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História

Cacai, um grande mestre

História de: Antônio Carlos Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/05/2021

Sinopse

Santo André, SP. Família baiana. Brincadeiras de rua. Samba. Percussão. Escola de samba. Guarda Civil. Luta social. Projeto Social. Professor de Percussão.

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História completa

P/1 – Cacai, Primeiro eu queria agradecer muito ter tirado um dia seu, dar essa atenção para a gente e, agora para a gente gravar a sua história de vida para entrar no nosso projeto, entrar na história do bairro. E para a gente começar, eu queria que você falasse para a gente seu nome completo, onde você nasceu e quando você nasceu.

 

R – Bom, primeiramente boa tarde a todos, obrigado pelo espaço. Meu nome completo é Antônio Carlos Pereira, eu nasci na cidade de Santo André.

 

P/1 – Só um minutinho, só um minutinho.

 

P/1 – Está bom, vamos voltar um pouquinho. Se você puder repetir para a gente, nome completo, onde nasceu e quando nasceu?

 

R – Boa tarde a todos, queria agradecer essa oportunidade. Meu nome é Antônio Carlos Pereira, nasci na cidade de Santo André, tenho 46 anos.

 

P/1 – E qual é que é a data de nascimento do senhor?

 

R – Eu nasci 14 de junho de 1966.

 

P/1 – E Cacai, e como é que é o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Jacomeci Messiadas Paulo Pereira e minha mãe é Zelinda Pereira.

 

P/1 – E o dos seus avós?

 

R – Merquides Pereira e, a vó não recordo.

 

(Zelinda) – Maria Madalena Alves.

 

R – Maria Madalena Alves.

 

(Zelinda) – E Petronínio Paulo Pereira.

 

R – Petronínio Paulo Pereira.

 

P/1 – E Cacai, conta um pouquinho para a gente da história dessa família? Você sabe como que seus pais se conheceram? De onde que a família veio?

 

R – A minha família, ela é, particularmente é da Bahia. Meu pai veio para cá, particularmente aqui no Bairro Sônia Maria, e não tinha quase nada. Aí ele veio particularmente à cidade de Santo André, aí com o tempo ele trouxe a minha mãe, aí de lá formamos a família aqui. Então nós somos uns dos primeiros moradores aqui do bairro.

 

P/1 – E o que é que seus avós faziam na Bahia?

 

R – Não, porque os meus avós já eram lá da Bahia. Eu particularmente nasci aqui na cidade, São Paulo. Então não tinha muito contato com os meus avós paternos.

 

P/1 – E porque é que seus pais decidiram vir para São Paulo?

 

R – Particularmente porque lá na Bahia, de onde os meus pais vieram, lá já é mais a Zona Rural, então lá eles vivem muito de plantação. E como lá a região é muito quente, não tem muito trabalho, então meu pai veio para cá para conseguir vencer na vida e nos criar.

 

P/1 – E que região da Bahia que eles são?

 

(Zelinda) – Lago do Bom Jesus, Riacho de Santana e Cornobim.

 

P/1 – E Cacai, me conta uma coisa. E como que foi seus pais chegaram, essa história deles com São Paulo? Como é que eles vieram parar aqui no bairro?

 

(Zelinda) – Moramos na Vila Lucinda, da Vila Lucinda nós compramos o terreno aqui, mudamos.

 

R – Então, praticamente meu pai da Vila Lucinda, ele comprou o terreno aqui. Que aqui antes eram chácaras, Sônia, Sílvia e Ana Maria. Então eles lotearam, então meu pai é um dos primeiros moradores aqui da região.

 

P/1 – E conta para a gente um pouquinho então como que foi a sua infância aqui?

 

R – Minha infância foi, digamos assim, acho que a infância particularmente hoje pode se dizer que, antigamente a infância era diferente de hoje. Porque hoje, todo lugar é asfaltado, antigamente tinha aquelas brincadeiras mais na rua, tinha campinho de futebol. Era uma brincadeira mais criativa, hoje já é tudo mais no computador, então já é bem diferente.

 

P/1 – E como é que era a sua casa? Assim, você lembra a casa da tua infância?

 

R – Eu lembro que a minha casa era modelo colonial, bem antiga, né, aquelas casas de forro ainda e tinha aquela varandinha na frente. Era nesse mesmo local aqui.

 

P/1 – E qual é que era a tua brincadeira preferida?

 

R – Era soltar pipa, acho que todo moleque sempre gostou de soltar pipa. Pião, jogar fubeca, bolinha de gude.

 

P/2 – Vocês tinham alguma festa? Comemorava todo mundo junto?

 

R – Geralmente festa comemorativa, assim, todo mundo comemorava era mais na festa junina, que a gente fazia aquelas fogueiras na rua, no meio da rua e todos os moradores participavam. Eu lembro muito vagamente dessas festas juninas que eram mais… compartilhava todo mundo.

 

P/1 – Cacai, e me conta um pouquinho dessa primeira infância sua? Quem é que eram os teus amigos?

 

R – Minha infância, eu brincava muito na escola porque como o meu pai trabalhava, ganhava pouco e minha mãe também ficava com os afazeres de casa, eu sempre desde pequeno cuidava dos irmãos menores. Então eu ficava muito dentro ajudando os irmãos. Então eu tive muito contato, só brincava mesmo com os meus irmãos. 

 

P/1 – Quantos irmãos você tem? Conta para gente?

 

R – Cinco.

 

P/1 – Quais é que são as diferenças de idades? Os nomes?

 

R – Bom, eu estou com 46. Meu irmão está com 51, minha irmã está com 49, a outra está com 42 e, 40. São as faixas etárias mais ou menos.

 

P/1 – E essa rua aqui, quem é que morava nela?

 

R – A maioria dos moradores já mudaram, daquela época quando eu era pequeno, acho que são pouco, deve ter só uns três moradores mais antigos. Mudaram já.

 

P/1 – E tem alguma história marcante do período de infância? Alguma coisa engraçada? Ou que tenha ficado forte na memória com você?

 

R – Aí já foi mais quando eu cresci, mais assim no samba, porque eu sempre fui da escola de samba, desde os meus 12 anos. O que eu me lembro muito da minha infância, sempre foi voltado ao samba. Me marcou, que até hoje, que são 30 anos que eu convivo com o samba. Então a minha infância abaixo disso aí eu não me recordo muito.

 

P/1 – E seus primeiros dias de aula, você lembra?

 

R – Olha, eu nunca me dediquei à escola, se eu falar que eu fui um aluno. Nunca me dediquei, nunca me sai assim... Eu não gostava, então não tenho muita recordação da escola.

 

P/1 – E de ter alguma recordação ruim?

 

R – E porque todo moleque gosta de brincar, então sempre como eu estudei de tarde e quando eu vinha para casa, tinha que ficar com meus irmãos, então eu achava a escola, eu não tive aquela orientação pela minha mãe que era coisa que eu tinha que no futuro, uma coisa ou outra. Eu achava que era uma obrigação e, é uma coisa que no tempo, sabe, eu não me dedicava muito. Hoje eu vejo a importância que é.

 

P/1 – Você lembra a escola que você estudou aqui no bairro?

 

R – É Maria Josefina K. Flaquer, essa escola.

 

P/1 – Você lembra como é que era a escola na época?

 

R – A escola não mudou muito não, porque eu fui esses dias fazer uma apresentação lá. Não mudou muito, assim, aumentou na parte estrutural, mas é a mesma escola. Porque é uma escola estadual, então a estrutura dela, o desenho, a construção, é quase a mesma coisa, não tem muita. Aumentou os muros, mas é a mesma coisa.

 

P/1 – E tinha uniforme?

 

R – Antigamente a gente usava muito era avental. A gente ia de chinelo Havaianas, uns iam de Kichute e, o avental. Não tinha uniforme, então todo mundo ia simples, mas limpinho. Eu me lembro muito disso, daquele avental branco que a gente usava.

 

P/2 – E você lembra como você ia para a escola? A pé? De ônibus?

 

R – Não, porque a escola era na rua de baixo da minha casa, então só descia a viela, já estava na escola. Então era a pé.

 

P/1 – E Cacai, aí você falou um pouquinho das festas, eu queria perguntar, as festas lá na escola, a festa junina, dia dos pais, como é que era?

 

R – É bastante divertida porque festa junina está na memória da gente, a gente recorda muito as brincadeiras, assim como nas festas juninas antigamente. Hoje em dia já não existe mais isso, hoje em dia uma festa junina na comunidade traz um ator, a coisa muito supérflua. Então a gente lembrava muito das festas juninas, tinha canjica, que tinha pipoca, que tinha. Eu me lembro muito dessa, marcava muito quando era festa junina. Quentão.

 

P/1 – E como é que era a música da festa junina?

 

R – Eu me lembro uma música que era “O balão vai subindo, vai caindo a garoa” e, a gente dançava com as meninas, ia todo mundo a caráter, era bem legal.

 

P/1 – E além das festas juninas, teve algum aniversário seu que te marcou? Alguma festa na tua casa que tenha ficado na memória?

 

R – Não, antigamente como foi muito difícil, meu pai, só ele trabalhava, então no aniversário da gente não tinha muita comemoração, a gente não comemorava muito. Tipo assim, chegou no dia, parabéns só, não é que nem hoje que a gente fica. Filho faz aniversário, você para, faz a festa, fecha aí em um Habbibs, faz uma festa. Não, eu me recordo muito pouco de aniversário, meus pais, nem quase teve. Na infância, né.

 

P/1 – E fala, o que é que seu pai fazia?

