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História

“Cadê as mulheres dessa fábrica?”

História de: Maria Cristina Alvarez Batista
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Infância em Santos. Estudo em colégio de freiras. Escolha da profissão. Curso Técnico em Química. Estágio e efetivação na Volkswagen. Trabalho em laboratório de processos industriais, Vendas e Marketing, e Análise Instrumental.Treinamento na Alemanha. Mudança da Volkswagen Anchieta para Taubaté. Produção de veículos. Renascimento do fusca. Família. Grandes conquistas.

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História completa

 

R – Meu nome é Maria Cristina Alvarez Batista, nome de casada, eu nasci em Santos em 1958, tenho quarenta e quatro anos.

 

P1 – Você poderia falar um pouquinho da sua infância em Santos? Dos seus pais, dos seus avós.

 

R – Eu sou uma privilegiada. Eu nasci numa cidade maravilhosa, praiana. Eu sou completamente apaixonada por Santos e da minha infância..., eu tive uma infância feliz. Os meus pais bastante presentes, mãe e pai sempre conosco, eu tenho uma irmã também, com quatro anos a menos que eu, então nós somos muito assim... À tarde, papai chegava do serviço, a gente ia brincar na praia, ia passear no mar, então eu tenho uma ligação muito forte com o mar em virtude disso e uma infância feliz. Eu estudei em colégio de freiras, lá em Santos, no Colégio São José, um ensino um pouquinho rigoroso porque era por parte das freiras sempre rigoroso e depois disso eu fiz, num colégio de padres, um curso técnico de Química já tentando uma profissão. Que já na minha infância, eu me identifiquei com a área de Química que eu gostaria de seguir essa profissão, daí eu fui me especializar no curso técnico para ter início na profissão. Aí, no curso técnico de Química existia a necessidade de no último ano, no quarto ano você fazer um estágio e eu estive em Cubatão, nas indústrias próximas a Santos, e também em São Bernardo, na Volks, deixando o meu currículo para que fosse avaliado para um estágio e consegui um estágio na Volks e comecei em 1976 lá.

 

P1 – Só voltando um pouquinho de você falar o que seus pais faziam, se seus avós eram imigrantes ou não, como era Santos nessa época, se mudou muito.

 

R – Meus avós por parte de pai, meus avós são espanhóis, vieram muito novos para o Brasil e, por parte de mãe, meu avô era português e avó brasileira e santista também, então era todo esse conjunto de pessoas e se encontraram em Santos e as famílias moravam em Santos na época do meu nascimento. Você me perguntou mais alguma coisa.

 

P1 – Seu pai, o que ele fazia?

 

R – O meu pai era encarregado da guarda portuária em Santos e a mamãe cuidava da gente, da casa e também costurava um pouquinho nas horas que ela tinha tempo.

 

P1 – E a Química apareceu não era da família, essa coisa de estar estudando Química.

 

R – Foi bem uma interferência de uma irmã do colégio de freiras, ela lecionava Ciências e todas as atividades das aulas dela eram atividades práticas e isso começou a despertar em mim a curiosidade pelos fenômenos e os experimentos, eu já era muito pequena eu pedia para o meu pai de Natal: “Me dá aqueles tubinhos de ensaio e tal”. Comprava coisa em farmácia para ficar mexendo no quintal de casa, então eu sempre fui muito curiosa para essas coisas, daí nasceu a vontade de continuar estudando Química.

 

P2 – Você pode falar um pouco da juventude, como foi a juventude?

 

R – Santos na minha infância era uma cidade completamente diferente, calma, os moradores santistas, hoje a gente vê uma coisa meio misturada, o paulistano, principalmente, o idoso que se aposenta em São Paulo, ele desce a serra para morar lá, então já é uma cidade diferente, muito maior, muito mais cheia de trânsito, de horas de rush do que naquela época que a gente conseguia brincar na rua, jogar queimada. Então eu tive uma infância muito gostosa brincando com meus amiguinhos na rua mesmo e as lembranças são essas de praia, de diversão na praia tudo muito ligado ao mar, com meus pais sempre na praia também, então são essas as lembranças.

 

P2 – E a sua juventude?

 

R – O legal da minha juventude foi que nessa escola que eu estudei o curso técnico de Química. Os padres desenvolviam um trabalho assim de comunidade de jovens, então, logo que eu ingressei na escola, eu comecei a participar desse grupo de jovens da comunidade que eram jovens que estudavam comigo na mesma faixa de idade, um grupo, meninos e meninas, também um pouquinho diferente da escola da onde eu vinha anteriormente, onde havia anteriormente estudado que era uma escola de mulheres. Então foi muito gostoso poder ter esse período no curso técnico de Química com essa atividade extra que a gente chamava, porque sábados e domingos a gente passava com esse grupo na igreja e a gente fazia muita atividade tipo auxílio às pessoas carentes e desenvolvia um trabalho, além do que a gente se divertia muito porque sempre a gente saía muito, tocava violão, muita música e animação de pessoas próprias da juventude mesmo, então eu cresci nesse período com um grupo muito gostoso de amigos.

 

P2 – E quando você foi fazer o técnico em Química qual era a tua expectativa, para onde você acha que iria a tua carreira?

