paulo Amaral Gurgel que é um cliente meu e que tem café orgânico. Na fazenda dele é café orgânico. Mas, é um problema muito grande porque a produção neste ano, no Brasil todo, de café orgânico vai ser uns 60 mil sacos. Se você tiver uma idéia que o Brasil vai produzir 35 milhões de sacas, 60 mil sacas é nada. E, não existe uma união. Quer dizer, precisaria criar uma associação pra fazer um padrão só de café. Nem que ligasse, "O seu é melhor, o seu é pior, o seu vale tanto, o seu vale tanto." Fazer um acerto entre dos produtores. Mas fazer um padrão só, pra poder ter continuidade. Porque, você vende um café lá pra fora... Eu estava tentando entrar naquele grupo... um grupo inglês que diz que ia comprar 50% do produto orgânico do mundo. Eu entrei em contato com eles pela Internet, pedindo amostras... Como é que eu vou garantir a continuidade do fornecimento? O sujeito pra lançar uma marca de café orgânico, ele gasta uma nota porque tem pacote diferente, tem que fazer propaganda na mídia pra lançar o produto novo, o produto orgânico, sem agrotóxico. Então, ele lança e compra o meu café. "Gostou?" " Ótimo." "Torrou? Todo mundo gostou muito. Manda mais um container." Não tem. O Paulo Amaral Gurgel vendeu o lote dele todo e agora só tem o lote de Fulano de Tal, que é não sei de lá onde. Como é que ele vai fazer? Precisava fazer uma média. Pegar todo café orgânico produzido, que é muito pouco, num armazém, liga aquilo tudo. Como o seu é melhor você vai receber 150, o seu é pior, você vai receber 120. Na hora de vender. Mas tem que fazer um padrão só. Porque você não consegue dar continuidade na venda. Aqui tem o café Floresta, em Santos, que está lançando o café orgânico e eu ofereci pra vender café pra ele. Ele quer comprar 15 sacos por quinzena. Uns 30 sacos por mês. Como é que eu posso dizer pro meu cliente: " Olha, você segura aí que eu vou vender 30 sacos por mês, pra você, pro café Floresta." O sujeito vai levar um ano pra vender a produção dele pro café Floresta. E se ele vender o primeiro lote de 30 sacas e depois não vender mais, e ele quiser mais 30 sacos, não ai ter quem venda. É muito complicado. Agora, é um café produzido sem agrotóxico, sem nada artificial, só com produtos orgânicos. Inclusive o seguinte: se ele é irrigado, não pode usar água do rio, porque a água do rio é contaminada. Então, ele precisa perfurar poço artesiano, analisar a água pra ver se é boa e aí pulveriza o café. Ele tem que ter uma faixa pra separar do café do vizinho que por acaso não seja orgânico. Para que ele pondo defensivo lá, não pegue no dele aqui. Então, a produção é muito complicada. E tem que ser autorizada, confirmada, ou pela AAO - Associação dos Agricultores Orgânicos ou pelo IBD - Instituto de Biodinâmica de Botucatu. Os dois dão o certificado. Mas leva três anos no mínimo, pra você conseguir transformar a sua fazenda em fazenda orgânica. Então, é complicado. E a qualidade, no gosto, não muda nada. Aí, é a qualidade da região. Se for um café fino, da Mogiana, orgânico, ele bebe muito bem. Se ele for um café da Sorocabana, aquele de Ourinhos ou da Zona da Mata de Manhuaçu, ele é orgânico, não tem agrotóxico, mas bebe mal. É ruim de gosto. É só pra gente, pra país muito rico: Inglaterra, Holanda... Os Estados Unidos agora está divulgando um pouco. Tem um mercado melhor porque é vendido muito mais caro. Essa questão do agrotóxico, eu acho que não faz mal. Eu estou com 73 anos, nunca tive nada e tomo 10 xícaras de café com agrotóxico todo dia. É que existe uma neurose nesses países mais ricos que dizem: "Não. Agrotóxico. Imagine. Só orgânico" Então, o sujeito só come alface orgânica, beterraba orgânica e café orgânico. Não sei se vai ver mais ou menos do que o que não toma esse negócio orgânico. Mas, quer coisa diferente, tem que pagar. Então, é muito mais caro. O café orgânico vende na gôndola umas duas vezes mais caro que o café mais caro que existe, comum.

