Busca avançada



Criar

História

Burro eu não sou de jeito nenhum

História de: Antonio Ferreira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Antonio Ferreira da Silva nasceu no Estado do Maranhão e migrou para o Distrito Federal já com quarenta anos. Foi com dois filhos mais velhos em busca de um trabalho que gostasse, pois a roca não lhe interessava. Uma vez instalado, trabalhou em muitos lugares, mas sua vida mudou quando foi encarregado do serviço de limpeza no INSS no Plano Piloto de Brasília. Antonio foi sindicalista e hoje faz parte do grupo de líderes no bairro Fercal. Nessa história, ele conta de onde vem a sua sabedoria.

Tags

História completa

Meu nome é Antonio Ferreira da Silva, nasci no dia 10 de outubro de 1948, em Caxias, Maranhão. Eu não tive aquela alegria que todo mundo tem hoje: os filhos vão pro colégio, estudam, faz um curso... Quando eu vim pra Fercal, eu vim foi em 88, no dia 1º de agosto eu cheguei aqui. Eu não sabia nada, saí do Nordeste. Eu me criei na roça, mas não gosto da roça. Aí eu falei: “Vou colher essa roça, vou vender esse arroz e vou embora. Vou pra Brasília”. Peguei dois meninos, os mais velhos, e trouxe. Minha mulher ficou com os dois mais novos lá.

 

Eu tinha uma tia que morava aqui na Ciplan, aqui no Queima Lençol. A minha tia falou, um domingo: “Meu filho, você dorme aqui. Amanhã, segunda-feira, você vai numa entrevista na Ciplan, quem sabe ela não vai pegar você pra trabalhar?”. Amanheceu o dia, eu fui. Cheguei e tinha muita gente na fila: “Meu Deus, não vai dar certo aqui, não”... Eu entrei; comecei a trabalhar.

 

Quando eu peguei o dinheiro, mandei no endereço onde minha mulher estava. Chegando lá, ela não me avisou que vinha embora: pegou o dinheiro, comprou a passagem e veio. Já era na segunda-feira, eu voltei já pra trabalhar, chegou uma pessoa e falou pra mim: “Rapaz, tua mulher tá aí!”. “Não. Minha mulher? Como é que ela veio pra cá?” Ela pegou um táxi, desceu na Ciplan, e cadê o dinheiro? Que ela não tinha o dinheiro para pagar o táxi. O taxista foi perguntando pelo meu nome: “Não. Não tem essa pessoa aqui, não”. Eu tinha um apelido aqui, Tião Segundo, porque tinha o Tião Primeiro, que parecia comigo. Então, estavam procurando o meu nome e ninguém achava. Aí um guarda da Ciplan falou: “Olha, eu vou pagar o táxi, ele vai embora, e eu vou levar você mais seus filhos lá pra casa, amanhã eu compro uma passagem e mando vocês de volta”. Na hora daquela conversa, chega uma pessoa, olha pra esse menino meu e fala: “Rapaz, eu acho que eu conheço o pai desse menino, que tem uma pessoa que trabalha aqui que parece esse menino. Não, é o Tião. O Tião Segundo”.


Aí começou aquele sofrimento. Nem cama, nem uma panela eu não tinha. Ela chorava, pedia pra nós irmos embora, falei: “Não, nós já estamos aqui, como é que vai?”. Depois eu comecei a melhorar as coisas, fui trabalhando noite e dia quase, então levei dez anos pra conseguir essa casa da prainha.