 

R – Eu não tinha ideia, eu gostava daquilo, eu sempre me encantei com tubos de ensaio e com os experimentos e talvez aquela curiosidade nata do ser humano mesmo de saber como são as coisas, de como se combinam as coisas, da onde a gente veio, para onde a gente vai, isso tudo tem a ver com os experimentos também, então eu me encantei com isso e eu quis conhecer melhor. Mas, na verdade, quando eu me formei, eu não tinha a ideia ainda qual seria a minha tendência, aonde eu gostaria de me especializar, enfim, o estágio que me foi proporcionado na Volks serviu para me abrir esses horizontes e também porque eu tinha dezoito anos quando eu fiz o estágio, dezessete para dezoito anos e acho que nessa idade não dava ainda para saber muito o que exatamente eu queria, eu sabia que eu tinha aquela tendência para os experimentos.

 

P2 – E você poderia falar um pouquinho dessa fase do estágio, como foi essa novidade?

 

R – Foi uma experiência única, então foi tudo como você mesmo falou, tudo novidade. O fato de eu estar trabalhando, o fato de que eu morava em Santos, eu tinha que viajar, me deslocar de cidade para outra cidade para eu poder exercer esse estágio. O fato de que chegando na empresa, aquilo era muito grande para mim. Nas primeiras vezes que eu entrei na Volkswagen em São Bernardo, eu me perdi, eu tive que ser auxiliada mesmo por algumas pessoas para me levarem para os lugares que eu tinha que fazer entrevista e tudo mais. E era tudo muito grande para mim, eu tinha aquela sensação de pequenez e ao mesmo tempo era um desafio que eu estava afim de que tudo desse certo e de enfrentar, então começa o estágio e de repente: “Cadê as mulheres dessa fábrica?”. Não existiam mulheres na área técnica. Isso no passado. Agora é mais comum você ver mulheres nessa área. E eu estranhei tudo isso, um ambiente extremamente masculino que exigia uma postura um pouquinho diferente de que eu tinha como pessoa, como estudante vamos dizer assim, uma postura mais séria, e foram coisas que eu fui enxergando só depois que eu comecei a trabalhar e vencendo etapa por etapa, tive dificuldades é claro, mas vencendo etapa por etapa, vencendo essas novidades.

 

P1 – Quanto tempo foi o estágio?

 

R – O estágio foi muito rápido, porque ele normalmente na Volks ainda é assim, é estágio de um ano em algumas áreas para você poder conhecer exatamente o trabalho, mas, no meu caso, houve uma oportunidade de efetivação após quatro meses, então foi um período muito curto. Eu logo fui efetivada e quis ficar na empresa, teve essa oportunidade, eu me candidatei e consegui a efetivação. Então foram quatro meses de início de estágio e aí já comecei como profissional.

 

P1 – E você continuou indo e vindo, continuou morando em Santos.

 

R – É a opção por Santos, eu estava complementando o meu curso, minha família estava toda na cidade e eu não tinha vínculos com São Bernardo e, a viagem em si, ela não era tanto problema para mim, ela era um pouco cansativa porque eu estudava. Enfim, eu preferia viajar e estar perto dos pais. Na minha casa eu achei que era mais tranquilo começar dessa forma e fui ficando e depois, com o tempo, também existiu a chance de morar em São Bernardo, mas eu resolvi ficar em Santos.

 

P1 – Você entrou em que ano?

 

R – Em 1976, foi o início.

 

P2 – E você fazia exatamente o que nesse estágio? Era um grupo, era você sozinha com um monitor, como é que funcionava isso?

 

R – Quando você se candidata, assim como um estágio você tem uma preferência de locais de trabalho e tal, mas, na verdade, você não escolhe, você é escolhido. Então eu fui entrevistada por algumas áreas e a área que eu fui escolhida era uma área de processos industriais que cuidava de laboratórios que aprovavam os materiais que estão dentro da empresa. Então existiam laboratórios de adesivos, massas, tintas, laboratório equipamento de proteção industrial nessa área de processos industriais. Eu comecei a estagiar em massas e adesivos e, já na efetivação, eu já fui para o laboratório de tintas e aí teve, também na efetivação, um período em que eu trabalhei, mas muito curto também, por seis meses na Volkswagen/Vemag, na Vila Carioca. Não existe mais esse prédio. E eu passei um período muito curto lá dentro do mesmo departamento. Foram seis meses após a minha efetivação. Lá era muito mais longe para mim, porque morava em Santos, tinha muito mais dificuldade. Logo que eu consegui um deslocamento para fábrica da Anchieta, eu retornei nessa área de laboratórios. Lá eu trabalhei com equipamentos de proteção industrial, adesivos, materiais vedantes e tintas. O que se faz nesse laboratório, o que se fazia naquele tempo: a Volkswagen trabalhava com materiais de análise que ela recebia, hoje ela já tem um outro sistema e nessas áreas existem muito menos pessoas. Naquela época, era comum os caminhões chegarem na Volks e a gente tirar amostra para testar o material. Hoje o conceito mudou, o conceito de qualidade assegurada, quando os fornecedores desenvolvem esse tipo de teste nas próprias fábricas e entregam o material pra Volkswagen, já dentro das especificações com asseguramento de que elas estejam em ordem e alguns testes são feitos esporadicamente por amostragem. Naquele tempo era mais trabalho para Volkswagen, para os técnicos de laboratório, era um grupo maior também.

