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História de: Maria Cristina Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/01/2013

Sinopse

Nasceu em Santos, em 1959. Pai era vigia de navios. Mãe de Santa Catarina. Ascendência alemã, espanhola e portuguesa. Pai faleceu quando Cristina tinha três anos. Morava em São Paulo, mas ia com frequência para Santos. Colégio de freiras. Graduou-se em Serviço Social na PUC e fez pós-graduação em Administração de Recursos Humanos. Começa a trabalhar na área de Processamento de Dados no Banco Mercantil. Trabalhou no Banco Excel. Área de Recursos Humanos. Em 1999, ingressa no ABN Amro Real. Casada, três filhos. Responsável pelos Fundos de Pensão do Santander, relacionamento com stakeholders (acionistas).

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História completa

P/1 – Cristina, boa tarde. Primeiro eu gostaria de agradecer de você ter aceitado o nosso convite e vim para cá para essa entrevista. Para começar eu queria que você contasse para nós o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.



R – Como é seu nome mesmo?



P/1 – O meu nome é Fernanda.



R – Prazer, Fernanda. É um prazer estar aqui, aceitar esse convite. O trabalho está sendo feito de uma forma bem natural, vamos ver o que dá. Bom, meu nome é Maria Cristina da Costa Rodrigues de Carvalho, eu nasci em Santos, qual era o outro?



P/1 – A data do seu nascimento.



R – Nasci em Santos no dia 11 de setembro de 1959. Hoje tem o episódio das Torres Gêmeas no dia do meu aniversário, portanto os amigos não esquecem. Eu digo que o mundo tem um motivo triste, mas eu continuo celebrando. September eleven.   



P/1 – Quais são os nomes dos seus pais?



R – Alberto Rodrigues e Jovita Maria da Costa.



P/1 – Conta um pouquinho para nós da origem da família, da onde que eles vêm, como é que eles foram morar em Santos.



R – Bom, meu pai era vigia de navios, portanto trabalhava na região portuária, por isso que se estabeleceu em Santos. Minha mãe nasceu em Paulo Lopes. Meu pai brincava que ela o terceiro polo, porque tinha polo Norte, polo Sul e polo Lopes. Ele brincava com ela. É uma cidade muito pequeninha do interior de Santa Catarina, fica a uns 60 quilômetros de Florianópolis. Foi lá que ela nasceu. Meu pai tinha descendência espanhola, daí o sobrenome Rodrigues, e a minha mãe tinha descendência de portugueses, da (Hilda Costa?), e também dos avós por parte da mãe, alemães. Eles se fixaram no Sul do país. Trabalhavam produzindo farinha de mandioca, numa cidade que ainda existe e eu tenho duas tias que moram lá, e tem agora pontos mais famosos ali, Garopaba, Guarda do Embau. Mas, minha família, a família da minha mãe tinha seis irmãos, com ela sete. Ela sempre foi uma mentora para mim. Minha mãe cresceu nessa cidade do interior ali próximo a Florianópolis, e veio para São Paulo com uma tia quando ela tinha 19 anos. O que me marcou nessa vinda dela foi o fato de ela ao decidir sair de casa, ter sido noiva três vezes e, naquela época, normalmente se casava quase que por contrato, os pais escolhiam para você o seu relacionamento. Nessa situação ela recebeu o convite de uma tia que estava se mudando para São Paulo, ia trabalhar aqui, numa família, e minha mãe era afilhada e ela falou: “Eu vou.” Quando ela decidiu ir, a minha vó escondeu todas as roupas dela. Não deixou. Sem roupa ela não vai. Minha mãe foi se aconselhar com o avô, dindinho Mané João: “O que eu faço, vô? Eu quero ir, mas minha mãe escondeu todas as minhas roupas.” “Se ela continuar a teimar, o teu avô dá um dinheiro para você comprar roupas lá. Se é isso que você quer. Você está vendo aqui o destino das suas irmãs, que estão se casando, se enchendo de filhos, se você quer conhecer o mundo, vai conhecer o mundo.” Diante dessa forma acolhedora que o avô dela, o pai tinha falecido quando ela tinha a tenra idade. Ela veio, veio com a tia e ao chegar aqui em São Paulo ela começou a trabalhar, primeiro como manicure, depois foi estudar, se formou, foi galgando espaço. Foi aí que ela conheceu o meu pai, depois eles decidiram constituir uma vida juntos. Ela fez faculdade depois, escreveu para o governador para poder estudar. Na época eles enviavam pessoas do Estado para visitar as famílias que escreviam para o governador para saber se a história era verídica. Concederam uma bolsa de estudos para a minha mãe estudar, porque ela tinha feito o primário no interior e aqui ela se formou no ginásio. Na época ela também tinha uma paixão por teatro e ela trabalhou em teatro de coro de revista com a Virgínia Lane, viajou pelo Brasil. Tem uma situação pitoresca da minha mãe, quando ela estava em Manaus, com apresentação teatral, tava passando o carro de misses pela cidade, era pitoresco, essa questão das misses, e a miss Amazonas não pode participar e minha mãe foi convidada a representar a miss Amazonas no carro de bombeiros que circulou a cidade com as misses, e ela tem a faixa miss Amazonas até hoje. Foram situações muito pitorescas. Minha mãe é uma pessoa que me inspirou muito, porque meu pai faleceu logo quando eu tinha 3 anos de idade, então a minha referência foi a minha mãe, e também o reencontro da minha mãe com o ex-namorado, que foi a pessoa com quem ela se apaixonou, se reencontrou e me criou, até que ele viesse a falecer quando eu tinha 15 anos. Ele foi, na verdade, a referência de pai foi esse segundo relacionamento, que foi num reencontro de um primeiro namorado que ela teve, que depois eles conviveram juntos por onze anos antes de ele falecer. Mas, eu tenho família em Santos, tenho alguns primos em Santos, nós tínhamos apartamento em Santos, essa foi a referência materna, de valores, de muita honestidade, de ter começado uma vida simples e minha mãe, quando veio para São Paulo, atrás dela vieram outros irmãos e que hoje constituíram família, estudaram e se tornaram pessoas especiais. Eu tenho muito orgulho dessas minhas origens, do Sul do Brasil, um pouco misturadas de ser caiçara, porque quem nasce em Santos não é santista, santista é quem torce para o Santos, eu sou caiçara e com uma referência muito legal dessa antecedência que tenho dessas pessoas que me colocaram no mundo.



P/1 – Conta para nós um pouquinho como foi a sua infância em Santos, como era a sua casa, o que você se lembra?



