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História

Bullying, timidez e afirmação da Negritude

História de: Regina Luiza G. dos Santos Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/02/2021

Sinopse

Regina Luiza nasceu em 1952 em São Paulo e viveu a primeira infância em Santo André. Viveu dos 8 aos 13 anos na casa da avó, em São Paulo; A própria  família, negra, tinha preconceito com negros; Espírito empreendedor; Montou a própria fábrica com o marido e a mantiveram por 23 anos; Fizeram outra empresa; Foram enganados pelo sócio e roubados; Formou-se em Bacharel em Direito; Realizou o sonho de levar o filho e os netos para a Disney. Participou do programa do Sebrae 1000Mulheres; Já aposentada, começou a fazer artesanato e a empreender novamente. 

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História completa

Olha, um fato muito triste que ficou muito marcado para mim e eu nunca esqueci… Porque nem tudo você lembra da infância. Você lembra de fatos que foram muito bons, uma coisa que te marcou muito boa, ou uma coisa que te marcou muito triste. Só que um fato que me marcou muito mesmo, triste, é que nós tínhamos uma família que era muito amiga da minha avó. Ela se chamava dona Florentina e era muito amiga da minha avó. O filho dela era advogado e tinha nove filhos. Eu brincava muito com as meninas dele, com as filhas dele. Nós estudávamos na mesma escola, porque antigamente era mais escola pública, né? Uma vez nós nos reunimos na casa de uma coleguinha que também era ali do lado para estudar. Nós estávamos estudando, todos ali na sala, e aí a… Eu estava falando sobre determinada matéria da qual eu não me lembro, e a filha desse senhor, desse advogado, que era neta da dona Florentina, mandou eu calar a boca, "ah, cala a boca que você não sabe de nada", e eu falei, "não, eu sei, estou certa, é isso assim", ela falou, "não, você não sabe de nada, eu é que tenho que explicar". Só que a explicação que ela estava dando, não estava certa e eu estava contradizendo, então ela saiu e foi embora. Ela foi embora e nós continuamos ali estudando. Passou um tempinho, ela entrou com a avó dela, que era essa dona Florentina, ela virou para mim e falou assim, "como que você se atreve a discutir com a minha neta e falar que ela está errada?", e eu fiquei meio assustada, porque eu era nova, era criança, éramos todos crianças. Acho que a gente deveria ter por volta de uns 11 anos, por aí. "Como você se atreve?", e eu, "não, mas eu…", ela disse, "não, você tem que ficar quieta, você vai me ouvir. Você sabe que ela é filha de um advogado, e você é o que? Você é filha do que?" Nossa, aquilo me destruiu, me destruiu. Eu fiquei assim, sem chão, eu não sabia mais o que eu falava. E naquela época, tudo que acontecia assim, os pais e os avós - no meu caso, a minha avó - não davam tanta importância. Eu não sei, era uma coisa que… Aquilo me doeu fundo, eu me senti no chão. Hoje eu sei os termos, hoje eu digo que naquele momento eu me senti humilhada, mas naquela época eu não achava um termo para o que eu estava sentindo, entendeu? Eu fui embora para casa e eu guardo até hoje o sorriso da menina, ela se chamava Sílvia. Ela deu aquele sorriso tipo assim, "você é um nada". Eu fui embora para casa e não chorei, mas fiquei arrasada. E a minha avó que me amava muito, falou "o que aconteceu para você estar assim tristinha?", eu contei para ela a história e ela disse, "não liga, não liga, deixa para lá, não se importa com isso", mas isso me marcou muito, eu nunca esqueci. Foi uma coisa que me deixou… Hoje eu lembro e ainda hoje eu sinto aquela sensação que eu tive naquele momento. Isso foi uma coisa que me marcou muito. Eu fazia muita palhaçada, ria muito, então as pessoas se aproximavam muito de mim, devido a eu estar sempre rindo muito, fazendo palhaçada, mas na verdade, eu era muito tímida e uma forma de eu poder ficar no meio das pessoas ativamente, era fazendo palhaçada. As pessoas achavam, "nossa, mas você é tão alegre, é tão divertida, tão espontânea", mas não era, eu era uma pessoa tímida. Só que exatamente por aquela timidez me incomodar muito, que eu fazia muita palhaçada, eu ria muito… Mas era a forma de eu… talvez de ser aceita no grupo. A minha vivência toda foi sempre em um reduto de pessoas brancas. Meus amigos eram quase todos brancos, nós éramos a única família negra ali no nosso pedaço… Então o meu relacionamento era mais com pessoas brancas, e os brancos não namoravam os negros, entendeu? Nessa minha época de adolescência era assim. Então já começava uma série de detalhes. As meninas brancas tinham os cabelos lisos, esvoaçantes, e a gente já era de uma outra forma. Naquela época, a gente ainda alisava os cabelos com pente quente, entendeu? Era todo um processo que não era fácil. Era muito difícil você ter um namorado da forma como eu vivi naquele reduto de