 

P1 – Então tudo que chegava na Volkswagen tinha que ser testado por vocês?

 

R – Exatamente, para ser liberado passava por um crivo de fábrica. Esse conceito que mudou totalmente hoje em dia, não só na Volkswagen como nas empresas em geral.

 

P1 – E como foi essa coisa de trabalhar numa empresa, numa fábrica de carros, por que essa escolha e por que a Volkswagen?

 

R – Foi assim, uma coisa que eu sempre achei tem a ver com que eu quero, que eu gosto. É claro que é uma empresa que desenvolve muito mais para quem tem habilidade em Engenharia Mecânica, Metalúrgica, mas enfoca também nessas análises químicas, em componentes químicos que faz parte do seu processo. Então eu vi que existia uma pontinha nessa empresa que permitiria em desenvolver algum trabalho e por isso acreditei que daria certo. E também pela imagem da empresa, que eu como cliente ou conhecedora dos produtos Volkswagen tinha que é uma empresa séria, que tratava bem dos seus empregados e isso também, claro, você acaba optando por isso também.

 

P1 – E você ficou quantos anos aqui na Anchieta?

 

R – Eu fiquei vinte e um anos na Anchieta. E aí eu pensei que fosse ficar mais, mas surgiu uma oportunidade em Taubaté, não exatamente para mim. Eu sou casada com um funcionário da Volkswagen também. E para o meu marido foi feita uma proposta para ele se deslocar para Taubaté e, vamos dizer assim, eu fui de carona, porque também foi possível que eu fizesse uma transferência meio complicada porque, onde eu estava trabalhando na época, não existia vagas, eram diretorias diferentes. Foi meio complicado, mas acabou vingando. E aí foi possível que a gente viesse como família. Ia ficar meio complicado um em São Bernardo e outro em Taubaté.

 

P1 – E você está em Taubaté quantos anos?

 

R – Vai fazer quatro anos já.

 

P1 – Nesses anos todos de Volkswagen, você acompanhou várias passagens. Como você pode descrever, contar um pouquinho para gente esse desenvolvimento na sua área, desenvolvimento tecnológico Volkswagen?

 

R – É como você falou, são vinte e cinco anos já e eu vi muita coisa mudar. São várias etapas, uma das mais marcantes acho que foi a fase da Autolatina, uma fase bastante diferente do que vinha vivendo até então. E, o que essas etapas proporcionaram para mim como pessoa, eu acredito que foi o engrandecimento, porque mesmo na empresa, pelo fato de eu não estar trabalhando sempre no mesmo local, foram vinte e cinco anos, agora um pouquinho mais, de vários conhecimentos de diretoria de várias empresas, de várias fases, do avanço tecnológico entrando nesse eixo do tempo e tudo isso fez com que eu tivesse que me adaptar a essas diferenças. Então é um crescimento. Você vive em função daquilo, das novidades, você se aprimora, com isso você se molda e você cresce profissionalmente também. É assim que eu vejo.

 

P2 – Eu queria colocar naquilo que você tinha entrado, quando você entrou na Volkswagen, você teve que mudar, você falou: “Cadê as mulheres, não tem mulheres”, você teve que mudar essa postura, “Não posso mais ser como eu era, eu tenho que me tornar outra pessoa aqui dentro dessa fábrica”, eu queria que você falasse mais um pouco sobre isso, como era o teu relacionamento com as outras mulheres da fábrica, se vocês conversavam sobre isso, como que era?

 

R – Bom, era difícil ter com quem falar, Judith, era muito difícil porque onde eu trabalhava eram duas mulheres técnicas e três secretárias e o resto, uma equipe de cem pessoas, normalmente todos homens. Então era difícil a gente ter essa mobilidade de conversar muito de mulher para mulher, mas, é como eu te falei, não foi dificuldade, foi realmente o novo porque o homem tem uma postura um pouco diferente da mulher e eu também, talvez porque fosse imatura na época, entrei muito jovem e tal, e de repente a minha atividade era analisar materiais e esses materiais quando não estavam ok tinham que ser reprovados e eu tinha que apresentar essas reprovações aos fornecedores homens. Então não adiantava eu ser a Cristina boazinha, a Cristina de fora da fábrica que estava tudo bem, maravilhoso, amiga. Nessa hora, eu tinha que falar um não também e me impor como profissional e o trabalho foi exigindo essa mudança porque intimamente eu sou uma pessoa tranquila, calma e gosto de levar as coisas por esse lado. A fábrica exigia que eu desenvolvesse nessa personalidade minha uma coisa que eu não tinha, que era um pouquinho de agressividade também, então sem perder a ternura que até hoje eu tento fazer isso, mas às vezes eu preciso mostrar que você tem razão se afirmando mais fortemente, então eu tenho certeza que hoje eu sou muito diferente daquela menina que entrou lá com dezoito anos e que tinha uma visão da vida um pouquinho mais light. De repente, foi necessário que eu me impusesse também como profissional e eu aprendi a fazer isso com o tempo.

 

P2 – Tem alguma história que você lembre dessa época de alguma reação de alguém que você diz: “Bom, esse sujeito tá reagindo assim só porque eu sou mulher. Se ele fosse um homem ele não reagiria assim”?