R – Eu fiquei em Santos realmente por pouquíssimo tempo, eu não tenho muitas memórias a não ser as fotos da minha madrinha materna, minha madrinha de batismo, e da minha mãe e do meu pai quando eu era pequena porque eu nasci de parteira. Nasci na Amador Bueno, 125. Uma casa que eu convivi na minha infância, porque eu visitava minha madrinha em Santos e visitei durante toda a minha juventude. Eu sei onde eu nasci, eu sei como foram essas referências não por ter vivido em Santos, mas porque eu passava os veraneios, porque depois meus pais compraram um apartamento na ponta da praia. Meus amigos eram de Santos, porque minha família era de Santos, porque eu vivi em São Paulo, mas quatro meses por ano eu ia para Santos passar férias. Eram bem gostosas as referências que eu tenho. Eu nasci passando um pouco do tempo com parteira, minha mãe, meu pai, tinham uma vida muito simples, eles alugavam um quarto nessa rua Amador Bueno, uma casa da minha madrinha. Minha mãe, inclusive, comia pão seco atrás da porta, era sim uma vida bastante difícil, eu me lembro pouco disso. Mas lembro dos meus primos de lá quando, a partir dos 5, 6 anos as memórias vão ficando mais vivas. Eu tenho uma prima que ela brinca comigo que ela foi enganada quando eu nasci, porque ela morava na mesma casa que eu, e ela tinha 5 anos quando eu nasci. Brincaram com ela falando de que como eu nasci em parteira, o que iam falar para uma criança de cinco anos? De que a cegonha estava chegando. Era uma casa comprida, tinha um corredor enorme, e vários quartos e áreas internas entre as janelas. Era uma casa que tinha uma escadaria, era um segundo andar, mas era praticamente térrea. A colocaram na janela e quando eu chorei falaram que a cegonha tinha entrado pela outra janela. Até hoje a Cristininha, que eles me chamam, ela conta para quem é novo essa história de que ela foi enganada, ela pensou que foi a cegonha que me trouxe. Sempre se reuniam, o Ano Novo, nós passávamos o Natal, o Ano Novo lá. Vínhamos aqui de São Paulo para passar com eles, porque era a minha família por parte de pai, e por parte de mãe por afinidade. Durante esse processo, eu aprendi a andar de bicicleta naquela pracinha em frente ao aquário. Eu me lembro que eu tinha uns 7 anos, eu tinha ganhado uma bicicleta, minha mãe ia levantando as rodinhas para eu começar a me equilibrar melhor, e numa dessas eu enganchei minha bicicleta na bicicleta de um garoto bonito, chamava Lourival de Arruda Camargo Júnior, eu me lembro do nome dele até hoje. Minha mãe toda: “Você vai ter que pagar a bicicleta do menino.” No fim ele era vizinho do meu prédio e nós acabamos começando um relacionamento, nunca o namorei, mas sempre foi o meu amorzinho platônico de infância. Super romântico, eu ter conhecido o Júnior enganchando a minha bicicleta na bicicleta dele. Eu lembro que tinha esses meus amigos de Santos, aqui em São Paulo, eu comecei no colégio São José, um colégio só de meninas que ficava na rua da Glória, na Liberdade, eu morava na Bela Vista, eu me lembro, entrei com cinco anos e meio, no pré-primário e eu tinha menos idade do que a minha turma. A minha mãe conseguiu que eu entrasse com menos idade do que o resto, porque era quase que proibido entrar no pré-primário completando 5 anos no segundo semestre. Nasci em setembro, eu era a caçula da turma, isso sempre foi algo marcado ali, era um colégio de freiras. Tem uma situação pitoresca na minha infância também nesse colégio. Colégio São José, eu ia a pé, minha mãe me levava ainda quando eu estava no primário, depois eu comecei a ir com uma amiga que morava perto, nós íamos juntas. Era um colégio de freiras, só de meninas, todo ano nós fazíamos abaixo-assinado para virar misto, e as freiras continuavam com um colégio só de meninas. Depois eu vim a saber desse episódio, porque a minha mãe me contou. As freiras começaram a me observar de uma forma, porque no recreio em vez de eu ir brincar com as crianças, o colégio, do lado direito do pátio enorme, tinha uma gruta da Nossa Senhora, e parece que nos recreios eu ia para a gruta. As freiras olhavam para mim e falavam: “Aquela menininha ali vai querer ser freira, porque no recreio, em vez de brincar, ela vai para a gruta para ficar ali olhando a Nossa Senhora.” Num dado momento, uma freira chegou e perguntou o que eu estava fazendo ali e eu respondi para ela que estava pedindo um irmãozinho. Acho que eu me sentia sozinha e o que a freira, diretora pedagógica do colégio, fez? Chamou meus pais para perguntar, primeiro sondou, como é que eles viviam, se eles pretendiam ter mais filhos: “Não, não pretendemos ter mais filhos.” Elas contaram esse episódio, dizendo que eu devia estar me sentindo muito sozinha rodeada num mundo de adultos, e que era recomendável, pela minha idade, que sempre que eles viajassem levassem um amiguinho, um priminho, para que eu suprisse essa necessidade de conviver com um irmãozinho, na medida em que eles já tinham decidido não ter mais filhos. Depois acabei me lembrando, porque sempre que eu viajava tinha um priminho, um amiguinho, alguém do lado, que a minha mãe veio a contar isso para mim. Outro episódio que eu me lembro que marcou a minha infância, porque filha única tem tudo para você: tem os pais para você, o quarto, os brinquedos, você tem essa relação com o mundo coisificado, das coisas que a vida te oferece. Eu me lembro, uma vez em Santos, no nosso apartamento, estava eu e um priminho meu de São Paulo, filho do meu tio que foi conosco. Nós tínhamos um hábito, eu e meu pai, meu pai trabalhava, aqui falando da minha referência, do meu padrasto, (Aldo Vínzio?), ele era italiano de nascimento e a minha convivência com ele foi de uma similaridade tão grande que uma vez nós estávamos passeando em Águas de Lindóia, meu pai, minha mãe e eu, e um casal que nos viu falou assim: “Nossa, como ela é parecida com o pai.” Porque eles tinham olhos claros, e minha mãe ficou meio assim, e ele ficou todo orgulhoso. Ele me transmitiu, ele era industrial, me transmitiu muitos valores, que me deram muito significado para coisas que compartilho até hoje, principalmente o fato de: “Não dá um passo maior do que a perna.” Me ensinou todas. Ele queria muito ter um filho homem, nunca teve. Eu adoro futebol. Sei todas as regras de futebol, como chuta de trivela, algum impedimento, sempre aprendi, desde pequena. Às vezes, quando tem alguém falando de futebol, que eu entro, pessoal com ideia pré-concebida: “Quem é essa mulher falando de futebol com tanta propriedade?” Eu gosto. Ele era palmeirense roxo, eu nasci em Santos, meu padrinho era santista, eu me lembro da cara de decepção do meu padrinho quando ele provocou meu padrinho e falou: “Cristina, fala para ele que time você torce.” “Palmeiras.” Meu padrinho: “Ai!” Na época do Pelé ainda. Mas foi bem interessante essa questão. O episódio que eu me lembro dessa questão que nós vivemos com esse meu priminho foi que nós tínhamos o hábito de comprar, todos os sábados meu pai chegava de manhã e nós saíamos para comprar docinho na Duca, na Viera de Carvalho aqui em São Paulo, porque ele adorava doce, tanto que ele faleceu de diabetes alto, infarto fulminante, lá em Santos, no nosso apartamento de Santos, quando eu tinha 15 anos. Mas ele adorava doce e todo sábado nós íamos comprar os docinhos, ele também gostava de jogar, recebia as pessoas. Minha casa vivia sempre cheia de gente. Ele era muito espirituoso. Ele contava piada, adorava contar piada. Esse lado da minha mãe sempre espiritualista, no conceito de ajudar os outros, de cuidar de nós, cuidava dele, e ele degustando, a sacaneando o tempo todo, essa brincadeira muito saudável que nós tínhamos. Fazia do nosso fim de semana, dos nossos dias também rituais importantes. Eu me lembro que nós levamos os docinhos e fomos lá, estávamos juntos, eu, minha mãe, meu pai, e esse priminho, o Rubens. Ele tinha cinco anos a menos do que eu. Eu escolhi os doces, e tinham os doces que eu mais gostava, um doce que era um sanduíche de suspiro, enorme, com creme de chantilly no meio, eu adorava. Eu, lógico, meu pai pôs os docinhos, nós tínhamos jantado, eu fui cheia para pegar o doce que eu gostava. Minha mãe: “Cristina, tem visita hoje. Visita escolhe primeiro. Rubens, que doce você quer?” Lógico que eu já tinha dado a deixa que aquele era bom, já fui com a mão. Ele foi aonde? No doce, no único que tinha, que era aquele doce. Mas eu me lembro que aquilo foi marcante para mim, porque eu aprendi através daquela atitude a observar o outro. O direito do outro. De respeitar o outro. A escolha do outro, principalmente se ele é alguém que não está no convívio da família. Mas essa situação ficou super marcada como episódios que eu tive na minha infância. Como um dia levei uma borracha para casa, do colégio, e eu achei realmente no pátio, e minha mãe percebeu nas minhas coisas que tinha uma borracha: “De quem é essa borracha?” “Não, achei no pátio.” “Volta lá, entrega no achados e perdidos, o que não é seu, não é seu.” Como meu pai trazia, se você quiser comprar alguma coisa, você tem que ter dinheiro para comprar duas, porque a maior vergonha que tem é alguém chegar na sua casa e te tirar aquilo que você não pôde pagar. Essas questões sempre foram muito importantes, e quando meu pai faleceu, eu tinha 15 anos. Meu pai queria fazer Medicina, e ele não pôde fazer na Itália, porque os pais eram vinicultores e isso iria exigir um investimento muito grande dos pais. Ele quase que projetava para mim o desejo de ver ele fazendo Medicina. Eu falei, como ele faleceu do meu lado, no Carnaval. Me lembro que nessa situação foi muito sofrido, o socorro demorar, eu falei: “Vou ser médica.” Isso me nutriu quando ele faleceu, eu comecei a receber pensão, eu me lembro que eu fui fazer cursinho para fazer Medicina. Comecei a trabalhar meio período, porque eu queria ajudar a minha mãe. A nossa condição de vida mudou completamente, sem a renda do principal provedor, minha mãe também começou a trabalhar depois de ter levado quase que uma vida inteira sem trabalhar e foi fazer faculdade. Minha mãe foi fazer faculdade quando meu pai faleceu. Meu pai tinha falecido. Nessa época, eu me lembro que eu prestei vestibular para a faculdade de Medicina, no meu colégio eles incentivavam que nós fizéssemos também estudos sobre profissões. Nós fomos na USP [Universidade de São Paulo], na Pinheiros [Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo], eu e mais quatro amigos que queríamos fazer Medicina, nós fomos fazer uma visita na USP. Quando chegamos lá na USP, tudo bem, na hora que nós conversamos com alguns estudantes de Medicina para ver como é que era, ver como é que os fetos se criavam, na Anatomia, onde tem a parte que eles estudam o corpo humano, ver joelho sendo dissecado, as mãos mexendo com os tendões, até ali tudo bem. Nós tínhamos que entrar na autópsia. Para entrar na autópsia, que eu abri a porta e vi a cena de um bebezinho que ia ser autopsiado, eu tirei o jaleco do estudante de Medicina que tinha emprestado, porque precisava entrar com jaleco: “Aqui, eu desisto de fazer Medicina. Perdoe-me meu pai, mas não vai ser por aqui a minha carreira, não dá para ser por aqui a minha trajetória. Se eu tiver que ajudar as pessoas, eu vou me relacionar com elas, vou fazer de outra forma.” Quando eu decidi não fazer Medicina começou a minha busca por outras profissões. Fiz Serviço Social na PUC [Pontifícia Universidade Católica], que foi uma faculdade que me deu uma base muito grande, depois Administração de Recursos Humanos como pós-graduação. Na época também prestei Comunicações na FAAP [Fundação Armando Alvares Penteado], entrei; e prestei também Belas Artes, porque eu estava buscando algumas coisas na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, porque eu também gostava muito de artes. Também acabei entrando. Cursei mesmo a PUC, é dali que eu tenho uma base muito legal dentro da minha trajetória. Quando eu comecei a estudar, depois eu parei de fazer o cursinho, eu retomei meu trabalho, eu comecei a trabalhar num banco numa área de Processamento de Dados. Comecei a minha carreira em Tecnologia. Não tem nada a ver com o que eu estava estudando. Mas era uma fonte de renda, eu tinha feito vários cursos