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História

Brincaram com uma jararaca

História de: Júlio César dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2021

Sinopse

A entrevista narra a trajetória profissional de Júlio César desde o seu início na Petrobras como estagiário em Alagoas, seu retorno para Sergipe e algumas situações que extrapolam o trabalho na empresa, como a brincadeira feita por um colega ao jogar uma cobra dentro de um veículo.

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História completa

Memória da Petrobras Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Júlio César dos Santos Entrevistado por Ana Maria Bonjur Aracaju, 15 de dezembro de 2004 Entrevista número CB_SEAL 15 Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha Revisado por Marconi de Albuquerque Urquiza P/1 – Bom dia Julio. Eu queria começar com você falando o seu nome completo, local e data de nascimento. R – O meu nome é Julio César dos Santos. Nasci em Aracaju e... P/1 – O dia. R – 6 de julho de 1963. P/1 – E fala pra gente como que foi, como e quando foi a sua entrada na Petrobras. R – Quando eu fui admitido, até o momento eu fui estagiário e houve o concurso, eu fui aprovado, e fui admitido no dia 14 de abril de 1982 na função de ajudante de manutenção. P/1 – E antes você já tinha sido... R – Estagiário, mas eu tinha sido aluno do Senai, vim estagiar aqui. P/1 – Ah, você já estagiou. Você estagiou em que área? R – Estagiei na área de manutenção mecânica, foi quando eu fiz o curso de mecânica no Senai vim estagiar aqui na área de manutenção. P – E aí conta pra gente como que era assistente de... P/1 – Ajudante de manutenção. No caso, essa função, que era especialidade minha, que era a parte de mecânica, tinha um pessoal que era parte de eletricidade e o pessoal Ajudante de Manutenção na parte de mecânica. Então, na minha parte de mecânica, quando eu entrei aqui era praticamente para auxiliar o mecânico nas atividades dele e às vezes a ausência, assim, de pessoal, soldador, outros profissionais que iam se dirigindo ao campo. Quando há necessidade a gente ia e auxiliava eles também. Mas que o foco maior, claro, auxiliar o mecânico. P/1 – Auxiliar o mecânico mesmo. R – Isso. P/1 – E qual foi, conta a sua trajetória dentro da Petrobras, os cargos, os lugares que você passou? R – A princípio fui pra, assim que fui admitido fui pra, passei pra trabalhar na área de Alagoas. P/1 – De que? R – Alagoas, Estado de Alagoas, ali no, precisamente no campo de São Miguel dos Campos, na área de São Miguel dos Campos. Ali, naquela época, o regime de trabalho eram 15 por cinco. Trabalhava 15 e folgava cinco. Outros trabalhava 12 e folgava quatro. Aquela coisa muito sofrida, muito corrido, entendeu? A gente... P/1 – O seu era qual? R – Era 12 por quatro. P/1 – Isso em que ano? R – Isso em 1982. Então lá passei um ano e meio. Tinha muita atividade, tinha muita sonda, na época, perfurando por lá. Que no caso que eu entrei pra trabalhar na área de produção, por que eu tinha três divisões. Era produção, perfuração e exploração. E hoje é uma só. A minha parte era na parte de produção. E passei lá um ano e meio, quase dois anos. Depois retornei aqui pra Aracaju. P/1 – Você foi transferido pra cá? R – Correto. Fui transferido pra cá. P/1 -Quando e porque que você foi transferido. R – Olha, a princípio eu fui trabalhar lá porque, na época, tinha um cidadão que trabalhava lá, um cidadão até folclórico, o João, que ele tinha sofrido o problema de hérnia. Então eu fui pra lá passar um mês, fui em substituição dele, mês esse que a gente passou quase dois anos. Então quando ele retornou à atividade dele, teve outro colega meu também que ia, tinha sido admitido na mesma época que eu, o Adalberto, e ele, a família dele era de Alagoas. E a minha família aqui de Sergipe. Então, a gente se encontrou, fui pra lá. Aí fizemos essa permuta, o que foi bom pra mim e bom pra ele, entendeu? P/1 – Entendi. E conta pra gente como que era o cotidiano desse trabalho, como que vocês se relacionavam? R – Olha, o relacionamento lá era bom com a chefia. Naquela época, assim, no setor da gente quase, o Engenheiro ia pra lá uma vez, assim, uma vez por mês, porque lá é praticamente o mecânico e o contramestre. O mecânico era o que coordenava tudo lá, as atividades nossas. Só que lá a nossa atividade de trabalho era mais envolvida, assim, com unidade de bombeiro mecânico, com sonda de produção que era sob a nossa responsabilidade. Com, quase que não tinha estação coletora naquela época lá na área de Alagoas. Mas _____ a gente se envolvia com a estação