 

R – Uma vez, no começo da carreira, que eu me lembre, teve um fornecedor que ficou muito bravo com uma segunda, terceira reprovação de um material. Eu já estava trabalhando com tintas e esse fornecedor ficou muito bravo com uma reprovação, já era a terceira vez que eu dizia que o material dele não devia entrar por isso, por isso, todos os testes tinham sido feitos e a avaliação estava clara, que realmente não deveria ser aberta nenhuma exceção e ele tentou colocar o dedo no meu nariz: “Não, porque é a terceira vez e tal”. E aí eu falei: “Não, eu não converso assim com você, eu acho que isso não é postura, por favor, vamos até a sala do meu supervisor e você vai falar com ele, porque eu não aceito você conversar assim comigo”. O supervisor na época era uma pessoa extremamente brava, foi totalmente ao meu favor, e colocou esse fornecedor no seu devido lugar. Disse realmente que não era forma de tratar com intimidação e tudo se resolveu. Então eu fiquei desconcertada na hora, intimamente. Eu tinha que começar a mudar. Então essa foi uma forma de mostrar que a Cristina doce não era só isso, tinha o lado profissional, na hora da mulher profissional ela tinha que ser respeitada e que eu não aceitaria intimidações, que eu me lembre foi a primeira vez. Uma situação também bastante chata foi uma vez que eu já era analista de assistência técnica na área de Vendas e Marketing, então nessa época eu visitava muito as revendas do Brasil inteiro e, principalmente, a gente fazia um trabalho focado aqui na cidade de São Paulo e tinha uma revenda, não sei se ela continua com essa característica de japoneses, toda estrutura dela era de pessoas japonesas, e eu fui conversar com o gerente de serviço da concessionária para atender alguns problemas de pintura. Era essa a minha atribuição, atender problemas de pintura no Brasil. E quando eu fui me apresentar como sempre fiz: “Ah, é você que veio fazer esse trabalho?”. “Sim, sou eu.” “Você trabalha na Volkswagen, onde na assistência técnica?” “Sim, eu trabalho na assistência técnica.” “Trabalha com quem?” Aí eu me apresentei. “Mas você é formada em quê?” Aí eu expliquei. “Quanto tempo você faz esse trabalho?” Eu tive que passar por um constrangimento de apresentar meu currículo para essa pessoa. Aí foi também bastante desagradável. Enfim, depois que eu passei por todo um interrogatório, ele deixou que eu visse o problema do veículo e até acabei pegando uma irregularidade que estava acontecendo na revenda e fiz ver que ele não deveria usar materiais errados e tal, que a Volkswagen não aceitava que trabalhasse na época, fiz um relatório para empresa a respeito disso, enfim, depois que ele viu o meu trabalho e tal daí para frente, quando a gente conversava por telefone, ele começou a me respeitar, mas esse primeiro contato também foi bastante difícil, depois passou.

 

P1 – Como foi essa sua fase de Vendas e Marketing das concessionárias, das revendas, de você fazer essas visitas?

 

R – Foi um tempo muito bom, eu não imaginava que fosse tão gostoso trabalhar nessa área, eu não imaginava na minha vida como química que eu iria ter essa possibilidade, foram coisas que foram surgindo e, de repente, deslumbrei que eu poderia trabalhar nessa área como profissional. Então eu saí do laboratório para concorrer a uma vaga nessa área, porque eu achei interessante também. Ia me dar uma dinâmica diferente do que eu fazia, daquilo que eu sabia. Então foi muito interessante. Foram dez anos que eu trabalhei nessa área de muito dinamismo. É uma área que te proporciona as viagens, o falar, por exemplo, você atender concessionárias do Brasil inteiro. Então de manhã você está falando com alguém em Porto Alegre, de repente entra uma ligação de alguém do Norte, Nordeste e o sotaque muda e até o jeito de mostrar o defeito muda, e essa diversidade é muito interessante. Você conhecer o Brasil inteiro do jeito que eu pude conhecer nesse período para avaliar os nossos veículos foi um presente para mim, porque isso sempre foi uma coisa que eu gostei de fazer, viajar, conhecer pessoas e culturas diferentes. Esse período de Marketing me proporcionou também isso. Profissionalmente deu uma abertura enorme no meu conhecimento porque desenvolveu também esse outro lado, que é versatilidade, que você tem que ter com um profissional dessa área, o jogo de cintura enorme, então foi mais uma coisa que acrescentou no meu período de Volkswagen bastante. 

 

P2 – Você poderia falar um pouquinho, Cristina, sobre essa equipe de técnicos que trabalhava nesse primeiro momento?

 

R – No comecinho, meu trabalho na Volks, era nesses laboratórios de processos industriais. Uma coisa bastante interessante foi que eu tive contato com alguns imigrantes que estavam trabalhando na Volkswagen nesse período. Era a estrutura já nossa, o gerente era alemão, porque existiam alguns alemães que tinham vindo para o Brasil também com essa formação técnica, e estavam trabalhando na área, e algumas pessoas de outras nacionalidades também, europeus como a minha supervisora na época, era italiana. Tinha uma senhora romena, enfim, tinha algumas pessoas que viveram a Segunda Guerra e depois, crianças, estudaram nos seus países e tal e depois vieram para o Brasil. Então era muito comum nos horários do almoço, depois do expediente, quando tinha os dias dos encontros, a gente se encontrava às vezes para conversar, enfim, saber destas histórias tristes. Então eu ouvia a história da Segunda Guerra Mundial, na visão dessas pessoas. Era muito comum a gente ouvir essas histórias tristes de abandono mesmo. Essa minha supervisora ficou muito tempo perdida da família dela, e uma outra pessoa também com quem eu tive oportunidade de trabalhar dentro da Volks falava que os pais deles conseguiram esconder o ouro que eles conseguiram obter durante a vida no quintal da casa para tentar preservar alguma coisa. E assim sucessivamente, muitas histórias, algumas pessoas com traumas pessoais visíveis, ainda nessa época, quando eu trabalhava lá. Então foi uma oportunidade que eu tive de ver os efeitos da Segunda Guerra na vida e no depoimento dessas pessoas.