técnicos, especialização, e por conta disso, engraçado que eu fui fazer alguns testes em banco e eu acabei lembrando, e comecei a trabalhar num banco que eu ia quando era pequena, porque meu pai tinha conta. A área de Recrutamento e Seleção era na sobreloja desse banco. Olha que coincidência. Eu comecei a trabalhar no Mercantil de São Paulo, Finasa, quando eu completei 17 anos eu comecei minha carreira em banco, mas como uma forma de me manter, porque eu não sabia se era isso que eu queria fazer. Ainda na área de Processamento de Dados eu fui prestando concursos internos, fui ser trainee, eu fui trainee de Sistemas. Depois de quatro anos e meio dessa minha trajetória em Processamento de Dados, quando eu tinha chegado a ser programadora etc., eu migrei para a área de Recursos Humanos, Departamento Pessoal na época, porque eu tinha me formado e eu queria atuar como assistente social, na área social, isso me encantava e foi por aí que eu segui. E lógico, tem outros passos da minha carreira. Mas voltando para a vida pessoal, dentro da minha vida pessoal essas foram as grandes referência que eu tive de coisas que me marcaram e que marcaram também nos relacionamentos que eu escolhi ao longo da minha vida. Eu tive aquele garotinho que eu enganchei minha bicicleta não foi meu primeiro namorado. Eu me lembro, o meu primeiro namorado chamava Cleber, foi de Santos também, foi num veraneio, mas eu tive seis namorados, parece mentira, mas eu fui me casar com o sétimo. Parece conta de mentiroso. Tive relacionamentos que eu achava: “Puxa, será que em nenhum momento eu vou conhecer alguém que me encante, que eu me apaixone?” Parece que era tão difícil encontrar alguém. Até que uma prima minha, de Florianópolis, ela veio com o marido para cá, ela tinha quatro filhos, veio nos visitar. Nós nos dávamos muito bem, a (Claudete?). Ela falou um negócio para mim que eu falei: “Puxa.” Nós estávamos conversando sobre amizade. Eu saí com elas, eu era jovem, adolescente, ela me falou uma coisa que me marcou também: “Você já percebeu que quando você conhece alguém, começa a se relacionar, normalmente você vai se moldando a essa pessoa? Se é um rapaz que não gosta que você use minissaia (porque na época eu usava minissaia), você vai se moldando. Mas se você gosta dele você vai fazendo concessões. E, às vezes, nós nos esquecemos que a pessoa gostou de nós como nos conheceu. Se é uma paixão que depois vira amor, você vai vivendo.” Quando ela falou aquilo, aquilo me deu uma segurança. Poxa, nós temos que gostar de nós mesmos, quanto mais nós gostamos de nós como nós somos, essa é a melhor forma de você encantar o outro, e do outro encantar você. Acho que tem concessões importantes. Meus pais foram visionários quando me colocaram, naquela época, numa escola de inglês. Eu fiz o “The book is on the table”, Fisk, não tinha condições de fazer um intercâmbio, eram poucas as pessoas que faziam um intercâmbio. Mas isso também me abriu portas para depois vir a trabalhar, dentro das trajetórias que tive, a primeira oportunidade foi no Mercantil de São Paulo, onde eu fiquei 19 anos. Eu fui para o Excel quando o Excel comprou o Econômico, numa proposta que eu recebi de uma diretora de lá, e esse Excel-Econômico virou depois Bilbao Vizcaya, porque o Bilbao comprou o Excel-Econômico. Foi uma trajetória bem legal, porque o Excel-Econômico, o Excel quando comprou o Econômico era um banco de atacado comprando um banco de varejo, com uma cultura muito “díspare” entre uma e outra, porque era uma cultura de um banco com origens judaicas, porque o Ezequiel Nasser vinha dessa colônia, eu tinha muitos amigos também dentro das relações que tinha de diversas culturas, comprando um banco baiano que tinha ficado dez meses sob intervenção, e que só saiu dessa intervenção por força política do Antônio Carlos Magalhães, na época. Foi o primeiro episódio de reversão de banco que faliu. Os anteriores foram do Comind, do banco Auxiliar. Não é do tempo de vocês, mas na literatura de fusões e aquisições de bancos não tinha ocorrido um episódio como aquele. O Ezequiel Nasser que monta um banco por dissidência do banco Safra, ele acha que a melhor forma de crescer é através da aquisição de outro banco. Aquilo foi uma experiência muito legal. Culturas díspares. A (Carmen Nigo?), que fez o convite para que eu fosse para o Excel era uma pessoa também que tinha vindo da sua trajetória do BCN [Banco de Crédito Nacional]. Ela montou uma equipe diferenciada eu senti muito prazer de ter integrado a equipe dela com minha experiência em benefícios, essa sempre foi a minha grande expertise por ter feito Serviço Social, por ter me especializado na área de Administração de Benefícios, de Previdência etc., que era uma área que eu gostava. Isso me deu a condição de ser convidada a integrar as políticas de benefícios do Excel com o Econômico. Depois o Excel-Econômico foi comprado pelo Bilbao Vizcaya, um banco espanhol, eu senti o que era comprar e ser comprado. O aprendizado, você tinha um nível de aprendizado, eu dobrei meu nível de aprendizado naquela experiência intensa de três anos. Quando o Bilbao chegou, eu fui fazer outra especialização em Remuneração, para me manter ativa no mercado. Quando eu fiz essa mudança da área de Processamento de Dados para Recursos Humanos eu também decidi me casar. Fiz duas mudanças muito próximas. Eu tinha 21 para 22 anos, mudei de Tecnologia para a área de Recursos Humanos e me casei. Mais ou menos na mesma época. No dia do meu aniversário, dez de setembro no civil e onze de setembro no religioso. Meu marido Domingos, nós namoramos por dois anos e meio. Por incrível que pareça, eu não quis ser médica e fui casar com um médico. Acho que tinha alguma coisa com meu pai ali por trás, porque quando nós ficamos noivos eu lembro que eu falei assim: “Pai, se você abençoa essa relação, que ele me traga uma rosa.” Ele me trouxe um buquê de rosas. “Está mais que abençoado.” Mas foi no dia do nosso noivado. Nós namoramos por dois anos e meio, eu comecei a namorar com 19, quando eu tinha 21 para 22 nós acabamos nos casando. Dessa relação nós tivemos três filhos. Três jovens filhos hoje. O César Augusto com 26 anos, o Marcos Vinícius com 23, e a Paula Carolina com 21. Nós temos trinta anos de casados, eu e o meu marido. Eu me lembro quando eu fiz 25 anos, quando nós fizemos bodas de prata, resolvemos fazer uma pequena recepção para amigos, eu entregava o convite, a pessoa falava: “Nossa! Vinte e cinco anos, o que é isso.” Acho que essa tem sido também uma marca importante em todos os momentos da minha vida, da minha carreira, até quando eu comecei minha carreira internacional, a viajar pelo ABN [ABN Amro Real]. Eu vim para o ABN em 1999. Fiquei três anos no Excel-Econômico, vim para o ABN para equalizar as políticas de Benefícios de Recursos Humanos, de saúde, quando o ABN comprou o Real. De novo, era um banco de atacado, um banco holandês comprando um banco tradicional de São Paulo, e tinha lá também o Bandepe [Banco do Estado de Pernambuco], um banco de Recife. Essa vivência foi uma vivência também muito importante, porque além de fazer a equalização das políticas, eu comecei uma carreira também com exposição internacional. Agradeço aos meus pais por terem me dado a fundamentação no inglês, porque isso fez com que eu pudesse me habilitar para esse desafio profissional como entrar nesses painéis e plataformas internacionais para debater assuntos relacionados à minha atividade profissional. Eu comecei a viajar. Meu marido ciumento começou a ter algumas dificuldades ao lidar com as minhas viagens a trabalho, mas depois ele acabou entendendo essa necessidade. Ele é um dos grandes pilares. Primeiro, por ele ter feito pós-graduação quando os meus filhos pequenos, na faixa de 10, 7 e 5 anos, depois eu fui fazer uma pós para me manter ativa no mercado. Dessa trajetória toda eu acho que um dos valores que eu tenho e procuro cultivar são os valores da nossa constituição familiar, daquilo que de fato nos nutre. Tenho o maior orgulho dos meus filhos, da forma como eles hoje estão, trabalhando, se relacionando com a vida, os dilemas. Uma coisa eu tenho orgulho: eu jamais deixei, mesmo trabalhando o tempo todo, meu marido brincava comigo: “Poxa, eu pensei, quando eu casei com você, que o meu concorrente direto era o Mercantil de São Paulo, depois você mudou de banco. Cada banco que você ia, você saía mais tarde.” Como eu tenho um prazer muito grande pela atividade que eu faço profissional, acaba sempre estendendo a jornada pelo mínimo de responsabilidade que você acaba adquirindo. O que eu acho legal é a forma como ele me cobra essa presença, ele diz: “Olha, está faltando hora extra aqui em casa.” Ele tem essa forma muito prazerosa e agora que os filhos cresceram, nós resolvemos nos dar um presente, porque nós tínhamos moto quando nós começamos a nossa vida. A melhor forma de ele se deslocar por São Paulo era com a moto. Depois que os filhos nasceram ele vendeu a moto. Nós resolvemos nos darmos uma moto. Hoje nós, aos finais de semana, viajamos de moto, vamos só eu e ele. Agora no final de semana passado fomos para Florianópolis visitar meus parentes. Acho que nós voltamos a namorar e se reencontrar a partir de um relacionamento que começou acho que de uma forma legal, com muito ciúme, muita coisa no meio, teve momentos de altos e baixos, mas acho que nós conseguimos construir uma relação sólida. De como eu nasci, de parteira, sem condições, nós termos construído o nosso patrimônio, com casa para morar, com um sítio, com coisas que nós degustamos a vida, acho que nós temos muito mais a agradecer do que a pedir. Nos momentos de lazer o que me encanta é realmente poder ir para Igaratá, onde nós temos uma casa, um sítio, é uma área de represa. O que eu gosto de fazer é andar de caiaque, porque eu acho que tem uma ajudinha especial, adoro estar entre o céu e o mar, olhar para o céu e ver as estrelas à noite ou ver a luz do sol. Como eu vim de uma família que tem origens em cidades próximas ao mar, e nasci em Santos, eu acho que o mar também faz parte do meu DNA. Gosto muito de ter a água por baixo, o caiaquezinho ajuda você a ficar flutuando de uma forma acho que mais agradável. Eu tenho um ritual: eu chego lá no sítio, eu vou, pego o caiaque, faço a via sacra em volta da ilha, volto. Mas há muitos anos esse é um dos “elixirs” que eu tenho para repor as energias, no contato com a natureza, e prezo muito também estimulando os meus filhos nesse contato com a natureza. Nesse respeito ao que a vida te proporciona. Dos sonhos que me motivam, quero ser uma pessoa melhor a cada dia, acho que tenho alguns defeitos assumidos, um deles é não guardar nomes. Eu tenho sempre que fazer conexões para poder guardar. Tento tirar um defeito a cada dia, mas, às vezes, não é fácil, mas das coisas que me motivam são desafios. Eu gosto, como trabalho em bancos, fiz a minha trajetória em banco, eu ficava torcendo para o banco comprar um outro banco, para ficar bem confuso e ali nós termos condições de conhecer coisas diferentes. Recentemente, ao fazer um curso de formação em coaching eu descobri também que gosto muito dos extremos, que os extremos me motivam por conta da minha trajetória gerenciando a área de diversidade do banco. Acho que isso fez com eu me abrisse para rever talvez ideias pré-concebidas a respeito de como as pessoas reagem pela vida, olhando através de outros óculos. Acho que eu aprendi muito nesses últimos seis anos ao liderar uma área de diversidade, até porque tem contrastes geracionais em volta de mim o tempo todo. Minha mãe, por exemplo, eu tenho um episódio de ter, agora em janeiro, o meu filho do meio, o Marcos Vinícius fez um intercâmbio. Eu não tive condições de ter isso. Eu forneço para eles o kit básico, eu e o meu marido. O kit básico é uma formação num bom colégio, os três estudaram no Rio Branco, e se eles entrarem numa faculdade pública tudo bem, se não a faculdade, um curso de línguas e um intercâmbio de curta duração quando tiverem acima de vinte anos. Assim está acontecendo. O César Augusto já teve, o Marcos Vinícius, e dentro dessa visão deles, acho que o mínimo é o básico para que eles se coloquem na carreira da melhor maneira. 



