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História

"Cada fábrica tem um pedacinho de história"

História de: Danilo Nogueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/05/2020

Sinopse

Infância e escola. Cursinho e faculdade de Engenharia. Convite da Votorantim. Cimentos Itaú. Montagem de fornos industriais. Momentos inesquecíveis e engraçados. Palestras. Família Moraes e administração do Grupo. Peculiaridades de cada fábrica. Gestão de sucesso.

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História completa

P/1 - Charles Silva

P/2 - Danilo Lopez

R - Danilo Nogueira



P/1 – Boa tarde, senhor Danilo, a primeira coisa que eu gostaria de saber é o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Danilo Nogueira, eu nasci em Carmo de Minas, Minas Gerais, em 26 de dezembro de 1942.

 

P/1 – Senhor Danilo, como chamam seus pais?

 

R – João Nogueira e Geraldina Carneiro Nogueira.

 

P/1 – O senhor pode falar um pouquinho deles para a gente? Como era o seu pai?

 

R – Meu pai era uma pessoa normal, assim, amistosa.

 

P/1 – O que é que ele fazia?

 

R – Era escrivão. E como toda a família que tem muitos filhos, são nove irmãos, então, eu acho que o pai fica muito dividido para muita gente. Uma família menor como a gente vê hoje, onde o cara tem dois filhos, eu acho que a tendência é dar mais atenção - quando [se] tem muitos filhos, tem que dividir para muita gente. Então pode parecer, assim, que as famílias de antigamente não davam a atenção que se dá hoje, mas era uma pessoa atenciosa, mãe super carinhosa. A gente morava numa cidade que não tinha nenhum parente na cidade, os parentes moravam numa cidadezinha que hoje é vizinha - hoje, essa cidade está à 15 minutos de carro, ou meia hora de carro, mas, naquela época, eram 6 horas de ônibus, então a família praticamente viveu mais ou menos isolada, não tinha parentes lá. Isso é um fato, não quero dizer que isso influiu alguma coisa, mas é um fato que eu destaco dentro da sua pergunta.

 

P/1 – E como que é que era essa cidade?

 

R – Do jeito que ela era ficou até hoje. (risos) A cidade tinha 10 mil habitantes em... Eu tenho 60 anos, ela ficou do mesmo tamanho. Essa cidade já foi, há 100 anos atrás ela tinha escola superior lá, tinha quatro agências bancárias. Hoje, ela tem uma agência bancária. E eu para fazer o curso ginasial, tive que sair de lá, a cidade que cresceu igual rabo de cavalo, cresceu ao contrário. Mas uma cidade, para quem conhece o sul de Minas, é interessante, porque tem um monte de cidade tudo pequenininha, tudo descoladinha. Tudo muito limpo. Não tem pobreza, todo mundo tem uma casa arrumadinha, tem água. Ainda é assim até hoje, apesar dessa época difícil que nós estamos vivendo. Você pega aquelas cidadezinhas todas pequenininhas, todas elas têm um padrão de vida que eu considero muito bom. A pessoa que tem a pior casa, tem uma casa coberta, rebocada, com água, com luz e tudo direitinho.

 

P/2 – E por que o senhor imagina que essa cidade está decrescendo?

 

R – Porque é uma cidade que depende única e exclusivamente de café - um pouco de agropecuária de leite. E o café, como o cacau também, ultimamente sofreu baixos e baixos, então o faturamento, vamos dizer assim, do município sempre foi pequeno. Hoje em dia, por exemplo, eles estão produzindo café mais do que nunca, mas o preço é muito baixo, então a margem que fica na cidade sempre foi muito pouco. E o pessoal, como eu, por exemplo, que tive chance de estudar um pouquinho, você não tem o que fazer lá, tem que cair fora.

 

P/1 – Como que era o cotidiano na casa do senhor, Sr. Danilo?

 

R – Todo mundo na minha casa - porque lá não tinha ginásio, todo mundo fazia o primário lá e ia para fora.

 

P/1 – E qual a primeira memória que o senhor tem do período escolar?

 

R – Eu tenho uma coisa interessante, que quando eu tinha 6 anos entrei num colegiozinho lá, pequeno, e depois para você entrar no colégio estadual tinha que ter 7 anos, então eu entrei com 6 anos no colegiozinho, porque meu pai podia pagar, e desse colegiozinho só fiquei um ano e, depois, como o colegiozinho acaba, eu fui para o colégio estadual. Mas foi interessante que era um colegiozinho pedante, ensinava às crianças francês. Mas, poxa, francês para menino de 6 anos? Ensinava um pouquinho. Agora, uma curiosidade: tudo que aprendi, nunca mais esqueci. Por exemplo, quando converso com alguma pessoa [e] o cara fala francês, eu lembro daquelas palavrinhas. Se eu passar um mês na França, tenho certeza que falo francês, porque ficou, não sai mais.

 

P/1 – Aí o senhor fez o primário na sua cidade, e aí foi para que local para fazer o ginásio?

 

R – Mas, por isto que eu fiquei emocionado, porque todo mundo da família tinha que fazer o ginásio fora. Então, com 10 anos, todo mundo tinha que sair de casa. (emocionado)

 

P/1 – E foi muito difícil para o senhor ter que sair de casa. E aí o senhor foi para onde?

 

R – São cidades muito perto ali da região, tinha Lambari, que está lá até hoje, e Cruzilha. Eu fui estudar nessas cidades, fiz lá o ginasial. Depois eu fiz o colegial em Itajubá, que tem uma escola de engenharia muito antiga, onde eu estudei, e lá eu fiz faculdade. Mas a família inteira, todo mundo quando enteirava, sei lá, 11 anos de idade, tinha que sair, e isso era muito ruim.

 

P/1 – Isso era o que deixava toda a família entristecida. E aí são nove irmãos, o senhor é o filho...?

 

R – Do meio.

 

P/1 – O senhor é do meio, então, já outros irmãos do senhor já tinham ido para fazer essa experiência?

 

R – E o pior era o seguinte: você ia em janeiro e voltava em julho, depois ia no começo de agosto e voltava em dezembro, era muito ruim.

 

P/1 – E como que é que eram as férias quando todo mundo se reunia?

 

R – (chora)

 

P/1 – E em relação, voltando a escola...

 

R – Precisa falar?

 

P/1 – Não precisa. Em relação a escola, como que era a relação humana dentro da escola? Onde o senhor ficava, como que era?

 

R – O colégio interno, naquela época, era uma coisa muito complicada porque era um regime meio ditatorial. O colégio pobre, geralmente, o pessoal que tomava conta dos alunos, era gente da cidade lá, eram balconistas que não tinha nenhuma formação pedagógica, então o tratamento era meio na porrada, de vez em quando, dava cascudos uns nos outros. Mas isso não me machucou, nunca tive problemas com eles, aqueles meninos bem alterados de vez em quando levavam uns cascudos por lá. Mas, eu quero dizer, que o nível de ensino era muito bom, o nível das pessoas que administravam a gente não eram [de] pessoas preparadas, mas era o que tinha, infelizmente. 

 

P/1 – Como é que, assim, no período escolar, o senhor acabou se interessando por qual área?

 

R – Eu sempre gostei, tinha muita facilidade para língua, porque praticamente eu aprendi um pouco que eu sei de francês, de inglês sem nunca ter estudado, só de conversar. E depois, devido à habilidade com matemática, com física - eu dei aula de física futuramente -, aí engenharia ficou claro. Não tinha assim muita dúvida, igual têm pessoas que chegam certa hora da vida que falam: “Para que lado eu vou? Faço medicina, faço isso, aquilo?” Eu não tive dúvidas nenhuma, para mim foi direto e reto.

 

P/1 – E teve algum professor que o senhor se lembra, que tenha despertado esse interesse por matemática e física ou era algo que...?

 

R – Era mais ou menos nato, facilidade - você pega e entende. A matemática, a física é uma escadinha, se você sobe um degrau de cada vez fica muito fácil, é coisa lógica, fácil de aprender.

 

P/1 – E aí, terminando o ginásio, o senhor já foi direto para o vestibular? O senhor foi direto fazer a faculdade de engenharia?

 

R – Porque lá, naquela época, era muito concorrido, eu fiz vestibular e eu tive a infelicidade, quando eu fiz... Durante o primeiro e segundo colegial, eu era um dos melhores alunos da sala, [mas] quando eu fiz o terceiro, fiz o exército junto e aí não tinha tempo de estudar, eu ficava no exército o dia inteirinho. Eu morava no quartel, acordava 6 horas da manhã e ia para aula, terminava coisa do exército às 6 horas, mais ou menos, jantava, 7 horas [da noite] saía a pé, andava 3 quilômetros para ir para o colégio, assistia aula, voltava às 11 da noite, chegava no exército, no quartel às 11 e meia, ia dormir, acordava no outro dia de novo às 5 e meia, então não tinha tempo nem de dormir. Então quando eu fiz o terceiro ano, fui muito prejudicado. Peguei um ano de terceiro ano inteiro no exército, aí não passei no vestibular. Chegou no final do ano, meu pai não tinha condições de me manter lá fazendo cursinho, aí eu perdi um ano. Fiquei um ano em Minas lá tentando estudar, mas não foi legal. Aí, no outro ano - eu tenho um irmão que trabalhava em banco, ele bancou para mim um cursinho lá -, aí eu fiz passei e fui embora. Logo que eu passei no vestibular, arrumei um emprego, comecei a dar aula [e] aí seguiu.

 

P/1 – Como é que foi essa experiência de aluno a professor?

 

R – Foi a coisa mais espetacular, porque hoje em dia na Votorantim, devido a minha experiência de tantos anos na parte técnica, eu faço muitas palestras, treinamento para pessoas mais novas, e quando tem uma chance - eu gosto muito de fazer isso. Devido aos 3 anos de professorado, eu me sinto muito à vontade, gosto sempre de brincar com as pessoas nas palestras. Em geral, quando tem as reuniões da Votorantim, o cara vai falar alguma coisa, [se] planta num canto com uma estátua lá e “ba ba ba...”. Aquilo é um negócio doído, é cansativo. Eu já chego logo mexendo com todo mundo, brinco, conto uma piada no meio, faço um desenho gozado, inverte a apresentação, sempre [para] dar uma agitada. Eu gosto muito de fazer isso, graça aos 3 anos.

 

P/1 – E o senhor enquanto professor, era considerado um professor rígido?