PRODUTOS
Café gourmet Agora, o café gourmet sim. São cafés que nós já devíamos ter feito há muito tempo. O comércio do vinho é verdade que é muito mais antigo e com gente muito mais alfabetizada do que nós. Mas ele é um negócio sofisticadíssimo. Então vem o cara e diz: "Olha o bouquet." E segura com a mãozinha com o dedinho assim, pra tomar um cálice. Descreve aquele troço todo. Quem não entende muito não vê muita diferença entre um Chablis de 1932 com um Soterné, não sei o que. Não vê muita diferença. Mas, eles fazem aquela coisa toda e um vende por 50 dólares a garrafa e outro vende por 10 uma garrafa. É o que nós estamos fazendo agora. O vinho tem a região demarcada. Nós estamos tentando fazer isso: cafés de fazendas. Então, é um café da fazenda Bela Vista do Paraíso, 800 metros de altitude, Patrocínio de Minas, Zona do Cerrado, os cafés mais finos do mundo... Estamos fazendo essa sofisticação.E o café daquela região é realmente muito bom. Como eles vendem por um preço bem maior, ele não precisa botar conilon, que é um café vagabundo, robusta, no meio do negócio. Ele pode vender aquele café, daquela fazenda, puro, que vai dar uma bebida excelente. Vai até no saquinho a história da fazenda... A Fazenda Monte Azul, que é um cliente meu, está fazendo. Fazenda Monte Azul, de Mococa, a tantos metros de altitude. A fazenda foi do Barão não sei de que. Conta aquela história toda. Então, você vai ter um café realmente diferente. PRODUTOS Diferenças entre os tipos de café Porque existe a diferença no café. Você pega um café da Mogiana, faz bem forte, põe na xícara, ele tinge a xícara. A xícara fica escura. Você bebe e tem gosto de café. Quando eu fui pra Suíça, pra Genéve, pra representar a Federação - um dos meus filhos é comandante da Varig, então, eu não pago passagem, vou de Varig com passe dele - eu fui lá com um comandante amigo dele me recomendou e ele disse: "Onde é que você vai ficar?" "Não tenho lugar. Vou procurar um hotel." " Então fica no hotel da Varig." E fomos lá no Movanpic Hotel em Zurich. De manhã cedo fomos tomar café - aquela mesa de pães de tudo quanto é tipo, de salgados, de cereais, de tudo quanto é coisa. Uma beleza. Eu sentei e disseram: "Café au lait". Então veio um leite - aquele leite suíço, gordo, grosso e veio com aquele cafezinho água. Água suja. Transparente. Eu disse: "Vem cá, o que você está fazendo?" "Pondo café. O senhor não quer café?" "Quero café. Você está botando água no meu leite." " Mas como, o senhor não gostou?" "Não. Isso não é .... Você faz um leite tão bom como é o suíço, que é uma beleza, porque não tem água no leite, e depois você vem botar água no leite através do café." " Então não é assim?" " Não. Não é assim." " O senhor não quer ensinar como é que faz?" " Tudo bem." Então, quando terminou a hora do café, lá pelas 10 e 15, eles fecharam o café, nós estávamos batendo papo lá no saguão e voltei. Eu ensinei a moça a fazer café. "Faz assim. Põe tantas xícaras, tantas colheres." "Tudo isso? Eu só ponho duas colheres." " Não. Precisa por oito colheres;" Então, eu fiz um café como eu gosto. Café forte. Agora vem com uma demitace. Procuraram... só tem aquelas banheiras, só tem balde. Eles tomam aqueles baldes de café, mas água. Ela botou umas xicrinhas de café e servi. Ela tomou: " Soberb. Parece um licor." Aí chamou o chefe. Veio o chefe dela, veio um cozinheiro de chapelão, todo mundo tomar o café lá. Acharam aquilo uma delícia. Então, se o Brasil, em vez de ficar roubando dinheiro da turma, de tudo quanto é instituição, mandasse alguém honesto pra Europa, pros Estados Unidos, pra ensinar a fazer café, nós íamos triplicar a venda de café por ano. Porque, nos Estados Unidos, se você não pedir café expresso ou cubano, de Miami, vem aquele balde de café que é água suja. Se ele fizesse aquele balde com café, nós íamos triplicar a venda de café. Agora é que se está começando a tentar fazer essa venda de café gourmet, esses cafés especiais. Já existem umas associações nos Estados Unidos e na Europa, de cafés especiais. De maneira que agora talvez a gente esteja acordando pro problema. Porque a gente vendia o café de qualquer jeito. Depois o sujeito lá botava 10% de café verde, arábica de Minas, 50% de conilon e o resto café lixo, porcaria.

