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Cada corpo tem uma história

História de: Luana da Silva Bezerra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/10/2021

Sinopse

Luana rememora a infância no bairro da Nova Holanda, Maré, onde ela brincava na rua e desfrutava da proximidade com seus avós, bairro que imprimiu forte memória em seu corpo de dançarina. Luana, foi aluna de diferentes escolas e academias de dança do Rio, e conta sobre as barreiras que ela teve que ultrapassar por ser mulher, negra e periférica para. Luana discorre sobre as experiências nacionais e internacionais que teve por conta da dança e o que antes era estigma hoje espelho que que jovens da Maré possam sonhar com voos mais altos com a dança.

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História completa

Acho que a minha memória com eles está ligada diretamente a este espaço, a comunidade da Nova Holanda, onde a gente está agora, que é de onde eu venho. Meu avô paterno veio pra cá por conta da construção da avenida Brasil, logo em seguida minha avó também veio. Eles moraram primeiro na rua 3, que eu acho ser bem aqui atrás, depois passaram a morar na rua J, rua Marcelo Machado, que essa rua de frente onde nós estamos. Foi onde eu morei os primeiros 7 anos da minha vida

 

Então minha vida foi basicamente nesta rua, nesta rua que é a rua J. Eu sempre fui uma criança muito brincante na rua, então a rua era o meu primeiro espaço, eu acordava queria tomar café e mãe, “beijo e tchau, estou com as meninas”.

 

A gente brincava sempre, todos juntos, como eu era uma menina muito esperta corporalmente, eu acho que isso me dava um vale pra participar das brincadeiras dos meninos, que era de corrida, que era de apostar coisas; brincava de pic esconde, mamãe na lata, garrafão, taco

 

Eu via muita televisão, eu acho que a minha geração é muito da televisão, o início muito forte da televisão, a gente pode comprar, as pessoas pobres podiam de alguma maneira comprar televisão, eu acho que estava mais possível, então eu me lembro de acordar tomando café e já vendo Xuxa, era o programa da manhã, depois um pouco de desenho, ou quando eu ia pra escola e voltava e via desenho a tarde.

 

Aí na quinta série eu conheci uma menina, chamada Renata, que me convidou pra fazer uma aula de dança, de Street Dance, naquela época em Campo Grande, a gente tinha a camisa do colégio, que a gente podia entrar de graça, tinha esse passe, ainda não tinha a história do cartão e nada disso, a gente só entrava por trás. Aí eu fui fazer essa aula de Street Dance, foi onde a arte entrou na minha vida.

 

Era uma ONG que se chamava CAMPO, Centro de Apoio ao Movimento Popular da Zona Oeste, e foi lá que tudo começou, então lá tinha aula de serigrafia, grafite, break, street dance, um monte de pré-vestibular. Era uma ong da zona oeste, uma galera Petista, uma galera muito engajada na política, e ali foram os primeiros passos de entender sobre injustiça social, desigualdade, entender meu lugar no mundo como mulher, como uma mulher preta, ou racializada na época, acho que a coisa de eu me entender negra veio depois, mas tinha uma coisa muito forte de começar a me entender num lugar no mundo.

 

 E lá eu consegui uma bolsa de estudos, de sapateado, na Casa de Danças Carlinhos de Jesus, com um professor de sapateado americano, chamado Steven Harper, ele foi o cara que me deu a primeira bolsa, uma oportunidade, e a partir desta bolsa eu consegui outras bolsas. Minha vida foi basicamente quebrar muros, quebrar as dificuldades, entender que isso não é pra mim e ainda assim eu quero fazer. Ah, como é que faz? Tem que ir lá pedir, tem que ir lá na Secretaria pedir bolsa? Tá bom eu vou lá, eu mesmo ia, com treze, quatorze, quinze anos, dezesseis, dezoito anos, ainda hoje eu peço bolsas, ainda hoje eu não posso pagar por alguns cursos, é um trabalho de quebrar muro o tempo inteiro, quebrar as dificuldades, passar por isso o tempo inteiro.

 

e lá eu ganho uma bolsa de estudos, no Centro de Movimento da Déborah Colker, aí foi de fato minha maior escola de dança, na prática como bailarina, como artista, é meu primeiro celeiro mesmo.

 

E aí, depois que eu voltei, aí eu pensei: “bom, agora eu dancei numa companhia profissional, sou uma profissional da dança, trabalhei faz um tempo, fiz um trabalho fora, onde eu quero dançar agora?” Eu cheguei no Brasil assim: “Onde é que eu quero dançar?”.Acho que um pouco na intuição, ou numa força, numa potência e num desejo muito grande, a única companhia que me interessava e sempre me interessou no Rio, sem ser a que eu trabalhava, foi a Lia Rodrigues, já pirava, já gostava muito e era muito conhecida, tem um trabalho muito forte internacionalmente, então isso para um bailarino é o melhor que se pode ter, é uma companhia super consagrada e conhecida.

 

quando eu volto em 2012, neste momento eu ia mandar um e-mail pra ela, na mesma semana ela me mandou um e-mail: “Eu queria te convidar pra fazer uma performance com a gente, na Casa França Brasil, sobre a ‘Hora da Estrela’, de Clarice Lispector. Eu falei: “Uau que doido, porque eu ia te mandar um e-mail”. Ali ela disse: “Que bom, apareça, a gente está aproximando pessoas que já fizeram parte pra fazer essa performance, e logo em seguida a gente vai ter uma audição, ficaria muito feliz se você viesse.”

Fiz a performance, e aí já muito certa do que eu queria, eu falei: “Eu vou passar nesta audição.” Vou passar, e passei, e aí eu fiz dois espetáculos com ela, duas criações artísticas com a Lia. O primeiro ‘Pindorama’ e depois ‘Para que o Céu não Caia’, que foi a última peça que eu fiz com eles. Eu trabalhei na companhia durante quatro anos.

 

e eu acho que essa foi a ideia da Lia, justamente de uma formação, para que essas pessoas pudessem em algum momento, estar na companhia, como estão neste momento. Então olhando pra trás, então eu acho que o meu lugar é de referência, de alguém que fez uma formação em outro lugar, infelizmente isso não existia aqui, mas naquele momento existia, então pra mim é maravilhoso em retorno da minha parte. Eu consegui com as minhas próprias pernas, fazer a minha formação, estar em alguns lugares, chegar neste espaço e é catalizador.

 

Foi incrível pra mim poder fazer esses espetáculos, no Centro de Arte, poder levar minha avó pra assistir essa peça, as minhas primas para assistirem essa peça. E chegar em casa e poder dialogar com elas sobre arte, sobre o meu fazer, que eu nunca tive.

 

tem um coisa de uma memória corporal que é muito forte em mim, a coisa com meu corpo, parece que o tempo inteiro muitos receptores, é muito forte esse lugar pra mim, a Nova Holanda, a Maré, esse espaço é muito forte no meu corpo.


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