 

R – Meu pai trabalhava na Prefeitura de Santo André, ele trabalhou no C9.

 

P/1 – Qual é que era a atividade dele? Função dele?

 

R – Ele trabalhava de pedreiro. Trabalhando muito duro.

 

P/1 – Trabalhava aqui na região?

 

R – Santo André.

 

P/1 – Mas aqui por esses bairros?

 

R – Ah, sim, final de semana ele fazia os biquinhos, né. Fazia uma calçadinha, fazia um negocinho ali. Eu sempre ajudava ele os finais de semana que ele ia.

 

P/1 – Cacai e você contou para gente que começa a sua história com o samba aos 12 anos. Como foi esse começo, assim, quando é que você conheceu?

 

R – Eu me lembro que teve um rapaz que hoje, ele já tem mais 50, mas ele ainda de vez em quando vai na escola de samba com a gente, que ele veio com um surdo, uma caixinha, parece que tinha um agogô e um ganzá. Aí começaram bater, eu vi aquele som, aí foi uma coisa que veio de dentro para fora, eu achei assim contagiante. Porque antigamente ouvia muito rádio e o instrumento de percussão era ao vivo. Quando eu vi tocando, o pessoal cantando, aquilo, eu falei: “Acho que é isso que gosto. Acho que é isso que eu vou fazer”. E de lá para cá, até hoje sempre estive voltado ao samba.

 

P/1 – E como é que você começou a aprender? Já tinha a escola? Qual é que é a história da?

 

R – Eu aprendi no balde da minha mãe e no guarda-roupa. Porque, instrumento, eles tocavam eu ficava ouvindo, mas como eles não deixavam eu pegar porque era muito pequeno, chegava, ficava treinando no balde. Aí quando chegava, tinha um samba, encostava lá, falava: “Posso pegar?”; “Não, sai daí”. Aí uma hora eles davam espacinho, eu pegava e tocava, “Ah, ele já sabe. Então encosta aqui, encosta com a gente”. Então foi assim o início.

 

P/1 – E como é que era essa coisa, com quem você tocava? Quais eram os eventos que dava para tocar?

 

R – Meu irmão e esse amigo nosso aí, eles trabalhavam. Aí chegava no final de semana, eles se encontravam aqui na frente da minha casa e fazia um samba aí. Aí trazia os instrumentos e a gente cantava. Aquelas marchinhas de carnaval, aqueles sambas antigos, Martinho da Vila. Toca naquele instrumento, tocava. Então, a gente não se apresentava porque desafinar era o que mais tinha, né, desafinando e a gente tocando do nosso jeito, mas se sentia bem, sentia feliz.

 

P/1 – Como é que seu irmão também começou com samba? Assim, começou a tocar com os amigos? Quando que ele teve esse contato com a música?

 

R – Então, que foi assim, meu irmão, ele foi com um amigo nosso em um evento aí que tinha um futebol, aí o pessoal estava tocando. Aí ele ficou olhando também, gostou, esse rapaz falou que ia comprar os instrumentos, compraram e trouxeram para cá. Aí juntou esse amigo do meu irmão, meu irmão, eu e mais uns três, aí todo final de semana a gente fazia uma brincadeira. Antes tinha uma árvore aqui na frente, onde a gente fazia uma brincadeira.

 

P/1 – E Cacai, você falou que as suas histórias mais marcantes, elas são já com o samba. Conta para a gente alguma delas, que tenha ficado forte na memória?

 

R – Eu era muito pequeno, eu estava em uma beirada de campo e era um festival. E era um, não sei se era no Vera Cruz, e estava muito cheio, nós fomos lá fazer um samba. Aí quando eu cheguei, eu vi aquele pessoal se divertindo, olhei para o lado tinha um pessoal usando entorpecente, né, fiquei olhando, falei: “Nossa, isso é proibido...”. Porque sempre os professores foram orientando que a maconha, tal, e eles usando assim, eu fiquei meio aterrorizado com aquilo, meio perplexo. Aí o juiz apitou um pênalti, aí eu me lembro muito dos caras batendo muito no juiz, nós todos olhando assim, olhando aquela cena. Aí eles pegaram o juiz, jogaram o juiz na ribanceira abaixo. Aí nós ficamos perplexos, aí não podia sair do campo porque eles fecharam tudo. Aí eles foram lá, desceram lá embaixo, pegaram o juiz, trouxeram o juiz, aí falaram: “Vai bater o pênalti, se o rapaz fizer o gol, você vai morrer”. Aí o cara foi lá, acho que com medo de matar o juiz, chutou a bola lá em cima, sabe. Aí continuou o festival, acabou o jogo, mas aquilo ficou tão marcado na minha vida que foi uma cena de violência que eu falei: “Meu Deus”. Isso a gente via muito em filme e, foi uma coisa que me marcou bastante. Hoje eu acho engraçado, né, que eles foram lá, pegaram o juiz de novo, mandou bater o pênalti. Sei que marcou bastante.

 

P/1 – E qual é que a história da escola de samba aqui do bairro? Quando é que...? Ela, quando você era pequeno, já tinha?

 

R – Então, a gente fazia muito essa brincadeira aos finais de semana. Aí, no carnaval a gente ficava com uma brincadeira, de ficar molhando o pessoal com a água. O pessoal vinha do serviço, saía muita confusão, porque nem todo mundo gosta da brincadeira, a gente pegando e molhando todo mundo. Aí um olhou para o outro, falou assim: “Vamos brincar de noite?”, “Vamos”. Aí um veio com uma máscara, um pegou o avental de ir para a escola, outro pegou uns bambus com o varal de roupa e saiu na rua. Aí aquilo ficou, sabe, bastante contagiante, todo mundo veio, começou vir, aí foi crescendo. Aí veio uma escola de samba de Mauá, aí viu as fotos, falou: “Vocês poderiam já sair de bloco”, nós falamos: “Não, mas a gente faz uma brincadeira esporádica. Não, não”. Aí nós entramos de bloco, ganhamos e estamos até hoje.

 

P/1 – E como é que foi a história da quadra? Como é que?

 

R – A quadra também foi uma coisa que, hoje a gente tem aquele espaço lá graças a nossa ousadia, que um Prefeito cedeu para nós. Onde é a igreja, a igreja aqui que nós passamos aqui na frente, cedeu ali para a gente. Aí do lado ia construir posto de saúde e a comunidade começou a entrar em conflito com a gente. Porque como é que você coloca uma escola de samba do lado de um posto de saúde. E também já iam fazer o velório lá, ia estar velando, como é que você ia estar fazendo samba. Aí começaram a brigar, aí nós deixamos aquele espaço e, onde é a quadra da escola de samba estava “Futuro Posto de Saúde”. Mas chegamos lá, enfiamos o pé, derrubamos o negócio, invadimos lá. E estamos até hoje. E pegamos um lugar nobre, em um terreno que são cinco terrenos e, estamos até hoje. Até hoje muita gente não acredita como nós conseguimos e, foi mesmo pura ousadia. Aí os políticos fecharam para a gente, cercaram lá para a gente, assim é que foi.

 

P/1 – E quem é que fez essa movimentação? Como que foi isso?

 

R – Porque tinha cedido para a gente o terreno aqui do lado, hoje é a igreja, do lado ia construir posto de saúde. E como tinha esse único terreno, nós fomos resolvidos. Invasão é aquela coisa, você vai e invade, seja o que Deus quiser, se der certo, deu, se não deu…

 

P/1 – E depois que vocês ocuparam esse terreno, vocês foram se organizando? Fazendo ensaio? Como é que foi criando a estrutura?

 

R – Era assim, o terreno era muita poeira, então a gente faz um samba, quando terminava o samba, todo mundo ia lavar os pés para, uns iam pegar o ônibus, ir embora para casa. Porque era só poeira, mas fomos se organizando, se organizando, até que a Prefeitura foi, investiu e fez o cimentar do plano. No começo era só poeira. Quando chovia era lama, quando estava seco, poeira.

 

P/1 – E qual é que foi a primeira vez que vocês desfilaram?

 

R – Eu estava dentro de um ônibus, não me recordo porque eu não queria que chegasse nunca. Porque até então a gente fazia uma brincadeira sem compromisso. Quando você vai para uma Avenida, vai ter alguém te julgando, julgando a sua bateria em si, eu fiquei com medo. Então eu queria que Mauá fosse, tipo, Estados Unidos, não chegasse nunca. Ficou aquela expectativa, aquele friozinho na barriga que todo mundo tem.

 

P/1 – E como é que foi a sensação na hora de entrar na Avenida, de passar?

 

R – Ah, até a hora que entrou na Avenida que eu vi que os componentes meus não estavam nem aí e eu naquela preocupação, eu falei: “Não, seja o que Deus quiser”. E deu tudo certo.

 

P/1 – Ah bom.

 

R – Aí eu comecei me descontrair também, aí eu fiquei mais calmo, aí nós fizemos, nós tínhamos ensaiado e ganhamos o carnaval.

 

P/1 – E Cacai, como é que foi você se tornar um mestre de bateria? Você o primeiro e o único mestre da bateria da escola? Como é que é essa história?