 

R – Não, eu nunca fui rígido na minha vida. Eu não fiz carreira profissional, assim, hierarquicamente, administrativamente falando, porque eu não tenho, sabidamente eu não tenho esse dom de rigidez. Assumo isso perfeitamente, é o meu jeito de ser, eu desenvolvi mais no lado técnico, carreira paralela. Desenvolvi porque é aquilo que eu gosto, estudei e não perco chance de pesquisar na internet, ler livros e revistas sobre essa parte de cimento - que é o meu forte. Mas ser rígido, ser um cara durão, cobrador, sargentão, isso não faz meu gênero.

 

P/1 – O senhor dava aulas de física?

 

R – Dava aulas de física.

 

P/1 – E como que começou, o senhor deu aulas, aí já entrou direto... Terminou de dar aulas e foi para onde? 

 

R – Eu terminei de dar aulas quando terminei o curso de engenharia. Quando eu terminei o curso de engenharia, naquela época, em Itajubá, o pessoal do grêmio convidou o Dr. José Ermírio para ser paraninfo nosso. Ele era presidente da Fiesp, uma pessoa de destaque em São Paulo, então o pessoal queria pegar uma personalidade e convidou o Dr. José Ermírio. E o Dr. José Ermírio foi lá, foi nosso paraninfo, fez um discurso e, naquela época, em 79, a indústria de cimento estava crescendo assim vertiginosamente. Se vocês olharem a produção de cimento no Brasil entre 65 até... Sei lá eu, talvez 75, mais que triplicou, foi uma coisa absurda. Nós estamos produzindo a mesma coisa de cimento desde 99 até hoje, estamos produzindo a mesma coisa, 40 milhões de toneladas por ano. São, sei lá quantos anos, 4 anos a mesma coisa. E naquela época lá - os números, não tenho muito certinho de cabeça -, mas de 65 a 75, se fosse 40 foi para 100, então teve um "boom" danado. Aí o Dr. José: “Olha, se alguém se habilitar a trabalhar comigo, está convidado”. E quatro pessoas foram. Naquela época, tinha emprego de montão. E eu sempre ouvia falar da Votorantim, uma empresa certinha, tudo mais, e eu resolvi, fui lá na Praça Ramos. Então, sabe de uma coisa: “Conversa com Dr. Jorge Lima aí...”. Os quatro que foram, ele mandou um para os metais... “O que você quer fazer, quer ir para o cimento? Então está bom. Quer ir para os metais, então vai”. Porque tinha... Naquela época, as grandes empresas iam lá entrevistar as pessoas, para selecionar, para trazer. Botavam lá: “Eu quero 10...”. Tinha uma tradição de eletricista, Itajubá, apesar de que é uma cidade pequena, mas a escola de engenharia de lá tem 100 anos, uma escola muito antiga. Tinha um político famoso na região lá que trouxe uns alemães e fundou uma escola de engenharia em 1900, mais ou menos, que formava sete, oito alunos por ano. É uma escola, apesar de ser uma cidade pequena, muito tradicional. Durante muitos anos, se você olhasse quem trabalhava na CESP [Companhia Energética de São Paulo], na CPFL [Companhia Paulista de Força e Luz] era tudo gente formada em Itajubá - tinha muita projeção. Eu quero dizer o seguinte: naquela época, tinha muita oferta de emprego, Petrobrás... Você escolhia, mais ou menos. Foi aí que começou.

 

P/1 – Esse evento de formatura aconteceu em Itajubá e na sequência, o senhor já veio para São Paulo?

 

R – Ah, direto. Eu [me] formei lá em dezembro [e] dia 8 de janeiro comecei a trabalhar na Votoran.

 

P/1 – E como foi a chegada em São Paulo, o senhor se lembra?

 

R – Olha, isso aqui é um depoimento, acho que a gente tem que falar tudo, depois vocês cortam aquilo que for inconveniente, mas foi tão gozado porque...

 

P/1 – O senhor ficou apreensivo no primeiro momento?

 

R – Não, porque um camarada que saiu de casa com 11 anos de idade, não tem mais medo, acostumou a se virar sozinho, então qualquer lugar você se vira. Mas foi gozado porque eu cheguei em Sorocaba - e só lá em Sorocaba que pega o ônibus para Votorantim -, peguei o ônibus - ele vai para a Votorantim e depois Santa Helena -, eu estava aprendendo, querendo saber se demorava para chegar, aí eu perguntei para o motorista: “Está longe para chegar na fábrica?” Ele falou assim: “Você está vendo aquela nuvem de poeira lá embaixo? É lá”. (risos) Você não via nada, rapaz. Tinham sete fornos, seis fornos não tinham filtro, então era uma emissão.... Aquelas chaminés jorravam por dia, mais ou menos, 150 toneladas de pó por dia. Você andava assim [e] no fim do dia o seu cabelo estava branco, aqui para baixo do bonezinho. Nem capacete a gente usava, [era] um bonezinho, então ficava tudo branquinho de tanto pó que tinha. Eu respirei aquela porra a vida inteira e também nunca ouvi falar que alguém lá tivesse problema respiratório - quem tinha problema respiratório lá era de cigarro, mas de pó de cimento mesmo... Porque o pó de amianto é terrível, mas pó de calcário, se alguém falar que faz mal, eu sou memória viva, que eu passei a vida inteira respirando essa porcaria e... Felizmente, agora não tem mais, hoje em dia tem filtro para tudo quanto é lado, acabou o problema, mas, naquela época, não tinha essa exigência. Não esqueço disso: “Está longe, está vendo aquela nuvem lá? É lá que é a fábrica”.

 

P/1 – E como é que foi esse primeiro dia de trabalho?

 

R – Aí você está apreensivo, porque todo mundo sabe como é estudar, mas não sabe como é trabalhar, fica: “Como que será que é trabalhar?” Mas, naquela época, tinha um engenheiro de minas, que é o Nildo - não sei se já passou aí.

 

P/1 – Passou.

 

R – Tinha um [engenheiro] civil e eu. Então me jogaram para trabalhar na montagem [e] eu fui aprender. Tinha um monte de dinamarqueses, sempre tive facilidade para comunicar com as pessoas e o pessoal também era bom, então todo mundo ajudava, não teve o menor problema. Foi muito tranquilo, aprendi para burro lá. Trabalhava bastante também, lá a gente trabalhava sábado até às 3 [da tarde], depois que eu passei para a manutenção, aí tinha plantão também. Então, tinha mês que folgava um domingo por mês, mas quando folgava era bom.

 

P/1 – Aí você já entrou na área de manutenção?

 

R – Não, era projeto. Naquela época, estava montando o maior forno do Brasil de cimento, que hoje é forno 1 de lá, um forno de 2 mil e tantas toneladas por dia. Eu entrei e fui trabalhar nesse projeto.

 

P/1 – E como é que foi o seu desenvolvimento lá dentro da Santa Helena?

 

R – Foi muito bom pelo seguinte: eu não conhecia nada do assunto e, naquela época, todo equipamento era importado, e [por causa disso], tinha um monte de dinamarqueses lá que vinham para montar, como vem até hoje. E os dinamarqueses não falavam lhufas [nada] de português, aí eu tinha que falar inglês sem saber. Daí que eu aprendi inglês na marra, falando lá. Então tem uma vantagem de que aprendi para burro do negócio que eu estava entrando com gente que conhecia muito bem, tem a vantagem de ter aprendido inglês de conversação, e ali... Que os dinamarqueses eram pessoas muito boas, muito alegres, são meio ao contrário dos suecos, dos nórdicos, em geral - os nórdicos são meio frios, mas os dinamarqueses são muito alegres, beberrões. Se é para trabalhar, trabalha duro, mas se é para divertir, aí é com eles mesmo.

 

P/1 – E você tem alguma imagem dessa época, dos trabalhos que você realizou com os dinamarqueses, alguma memória?

 

R – Do trabalho, histórias engraçadas tem às cacetadas, eu sou o maior colecionador de histórias engraçadas.

 

P/2 – Conte uma.

 

R – Mas os dinamarqueses, todo dia... No trabalho, a nossa vida era certinha, tudo você tinha que pegar as peças importadas, tirar da caixa, descobrir aonde ela ia, colocar na frente do trabalho, pegar os manuais de instrução, chamar o pessoal da montadora, explicar para eles: “Olha, você tem que montar assim, a tolerância é essa e tal”. Esse trabalho a gente fazia o dia inteiro, mas terminava o trabalho, a gente morava na... Tem um lugar perto da fábrica que chamava Fazenda, lá tinha umas seis casas de cada lado da rua e um casarão de hóspedes do outro lado, eu morava nesse casarão sozinho. E os dinamarqueses, acho que tinha umas três ou quatro famílias que morava lá, que eram casados - o resto morava em Sorocaba -, e todo o dia tinha um futebol lá, Brasil e Dinamarca. Era uma gozação danada, o Nildo conseguiu quebrar até o tendão de um cara - o Nildo era ruim demais de bola, demais, deu um chute aqui e quebrou o tendão do pé do dinamarquês, uma catástrofe. Uma história que eu lembro do dinamarquês, que tinha um... Todos eles são beberrões, todos eles aguentam muita bebida, nunca ficam alterados. Sempre mantém a linha, mas bebem para caramba. E teve uma vez que nós fizemos um churrasco, e esse que bebia e era mais resistente, o pessoal falou: “Nós vamos derrubar esse cara hoje”. E aí demos caipirinha para ele, levou um caneco de chope, ele era meio barrigudo, segurou o caneco e a turma foi tacando chope nele, e ele foi bebendo. Depois de umas quatro horas de chope, uma hora ele botou o caneco para acender o cigarro, ele estava tão bêbado que ele ficou com a mão assim, olha, sem o caneco. Depois ele chegou: “Cadê o caneco?” Errou um pouquinho a mão. Esse camarada uma vez foi tomar cerveja com o colega quando ele chegou no Brasil, os dois beberam 60 garrafinhas de cerveja Ouro Branco e saíram normais, normais, era uma coisa...

 

P/2 – Era com eles mesmos.

 

R – Era com eles mesmos.

 

P/1 – E Danilo, você ficou na Santa Helena até quando?

 

R – Fiquei até 71, [quando] eu tive uma oportunidade de trabalho muito boa na Cimento Itaú.

 

P/1 – Como é que foi, como você foi para a Cimento Itaú? Como foi essa trajetória?