 

P1 – Cristina, eu queria que você falasse um pouquinho da sua área, as transformações que a sua área foi sofrendo, o seu campo de trabalho ligado à Química, mesmo à pintura, qualidade, como que foi essa sua trajetória junto com o desenvolvimento da própria área, com a modernização?

 

R – A modernização trouxe uma gama de novos equipamentos, de tecnologia. Em todo esse tempo que eu trabalhei em laboratório – eu tive uma trajetória dentro desses laboratórios de processos industriais, trabalhei dez anos em Marketing e fiquei longe dos laboratórios; posteriormente, eu voltei para área de Análise Instrumental, para um laboratório que trabalha com emissões veiculares dentro da Engenharia. E aí eu levei um susto porque o tempo tinha passado e eu tinha um conhecimento dessas análises instrumentais. Mas eu precisei fazer “n” cursos de aperfeiçoamento em empresas para poder dar andamento às novidades que haviam chegado nesse espaço de tempo. Então, mesmo hoje dentro da empresa, o que se vê na Volkswagen é o mínimo de trabalho de análise química. Hoje nós compramos serviços, a maioria deles e o que existe ainda são trabalhos de desenvolvimento, uma parte de toxicologia, que ela é totalmente controlada dentro da fábrica e pesquisa de desenvolvimento, dentro da Engenharia também tem alguma coisa como esse setor que eu trabalhei, uma coisa muito específica. Mas análises químicas rotineiras como essas do passado, quando eu comecei a trabalhar na Volkswagen, hoje não são mais efetuadas dentro da empresa.

 

P2 – Essa sua volta que você diz que tomou um susto, você foi para um campo de trabalho que era emissão de poluentes, é isso, isso era uma novidade, isso já existia antes, quando que começa essa preocupação, você tem ideia com os poluentes?

 

R – Emissão de poluentes é legislado, então são feitas análises e a Volkswagen tem que ter essa estrutura para cumprir a lei, assim como outras empresas automobilísticas também, porque tem um número de elementos químicos que você pode, efetivamente, colocar na atmosfera. Isso é tudo controlado, existe legislação a esse respeito. Então, quando você lança um produto, todos esses levantamentos são apresentados aos órgãos governamentais para homologação dos veículos. Essas estruturas, não só na Volkswagen, como nas outras empresas, também existem. O que existe também, como é uma estrutura de desenvolvimento do produto, são esses avanços tecnológicos e aí esses instrumentos mais modernos fazem análises mais rápidas, vamos dizer, com menos dispêndio de tempo para empresa. Eles são introduzidos e foi por isso que eu acabei voltando para essa área de Análise Instrumental. De repente, a Volkswagen do Brasil se interessou por um equipamento que existia na matriz, um desenvolvimento da Siemens com a Volkswagen para análise de emissões não convencionais, que a gente chama que não é legislado. Esse equipamento seria utilizado em pesquisa dentro da Engenharia e era uma novidade. Eu tinha bagagem de Análise Instrumental e o interesse de conhecer essa área também. Aí as duas coisas casaram. Eu também fui aprovada nessa vaga e saí de Marketing para vir para essa área de instrumentação. E aí foi um susto porque eu estava preparada, eu tinha todo um conhecimento, uma bagagem técnica, mas eu não tinha atualização técnica necessária e aí foi colocado para gente: “Não, você vai fazer todos os cursos necessários, se atualizar”. Houve uma troca de tecnologia com Alemanha, daí uma outra oportunidade para mim, eu pude viajar, conhecer a matriz – foi a primeira vez que eu saí pra conhecer a Volkswagen. Foi nesse período de Engenharia. E depois receber também pessoas da Volkswagen matriz aqui para o meu treinamento. Enfim, foi um desafio colocar um equipamento novo, único da América Latina dentro da Volkswagen do Brasil para funcionar com todas as dificuldades de Brasil. Porque lá você atravessa a rua, você tem um fornecedor que te atende e aqui o fornecedor estava lá, enfim, foi um desafio bem bacana e também essa oportunidade de entrosar com a equipe da Alemanha também. A gente trocou muita figurinha nesse tempo que eu trabalhei lá, então foi mais uma etapa legal do meu trabalho aqui dentro da empresa.

 

P2 – Como é que foi lá na Alemanha?