P/1 – Você estava contando esse episódio da viagem dos meninos, de intercâmbio. Você foi contar essa que aconteceu na ida do Marcos Vinícius.



R – O que aconteceu? O Marcos Vinícius foi para o Canadá, o César já tinha ido para o Canadá, em janeiro é aniversário da minha mãe. O ano passado ela fez 79 anos, ela vai fazer 80 esse ano. E qual é a forma de colocá-la em contato com ele? Minha mãe é uma pessoa que eu digo que é um ponto fora da curva. Para que eu pudesse encontrá-la durante a semana eu tive que dar um celular para ela, para poder saber onde ela estava. Ela está sempre trabalhando, depois que ela se formou, ela começou a trabalhar como Assistente Social no IML [Instituto Médico Legal] de São Paulo, vinculado ao governo do Estado [estado de São Paulo]. Ela se aposentou nessa atividade. Ela sempre foi muito conectada. Ela faz cursos, ela é da Federação Espírita do Estado de São Paulo, ela trabalha muito apoiando, rezando pelas pessoas, visitando pessoas doentes, que ela faz visitas. Ela se motivou pela informática. Foi fazer curso de informática, comprou um computador, em dado momento viu que nós estávamos com o notebook, falou: “Ah já cansei desse computador, eu estou sendo enganada, porque se ele dá problemas as pessoas… ” Resolveu comprar um notebook. Ficou amiga do pessoal do Bourbon, quando dá problema ela põe o notebook debaixo do braço, vai lá e o pessoal concerta para ela. Eu falei: “Como é que nós vamos fazer para o Marcos conversar com ela?” “Marcos, vamos instalar um Skype, nós falamos com ele por Skype, vamos instalar um Skype, ela tem um notebook.” Foi uma delícia. Nós montamos o Skype, ele de lá, nós cantando parabéns para ela, ele cantando parabéns para a vó. Essa situação da ida dele para o Canadá foi bem diferente da ida do meu primeiro filho, porque no começo o Skype era meio complicado para você fazer. Isso há dois, três anos atrás era diferente do que foi, o avanço da tecnologia. Eu me lembro que no dia seguinte do aniversário da minha mãe o Domingos falou para mim: “Olha, eu fiz uma coisa para você, não sei se você vai gostar.” Eu falei “O que foi?” “Eu abri uma página do Facebook para você.” “Domingos, eu já tenho um página, eu não entro muito por lá. Como é?” Eu fiquei comparando com o Linkedin, toda hora entra alguma coisa: “Não, não, por que eu fiz? É a melhor forma de você falar com o Marcos, e ver as fotos que ele está postando lá para você acompanhar melhor a viagem dele.” Ele me explicou como fazia: “É só pedir autorização, as pessoas confirmam.” Foi fácil, pedi para os meus filhos: “Deixa eu ver se isso aqui funciona mesmo.” Pensei no nome de uma amiga de infância, que eu não via há muitos anos. Acho que desde que eu me casei que eu não a via, (Ana Maria Peck?). Não aparece ela 35 anos mais velha, mas com o mesmo jeitinho. Nossa, que maravilha, Ana Maria, fiquei quase parada olhando para a tela do computador. Pedi para ela, e ela no dia seguinte, eu uso meu computador pessoal, meu e-mail pessoal, ela: “Cansei de te procurar.” Eu me chamo Maria Cristina da Costa Rodrigues de Carvalho, mas eu não gosto de ser chamada de Maria. Isso acontece por algumas referências. Embora Maria e Cristina, Cristina era o nome de uma grande amiga da minha mãe, e Maria era o nome da minha avó. Só que eu lembro de Maria, quando eu sou chamada de Maria Cristina eu lembro da minha mãe, mas quando ela estava brava comigo. Então, eu brinco muito com essa coisa, eu brincava também com o (Ramón?), que hoje está na área do call center sobre isso. Porque o call center nos chama sempre pelo primeiro nome, às vezes você quer ser chamado por um apelido. Quando alguém te chama de Maria você já começa a responder mal humorada: “O que é?” Voltando para a situação do Facebook, no dia seguinte ela falou: “Puxa, cansei de te procurar.” Porque está Cristina Carvalho, não está Maria e o meu sobrenome mudou, porque eu me casei e não é mais Rodrigues. Desse primeiro contato com ela nós abrimos, algumas outras colegas foram nos achando, e o Colégio São José, que eu estudei, só de meninas, ele não existe mais. Ele fechou tem uns três anos. Nós temos hoje, várias pessoas que se conhecem, uma comunidade de ex-alunos do colégio São José, nós já fizemos dois encontros. Mas que delícia que é os contrastes, por que eu estou dizendo que eu gosto de contrastes? Porque da mesma forma como a tecnologia, dizem que ela afasta as pessoas, para nós, para mim, por exemplo, as mídias sociais, as redes sociais elas me aproximaram e me deram um elixir grande de reencontrar pessoas queridas. Pessoas que eu não via. Outro dia entrou um e-mail: “Você é a Maria Cristina?” Muito legais os reencontros que, deste último ano, eu tive com pessoas que fizeram parte de minha juventude, que eu perdi contato, através das redes sociais. Inclusive esse grupo. O que me encanta também é ver a forma como os meus filhos se relacionam com a rede e veem a vó se relacionar. Porque ela também tem Facebook, ela também tem essas relações. Um dia o meu mais velho postou um comentário dizendo sobre ele se sentindo velho, ou alguma coisa assim, fazendo um paralelo com algum grande pensador e a minha filha responde para ele: “Você pode falar o que for, mais velho a referência de velhice é uma, com exceção da vovó (Divita?).” Porque nós temos essa mania muitas vezes de rotular as pessoas, porque o velho, ele só reage assim, ele é impaciente, ele é chato. O novo, a geração y, nós colocamos vários votos. Eu acho que nós temos a condição de ao olhar de uma forma diferenciada, de ver o mundo de uma forma diferenciada. Eu mesma quando fiz 45 anos, eu tomei uma decisão. Como eu trabalho com previdência privada dentro das questões técnicas, eu acho que o nosso país também, trabalhando com questões sociais de benefícios, as empresas acabam assumindo, muitas vezes, a função social que o Estado não cumpre. Provendo benefícios, provendo serviços, provendo algo que o Estado deixa a desejar. Se olhar o nosso sistema de saúde no Brasil, ele está longe de ser um sistema adequado para atender toda a população. Vêm as empresas e provêm benefícios diferenciados para atrair e reter os melhores profissionais ali naquele grupo, naquele segmento e assim sucessivamente. Eu sempre lidei com essas questões. Por ter convivido também com a minha avó materna por muito tempo, ela faleceu quando tinha 82 anos. Minha família tende a viver bastante nesse mundo, o que eu acho bom, a minha chance de chegar lá também é grande. Eu me lembro de que quando eu fiz 45 eu falei: “Poxa, a expectativa de vida do brasileiro está aumentando.” Se nós compararmos a expectativa de vida do brasileiro com o europeu, o americano, principalmente numa classe social, ou num segmento da sociedade bancária, onde você tem uma qualidade de vida diferenciada, comparada com certas regiões do Brasil, do Nordeste, eu falei: “Puxa, eu quero viver até 90 anos. Vou estabelecer isso como uma meta para mim.” Mas como eu sou uma pessoa agitada, gosto de me envolver em várias coisas ao mesmo tempo, em grupos de estudo etc., quarenta e cinco para 90, é uma boa idade para fazer uma reflexão de vida. Porque eu olhei para mim, eu olhei para os meus 45, falei assim: “Cristina, a primeira fase, a primeira parte dessa metade já foi. Como é que você vai fazer para você chegar aos 90 com qualidade?” Porque o meu desejo seria, se um dia meus filhos me derem netos, se não me derem biológicos, que adotem. Acho muito legal essa vivência da maternidade. Se não pudéssemos ter filhos, eu e o meu marido, nós adotaríamos, já era uma decisão nossa. O que eu quero? Desejo ver meus netos, se eles vierem, formados, quero vê-los constituindo uma trajetória nesse mundo para deixar um legado, um legado legal. Constituído com bases sólidas, com valores de ética, de honestidade, de não passar nessa vida por acaso, e de fazer alguma coisa pelo bem do próximo. Tanto que quando eu lido com os extremos, a minha carreira profissional me permite trabalhar com questões técnicas, hoje eu sou responsável pelos Fundos de Pensão do grupo. Tecnicamente assessorando a direção de Recursos Humanos nesse tema que tem que prover informações sobre longevidade, ampliar a consciência dos funcionários. Nós temos 26 mil aposentados. Um grupo que deve ter vínculos importantes para se relacionar, também a repercutir sobre a imagem reputacional do que é o Santander hoje. Em paralelo a tudo isso, quando eu olho para mim nessa longevidade, eu tomei uma decisão: “Poxa, para chegar lá com qualidade eu tenho que me reformular.” No mínimo eu tenho que executar mais algumas atividades que me dêem prazer e também a escuta. Quando você escuta com sabedoria você também revê os seus conceitos e o teu desejo de mundo. Quero mais é ser taxada de incoerente com o que um dia eu já pensei no passado, mas eu quero ser consistente com o meu tempo. Com aquele tempo que hoje traz referências também muito diferentes do que foram na minha infância. Eu vejo pelos meus filhos. Eu gosto de fazer um paralelo com isso. Hoje a noção que eles têm com o cuidado do meio ambiente, com ecologia, com esse entorno social, inclusive, ao trabalhar com diversidade, a questão do movimento negro, a questão da pessoa com deficiência, as questões etárias, de mulheres, a questão de orientação sexual, isso fez parte de várias discussões que eu travava no ambiente corporativo. Inclusive na Federação de Bancos, onde eu participei de vários grupos de estudos, até representei a Federação de Bancos num evento internacional. Isso me fez trabalhar com diversas culturas. Eu trazia isso para casa. O que eu mais gostava era de ver essa ampliação da consciência deles a respeito dos problemas sociais, políticos, e econômicos do mundo. Vê-los olhando como eles olhavam a ecologia. Hoje meu filho quando fala: “Mãe, fecha a torneira. Para que deixar a torneira aberta? Vai faltar água no mundo.” Isso é quase que automático para nós. Por isso que eu digo: “A educação mudou um pouco.” Quando você faz escolhas para uma educação diferenciada que ela chama a atenção de coisas que são significativas para você, você muda a sua atitude. São através de ações afirmativas. O governo fez uma há alguns anos atrás, que não é do tempo de vocês, que foi nos obrigar a mudar de uma atitude, porque doeu no nosso bolso. Ele implantou uma Lei que nos multava se você não usasse o cinto de segurança. Olha só: para você se proteger dentro de um carro que vinha com cinto de segurança, o governo teve que impor uma multa porque você resistia em usar o cinto de segurança. Aquilo foi uma ação afirmativa do governo. Hoje meus filhos, que estão jovens, vou pegar as crianças, quando entram no carro, qual é a primeira coisa que fazem? Colocam o cinto de segurança. Nem se lembram dessa Lei. Tem várias coisas que nós assistimos e que nós podemos fazer para ter uma sociedade cada vez melhor. O que me motiva hoje a trabalhar numa grande corporação como o Santander, de cinquenta mil funcionários, de ter duzentas mil vidas aqui, vinculando nossos dependentes; os dependentes dos aposentados e todos aqueles que têm o vínculo com o Santander hoje, numa organização internacional, que está presente em tantos países, é a possibilidade de nós influenciarmos através das nossas atitudes, pelo exemplo, ou pelo que nós aprendemos, a sociedade. Quem sabe com isso nós aceleremos um pouco essa história, diminua essas diferenças e consiga de fato ser uma pessoa melhor a cada dia. Eu acho que é o que tem me motivado ao longo dessa minha trajetória. Não é tão longa assim, mas eu acho que é assim que eu gosto de contar a minha história; através dos aprendizados, dos relacionamentos que têm marcado a minha vida, do carinho, do privilégio que eu tive de ter nascido na família que eu nasci. Com esses valores tão importantes que eu carrego até hoje. Quando me dou conta, outro dia uma amiga disse: “Não, porque a forma como você me contou que o seu pai te ensinou para comprar uma coisa ele tinha que ter dinheiro para comprar duas, eu ensino para os meus filhos.” Olha como é importante nós contarmos história. Por isso esse movimento que fala narrar a história das pessoas, é através de histórias como essa que nós conseguimos não só se espelhar, se identificar, ou se inspirar para no mínimo degustar a vida na essência. Porque nós estamos aqui por trabalhar com Previdência, e ter uma noção clara de que nós somos finitos. Todo mundo tem uma certeza: nós sabemos que um dia vamos morrer, não é assim? O Mário Portela fala isso com toda a propriedade. Um filósofo, ele fala. Passar por aqui mais tempo possível, de forma mais produtiva, e com o melhor humor que nós pudermos levar, no mínimo, são atributos que podem contribuir para que nós sejamos cada dia melhor. Portanto, com felicidade no meio dessas celebrações que nós temos em simples momentos da nossa vida. 



