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História

Cabeça erguida e foco nos sonhos

História de: Simone Regina Alexandra da Rocha Allechandre de Lourdes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/01/2021

Sinopse

Infância cercada de irmãos em São Paulo. Trabalho na banca de jornal com o pai. Paixão por voleibol. Gravidez na adolescência. Enfermagem. Trabalho no Albert Einstein. Situações de racismo. Machismo. Empreendedorismo. Abertura de sua empresa de uniformes voltados para o voleibol.

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História completa

Eu trabalhava como enfermeira e eu tive muito problema nesse local pela cor da pele. Uma das maiores agressões que eu tive lá em relação a paciente foi uma mãe… Eu lembro que estava fazendo 12 horas de plantão, porque estava pagando plantão para uma colega que tinha feito para mim no final de semana.

[Chegou uma paciente], uma menina de 12 anos, peguei a veia e sempre a mãe está do lado, para poder medicar. Assim, eu percebi que a menina… Mas para mim era nervoso de pegar a veia. Então a mãe falava assim para mim: "Passa bastante álcool no braço dela", mas eu achava que era tipo uma técnica que a mãe tinha nesse sentido, que passando bastante álcool ela se sentir mais confortável. Eu passava álcool, passava e tal. E aí, antes de pulsionar, a minha colega veio e falou assim: "Deixa eu pegar a veia dela, porque eu não estou conseguindo pegar a veia de um outro paciente" e eu caí nessa: "Ah, tá bom, tudo bem ela pegar?", e ela falou: "Tudo bem". Saí da sala e fui pegar a veia do outro paciente que essa minha colega iria pegar, pulsionei e tudo mais. Achei estranho, porque falei: "Nossa, mas o acesso não é tão difícil".

Eu me lembro que a mãe pediu para falar com a enfermeira de plantão e a enfermeira de plantão entrou na sala de medicação. A nossa sala de medicação lá ficava com seis pacientes, então tinha outros pais, com outras crianças. Nessa, eu fui avisar a colega que eu tinha conseguido pulsionar. Entrei com a bandeja para poder falar e avisar a enfermeira que estava ok lá e perguntar se ela tinha conseguido pulsionar a menina. Nessa que eu entrei, a mãe estava falando para a enfermeira assim: "Olha, você sabe por que o Einstein se tornou esse lixo que está? Porque você contrata pessoas dessa cor, você contrata pessoa com esse tom de pele", bem na hora que eu cheguei. Eu confesso para você que minha vontade era pegar aquela bandeja e tacar, sabe? Mas eu acho que nem fiquei tão impactada com o que ela falou, porque é o perfil dos pacientes de lá. Não que a gente deva se acostumar e aceitar, mas é o perfil que tem lá. Não é a maioria, mas é um perfil. Agora o que mais me doeu foi a enfermeira não ter feito nada, foi ela não ter tomado as minhas dores, porque ela tinha… Aliás, ela era responsável pelo setor. Eu parei e nenhuma das duas tinha me visto. Eu parei e fiquei esperando a reação dela. Ela vira para a mãe e fala assim: "Não, tudo bem, mas essa é uma questão que não é minha, é uma questão do Einstein", então assim, uma vez que você escuta isso, eu tenho para mim que essa pessoa também é uma pessoa preconceituosa, porque senão ela não faria isso.

Só que tinha outros pais na sala, que eu tinha atendido, dois funcionários já tinham ido tentar colher o sangue, não conseguiram e eu fui com toda calma, conversei com a criança, a gente bateu um bom papo e eu consegui pulsionar. Então ele ficou indignado de ouvir isso. Ele brigou por mim. Não foi a enfermeira que brigou, ele brigou. 

Essa mulher me perseguiu por mais de uma semana dentro daquele pronto socorro. Ela ficou lá, a filha dela ficou internada e ela exigia que mandassem a gente embora. Eu, mais a moça da recepção… E ela foi tão feliz, que todos os profissionais que atenderam ela desde a hora que ela chegou eram negros, todos. Ela chegou, o manobrista era negro, ela entrou e na recepção quando foi fazer a ficha quem atendeu ela foi uma menina que é negra, ela entrou… A única pessoa por quem ela foi atendida que não era negra foi o médico, porque do restante, todos eram, todos eram.

