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História

"Cada degrau que você sobe é uma vitória"

História de: Marcia Alves de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/03/2022

Sinopse

Família. Aprendizados de mecânica com seu pai e ex-marido. Falecimento do pai aos 15 anos e grande transformação de vida. Mudança para Andirá, Paraná, com uma nova família. Trabalho em supermercado. Casamento aos 16 anos e trabalho acompanhando o marido caminhoneiro nas estradas. Primeira viagem. Carteira de motorista de caminhão. Experiências, desafios e viagens com o próprio caminhão, onde morou por 5 anos. Separação e continuidade no trabalho, mas sozinha, com suas próprias pernas. Trabalho como motorista de caminhão em diferentes empresas. Rotina. Pandemia. Sonhos.

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História completa

P/1 - Eu gostaria que você se apresentasse dizendo o seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R - Meu nome é Marcia Alves de Oliveira, nasci em Osasco, São Paulo, data de nascimento, 21/11/78.

 

P/1 - E quais os nomes dos seus pais?

 

R -  Alonso Alves de Oliveira e Boni Leite de Oliveira. 

 

P/1 - E com o que seus pais trabalhavam, o que eles faziam?

 

R - Meu pai era empilhador de empilhadeira. Minha mãe é cabeleireira. 

 

P/1 - Como você descreveria seus pais?

 

R - Meu pai faz trinta anos que faleceu, era um velho bacana, me ensinou muitas coisas até os quinze anos. Minha mãe... eu casei cedo, com quinze anos. Foi ali. Viver a vida no mundão, viver a vida no mundo não com meus pais, eu perdi meu pai muito cedo, mas eu vivi a vida, a vida me ensinou.

 

P/1 - Tem algum aprendizado do seu pai que você queira compartilhar com a gente?

 

R - Eu mexi bastante como mecânica, ele mexia com mecânica, acabei aprendendo, sendo ajudante das mecânicas, aprendi para ganhar dez, quinze por dia naquele tempo, eu tinha que sobreviver com aquele tiquinho, mas graças a Deus hoje a profissão que eu tenho, graças ao meu ex-marido, eu comecei namorar com ele, aprendi a trabalhar de ajudante junto com ele, eu sempre estava com ele no caminhão, manutenção, tinha um caminhão com algum problema, eu estava em cima, junto, ajudando, até virar uma profissional. Eu trabalhei com ele uns oito anos de ajudante até pegar uma certa idade, até os 21 para tirar carteira, depois tirei a D, estou na luta até hoje.

 

P/1 - Então, seu interesse por essa área relacionada a mecânica, automóveis e auto locomotivas veio do seu pai?

 

R - Meu pai e meu ex-marido.

 

P/1 - E você tem irmãos?

 

R - Tenho uma irmã. 

 

P/1 - Como é a relação de vocês?

 

R - Cada uma no seu canto, ela no cantinho dela e eu no meu. É assim: Oi, tudo bem? Tchau. Não é uma parceira, não é amiga.

 

P/1 - E você conheceu seus avós?

 

R - Conheci, com a benção de Deus. Meus velhos que Deus os tenha onde estiver, que os dois faleceram, mas eu falo até hoje que minha velha, a minha avó, foi minha mãe que me criou, foi ela, porque a minha mãe só me pariu, quem me criou foi a minha velha, e onde a minha velha estiver eu nunca vou dar desgosto para ela, sempre fui uma neta e uma filha boa para ela, até hoje.

 

P/1 - Queria saber que história você tem com a sua avó, você se lembra? Você gostaria de compartilhar algum momento?

 

R - A minha avó… sempre fui uma neta parceira. Sempre comprei briga com ela, dos netos e dos filhos. Quando um neto ou os filhos gostavam de abusar dela, eu caia em cima do povo. Então eu sempre fui uma neta, uma filha, protegida, até o último dia da morte dela eu estava junto ali, como ela morreu em casa, no Ano Novo, a funerária veio buscar e mandaram um caixãozinho, aquele que é de ferro. Como ela morreu normal aí eu arrumei briga, falei: Vai você e esse caixão descer a escada lá para baixo, eu não quero esse caixão, eu não quero esse caixão, você vai colocar outro caixão nela porque ela não está sangrando, pode por esse caixão aí

para você levar. O cara foi lá na funerária e trouxe o outro caixão, aí colocou ela, senão não ia não. Queriam colocar aqueles caixão de zinco, de ferro, eu falei: Esse caixão ela não vai, não! Esse pode ir você lá na escada, vai você escada abaixo. Me revoltei, mas no final deu tudo certo. Ela foi uma velha bem presente na minha vida. 