Eu trabalhei na Fibral, de lá fui pra outra empresa em Brasília, onde eu trabalhei oito anos, na limpeza na Servicon. Com três anos, eu já tirei como encarregado, aí foi a confusão. Tinha gente que falava assim: “Rapaz, eu não vou obedecer esse companheiro, não. Nós formados e vão dar um cargo desse pra uma pessoa que não sabe ler, não sabe nada?”... Tinha uns 88 funcionários. Um dia entraram duas pessoas de paletó, passando nos andares tudinho. Começou lá de cima e desceu, chegou lá embaixo, onde eu estava: “Boa tarde”. “Boa tarde.” Ele olhou pra um lado, olhou pra outro: “Quem que trabalha aqui?”. “Sou eu. Trabalho eu mais esse rapaz aqui.” “Como nos outros andares não está igual a esse aqui?” Eu falei: “Doutor, é o seguinte, eu não sei por quê. Eu vivo daqui pra minha casa, da minha casa pra cá. Eu não vou no andar de ninguém, eu não quero saber se se eles estão limpando, o meu trabalho é esse daqui. Desço daqui pro vestuário, troco de roupa e vou pra minha casa”. Aí ele foi embora. Com uns 15 dias passaram quatro, tudo engravatado. Quando a gente via essas pessoas, a gente falava assim: “Hoje vão mandar alguém embora daqui”. Eu também falei: “Eu não sou, porque eu não fiz nada”. Daí a pouco desceu uma menina: “Seu Antonio, estão te chamando lá em cima”. Minhas pernas tremeram, meu coração tum, tum, tum: “Pronto. Vão me mandar embora. Mas eu tô trabalhando, não mato dia nem nada...”. Quando cheguei, estava uma mesa grande, todo mundo sentado e uma cadeira vazia. Cheguei, falei: “Bom dia”. “Bom dia. Pode sentar aqui.” Eu sentei, mas eu me tremia todo. O chefão da cabeceira, que era o presidente do INSS, ele falou assim: “Seu Antonio, a partir de hoje o senhor é o encarregado do órgão”. Aí foi que eu me assustei! “Eu?” “Sim. Você. Você não quer?” “Querer eu quero, mas tem uma coisa errada. Eu tenho que fazer pedido, tenho que receber um documento e vocês sabem que eu não sei ler.” Aí ele falou: “Não estamos precisando de gente formada. Eu estou precisando de gente inteligente, gente que trabalha. Você tira uma menina daquelas pra trabalhar com você, coloca na sua sala pra fazer isso pra você. Você vai ver o povo, vai trabalhar com o pessoal nos andares, e ela vai fazer o seu trabalho. Você tem carta branca também – se alguém não quiser trabalhar com você, você pode devolver e eu trago outras pessoas pra trabalhar com você aqui. À tarde, três horas, eu quero uma reunião com todo mundo”. Ele chamou todo mundo e falou: “A partir de hoje quem manda aqui é seu Antonio. É ele que é o encarregado de vocês. Agora, se tiver alguém que tem uma dúvida, que não quer trabalhar com ele, é só me falar agora. Eu trago outras pessoas pra trabalhar com ele”.


Aí eu comecei a trabalhar com esse povo e só via cochicho pra um lado, cochicho pra outro, mas eu fui levando de letra, porque aquela inteligência que a gente tem, aquela sabedoria que a gente aprendeu na roça, a gente usa ela até hoje, né? Eu comecei a trabalhar com esses meninos, e eles foram gostando. Foram três anos do órgão mais limpo que teve do INSS. Eu chegava na pessoa, eu não ia falar aborrecido: se estavam por acaso três pessoas que trabalhavam aqui, eu chamava a pessoa na minha sala, fechava a porta e falava: “Tá acontecendo isso, vamos melhorar por isso, por aquilo” E eu inventei outra coisa. Você chegava dez minutos, quinze minutos atrasado: “Seu Antonio, eu posso trabalhar?”. “Pode.” Eu falava com a menina: “Anota aí a que horas ele chegou”, e ela escrevia. “Pode trabalhar, você trabalha normal, bate o cartão normal, tudo do mesmo jeito.” No sábado tinha que tirar uma pessoa pra fazer hora extra. Então eu fazia isso, quando você completava um dia de serviço que você tava chegando atrasado, trabalhava num sábado, de graça... Você não perdia os dias do mês – tirava o seu mês completo e ficava muito alegre. A empresa me deu o maior dez por isso.

 

Eu fui diretor do Sindicato de Limpeza de Brasília por quatro anos. Eu aprendi aquilo que os meus pais falavam: “Vamos respeitar as pessoas”. Se eu respeitar você, com certeza você me respeita. Eu posso é não ter a leitura que você tem, mas burro eu não sou, de jeito nenhum. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+