 

R – É que antes quando nós fazíamos o samba aqui, a gente não tinha nenhum líder, não tinha nenhum mestre. E quando nós íamos na beirada do campo, a gente via sempre um com o repique, que é aquele instrumento pequeno que vocês viram lá tocando. Organizando ou alguém com apito, nós pensávamos que tinha que ter alguém, só que todos que tinham eram muito ruim, o grupo nosso era muito ruim. Aí eu comecei a treinar, eu me destaquei por ser pequeno, né, aí eu comecei destacar dentro do grupo. Aí o pessoal me colocava na frente, eu queria ir para o lado, eles me empurravam para frente, “Vai lá, fica lá na frente”. Aí foi assim que, fui tomando gosto nas coisas, comecei a ouvir muito, eu vi que o samba, você não usa a boca, né, samba você usa o ouvido e você usa atenção. Aí eu comecei a ouvir muito, ouvir muito Mestre André, aí comecei aprender muito, ia nos lugares sempre ouvindo, analisando, olhando, tirando o que era de bom e fui organizando. Quando eu vi, eu com 12 anos já era o mestre de bateria.

 

P/1 – Cacai, e você falou agora o Mestre André, né? Eu queria saber quais foram os seus mestres? Suas inspirações nessa primeira fase?

 

R – Então, o Mestre André, aquela época, que foi a época da paradinha. Então foi um cara que, ele dentro do samba, ele se destacou muito, então a gente ouvia muito. Porque antigamente você ouvia muito rádio, você ouvia muito o disco em si, entendeu? Então só tinha o Mestre André, só tinha a Bateria Fantástica do Mestre André, então a gente só escutava mais aquilo. Não que a Mangueira não teve grandes mestres, outros. Então a gente se inspirou muito, então quando eu vi a Fantástica Bateria do Mestre André, eu não queria saber mais de nada, eu queria estudar aquilo ali, que era uma coisa contagiante. Que eu vi os outros grupos tocando, aí foi passando por bares também alguma coisa do Mestre André. Ele, particularmente com a paradinha, ele revolucionou, porque antes você via muito Martinho da Vila, você via Candeia, mas escola de samba era mais isolado. E o Mestre André foi o único que conseguiu as percussões dele, colocar dentro dos salões de baile, alguma coisa de samba-rock.

 

P/1 – E teve algum samba que tenha marcado muito a tua história?

 

R – Os sambas que eu me recordo muito que, aí já era mais da minha adolescência, foi o samba do, agora não me recordo qual escola que saiu, não sei se foi a Império Serrano. “Bum bum, pati bum bum, ô. Contagiando a Marquês de Sapucaí, eu encontrei. Encontrei”. Então mostrava muito as mulatas, então saiu muitas mulheres muito bonitas nessa escola de samba, entendeu, e o samba era muito bonito. Foi como foi o samba da Gaviões quando todo mundo cantava, “Me dê a mão, me abraça”. Então quando a escola de samba saiu de si, todas as escolas cantavam, todo mundo cantou samba. Foi um samba muito bonito, foi um samba que, é desde dos ensaios de quadra, até a avenida e todo mundo está esperando para ver esse samba. E o carnaval inteiro.

 

P/1 – Cacai, e essa sua história com o samba, além do samba, o que é que se fazia aqui no bairro na sua adolescência? Qual é que era lazer?

 

R – É, o samba para mim, eu consegui, também o meu ex-patrão me viu tocando também em um jogo que teve em São Bernardo, que ele patrocinava o time do São Bernardo, ele me viu tocando, ele me estimulou, então eu fiz aula de violão, fiz aula de cavaco. Aí comecei tocar as músicas de pagode, toquei com o Péricles, quando foi do Exalta, que agora está na carreira solo, toquei com o Breno que é do Katinguelê. Toquei, mas sempre eu tinha esse compromisso com a escola de samba, como eu era o mestre, então abandonei tudo para ficar com a escola de samba. Eu não digo que se eu tivesse continuado no samba, que eu estaria que nem o Péricles, mas quem sabe eu teria alguma coisa já gravada, né, teria continuado em cima do que eu estudei. Mas a escola de samba ficou, eu sempre naquele compromisso, tinha compromissos, desfiles, ensaios, aí eu tive que abandonar o pagode.

 

P/1 – E aqui no Sônia e no Sílvia Maria além da escola, onde é que era bom para passear? O que é que tinha de coisa para fazer?

 

R – Por incrível que pareça o point era mesmo a escola de samba. Até hoje aqui no bairro, ele é carente de um espaço físico para as crianças brincarem, praticar um esporte. Tanto que aqui tinham dois campos de futebol, fizeram o piscinão que está lá, entendeu, particularmente inválido, não se utiliza para nada e, só tem um campo de futebol. Não tem assim uma área de lazer para as crianças, quer dizer, tem uma praça aqui em baixo, mas está muito mal utilizada, é abandonada, então ficam os delinquentes lá. Então, a escola de samba ela é um point particularmente, queira ou não, é um point. Se tem um evento, entendeu, o pessoal vai, os que não vão reclamam que queriam ter esse espaço para estar utilizando.

 

P/1 – E Cacai, você falou um pouquinho dessa coisa da carência de espaço, tipo, como que foi para você ver o bairro crescendo? O que é que mudou, assim, em termos de, chegou asfalto? Conta para a gente um pouquinho como que foi aumentando? O que é que foi aparecendo no decorrer dos anos?

 

R – Olha, até hoje eu tenho uma mágoa muito grande do Polo Petroquímico, da Braskem, entendeu? E até vou usar esse espaço para estar me manifestando...

 

P/1 – Não, mas é importante mesmo. É para isso mesmo.

 

R – Porque nós somos moradores aqui, a gente respira o ar daqui, a gente, particularmente 88% do ICM do Polo Petroquímico vai para Mauá e, nós somos os mais próximos aqui do, particularmente só 12% é Santo André. Então esse bairro, ele tinha que ser muito mais cuidado pelo Polo aqui. Eu faço esse trabalho há mais de 30 anos, nunca tive um incentivo do Polo, todos os incentivos que eu tive, foram de fora. E tanto que eu dou aula em bairros, que é Santo André, São Caetano, não tem espaço aqui. E o Polo Petroquímico ajuda o pessoal de Santa Bárbara, tem um pessoal que tem uma escolinha longe de futebol, eles dão violão, eles dão chuteira para os meninos, eles ajudam o pessoal. O pessoal da Petrobrás aqui, eles tem um projeto enorme aqui no Oratório, na frente do Oratório também que é de Mauá, eles também ajudam. E a gente aqui nunca teve ajuda de nada. Agora eu pergunto, se é político, ou o que é que é? A nossa escola de samba sempre ganhou, sempre defendeu o bairro, a gente vai ali, eles falam que não ajudam porque é uma diversão. Só que eu sei que o Polo já patrocinou a Rosas de Ouros, já patrocinou Vai-Vai. Então porque essa diferença com os moradores que são daqui? Então essa é uma mágoa que eu, sabe, manifesto que tem dentro de mim.

 

P/1 – E Cacai, qual é que foi a primeira vez que vocês ganharam um desfile? Qual é que foi o samba-enredo?

 

R – O samba-enredo foi composto por uma pessoa que incentivou a gente, que vieram com a escola de samba, que é o Flor do Morro, aí viram o nosso trabalho em fossa e incentivou nós irmos desfilando e, esse Presidente, ele fez o samba nosso. Que eu me recordo é a, falando da espaçonave, “Zum zum zum, sobe a nave e leva esse povo para fazer essa viagem”. Eu sei que era samba assim, falando do espaço sideral. E nós ganhamos, foi uma coisa bem, primeiro ano, né, é a mesma coisa do primeiro filho, né, é sempre marcante. Primeira conquista.

 

P/2 – E quantas pessoas participam mais ou menos da escola? Ao longo dos anos?

 

R – Devido o recurso, a gente não pode, a gente sempre está ali entre o mínimo e coloca-se um pouco mais. A gente hoje está desfilando com umas quinhentas pessoas, mas a gente tem capacidade para sair com muito mais, mas o recurso é muito pouco. Quando a gente era bloco a gente saía com trezentas, para você ver que nós aumentamos duzentas pessoas só. Mas está em torno de quinhentas pessoas no momento.

 

P/1 – E da espaçonave, desse primeiro samba-enredo, primeira vitória, como é que foi fazer as fantasias?

 

R – Tudo na minha casa, lá nos fundos.

 

P/1 – E como é que era? Conta para a gente?

 

R – Ah, meu pai, minha mãe, eu não tenho nem o que falar, sabe, eles viam que a gente fazia o samba, muitos vizinhos questionavam como é que minha mãe aguentava aquele barulho, estava uma chuva, todo pega ia para dentro, como é que eles aguentavam tudo aquilo. Mas minha mãe falava, fala até hoje: “Estão, mas não estão fazendo nada de errado. Melhor eles estarem fazendo o que eles gostam” e, você entendeu, então sempre incentivaram a gente. Então a gente fez aquilo, sempre aguentaram. Uma coisa que, eu acho que se a minha mãe não tivesse dado esse espaço em uma coisa e outra, teria dificultado muito mais o nosso trabalho. Então só agradecer.

 

P/1 – E de onde é que veio a verba para conseguir sustentar esses desfiles vencedores? Colocar a escola na avenida?