 

P/1 - E você sabe a história de seu nascimento?

 

R - Do meu nascimento eu não sei falar.

 

P/1 - A sua família tem algum costume específico, alguma comida que remeta à infância, ou alguma data comemorativa?

 

R - Se juntava no Natal e Ano Novo, os filhos, netos, eu estava junto, mas como Deus levou minha avó, o pessoal se separou, mas eu lembro muito do Natal.

 

P/1- E como era a sua casa de infância?

 

R - Minha casa de infância era grande, tinha cachorro, tinha gato, eu era muito molecona, subia em pé de árvore, soltava pipa em cima da casa até o pai chegar às cinco e meia da tarde. A gente descia porque o pai não podia ver ninguém soltando pipa lá não, jogava bola, bolinha de gude, bacana.

 

P/1 - E com quem você brincava? Com os vizinhos, com os primos?

 

R - Com os primos. De boneca eu não brincava muito, a gente convivia mais com os primos, então a gente brincava do que eles estavam brincando. 

 

P/1 - Você tem bastante primos?

 

R - Tenho bastante.

 

P/1 - E você morava na casa da sua vó? 

 

R - Não, eu morava perto, mas todo dia estava lá. 

 

P/1 - Você pensava o que você queria ser quando crescesse?

 

R - Eu queria ser veterinária ou médica, mas o destino mudou e acabei sendo caminhoneira.

 

P/1 - Qual é a sua primeira lembrança da escola?

 

R - Quando eu passei de ano, na 8ª série, quando eu terminei o Ensino Fundamental, o período de formatura para mim foi o que marcou, eu não tinha dinheiro, fizeram para mim.

 

P/1 - E no 1º período da escola, ainda pequenininha. Você se lembra de algum professor marcante, de alguma história marcante na escola?

 

R - Não.

 

P/1 - E mais velha?

 

R - Tinha o professor Ronaldo que era muito brincalhão e dava muito conselho.

 

P/1 - E como foi essa formatura?

 

R - Foi boa, formatura de surpresa.

 

P/1 - Como foi esse dia? Como você se sentiu? Conta um pouquinho para a gente.

 

R - Eu ganhei a túnica, ganhei a roupa, eu não tinha dinheiro, condições, juntaram e fizeram uma vaquinha e deu para fazer a festa, foi muito bacana.

 

P/1 - Você foi para o 2º grau. Como foi essa época para você?

 

R - Essa época para mim foi mais difícil, porque eu tinha perdido meu pai, eu já não tinha apoio da minha família, foi um pouco mais na raça, terminei o 3º, mas sem formatura, sem nada, terminei o 3º ano e a vida segue.

 

P/1 - Como foi esse período de perder seu pai? Como foi esse momento, as transformações da sua vida?

 

R - Foi difícil, porque minha mãe fora de casa, eu tinha quinze anos, fui viver a vida na casa dos outros, eu tinha que comer o que os outros me davam, eu não podia mexer na geladeira, trabalhei no supermercado para repor, para ajudar o pessoal onde eu morava, foi difícil chegar onde eu cheguei hoje.

 

P/1 - Você foi morar com quem?

 

R - Eu fui morar com uma família lá do Paraná, de Andirá. Eu não conhecia eles, eu fui conhecer eles do mercado, acabou com eles me dando força, me ajudando, viram que a minha mãe não estava dando apoio para mim, eles foram um casal que me ajudaram muito, me teve como filha deles, me ensinou tudo, lavar, passar, cozinhar, sempre falaram que filho era um arame farpado, que não era para eu ter filho antes do tempo, antes de casar, que filho era para a vida inteira, eles sempre abriram meus olhos para eu não sofrer antecipado no mundo.

 

P/1 - E quanto tempo você ficou com eles?

 

R - Fiquei três anos até conhecer meu ex-marido, meu ex-marido era amigo dos meninos, dos filhos dela.

 

P/1 - E esse período de três anos que você passou com eles, que recordações você tem dessa época?