 

R – A Cimento Itaú era concorrente da Votorantim na época. E a Cimento Itaú estava montando uma fábrica lá em Brasília e estava precisando de gente com experiência em montagem de fábrica - e eu tinha acabado de montar uma. Então o pessoal da Itaú arrumou uma visita lá na Votoran para ver o forno novo que tinha sido montado. E na conversa lá, o camarada me ofereceu um monte de dinheiro para passar para o outro lado, mais que o dobro do que eu ganhava. E aí, como eu já tinha terminado a montagem, já estava na manutenção, que eu não gostava muito - tanto é que trabalhei em manutenção na minha vida só um ano e meio na Votoran - me chamou para voltar para projetos, aí eu voltei. Fui para Cimento Itaú, montei fábrica lá em Brasília, depois nós desmontamos um forno em Minas, montamos em Corumbá, depois montamos um forno de cal em São José da Lapa - tudo isso na Cimento Itaú. Até que chegou em 75, mais ou menos meados de 75, a Itaú tinha crescido demais, ela investiu demais e estava com problemas financeiros, e não tinha mais projetos. Aí me demitiram, me mandaram embora. Eu saí, fiquei fora de meados de 75 até meados de 78. Trabalhei numa empresa de Sorocaba que mexia com britadores, equipamento do nosso negócio mesmo, que eu aprendi muita coisa lá e foi muito bom. Depois fiquei um tempo na Fula, que é uma empresa americana que também fazia equipamento para cimento, felizmente. Fiquei lá um tempo até que - [em] 78, a Votorantim já tinha comprado a Itaú, comprou a Itaú em 76. Em 78, eles me chamaram de volta. Aí eu voltei e fiquei até hoje.

 

P/1 – Na Itaú, você voltou para a área de projetos, ficou na área de projetos esse período todo?

 

R – Sim.

 

P/1 – Pensando nesse período da Itaú, qual foi o desafio maior que você teve dentro da Itaú?

 

R – Na Itaú, eu tive bastante [porque] tive que montar uma... Primeiro, um deles, a gente desmontou uma fábrica aqui no sul de Minas, Itaú de Minas. Se você vai para o lado de Mococa aqui em São Paulo, São Sebastião do Paraíso... É perto de Furnas. Nós desmontamos um forno lá, botamos no trem e montamos ele lá em Corumbá, por nossa conta e risco, sem usar consultoria de gente de fora. É um certo desafio porque a gente sempre trabalhou apoiado por eles, e esse nós fizemos sozinhos. E, também, para colocar esse forno em cima do trem, tinha que cortar em pedaços porque tem muita curva fechada em lugar que faz corte da ferrovia em pedra, porque se cortasse muito grande, eles esbarravam, então tinha que calcular. Percorremos o caminho para saber as distâncias máximas que podia cortar, cortamos o forno, carregamos no trem de Minas [e] demorou dois meses para chegar em Corumbá. Chegou lá, descarregamos, montamos, botamos para funcionar que foi uma beleza. Depois, eu tive outro trabalho interessante que foi... Eu tomei conta de uma montagem de uma fábrica em Itaú de Minas e eu era responsável por tudo, desde a concepção do projeto até o final. Foi um forno já grande. Eu fiquei nessa brincadeira de 80, mais ou menos, até 84. Aí depois me mandaram para Salvador para montar um outro forno lá, aí o forno não saiu, mas saiu uma outra obra lá que era um negócio de lavagem de calcário. Cimento em Salvador é feito com conchas marinhas, sabe essas conchinhas? Aquilo é carbonato de cálcio, igual osso, e carbonato de cálcio é matéria prima de cimento. Então a gente tirava aquele troço do fundo do mar, aquelas conchas, moía e fazia cimento com aquilo. Então fiquei lá em Salvador dois anos e meio, quase três anos trabalhando com esse projeto. Mas o mais pesado que eu tive, em termos de responsabilidade, foi esse de Itaú de Minas, que era responsável por um projeto como um todo, uma coisa, em valor de hoje, assim em dólares, vamos falar assim, em torno de 100 milhões de dólares, mais ou menos.

 

P/2 – A tecnologia dos fornos era importada?

 

R – Agora, é uma coisa interessante, veja só: daquele primeiro forno na Santa Helena que eu trabalhava com os dinamarqueses era 100% importado; nesse forno, que foi o meu desafio, na época, que não se podia importar nada - o Brasil não importava nem computador, lembra? Que nós ficamos para trás em informática porque a gente não podia importar nada, então foi um forno, que se não me engano, tinha 3% de importado. Era um inferno para você importar qualquer coisinha, tinha que fazer correspondência para o NPI e aí os camaradas mandavam você consultar não sei quantas empresas, perdia um tempo danado, e aí o cara te oferecia um troço que não tinha nada a ver com aquilo que você queria. Nós tivemos que fazer muita gambiarra, porque o pessoal não deixava importar mesmo, componentes eletrônicos, motorzinhos pequenininhos, sempre fazia gambiarra, para poder rodar a fábrica, porque não se deixava importar. Componentes eletrônicos foi muito difícil. Mas é uma fábrica que teve 96%, 97% de nacional e 3% de importado. Só para fechar, ultimamente, nós fizemos um forno que foi em 95%, na mesma fábrica, meio a meio, importado. Porque abriu mercado, o que é mais barato compra lá fora, quer dizer, para o país não é tão bom, mas em ternos de tecnologia, avanço de tecnologia, sem dúvida nenhuma.

 

P/1 – Mas essa impossibilidade de importação, ela decorria do quê?

 

R – Era uma exigência do governo, proteção do mercado. Você tem a ABIMAC aqui, que é a Associação Brasileira dos Produtores de Equipamento, ela não deixava você importar nada. E tinha a ABINE, que era a mesma coisa do elétrico, que eles diziam que podia fazer tudo no Brasil. Por exemplo, como os americanos, como todo mundo tem suas barreiras, suas proteções, então você sabia que o camarada não tinha uma coisa que era aquilo que você queria, e ele dizia que tinha. Aí dava uma discussão danada, e quase sempre o ABINE ou ABIMAC dava mais razão para o fabricante nacional. Nessa época era assim, então você tinha que fazer adaptação e usar aquilo que podia. Não era exatamente o que você queria, mas funcionava também. Dava trabalho, perdia tempo, dava dor de cabeça, mas funcionava.

 

P/2 – Mas a fábrica não foi obrigada a investir em tecnologia nacional, a investir em estudo, investir em pesquisa?

 

R – Porque na realidade, veja só Danilo: o nosso negócio é fazer cimento, não é verdade? Nós não podemos produzir motores, redutores, componentes eletrônicos, isso é um outro tipo de indústria. Quem tem que investir nisso é eles. Nós temos que desenvolver pesquisa e tecnologia de como fazer cimento melhor, gastando menos energia térmica, menos energia elétrica, esse é o nosso negócio. Agora, de componentes, você tem que comprar de outros, você não pode abrir o seu campo de trabalho tanto que você vá além de produzir cimento, você produz transistor.

 

P/1 – Danilo, como que eram as relações humanas dentro da Cimento Itaú?

 

R – Eram muito boas, eu tratava diretamente com a família dos Siqueiras Meireles, era muito bom. Olha, com relação à relacionamento humano na Votorantim, na Itaú, para mim foi um paraíso, uma beleza, tanto com os donos, com os colegas - são até amigos. Muito bom, melhor que família.

 

P/1 – Bom, você estava na Cimento Itaú quando começa a crise do petróleo em 73, como que vocês... Você volta para a Votorantim em 78?

 

R – Isso.

 

P/1 – Como vocês estavam dando conta de toda a problemática que estava tendo dentro das fábricas de cimento, devido à questão da substituição de combustível, como que foi isso?

 

R – Eu fui muito envolvido exatamente com isso, porque você tinha que usar o combustível mais barato, e o combustível mais barato nem sempre você tinha tecnologia no mundo disponível para utilização desse combustível. No caso, o que é que era? O carvão brasileiro de Santa Catarina, que era um carvão que tinha 40% de cinza, ninguém achava que aquele troço podia queimar e fazer cimento. E nós compramos o desafio, compramos moinho, instalamos, moemos, quebramos a cara, aprendemos, e queimamos carvão durante muito tempo. Até que chegou a época do petróleo que você falou. Aí o carvão era subvencionado, ele chegava aqui - se fosse botar o custo dele, ele saía mais caro que o óleo. O governo tirou o subsídio, acabou o carvão, [e] daí veio a crise do petróleo, o preço do óleo foi lá para cima. O óleo que a gente queimava era o óleo leve que era caro para burro, óleo 2A. “Temos que queimar óleo pesado que é muito mais barato”. Porque à medida que você vai tirando óleo diesel, gasolina e querosene do petróleo, vai sobrando uma porcaria lá. Quanto mais você tira, pior fica o resíduo. Nessa época, o pior que tinha é o 7A, mas só que ninguém tinha tecnologia para queimar isso no mundo inteiro, consultamos um monte de empresa e não tinham nada. A gente comprou... Contratamos um professor aqui de São Paulo, da USP, o Clemente Greco, acreditamos nele, desenvolvemos um projeto junto, começamos a queimar, apanhamos para burro e, no fim, dominamos a tecnologia. E esse Greco ganhou dinheiro feito água vendendo isso aí no mundo inteiro, porque logo o problema chegou lá na Europa e o pessoal não sabia queimar esse tipo de óleo. E o Greco, que aprendeu com a gente aqui - ele tem escritório na França [e] na Espanha até hoje -, ganhou dinheiro para burro, ficou rico o desgraçado com essa história. Aí, depois, o que foi que aconteceu? Veio o óleo e ficou caro também, aí veio o [carvão] coque, alguém já deve ter falado nisso: “Vamos queimar coque”. Quem sabe queimar coque no mundo? Ninguém. Ah, e lá vamos nós outra vez, e vai moer coque, quebra a cara e não dá certo, o forno cola, sai enxofre - foi uma confusão danada. Aprendemos a queimar coque e o Greco, junto, ficou rico de novo. Ficou rico duas vezes, no duro. (risos)

 

P/2 – Já havia uma preocupação ambiental com essas queimas?