 

R – Como é que foi? Eu estava assim, A viagem foi programada, então fui recebida por pessoas que sabiam que iriam me treinar para aquela atividade. A princípio, foram quinze dias e existe um bloqueio de ambas as partes, você culturalmente é diferente deles, mas, uma vez lá, você tem que criar maneiras para você entrar, fazer o contato e conseguir os seus objetivos. Graças a Deus, eu não tive problemas com as pessoas que me receberam. É claro que esse primeiro contato é sempre meio complicado, até a pessoa conhecer você, acreditar no trabalho que você está realizando. Eu levei vários materiais que eu já tinha, de coisas que eu estava tentando fazer aqui no Brasil e fui pedir ajuda mesmo; com toda humildade, fui pedir ajuda para aquilo que era novo para gente. E fui muito bem recebida, as pessoas extremamente técnicas, competentes. E, para minha surpresa, a pessoa que fazia esse trabalho, bastante assim em partner mesmo do meu trabalho, lá na Alemanha – seria exatamente a mesma coisa que eu desenvolvia no Brasil – essa pessoa era uma mulher, que tinha quase a minha idade, um pouquinho mais velha ou mais nova. E a gente se entrosou bem logo no começo. Nos demos bem e criamos um laço de amizade que até hoje a gente se corresponde. Eu já estive outras vezes na Alemanha e ela me recebeu. Aqui no Brasil, também, quando ela veio a gente pôde se aproximar mais e isso ajudou muito esse entrosamento entre as áreas e o fluxo de informações. A gente acabou ajudando a Alemanha em algumas pesquisas, por exemplo, álcool é um combustível que eles não conhecem, então nós acabamos ajudando nessa área e deles nós recebemos todo o suporte técnico necessário para incrementar essas análises aqui no Brasil. Então foi também mais uma conquista.

 

P1 – Cristina, você poderia falar um pouquinho dessa sua mudança da Anchieta, que é uma empresa grande para Taubaté que também é grande, como foi essa passagem?

 

R – Toda a minha trajetória dentro da Volkswagen, praticamente, foram vagas que apareceram, eu concorri, enfim, foram coisas que aconteceram mais para minha intenção de mudar, de buscar o novo, de buscar um aprimoramento, conhecer uma outra faceta dentro da empresa. Mas, essa eu fui pega, porque na verdade o convite foi, como eu falei, para o meu marido. Para que viesse desempenhar um cargo na empresa e eu tive que me adaptar a essa mudança. Então eu estava, na época, trabalhando na Engenharia da Volkswagen. A Engenharia é uma estrutura Volkswagen Anchieta, toda ela num prédio dentro da Volkswagen Anchieta, as pessoas recorrem à Volkswagen Anchieta para Engenharia. Não existem ramificações dela nas outras áreas. Então não havia possibilidade de eu me transferir da mesma área para Volkswagen Taubaté. Então pela experiência profissional que eu tinha foi possível como química, como conhecedora de pintura mudar para área de Qualidade que estava necessitando de um analista dentro da área de pintura, para processo de pintura. Eu conhecia processo de um outro jeito também, nunca havia trabalhado dentro da produção, então foram muitas mudanças. Eu mudei de diretoria, mudei de casa, mudei de Santos para o interior, enfim, foram mudanças radicais na nossa vida, mas muito interessantes também, em todos os aspectos. Para começar pelo sotaque, o pessoal no interior puxa o R e tal. Quem tem sotaque lá sou eu, não são eles. E a empresa é um pouquinho diferente também, as pessoas do interior, elas se relacionam diferente. Na Volkswagen Anchieta, a coisa é um pouquinho mais formal. Tá certo que depois de vinte e um anos de trabalho eu já tinha muita informalidade com todas as áreas também pelo conhecimento que eu tenho da fábrica, mas ela é muito mais formal pelo tamanho dela. Ela é uma fábrica gigantesca se comparada a Volkswagen de Taubaté e as pessoas são um pouco mais distantes. Então, você usa mais documentos para você começar a se relacionar e em Taubaté os documentos quase não existem, a conversa é mais direta, as coisas se resolvem mais rapidamente e isso foi uma surpresa agradável para mim. Por um outro lado, como eu falei, eu nunca havia trabalho no chão de fábrica. Hoje eu tenho um lugar de trabalho dentro da área de pintura. Hoje eu sento, tem um vidro na minha frente, eu vejo as carrocerias pintadas passando e só vejo isso, não tem janela para o verde, não tem muita coisa não. A gente vê o processo focado o trabalho no dia de trabalho mesmo. Então foi uma mudança radical, que eu estranhei bastante no começo e depois eu fui novamente me adaptando. O trabalho, ele é bastante dinâmico, porque cada dia você tem uma novidade para tratar. É uma fábrica assim de resultados muito rápidos, uma produção extremamente alta, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, então isso trouxe uma dinâmica diferente para o meu trabalho. De repente, eu estava na Engenharia, numa sala fechada, trabalhando com pesquisas de componentes das emissões veiculares, aí de repente eu estou dentro da produção da Volkswagen com tudo acontecendo, os problemas do dia a dia e você tendo que criar soluções para eles muito rápidas e é muito diferente a forma da sua cabeça tratar as coisas. Essa mudança também, ela acaba te acrescentando, te fazendo desenvolver algumas habilidades que você, às vezes, pode até ter, mas não está tendo necessidade de desenvolver. Então foi também uma nova adaptação. E a parte familiar. Nós antes estávamos em Santos, estruturados lá com as nossas famílias, de repente, nós mudamos para uma cidade onde não temos vínculo familiar nenhum; então isso também foi diferente e a gente precisou, como família, se estruturar bastante, se firmar bastante, principalmente, por causa do filho que sentiu essa mudança. Foi bastante radical para ele e a gente dá força para ele fazer essa adaptação. E, por nossa sorte, as pessoas da empresa nos receberam muito bem, nós temos amigos que estão todo o tempo conosco e dando esse apoio familiar necessário para que a gente se sinta em casa. Hoje, depois de três anos quase quatro, podemos falar que estamos em casa.