P/1 – Eu queria aproveitar que você contou toda a sua trajetória, cheia de valores e com expectativas, grandes desafios, eu queria que você nos contasse como foi para alguém que tinha na cabeça a certeza de que queria ajudar o outro, queria fazer esse diferencial, como é para você hoje estar aí, trabalhando com todas essas pessoas, trabalhando com Benefícios, como é isso para você? Como você se sente nessa posição que é o dia a dia, com o outro tão diferenciado, se você pegar nesses 55 mil funcionários, tem de toda gente, de vários lugares. Como é para você isso?



R – Hoje, em Recursos Humanos estou na área de relacionamento com stakeholders. Nós estamos montando uma área nova em RH [Recursos Humanos] dentro do modelo de atuação, porque nós identificamos que existe um potencial muito grande além dos 55 mil funcionários, o seu entorno, os seus familiares, para nós trabalharmos as relações dos funcionários, dos próprios aposentados, que são grupos organizados, na medida em que eles estão vinculados a grupo de pensão como também os diferentes papéis que o funcionário, o aposentado, aquele que já teve um vínculo com Recursos Humanos, ele tem nessa atuação do dia a dia, pode proporcionar. Um funcionário é também um jovem, ele também tem família, perto, longe, tem várias segmentações que nós podemos ter e, portanto, nós podemos entender qual é a melhor proposta de valor para cada público que nós nos relacionamos. Porque uma coisa nós tomamos conhecimento e consciência de que nós temos uma relação que pode ser melhorada. Nós temos alguns atributos na nossa marca, nós temos alguns atributos na forma de se relacionar com o banco ou com aqueles que são atraídos para começar sua trajetória profissional no Santander, mas talvez nós possamos melhorar ainda mais essa relação. Acho que por isso surgiu a necessidade de dentro de Recursos Humanos nós procurarmos algumas referências teóricas para dentro da área de relação com stakeholder, promover algumas relações mais diretas com públicos, com grupos coletivamente organizados: “Vamos olhar aqui: os aposentados, os funcionários na condição de voluntários.” Porque eu também tenho. Há um ano eu ganhei um presente que foi a área de Ação Social do banco. Hoje eu coordeno a área de Ação Social que tem vários projetos diferenciados. Um deles é o projeto Escola Brasil, que fomenta a participação voluntária do nosso funcionário pela causa da educação. Forma um grupo, identifica uma escola municipal ou estadual das suas redondezas para aplicar, inclusive, alguns programas que nós temos que favorecem a melhoria da qualidade daquela escola. Dentro dessa relação nós temos cerca de 1,8 mil funcionários voluntários. Se nós já temos este grupo, como é que nós podemos ofertar outra proposta de valor? Que outros grupos organizados, por exemplo, tem funcionário sindicalizado, nós temos uma relação sindical, temos um movimento sindical, onde nós travamos algumas negociações ao longo do ano, sejam coletivas de benefício etc. Será que nós não podemos ter uma relação diferente com esse público? O que nós fizemos? Quando essa área foi criada, em abril deste ano, nós, primeiro, nos autoidentificamos enquanto área para ver quais eram as similaridades. Olhamos a matriz de stakeholder do banco, quais eram os stakeholders importantes da sociedade, clientes, acionistas, fornecedores, e olhamos os stakeholders das nossas três áreas juntas, a área de Ação Social, a área de Previdência, e a área de Relações Sindicais. Com isso nós identificamos quais eram os stakeholders importantes para Recursos Humanos e nós priorizamos quem nós queríamos trabalhar. Começamos a fazer essa mistura. Nós percebemos que alguns aposentados se reuniam, tinham associações, nós tínhamos também programas de preparação para a aposentadoria dentro dos fundos de pensão. Um dos desejos dos aposentados era trabalhar em causas sociais. Olha só que legal, juntou a fome com a vontade de comer: “Que tal se nós formos falar dos programas sociais na reunião em que os aposentados estejam reunidos, ou que aqueles que estão se preparando para aposentar se reúnam, estejam juntos?” Porque um dos desejos deles estava sendo atendido. Começamos a fazer esses encontros. Da mesma forma com fornecedores de serviços para RH: “Será que nós não podemos falar das causas sociais?” Em algumas negociações, falando de temas de previdência com o sindicato, o representante do sindicato disse: “Poxa, você não está com a área de Ação Social? Nós aqui no sindicato também temos interesse em alguns projetos sociais. Será que nós não podemos conversar sobre isso?” Nós percebemos qual a possibilidade que nós temos de trabalhar, em Relacionamento com stakeholders, de uma forma mais clara os atributos dessa imagem. O que nós podemos fazer para que a organização Santander tenha uma visão clara do seu propósito? O propósito da Ação Social e do investimento social privado do banco já está definido. Nós queremos trabalhar em quatro pilares: empreendedorismo, geração de renda, educação e diversidade. Nós vamos sempre promover projetos que trabalhem com a população em geral, que tenham essas quatro vertentes. Por que não angariar dentro dessa relação outro tipo de engajamento? O engajamento desses públicos com o cliente, contribuindo com as nossas ações sociais e assim sucessivamente. Podem surgir outros grupos de interesse. Em Previdência nós encontramos isso. Mudamos algumas regras de Benefícios Previdenciários com a fusão e a equalização, a fusão dos bancos. Algumas pessoas aceitaram muito bem e algumas outras não se sentiram bem atendidas com as mudanças e foram travar busca de seus direitos na esfera judicial. O que nós percebemos? Quando nós chegávamos mais cedo para conversar com o juiz a respeito dessas mudanças, o juiz já tinha uma ideia pré-concebida do banco: “Ah, banco só quer trazer uma referência porque tem taxa de juros, não faz programas sociais.” Quando nós mostramos um pouco da realidade do que é o empregador bancário, do que é um projeto social que pode mover cinquenta mil funcionários, que pode engajar uma comunidade, que tem ações, destinação, por exemplo, do imposto de renda para projetos do Brasil inteiro, em que nós monitoramos, onde se faz diagnósticos precisos de coisas que precisam ser feitas na defesa do direito das crianças e dos adolescentes de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Tudo isso é feito também pelo banco. É feito pela participação social e participação ativa de funcionários desse banco monitorando o avanço desses problemas. O juiz muda de opinião. Ele fala: “Puxa, isso é feito por um banco?” Por isso que gosto de trabalhar com esses extremos, os extremos me encantam, porque é a possibilidade de você falar de coisas técnicas, às vezes, chatas e de difícil entendimento, em paralelo também trazer coisas do coração. Coisas que encantam, que inspiram. Eu acho que nós temos hoje, na função que eu exerço em Recursos Humanos, eu tenho uma motivação muito grande de falar do que eu faço, e da forma com nós temos conduzido esses programas aqui. Porque, no mínimo, nós já conseguimos pontuar na pesquisa de engajamento que aqueles que participam mais ativamente de causas sociais eles têm o maior orgulho de pertencer a essa organização. Olha que legal o alcance disso do quanto ao você compartilhar através do olhar, não do meu, como executiva, como corporativa, com uma fala corporativa, mas com a fala daquele líder comunitário que recebe esta ação. Eu ouvi depoimentos fantásticos de mulheres, através do empreendedorismo, de programas de empreendedorismo, que começaram com os seus pequenos negócios, a receber esse apoio do projeto social para estruturar o seu negócio e que hoje vinculam o sucesso do negócio ao apoio recebido pelo Santander. Como é poderoso. Como é importante você conseguir decifrar o papel social de uma organização como essa. Ela é importante porque ela visa lucro, ela tem que dar lucro, ela tem um compromisso com o acionista. Ela tem uma seriedade de propósito, uma solidez de balanço. É uma empresa com um relacionamento, uma posição internacional, global, com cultura espanhola, respeitando, olha o respeito que um banco espanhol tem, que define que quando o espanhol está no país, nesse país, ele tem que falar e ser ouvido pela língua do país. As reuniões não acontecem em espanhol. As reuniões acontecem em português, como acontecem em outras línguas. Esse respeito que nós temos culturalmente é algo diferenciado. Isso me motiva a continuar contribuindo. Sei que não vou viver nesse mundo por muito tempo. Agora eu ando ficando meio audaciosa, porque eu vi que estão tendo vários centenários no mundo, quem sabe eu mudo um pouquinho a minha meta de viver 90 para viver cem anos, mas com qualidade, sempre procurando me manter ativa até o último dos meus dias. Ficar parada eu não vou conseguir. Se eu não tiver uma atividade com o que eu executo hoje, no mínimo vou buscar outra também para preencher o meu tempo, para que eu possa me sentir produtiva e contribuindo com a sociedade. 



P/1 – Em relação ao seu trabalho um pouquinho anterior, que é em relação à diversidade, por que é importante de ter uma diversidade no cotidiano de trabalho, como é feito para se integrar essa diversidade, para que estejam representantes de vários grupos? Por que isso é importante?



