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Bruna Babalu, a sambista da Zona Norte

História de: Bruna Babalu (Bruna Moreira Dias)
Autor: Eduardo Lourenço
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

 Bruna Moreira Dias nasceu em Caratinga, Minas Gerais. Teve uma infância humilde marcada pelo trabalho na roça e os quilômetros feitos a pé para conseguir estudar. Quando terminou seus estudos veio tentar a sorte em São Paulo e nela já está há 25 anos. Na capital fez sua vida, formou-se em pedagogia, está cursando História, trabalhou em diversos lugares e conheceu a zona norte, região a qual nunca mais saiu. Bruna é carnavalesca e trabalha ativamente na escola de samba, além disso faz trabalhos comunitários e defende como poucos a região em que mora. 

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História completa

Da época de criança, o que mais recordo é o convívio que tive com minhas duas primas, Tininha e Lucimar, e, claro, nossas brincadeiras. Nós não tínhamos televisão. Eu fui ver uma televisão pela primeira vez em 85, minha tia conseguiu uma. Antes, nós não tínhamos luz elétrica, era lamparina à querosene. Aí essa minha tia colocou luz de gerador e também comprou uma televisão pequenininha. O problema é que ela tinha muito chuvisco, então a gente não gostava tanto de ficar assistindo. Lembro que no domingo, ela deixava a gente assistir ao programa do Silvio Santos, tanto é que até hoje sou apaixonada por ele, e há três anos realizei meu sonho, que foi ir ao seu programa. 

Eu e minhas primas sempre gostamos de estudar, mas a escola era muito longe. Eu lembro que a gente saia de casa às cinco e meia da manhã para chegar umas sete horas, andávamos muito, não sei precisar os quilômetros, era como ir daqui da zona norte até o centro da cidade, e eram morros e morros. Era bem longe e só tinha aquele grupo escolar, o Grupo Escolar João Moreira.

Mas nós íamos, e a gente tinha muitos sonhos. Falávamos assim: "Ah, se a gente estudar a gente vai aprender as coisas"; porque minha mamãe não sabia escrever, nem meu papai, nem os irmãos, só a minha tia, que fez o magistério, na época era magistério, tanto que ela nunca se formou, mas mesmo assim foi para um colégio, um internato, que ela conseguiu. Também tinha uma outra tia, por parte do papai - Quando falo papai é meu avô - que morava em Belo Horizonte, a tia Maria, e ela foi para lá, conseguiu o internato, onde estudou nessa época, a única entre nós que foi estudar. O papai achava que a gente tinha que estudar, mas ele também queria que a gente fosse ajudar na roça. E eu tinha pavor de ir para a roça, tinha pânico, tinha pavor de cobra, e quando ia apanhar café então, nossa, eu tinha pavor, mas de vez em quando a gente ia. 

Lembro que nós colocávamos um pano no chão, embaixo do pé de café, e você apanhava o café sem soltar as folhas, porque se você soltasse as folhas, já viu! Nossa função era só tirar os grãos, e depois juntávamos todos eles naquele pano, colocávamos nos balaios e vinha um rapaz para recolher o trabalho com o cavalo.

Nós apanhávamos café porque dava um dinheiro para gente na época, nós não tínhamos muita facilidade para ganhar dinheiro. Um pouco mais velha, eu fui fazer o quinto ano, que era na cidade. Na verdade, havia apenas uma escola na minha cidade, chamava Polivalente, e você fazia uma provinha para entrar, era necessário tirar 60 pontos sobre 100. Acho que eu consegui 65 e entrei, e consegui uma bolsa. O problema é que você tinha que pegar um circular, e tinha que pagar o circular, não existia passe, não dava para ir de graça, você tinha que pagar, então, nós apanhávamos café para vender. A gente recebia no sábado para pagar a passagem durante a semana. 

A primeira vez que fui a uma cidade grande foi a passeio, e eu achei tudo muito diferente. Eu fui para a casa da minha tia, ela morava no Zaki Narchi, quando ali ainda tinha a penitenciária. Eu achei tudo esquisito porque tinha muita gente, o ônibus, o trânsito, e olha que isso foi no começo da década de 90, imagina hoje como está? Mas a gente estranha muito quando chega, você leva um choque. Eu achei a rodoviária feia, era no Glicério, não era no Tietê, a primeira vez que eu vim acho que foi em 92. E não é feio como hoje, mas era estranho o local.

Eu cheguei na casa da minha tia e não podia sair, tudo era assim, porque na rua é perigoso, tem trânsito, tudo, mas eu tinha vontade de ver os prédios porque a gente não conhecia prédio. Também foi a primeira vez que andei de elevador, fiquei em pânico! E aí eu queria conhecer o orelhão, mas não tinha para quem ligar, só depois, que tinha uma outra prima que tinha telefone, nós ligamos para ela, foi a primeira pessoa com quem eu falei, tinha umas fichinhas, você comprava com umas moedinhas, eu adorei. 