SANTOS
Década de 60 Tinha poucos edifícios. Muito poucos, porque eu vim pra cá em 59. A Anchieta terminou em 47. Tinha uns 10 anos de Anchieta. Com a construção da Via Anchieta, aumentou bastante a construção em Santos. Mas não da forma como está hoje. Foi devagarzinho. Antes da Anchieta tinha o Hotel São Paulo, o Olímpia, o Gironda, e uns três ou quatro prédios em Santos. Depois da Anchieta fizeram esse prédio Biaritz na esquina da Rua Santa Catarina com a Avenida Presidente Wilson, e eu morei lá, de 59 até 62. Em 62, eu comprei uma casa, onde eu moro hoje, no canal 4 e dei o apartamento como parte do pagamento e moro até hoje lá.

COMÉRCIO
Local onde prefere fazer as compras Sempre fiz as compras em Santos. Podia eventualmente, se estou em São Paulo, compro qualquer coisa. Mas nunca fui à São Paulo pra fazer compras. Sempre dei preferência pra Santos porque eu acho o seguinte: eu moro aqui, eu tenho que prestigiar as firmas de Santos, que trabalham aqui. Comprava no centro. Inclusive desde aquela época eu sou cliente do Camiseiro. Era uma firma tradicional. Muito boa. Naquele tempo tinha a Casa Lenk, Casa Alemã.Tinha casas magníficas. Casa Kosmos tinha aqui em Santos também. Tinha casas muito boas de comércio. Tinha roupa... Depois aquilo foi acabando, não sei, e hoje o centro está um desastre. 30% das lojas estão por alugar.

COMÉRCIO
Mudança do Centro para o Gonzaga Acompanhei a mudança do comércio do Centro para o Gonzaga. Se bem que eu acompanhei observando, mas não usando. Eu só entro em supermercado se for absolutamente obrigado. Minha mulher agora tem problema de artrose no joelho e um bico de papagaio aqui na coxo-femural e ela me pede pra fazer compra no supermercado. Então eu vou, mas sob protesto. COMÉRCIO Mercearias Eles acabaram com o merceeiro, com a mercearia, que era uma beleza. Você ia lá... Não precisava nem ir. Você telefonava pro cara. Casa Raya, Casa Natal. Telefonava: "Oi, como vai? Tudo bem Fernando. Olha, anota aí-priri, piriri, piriri... O feijão está bom?" "Olha, tem um mulatinho aqui que está ótimo. Agora o jalo esta..." O sujeito entendia da coisa. Você pedia arroz e ele dizia: Olha, não leva o arroz agulha hoje que não está muito bom. Mas eu tenho um amarelão aqui que está ótimo." " Então manda." Hoje você vai no Eldorado e nas outras empresas, o sujeito não tem noção que arroz é aquele. Vem tudo em pacote. Não vem mais em saquinho. Então, o sujeito pedia por telefone, eles entregavam em casa, você recebia a nota e ticava. Ia descarregando e ia ticando. " Tudo certinho?" Assinava pra pagar no fim do mês. Agora, você está com 50 paus no bolso. Compra compra, compra. A compra deu 52 reais. Então, tira a sua pasta de dente que não está dando. E você leva só os 50. Não tem vantagem nenhuma. Eu quando era pequeno e morava na Rua Mato Grosso - teve uma época que nós moramos na Mato Grosso, em frente ao Colégio do Estado, o Canadá - e ali onde está a padaria Washington Luis hoje, uma padaria grande no Canal 3, tinha uma mercearia. Minha mãe comprava lá na caderneta. Quando chegava no fim do mês eu pedia pra minha mãe: " Deixa que eu vou pagar lá." Então eu ia lá, ele somava aquilo e dizia : "É tanto." " Tá bom." Ia lá em casa e dizia: " Ficou em tanto." Levava o dinheiro e quando pagava a conta ele dava ou uma latinha de goiabada, ou um negocinho de doce de leite, ou um monte de balas ou chocolate. A gente ganhava sempre alguma coisa quando pagasse. Então eu gostava de ir lá pra receber o prêmio. Mas o comércio era muito mais tranqüilo. Você ia numa loja e era bem recebido.