R – Porque um grupo diverso seguramente traz vários ângulos de visão para o mesmo assunto, com trajetórias de vida diversas. Você tem referências diferentes para uma mesma questão, e tem uma complementaridade muito grande. Seguramente nós inovamos mais quando nos abrimos para um ângulo que é diferente do seu. É incrível como nós fechamos os olhos para isso. Porque nós, ao longo da nossa vida, acabamos por reproduzir atitudes e comportamentos das nossas gerações pregressas. Eu não vou criticar as gerações pregressas, porque eu tenho ali valores, eu tenho traços, aquilo que me representa, mas eu não posso achar que porque eu nasci assim, porque eu me criei dessa maneira, que isso me dê poderes para que eu menospreze a cultura do outro. Um especialista holandês que estudou muito cultura, e como você reage em diferentes culturas, e como se criam os mitos, ele fala e traz isso com toda a propriedade. Se você nascer na Índia, tem gêmeos separados que um se criou na Índia e o outro se criou num país latino, tem comportamentos completamente diferentes. Nem por isso um é melhor ou é pior do que o outro. Não é a cor da pele que nos diferencia como cidadão. Nem como nós pensamos. A sociedade tem que evoluir ao longo do tempo. Eu, por ser mulher, acompanhei ao longo da minha trajetória profissional, até aquela postura que eu tive mais restrita do meu marido no começo da minha carreira em aceitar a atividade profissional e o fato de eu ter que fazer, às vezes, um almoço de trabalho, de eu ter que estender a minha jornada para fazer uma reunião com consultores do banco, ele não tinha vivido essa realidade. Na minha primeira viagem internacional ele não comentou com os amigos que eu estava fazendo uma viagem a trabalho. Isso é uma forma de reproduzir aquilo que é a cultura do seu povo. Nós vivemos no Brasil, num país que ele tem uma cultura mais masculina, diferente, por exemplo, da Holanda, que tem uma cultura mais feminina. Essas diferenças culturais, quando bem entendidas, elas acabam diminuindo um pouco as tensões no relacionamento do que é certo e do que é errado. Ele pode ser certo para você e não para o outro, e nem por isso… São ângulos de visão diferentes. Se você observar, eu me lembro que o psicanalista que nos apoiou num determinado projeto, ele trouxe uma referência, que ele disse: “Olha, perceba só, vá numa reunião, em sendo mulher, onde você só tenha mulheres à sua volta. A conversa vai fluir para um diálogo.” Da mesma forma a reunião só de homens. O clube do Bolinha e da Luluzinha. Agora, se você colocar um membro desse grupo de Luluzinhas, de Bolinha, um homem, uma pessoa do sexo oposto ali naquele grupo, aquele grupo vai dialogar diferente. Isso é a complementaridade que eu gosto de trazer que é proporcionada pela diversidade. Quando você tem uma pessoa com deficiência num grupo, quantas pérolas nós catalogamos ao longo dessa trajetória com diversidade de aprendizados. Até a forma como nos relacionamos é limitada. Eu tive situações de observar na área de Recrutamento e Seleção, por exemplo, uma pessoa numa cadeira de rodas chegando acompanhado de um amigo, de um familiar, e a recepcionista de Recrutamento e Seleção perguntou para o colega: “Como é que ela chama?” Como se a pessoa na cadeira de rodas não falasse. Quantas vezes nós reproduzimos esse tipo de comportamento? Teve uma pessoa, funcionário nosso, com deficiência visual importante, não total, mas para ele enxergar ele precisava chegar muito perto das coisas, ele lembra, trouxe para nós, nós tínhamos grupos de estudos para apoiar o desenvolvimento desses profissionais que estavam conosco, também nos ajudando a olhar o acolhimento e a valorização da diversidade de uma forma diferente, também com os gestores. Ele chegou arrasado para conversar conosco, porque ele estava no ATM [Automated Teller Machine, caixa eletrônico] para olhar o saldo da conta dele, ele se ajuntou para poder olhar perto da tela, ele ouviu um comentário de um colega dele: “Olha só, eu não sabia que ele tinha essa deficiência visual tão intensa.” “Olha só o cara, só falta querer comer a máquina”. Quantas vezes nós não brincamos e nós não trazemos essa atitude de ideias pré-concebidas e o quanto isso é desrespeitoso, o quanto isso mexe na autoestima daquele que está ali do seu lado? Quando nós trocamos informações, quando estamos numa organização que valoriza e que acolhe a  diversidade, nós temos que trazer esse tipo de situação. Porque muitas vezes você não se dá conta da forma como você reage. Inclusive na questão da orientação sexual, vivemos num país que tem traços de uma cultura masculina, tem coisas que nós temos mais dificuldade de lidar, de aceitar. E nós podemos fazer diferente. Na medida em que eu emito um convite de casamento e coloco senhor e senhora eu estou limitando a forma com que eu quero aceitar as pessoas que têm uma orientação diferente, uma orientação sexual diferente, no acesso àquele ambiente social. Acho que a diversidade traz a possibilidade de você lidar e rever pequenos detalhes da vida cotidiana, da vida que acontece dentro das organizações, que quando revisitadas seguramente elas podem nos ajudar a ter uma organização melhor. Eu não tenho dúvida de que uma equipe com profissionais de diferentes gerações, com ou sem deficiência, de gêneros diferentes, e de culturas diferentes ela, lógico, num primeiro momento vai ser: “Puxa vida, nós vamos demorar muito mais tempo para nos entendermos.” Mas seguramente o ângulo de visão vai ser muito mais completo. No mínimo, nós vamos errar menos na medida em que nós não reproduzimos aquilo que nós sempre achamos que fosse certo. Se for olhar assim, eu vejo pelos jovens de hoje, nós fizemos programas de trainee no passado, e nós tínhamos uma meta de ter um número quase que equilibrado entre candidatos do gênero masculino e feminino. Nós percebemos que acabávamos perdendo as candidatas do sexo feminino ao longo do processo. Quando nós fomos revisitar o processo percebemos que o primeiro teste era o teste de inglês. Por mais que tivesse a maioria de candidatas feminina, nós perdíamos e virava 60, 40. Por que isso? Fomos refletir. Quando você faz um intercâmbio, nos programas de trainee você normalmente tem, os jovens hoje têm uma exposição internacional logo cedo. Como você observa a viagem de um rapaz e de uma moça para o exterior? Já prestou atenção nisso? Como é que faz? A moça normalmente quando vai tem um monte de senões e, às vezes, vai com uma amiga. O rapaz vai sozinho. É lógico que ele vai exercitar muito mais fácil o aprendizado de outra língua do que ela, que muitas vezes vai com uma amiga. Isso também pode ser um obstáculo. Quantas coisas nós reproduzimos de atitudes que podem ser mais limitantes do que desafiadoras para quem está começando, por exemplo, no mercado de trabalho? Muitas vezes nós estamos reproduzindo algo que nós achamos certo, porque nossos pais nos deram esse tipo de referência. Trabalhar com a diversidade é ter a possibilidade de ter outros ângulos de visão e de ter uma sociedade melhor. Se nós, enquanto banco, com o entorno que nós temos, se nós explorarmos também, de uma forma positiva, a diversidade de ideias, a diversidade de culturas que o Brasil oferece; tantas diversidades regionais que nós temos. Ao melhor entendermos essas diversidades regionais seguramente nós conseguimos ter produtos melhores, ofertar uma relação melhor. Acho que o que eu poderia falar de diversidade, para mim, acho que dentro daquilo que nós podemos fazer como organização, não dá para falar de diversidade sem falar para dentro. Você precisa começar a falar de diversidade fazendo um diagnóstico primeiro da sua organização. O que nos motivou a aprofundar e a criar uma área de diversidade, a levar esse conceito e essa experiência para a Federação de Bancos, porque eu pude acompanhar esse movimento, foi olhar para nós e nos perceber enquanto organização que nós não éramos tão diversos como nós desejávamos ser. Ao fazer esse diagnóstico nós percebemos que nós não tínhamos tantas mulheres em posição de liderança quanto nós poderíamos ter, embora nós tivéssemos um equilíbrio de gênero, nós percebemos que as mulheres não ascendiam a posições de liderança na mesma velocidade dos homens, mesmo tendo um nível de escolaridade igual ou até similar, até superior. Hoje nós temos mais mulheres, inclusive ocupando bancos de várias universidades. O Direito é uma delas. Então, ao olhar essa diversidade que nos caracterizava, nós percebemos que nós poderíamos avançar, e para avançar nós estabelecemos algumas metas que nós pretendíamos atingir. Nós queríamos ter mais profissionais negros do que nós tínhamos. Como que pode ser um banco que preconiza a sustentabilidade, o respeito às pessoas como valor etc., e que não cumpre as questões legais? Não tinha 5% de pessoas com deficiência trabalhando nas nossas unidades como preconiza a legislação. Nós fomos municiando e montando um plano de ação para chegar lá. Nós mudamos nossas políticas de recursos humanos para também acolher o parceiro do mesmo sexo nos nossos benefícios. Foi isso que me levou a compor e a participar do comitê de diversidade do banco e depois a assumir por indicação da minha executiva de Recursos Humanos na época a Lilian e a Malu a área de diversidade quando nós começamos a fazer a troca de informações através de plataformas internacionais. Foi muito gostoso e muito rico nós percebermos o que era relevante em diversidade para o Brasil, que era diferente do que era relevante em diversidade, por exemplo, na Europa, na Holanda. Eles queriam trabalhar a questão do que? Não de raça-cor, que era um aspecto importante que nós trazemos, inclusive, na nossa jornada, na trajetória histórica do Brasil. Eles precisavam trabalhar com diferentes nacionalidades e o colega, por exemplo, do Oriente Médio não poderia trabalhar gênero da forma como nós trabalhávamos porque eles lá têm, culturalmente e religiosamente, aspectos que precisam ser respeitados. Como nós trabalhamos tudo isso? Primeiro é reconhecendo, depois é identificando sponsors para o tema. Eu precisava, por exemplo, de executivos como a alta liderança da organização para falar desse tema. Uma coisa é você falar, mas outra é você assumir de que é vantajoso você trabalhar com equipe diversa, que é vantajoso você trabalhar com pessoas que pensam diferente de você, que com isso você vai se relacionar com o cliente melhor. Porque o cliente também reproduz, a própria sociedade reproduz uma diversidade muito rica. Nós somos um país que tem diversidade de cultura, diversidade de ideias, diversidade de raça, cor. Toda essa grandiosidade que nós temos. Imagina a capacidade que nós temos de se entender melhor a relação que nós nos propomos a fazer com os nossos clientes também respeitando a cultura que ele traz e o que ele deseja. No mínimo vou ofertar melhores produtos, melhores serviços e vou criar um círculo virtuoso. Imagine que eu esteja em uma cidade do interior e que eu saiba que naquela região a pesca é algo quase que um ritual cultural daquela região. Imagine se no meu ATM eu coloque, além dos dados bancários, um calendário sobre os principais eventos de pesca. Eu não vou me diferenciar como banco? Além de colocar só a commodity que ele espera na relação com o banco. Quando eu olho o entorno, eu respeito e estimulo a valorização da diversidade, seguramente eu me torno uma organização diferenciada ao olho daquele que pode se identificar comigo. Nós temos vários casos de clientes que vieram para o banco exatamente porque o banco os reconheceu na diversidade que eles representam. Eu acredito que uma organização que apóia esse tipo de causa, seguramente, se torna muito mais perene. Da mesma forma como vocês estão levantando diferentes histórias que nos caracterizam, até pela riqueza do que é a vida humana, no mínimo algumas das histórias a serem contadas irão levar que alguém se identifique com uma delas. Essa é a riqueza que nós podemos promover. Quando nós damos a luz e nós damos luz a essa diversidade que nos caracteriza, eu acho que, no mínimo, é extremamente importante uma organização não se fechar a esse tema. Muito pelo contrário, abraçar, reproduzir e cada vez mais trazer luz e dar esse tipo de informação na relação que nós temos como a própria sociedade. No mínimo, nós vamos trazer seres humanos melhores. Os meus filhos, hoje, olham essas questões de uma forma diferente. Na hora de escolher, uma relação com o banco essas sutilezas também vão fazer parte desse processo de escolha. 