 

R - São boas, porque me ensinaram lavar, passar, cozinhar, coisas que eu não sabia fazer. Eu sempre fui uma pessoa caseira, eles me ensinaram a ser uma mulher caseira, não curti muita balada, do trabalho para casa, até hoje, me ensinaram muita coisa, o que é ruim, o que é bom.

 

P/1 - E com quantos anos você começou a trabalhar no supermercado?

 

R - Com quinze anos.

 

P/1 - Como foi esse período para você?

 

R - Foi aprendizado, é uma vitória, você correr atrás sozinha, não é fácil.

 

P/1 - Me conta, como você conheceu seu ex-marido?

 

R - Pelos meninos, os filhos da velha, trabalham junto com eles, conversa vai, conversa vem, ficamos nove anos juntos, ele me ensinou a dirigir, me ensinou tudo, manutenção, tive meu próprio caminhão por causa do meu ex-marido, depois eu perdi, porque logo depois da minha separação ele arrumou outra mulher, a mulher falou: “Eu não quero nada que tenha no nome dela”, acabei perdendo o meu caminhão até hoje, desde 2011 para cá eu não sei o que é repor de volta ________, e o caminhão estava no meu nome, só que ele não era fiador, acabou quitando a dívida e não me acertou o resto que estava me devendo.

 

P/1 - Marcia, como foi esse começo de namoro, vocês foram morar juntos, se casaram?

 

R - Nós fomos morar juntos, nós ficamos dois meses namorando.

 

P/1 - E como foi esse período de mudança de casa, de começar a morar com ele?

 

R - Foi bom que ele me ensinou muita coisa, trabalhamos juntos, eu não ficava sozinha, nós vivíamos mais juntos. Eu estava com ele de ajudante, batia caixa, não tinha tempo ruim, até mudarmos de cidade para morar lá em Curitiba, ficamos três anos, não deu certo, voltamos para São Paulo, então foi uma experiência boa, hoje eu dou graças a Deus, Deus ter colocado ele no meu caminho, por ser o que eu sou hoje, dou graças a Deus a ele.

 

P/1 - Ele te incentivou bastante nesse primeiro momento?

 

R - Foi, me ensinou muita coisa, como pessoa eu não tenho o que reclamar dele, por mais que ele [tenha feito] uma cachorrada comigo no relacionamento lá atrás, mas como pessoa me ensinou muita coisa, eu não posso falar só mal dele, mas eu tenho que falar lado positivo, que a balança é maior, ele me ensinou muita coisa, mecânica, se for para eu sair daqui para ir lá no Piauí, eu vou, então dou graças a Deus por ele ter me ensinado o que eu sei hoje.

 

P/1 - Logo que vocês ficaram juntos, vocês começaram a trabalhar juntos?

 

R - Já no namoro.

 

P/1 - E como foi? Qual foi o primeiro trabalho de vocês juntos?

 

R - Foi no Bauducco, puxando panetone e ovo de Páscoa nessa temporada.

 

P/1 - Quantos anos você tinha? 

 

R - Dezesseis anos, eu casei cedo.

 

P/1 - E como era… como foi para você, você se encantou de cara por esse mundo?

 

R - Como minha mãe tinha me expulsado de casa, e como eu vi que ele era meu suporte, eu abracei e acabei aprendendo as coisas, a trabalhar, lutar, correr, não tinha tempo ruim. 

 

P/1 - E na sua juventude era trabalho, mas você também conseguia se divertir, tinha tempo para isso?

 

R - Na minha juventude não posso falar muita coisa não, porque logo eu casei, aí então eu tive mais responsabilidade, então eu não posso dizer que a minha juventude foi boa, mas também não posso falar que ela foi ruim.

 

P/1 - E quando vocês começaram a trabalhar juntos com caminhão, você lembra dessa primeira viagem com ele?

 

R - Foi lá para Tatuí, Franca, para o lado de Batatais, aquelas quebradas para dentro de Jaú. Muito bom, dormia em posto de gasolina, dormia no pé do acelerador, dormia no banco, ou dormia lá dentro do baú, tomava banho em posto de gasolina.

 

P/1 - E como você se sentiu nessa viagem? Como seguiu? Vocês foram mudando de trabalho? Conta um pouquinho desse período.