AVALIAÇÃO
Mudanças da filosofia de vida Hoje, eu tenho a impressão que muito pouca gente gosta do que faz. Você vê que o médico está sempre reclamando porque o plano de saúde paga ele miseravelmente. Tem que trabalhar dia e noite pra poder ter uma vida razoável, de médico. Existe a mais-valia. Um médico não pode viver como um lixeiro. Ele tem que tem que ter alguma coisa, inclusive precisa ter uma casa melhor pra poder estudar. Então o médico está revoltado, o engenheiro trabalha e não recebe da Prefeitura. Está todo mundo... Eu não vejo ninguém que esteja satisfeito com o que faz, a não ser alguma coisa assim como seu caso, que é um negócio meio diferente, não é um serviço rotineiro, que é todo dia a mesma coisa. Você paga o sujeito que trabalha em banco. O sujeito ganha mal, está aborrecido, sempre irritado. Então, te atende mal, porque o sujeito está irritado. Mudou muito a relação das pessoas com a vida, o ambiente. Está todo mundo meio irritado, meio insatisfeito. Mudou quase tudo. Não foi só no café. Houve uma decadência de costumes, uma degeneração de costumes iniciado talvez, desculpe, pelo movimento feminista que foi mal entendido, então acharam que ser mulher era se igualar aos homens. Os homens estavam por baixo. Você tem que puxar o homem pra cima, não você descer pro homem. Então houve uma fase em que tudo era permitido. Então o sujeito roubar, fazer ponte, ser desonesto passou a não ser nada grave. Antigamente o sujeito... A firma dele estava pra quebrar, ele dava um tiro no ouvido, porque ele não agüentava voltar pra casa e enfrentar os filhos dizendo assim: "Eu quebrei." Hoje em dia, eu estive com um amigo que tinha uma firma de café, ele quebrou. Ele falou: "Não. Está beleza. O duro é só o primeiro cheque protestado. Depois do primeiro cheque protestado não tem mais problema." Ele disse que está muito bem de vida. A firma quebrou, mas ele ficou bem. Então, a qualidade do corretor, só do corretor não, do brasileiro. Não existe mais cultura, não existe mais... A televisão açambarcou tudo. Em vez de você procurar alguma coisa pra se cultivar, ele entra numa posição passiva. Ele senta ali e fica que nem um cretino olhando aqueles programinhas de Jô Soares, esses programas idiotas que tem aí. Quer dizer, ele fica se emburrecendo por inércia. Não quer ter o trabalho de pegar um livro pra ler. Então o sujeito não sabe. Se perguntar pra ele quem foi Shakespeare? "Sei lá. Não conheci esse cara. Não sei se ele é lá do meu bairro." Não entende nada. Então, a qualidade do corretor caiu muito, ficam dizendo palavrões o dia inteiro na Rua XV, berrando, brincando. A qualidade do comprador de café caiu muito. Depois, as firmas não têm mais o nome do dono pra garantir a coisa. Antigamente era Almeida Prado, Sampaio Bueno, Cunha Bueno, Esteves e Irmãos. O sujeito tinha o nome dele na firma. Ele tinha que zelar por aquilo. Hoje em dia são siglas, ou com café ou com exportação. Então, tem umas siglas e ninguém sabe nem quem é o dono da firma. Não existe mais ética não existe mais coisa nenhuma. O sindicato perdeu totalmente a força. Você vende um café. Chega o café. O mercado caiu, o café é exatamente igual. O comprador diz: "Não. Pra mim este aqui que eu comprei era duro e este que chegou é rio." "Então vamos fazer uma arbitragem. Mandar na Bolsa a arbitragem" Não aceita arbitragem. "O café está à disposição." Acabou. E não tem quem possa fazê-lo receber o café. O sujeito fica com o café numa outra cidade, vendido, sem ter recebido o dinheiro... os compromissos, e não tem nada. Por outro lado também, como retaliação o sujeito que já teve um problema, ele vende o café, o mercado sobe e ele simplesmente não entrega. Diz: "Não. Não vou entregar. Eu quero mais 10 reais senão não entrego." E não tem quem possa fazê-lo entregar. Porque não funciona. Então, as condições, aquele fio de barba, aquele sistema de confiabilidade do mercado, caiu muito. Houve uma decadência brutal.