 

R – Não, veja só, o forno de cimento é um incinerador fodido, pô! Aqui em São Paulo, ao redor de São Paulo, está cheio de incineradores aí. Aquele incinerador, ele não é bom porque você tem um resíduo que não tem o que fazer com ele, você não pode depositar ele no chão [e] nem nada. Você tem que queimar, é a melhor coisa que pode fazer. Agora, o incinerador é um troço que queima aqui e joga ali na frente, então ele tem uma temperatura de chama e um tempo de resistência pequeno. O forno de cimento, você queima aqui, tem uma temperatura de chama à 2 mil graus e depois, aquele troço anda dentro do forno inteirinho, sobra, pula para o aquecedor, e vai sair lá do outro lado, fica 20 segundos dentro do forno para... Então o forno de cimento destrói tudo. Nos Estados Unidos, os fabricantes de cimento, você vai ver lá a indústria de cimento lá, é a mais antiga do mundo, aqueles fornos velhos para burro, troço ruim para danar, e eles ganham mais dinheiro queimando resíduo do que fazendo cimento, entende? Então eles queimam resíduo. O forno de cimento... Por exemplo, esses combustíveis que nós estamos falando, esses nem são resíduos, eles são combustíveis mesmo, ele destrói tudo. Agora, se você quiser botar lá dentro, sei lá eu, tíner usado, que mais? Um troço ruim, resíduo químico, que queima de alguma maneira, você bota lá no forno, ele destrói mesmo o tempo de resistência que tem. Não sai enxofre, não sai nada. Pode sair, eu sei, pode sair um pouco do que eles chamam de NOX, mas a gente tem dispositivo para reduzir a emissão de... NOX, resíduo de nitrogênio e de enxofre. Se ele sair para a atmosfera, reage com a umidade do ar e dá ácido sulfúrico ou ácido nítrico. Isso aí que chove, vai lá no cemitério da Consolação e vê lá os anjinhos de mármore, está tudo corroído. (risos) Por quê? Os carros soltando enxofre pela chaminé, a chuva vem, reage. Chuva ácida. Está feita a porcaria. Agora, no nosso processo, nós tomamos o maior cuidado para reduzir ao mínimo as emissões de SOX e NOX, enxofre. O carro, por exemplo, já não faz isso. Uma termoelétrica, por exemplo, também já não tem um tempo de resistência tão grande, ela já não tem tantos meios de controlar isso quanto a gente. Então a indústria de cimento, sobre o ponto de vista de combustão, eu acho que ela mais ajuda [do] que atrapalha.

 

P/1 – Danilo, retomando um pouco sobre essa crise dos combustíveis da década de 70, você chegou a participar de reuniões para buscar alternativas? Havia, vamos dizer, uma união das empresas produtoras de cimento nesse sentido para discutir as novas tecnologias nessa área?

 

R – Não, salve-se quem puder. Pelo que eu me lembro, até onde eu participei, cada um correu atrás. Na época do óleo, a substituição do óleo leve pelo pesado, quem saiu na frente foi o Itaú - Cimento Itaú, que já era da Votorantim. Mas, naquela época, a administração era separada e na época do coque, quem saiu na frente foi a Votorantim e o Itaú saiu atrás, mas nas duas etapas a Votorantim saiu na frente. O Camargo, o João Santos, o resto foi tudo depois. Não houve assim uma... Vamos dizer, assim, uma busca conjunta para se achar. Cada um saiu correndo para o seu lado. A Votorantim sempre foi mais arrojada, e sempre saía na frente.

 

P/1 – E o governo subsidiava essas pesquisas? 

 

R – Não, nada, nunca subsidiou. Isso é coisa da gente mesmo. Nada, nada.

 

P/1 – Aí você fica na Cimento Itaú até 78. Ela já pertencia ao Grupo Votorantim ou ela estava...?

 

R – Ela passou para a Votorantim em 76. Quando eu entrei na Votorantim, em 78, quando entrei na Itaú outra vez, já era Votorantim. Meu chefe era o Carlos Ermírio. Pô, o Carlos Ermírio era o presidente da Votorantim.

 

P/1 – E como é que foi essa recontratação, como é que você voltou?

 

R – É, porque eu conhecia todo mundo - o pessoal não tinha mudado. Eu gostava da empresa, sempre gostei. Deixou de ser Itaú e passou a ser Votorantim, eu sempre gostei das duas, então quando me ofereceram a hipótese, me deram um dinheirinho a mais do que eu estava na outra, eu vim correndo, não teve nem dúvida. Foi muito bom, fiquei muito contente.

 

P/1 – E como é que foi o desenvolvimento da sua carreira, a partir desse momento?

 

R – Olha, a minha carreira sempre se desenvolveu... A Votorantim é o laboratório e o resto é a vontade de aprender. Vontade de aprender é o quê? É estudando, conversando, tirando informação, vendo catálogo, vendo revistas, livro. Eu sempre aprendi assim, nunca aprendi muito com curso não, a vida inteira. Nunca fiz muito curso, aprendi mais no dia a dia do que com curso. Só um pequeno detalhe: eu tenho muitas histórias muito boas da Votorantim, de lá da Votorantim e vem vindo para hoje; eu gostaria até de saber se tem espaço para esse tipo de coisa.

 

P/1 – Por favor.

 

R – No tempo lá do Dr. Moraes, tenho história do Dr. Moraes, do Dr. José tem muito pouco, mas do Dr. Moraes tem bastante. História da fábrica, uns absurdos, umas coisas muito engraçadas.

 

P/1 – Eu ficaria muito contente se você pudesse falar um pouco dessas histórias.

 

R – Podemos queimar uns pneuzinhos então?

 

P/1 – Podemos com certeza.

 

R – Então vamos lá: na Votorantim, o Dr. Moraes, não sei se alguém já falou dele aqui, era uma pessoa, sempre foi muito trabalhador, para burro, sempre foi muito sério, muito coerente nas atitudes dele. E uma coisa que a Votorantim tem, que os Moraes têm, eles são muito austeros com relação ao dinheiro. Não vou dizer que é mão de vaca e pão duro, não, porque eles sempre... Eu até gostava mais quando meu chefe era Moraes, do que os profissionais, que era mais fácil falar com eles – é um fato, o dono parece que tende a ser um pouco mais paternalista. E eles sempre foram, tanto os da Votorantim quanto da Itaú, mas o Dr. Moraes era uma figura muito séria. Então, uma história gozada do Dr. Moraes, na fábrica, quando o pessoal ia... Tem o moinho de bola, é um tubo cheio de bola e pedra, roda lá e mói, poeriza as pedras e faz um pozinho. Depois de um certo tempo, as bolas que se põem no moinho, desse tamanho, e as menorzinhas, elas ficam meio quadradas, elas quebram, você tem que retirar aquilo, reclassificar porque elas perdem a eficiência de moagem. Quando você tira para reclassificar, tira com pedra e tudo, separa a bola para um lado e pedra para o outro. Aquela pedra meio molhada, o pessoal usava aquilo para botar no trilho do trem lá na Votoran. E um dia o Dr. Moraes - a folga dele era só Domingo, ele pegava os netos, os netos são o Zé Neto [e] o Carlos Ermírio, pegava esse pessoal e ia para a fazenda lá na Fazenda Santa Maria -, ele estava andando no trilho lá com os meninos e começou a ver umas bolinhas de ferro lá no meio do trilho: “Ah, vamos catar bolinha”. Todo mundo catando bolinhas, encheu uma lata de bolinhas. (risos) No outro dia era segunda feira, chega na beira do gerente da fábrica: “Senhor Mário, que absurdo é esse, o senhor está jogando meu dinheiro fora, as bolinhas”. (risos) “Mas senhor, eu catei lá, é da pedra do moinho”. “Mas tem que classificar melhor, o senhor está jogando meu dinheiro fora”. Outra dele, o Dr. Moraes entra na fábrica, está passando lá com o chapelão dele, aí o Sr. Joaquinzinho, lá da manutenção, olhando o Dr. Moraes, ele vai passando: “Senhor Joaquim, tira a mão do meu bolso!”  “Como, Dr. Moraes? Não estou com a mão no bolso do senhor, não”. “Você não está trabalhando, então está me roubando”. (risos) Mais umazinha dele que é muito boa: o Dr. Moraes, ele ia na fábrica, ia domingo - a folga dele era no Domingo -, então domingo de manhã ele ia na fábrica, e quando ia na fábrica ele avisava ao gerente da fábrica, o gerente ficava lá de manhã e o Dr. Moraes dava uma andada com ele. Agora, ele tinha mania de fazer as perguntas mais estapafúrdia, perguntava tudo, e se o cara não soubesse: “Mas como você não sabe isso?” Pegava no pé do cara. Um dia eu estava conversando com Moacir - Moacir era o chefe do escritório, quem respondia de modo geral era o gerente geral da fábrica. Aí o gerente saiu, e o senhor Moacir que era chefe do escritório foi receber o Dr. Moraes, ele falou para mim: “Eu estava cansado de passar vergonha na cara. Aí eu peguei e estudei tudo, produção dos fornos, produção dos moinhos, geração de energia da usina, e número de hora extra, produção do mês, eu decorei aquela porra toda, e fui lá. Aí o Dr. Moraes chegou lá e olhou para mim: "Senhor Moacir, como que foi o forno 4?", "O forno 4, esse mês, fechou com 30 mil toneladas", "Muito bom’. E assim foi: "Senhor Moacir, quantos burros nasceram na fazenda de Santa Maria?", "O quê?", "Quantos burros nós temos na fazenda Santa Maria?", "Não sei", "Mas o senhor não sabe quantos burros tem na Fazenda Santa Maria? Não é possível, está sob sua ordem". (risos)

 

P/1 – Ou seja, ele sempre dava um jeito de escapar. Com a morte do Senador, assume definitivamente o Dr. José, e como que era o relacionamento do Dr. José? Ele frequentava bastante?

 

R – O Dr. José sempre foi uma pessoa muito simpática, não quero dizer que o senador não era, mas Dr. José foi muito mais.

 

P/1 – Mas tinha o mesmo senso de humor?