 

R - Eu aprendi bastante coisa, mercado, depois a trabalhar com empresas, logística, trabalhar com sacaria, sacaria de 25kg, foi bacana, foi uma experiência boa.

 

P/1 - E sempre junto com ele?

 

R - Isso, até 2006. De 2006 para cá fui viver a vida sozinha, trabalhei sozinha, fui andando com minhas pernas mesmo. De 95 até 2006 eu trabalhei com ele, de 2006 até hoje, sou eu e Deus.

 

P/1 - E nesse período que vocês trabalharam juntos, teve alguma história de alguma viagem, ou de algum trabalho, alguém que vocês conheceram na estrada marcante para você? 

 

R - Não, com ele não, teve depois.

 

P/1 - Marcia, como foi esse período de separação para você?

 

R - Foi um choque, porque você não está esperando, as pessoas falam, mas você não vai dar ouvido para o que os outros vão falar, você tem que ver com os seus olhos, foi o meu caso, meus olhos viram. A separação balançou minha cabeça, fiquei doente, entrei em depressão, porque ele era o meu porto seguro, perdi o porto seguro e fiquei abandonada.

 

P/1 - E como que você fez para se reerguer?

 

R - Muita fé em Deus e muito conselho, eu conheci um senhor de cem anos e ele me deu muitos conselhos. [Falou] que não era o fim, era o começo, que eu tinha muito que brilhar para frente, que muita coisa ia vir pela frente, ele falava: “Você é formosa, bonita, vai para frente, não olhe para trás, segue a vida adiante”. Foi por ele que eu não caí na depressão.

 

P/1 - Onde você conheceu ele?

 

R - Eu conheci ele aqui em Carapicuíba há muitos anos, desde 95, e até hoje ele me dá conselhos, foi um velho muito bom para mim, está sendo, ele está vivo até hoje. 

 

P/1 - E como foi para você continuar trabalhando nesse ramo, mas agora sozinha?

 

R - Você passa momentos gostosos, tem seu bate bate, não é fácil matar um dragão por dia, mas é gostoso. Eu gosto dessa profissão. Passa o dia todo e você nem vê a hora passar, quando vê já está de noite, às vezes você pega um cliente bom, “vamos ali tomar um café comigo!''.

 

P/1 - Quais são os pontos positivos, as qualidades desse trabalho?

 

R - A empresa que te dá o suporte. Igual a Luizinha, ela é uma mãe, porque confia, te dá as coordenadas para você fazer, você cumpre. O bom é que você acaba mostrando para eles a confiança, que a confiança é conquistada, não é dada. Então a cada dia você tem que conquistar a confiança deles e eles por você, eu não tenho o que reclamar da LZN, uma empresa muito boa, aqui eles me dão muito suporte, todo apoio, não tenho o que reclamar do pessoal daqui, é muito bom, a logística deles é muito boa. 

 

P/1 - Marcia desde 2006 até hoje, você passou por algumas empresas? Como foi o seu trabalho? Eram cargas diversificadas? Como foi?

 

R - Trabalhei em várias empresas, de 2006 para cá trabalhei… até mandei alguns caminhões para você, de carroceria, que carregavam chapa, material de tubos, material grande de três metros que você tem que amarrar, colocando cinta para o material não cair, não derrubar, não dar transtorno para a empresa. Caminhão Baú Cyber, que eu trabalho hoje - vou mandar foto depois para você, do caminhãozinho que eu trabalho hoje -, baú refrigerado com plataforma, que é do supermercado Assaí, do grupo Assaí, que eu trabalhei 24 por 48, ficava mais dentro do caminhão do que em casa, eu morava dentro do caminhão, só vinha para casa no domingo depois das seis da manhã. Segunda-feira às seis horas da manhã eu tinha que estar lá de novo, que o caminhão é tudo marcado por hora. São muitos caminhões que tem lá dentro do Assaí.

 

P/1 - Desses vários trabalhos e tipos de carga, qual foi o mais desafiador para você?

 

R - O meu caminhão. Eu vivi morando dentro do caminhão por cinco anos. Ó, tem uma carga lá do Amapá, tem uma carga lá para Lapa, que é lá para Curitiba, tem carga lá para Mossoró, “ó, tem carga indo lá para Natal. Eu ia. Foi desafiador, cinco anos foi só dentro do caminhão. Era sol, chuva, dentro do caminhão.