P/2 – Eu tenho uma pergunta já encaminhando para o final. Você pontuou a sua narrativa falando bastante de diferença, de diversidade, pontuando isso com a palavra “diferença”. Falou de grupos, de redes sociais, de grupos de aposentados, sindicatos e tudo mais. Eu fiquei pensando, como, ao tentar sair deste grupo, pensar o indivíduo, já que nós estamos falando de diferença? São duas perguntas: O que esse indivíduo pode nessa instituição, nesta corporação? Mais adiante, voltando para um caráter mais coletivo, sociedade, como você enxerga essa relação entre sociedade e sistema bancário para um futuro próximo?



R – Olha, acho que quando nós falamos do indivíduo na relação com a vida é uma permanente descoberta. Desde o ciclo quando você começa a dar os seus primeiros passos, de quem cuida de você. Eu tenho vontade, uma das coisas que eu tenho vontade, é de escrever um livro. Não precisa ser um livro de história, mas de algumas referências que me inspiraram. Os meus filhos me inspiraram muito, até porque como eu sempre trabalhei, eles não foram cuidados sempre do mesmo jeito. Eu tive pessoas que me ajudaram a cuidar dos meus filhos enquanto eu não estava em casa. Da forma como eles reagem para com a vida, eles têm um pouco da referência que eles receberam também das pessoas, além de mim, do meu marido, do meu sogro, minha sogra e minha mãe, que ajudaram nesse processo de criação mais próximo, de outras pessoas com quem eles conviveram. Eu digo que eu tenho três filhos que têm lá sua personalidade própria, mas cada um tem um jeito especial. O meu mais velho adora ler e sempre foi inspirado a cultuar a literatura de uma forma diferenciada, em tudo que você possa imaginar, o César Augusto. O Marcos Vinícius adora música, o que inspira é a música. Se deixar ele está sempre tocando uma guitarrinha, um violão e baixando música, tal. A Paula Carolina, a paixão dela é a arte, é a arte cênica. Ela faz balé, jazz. Minha mãe, olha só, minha mãe foi do teatro de coro de revista. Ela queria que eu me interessasse pelo balé, me levou em uma academia quando eu era pequena. Aí o que eu escolhi? Ela me levou e acho que a maior frustração dela, ela queria que eu escolhesse o balé e eu escolhi tocar violão, porque eu também gosto de uma música. O que ela não conseguiu comigo, ela conseguiu com a neta. Minha filha é bailarina, inclusive, clássica, jazz. E ela está fazendo teatro. Faz Escola Superior de Propaganda e Marketing, Comunicação e faz teatro. Onde ela está feliz? Olhando a diversidade em um mundo individual dos meus filhos, eu vejo o quanto isso, dentro de uma organização, é rico. Porque quando você entra em uma organização, você faz uma escolha. Trabalhar em um banco. Eu tinha a maior vontade de trabalhar em um banco. Achava que queria trabalhar em uma área de serviço e achava que eu, primeiro, podia como indivíduo, como jovem, eu podia conciliar melhor a minha formação com a minha atividade profissional. No fim eu fui vendo, nossa! O banco, ele reproduz, ele é um dos únicos segmentos da sociedade onde ele interage com todos os segmentos da sociedade. Olha só que contraste legal! Me pegou no coração, porque eu gosto de lidar com contraste, falei: “Poxa, é diferente quando você vai para uma montadora, para uma indústria têxtil.”Aqui você está interagindo com todos os segmentos da sociedade. Esse indivíduo, quando ele entra, ele sai de uma vida individual, ele busca esse crescimento. O Ricardo Guimarães conta isso e eu gosto do que ele traz que é a linha da interdependência. Nós nascemos para sermos independentes. Por que? Porque nós reproduzimos que ser independente é você ser vitorioso, aí quando nós chegamos a uma certa idade da nossa vida, nós nos recusamos a depender dos outros. Para a minha mãe, para algumas pessoas dessa geração ter que depender de um auxílio para andar etc., isso é quase que uma vergonha. Espera aí! Se você tem uma vida social, uma vida individual; se você for uma pessoa que constituiu a tua formação, você estudou, trabalhou de uma forma decente; se você pagou seus impostos e contribuiu com a sua sociedade, por que não quando chegar numa certa idade você receber de volta isso? Seja em um teatro mais barato, seja em um transporte público de graça, seja em uma viagem interestadual. Acho que o indivíduo, com a diversidade que o representa, ele tem escolhas e com essas escolhas ele se filia a grupos. Ele vai por afinidade. Não é tão mais fácil nos relacionarmos com aquele que pensa igual a você? É muito mais fácil. Às vezes, você vai falar um negócio e a pessoa fala igualzinho ao que você ia falar. Parece que leu o seu pensamento. Você vai olhar para ela diferente, não vai? Diferente é o contrário. É você falar alguma coisa e alguém te confrontar. Como que você lida com isso? Lida com os extremos? Quando você entra em um banco como o nosso, que lida com essa diversidade de segmentos e com serviços, isso tem que estar quase que no DNA desse banco. Nós temos que estar muito atentos a essa relação, porque o fato de nós não termos um produto final como uma indústria, uma indústria automobilística, o que ela vai fazer? Um carro, todo mundo vê o que você está produzindo. O que você está produzindo? Um Volkswagen.  O que você faz? Eu coloco o parafuso na roda do Volkswagen. Eu estou vendo o produto final, mas em uma área de serviços? O que você está produzindo? É mais fácil você achar que a tua produção não é uma produção, é uma exploração de algo, mas não. Quando nós estamos nesse movimento, nós estamos lidando com sonhos, com a possibilidade de realização. Eu acho que é isso que nós temos em uma organização do porte do Santander hoje. Você tem 50 mil funcionários, uma exposição internacional. Tanto você pode ter um sonho individual de entrar aqui para fazer uma faculdade e se manter, como você pode fazer uma carreira e, inclusive, uma carreira internacional. Você pode migrar de regiões do país. Se você trabalhar, por exemplo, em uma área do varejo, você pode começar em São Paulo e depois, por oportunidade de uma mobilidade interna, você se mudar para Manaus. Qual é a organização, hoje, do porte que nós temos; quantas no Brasil oferecem essa gama e essa diversidade de oportunidades? Além do que nós somos responsáveis pela nossa carreira, pela nossa trajetória de vida a partir das nossas escolhas. Se eu tiver uma organização que me reconheça como indivíduo, que me estimule a desenvolver as minhas competências, minhas potencialidades, e que eu me sinta atraída, porque é uma organização que não está agindo ilicitamente, ela está agindo licitamente; ela está trabalhando e abraçando causas sociais, ela está provocando, de uma forma inspiradora, de uma forma transformadora, essa transformação da sociedade, por que eu não posso me conectar com isso? Eu acho que vou me atrair a isso. Eu vou falar com prazer do que eu faço aqui. Eu vou, de uma forma muito simples, olhar esses temas. Em que outra organização eu teria possibilidade de me desenvolver da forma como eu posso me desenvolver aqui? Acho que quando eu olho o espectro de empresas que nós temos no Brasil e de bancos que nós temos no Brasil são poucos aqueles que proporcionam, hoje, as possibilidades que um banco do porte do Santander proporciona, e a possibilidade de se relacionar em redes sociais. Nós temos um círculo colaborativo. Nós podemos escrever o que nós queremos lá que alguém vai responder do outro lado. Há uma preocupação. Eu tenho um amigo que eu tenho um carinho muito grande. Nós começamos juntos a trajetória no ABN, ele não está mais no ABN, a época de ABN Real, que ele dizia assim: “O ser humano precisa dos Jetsons e dos Flintstones.” Ele precisa se relacionar também nos extremos. Como são esses extremos? Aquele que se relaciona melhor com a internet, com a informática, com os sistemas, que ele gosta mais de viver esse tipo de relação. Tem o outro extremo que é aquele que quer comprar o jornal todo dia, que ele quer ler, que ele quer um atendimento diferenciado por telefone ou presencial. Assim é um banco que se relaciona com todos os segmentos da sociedade, em todas as faixas de idade da sociedade. Tanto que em nossos projetos, nós, por esses quatro pilares, também trabalhamos projetos voltado para a valorização do idoso. Nós temos o Talentos da Maturidade. Nós estamos preocupados, tem os programas exemplares dentro do Talentos da Maturidade. Quer dizer, essa população ativa tem que se sentir produtiva e respeitada em todas as fases de sua vida. Eu acho que, ao falar da minha trajetória e ao me vincular a grupos sociais ou me desvincular de outros, nós temos essa possibilidade quando vive em sociedade. Dentro de uma corporação como a nossa, eu acho que nós potencializamos ainda mais as possibilidades de relacionamento e de ser bem sucedido. Até quem não se vê no banco, nós temos programas de Mentor. Nós trabalhamos, inclusive, esse apoio à carreira e ao despertar. Eu estou fazendo um curso de formação de coaching agora que tem me ajudado a, assim, é bom para a vida, porque você se entende melhor, se reconhece melhor, no mínimo, o teu entorno fica também melhor. Nesse momento da minha carreira eu falei: “Bom, eu não vou poder ficar a minha vida inteira em uma organização.” Até porque o ciclo de vida se renova e outras pessoas vêm, outras vão. O máximo que eu me sentir produtiva eu vou ficar, mas também, talvez, eu queira fazer outras coisas que me deem outro tipo prazer. Eu tenho um prazer enorme de fazer o que faço hoje, até porque eu estou trabalhando com temas técnicos, com temas do coração, temas sociais e inovando. Tendo aval da minha direção para criar uma área nova. Olha só! Não é mágico isso? Não parece mágico, o momento? O que eu quero mais da vida? Isso me atrai, me faz ficar aqui como indivíduo e a possibilidade de trabalhar relacionamento com stakeholders, identificar grupos. Olha que gostoso trabalhar com esses contrastes, até porque eu descobri que os opostos, quanto mais díspares eles forem, eles vão me motivar, porque irão me gerar mais aprendizado e mais prazer de galgar os meus dias por essa vida. Não sei se consegui responder dentro daquilo que você esperava, mas eu acho que quando nós colocamos indivíduos e grupos dentro de uma mesma organização, nós temos a possibilidade, sim, de reconhecer os indivíduos, porque nós gostarmos é muito vinculado a estímulos. Quem é que não gosta de receber um elogio? Quem não gosta? Eu adoro, por exemplo, que meu porteiro do prédio, o Beto; o Beto é uma pessoa, assim, quando eu chego, embico o carro para entrar, ele olha para mim e fala assim: “Ô, dona Cristina, hoje foi duro hein?” Como ele tem a capacidade de olhar para mim e pela singeleza desse olhar, descobrir como foi meu dia? Olha só! Uma pessoa que não estudou, mal sabe escrever o nome, mas a forma como ele lida com a vida me encanta, porque com aquela forma dele me receber, e ele sempre me recebe brincando. Ele é são paulino roxo, adora gozar de corintiano. Meus filhos são são paulinos e meu marido também. Eu sou palmeirense, minha filha é palmeirense. Minha sogra é corintiana. Nós temos uma também (de times?). Adoro futebol, vocês sabem, e quando ele chega e faz isso, no mínimo, eu me reposiciono. Até eu colocar o meu carro na vaga, eu digo: “Cristina, faz o favor de respirar fundo, subir o elevador diferente porque ninguém que está em casa te esperando tem a ver… Te receber da forma como você está chegando em casa.” Você tem que se reformular ali para chegar em casa. Não é porque você não teve um dia bom, um dia dos melhores, que ele não vai ser melhor no dia seguinte e as pessoas que estão em casa estão esperando você por aquilo que você significa. Eu adoro jantar com os meus filhos, adoro estar com eles. Eles vão para a faculdade. Eu digo: “Eu sou noturna e meu marido é diurno.” Aprendemos isso recentemente, porque, às vezes, ele me acordava de manhã, eu morrendo de sono. Como me irritava ele me acordar de manhã. Ele aprendeu a me deixar bilhetinho. Levou 27 anos para nós chegarmos nesse ponto. Hoje ele entende. Ele gosta de acordar cedo, ele acorda como um tagarela: falando, falando, falando, falando. Eu acordo e não quero falar com ninguém. Quero ficar quietinha, quanto eu menos falar… Até que chega umas nove e meia, aí eu acordo de fato. Mas essa diversidade, se nós soubermos respeitar e entender como é que você funciona, não que você não possa mudar. Tem uma amiga minha que diz assim: “Imagina se você sai de casa e encontra todos os dias as mesmas pessoas sempre? Entra na condução e encontra todas as pessoas e tal, vai e faz todo dia as mesmas coisas.” O que é isso? É uma monotonia, não é? Pode ser bom por um lado que você faz relações, mas a monotonia é algo que não te diverte. A diversidade vem do eixo, eu aprendi também com o Reinaldo Bulgarelli, o eixo de diversão. O que diverte as pessoas? Você poder fazer o seu dia diferente do que ele foi. É você poder experimentar coisas diferentes. Eu ainda vou pular de paraquedas. Não pulei de paraquedas quando tinha 15 anos. Namorei um tenente da polícia militar. Meu pai tinha falecido, minha mãe falou: “Ai, não vai, filha!” Eu já tinha até feito o curso, mas naquela época não era para pular de dois, era para pular sozinho. Eu falei: “Tá bom, mãe!” Eu gosto de esporte radical, eu gosto de viver essas coisas. Um dia eu vou. Como o meu marido um dia vai querer, ele já disse que o sonho dele é passar a mão na cabeça de um urso. Meu filho, agora, do meio, pulou de paraquedas. Meu Deus do céu! Eu quase morri, e ele queria ir de novo! São coisas, são coisas que nós experimentamos. Essa diversidade dos experimentos que a vida te oferece, eu acho que eles ficam muito mais gostosos quando você olha a vida com mais singeleza, com a essência do seu coração, porque isso vai te trazer felicidade para onde você for. Eu acho que é por aí o caminho da vida.