 

R - Ele foi muito bom. Quando eu trabalhava na Votoran, não sei se era uma vez por mês ou a cada 15 dias, ele ia na fábrica e dava uma andada por lá, sempre conversava com a gente. Eu estava na montagem: “E aí, como é que está?” E conversava, falava de futebol, todo mundo sabia que ele era, sempre mexeu com coisa de futebol aqui em São Paulo, foi presidente ou alguma coisa, que eu não entendo nada de futebol, e aí comentava que ele gostava de jogar futebol também há um tempo atrás, mas que jogava tênis [no momento]. Ele sempre conversava, sempre muito... Eu não tive tanto convívio com ele, mas todo mundo que conheço que teve um convívio com ele [dizem que] era uma pessoa extremamente simpática. E uma coisa, o Dr. José telefonava na fábrica todo o dia, a vida inteira, de manhã, queria saber da Votoran, como estava o forno, como que estava o moinho. Todo o dia cedinho, era certinho. E tinha, alguém já deve ter falado sobre isso, ele sempre teve os relatórios que vinha da fábrica. Se o cara cometesse um enganinho sequer, ele pegava. Era terrível, não deixava passar nada, nada. E sempre se julgava que tinha uma pessoa, que ele tinha um catador de defeitos para ele, sempre se pensava isso: “Ah, tem um fulano, Senhor Martinês lá, que o Dr. José...” Mas não era nada, era ele mesmo. Tem um camarada que está aqui no escritório até hoje, ele pegava os relatórios, consolidava tudo e mandava para o Dr. José, mas quem ia lá e metia o dedinho? "É aqui, olha, isso aqui não está correto!” Era ele mesmo. Terrível o homem, tinha um senso de observação, noção de conjunto, acompanhava muito bem mesmo, muito bom. Agora, tudo isso aliado a uma simpatia muito grande. Vamos dizer, assim, acho que dos irmãos Moraes, o Dr. Antônio eu conheço muito pouco, ele sempre foi mais ligado com a área dos metais; o Dr. José é uma unanimidade; sem falar no Dr. Ermírio, [que] é uma, [a] pessoa mais agradável do mundo, mais simpática - ele ia muito na Itaú, mexia muito com a área de cal, porque eu trabalhei muito tempo com cal também. Ele é uma pessoa também muito agradável.

 

P/1 – O Dr. Ermírio trabalhava em várias áreas do Grupo?

 

R – Vamos dizer as coisas mais, assim: Metais e Química, Dr. Antônio; Cimento, Dr. José; e Dr. Ermírio era muito mais ligado à área de cal, sempre foi, Itapeva, Itaú, Arcos. Sempre foi o que ele lidava mais, [e] também fazendas.

 

P/1 – Ele tinha grande senso de humor?

 

R – Nossa Senhora, muito. Ele talvez seja o mais simpático de todos, todo mundo que conheceu o Dr. Ermírio [diz que] era muito agradável, muito bom, sem dúvida nenhuma.

 

P/1 – Embora ele não apareça muito.

 

R – É verdade, ele sempre ficou um pouco assim, por trás dos bastidores, e outra coisa... É verdade, ele sempre ficou, Dr. José e Dr. Antônio sempre apareceram mais, Dr. Antônio muito mais, porque estava mais na mídia, tudo mais. Mas no ponto de vista de atuação em cima do negócio, o Dr. José era muito atuante, nossa, era terrível. E o Dr. Clóvis, lá no Nordeste, o negócio era com ele. Eu estou vindo do Nordeste agora, e o pessoal do Nordeste tem uma adoração por aquele homem terrível, todo mundo gosta dele. Também acompanhava, é fogo, na reunião batia pesado, discutia com todo mundo, mas sempre com muito respeito, com muita educação. Tratava as pessoas muito bem, prestigiava a pessoa que estava indo bem. O pessoal do Nordeste tem uma ótima imagem dele.

 

P/1 – Danilo, trabalhando com cimento você, praticamente, caminhou o Brasil inteiro. Dessas suas viagens, conta para a gente como foram aquelas que mais te chamaram atenção, coisas que você se lembre de viagens, de diferenças regionais que você foi encontrando ao longo desses anos de trabalho?

 

R – De Brasília, o que é que era esquisito em Brasília era que a gente trabalhasse para burro, trabalhava sábado, inclusive, e você morava na capital federal que neguinho vai trabalhar 9 horas da manhã e volta do trabalho às 3 horas da tarde. Então era meio gozado, a gente... Você acabava tendo amigos lá, que eram funcionários, trabalhavam no Banco do Brasil, no Ministério, e os caras gozavam a gente porque a gente trabalhava demais, e eles eram mais folgados, eles tinham mais tempo para viver. A gente só tinha Sábado. Sábado terminava cedo, 5, 6 horas da tarde terminava o expediente, então tinha o sábado à noite para aproveitar a vida. Então uma coisa que eu lembro é isso. E outra coisa que me marcou muito foi um dia que eu fui em Brasília, no banco, depositamos lá, na hora do almoço, fui na W3 - não sei se você conhece Brasília, tem uma avenida chamada W3, e eu nunca tinha visto a W3 durante o dia, só via à noite -, fiquei espantado, depois de um ano.

 

P/2 – Qual era o horário do expediente?

 

R – A gente entrava às 7 e vinha à noite. É montagem de fábrica, então é sempre cronograma atrasado, aquele corre-corre. Eu fiquei um ano e meio lá montando fábrica, então a coisa era pesada mesmo.

 

P/1 – E a passagem a Salvador como é que foi, você também estava lá junto com as equipes?

 

R – Em cada lugar tem suas peculiaridades. Lá em Brasília, só voltando um pouquinho mais em Brasília, problema da umidade que todo mundo reclamava para burro: “Aqui é muito seco”. Seco uma ova, é até gostoso, você não fica molhado nunca na vida, você pode correr que não sua, você não fica empastado, com a camisa empastada. A temperatura não é quente, é agradável. Uma cidade fria, mas para quem sabe conversar, qualquer lugar você se vira. Eu gostei muito de lá, gostava do pessoal. Agora, Salvador foi uma experiência mais importante talvez para minha família do que para mim mesmo, porque eu já tinha trabalhado lá em Brasília, Sorocaba, Itaú de Minas, já tinha passado uma temporada em Corumbá - e depois de ter saído de casa tão jovem, a gente não sente muita diferença. Agora, a minha família achou muito diferente, porque saímos de Itaú de Minas para Salvador, uma capital. Tem um mar, eu morava de frente para o mar, meus filhos ficavam tudo na janela no começo olhando o mar, e o jeito baiano de ser, o jeito baiano, que se comparar com São Paulo... Eu falo até hoje, você entra numa loja e se você não falar nada, o vendedor também não fala, fica quieto na dele. Se perguntar, ele te atende, se não perguntar... Mas é o jeito de ser, tem gente que fala assim: “Ah, o baiano é vagabundo”. Na fábrica todo mundo trabalhava duro, do mesmo jeito, não tem essa história. Se você contrata um cara para fazer um trabalho, ele faz. Agora, o jeito de ser deles é um pouco diferente, o ritmo é um pouco diferente, mas são pessoas normais do mesmo jeito. A experiência para a minha família foi muito boa, os meus filhos. Eu acho que um sujeito morando na Bahia uns tempos, principalmente um cara que nasceu em São Paulo, morou em Minas [e] depois foi para a Bahia, acho que essa maneira de curtir a vida que o baiano tem um pouco mais acentuado, acho que faz bem para a pessoa. A vida não é só trabalho.

 

P/2 – Danilo, com relação a administração do Grupo Votorantim você acha que havia alguma diferença, por exemplo, a empresa de São Paulo com a de Salvador?

 

R – Não, a mesma coisa. Vamos dizer assim, a linguagem da empresa era a mesma. Você faz pequenas adaptações locais, não é verdade? Não tem jeito. Uma coisa que era gozado nas outras fábricas do interior, o camarada sai da fábrica, pega o ônibus com a roupa suja que está, lava a cara mais ou menos, e vai embora para casa. Rapaz, se você pegar o ônibus lá em Salvador, é terrível: o baiano vai trabalhar bem vestido, tira a roupa, põe aquela roupa suja de fábrica de cimento com óleo e tudo, trabalha, toma um banho, taca meio litro de água de cheiro no sovaco de cada lado, entra no ônibus, recendendo. (risos) Eu nunca vi povo mais perfumoso na minha vida. (risos) Sai tudo bonito de óculos escuros, vai tudo para a segunda casa - porque todo baiano tem duas mulheres. Ô, povo safado! (risos) Eu brincava, falava com eles assim.

 

P/1 – Danilo, uma coisa que ficou lá atrás e gostaria de recuperar agora: você falou de sua família, quando que você casou? Como é que foi... Primeiro me diga quando você casou.

 

R – Em 75, eu tinha 32 anos.

 

P/1 – Como foram as mudanças que você foi fazendo ao longo do tempo, como que a sua família foi se adaptando a isso?

 

R – Não, quando eu fui casar em 75, eu tinha sido dispensado da Itaú, eu falei com a minha mulher: “Vamos casar”. Ela topou casar e então vamos, fiquei noivo, botei até uma aliancinha no dedo, porque o seguinte: eu tirei as primeiras férias depois de 7 anos de trabalho. Tirei as primeiras férias, fiquei um mês de férias [e] quando voltei, fui mandado embora, não tinha mais serviço. Nas férias fiquei noivo, para casar não tinha emprego nem nada, então eu falei para minha mulher: “Nós vamos casar com as seguintes condições: eu não sei aonde nós vamos morar, vamos morar em algum lugar onde eu arrumar emprego, a única condição que eu imponho é essa, não sei aonde vamos morar. Se você topar ser assim a vida inteira, eu topo então”.

 

P/1 – E aí foi viajando?

 

R – Olha, fui transferido para Curitiba agora, então minha mulher vai comigo. Os filhos ficam aí, vão viajar um pouco. Foi um assunto acordado em 75, então não tem problema, nunca tive problema. Hoje em dia, o pessoal é transferido, dá o maior rolo, a mulher não quer ir. O pessoal de São Paulo também não gosta de sair daqui, o pessoal de Curitiba não gosta de sair de lá, mas, felizmente - a minha mulher é lá do sul de Minas também -, a gente já está fora da cidade da gente, então qualquer lugar serve.

 

P/1 – Ela é da mesma cidade que você?

 

R – É.

 

P/1 – E agora esse trabalho que você vai desenvolver no sul, você já conhecia as fábricas do sul?

 

R – Conheço todas, conheço todo mundo. Para mim, a Votorantim é uma família. 

 

P/1 – Uma família que você foi conquistando.

 

R – Então, se eu estiver trabalhando no sul, no Nordeste, conheço todo mundo. Estou com uma listinha de termos que eu peguei de um dicionário de termos nordestino, para encher o saco dos nordestinos lá, sabe? Se falar assim: “O que é isso aí?” Os caras não sabem. O que é um chá de casca de vaca? Chá de casca de vaca é uma surra de relho, cabra safado. O relho não é feito de couro? O couro não é a casca da vaca? Joca de cabrito, é um cara baixinho. Brincadeira com o pessoal.