de Furado, fica próximo a Maceió. Então, praticamente ficava mais na sonda do que na produção. Ficava no horário de oito às quatro da tarde, no horário diurno, junto com o pessoal lá da sonda. A gente ficava lá dando manutenção. Agora, quando tinha algum serviço que é mais complexo, a gente pedia auxílio ao pessoal nosso pra vim ajudar na manutenção. P/1 – Entendi. E tem alguma história que você lembra dessa época, engraçada, marcante? R – É, história tem várias. Tem várias histórias. P/1 – Conta uma aí pra gente, uma coisa que tenha te marcado. R – História tem muitas. Agora, no momento, assim, não tô me lembrando bem. P/1 – Engraçada você não lembra nenhuma? R – No momento, assim, não tô me lembrando bem. P/1 – Então vamos conversando e de repente você lembra. O senhor é sindicalizado? R – Sim. P/1 – Desde quando? R – Eu, desde, acho que foi quando eu entrei aqui na empresa, que eu me sindicalizei. P/1 – Foi em mil... R – 1982. P/1 – Entrou e se sindicalizou? R – Sim. P/1 – Por que? R – Pessoal. Os colegas na época me orientaram que era bom sindicalizar. Aí eu achei tudo bem ser sindicalizado. P/1 – E participou de algum movimento sindical, algum? R – Sim, só movimento grevista, né? P/1 – Só o que? R – Movimento, assim, greves, algumas greves algumas coisas assim a gente participou. P/1 – Tem algum marco que você lembra, algum, do movimento sindical, alguma greve, alguma? R – Não, não. Teria sido essa última vez que teve aqui, inclusive tava começando essa polêmica da anistia, que eu coincidentemente tava de férias. Aí não participei dessa greve. Foi de 1988. Dessa agora, dessa última anistia que o pessoal tava negociando. P/1 – 1994. R – 1994 sim. Historicamente minhas férias, tudo, eu só tiro no mês de maio, que eu entrei no mês de abril e conseqüentemente só saiu no mês de maio. E esta greve estourou justamente no mês de maio. P/1 – Aí você estava de férias? R – Eu tava de férias. P/1 – Te confundiram com... R – Não, não. O pessoal, alguns colegas ainda me confundiram, assim, que eu tava “pelegando”, mas não tinha nada a ver, entendeu? É porque realmente, tem minha carteira de trabalho, tá lá no registro, é tudo no mês de maio. P/1 – Entendi. E como que você acha hoje, o quê que você acha da relação da Petrobras com os empregados ou com o sindicato? R- Sim, em relação à anteriormente, antigamente, hoje tá uma relação muito melhor. Muito melhor porque antigamente tinha poucos empregados, era um pouco aquela discriminação. E hoje não, hoje o pessoal já chama pra negociar. Eu sento na mesa, negocio ____. E aí naquela época era um pouco restrito. P/1 – E tinha algum tipo de discriminação aqui dentro entre os...? R – Sim. Entre o pessoal sindicalizado ou? P/1 – É, não sei. R – Discriminação tinha sim na época, como no caso lá em Carmópolis, Sergipe, tinha um restaurante que era pra o pessoal de nível médio, pra peãozada, popular, pr a peãozada. E tinha o restaurante pra os técnicos e engenheiros. Eram separados. P/1 – Separados, isso quando? R – Isso aí em 1984, 1985, 1986. Acho que era quase até próximo a 1990. Era isso, 1986. Eu não sei precisamente. Mas nos anos 1980 a faixa que eu alcancei tinha essa discriminação, que depois, com o tempo, aí houve, o pessoal acabou com isso porque ____ não tinha essa discriminação. P/1 – Quem acabou? A própria empresa _____? R – Sim, a própria empresa. Acho que a própria estrutura, a coisa foi mudando. Que não ia fazer sentido, já que todos estavam engajados dentro de um só objetivo, não fazia sentido aquela discriminação. Que também houve uma época do crachá ser diferenciado. O pessoal de nível médio, a “peãozada” mesmo, era um crachá azul, enquanto que o pessoal da engenharia, o técnico, era crachá vermelho. P/1 – E hoje em dia... R – Hoje acabou isso, não existe mais. P/1 – Tudo um crachá só? R – Tudo um crachá só, e todo mundo no mesmo barco. P/1 – Assim é melhor, né? R – É, com certeza. P/1 – E, conta um pouquinho como que era essa, você entrou em 1981? R – 1982. P/1 – 1982, ah é. E como que era esse setor que você trabalhava, o cotidiano, o dia-a-dia? R – Olha, o dia-a-dia, como eu lhe falei no setor, a gente praticamente lá trabalhava 12 dias e folgava quatro. Às vezes a gente passava até uns 12 dias sem ver a chefia porque a gente tava, aonde a sonda ia a gente tinha que acompanhar as locações. Em Alagoas tem muitos poços muito distantes da base. P/1 – Aí vocês ficavam, dormiam onde? Como que era? R – Não, não, o carro, o transporte era em caminhões, caminhõezinhos, aqueles caminhões, Mercedinha que chama, aquele caminhão com carroceria Mercedes, pequeno. Transportava até