 

P/1 - Como era a sua rotina no seu caminhão? Descreve pra gente que não conhece tão bem.

 

R - Rotina? Hoje?

 

P/1 - Não, no seu caminhão.

 

R - Ah, no meu caminhão eu vivia mais dentro. Eu montei um varal, eu tinha comprado uma cozinha pra eu cozinhar, não ficar almoçando na rua. Comprei uma rede para montar lá dentro do baú pra eu dormir. Encostava em algum posto de gasolina e já era. Eu fiquei cinco anos morando dentro do caminhão, foi uma experiência bem forte. Se eu tivesse que passar, eu passaria de novo sem nenhum problema.

 

P/1 - E os maiores aprendizados dessa época, você tem algum?

 

R - Tem, a humildade. A humildade porque você está no meio do mundo a fora e você precisa das pessoas ao seu redor. Se você quebra o caminhão, ou você vai em um lugar que você não conhece, você pede para algum colega do mesmo ramo, que não seja da mesma empresa, vai para aquele setor: “Ó, vamos de comboio, lá é perigoso! Vamos de comboio”. Aí a gente ia de comboio. “Ó Fulano, deixa eu ir junto com vocês?” Aí a gente ia com os dois caminhões juntos.

 

P/1 - Você lembra de alguma história, alguma experiência assim?

 

R -  Ai agora… Eu passei por uma, fui junto lá para ir para Natal, comboio.

 

P/1 - Como foi?

 

R - Eu não conhecia a estrada, eles me ensinaram a ir junto, a acompanhar a carreta na frente, eu no meio e a outra carreta atrás, a gente ia tudo de comboio. Eu não conhecia o nordeste, aí conheci pelos outros. Parava em posto de gasolina: “O Fulano, eu tenho que ir para Alagoas”. “Ah, eu vou para lá também, vamos embora juntos”. Ou parava lá perto, às vezes estava sem um “puto” no bolso, e o cara estava fazendo um ovo mexido lá com farinha. “O loira, quer um ovo mexido?” Eu falava: “É aqui mesmo”. Já cheguei a passar fome na rua. É. Aí tem que encontrar com os outros motoristas que têm cozinha nos caminhões deles e comia ali junto com eles, tomava café. Até hoje, às vezes, em algum lugar, no interior, a gente acaba conhecendo. “O loira, chega aí, vamos tomar um café!” Mas não passa fome não. 

 

P/1 - Imagino que você, ao longo desses anos todos na estrada, tenha conhecido muitas pessoas.

 

R - Sim, até hoje. Às vezes nos encontramos, são cinco anos, dez anos que a gente não se via.

 

P/1 - Tem alguma pessoa que você encontrou e que tenha te marcado bastante?

 

R - Só um rapaz que estava comigo lá em Alagoas. Eu estava em Guarulhos esse dia e eu topei com ele, faz quinze anos que a gente não se via, estávamos em Alagoas, há quinze anos atrás, e essa semana nos vimos em Guarulhos, muito bacana. Então por isso que a gente nunca deve deixar rastro, sempre deixar coisas boas no caminho.

 

P/1 - E muita troca, muitos aprendizados, imagino que…

 

R - Se furar um pneu na estrada, todo mundo para, quando pensa que não, cinco caminhões parados ali para ajudar, é muito bom.

 

P/1 - Depois que você não tinha mais seu caminhão. Como foi esse período?

 

R - Ter que trabalhar para os outros, tinha que trabalhar no caminhão dos outros, porque tinha que dar continuidade na vida. Você perdeu o caminhão, mas não perdeu a vida, tem os braços, pernas, cabeça, vão os anéis, ficam os dedos.

 

P/1 - E para onde você foi? Em qual empresa você foi trabalhar?

 

R - Ah, eu fui em várias, viu? Depois que eu me separei eu fui em várias.

 

P/1 - Quais foram as mais marcantes para você?

 

R - O Assaí, de ficar a semana toda, só vim embora só no domingo, passar em casa só para deixar a roupa suja e voltar de novo para o depósito. O depósito ficava aqui em Cajamar, em São Paulo.

 

P/1 - Quanto tempo você ficou nessa empresa?