 

R – A Prefeitura, ela particularmente dá uma verba para a gente desfilar, só que essa verba, ela é muito pequena porque hoje em dia, antigamente não, era um pouco mais fácil que tinha muito voluntário. Hoje não existe mais voluntário, hoje um componente, se ele tem uma profissão, é um soldador, ele vai soldar o carro, tem que pagar ele, porque ele também tem compromisso. Hoje se uma pessoa vai fazer uma costura nas roupas, confeccionar, ela também vai cobrar. Se uma pessoa for fazer um samba, é cobrado. Se a pessoa foi usar um transporte para transportar as pessoas para virem e voltar no ensaio, também é pago. Então tudo é pago e o que a gente ganha, para você ter uma noção, nós ganhamos um carnaval, é dado dois mil reais, você chega na quadra tem duas mil pessoas, não dá para você dar um chope para o pessoal. Então você tem que sair, entrando nos bares, falar: “Ah, me dá aqui uma caixa de cerveja”. E tem que dar, não quer nem saber para o que é que é, “Me dá mais duas aqui”, porque todo mundo ganha. Quando tem ensaio aqui, ganha todo mundo, que vem gente de tudo quanto é lugar. Então os bares, padarias, as lojinhas que vendem, assim, um salgadinho, refrigerante, coxinha, todo mundo ganha. Então chega nessa hora meu irmão vai lá, pega uma daqui, pega dali, um ajuda daqui, um Vereador ajuda, a gente pega mais aquela parte daquela verba, compra, só para dar a cerveja para o pessoal.

 

P/1 – Então Cacai, eu queria que você contasse para a gente um pouquinho, você foi crescendo, o samba foi entrando na tua vida. Quais é que foram as suas primeiras decisões profissionais?

 

R – Então, quando eu particularmente comecei a trabalhar, eu sempre me envolvo nos sambas, sempre defendi essa bandeira. Inclusive até quando eu fiz um teste no banco, no Bradesco, eu cheguei até a dinâmica de grupo. Quando chegou na dinâmica de grupo, todos que estavam lá, os 12, tinham a formação, entendeu. Na época eu estava concluindo o segundo grau, é o que menos tinha estudo, me perguntou a psicóloga qual é que era o meu hobby e, eu levantei e falei que era o samba. Que eu gostava do samba, então a bandeira que eu defendo desde, sempre gostei e é a minha diversão. Não passei naquela dinâmica, mas eu senti que no meio daquelas pessoas eu falar que eu era do samba, muitas pessoas até admiraram a minha coragem de falar e, falar que eu não tinha concluído o segundo grau ainda, que gostava do samba. Particularmente eu estava fora daquela disputa, mas falei de coração do que eu gostava. Então eu destaquei bastante, porque eu comecei a falar, me desinibir mais, depois que eu falei o que eu quero do samba. Então, eu mesmo trabalhando na Guarda Civil, muita gente pergunta para mim: “Como é que você divide as coisas?”, eu falo: “Quando estou no samba, eu não falo da Guarda. Quando eu estou na Guarda, eu não falo do samba. Tem que saber dividir as coisas”.

 

P/1 – E qual é que foi o seu primeiro emprego?

 

R – Eu trabalhei em uma… trabalhei em Santo André.

 

P/1 – Quantos anos?

 

R – Acho que eu tinha uns 14, não sei se são 13. Acho que era 13 anos. 13, 14 anos.

 

P/1 – E como é que foi essa experiência? Que é que maior aprendizado desse primeiro trabalho?

 

R – Ah, foi, eu aprendi a comer a marmita fria, aprendi comer esquentado no álcool. Que às vezes a gente reclama muito do dia-a-dia da gente, mas a gente sai para ganhar a vida, que a gente chega não tem estrutura nenhuma, a gente aprende que sobrevivência na vida é duro. Então quando chegou lá, eu levei a marmita, não tinha aonde esquentar, então tive que comer frio. Aí no outro dia eu falei: “Eu vou esquentar aonde?”, no dia o cara falou: “Tem um álcool com uma latinha lá”, eu puis, esquentei e comi. Então, é a vida, né.

 

P/1 – E você chegou a trabalhar em alguma empresa do Polo?

 

R – Eu trabalhei uma vez em uma parada aí. Mas foi assim, é temporário, trabalhei acho que uns quatro dias só. Estava desempregado, trabalhei.

 

P/1 – E Cacai, conta mais algum fato marcante da escola, além dessa primeira conquista do primeiro carnaval? Primeira vitória? Quais é que foram as vitórias que foram vindo com os anos?

 

R – Então, escola de samba, ela é assim cada dia uma caixinha de surpresa. Tem vez de eu me ver no picadeiro de um circo, com os instrumentos tocando. Outra hora, como eu falei para vocês, entrei em uma igreja tocando. Entrei em um Teatro Municipal tocando. Entrei em um, dessas meninas da Cidade das Meninas mesmo, foi em uma palestra que teve só de advogados lá em São Bernardo. Quando eu vi, me vi, entrei tocando para os advogados com a bateria. Então, é sempre uma surpresa, entendeu? E por isso que a minha… onde eu sempre bato na tecla é sempre ensaiado, é o melhor… é muito marginalizado mesmo. Não de marginalizado, é muito discriminado o instrumento de percussão, porque geralmente você está, o pessoal na piscina, outro está na feijoada, todo mundo ali descontraindo, está com o pagodinho, tal, o que seja, lá está tudo bom. Aí quando vem os instrumentos de percussão, tem que ser muito bem tocado, tem que ser muito bem afinado, para dar aquela qualidade, senão a pessoa fala: “Pelo amor de Deus. Estava até bom ali com o som, na hora que entrou aquelas pessoas com aqueles surdão, acabou a festa”, então é assim. Tocamos na Casa de Portugal, para quatrocentas pessoas, tinha uma caixa, apagou-se a luz, tinha um DJ, tudo, daqui a pouco acendeu a luz e nós entramos tocando. Então, teve gente arrancando a gravata, entrando lá no meio cantando. Então isso aí que é o resultado do trabalho.

 

P/1 – E no decorrer dos anos, como é que foi montar a bateria da escola? Quem é que são os integrantes? Quem é que está há mais tempo? Conta um pouquinho para a gente.

 

R – Os mais antigos saíram, porque percussão é uma coisa assim que você tem que gostar. Muitas e muitas vezes, no começo quando a minha esposa, eu já falei para ela: “Antes de você perguntar para mim se é eu ou o samba, eu escolho os dois. Mas você que sabe, porque eu trabalho, ajudo em casa, só que eu tenho o meu compromisso”. Então, é assim, as pessoas que começaram comigo pararam porque às vezes casou, então, foi para outro caminho, se evangelizou, mudou-se, entendeu? E é assim, como tem que ter um compromisso de todo domingo você estar ensaiando, você está, a pessoa não vem. E percussão é, na bateria da escola de samba, ela é diferenciada de ala, de diretoria, porque você tem que ensaiar. Um integrante não, ele vem, gostou do samba, “Ah, vou sair na ala”. Ele vem duas vezes, ele sai. Bateria não, bateria você tem que ficar o ano todo, você tem que se dedicar, você tem que deixar de fazer muitas coisas para você estar lá, sua presença.

 

P/1 – E tem alguém que está com você na bateria faz já um tempo? Uma pessoa antiga de trajetória?

 

R – Tem uns que estão mais tempo comigo, mas os antigos já pararam todos. E por isso como eu estou trabalhando com a juventude, com a molecada, hoje para mim é prazeroso porque eu me preocupo muito com o futuro deles, eu tomo bastante refrigerante. Porque a adolescência é lanche, refrigerante, então. Os adultos, porque eles começam a tocar bastante, eles têm medo de entrar no meio errado, então eles vão se afastando por si só. Então você vai formando novos e, as escolas de samba geralmente, a maioria, tudo é trabalhando com esse público infantil, juvenil.

 

P/2 – E o que é que você aprende com eles?

 

R – Eu aprendo com eles que a experiência que eu tenho dia-a-dia, que um dia eu estou no Hospital Nardini, chegam pessoas lá baleadas, pessoas que morrem nos meus braços, como no posto de saúde. Aí outro dia estou no cemitério Santa Lídia, está uma mãe chorando, está outra desmaiando. Outra hora eu estou em uma delegacia, eu estou acompanhando ou prendendo alguém, outra hora eu estou. Então eu vejo essas dores dessas mães, dessas pessoas. Então eu vejo essas crianças, então eu acho que a minha missão que Deus me deu é eu estar passando isso para eles, porque em si, dentro, uma escola de samba, uma academia de judô, até mesmo uma academia de musculação, que seja uma academia de capoeira, você não tem só que mostrar o esporte, coloca uma faixa lá no jovem. Você tem que mostrar para eles a vida como é, porque hoje em dia para a pessoa se perder, a pessoa arrumar uma gravidez, é um segundo. Se perde muito fácil, agora para você se formar, você ter uma pós-graduação, você conseguir passar no concurso, são anos, é dinheiro, é muita coisa.

 

P/1 – E Cacai, e como é que foi essa coisa de você virar guarda civil? Quando você tomou essa decisão?

 

R – São as oportunidades da vida, eu trabalhava em uma empresa, estava casado, a empresa pagava o vale, eu não sabia se tinha o pagamento, aquele rolo. Aí veio o concurso público, eu falei: “Eu vou entrar na Guarda. Não me vejo como guarda, armado ainda mais. Aí depois eu entrando na Prefeitura, eu passo para outro setor, né, outra Secretaria”. Aí você aprende a gostar da coisa, eu gosto de me sentir útil, de alguém chegar em mim, tomar uma informação ou passar uma informação, eu dar uma palavra de consolo, eu estar em um posto de saúde e ajudar alguém, eu correr lá e adiantar o lado. Então eu me sinto útil, não estar em um setor que eu estou ali cumprindo o meu setor, logo eu vou embora e deu meu horário. Então aprendi gostar da Guarda trabalhando lá.

 

P/1 – E, assim, você passou no concurso, como é que foram os primeiros dias? O treinamento?