 

P/1 – Também você foi pegando um monte de termos regionais. Você deve ser um profissional bárbaro, mas você tem uma vibração quando você fala desses assuntos que é incrível, eu, pelo menos, aqui no meu lugar, gostaria muito de estar no seu lugar. E atualmente você trabalha com consultoria de projetos - como é desenvolver uma consultoria de projetos, você só desenvolve essas consultorias para as empresas da Votorantim?

 

R – Só Votorantim. Olha, uma coisa que eu quero... Vamos falar o que eu faço hoje - o Vilar me mandou para Curitiba que lá tem uma equipe que chama AVC Projetos, então esse pessoal vão ser os especialistas do futuro. E como eu estou há tanto tempo nisso, e trabalhei muito tempo com projetos, eu aprendi um monte de coisa que você tem que passar para alguém. E lá em Curitiba, o que eu faço? Eu faço o meu trabalho, o projeto do Canadá, projeto para o Nordeste, estamos mexendo com um projeto de uma fábrica nova no Nordeste, e eu oriento muito a turma de lá também, todo mundo quer saber alguma coisa: “Onde é que tem isso?”, “Onde é que tem isso no mundo?”, “Como é que faz isso?”, “Como é que mexia nos silos?”. Eles vão perguntar para mim lá e eu vou conversando com eles. E de cada 15 dias, a gente tem lá uma reunião. E a cada reunião, eu faço uma apresentação lá de alguma coisa na nossa área. Uma vez eu fiz a história do cimento, como começou, como está hoje, e o que vai dar essa merda no futuro. (risos) Uma apresentação ou outra, falar sobre o forno - o que é o forno, o que é importante no forno. Porque tem gente nova [e] não tão nova, mas a gente faz a palestra abordando coisas primárias e as coisas mais, que existem. Então a cada 15 dias é feito isso. Uma reunião que dura meia hora, 1 hora, e pretendo continuar [a] fazer porque eu gosto de fazer e o pessoal também gosta de assistir - sempre levando uma piadinha no meio para não tornar monótono.

 

P/2 – Existe algum intercâmbio de tecnologia com o sul, as pessoas vem para cá para aprender também e voltam?

 

R – Não tem, sabe por quê? A tecnologia do cimento não é assim tão sofisticada, tudo que existe de novidade aparece nas revistas, não é verdade? Então se você participar de um seminário ou outro de vez em quando, se você lê as revistas do gênero, você lê os catálogos das empresas, está automaticamente informado. A não ser que o cara vai ser um pesquisador, que vai pesquisar a molécula do cimento, aí o negócio muda de figura. Nós temos uma área lá em Curitiba que é para isso, um departamento de pesquisa, tem um pessoal que cuida disso. Não é o meu "métier", [o] meu é como construir fábricas boas, baratas e rápidas - essa é a meta. Podemos falar um pouquinho mais de piada?

 

P/1 – Pode.

 

R – É mais uma do Dr. Senador. O Senador um dia visitou a fábrica - para você ver como ele era certinho -, estava lá visitando, chegou um camarada da Industrial de Sorocaba e falou com o porteiro: “Eu estou passando por aqui, eu conheço o Dr. Moraes, e eu queria visitar a fábrica, eu posso entrar aí?” O cara falou assim: “Não pode, aqui, para o senhor visitar, só com a autorização de São Paulo”. Pensou: “Que diabo, então vou ter que pedir a autorização lá”. Aí, nisso, o cara foi saindo, o Dr. Moraes foi saindo da fábrica, aí o porteiro falou: “Aí o Dr. Moraes. Por que o senhor não fala com ele?”, “Oi, Dr. Moraes”. Parou o carro: “Dr. Moraes, eu estava querendo visitar a fábrica, mas eu falei com o porteiro aí e ele me disse que só com autorização de São Paulo. Como o senhor está aqui, eu vim falar com o senhor”, “Ele disse que só com a autorização de São Paulo?”, “É”, “Então só com autorização de São Paulo, vai ter que pedir lá”. (risos) Para não desautorizar o porteiro. Aí tem outra boa também - se o Mário Botés passar por aqui eu lamento não ter pego, isso não é nada a ver com família, com nada, mas o gerente do escritório me contou uma história, eu vi essa carta e não peguei ela, eu tenho muita coisa desse tipo guardada. Um camarada mandou uma carta para o gerente da fábrica, o Mário Botés, pedindo emprego, e o cara cometeu a seguinte carta - eu li uma vez e nunca mais esqueci na vida: “Excelentíssimo Senhor Dr. Mário Botés. Venho por meio desta pedir que Vossa Majestade se digne a me arranjar uma boca nessa conceituada empresa”. (risos) E assinou embaixo. (risos) E o Mário tem essa carta lá. O jeitão do pessoal.

 

P/2 – E aí, funcionou?

 

R – Lamentavelmente, não deu. Mas dentro do capítulo das histórias que nós vamos poder falar, se tiver mais tempo, uma pessoa que tem umas histórias boas também, é o atual presidente Carlos Ermírio. Ele foi meu chefe durante muito tempo. Quando eu assumi a área de projeto da Itaú, o Carlos tinha vindo do Colorado (EUA), porque ele foi estudar Engenharia de Minas lá, e ele assumiu. Era meu chefe de projetos, então eu reportava tudo a ele. E tem muita coisa interessante, o Carlos é uma pessoa inteligente para burro, dedicado até não poder mais, e muito humano para lidar com as pessoas. Ele, talvez, se você pegar o que tem de bom de todos os Moraes, parou no Carlos. Ele é realmente uma pessoa sensacional.

 

P/1 – Ele ainda está na área de cimento hoje?

 

R – Vou dizer, assim, dentro da nova administração, o Dr. Antônio que manda, vamos dizer assim. Mas nessa organização que foi feita da Votorantim, você tem um presidente que é o Carlos, depois tem um vice-presidente para a área de... Tem um vice-presidente que é o José Roberto e outro que é o Fábio Ermírio, da área industrial. Esses três caras comandam cimento, papel, tecido, suco e tudo mais. Agora, o Carlos é o presidente, nem sei que cargo, presidente do conselho, sei lá o que é. É o que ficou mais graduado de todos, é um cara... Tenho umas histórias muito boas dele.

 

P/1 – O Carlos é filho de quem?

 

R – Dr. Antônio. O Carlos é filho do Dr. Antônio, o José Roberto é filho do Dr. José e Fábio, filho do Ermírio.

 

P/1 – E o que você acha dessa administração, entre aspas, dessa nova geração, que seria, no caso, a quarta geração?

 

R – Terceira. Olha, é uma coisa incrível que esse pessoal conseguiu um milagre de manter todo mundo unido. Você vê que não tem disputa, já são treze primos, cada um com suas pretensões. Consequentemente, deve ter uns 15 cunhados, que tem um monte de filhas - Dr. Antônio tem uma porção de filhas, o Dr. Ermírio tem - e esse pessoal conseguiu administrar isso sem conflito. Conseguiu dos treze fazer uma divisão que colocaram três caras no comando de verdade, o resto mais ou menos - eu não entendo bem a administração, não é o meu caso -, mas o resto, o Dr. José Neto é Novos Negócios, o Clóvis é Conselho de Família, que por sinal deve ser uma coisa, uma tarefa muito difícil, pilotar essa família toda, e o Clóvis tem muita habilidade para isso. E os três camaradas na área industrial, eles conseguiram, esses três aqui que vão comandar a área industrial, e sem maiores... Ninguém comentou que houve atrito, que houve briga, mal entendido, fofoca. E o pessoal que está no comando é, realmente, competente para burro, o pessoal que está lá é muito bom. Quer dizer, por esses três aí, se eles conseguirem manter a união que os pais fizeram, ao que tudo indica vai mais um bocado de... Me parece que os filhos desses caras que estão na faixa de 20, 22 anos talvez, estão indo pelo mesmo caminho, estão mantendo a união. Então vai ser difícil de desmantelar isso aí, de quebrar. Todo império uma hora quebra, divide um pouco para cada um, como aconteceu com o Pão de Açúcar, mais aí esse horizonte.... Depois, com a profissionalização que você tem agora, presidentes, profissionais cuidando de tudo, e eles estão mais afastados, fica mais fácil. E eles conseguiram driblar, contornar o assunto internamente e conseguiram profissionalizar a empresa sem maiores traumas. Quem conhece a história do Pão de Açúcar, vê que foi traumático para burro.

 

P/1 – Danilo, como era a Santa Helena? O que tinha na Santa Helena que você se lembra?

 

R – Ela tinha a vila lá da fábrica, uma camada de pó desse tamanho assim em cima dos telhados, uma névoa de pó pairando eternamente por ali. Felizmente, ali tem um pouco de vento, e quando você olhava de longe, via que saía das chaminés aquele tufo de fumaça, aquelas 250 toneladas por dia e fazia assim. O mais grosso caía na cabeça da gente embaixo - caía umas bolinhas, cai na roupa umas bombinhas de pó - e o mais fininho ia cair mais longe. Quando você olhava de longe, via que a coisa estava escura aqui e depois ia ficando branquinho, finhinho. Ia cair bem lá longe, isso era a imagem visto de longe. As casas, evidentemente, com uma camada de pó, lá em Itaú de Minas; na Barroso, em todas as fábricas de cimento, Perus, tudo assim, não tinha nenhuma diferença. A vila que morava lá o pessoal, tinha a Igrejinha, tinha a pensão da Dona Lazinha que era o único lugar que tinha para comer alguma coisa, tinha uma padaria, tinha o cinema que era de graça.

 

P/1 – Como era essa Pensão da Dona Lazinha? Quem ia lá, todo mundo ia lá?

 

R – Não, só motorista de caminhão e algum viajante que estava perdido, porque nem hotel tinha. Se o cara quisesse hotel, tinha que ficar em Votorantim, que era um pouquinho mais na frente. Quem comia ali era algum vendedor que foi na fábrica, que quisesse, almoçava lá e a gente tinha uma espécie de república para o almoço. E jantar não tinha nada, eu comia na pensão da Dona Lazinha com os motoristas, que eu roubava o bife do outro lá. (risos) Eu estava falando para ele que na pensão eram motoristas de caminhão que comiam, então era um pessoal muito simples, falavam besteira de montão. E, de vez em quando, o cara estava comendo, distraía e o outro pegava o bife e “pof”, comia, roubava o bife do colega. “Cadê meu bife?” (risos)

 

P/1 – E o cinema, como é que era?