 

P2 – Você conheceu seu marido dentro da Volkswagen, como é isso?

 

R – É, não foi muito dentro da Volkswagen, posso dizer que foi por causa da Volkswagen que conheci meu marido. Quando eu comecei a trabalhar na Volks como estagiária, os estagiários não tinham direito de usar o ônibus da empresa porque ainda não eram funcionários, e Santos, por ser muito distante, tinha um limite de ônibus que já estava completo. Então a gente não poderia usar o ônibus da empresa. Daí, primeiro eu viajei de ônibus particular e procurei me informar se existiam pessoas que faziam carona todo dia, porque tinha muita gente que estudava em Santos. E eu acabei me entrosando com um grupinho que fazia essa viagem e dividia as despesas de carro e o motorista era o meu marido, que na época nós ficamos muito amigos e depois, no tempo da faculdade ainda, a gente acabou se encontrando como namorados.

 

P2 – Interessante isso, a Volkswagen...

 

R – É, meio Santo Antônio.

 

P2 – Cristina, esses anos todos que você viveu para Volkswagen, que carro te marcou o lançamento? Que, assim, você teve mais próximo.

 

R – O carrinho do coração é o Fusca, eu fiquei supercontente quando ele foi relançado. Bem, eu comecei com o Fusca. Eu fiz as minhas contas como estagiária não dava, depois fui efetivada, comecei a guardar um dinheirinho para dar entrada num Fusquinha. Eu fiz as minhas contas porque eu pagava escola e tal, mas dava para levar a prestação. Então eu tirei a carta com Fusquinha na Autoescola, aprendi a dirigir um Fusquinha. E aí eu comprei o meu primeiro Fusquinha e aí foi uma série, uma sucessão durante os primeiros anos de Fusquinhas. Trocava a cor, um era bege, outro era mais escuro, outro era branco e aí foi passando de Fusquinha em Fusquinha. A gente tinha essa facilidade de trocar de carro todo ano como funcionário, e esse carrinho fez parte dos meus primeiros anos de motorista, com todas as minhas barbeiragens, e ficou assim na minha memória. Depois, a fábrica resolveu que não iria mais produzi-lo. O carro ficou antigo e, de repente, chega o Itamar naquele ano e resolve que o Fusquinha seria muito interessante se voltasse e a fábrica aproveitou o gancho do momento lá e as vantagens também monetárias, no caso de ser um modelo mais barato e a gente viu acabar acontecendo uma coisa impossível, para nós como funcionários: que retornasse um modelo ultrapassado como o Fusca. Então foi o renascimento do Fusca. E para os saudosistas como eu, aquilo foi a glória. A gente ficou supercontente, porque além dele renascer, ele renasceu com algumas modernidades do processo que tinham acontecido com o passar do tempo. Então foi muito gostoso a gente ver o Fusquinha mais uns anos. 

 

P2 – Cristina, eu queria te perguntar, é uma pergunta que a gente está fazendo para todo mundo, já é um bloco final. Você acha que o Brasil seria diferente sem a Volkswagen?

 

R – Com certeza, quantas pessoas, famílias, a vida dos empregados que já passaram por lá e hoje ainda estão lá, quanto de participação no desenvolvimento do país. Se a gente pensar em termos de pessoas trabalhando diretamente ali, as famílias envolvidas no trabalho direto, sem contar fornecedores que cada vez mais, a fábrica enxugou de um lado, mas por outro lado criou essa terceirização e isso tudo hoje é uma estrutura, uma malha que se desenvolveu e trabalha nas famílias que dependem desse trabalho das pessoas envolvidas, já tem um fundo importante no desenvolvimento do país. Com certeza seria diferente.

 

P2 – E você que esteve na Alemanha, você acha que a Volkswagen do Brasil tem uma importância grande para Volkswagen mundial? Quer dizer, como é que você, como uma representante da Volkswagen do Brasil, foi recebida lá nesse sentido? Você falou inclusive da troca do combustível e do álcool, que houve uma troca entre você e a sua colega, quer dizer, como é que a Volkswagen do Brasil faz parte da Volkswagen mundial?

 

R – A gente tem uma participação importante dentro desse conglomerado que hoje é a Volkswagen mundial. Essa troca existe de forma geral. É claro que a gente ainda tem muito que aprender com o desenvolvimento da matriz, mas hoje a gente pode dizer que também podemos fornecer a nossa contribuição para todo o processo. De maneira geral, é claro, também em termos de dinheiro, vamos dizer assim, a Volkswagen tem um volume grande de vendas desenvolvidas aqui no Brasil e exportação. Tudo isso tem o seu significado na matriz e somos respeitados por isso também.

 

P2 – Nós estamos fazendo esse trabalho em função dos cinquenta anos da Volkswagen, qual você acha que foi o momento mais significativo nessa trajetória da Volkswagen nos cinquenta anos, qual que foi o seu momento mais significativo na sua trajetória dentro da Volkswagen?