 

R – Tudo para mim foi na raça, entrei na Prefeitura, não fiz escolinha, já me colocaram em um posto de noite, com um colete e um cassetete. Então eu aprendi tudo na raça, aprendi no dia-a-dia. Depois que passou um ano que eu fui fazer a escolinha, então a minha primeira abordagem, ah, meu primeiro conflito que eu tive com, tipo, teve a quermesse, né, então você tem aquele contato com as brigas, então fui tudo na raça.

 

P/1 – E Cacai, e dos casos que você pegou teve algum que tenha sido mais difícil?

 

R – Olha, o que mais me marcou foi uma menina, toda criança em si, foi um fato até, toda vez, quando eu falo eu me sinto... Um delegado chamou a minha viatura e estava uma mãe com a criança, a criança chorando e um rapaz tinha estuprado essa criança, um senhor já de idade, alcóolatra. Ele tinha estuprado a criança e tinha colocado a cueca dele na menina e, a mãe estava, procurou lá, achou a calcinha da menina suja de sangue e colocou no bolso. Aí o delegado mandou nós buscarmos esse cidadão. Eu fui para buscar, o delegado falou assim: “Olha, não machuca muito”, aí nós fomos até o local, fomos com um policial civil. Aí nós saímos com a mãe para ver se encontrava ele no bar, não encontramos e o policial civil ficou na porta. O rapaz apareceu, o policial civil sempre acha que sabe mais que todo mundo, foi querer deter o rapaz, “Para, para”, o cara não parou, aí ele deu um tiro, não sei como é que foi, o cara saiu correndo. Então eu acho que se eu estivesse lá eu tinha matado esse cara com todos os tiros que eu tinha no meu tambor. Então é muito assim, é emoção. Então isso me marcou muito, porque hoje eu tenho duas filhas, então a gente vê assim hoje, pela impunidade do país, pelas leis, a pessoa faz uma desgraça aqui, amanhã ou depois o outro faz a mesma desgraça ali porque sabe que não vai dar nada, ele vai ficar quatro anos preso. E é assim, as pessoas que estão envolvidas com estupro, com crime hediondo, com um monte de coisa, na delegacia eles não tem contato com mulheres, não tem contato com criança, ou seja, chega lá eles ficam quietinhos, eles começam ler, eles se evangelizam. Aí o que acontece, bom comportamento ele sai, ele vai para a rua, ele vai ter contato com o quê? Com as mulheres, com as crianças, ele volta a fazer o delito de novo.

 

P/1 – E como, questão da violência aqui no bairro, como é que era comparado a sua infância com depois quando você já assumiu a Guarda Civil?

 

R – Antigamente no meu tempo, tinha-se muito, “Eu vou acertar as contas”, ali, juntava ali, saía no tapa, o cara que era mais doido dava uns dois. Hoje em dia o negócio é feio, se o cara falar “vou te pegar”, você tem que pôr um revólver na cinta e se defender. Hoje não tem mais conversa, eu oriento muito as pessoas, até vocês mesmo, qualquer eventualidade aí no trânsito, não discute, se descer do carro para conversar, você tem que estar com alguma coisa. Senão bateu, ou vai embora, deixa para lá, arruma ali, porque a vida da gente vale muito mais do que isso aí. Hoje em dia o ser humano, ele não respeita valores, não respeita nada, eles atiram porque o país é país da impunidade. O cara depois para acontecer, ele vai pegar, ele vai sumir, depois de dois dias ele se apresenta com um advogado e vai responder aquele crime em liberdade.

 

P/1 – E Cacai, conta para a gente, como começou é essa sua atuação no projeto social já? Como é que você ficou sabendo? Como é que você é chamado?

 

R – Então, essa experiência no projeto social, quando eu entrei no Barracão, eu aprendi a trabalhar sim dentro do projeto. Porque até então eu trabalhava com criança e, aquilo que eu falei para vocês atrás, muito bem eu trabalhava com criança, não falava nada, não trabalhava essas crianças. Aí o que é que aconteceu, quando eu comecei fazer o Barracão, o Barracão já vem com as normas. E como vem com as normas, eu trabalho com o pessoal da Guarda que faz o trabalho nas escolas antidrogas. Eu comecei trabalhar com esses trabalhos aí eu vi que não adianta a criança, particularmente, ser um bom ritmista, se depois você ver ela usando entorpecente. Ele pode até não tocar, mas se ele, amanhã a mãe vim e agradecer que a criança melhorou, que ele me respeita, que ele conseguiu um emprego bom, o projeto está funcionando. Então essa experiência que para mim foi muito boa, dentro de todo esse barulho que eu faço, está fazendo uma diferença lá na frente. Então Deus vai me iluminar.

 

P/1 – Mas qual é que a história, assim, quem é que te chamou para entrar no projeto? Como foram os primeiros dias?

 

R – Como eu saí de São Paulo, eu conhecia esse projeto lá em São Paulo, só que até então eu não tinha contato. Aí teve uma moça, que ela fazia parte desse projeto, indicou a minha escola. Aí o pessoal falou: “Não, Mauá? Onde é isso?”, porque para o pessoal de São Paulo, o ABC não existe, porque o interior o pessoal. Ela falou: “Não, o rapaz está fazendo um trabalho aí”, eu mandei umas fotos, mandei alguns vídeos lá. Aí pode ver que naquele, eu te mostrei aquele papel lá, tem o Barracão, uma escola de samba daqui da região. Aí comecei a trabalhar, fazer esses trabalhos, esses projetos, aí começou a dar bastante resultado. Aí como o Barracão estava exigindo muito, eu parei um pouco. Agora esse ano que vai entrar eu vou voltar com o mesmo sistema de projeto Barracão.

 

P/1 – E na Cidade dos Meninos, assim, qual é que foi a sua primeira turma?

 

R – Cidade dos Meninos foi um desafio muito grande. Tudo na vida da gente é um desafio. Eu dava aula de manhã para 70 meninos e, à tarde 70 meninos tudo em cima de mim, “Eu quero tocar, que quero tocar”, “Eu tenho fé em Deus, me ilumine”, fechei o olho, pedi para Deus me ajudar porque eu estava sozinho, não tinha ninguém para me auxiliar. Você imagina 70 crianças em cima de você, “Eu quero tocar, me dá aqui”, “Calma”, eu dei um grito, mandei todo mundo sentar, “Pega o instrumento, segura, vê como é o instrumento”. Aí eu comecei dividir, comecei dar as palestras, falar bastante, muitos começaram a sair. Porque é assim, no projeto não é só tocar o instrumento e sim a pessoa se organizar. Aí começa, vai se organizando, eu fui fazendo o projeto, aí você vai vendo quem mesmo realmente tem uma condição. Aí você vai assimilando, vai ajeitando, vai arrumando. Aí uns vão saindo, outros vão tomando o posto e assim por aí. E eu estou lá há quatro anos e, vamos ver até quando.

 

P/1 – E Cacai, conta para a gente o que é que você considera como os divisores de água, assim, do bairro, da região? O que é que mudou aqui? Que marcou a história do bairro? Marcou a história dos dois bairros?

 

R – Aqui no bairro nosso, Sônia e Sílvia Maria, ele é um bairro, se não me engano parece que ele está entre o décimo melhor bairro de Mauá, devido até mesmo essa escassez porque o Sônia e o Sílvia é um bairro particularmente todo asfaltado, a maioria das pessoas aqui trabalham, se andar nesse bairro aqui agora, está todo mundo trabalhando, entendeu. Tem os problemas como tem em todos os bairros, agora como eu trabalho na Guarda Civil, eu rodo nos 130 bairros de Mauá, as favelas, lá ainda se vê esgotos a céu abertos, você vê ligação clandestina, pessoal nas encostas dos morros. Então o bairro aqui, porque a conquista do bairro que ele teve aqui, que eu acho particularmente, foi quando conseguiu o terreno da briga que nós tivemos da igreja, foi uma questão muito grande que a igreja conseguiu o espaço dela. Deixa eu ver o que mais, o grande problema assim, fica difícil até eu estar falando porque a maioria das coisas aqui no Sônia e no Sílvia não funciona, a regional não funciona, a sede, né. Sede, como é que fala? Sociedade Amigos do Bairro, isso também não funciona. A praça não funciona, o campo é mal administrado. Então isso é a escassez de ter um Vereador aqui, que precisava ter um Vereador aqui do bairro para a gente estar cobrando, mas infelizmente o povo aqui deixa de votar, vota em gente de fora, aí fica difícil. Mas o bairro aqui é um bairro bom, se tivesse assim um pouco mais cuidado, particularmente aqui o imposto todo que é arrecadado aqui não é investido aqui. Esse bairro aqui para você ver, se você for usar um cartão para tirar um dinheiro, caixa eletrônico, não tem. Eles alegam que vão roubar. No Oratório e na favela aqui em baixo e tem o banco 24 horas. A gente tem que ir lá no bairro Baronesa, tem que ir em São Mateus, tem que ir no Parque das Nações, tem que ir em Mauá porque não tem lugar para fazer o pagamento. Então são coisas que machucam bastante, entendeu?

 

P/1 – E como é que, pensando um pouquinho nessas questões mais sociais, como é que começou a história da tua família na política? O João Paulo, conta para a gente?

 

R – Então, isso mesmo, dessa visão que eu passei para vocês, que o meu irmão tentou três vezes. Que ele também trabalha na SAMA, Saneamento Básico do Município de Mauá, concursado, e ele tentou uma oportunidade, devido a esses problemas que eu passei para vocês, foi tentar juntamente com a população, porque um Vereador sozinho, ele não consegue nada, tem que ter a população para estar, né, automaticamente estar brigando junto.