E o que mais dói nisso é que tudo entra como injúria racial e não dá nada, então assim, levar um processo adiante nesse sentido, não dá em nada, porque e injúria racial e acabou. Tiraram o racismo e o máximo que pode acontecer é pagar uma peninha de dar uma cesta básica por determinado tempo e acabou.

Lá a gente não tem um certo apoio, tanto que passou um tempo e eu fui mandada embora. Agora mandada embora porque em si eu não quis nem saber, sabe? Depois que eu fui mandada embora também, eu nunca mais tive problema de saúde, então  (risos) foram três anos sem saber o que é um hospital, então acho que estava me fazendo mal.

A MS começou de um sonho, o sonho do voleibol, então como eu não fui mais uma atleta profissional, passei depois a ser master, porque eu nunca parei de jogar, eu tinha muita dificuldade em comprar roupa mesmo para jogar, uniformes para jogar. Depois que você passa dos 30, você já ganha lá uma gordurinha a mais, você não usa mais um P, é tudo muito estranho. Então quando você chega em uma loja voltado para fitness, o tamanho GG é o que servia para mim, e eu ficava pensando: "Eu sou magra e estou usando GG da loja fitness, imagine quem é mais cheinha". O que eu observava das mulheres? Muita camiseta... A gente não recorria nem ao baby look, mas a camiseta e ficava aquela coisa estranha outra coisa que eu observava era uma legging, uma bermuda mostrando a calcinha. E na arquibancada tem homem e às vezes você ouvia algumas piadinhas, e isso me incomodava, porque eu participava desse cenário. Foi onde eu falei: "Não,  então eu preciso mudar. Se essa é a minha dor, é a dor de muita mulher. Bom, vou unir o útil ao agradável. Eu vou jogar e ao mesmo tempo vai ser meu ganha pão". Foi aí que surgiu a MS para valer. Eu trabalho com uniformes voltados para o voleibol.

Passei por dificuldades por ser mulher negra, o tempo inteiro. Aliás a dificuldade é porque você é mulher, já começa por aí, então não te dão muito crédito. E segundo, porque você é negra, aí o negócio… E terceiro, porque você não tem dinheiro. Então são três coisas que andam com a gente, infelizmente. Um dia eu recebi um cliente na empresa, ele sentou lá… Assim, a confecção é voltada para o público feminino, agora que eu estou entrando no masculino, mas na verdade sempre foi mais para o feminino. Chegou um cliente lá, conversou comigo o tempo inteiro para poder fechar o pedido, e quando chegou lá, ele não falava comigo, só falava com o meu marido, que nem manja de nada, não sabe nada. Ele fazia as perguntas diretamente para o Marcos e eu não estava entendendo. Ele fazia a pergunta para o Marcos e o Marcos perguntava para mim. Depois que ele sentou: "Então, vamos lá", eu falei: "Vamos começar tudo de novo, porque você fez suas perguntas para ele, mas na verdade ele não trabalha aqui. Aqui ele só está de passagem. Se o senhor quiser saber qualquer coisa sobre uniforme, é comigo. Vamos começar do começo. Prazer, meu nome é Simone, e eu sou a responsável pela MS Esportes, do que o senhor está precisando?", e teve que falar tudo de novo, mas porque eu era mulher. Então assim, eu sinto que fecho mais negócios por telefone do que presencial.

A costura para mim é igual a enfermagem, é amor. Na enfermagem você pega um paciente que às vezes está nas últimas, você cuida dele e quando você vê, o paciente está ali te agradecendo, sai sorrindo e sai andando. E na costura, é a mesma coisa, você olha para ele, não dá nada, faz uma roupa e vê no olhar da pessoa o quanto ela está agradecida, o quanto ela gostou, o quanto foi bom para ela. Para mim os dois andam juntos.

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