P/1 – Cristina, para nós irmos encerrando, o que você acha dessa iniciativa do banco de mostrar a sua identidade, de mostrar a sua história através da trajetória dos seus colaboradores, desses que estão aqui cotidianamente?



R – Olha, eu, primeiro me surpreendi. Eu não imaginava que isso fosse possível. Primeiro, eu me sinto lisonjeada de ter sido convidada a contar a minha história. Eu estava comentando com você de que, no começo desse ano, algumas pessoas me pediram para me conhecer um pouco melhor e eu montei alguns cafés da manhã com a minha equipe, umas quarenta pessoas, cada café com dez pessoas e eu contei um pouquinho da minha história. Lógico que não foi com um tempo tão grande. Nós fizemos umas reuniões de uma hora e eu me inspirei a fazer isso, porque eu fui convidada a fazer uma apresentação em uma palestra no dia internacional da mulher em uma empresa, na Pfizer. Quando eu cheguei lá para falar do case de diversidade como mulher executiva, o que eles queriam, além de falar da trajetória de diversidade do banco, era que eu falasse de mim. Eu falei: “Nossa!” Eu sou tímida, acho que, às vezes, nós somos mais restritos para falar das nossas coisas. Nós vamos falar das nossas coisas, dos nossos valores, para as pessoas que nós confiamos que nós nos deixamos invadir uma relação mais pessoal. Nós vamos crescendo e vamos nos tornando muitas vezes mais seletivos, e quando nós vamos nos tornando cada vez mais seletivos, nós vamos perdendo oportunidade de nos mostrarmos como nós realmente somos. Isso foi um aprendizado que eu demorei acho que 51 anos para descobrir. Mas acabei descobrindo por conta de chegar lá e falarem: “Olha, você vai ter que falar um pouquinho de você.” Eu falei: “Nossa! O que eu vou falar de mim?” Aí na véspera, eu capturei quatro fotografias de mim, lógico, com minha mãe, que é uma referência, uma pessoa que eu admiro. Meu sonho de vida é um dia chegar à idade dela da forma que ela é, do jeitinho como ela é, que ela vê a vida, como ela tem esse carinho, essa dádiva muito grande para se relacionar com as pessoas. Então, eu selecionei a fotografia dela, a fotografia de mim no caiaque, lógico, que é o que eu gosto de fazer, dos meus filhos, do meu marido e da minha equipe, que eu tinha que falar da minha equipe de trabalho. Ah, eu coloquei uma foto no meio que era do meu cachorro, eu tinha perdido o meu cachorro, um cocker spaniel. Adoro bicho, animal. Lido com isso lá no sítio. Queria que meus filhos tivessem contato com a terra. Isso eu tive oportunidade, com a infância que eu tive, de ver o cultivo da farinha de mandioca, de como se produz algo no interior. Eu queria que eles não fossem “filhos de shopping”, que eles tivessem a condição de ter um animalzinho, ver uma plantinha crescer e de ter contato com a água, porque isso faz parte. Quando eu olho essa visão toda, eu vejo: “Puxa! Olha só! Eu tive a oportunidade de fazer isso em pequena escala e agora o banco me convida para falar um pouco da minha vida, dos meus valores, daquilo que me realiza e do que é caro para mim.” Eu realmente não esperava e acho que essa iniciativa é muito especial, porque ela de fato pode inspirar outras pessoas a se identificar com essas histórias e seguramente vai contribuir de forma muito positiva até para que as pessoas vejam o banco de uma forma diferente. Ter isso em um acervo, isso ficar disponível para uma consulta, para um lazer ou para identificação mais próxima com o que mostra da referência e o cruzamento sobre a linha de vida deste banco. Um banco com mais de 150 anos de Brasil e de existência, o Portela, recentemente em um evento que a marca do banco no Brasil ela congrega, com as aquisições e fusões ao longo do tempo, quase que cem ex-bancos. Então quanta cultura, quanta trajetória de sucesso que nós temos na riqueza dessa história e se ela se misturar com a nossa história também, meu Deus! É tudo de bom! O que eu vou dizer? Eu fiquei realmente encantada e confesso que quando eu cheguei aqui, eu não tinha ideia. Eu imaginei que era alguma coisa vinculada à imagem, marca, mas aqui, eu me dei conta e me apropriei da grandeza dessa iniciativa. Não sei de quem foi a ideia. Gostaria muito de saber da onde nasceu essa ideia. De onde nasceu essa ideia? Porque essa pessoa merece um beijo na testa. Quando eu acho uma coisa muito boa, eu brinco com as pessoas. Eu acho que a melhor forma de você identificar respeito e admiração pela atitude que te encantou é você retribuir com um beijo na testa. Bom, eu não sei quem é, mas um beijo na testa para quem teve essa ideia de fazer isso conosco e de eu fazer parte dessa trajetória. Acho que isso vai ser muito positivo para a nossa organização e para aqueles que vierem depois e que possam degustar do que vai ser produzido aqui. 



P/1 – Para encerrar eu queria saber o que você achou efetivamente de ter participado dessa entrevista?



R – Acho que já falei um pouco do quanto é prazeroso estar aqui e quanto eu me senti privilegiada em estar nesse seleto grupo de pessoas que foram convidadas a compartilhar a sua trajetória. Humildemente, só quero dizer que eu agradeço. Agradeço o fato de estar aqui, me senti muito bem, muito bem acolhida por vocês. Sou um pouco tímida, mas acho que isso não vai ser muito revelado nessa pequena demonstração, até porque tem alguém me olhando também de uma forma positiva do outro lado da câmera. Não estou me sentindo constrangida de estar aqui e eu acho que esse ambiente também me fez me sentir à vontade para contribuir com o que eu puder, para que me conheçam melhor e que de fato acreditem que é muito prazeroso para mim como uma senhora de meio século de existência, eu sou do século passado, 52 anos de idade. Seguramente eu tenho que admitir isso e querendo chegar a dobrar essa idade, no mínimo lá na frente, olhando para trás, eu vou dizer: “Olha, teve um momento na minha vida, quando eu tinha 52 anos, que eu contei a minha história e ela ficou registrada em algum lugar. Quem quiser que conte outra!” “Pode ir atrás que lá no Santander tem coisa boa falando de muita gente e eu estava no meio desse grupo.” Foi muito bom estar aqui, realmente. Pela forma que vocês me acolheram e me deixaram à vontade me permitiu também mostrar um pouquinho de mim com um pouco do meu coração. 



P/1 – Certo, Maria Cristina. Nós que agradecemos em nome da vice-presidência de marca, marketing, comunicação e interatividade e também em nome do Museu da Pessoa.



R – Só quero um abraço e se puder dar um abraço na testa de vocês, eu acho que vai ser bom (risos).



P/1 – Obrigada.                

                                                    

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

 

Dúvidas



Hilda Costa

Aldo Vínzio

Claudete

Carmen Nigo

Ana Maria Peck

Ramón

Divita

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