 

P/1 – Pode continuar.

 

R – Onde eu estava mesmo?

 

P/1 – Estava falando do seu irmão.

 

R – Então, ele trabalhando na SAMA, concursado, né, tem um salário bom. E ele estava lá tentando entrar para, mas infelizmente não dá, não conseguimos pela terceira vez. Pois é, mas vamos continuando com o projeto, o projeto que eu tenho feito vai continuar, vai dar continuidade, até porque também minha filha está, os meus sobrinhos estão, os filhos dos amigos do meu sobrinho estão. Então a gente tem que lapidar, para lá na frente dar bons frutos.

 

P/1 – E Cacai, você falou que tem duas filhas? É casado? Como é que você conheceu a tua esposa? Conta para a gente.

 

R – Por incrível por que pareça no samba, tudo é no samba. Ela veio participar, não sei o que ela viu no negão aqui, gostou, casamos, temos duas filhas maravilhosas aí, uma toca tamborim comigo, a que vai fazer 15 anos, faz parte do projeto, ela vai estar comigo no projeto há oito anos, toca, por sinal, muito bem. Não sei se você viu aquelas meninas tocando tamborim, ela toca três vezes melhor que aquelas meninas. E tenho uma de nove anos que samba muito, que ela não está aqui, se ela estivesse aqui também... A que toca tamborim é mais tímida, mas a que samba, você põe uma música ali, fala: “Dança”, ela dança no meio de todo mundo, não está nem vendo.

 

P/1 – E elas vão com você para a escola desde pequenininhas?

 

R – Ah, a que tem 15 anos ela gosta mais de bateria, que nem eu. A outra não, ela samba, mas ela é mais que nem a mãe dela, mais em casa, ela não é muito de sair não.

 

P/2 – E como é que você conheceu sua esposa?

 

R – Então, ela também, a família dela também era de escola de samba. Ela pediu para entrar na bateria, entrou, aí o pessoal tudo dando em cima, eu fiquei na minha, aí um dia ela deu uma entrada, eu fui para cima. Sabe como é que é, né.

 

P/1 – E você falou que a família dona de escola de samba, assim, queria saber qual é que é o contato da escola com as outras escolas? Você também contou para gente, já desfilou na Nenê? Assim, fala um pouquinho.

 

R – Ah, o contato com as escolas de samba são assim, principalmente aqui na região nossa, a gente tem um contato, a gente vai, quando dá a gente vai, mas a classe é muito desunida. Não só na questão, assim, você vê, se juntasse todas as escolas de samba, conseguia um Vereador. Cada escola trabalha com um Vereador diferente, você entendeu? Não está tendo carnaval, era para todas as escolas se unirem, porque eu acho que, escola de samba não tem que estar pleiteando verba do município, porque a maioria dos municípios está quebrada. Eu não acho que você tem que tirar a verba da saúde, da educação para investir em carnaval. Não, eu acho que as escolas tinham que se unir, ir nas empresas privadas, conseguir a subvenção para desfilar e exigir da Prefeitura, porque o carnaval foi votado que tem que se fazer todo ano, o Prefeito tem que colocar lá a estrutura. Avenida, o som, arquibancada. E a verba nós já temos, mas não tem união, fica difícil.

 

P/1 – E tem algum grupo de samba, assim, que você se identifica mais, sabe? Você contou que tocou com várias pessoas já e, hoje assim...?

 

R – Não, hoje eu escuto tudo. Eu escuto, é que meu carro, não vim hoje, né. Ontem mesmo eu estava vindo escutando o Fernando e Sorocaba. Eu tenho vez que eu escuto só bateria, tem hora que eu escuto, um exemplo, o Zeca Pagodinho. Tem vez que eu coloco na antena um. Eu gosto de música, tem vez que a minha mãe acha que eu estou louco, eu ponho na Cultura, fico vendo orquestra. Então para mim uma música bem tocada, bem afinada não tem, sabe assim, é samba. Não, para mim sendo música boa.

 

P/1 – Cacai, eu só queria voltar um pouquinho assim para a tua infância aqui no bairro, para eu entender mais ou menos como que era o Sônia, Silvia naquela época mesmo. Tinha alguma vendinha? Como é que era o comércio? Onde que vocês faziam compra?

 

R – Eu lembro que tinha, no final da rua aqui do lado direito, tinha um mercadinho do senhor, que já faleceu já, o senhor Miranda, ele tinha uma vendinha lá e meu pai comprava na caderneta. Me lembro assim vagamente que meu pai quando ele recebia, aí ele vinha contente, aí ele pegava uma sacola e ia lá nessa vendinha. Pagava, né, do mês, aí ele contava, ele vinha com tubaína, bala para a gente, monte de coisa. Foi uma alegria. Lembro muito dessa, porque tinham poucos comércios que.

 

P/1 – E além do comércio, assim, para a criançada mesmo, você brincavam na rua? Assim, você falou que brincava com os irmãos em casa, mas quais é que eram as brincadeiras além dessa dentro de casa?

 

R – A gente brincava muito, brincava com o meu irmão de pião. A gente brincava de, com os moleques na rua a gente brincava de salto ou mãe da mula, que aquele que você pula nas costas de um. É aquela brincadeira que a gente inventava. Às vezes, eu pegava, meu irmão as latinha de Ninho, furava, colocava dois para passar o cordão pisava em cima e saía andando. Tinha perna de pau também, que a gente andava com as pernas de pau grandona, eram essas as brincadeiras. Artesanal, né? 

 

P/1 – E você fala também que gostava de soltar pipa, empinar pipa. Como vocês faziam as pipas? Onde que vocês iam soltar?

 

R – Ah, maioria a gente comprava o bambu, a gente quebrava o bambu, aquilo lá é uma briga para a mãe da gente. E fazia pipa, com o bambu, fazia a pipa, comprava folha só, que hoje a pipa já vem pronta, a gente fazia a pipa, pegava o saco de lixo, fazia a rabiola e soltava uma. Antes era muito bom que não tinha muito fios, que tinha muito campinho, era o dia inteiro soltando pipa. Hoje já não tem muito espaço para a criança brincar, porque criança hoje solta a pipa na rua.

P/1 – Assim, durante o ano tinha as aulas. E durante as férias que vocês ficavam sem ter aula? Sem nada? Como é que é?

 

R – Pipa, jogo de bola, era o dia inteiro. Eram só essas brincadeiras, porque a gente não tinha, era tudo carente, não tinha muito assim, jogava bola, o mano te tirava para jogar bola, ou ia no riozinho lá em baixo. No riozinho já tinha um campinho, jogava bola também lá no campinho. No mais, tudo brincadeira.

 

P/1 – E teve algum amigo de infância aqui do bairro que tenha marcado a tua infância?

 

R – Eu tinha um amigo que morava aqui na frente, mas ele já mudou. A gente era muito assim, ficava muito junto. Eu lembro do apelido dele, era Cueca. O meu era Cacai e Cueca, então sempre os dois juntos. Brincava muito de fubeca, sempre estava junto, pipa. Foi a infância que mais lembrei.

 

P/1 – E nesse bairro, no bairro aqui na região, quais foram as pessoas que mais te marcaram?

 

R – Primeiro o meu irmão, minha família, eu sempre fui muito ligado à família. Tive marcação muito, assim, respeito com as pessoas, mas não tinha assim muita ligação com as pessoas de fora. Não era muito de ficar nas casas dos outros, minha mãe sempre deixou a gente mesmo mais em casa.

 

P/2 – Cacai, e o que é que significa, o que é que esse bairro significa para você? Esses bairros aqui?

 

R – História da gente, né, infância da gente, tudo o que a gente vivenciou, o dia-a-dia. Meus pais, não, hoje meu pai, que Deus o tenha, não tenho. Eu tenho minha mãe, então eu moro no outro bairro, mas sempre quando eu vou para cidade eu passo aqui para ver minha mãe, então é uma coisa que marca muito. Mas assim, não tenho mais vontade de morar aqui.

 

P/2 – Por que não?

 

R – Sabia que você ia fazer essa pergunta, “Por que não?”. Como eu estou dizendo para você, eu estou morando no Parque São Vicente, do outro lado da rua tem uma linha que passam seis linhas de ônibus, cinco minutos eu estou no Paço Municipal a pé. O Rodoanel passa do outro lado da minha casa, então o progresso vem e, para cá o bairro aqui não chega. Aqui você para no ponto aqui para pegar o Sônia Maria em um horário desse, você fica uma hora e meia, não tem ônibus. Eles não mandam, não tem. Deu uma melhorada agora em Mauá, de dois anos para cá, que mudou uma empresa, mas também era um caos. Então é um descaso muito grande, então o pessoal tudo vai saindo. Gosta da Vila, mas é muito... entendeu? Fica muito assim, é muito carente dos serviços públicos, é aquilo que eu te falei, se 100% dos impostos não é aplicado aqui...

 

P/1 – Estava contando para gente um pouquinho das dificuldades que o bairro aqui passa, de um transporte, todas essas questões. E eu queria que você também identificasse para gente Cacai, quais são as carências do bairro? Quais são as carências maiores dos dois bairros? Você falou algumas, se você pudesse falar mais um pouquinho sobre esse assunto. Até é bacana você comentar isso porque o Polo pode refletir sobre isso, pode parar para pensar em novos jeitos de atuar com a comunidade, de atuar na região.