a base. A gente trabalhava, ia em cima da cabine. Geralmente quem ia na frente era o encarregado da sonda. E o restante do pessoal, o operador, com a sonda em cima na carroceria e a gente ia em cima na carroceria com uma cobertura de zinco, uma coisa assim. P/1 – Mas não era perigoso? R – Sim, era. Só que, naquela época, a realidade que tinha era assim, _____ como tem hoje, essa questão aí. O transporte literal era esse. Pegava o pessoal no hotel e deixava na sonda. Quando era à tarde ele pegava o pessoal de novo e retornava para o hotel. P/1 – E nunca aconteceu nada, algum bicho, alguma? R – Não. Agora eu me lembrei de uma coisa engraçada, só que não aconteceu com a gente. Aconteceu com o pessoal do caminhãozinho, o pessoal da sonda de perfuração. ________ praticidade de São Miguel dos Campos. Quando o cidadão, chamado Robson, do Edmar, ele tinha pego uma cobra. Tirando os escombros de ferro que tava lá na caçamba, pega e mataram a cobra Jaracuçu. P/1 – Qual cobra? R – Cobra Jaracuçu, aquela preta. É da família da Jararaca, só que essa é. Então ele guardou, eu não sei porque, o motivo de uma brincadeira de mal gosto, ele guardou. E quando o caminhão ia chegando dentro da cidade que encontrou, cruzou um com o outro, ele jogou a cobra dentro do caminhãozinho pra outra turma e todo mundo ficou meio, dentro do caminhão. P/1 – Viva? R – Morta, ela tava morta. O pessoal ____ esperar ver se ela tava viva ou não. Então todo mundo pulou do caminhão e ________. P/1 – E vocês costumavam achar cobra, bichos, essas coisas? R – Sim, porque a área, muito mato. Muito mato e tal, geralmente é época de inverno, ela não tinha, a unidade ______ assim, os ferro, alguma coisa guardada. Elas gostavam de ficar ali pra se aquecer, cobra, caranguejeira. P/1 – Nossa, que coisa. R – Tinha muito isso aí. P/1 – Tem mais alguma coisa que você lembra, Júlio, que queira deixar registrado, falar? R – Não. O que eu lembro é assim, a minha ideia é que houve uma mudança pra melhor em relação a antigamente porque, inclusive, essa questão do trato com o Ser Humano, que antigamente a gente ficava mesmo ali na casinha, como chamavam antigamente, casinha da sombra. E a própria água. A gente tomava água de péssima qualidade. Não tinha tratamento de água. Ficava em vasos pegando sol _____ pegar água quente. Não era como hoje que tem água mineral, tem água gelada. A própria quentinha quando chegava já chegava, já não era mais quentinha, era fria e qualidade ruim. E hoje já mudou e mudou pra melhor. Se ocorrer isso, normalmente não ocorre, e mudou, mudou pra melhor. P/1 – E porque que você acha que isso mudou? Tem algum marco, alguma coisa? R – Não, eu acho que mudou devido, também, à empresa estar preocupada, também, com a saúde do cidadão. Mas ____ é isso porque eu acho que empresa nenhuma vai querer uma parte do seu efetivo doente. Isso também é muito prejuízo pra ela. _____. P/1 – É bom pra ela também. R – Isso, com certeza. P/1 – E o quê que o senhor achou desse projeto da Petrobras e dos sindicatos de fazer esse Projeto Memória, de ter dado essa entrevista? R – Eu achei interessante porque é um momento, assim, que a pessoa possa relatar ou possa passar pra outras pessoas que não viveram aquilo, ou pras pessoas que estão chegando também, ver como era antigamente e como é hoje. Talvez pro pessoal valorizar mais a empresa Petrobras em relação ao que os antigos já sofreram, entendeu? Porque, inclusive, na época a gente mesmo, aqui em Aracaju, não tinha hora nem dia pra trabalhar. Então à noite, uma hora da manhã, junto com a família. Mesmo a gente não trabalhando em horário de turno, sendo horário administrativo, mas quando o serviço requeria a gente tinha de ir, deixar a família e ir trabalhar e não sabia a hora que voltava, o dia que voltava. Passava dois dias, três dias trabalhando. Porque dentro do mato isso... Se estivesse chovendo tinha que pegar chuva. Se tivesse fazendo sol ________ que ir e botar essa coisa pra funcionar. P/1 – Que coisa. R – É, não é brinquedo não. P/1 – Imagino. E você quer deixar mais alguma coisa registrada, aproveitar o momento? R – Não. O que eu quero deixar registrado realmente é isso. Naquela época a mudança que houve em relação ao que era antes e o que é hoje. Inclusive as próprias gerências, que antes viviam um pouco mais afastadas, hoje tá se aproximando mais da força de trabalho. A política mudou. A mentalidade eu acredito que, se não 100%, mas em torno de 80% a 90% mudou em relação a antigamente. P/1 – Tá bom então. Muito obrigada pelo depoimento FIM DA ENTREVISTA -

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