VIDA ATUAL
Atividades atuais Desde que eu saí do tribunal, pela idade, aos 70 anos, em 97, o mercado já estava muito deteriorado e as despesas subindo e a receita caindo. Então eu disse: "Isso aqui não dura muito." Eu então comecei a fazer traduções e agora eu vou praticamente largar o escritório, deixar só na mão dos dois corretores lá do escritório pra ver se eles conseguem sobreviver, que é um a menos pra dividir, e vou me dedicar só à tradução. Eu traduzo de inglês, francês e espanhol. E faço versões de português pra inglês, só. Eu tenho diversas fontes. Eu não tenho tido muito tempo até agora justamente de me dedicar a isso. A Confederação Nacional do Comércio me dá toda semana um trabalho pra fazer. Da Confederação são versões. Eu passo de português pra inglês. Sempre. E de português pra espanhol. Tem uma firma, o Andreolli, que é uma firma de assessoria. Eles dão assessoria pra Embraer, pra Aol. Através do Andreolli eu fiz traduções muito grandes, inclusive esse problema da Embraer com a Bombardier, eu soube muito antes de sair no jornal porque eu é que traduzi, aliás, fiz a versão de português pra inglês, da defesa da Embraer perante a OMC, Organização Mundial de Comércio, porque, no fim os dois estavam errados, só que o Canadá estava mais errado. O Brasil financiava a Embraer através do Proer, que é um programa aberto. Todo mundo sabe que existe, quanto é que faz, e tal. O Canadá financiava a Bombardier através de uma conta secreta do congresso. Inclusive o negócio era enrustido. Ninguém sabia. Mas financiava. Mas, pela OMC é proibido que se façam financiamentos pra produtos exportáveis, de forma que eles se tornem sem competição. Quer dizer, que eles fiquem muito abaixo do preço, que os outros paises que fazem, possam concorrer. Tem algumas editoras, inclusive talvez amanhã eu receba um livro pra traduzir de uma editora em São Paulo.

COMÉRCIO
Lições de comércio Eu acho que apesar de todos os percalços, de você...Evidente que você sendo muito honesto não vai ficar muito rico. Mal e mal vai se manter. Mas eu ainda acho que compensa, porque meu pai morreu em 39. Os poucos que ainda existem da época dele, quando lembram dizem: "Pó, o Carlos era um grande sujeito." E eu vou pra casa todo dia absolutamente tranqüilo e tenho ainda o respeito e a amizade, o que é mais importante, de meus filhos todos, dos meus genros. Eu acho que, ainda que não vá deixar muito dinheiro, eu vou deixar um nome aqui na praça. Um pode achar que eu sou besta, que eu sou isto, que eu sou aquilo, mas ninguém pode dizer que eu tirei uma mosca de quem quer que seja. Eu acho que a honestidade ainda é a coisa que mais vale, e é do que o Brasil mais precisa, porque, se não fosse essa desonestidade o Brasil teria dinheiro... Saiu na Tribuna de ontem que tem aproximadamente 100 bilhões de dólares de brasileiros em contas lá fora. 100 bilhões de dólares. Isso é tudo dinheiro roubado. Então, a Prefeitura não tem dinheiro, Estado não tem dinheiro, Federal não tem dinheiro, ninguém tem dinheiro. Por que? Porque roubam demais. Então eu acho que o sujeito ainda tem que ensinar a seus filhos a que eles sejam corretos e que levem a mensagem a Garcia. Aquela famosa história do sujeito que levava a mensagem a Garcia. Não pergunta: "Quem é Garcia? Como é que eu faço?" E vai. Faça a coisa até o fim, e o melhor possível. Isso é que é o importante.