 

R – Olha, aqui uma questão primordial, posto de saúde, a administração fechou ele. Então no final de semana, sábado não tem, expediente de segunda a sexta, né, não tem. Então a pessoa vem no posto, não tem. Aí ele pega o ônibus, ele vai para Mauá, chegando em Mauá, as UPAs, as Unidades de Pronto Atendimento, hoje também tem aquelas carências de médico, às vezes tem duzentas pessoas na frente. Aquele negócio, então um dos fatos primordiais seria que, uma ambulância aqui, porque antes o Polo, ele cedeu uma ambulância aqui, na administração que estava aqui. O pessoal da Prefeitura desviou essa ambulância, não sei que final que deu, não tem fiscalização, não tem nada. Então precisava. Na questão da segurança, eu estou lá em Mauá, sete quilômetros daqui, dá um problema de roubar um carro aqui, a pessoa dá um grito, até ligar lá para a Guarda, você sair de Mauá, eu não sei se você conhece a estrada daqui para Mauá, como é complicada. Até você chegar aqui, é muito distante, então aqui precisaria de um destacamento da Guarda Civil, juntamente da Militar, por ser um bairro que faz divisa com São Paulo e Santo André, tem fácil acesso. Porque é que roubam muito aqui, o cara rouba, atravessa do outro lado, em São Paulo, acabou, já era. Eu queria, então são os dois primordiais, seria o posto de saúde, até mesmo se eu for lá agora no posto, um de nós aqui está passando mal, como não é um posto 24 horas, o médico só atende consulta marcada. Aí você tem que ir para o Bangu em Santo André ou então morre. Então está assim.

 

P/1 – Cacai, e você já contou para a gente fora, agora eu queria que você contasse para deixar documentado como é que é o seu dia-a-dia, a sua semana? Quantos dias na Guarda? Quantas folgas? Descreve um pouquinho para a gente deixar gravado.

 

R – Agora eu estou um pouco mais sossegado, mas quando eu comecei esse projeto, né, que eu fiz a Cidade dos Meninos, eu fiquei dois anos sem folga. Eu trabalhava na Guarda segunda, terça, quinta, sábado e domingo. Quarta e sexta eu ia para a Cidade dos Meninos. Isso foi durante dois anos ininterruptos. Eu fazia muita hora extra na Guarda, eu comprei um apartamento, saí daqui, morava aqui nos fundos da casa da minha mãe, tal, tem que trabalhar, né. Aí ficou um pouco apertado, aí cortaram nossas horas extras, estou com menos horas extras, mas mesmo assim a gente tem que continuar fazendo os bicos. Então o meu dia a dia é levantar cedo, entendeu, ir para a Guarda, rezo a Deus, né, devido a situação encontrando aí, para que nada me aconteça, quando chego agradeço nada ter acontecido. Agradeço também a Deus pelos familiares, entes queridos, mas está tudo bem, pararam. E lá na Cidade dos Meninos me dedico ao meu trabalho, é um trabalho para que muitos que vem assim pensam que fácil, mas não é fácil. Eu falei, quando você trabalhava com quem já sabe, é mesma coisa eu pegar isso aqui para eu montar, eu vou ficar um dia e ainda vou montar tudo errado. Então, é assim, mas é prazeroso, é gostoso, é contagiante, são desafios. Tudo na minha vida eu gosto a questão do desafio e, tudo que vem fácil para a gente e não é, tem que ser conquistado. É que nem a dama, você tem que conquistar.  Então, é como eu estava dizendo, a vida da gente, ela é assim, então o dia-a-dia meu, ele é assim. Agradeço muito a Deus por eu estar hoje gozando uma saúde e, peço a Deus muito mais saúde, porque o negócio está difícil, há uns tempos atrás eu saía de colete e eu tenho uma pistola de 20 tiros, você viu que estava matando os fardados aí e a gente fazendo segurança. Então estava uma pressão muito grande. Agora quando venho para a Cidade dos Meninos não, mas dependendo do local que eu vou, eu sempre tenho que estar respaldado. Mas eu tento não colocar isso na minha cabeça e vivenciar tudo isso daí. A gente sabe que a situação está difícil, mas a vida continua.

 

P/1 – E Cacai, e porque é que é Cacai? Qual é que é a história do apelido?

 

R – Quando eu era pequenininho, agora eu sim eu me lembro dele. Uma das coisas que eu lembro quando eu era bem pequenininho, eu cantava muito aquela música: “Cai, cai balão. Cai, cai balão, aqui”, aí tinha um tio meu, que ele é da Bahia, ele era terrível, ele sabia que eu cantava muito, ele mandava eu cantar direto. E eu só andava cantando, aí a minha mãe tinha que me bater para eu parar de cantar, “Cai, cai balão”. Aí ficou Caicai, aí com o tempo o pessoal deixou Cacai. Então desde um ano eu tenho esse apelido.

 

P/1 – E o pessoal do bairro, todo mundo te conhece?

 

R – É, eu tenho particularmente três nomes, meu apelido é Cacai, aqui na escola de samba é Cacai. Se você for na Guarda, que eu tenho 16 anos lá, é Pereira. Você vê que na Cidade dos Meninos eles me chamam de Professor Antônio. Então cada lugar é um, (risos), se você chegar, exemplo, na Guarda e chamar Professor Antônio lá, ninguém vai saber que é o Pereira. E chegar aqui na escola de samba, “Eu quero falar com o Pereira”, “O Pereira?”, é o Cacai.

 

P/1 – E Cacai, quais são os seus planos? As suas expectativas para o futuro?

 

R – Meus planos é vender o meu apartamento e comprar uma casa para mim, é aposentar, que eu estou com 46 anos, eu quero ver se mais oito, eu vou estar com 54, vou gozar da saúde que tenho, continuar a minha vida e, continuar os meus projetos. Porque os projetos, além de audácia de você pegar uma criança, que muita das vezes se ensina ele tocar, tocar, quando ele aprende, ele para de vir. Você fala: “Porque você não está vindo mais?”, “Ah, porque eu não quero”. Aí muitas vezes você ensina um, você vai, vai, ele aprende, “Ah, sabe o que é que é, eu estou namorando agora”, “Eu quero ir até a igreja”. Aí você pega outro lá, e o outro, tah, tah, aí você tem que, “Não, não é assim”. Então todos esses desafios, sabe, são interessantes para mim. Eu quero ver a bateria pronta, montada, eu falar: “Eu vi o resultado ali”.

 

P/1 – Quais são as expectativas para 2013? Da bateria?

 

R – 2013, a bateria minha aqui, ela está muito assim, está para ter uma festa, todo mundo vem e no ensaio ninguém aparece. Então eu quero trabalhar com outras pessoas aí e, aqueles que não estão vindo, vão perdendo espaço. Porque bateria é como eu falei, tem que marcar presença. Porque é assim, bateria é o coração da escola, bateria é a única ala da escola de samba que você não para. Então para você particularmente conseguir a sua fantasia, você conseguir a sua camiseta, você conseguir suas apresentações, como você vai conseguir isso daí? É você mantendo presença no ensaio, não adianta porque você já sabe, você some, você vem só na festa. Então, minha perspectiva de continuar o projeto, aumentar a bateria porque muitos desistiram, também, 12 anos sem carnaval. Então muita gente vai fazendo outras coisas.

 

P/1 – Cacai, você explicou para gente um pouquinho do seu trabalho no projeto, assim, na Cidade dos Meninos, mas eu queria entender um pouquinho o seu trabalho como professor de percussão. Como é que você virou um professor de percussão? Onde é que você aprendeu a dar aula?

 

R – Então, porque é assim, como eu já mexo com escola de samba, eu sempre trabalhei com ouvido, mas eu não, particularmente eu tenho facilidade colocar um arranjo no  tamborim, só que eu não conseguia tocar o tamborim. Porque tem mestre de bateria, por incrível que pareça, não toca os instrumentos, mas o verdadeiro mestre tem que tocar todos, como é que você vai ensinar se você. E eu era o mestre que tinha essa dificuldade. Aí como eu ensaio muito, eu comecei a... falei: “Não, vou aprender aquele instrumento!”, comecei a tocar os outros instrumentos. Aí essa oportunidade na Cidade dos Meninos, foi como eu disse para você, eu fui lá mostrar uma apresentação, eles gostaram e queriam que eu trabalhasse lá. Aí foi onde é que eu peguei essa oportunidade da percussão, mas agora nesse ano de 2013, eu quero ver se eu vou para noite, eu vou fazer aula de percussão, para aprender outros instrumentos. Percussão mesmo, ler partitura, bongô, praticamente um percussionista completo.

 

P/2 – E o que é que os pais pensam dos filhos de participar? Qual é que a relação dos pais?

 

R – Olha, eu acho que para o pai, é uma satisfação para o pai é ver o filho bem, você entendeu? Então particularmente quando os pais vêm até mim, eles ficam meio assim porque o filho faz barulho e, é mesmo, para você aprender, você tem que ensaiar em casa, faz barulho. Eu falo para ele: “Não, mas está fazendo barulho, mas isso aí é bom porque a pessoa tem que pegar um objetivo. Diferente que seja o instrumento de percussão, a pessoa tem que ir até o fundo, porque senão amanhã a senhora vai dar um curso para ela de inglês, ela vai ver que falar inglês não é fácil, tem pessoas que ficam dez anos para aprender um inglês fluente, ela vai desistir. Então você vai investir errado”, então a pessoa tem que… Então você tem que às vezes explicar para o pai qual é que é o intuito, entendeu, da persistência. Tudo na vida da gente, a gente tem que ter persistência. O Lula foi Presidente da República não foi por acaso.