 

R - Um ano, fiquei um ano, aí depois eu saí, porque eu não estava me adaptando mais não, eu vivia mais no caminhão do que minha própria vida. Aí eu saí e arrumei outro serviço, foi logo quando eu entrei aqui. Aqui pelo menos eu tenho vida, todo dia estou em casa, faço a obrigação, todo dia estou em casa dormindo no meu travesseiro.

 

P/1 - Márcia, como é para você, como você se sente sendo mulher, dirigindo sozinha nas estradas do Brasil, você se sente segura, como é?

 

R - É tranquilo. A mesma coisa de dirigir um carro e ir embora, não tenho medo não. A única coisa que eu tenho medo é de ficar em uma cama e não ter ninguém para cuidar. Esse é meu medo, de ficar paraplégica,eu tenho muito medo. Fora isso, não tenho medo não.

 

P/1 - E como são as estradas que você já pegou, você já teve algum tipo de assistência? Ajuda? Já passou por alguma situação complicada?

 

R - Não. Complicada, não. Trocar um pneu todo mundo para, vê um caminhão parado, uma mulher na rua, todo mundo para. Disso não tenha dúvida. Se você precisar de alguma ajuda, o pessoal vai e ajuda.

 

P/1 - E alguma situação engraçada ou curiosa na estrada?

 

R - No momento eu não lembro.

 

P/1 - E qual foi a sua viagem mais marcante?

 

R - Mais marcante? Foi em Gravataí, foi muito bom. Lá tive almoço, café da manhã e pousada, muito boa.

 

P/1 - Como foi essa viagem? Você viajou por um tempão?

 

R - É, eu fazia, bate volta. O cliente viu que era mulher, falou: Não, fica aqui final de semana, fica mais segura. Me colocou na pousada para eu dormir lá, tudo por conta deles. Passei o final de semana. Foi muito bom, conheci a cidade de Gravataí. 

 

P/1 - Justamente, como é para você conhecer muitos lugares diferentes, você gosta disso?

 

R - Gosto, bastante. Conhecer pessoas, outras mentes, outros pensamentos. Tem pessoas que têm a mente mais evoluída, te ajuda a levantar, aí é bom. Faz você crescer.

 

P/1 - Você lembra de alguma situação que você recebeu algum conselho?

 

R - Conselho a gente tem bastante na estrada, tem bastante, não dá para decifrar, são várias. Como tem gente ruim, tem gente boa, então você tem que pegar aquilo que é bom, o que é ruim você jogar fora.

 

P/1 - E Marcia, você já sofreu alguma dificuldade no trabalho por ser mulher, algum preconceito?

 

R - Já, bastante, mas agora não, agora se tiver eu tiro de letra, no começo já passei um bocado.

 

P/1 - Quais, como era?

 

R - O preconceito é o cara não aceitar que você é a motorista, em porta de mercado. “Cadê o motorista?” “Não, sou eu”. “Não, quero falar com o motorista”. Saber que o caminhão que eu estou trabalhando era eu. É a pessoa não aceitar que você é a motorista, está naquele veículo lá. E ele precisa da mercadoria que tá lá dentro, então ele fazia pirraça, ele recebia todos, e deixava eu por último. Tem muita pirraça.

 

P/1 - E como você se sentiu nessa situação?

 

R - Ah, constrangida, porque você não está roubando, você está entregando, mas hoje eu tiro de letra, hoje em dia ainda tem, tiro de letra.

 

P/1 - Como que tira de letra? Conta pra gente.

 

R - Ah, nem ligar né? Ah, entreguei aqui, o material está aqui, se você não quiser eu vou ligar para a empresa e ver o que ela pode fazer por mim”. Hoje a gente ainda encontra pessoas que só enxergam para frente, não enxergam para os lados. Tem pessoas que tem um tampão, não querem enxergar. E hoje eu faço serviço como qualquer homem faz, amarro carga, carrego e descarrego, se é para trocar um pneu eu troco, se houver uma manutenção no caminhão meu, eu vou falar: “Ó, tá precisando disso para fazer, tá precisando daquilo para fazer”. Hoje eu tiro de letra. Eu acho que se eu ficar parada, não trabalhar mais nisso, eu fico doente. Porque é vício, é uma máfia, você não consegue sair daquilo que você está fazendo, porque é aquilo que você gosta, você ama fazer. Eu amo fazer o que eu faço, zelo, cuido, deixo limpinho. O meu cartão de visita é o caminhão. Chegar na empresa…nossa, como está limpo! Eu me sinto bem [com] a pessoa ver o meu caminhão limpo.