pessoas brancas, porque assim, o Parque Peruche era um bairro que tinha muitos negros. Ainda tem, mas eram muitos negros. A minha mãe não deixava nós estarmos em contato com o pessoal. Ela não deixava a gente, por exemplo, ir assistir ensaio de escola de samba, ela não queria que tivéssemos contato com essas pessoas, porque naquela época, eles falavam que não era bom, que a gente iria ficar mal falado… Era uma série de coisas de… Vamos dizer assim, a minha família tinha uma forma diferente de ver as pessoas negras. Elas eram negras, entendeu? Elas eram negras. A minha bisavó casou com um branco, que era português. A minha avó saiu bem clara e casou com um negro, e minha mãe já saiu mais assim, parda. Então eles tinham uma ideia de que não era bom ser negro. Então se não erabom ser negro, seria melhor você não estar nesse reduto de negros, porque os negros eram muito mal falados, diziam queeram vagabundos, que eram sujos, que eram bêbados, que só gostavam de samba, entendeu? Hoje minha visão não tem nada a ver com aquela época, mas naquela época, eu fui criada dessa forma. Eles não queriam, então eu só vivia em um ambiente de brancos. Meus amigos eram brancos, eram todos brancos. Nesse período, eu não tive nenhum namorado. A gente vivia nesse meio e minha mãe falava muito que a gente tinha que clarear a raça, porque seria melhor, sabe? Só que eu não concordava com esse ponto de vista. É lógico que eu não batia de frente com a minha mãe, mas eu não concordava com esse ponto de vista. Na verdade, mesmo tendo muitos amigos, você acabava se sentindo solitária, porque você via que suas amigas namoravam, flertavam, e você não, você não tinha um namoradinho, nem nada. Vamos supor, a minha mãe nunca aceitava… Eu tive um namorado e eu gostei muito dele, nossa, eu era muito apaixonada por ele. Foi exatamente nessa fase de 17 anos, porque essa fase da adolescência com 15, 16, 14 anos, eu nunca tive namorado, nunca. Eram mesmo só os amigos e tudo mais. Com 17 anos, eu conheci esse rapaz e o nome dele era Artur. Ele era muito bonito e eu gostava muito dele. Minha mãe implicou, achava que não, que eu não tinha que namorar com ele, porque não era bom, a gente tinha que pensar em clarear a família, que os negros já sofriam tanto… E no fim, eu acabei terminando o namoro com ele, mesmo gostando dele, eu terminei o namoro. Porque assim, minha família era dividida. Minha família paterna, era uma família que assumia mais a negritude, porque eram só negros mesmo, a origem era sem mistura, e a da minha mãe tinha mistura. Uma prima minha falou, "nossa Regina, é um absurdo você gostar de uma pessoa e você terminar o namoro porque sua mãe fala isso e aquilo. Acho que você nunca vai ser feliz, porque se você não fica com a pessoa que você realmente gosta, você nunca vai ser feliz. Acho que você deveria pensar um pouco nisso". Era uma coisa que eu também não concordava, mas eu acabava pensando realmente, "poxa vida, é tanta dificuldade que o negro enfrenta mesmo, será que eu vou querer ter filhos e que meus filhos também passem por isso?", porque nessa caminhada, a gente passa por muita coisa. Era gozação, era piadinha, era uma série de coisas, mas tudo bem, a vida foi seguindo. Na verdade, eu vou te falar uma coisa, eu só fui ter uma mudança mesmo de pensamento e assumir, "não, não é assim, a coisa é diferente. Eu sou negra, tenho que valorizar a minha raça, tenho que conhecer a minha história, e é assim que vai ser", eu só fui ter esse comportamento mesmo, quando eu já estava com 32 anos, que foi quando eu já tinha dois filhos, e falei, "meus filhos vão ser diferentes". Eu casei com um branco, acabei casando com um branco, e falei, "meus filhos vão ser diferentes. Eles são negros, eles são filhos de uma mãe negra e um pai branco, mas eles serão negros". Eu tinha uma prima que era de Araçatuba - não essa prima que havia conversado comigo na época, essa era uma outra prima minha -, e ela tinha ido morar na Bélgica, porque tinha ido estudar lá. Quando ela voltou para o Brasil, veio direto e ficou morando na minha casa o tempo em que ficou fazendo o mestrado. E aí, com todas essas conversas que eu acabei tendo com ela… Ela que foi mudando a minha cabeça. Não é que tenha ido mudando, ela foi me dando um outro olhar das coisas, porque até então, eu achava que todo negro não estudava porque não queria, sabe? Ela falava para mim, "a sua origem é de uma bisavó que foi da Lei do Ventre Livre, você sabe dessa história, mas você praticamente fechou os olhos para tudo isso e seguiu a vida sem querer se autoconhecer, conhecer mais de você mesma e da sua história". Com 32 anos é que eu fui ter um outro olhar, entendeu? Foi a partir dos 32 anos que eu mudei o meu olhar e comecei a assumir a minha negritude, comecei a querer saber mais da minha história.

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