 

R – O cinema era um cineminha que passava os filminhos que vinha da Votorantim, você não pagava nada. O gozado que a chefia, que na época eu era engenheiro, ficava em cima. Tinha um coisinha assim, eles ficavam sentados lá assistindo uns filminhos de vez em quando. E quem me dava muita dica de filme era o Nildo, porque o Nildo sempre foi um estudioso de cinema: “Vai passar Veridiana do Buñuel lá hoje”. Aí nós íamos assistir lá. O pessoal da Votorantim lá queria saber de Buñuel, de Veridiana. (risos) “Vai passar um filme do Bob Hope muito bom hoje”. E aí a gente ia. Tinha sessão duas, três vezes por semana.

 

P/1 – Por acaso você está falando, hoje, onde era o cinema é o refeitório?

 

R – Isso, exatamente, você está sabendo da história. Tinha também uma linha de trem que trazia clinker aqui para o Jaguaré, em São Paulo, para moer aqui - até que fechou o Jaguaré. E a locomotiva toda, acho que era da Votorantim - tinha um trenzinho, ou era da Fepasa, não sei, só sei que tinha uma linha regular trazendo clinker para cá. E tinha um carrozinho feito um vagão motorizado, feito um bonde, que ele ia até a Votorantim levar o pessoal, as mulheres para fazer compras. Aquele trem só a Votorantim que usava mesmo, então eu usava muito aquilo, eu pegava ele 6 horas, 6 e meia, 7 horas, não me lembro mais, depois, ele vinha da Votorantim às 10 horas, que trazia o pessoal que foi estudar lá. Não pagava nada, era grátis. Então muitas vezes, que era 5 quilômetros, pegava o trenzinho, ia até a Votorantim, entrava num bar, conversava com o pessoal, tomava uma cerveja, batia papo, depois voltava com os estudantes no trenzinho da Votorantim. Mas uma história da Votorantim, mais uma da portaria: dentro da fábrica, entrava gente, naquela época, para vender pipoca, vender roupa - era um carnaval aquilo lá. Os porteiros faziam vista grossa para tudo, era um inferno. Aí um dia o senhor Moacir, que era chefe do escritório - esse dos burros da fazenda Santa Maria, que o Dr. Moraes pegou distraído lá -, chamou os porteiros e: “Olha, não dá mais, não pode entrar ninguém aqui, só entra gente aqui com a minha autorização. Se o cara vai falar com alguém, identifique, fala com a pessoa ou então, se você ficar em dúvida, fala comigo. Não pode entrar ninguém”. Aí um dia o Nildo, estava na sessão técnica eu e o Nildo, e entrou um vendedor de livros, chegou lá, e começou a querer vender enciclopédia, aquela amolação. Falamos com o Moacir: “Moacir, pô, não falamos que não era para entrar ninguém aqui?” O Moacir: “Puta merda”. Chamou o porteiro: “Ô, Antônio, não falei para você que não podia deixar entrar ninguém aqui, rapaz?” “Mas, senhor Moacir, o homem estava de terno!” (risos) De termo pode.

 

P/1 – Danilo, você é um.... Vamos dizer que você poderia escrever um livro de história da Votorantim.

 

R – Na Votorantim todo mundo usava... Não tinha capacete, não tinha Cipa, não tinha nada disso, então os engenheiros usavam um bonezinho que cobrava no mercado lá em Sorocaba, um bonezinho cinza, desses bonezinhos que os meninos usam hoje. E os operários, tinha uma fábrica de fazer embalagem, fazer saco de cimento, então sobrava muita apara de papel, então os operários eram feras. Eles faziam um bonezinho de papel, mas bonitinho, sabe, 30 segundos, encaixava na cabeça para não pegar muito pó. Então os operários usavam bonezinho e os engenheiros chapeuzinho de biquinho assim, aí introduziu o capacete. Quando introduziu o capacete, sempre aquela distinção de cor, hoje em dia acabou, felizmente, isso, mas naquela época tinha distinção de cor, de formato, então para os operários, para os peões veio aquele capacete feito aquele de caçador africano, largão assim - que, aliás, é muito mais seguro, protege mais. E dos chefes [era] aquele capacete normal, pequeno, só com uma abinha. Aí os operários inventaram lá que o capacete da chefia era assim pequenininho para poder crescer a orelha mais fácil. (risos)

 

P/1 – Danilo, a gente já está caminhando já para uma questão mais de avaliação desse depoimento.

 

R – Deixa eu contar uma do Carlos?

 

P/1 – Por favor.

 

R – O Carlos Ermírio, na minha visão, é uma pessoa certa no lugar certo, um sujeito competente ao extremo, dedicado, estudioso, mas como todo Moraes, muito austero em tudo. Por favor, se isso pegar mau, aí é com vocês, se achar que não fica bem para imagem dele, eu largo aqui, aí o Museu Votorantim vai decidir, vocês vão decidir. O Carlos Ermírio é muito austero e uma vez ele era presidente da Itaú, então ele tem uma casa lá em Paraty - ele estava mobiliando a casa e tudo mais -, um dia chamou o chefe de compras da Itaú aqui na Alameda Santos, falou: “Olha, minha mulher comprou uma mesa aqui, lá para a copa da minha casa, meu Deus do Céu, uma bruta de uma mesona com pedra de mármore deste tamanho, pesada que o diabo, e essa mesa tem que botar lá, então eu queria que você visse para mim um transporte para levar essa mesa e colocar lá em Paraty. Agora, está aqui o desenho da sala, está aqui a mesa, nesse canto fica 1 metro, daqui fica 1,5 metro para lá, fica nessa posição certinha, bota lá. Depois que os caras porem, não consigo mexer mais de tão pesada que é, então tem que colocar no lugar certo”. Aí o gerente de compra era o Pial: “Deixa comigo, Dr. Carlos, tranquilo”. Saiu, pegou o telefone, chamou um cara da Granero, um gerente: “Olha, tem essa mesa do nosso diretor, quero que você ponha no carro, num caminhão adequado e leva em Paraty. Embala direitinho e põe nesse lugar, entendeu o desenho? Vai ficar aqui tanto de lá, tanto de cá”. “Deixa comigo, esquece o problema”. Passou mais ou menos uns 15 dias, o Carlos chamou o Pial lá, o gerente na sala dele: “Pial, você está de parabéns, tive lá na casa, a mesa está lá no lugarzinho que eu falei. Não tem um risquinho, não tem nada. Perfeitinho, parabéns”, “Obrigado”, “Quanto foi o transporte?”, “Como?”, “Quanto custou o transporte?”, “Não, Dr. Carlos, a Itaú pagou, eu assinei a nota e paguei esse troço”, “Mas como, Pial? Não pode fazer isso, rapaz! Eu sou presidente, sou assalariado, tenho um salário, você não pode pagar coisas para os diretores da empresa, todo diretor tem um salário, ele paga. Não é certo o que você fez, então, por favor, estorna a nota na contabilidade e me traga aqui que eu vou pagar isso”. Pial foi embora lá, voltou, entregou para ele a nota. Ele pegou a nota “Nossa Senhora, você pagou isso tudo, pelo amor de Deus. Você está louco, não tinha condição de negociar melhor?” (risos) Levou duro. (risos) E um dia eu contei essa história para o Manoel Lopes - era diretor financeiro da Votorantim e ele gostava muito do Carlos e o Carlos gosta muito dele, até hoje. E eu contei essa história para o Carlos, e o Carlos falou: “Vou te contar outra melhor ainda”. O Manoel falou: “Outro dia saí com o Carlos para a gente ir lá em Campinas, lá na CPFL, aí quando pegou o carro, estava com pouco combustível, pouquinho, eu falei: "Dr. Carlos, acho melhor abastecer o carro, tem um posto logo aqui na frente ali". Ele disse: "Não, Manoel, vamos dar uma quebradinha aqui, que tem logo aqui atrás que aceita cheque para 30 dias". (risos)

 

P/1 – Entrando nessa parte mais avaliatória, e se você quiser, a hora que você quiser contar historinha pode introduzir.

 

R – Deixa eu ver a minha lista de história aqui. 

 

P/1 – Nesses anos de trabalho no Grupo Votorantim, quais os valores que você trouxe do Grupo para a sua vida?

 

R – Para os meus filhos... Não tem nada fácil, tem que trabalhar certo, esse talvez seja o mais importante, que se você fizer certinho, se dedicar, as coisas vão bem, se você gosta do que faz. Então tenho três filhos e tento incutir isso neles - e eles fazem isso. Se você gosta, acredita, vai certinho que... Se você faz sem entusiasmo, não adianta, muda, tenta outra coisa. Aquilo que você faz, faça bem feitinho. Isso eu vi, apliquei e vi muita gente que sai muito bem dentro dessa linha e tem gente que não se deu muito bem, porque talvez não seguiu essa linha de raciocínio. E tem outra coisa que é fundamental: a gente passa a vida trabalhando, a vida inteira, eu entro no trabalho às 7 da manhã, às vezes, e vou até às 7, ou outras vezes de 8 até às 8. Tantas vezes, fim de semana, coisa que o valha, e passei muito tempo lá dentro. Outra coisa que eu falo para eles é [que] se o ambiente de trabalho não for agradável, aí fica muito ruim.

 

P/1 – Danilo, se você fosse.... Fazendo um balanço da sua trajetória dentro do Grupo Votorantim, o que você diria? Como que você se vê?

 

R – Eu me vejo como uma pessoa muito feliz, deu tudo certo para mim: eu trabalho com o que gosto, faço o que gosto, convivo com as pessoas que gosto, tenho uma remuneração que atende às minhas necessidades. De vez em quando, dou uma choradinha e outra, mas isso é normal, de praxe. A avaliação é essa, rapaz, tudo muito bom. Tive condições de cuidar da minha família direitinho, tive condições de fazer as mudanças de cidade - que quando você fala que vai mudar, ninguém quer mudar, família: “Ah, não, ter que mudar daqui”. E depois que muda, todo mundo acha bom e mudar faz bem. É saudável, precisa conhecer outros lugares. As mudanças que fiz foram muito boas para minha família, e as amizades que fiz tanto da família - para você ter uma ideia, a gente quando os filhos eram pequenos, morava em Itaú de Minas, em Salvador - e tinha muita festa do pessoal, festa de aniversário, encontrava todo mundo. Você acabava estendendo um pouco o ambiente de trabalho para dentro de casa, às vezes, e não era ruim. Não é que ficava falando de serviço, não. Foi uma coisa muito boa. Mas o principal que eu enfatizo mesmo, é o seguinte: durante esses anos todos, a vida profissional teve lá suas dificuldades o seu trabalho às vezes pesado demais, pressão demais de vez em quando, mas teve muita coisa boa, muita.