 

P/1 - O que te fez amar essa profissão, você consegue dizer?

 

R - Meu ex-marido.

 

P/1 - E o que te encantou? Ele te apresentou o trabalho, mas o que fez com que você ficasse trabalhando nessa área?

 

R - Eu acabei gostando, comecei a ver como era o serviço. Eu falei: “Eu acho que dou conta”. Daí acabei gostando do serviço até hoje. Não importa mais o que for carregar. A paixão de trabalhar é gostosa demais. O caminhão está na veia, não tem como sair, eu já tentei tirar, mas não consegui (risos).

 

P/1 - E depois de passar por uma situação desafiadora, ou alguma situação de preconceito, como é chegar em casa e falar: “Venci! Consegui!”? Como você se sente?

 

R - Prazeroso, saber que você deu conta do seu recado, você sabe que não vai ter problema nenhum, você vai chegar lá no seu travesseiro e dormir com a cabeça tranquila, amanhã é outro dia. Vamos matar um dragão por dia.

 

P/1 - Então você pensa isso, de chegar em casa e sentir esse alívio. 

 

R - Isso. Prazerosa, né?

 

P/1 - E qual foi o lugar que você mais gostou de visitar ao longo de todos esses anos?

 

R - Curitiba. Curitiba é um lugar gostoso, tenho boas lembranças.

 

P/1 - Por que? Conta pra gente que lembranças você tem.

 

R - Curitiba tem bastante lugares para você conhecer, mesmo você parada lá no posto, tem bastante lugar para você conhecer, parque, jardim botânico.

 

P/1 - Marcia, nessas empresas que você trabalhou ao longo dos anos, tinham outras mulheres trabalhando também?

 

R - Bem poucas, mas tinha. Hoje tem bastante, mas no meu tempo não tinha muito não. De 95 para cá, não tinha muito.

 

P/1 - Você percebe se mudou um pouco o jeito como as pessoas te enxergam nessa profissão ou continua o mesmo? 

R - Não, mudou bastante, mudou. Mudou porque eu sou muito alegre, então eu quebro. Antes da pessoa me ferir, eu quebro. “Oi, bom dia! Tudo bem?” Aí não tem como uma pessoa me chatear, eu já quebro ali.

 

P/1 - E como é para você ver mais mulheres trabalhando nessa área, como você se sente? 

 

R - Hoje está melhor. Ajuda agora a força, a união das mulheres hoje, está melhor. Falam: “A Galega está aqui”. “A Galega já passou por aqui”. “A Fulana já passou aqui”, “Ah, legal”. Então a mulherada tá… Uma ajudando a outra.

 

P/1 - Marcia, como é a sua rotina, seu dia a dia hoje em dia?

 

R - Hoje está de boa, sábado e domingo estou em casa tranquila. Sou muito caseira, do serviço para casa, de casa para o serviço. Não sou muito de balada, e depois dessa pandemia eu fiquei ainda mais caseira. 

 

P/1 - Ia te perguntar justamente isso, como a pandemia impactou a sua vida profissionalmente, e pessoalmente também?

 

R - Atrapalhar não atrapalhou não. Você fica com medo, mas tem que lutar, se proteger, se cuidar, beber muita água, comer coisas que harmonizam o organismo.

 

P/1 - São quantos anos de profissão?

 

R - De 96 para cá.

 

P/1 - E quais foram os seus maiores aprendizados tendo 25 anos de carreira?

 

R - Ah, é conhecer o mundão. Conhecer lá fora, saber o que é ir para fora. Conhecer o positivo e negativo, porque antes eu tinha inferioridade, mas depois que eu comecei a conhecer o mundo lá fora eu vi que eu tenho valor. Porque lá fora, se você for ver tem muita sujeira, muita coisa suja. Eu valorizo ​​a minha profissão, meu trabalho. 

 

P/1 - Você teve outros trabalhos além de dirigir?

 

R - Eu já trabalhei em mecânica, já trabalhei como ajudante de mecânica, já trabalhei de frentista, já trabalhei de ajudante em açougue, já trabalhei em mercado de caixa, empacotadora, ajudante de caminhão. Foi isso.