 

R – O momento mais significativo dentro da Volkswagen, eu acho que eu repetiria esse momento interessante, um momento alegre que eu acho que foi o retorno do Fusca. Para mim dentro da história toda. E também muito importante foi a vinda da Audi para o Brasil. Um marco de tecnologia, de avanço, nós estamos orgulhosos por essa nova fábrica e por tudo que ela trouxe de avanço tecnológico para o nosso país. Os funcionários que trabalham lá estão tendo essa oportunidade de conviver com tudo isso, um produto de ponta realmente. A remodernização da Anchieta também foi um fator que eu considero muito importante dos últimos tempos, também por causa disso estão trazendo produtos para o Brasil de nível mundial. Então aquela defasagem tecnológica começa a ficar menor, a gente começa enxergar as coisas, não precisamos mais viajar para ver o novo aqui. A gente começa a ver o novo aqui dentro do nosso país. Isso é muito importante para gente.

 

P2 – E o seu momento mais importante?

 

R – Olha, são vários. Eu tenho, graças a Deus, nesse tempo todo de Volkswagen, vários momentos importantes para mim, pelo fato de ter construído ao longo desse tempo vínculos muito fortes com as pessoas dentro da empresa. Então eu tive, graças a Deus, chance de conhecer vários setores, em vários momentos diferentes, e várias pessoas. Isso proporcionou empatia e essas pessoas se tornaram minhas amigas. Então, os momentos de despedida, de uma passagem de um setor para o outro, sempre estão na minha cabeça. Eu estava olhando para fazer um histórico para vocês e recordei todos esses momentos marcantes para mim que são de passagens de áreas diferentes da empresa, mas o orgulho de ter essas pessoas permanecido na minha vida até hoje. E eu sei que vão ficar quando tudo passar.

 

P1 – Cristina, como você vê e como você viveu esses anos de vida essa cultura Volkswagen?

 

R – Olha, começou em 1976. Eu vejo assim: é como se aquilo fosse entrando dentro da gente pelos poros; a gente respira aquele ar, no começo sente a diferença, de repente você respira mais um ano, mais dois anos e mais três anos e vai entrando em você. E é difícil você estar numa rodinha e alguém falar alguma coisa de Volkswagen e você ficar quieta, você vai ter que dar a sua opinião. Você se coloca, ou defende se o caso é esse, e não dá para não se envolver. Então eu acho que, depois desse tempo todo, eu sinto que essa marquinha está comigo, deve estar em algum lugar, não sei se é aqui, se é aqui, mas está lá por dentro, entende? E fica mesmo. Eu percebo isso nas pessoas com mais tempo de casa. Também a gente passa a respirar assim e com a certeza que a empresa dá a imagem que ela passa pro consumidor também é real, de qualidade, de confiabilidade. Tudo isso a gente acaba introduzindo na nossa vida também e se posicionando dessa forma. É inevitável.

 

P2 – E isso acontece também com filho de dois volkswaguianos?

 

R – Acontece sim. O meu filho tem catorze anos agora e acho que, sem querer, a gente acabou passando um monte de “genezinhos” aí para ele. Não sei o que houve, mas desde pequeno ele tem lá os seus “cardzinhos” que falam de marcas e de veículos. Ele é muito interessado em automóveis. Há alguns anos atrás ele pediu para o meu marido de presente a assinatura da Quatro Rodas. Ele tem catorze anos, mas discute profundamente motorização, acabamento de veículos e enfim, ele está superentrosado com o ambiente automobilístico e gosta, então a gente acabou passando alguma coisa para ele assim.

 

P2 – O que você acha, Cristina, a importância de se resgatar os cinquenta anos de história da Volkswagen, especialmente, para vocês funcionários?

 

R – É você ver a coisa do começo novamente. A história é isso. É importante para as pessoas reviverem e para os novos conhecerem esse trabalho. Eu vejo que é bastante importante porque nos depoimentos vão ser repassados para as pessoas o sentimento de quem viveu esses momentos dentro da empresa. A história fica diferente, é uma história de envolvimento. Não é uma história somente contada para outras pessoas lerem ou saberem. Vai ser muito legal esse trabalho quando apresentado.

 

P2 – E como é que você se sente aqui dando esse depoimento, participando desse trabalho?

 

R – Eu fiquei muito contente, porque sendo convidada, meio encabulada como eu estou até agora porque não faz parte do meu dia a dia uma entrevista e falar em público assim, mas eu fiquei muito contente por saber que eu posso contribuir para esse trabalho e porque eu me sinto uma parte dessa bolachinha Volkswagen.

 

P2 – Você quer falar mais alguma coisa?

 

R – Eu acho que falei tudo, não falta nada não. O principal é isso. Quando você falou: “Vai recolher o material e tal para você ver o que vai levar”, eu comecei a olhar o que eu tinha em casa e o que foi acontecendo nessa trajetória toda. O maior orgulho desse tempo todo, além de ter crescido profissionalmente, claro, é esse: são as pessoas que ficaram comigo e estão comigo, isso é o meu maior tesouro.

 

P2 – Tá bom, a Volkswagen agradece e nós do Museu da Pessoa também.

 

R – Obrigada. 

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