PRODUTOS
Associação dos Corretores de Café A Bolsa foi fundada bem antes, mas ela trabalhava numa sala pequena ali na Rua XV. Não me lembro bem. Essa aí não conheci. Em 1922 foi inaugurado o prédio novo. Eu não estava nascido ainda. Eu nasci em 27. Mas meu pai era corretor, naquela época, na Bolsa. Havia uma Associação dos Corretores de Café em Santos. Eu tenho as atas dessa Associação. Tinha 75 a 80 associados. Entrava um, saia outro... Era uma Associação fortíssima. Eles pagavam uma taxa sobre a venda de café na Bolsa, e quando morria um associado, eles pegavam o patrimônio da Associação, dividiam pelo número dos associados e davam um X que era daquele que morreu. Então, normalmente, eu tenho lá as datas em que foram recolhidas, o sujeito recebia um conto de réis para auxílio funeral e a viúva recebia em média nesses anos todos que ela funcionou, até 1923, 22, 23 contos de réis. Que o dinheiro era mil réis. Com 23 contos de réis você comprava uma belíssima casa, não na frente da praia, mas numa transversal da praia qualquer. Três quartos... Quer dizer, era muita bem organizada e muito respeitada. Então ela tinha uma força danada; fez os usos e costumes da cidade de Santos, do comércio de café, e o negócio era seguido. Depois aquilo foi transformado no Sindicato, em 33. Em 1933, a Associação virou Sindicato e continuou ainda com bastante força, evoluindo inclusive para época melhores até, de mercado em Santos. Nós tivemos algumas épocas em que o governo tinha que intervir no mercado porque tinha muito café produzido. Mas, sem problema nenhum ele entrava no mercado, comprava aquele café, o resto era exportado, e havia um dinamismo muito grande na praça. A Rua XV ficava lotada de gente fazendo negócios, entrega direta, Bolsa e tal. Aí, com a modernidade, com o negócio de comunicação que foi o que atrapalhou mais a coisa, foi caindo, caindo, caindo. A questão de impostos. Santos cobrava 5% de taxa de licença. Tinha lugar no interior que oferecia de graça. Então as empresas de Armazéns Gerais fecharam aqui e mudaram para o interior. As leis trabalhistas: o patrão nunca faz dissídios pra ver se baixa os ordenados dos empregados. O empregado é que faz dissídio pra subir o ordenado. Cada vez que ele faz dissídio, ganha mais alguma coisa. Então, foram criando tais e tantas vantagens, que o trabalho de ensacador, trapicheiro e arrumador ficou tão caro que as firmas resolveram ir para o interior. Santos que tinha mais de 17 Armazéns Gerais, hoje tem dois e só um deles funciona como armazém geral. O outro funciona só pra Stocleer, só pra uma firma. Então, começou a decair. A intervenção muito grande da Bolsa de Café fechou, porque houve uma época que o governo impôs um preço mínimo. Se houver um preço mínimo - a Bolsa, ela joga tanto com a alta como com a baixa. Então, o sujeito hoje comprou na Bolsa, ele pode subir ou pode cair. Se você tiver uma Bolsa em que ele não pode cair, só pode subir, a Bolsa não tem mais efeito. Porque ela não podia cair, abaixo desse preço o governo compra. Então, como é que vai funcionar uma Bolsa que não pode cair? A Bolsa perdeu o efeito em Santos e parou. Muitos anos depois, em 93, se não me engano, começou a funcionar de novo essa BMF, em São Paulo, mas com volume infinitamente menor do que o que tinha na Bolsa de Santos, antes dela parar.

SANTOS
Planejamento da cidade Eu só queria dizer que gosto muito de Santos... O nosso prefeito tem mantido as praias bonitinhas... Agora estão querendo tombar. Eu tenho a impressão que vai ser um desastre se tombarem as praias. O sujeito pra plantar uma árvore ali ou pra arrancar uma folha tem que pedir licença pro Condephaat. Então eu tenho a impressão que não vai funcionar. A praia, a cidade, maravilha, mas como não expande... Eu moro numa casa. Detesto apartamento. Ao lado morava um médico, numa casa. Ele a mulher e uma filha. Ele morreu e a mulher sem consultar os vizinhos vendeu a casa. E fizeram um prédio. Então, onde havia três pessoas, hoje tem 10 andares com dois por andar, são no mínimo oito por andar. São 80 pessoas, com, mais ou menos, 20 automóveis, quando tinha um carro só. Ficou terrível. Acabou com a minha região. E tirou luz, tirou sol, tirou tudo. Então, eu acho que Santos precisava repensar essa questão de querer crescer demais pra cima. Abre lá pro continente e vai fazendo os negócios pra lá. Pra que ficar aumentando a concentração de pessoas aqui no lugar. Santos é uma cidade pequena. Santos tem 450 mil habitantes, morando num "ovinho", tem 7 km daqui pra lá e 8 km daqui pra lá. Sttutgart tem 450 mil habitantes e é umas 10 vezes maior que Santos em área. Quer dizer, você tem espaço. Não tem aquele monte de prédios, um grudadinho no outro. Então, precisa pensar.

AVALIAÇÃO
Avaliação da Entrevista Interessante. É sempre gostoso poder desabafar um pouco do que você sabe e contribuir talvez pra que alguém se lembre das coisas que aconteceram em Santos. É sempre gratificante isso.

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