 

P/1 – Pensando em termos de investimento, o senhor acha que um jovem hoje teria as mesmas chances de crescimento que você teve dentro do Grupo Votorantim?

 

R – Para mim não mudou nada, a empresa vendia, vamos dizer assim, o tipo de trabalho hoje é totalmente diferente do trabalho que a gente fazia muitos anos atrás. Eu tenho 60 anos, faço o trabalho parecido com muitos rapazes que estão fazendo lá em Curitiba que tem 23, 24 anos. Todo mundo trabalha no computador, lida com informações e pega dado de alguém e passa para alguém, então eu acho que se a pessoa gostar do que faz a chance é a mesma. Eu falo para o meu chefe lá em Curitiba: “Nossa função aqui é formar especialistas”. Agora para o cara ser especialista tem que gostar, então dos que nós temos aqui, 20, vão sair talvez 5. Nem todo mundo que está aqui gosta e tem vocação para isso, então, respondendo bem certinho à sua pergunta, na minha maneira de pensar é a mesma coisa, o ambiente de trabalho é o mesmo, você tem bons amigos, a empresa te dá condições de trabalhar certinho, você tem desafios o dia inteiro. Nós estamos entrando agora, não sei lá, quantos "trainees" que foram contratados pela empresa, eu acho que eles estão numa empresa boa na hora certa, e se eles gostarem da coisa, eles vão ter todo o sucesso na vida. Mas se o cara não gostar, quer dizer: “Ah, não estou gostando, esse negócio é meio empoeirado, não gosto desse tipo de indústria”. Então vai procurar outra coisa. Se o cara gosta ele vai ter chance igual aos outros, se gostar e se dedicar, isso não só na Votorantim, como Pão de Açúcar ou sei lá onde - claro, a Votorantim é, na média, uma empresa que te oferece mais recursos. Claro que têm empresas muito maiores, têm empresas menores, mas ela te possibilita, você tem uma rede de informações muito boa. A gente lida com informações, ela procura se manter bem atualizada, então fornece ferramenta para que você faça bem o seu trabalho.

 

P/1 – Danilo, o que é que você acha de um projeto como esse que está chamando a Votorantim aos 85 anos de existência, resolve retomar sua história, e primeiramente retomar através da memória, chamando seus funcionários mais antigos. O que você acha de projetos como esse?

 

R – Isso para mim é a coisa mais importante do mundo, porque eu tenho 34 anos na empresa, nunca aconteceu isso, se isso tivesse sido feito desde o início, desde 1930, fatalmente, a gente teria muito mais informações e muito mais conhecimento sobre a empresa que temos hoje. Mas nunca é tarde, estão correndo atrás do prejuízo, eu acho só que essa coisa teria que ter sido feita muito anos atrás, foi uma pena que não tenha sido feita, uma iniciativa das melhores que pode ter.

 

P/1 – O que é que você achou de dar esse depoimento?

 

R – Fantástico. Estou muito feliz de ter tido essa chance de dar esse depoimento, de falar, tentei lembrar um pouquinho, pode ser que muita coisa a gente não consegue, mas se isso servir alguma coisa. (emocionado)

 

P/2 – Qual o seu sonho agora?

 

R – Eu quero trabalhar até os 65, era assim, eu queria trabalhar até os 50, passei para 55, passei para 60. Quando chegar 65, eu quero ir até 70. Na verdade, mesmo, sabe o que é? Mesmo que a Votorantim não me pague mais, que eu esteja afastado, eu gostaria de ir nas fábricas refrescar a cabeça.

 

P/1 – Você conseguiu muitas coisas nessas fábricas?

 

R – É, em cada fábrica tem um pedacinho de história: aquele troço eu que montei, aquele eu desenhei, eu que falei “vamos botar esse troço aqui”. No meu tempo, teve forno que eu montei e desmontei depois - já não serviu mais, ficou obsoleto. Para todo lugar tem história para contar, isso é muito bom. Eu não gostaria de chegar um dia - conheço muita gente que o cara parou e depois nunca mais foi na Votorantim. Isso para mim não existe, não. No dia que for parar, eu vou pedir: “Olha, de vez em quando eu quero ir na fábrica”. (choro) Difícil, viu? Lamento, mas não dá. Espero que isso que eu falei sirva para alguma coisa, porque é o objetivo de vocês. Se um pouco pode ajudar a Votorantim, estou muito contente.

 

P/1 – Danilo, eu gostaria de saber se há alguma questão que você gostaria de falar e a gente acabou não perguntando?

 

R – Deixa eu dar uma olhadinha na minha lista, ver se sobrou alguma coisa que eu não botei aqui. Eu tinha uma coisa, por exemplo, a organização da fábrica, como que era antigamente, como é que é hoje. Quando eu entrei a fábrica era fragmentada, você tinha um camarada que cuidava de uma parte da manutenção, ele tinha uma oficina de manutenção [com] as peças de reposição dele lá dentro. O outro cuidava de outro setor, quer dizer, você tinha quatro oficinas na fábrica, quatro almoxarifados. Era uma coisa muito complicada, isso sintetizou tudo. Hoje em dia, as coisas são muito mais racionais. Só estou dizendo como era esquisito naquele tempo, era normal a coisa dessa maneira, ninguém achava estranho que fosse desse jeito. Hoje, se você falar com uma pessoa que está começando agora, o cara fala, é um absurdo dos absurdos. Assim mesmo, funcionava desse jeito. Deixa eu ver se tem outra coisa aqui. A Votorantim tinha uma reunião anual, quem coordenava a reunião era uma tal de Irina Grecco, uma atriz, ela fazia todo ano aqui em São Paulo. E, nessa reunião, eles davam um relógio para o cara que fez não sei quantos anos - nunca ganhei nada, não, porque eu fui sempre mudando, mas eu participei disso uma vez e era muito famoso. O cara que ficava 10 anos ganhava um relógio, 30 anos ganhava alguma coisa assim. Não sei se alguém mencionou isso, mas eu acho um troço muito importante, que se vocês pegarem alguém aí que tenha mais de 40 anos, o Orsélio sabe disso, Mário Botés, o Nildo. Pode falar, encontro anual da Votorantim, coordenado. A "showoman" era a Irina Grecco que era uma atriz. Era muito interessante. Então, chamavam as pessoas, o Dr. José pessoalmente ia cumprimentar, entregava o relógio para o cara, era um troço muito... Isso, deve ter muita foto disso, muita coisa sobre esse encontro.

 

P/1 – Que é um trabalho que a gente está fazendo, que é levantar essas coisas.

 

R – Especificamente esse caso aí, esse arquivo não deve ter perdido. No mínimo, se a Irina Grecco estiver viva, ela deve ter muita coisa lá - não sei se ela está. Tem mais uma coisa gozada que eu queria comentar do Carlos Ermírio, interessante, para você ver o interesse dele em aprender, escutar: quando ele terminou o curso dele lá no Colorado, veio para o Brasil, trabalhava lá na Nitro Química e uma vez ele estava lá na reunião e escutou o pessoal, [que] estava negociando ao lado uma compra de filtro para tirar pó, e ele escutou lá. Quando terminou a reunião, ele pediu para o camarada da empresa que vendia filtro, senhor Calil - que está vivo até hoje, vendedor até hoje, tem uns 76 anos: “Senhor Calil, o senhor pode dar uma chegada na minha sala?” O Calil foi na sala dele e ele perguntou: “Como que funciona o filtro?” Pegou uma série de explicações sobre como funcionava o filtro e falou: “Olha, o senhor vem aqui na Nitro Química de vez em quando?”, “Uma vez a cada dois meses estou passando aí”. “Quando o senhor vier aqui então, a minha sala é esta aqui. Bate na porta que eu estou aqui, queria conversar um pouquinho com o senhor”. E assim foi, teve umas cinco ou seis sessões, o cara ia lá, ele chamava na sala dele: “E o filtro, como funciona? Ventilador?” Querendo tirar informações do negócio para aprender. Estou dizendo para ter uma ideia [de] como que é a pessoa: o cara quer buscar informação, ávido de aprender. Então esse é o homem que vai ser o herdeiro final da Votorantim, vai ser o substituto do Dr. Antônio, vamos dizer assim. Acho que é, pela hierarquia que foi traçada, é ele mesmo.

 

P/1 – Danilo, eu gostaria de saber se você gostaria de deixar uma mensagem para o Grupo Votorantim.

 

R – A mensagem, se for mantido as regras que nortearam o Grupo até hoje, todo mundo sabe que é austeridade, firmeza nos propósitos, que é dar os passos muito certinho, que é desenvolvimento sustentável, sem grandes endividamentos. Quer dizer, sempre trabalharam assim, e se também procurar manter o clima dentro da empresa, um clima agradável, tentar melhorar cada vez mais o clima entre as pessoas, não tem por onde as coisas irem mal. Acho que o Grupo poderia fazer hoje alguma coisa no sentido do Grupo ficar um pouco mais alegre. Já foi alegre, depois, devido a essa fase de globalização, de ajuntar as empresas, de fazer mais com menos, de produzir com menor custo, as coisas se apertaram um pouquinho - a própria Votorantim reconhece isso. Muitas vezes em algum lugar cortou um pouco mais, então as pessoas têm trabalhado muito e acabaram perdendo alguma coisa em termo de qualidade de vida. Então se a Votorantim conseguir nesse momento difícil levantar um pouco o astral, fazer com que a pessoa tenha mais qualidade de vida, não se empenhe tanto, muitas vezes não sinta tanta responsabilidade em cima; não vai perder nada, vai só ganhar. Essa é a mensagem que eu tenho que acho que vai dar muito bom resultado.

 

P/1 – Danilo, eu quero te agradecer, primeiramente, em nome do Grupo Votorantim, em nome do Instituto Museu da Pessoa [e] da nossa equipe por você ter vindo aqui, por ter falado. Eu aprendi bastante e fico muito feliz por ter te conhecido.

 

R – Muito obrigado.

 

P/2 – Obrigado.

 

[Fim do depoimento]

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