Busca avançada



Criar

História

BURLE MARX E O DESERTO DO SAARA

História de: Salomão Rovedo
Autor: Salomão Rovedo
Publicado em: 22/12/2003

História completa

BURLE MARX E O DESERTO DO SAARA Salomão Rovedo Quem viu o registro fotográfico da formação do Aterro do Flamengo, quando toneladas e toneladas de pedra e areia originadas do desmonte do morro de Santo Antônio foram ali despejadas, empurrando as águas do mar para mais longe, pode ter uma pequena idéia do que é um deserto. De repente as águas da enseada do Galeão, da praia do Flamengo e da enseada de Botafogo, que formavam as avenidas Beira Mar no Castelo, a Praça Paris, a antiga praia do Russel e chegavam às cercanias do Hotel e da Igreja da Glória, até o Morro da Viúva (embora ganhasse outro nome em cada bairro), ficaram mais distantes. Hoje quem passa ali e vê aquele enorme espaço, a terra que um dia foi entulho, poeira e pedra, transformada num pedaço de mata atlântica em plena meninice, sente junto com a alegria que o verde traz, a sensação de que alguma mágica se fez, algum milagre se deu. Sente também que mágica e milagre são dons santificados que a natureza traz consigo, mas aprende igualmente que a transformação, a criação, a materialização das forças naturais provêm do dedo humano. Sim, porque era uma área de 1,2 k de terra árida, barro, granito e pedras, que, por força do talento humano se transformaram num espaço verde, que ainda não encontrou o seu apogeu, mas está em plena expansão, com uma felicidade a mais: encontra-se à beira-mar e tem como pano de fundo nada menos que o Pão de Açúcar – ao vivo e em cores. Mas se hoje o verde prevalece, traz paz e alegria a seus freqüentadores e àqueles que passam ali diariamente, se é verdade que a natureza fez a sua parte de mágica e beleza, cabe a um poeta que tem o dom de Midas às avessas transformá-lo em realidade. Midas transmudava em ouro tudo o que tocava, o nosso jardineiro transforma em verde tudo aquilo em que põe as mãos... O Parque do Flamengo é o mais bonito jardim do poeta e artista Roberto Burle Marx. Somente a antevisão que atinge os poetas e profetas, poderia imaginar, vendo aquele vão de areia e pó que vai desde a antiga ponta do Galeão até a enseada de Botafogo, transformado num parque verde – e, ainda mais, transformá-lo num éden para os dias de hoje. Em outras palavras: colocar sempre o ser humano e a natureza integrados na mesma paisagem, convivendo no mesmo espaço, habitando o parque como adão coabitou o jardim... Além de ser um ambiente tranqüilo para caminhadas ao amanhecer e no fim do dia, o parque oferece outros atrativos. Tem quadras esportivas para tênis, basquete, vôlei e futebol de salão, ciclovia, pista para caminhada e corrida, campo de aeromodelismo, rampa de eskate, uma mini-cidade para crianças e nove campos de futebol. A praia do Flamengo tem quase um quilometro de areia para os banhistas e ao lado a Marina da Glória cede espaço para os visitantes marítimos. Para que o parque não deixe de crescer nem perca a fonte de plantas, Burle Marx implantou um mini-horto em seu interior. Assim, o parque do Flamengo quanto mais velho fica, mais bonito se torna. Nos domingos e feriados, o parque é fechado para o trânsito de veículos, o que aumenta ainda mais a área de circulação e lazer. Por isso e por muito mais, quando atravesso o Parque do Flamengo, penso imediatamente em Burle Marx. Imagino a figura de cabelos brancos, personalidade alegre, imaginativa, faladora, sempre a ilustrar o que diz com sonhos e sempre a transformar os sonhos em realidade, uma realidade em que estão sempre juntos o homem e a natureza. Um poeta enfim... Diz a biografia de Burle Marx que ele nasceu em São Paulo. Mas a natureza que, ele tanto amou (e vice versa), tratou logo de consertar esse defeito. Aos quatro anos se mudou com a família para o Rio de Janeiro e está entre nós até hoje. Se dermos um corte espacial no trabalho de Burle Marx, podemos comprovar o quanto ele amou esta cidade. E o quanto a cidade do Rio de Janeiro, ela mesma, deu ao amigo toda a liberdade de mexer nos seus recônditos, permitindo-lhe dar vida aos incontáveis sonhos, que hoje fazem parte da história da cidade. Apesar de que nem sempre os trabalhos sejam associados ao nome, pertencem aos sonhos de Burle Marx inúmeros jardins, terraços e espaços que freqüentamos no dia a dia, como os jardins do antigo Ministério da Educação e do Aeroporto Santos Dumont, os terraços da ABI e do Largo da Carioca, os jardins suspensos do Outeiro da Glória, a orla do Leme e o famoso calçadão de Copacabana. São locais que não teriam porque existir se não fosse à presença humana. Com a aquisição em 1949 de um sítio em Barra de Guaratiba (sempre perto do mar...), Burle Marx pôde concretizar a idéia de ter no Rio de Janeiro uma grande coleção de plantas que servissem de base para seus projetos e estudos. É um acervo botânico de valor incalculável. E como não poderia deixar de ser, em 1985 doou o sítio com todo o acervo ao IPHAN, para que não se perdesse o enorme trabalho que idealizou com paixão. Poderia aqui repetir friamente os dados biográficos e dizer que Roberto Burle Marx foi um dos maiores paisagistas do nosso século, conhecido e premiado internacionalmente. E foi. Artista de múltiplas artes foi também. Desenhou, pintou, foi tapeceiro, ceramista, escultor e criador de jóias. Dizem, mas não provam, que também cantava razoavelmente. Mas quem o viu e leu nas entrevistas, nos documentários que fez em seu sítio, caminhando entre as plantas e denominando as características e origens de cada uma como se fossem irmãs, quem o viu declamar versos de poesia amorosa, quem o conheceu pessoalmente – este com muito mais autoridade ainda – poderia jurar de mãos juntas que Burle Marx foi apenas um jardineiro. Um jardineiro capaz de transformar o deserto do Saara numa mata atlântica ou num sítio de Guaratiba... [Roberto Burle Marx faleceu em 4/6/1994 no Rio de Janeiro com 84 anos]
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+