 

P/1 – E agora Cacai, tenho que perguntar um pouquinho, o que é que você acha da gente contar a história do bairro através da história de vida de vocês, que participaram daqui? Que fizeram essa história?

 

R – Bom, particularmente assim dentro da minha história da escola de samba para a escola do bairro, eu acho que está bem ligado a essa sigla, Silvia Maria. Porque o Silvia Maria até uns tempos atrás, não tinha reconhecimento, que o time daqui nunca destacou, a vila aqui é muito longe, muita gente lá de Mauá pensa que aqui é Santo André. Quando o Silvia Maria começou, ganhou uma, ganhou dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Então hoje Mauá, Silvia Maria é conhecido lá pela escola de samba, queira o pessoal ou não. Entendeu, então tem uma ligação muito forte, esse nome Silvia Maria, o time, todo mundo, sabe que quando fala escola, diz: “Opa, Silvia Maria”. Então nós fizemos um pouquinho de diferença lá fora. E virou trabalho não só meu, sim do Presidente da escola, de todos os integrantes, de todas as pessoas que foram lá apoiar, os simpatizantes. Então essa diferença, essa sigla, ela tem muito a ver. Quando fala Silvia Maria, tem a haver o samba.

 

P/1 – Qual é que é o samba mais especial, assim, desses oito que ganharam? Qual é que foi o samba-enredo que mais te tocou?

 

R – Eu acho que a maioria deles. Eu, não tive um assim que destacou, sabe, porque como eu mexo muito com bateria, toda vez que eu faço um arranjo, aí tem um outro samba, tem vez que eu sonho. Então eu me inspiro em alguma coisa, que eu vou ter que colocar, eu vou ali e coloco. Eu coloco ali um arranjo, então começa a aprender a gostar. Tudo você tem que gostar, se você vai fazer um trabalho e se você não gostar, anterior do que você está fazendo, você fazer por fazer, a coisa não fica boa. Então você tem que entrar dentro do samba, você tem que estar a inspiração do samba, você tem que fazer o arranjo do tamborim, para o pessoal não ficar. Porque tem muitas vezes, no samba-enredo, o meu é o preferido, o do Presidente é outro, dele é outro, dele é outro. Aí ganhou o samba dele, ninguém gostou, aí nessa hora, quem está lá na frente tem que vivenciar o samba dele, você entendeu? É esse o samba que nós vamos defender, esquece os outros sambas, todo mundo tem que. Então como eu estou lá na frente, eu tenho que depositar, entendeu, segurança para o pessoal, “Esse é o samba” e, exigir deles o melhor.

 

P/1 – E quais é que foram os maiores aprendizados que o samba te trouxe?

 

R – Uma das coisas que, até mesmo a gente fala assim: “O que é que você aprende com as crianças?”, as crianças quando subiram lá, aquilo que eu te falei, é aquela bagunça, é aquele sabe, tal, um puxa do outro, puxa o cabelo. Eu mandava descer, aquele rolo, aí eu fui lapidando eles. Então dentro do samba, um dos aprendizados que a gente tem, é você chegar, “Dá licença, boa tarde a todos” e sentar. Então, quando chega um lá, eu falo: “Opa, volta lá”, aí ele vem andando, “Boa tarde, professor”, “Boa tarde para os seus amigos agora”, “Boa tarde”. Então agora todos quando vem, chegam, “Boa tarde”, “Boa tarde”, vai lá e senta. Então isso daí é uma coisa que, dar licença, boa tarde, a gente está esquecendo muito disso daí. “Bença pai”, entendeu, aquela palavra, “por favor”. Que são coisas simples, a gente está deixando tudo isso daí, esse aprendizado que a gente tem que passar para os filhos. Hoje a maioria dos filhos fala com o pai, com a mãe, como se estivesse falando com, “Ou, você não me deu aquilo ali”, não é “A senhora não me deu aquilo”, entendeu. Então isso aí, do que eu faço, eu estou vendo que tem que se fazer a diferença aí.

 

P/1 – Quais foram os aprendizados mais marcantes, assim, que o bairro trouxe?

 

R – O bairro? Agora você me pegou. Para te dizer a verdade, ele não, para mim assim, eu gosto muito do bairro, defendo o pavilhão do bairro. O bairro sem dúvida é alguma coisa… vou te dizer, por um tempo isso é uma coisa que marcou.

 

P/1 – Cacai, eu escutei um morador falar que teve uma época que chamava uma parte de Vila Mandioquinha? Você sabe por quê?

 

R – Era Vila Mandioquinha e Vila do Sapo.

 

P/1 – Porque é que era isso?

 

R – Aqui em baixo, essa descida aqui, quando termina que tem a praça ali, ali era um rio. E aquele rio tinha muito sapo e, época de chuva o sapo subia tudo. Então a gente chamava o pessoal lá da Vila Mandioquinha, porque ali tinha muita horta, né, e do Sapo. Por isso que é esse nome. Aí depois canalizou tudo e a gente continuou chamando de Vila do Sapo, Mandioquinha.

 

P/1 – Cacai, e você queria deixar mais alguma coisa registrada? Contar? Falar?

 

R – O que eu queria deixar registrado é que eu fiquei muito contente, lisonjeado pela presença dos senhores, a paciência também, entendeu. Eu queria agradecer e dizer que muitos poucos têm esse espaço, às vezes tem muitas pessoas que tem um trabalho até maior que eu, não têm esse espaço. E esse espaço, que vocês estão fazendo aí um trabalho muito bom, entendeu, contando a história de vida de muitas pessoas. Porque muitas pessoas fazem muito mais do que eu faço e não é reconhecido em nada. Você entendeu? Porque quando você faz um negócio que você tem sucesso, a imprensa vem até você. De repente você faz muita coisa, e não tem reconhecimento. E uma das coisas que eu aprendi dentro do samba, que está marcado para mim aqui dentro, “E fazei o bem”. É, faz bem, não importa o reconhecimento.

 

P/1 – Cacai, como fim, queria agora fazer só mais duas perguntinhas, uma é como que foi para você contar a sua história?

 

R – Ah, eu pensei que eu ia estar mais fechado, mas eu achei que... É que assim, a minha infância, falar da infância da gente, o que marcou, às vezes, pode ser que eu saia daqui, eu vou começar a lembrar a hora que eu estiver lá fora. Então com aquele impacto a gente fica meio atordoado, entendeu. E eu como fui uma pessoa, assim, como eu nasci aqui, eu não tive muito contato com os meus parentes, o pessoal da infância aqui, do bairro aqui em si também, a gente morou aqui, mas eu não tive muito contato. Mas quem sabe lá na frente eu começo a lembrar das coisas, mas foi muito bom, como eu disse. Foi prazeroso, entendeu, a gente queira ou não queira, defendo o Pavilhão, que é o Silvia Maria. E o Silvia Maria não se resume só no Silvia Maria, ele se resume no Silvia, no Sônia, no Parque São Rafael. Nesses bairros adjacentes que estão juntamente com a gente aqui. Porque tem muita gente que mora aqui no Sílvia, faz daqui um bairro dormitório, aí não participa. Porque se você não participar da sua comunidade, é você estar lá na sociedade brigando pela melhoria, é você estar, entendeu, nos movimentos brigando pela melhoria dentro do seu bairro. Agora você vem aqui, vem, vai trabalhar e tal, não está nem aí com nada, constrói um castelo enorme, trabalha em uma firma boa, aí o seu vizinho ali do lado, o filho dele já está planejando o sequestro seu e dos seus filhos. Então a gente está muito assim, a gente pensa muito na gente, a gente esquece de ver os lados, as coisas, entendeu? Então é muito assim, o povo é muito assim. Hoje raramente está bom, o cara não fala bom dia para o vizinho do lado. E antigamente como era tudo aberto, a gente era muito mais unido, né. Isso aí que eu me lembro muito da infância, que era muito, sabe, tarde. Hoje em dia é complicado, se pegar o seu filho, mandar um levar na escola, olhe bem quem é que você vai mandar. Você não vê o que acontece tanto na televisão aí? Só paga caro na escolinha e a mulher lá espancando o filho lá para comer. A mulher que estudou, que tem um nível aquisitivo melhor do que a gente, dona de uma escola, querendo bater nas crianças para a criança comer. Os próprios professores denunciaram. Então a gente tem que pegar na mão daquele lá de cima.

 

P/1 – E Cacai, como que você acha que pode melhorar a relação do Polo com a comunidade? Você só deu alguns exemplos de coisas que são necessárias aqui, mas para melhorar realmente, para construir uma relação?

 

R – Acho que o Polo melhorar, é fazer o que vocês estão fazendo, entendeu, contando as histórias das pessoas, entrando nas residências, discutindo com a comunidade. Como não teve um representante aqui que ganhou, né, para estar nos defendendo lá, é vendo essas carências, estamos anotando, entendeu. E na maneira do possível que der, estar ajudando aqui, porque como eu disse, o Sônia Maria particularmente é um dos bairros que está colado. O Capuava está, mas queira ou não queira está distante do Polo. Nós estamos particularmente, teve desapropriação. Desse muro que vocês vêm aqui em cima, antes lá tinham as casas que foram desapropriadas. Então particularmente o bairro é dentro e, aqui no Sônia, Silvia Maria vocês devem saber que muitas pessoas aqui estão com problema de saúde. Tireoide, um monte de coisa. Então isso aí que eles deveriam trabalhar em cima disso daí, fazer um acompanhamento, fazer uma assistência.


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