Fato é que despertou um sonho de mudança, sair um pouco daquela pobreza, porque nós éramos bem pobres, então a gente queria melhorar um pouquinho de vida. Imagina você ter sua infância onde não tem chuveiro para tomar banho? Não ter luz elétrica? Eu não conhecia sabonete, a gente não conhecia pasta de dente, a gente escovava os dentes com carvão. Tomávamos banho com sabão de barro, um sabão que eles faziam por lá, eu não sei nem como, então, a gente queria mudar um pouquinho de vida. Quando você vê a televisão e percebe que as coisas estão um pouco melhores. Quando você começa a estudar, começa a conhecer a história, ver que tem alguma coisa a mais, você passa a querer mudar também. Nós éramos muito pobres naquela época. E falar no orelhão, eu amava orelhão.

Eu tinha 20 anos quando vim para São Paulo, eu queria estudar, mas não consegui no começo porque era tudo muito caro, e nós não tínhamos tanta oferta de ensino superior como hoje. Aqui na região tinha a UniSant’Anna e a São Francisco, e era muito caro, além de que você tinha que fazer o vestibular. Hoje é mais tranquilo prestar o vestibular, mas naquela época não, era mais rigoroso, se você não atingisse a nota, era bem seletivo, tanto que quando eu já tinha uns dois anos em que eu trabalhava, que eu tive um pouquinho de dinheiro, eu prestei para História e tinha uma segunda opção para Pedagogia. História eu não passei, mas passei na segunda chamada de Pedagogia, aí eu comecei a estudar na Carlos Pasquale, que fica ali no Brás, mas não deu para concluir o curso por causa do valor. 

Naquela época, eu ainda pagava aluguel, então eu tinha que pagar aluguel e a faculdade, e quando eu estava no segundo ano, já para o terceiro, eu tive que parar a formação porque não conseguia pagar os dois, e ainda pagar o ônibus para ir. Somente depois que eu consegui terminar minha faculdade, hoje sou pedagoga e estou fazendo a licenciatura em História.

Eu sempre morei na zona norte, e as diversões eram poucas, a gente não podia ir em muitos locais, e aí se deu meu envolvimento com as escolas de samba. Primeiro, eu conheci a Passo de Ouro, eu via as fantasias, fui desfilar, e então conheci o Lauro, que foi o presidente da X9. A X9 tinha acabado de subir para o grupo especial, o grupo de elite. A escola ficava aqui debaixo do metrô Parada Inglesa. Aí o presidente, que era o Lauro, hoje ele já é falecido, após o campeonato de 2001 ele teve uma parada cardíaca, muito jovem... Na época, ele estava reestruturando a escola e me convidou para trabalhar no departamento social, falou que queria um casal na função, e assim também convidou o Carlão -  ele nos apelidou de Raí e Babalu, o casal da novela Quatro por Quatro, apelido que grudou e está aí até hoje - E nós tomamos conta do departamento social durante uns oito anos, com grandes festas, grandes eventos. Os eventos sociais das escolas de samba são acontecimentos para reunir a comunidade, então a gente fazia feijoada com pagode, trazíamos personalidades, levantávamos fundos para a escola.

Após a morte dele, eu vim para o Tucuruvi e comecei a cuidar da parte de design de fantasia, vim como diretora de Carnaval da Acadêmicos do Tucuruvi, e nós fizemos dez Carnavais. Nós fomos vice-campeões do Carnaval em 2011 fazendo homenagem para o nordeste.

Depois eu fui para a Unidos de Vila Maria, onde fiquei três anos, mas fiquei responsável somente pelo departamento de fantasias. Nós fizemos o enredo sobre a Ilhabela, que foi muito bem, a escola foi a quinta colocada em 2016. Eu achei muito interessante o que a Vila Maria faz, ela integra toda comunidade da escola.  

O bairro da Vila Maria tem uma parte muito desassistida, pessoas que não tem acesso à educação, que tem uma dificuldade maior, então, o presidente da escola, o Adilson, ele faz assim, serve um bom café da manhã para a comunidade, tem um projeto junto ao Corinthians para descobrir talentos entre as crianças... Lá tem o campo, então aquelas crianças têm aulas de manhã e à tarde, eles têm café da manhã e almoço, os alunos da tarde têm café da tarde e uma janta antes de ir embora para casa. Tudo isso, esse trabalho social, ele faz com a comunidade, com o dinheiro que ele arrecada de doações, com dinheiro que as pessoas pagam no ingresso para entrar na escola. É um trabalho social muito bom, tem dentista, tem fisioterapeuta, tem cursos de cabeleireiro, de esteticista, costureira, eles fazem parcerias com as faculdades. O projeto social da Vila Maria é incrível, não que as demais não tenham, mas o envolvimento da Vila Maria com a comunidade é bem melhor, traz a comunidade para a escola, e a escola é muito grande, eles abrem todos os dias, de segunda a domingo, todos os dias.

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