 

P/1 - E desses trabalhos, qual foi o mais marcante? Você quer contar um pouquinho deles?

 

R - Foi mais de ajudante de caminhão, porque eu não conhecia nada da vida. Fui conhecendo a coisa e fui gostando da coisa, uma coisa puxou a outra.

 

P/1 - Marcia, como é para você trabalhar em uma área que historicamente, culturalmente é considerada como masculina? O que representa para você, o que significa para você trabalhar com isso?

 

R - Para mim é um troféu saber que eu posso fazer o que o homem faz, não só dirigir, mas bater carga, montar a caga, se está alta você tem que amarrar. É a mesma coisa, não muda nada. Para mim é um troféu, aí sim, eu ganhei.

 

P/1 - Quais são as coisas mais importantes para você hoje?

 

R - Saúde, ter o seu trabalho e saúde mental, você estar em paz com sua cabeça, seu coração, o resto a gente empurra com a barriga, mas você estando bem, correto, só é o cotidiano. 

 

P/1 - E hoje em dia o seu trabalho como funciona, você vai e volta todo dia para casa? E o que você transporta, como funciona? 

R - O trabalho deles é logística, é Baú Cyber. Puxa para carregar uma mercadoria, fecha o Cyber - vou mandar p caminhão depois para você, que eu trabalho - muito gostoso, é um caminhão elétrico, é um caminhão que não tem embreagem, só acelerador e freio, é automático, é um caminhãozinho que só falta falar, o resto… Esse foi um caminhãozinho que eu nunca tinha visto, foi minha primeira experiência, é um caminhão elétrico. Hoje é minha experiência, minha experiência nova. Mas que carrega, é a mesma coisa que outros caminhões, caixa, madeira, caixa de madeira que você tem que amarrar para ela não tombar. Muito bom. 

 

P/1 - E como é para você trabalhar em uma área tão importante de transporte… Como você se sente?

 

R - Ah, eu… Uma guerreira. Estou lutando, estou matando um dragão por dia, porque não é fácil, ainda tem preconceito, mas a gente tem que fingir que não está vendo, falar menos e ouvir mais, e ir embora, é o que eu estou fazendo. 

 

P/1 - E quais são os seus maiores hoje sonhos em dia?

 

R - Ter meu carro de volta. Estou sonhando em ter meu carro, porque eu perdi meu carro. O meu carro… Eu dei entrada no meu caminhão, aí eu perdi o caminhão por causa do meu ex-marido. Mas meu sonho é ter meu carro de volta.

 

P/1 - Marcia, a gente está caminhando para o fim, mas queria te perguntar se você gostaria de acrescentar algo mais, alguma coisa que eu não tenha te perguntado, alguma história, algum momento da sua vida?

 

R - Não, estou de boa. Essa é a história.

 

P/1 - E você, gostaria de deixar alguma mensagem para as mulheres que estão nessa área?

 

R - De nunca desistir do seu sonho, por mais difícil que seja, mas não é impossível para Deus. Se a gente persistir, lutar e conquistar aquilo que você quer, a gente consegue. É igual eu, eu estou tentando lutar para ter meu carro de volta, até o final do ano, se Deus quiser, estarei com meu carro de volta. Não é fácil, cada degrau que você sobe, é uma vitória, mas cada degrau que você sobe é uma luta, mas tem que persistir.

 

P/1 - Marcia, como foi para você ter dividido um pouco da sua história com a gente hoje, ter lembrado do passado, de algumas histórias, ter visitado a trajetória, como foi?

 

R - Foi bom, foi uma história muito boa para lembrar. É uma experiência boa, que você lembra lá atrás e você vai lutar a cada dia, uma experiência cada dia é nova, nunca é igual. Hoje você aprendeu isso, amanhã é outro, amanhã é outro e assim vai. Cada dia é uma nova história.

 

P/1 - Obrigada, obrigada demais por passar essa manhã com a gente, foi muito gostoso para mim. Quero te agradecer muito em nome também do Museu. E quero te dizer que quando tudo estiver pronto, a gente entra em contato, obviamente, e acho que vai ser muito legal ter um registro da sua história no Museu, e tenho certeza que vai inspirar muitas outras mulheres.

 

R - Só não pode desistir. E ir até o fim dos seus sonhos.

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