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História

Brincando de Gente Grande

História de: Joel Chagas de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Família. Trabalho na infância. Brincadeiras e cotidiano. Relação com os irmãos. Vida escolar e faculdade. Esposa. Netos. Experiências de carreira.

Tags

História completa

Projeto: Memória Petrobras

Entrevistado por: Cláudia Fonseca e Inês Gouveia

Depoimento de: Joel Chagas de oliveira 

Local: Rio de Janeiro

Data: 21 de julho de 2009

Realização: Instituto Museu da Pessoa 

Código: MPET_PRESAL_HV 005

Transcrito por: Rosângela Maria Nunes Henriques

Realizado por: Raphaela Dos Santos Rei

 

 

 

 

P/1 – Então vamos começar a entrevista Joel, primeiro obrigada por ter vindo e eu queria começar a entrevista com você dizendo: seu nome completo, o local e a data de seu nascimento?

 R – Bom, em primeiro lugar, bom dia! É um prazer estar aqui, o meu nome é Joel Chagas de Oliveira, nascido em 13 de setembro de 1957.

P/1 – Joel e o nome dos seus pais?

R – Meu pai chama Anésio costa de Oliveira e minha mãe Juraci Chagas de Oliveira.

P/1 – Joel e qual a atividade dos seus pais?

R – Meu pai hoje é aposentado e sempre trabalhou no departamento de Estrada de Rodagem era funcionário público e minha mãe sempre trabalhava de doméstica ou trabalhava fora, mas também como doméstica. 

P/1 – E seus avós, você chegou a conhecer?

R – Eu só conheci uma avó por parte de mãe, os outros eu não cheguei a conhecer.

P/1 – Mas você lembra o nome deles?

R – Só da minha avó, era Alzira e os outros eu não lembro não.

P/1 – Mãe da sua mãe então?

R – Sim, mãe da minha mãe.

P/1 – E você sabe a origem da família? De vocês? A ascendência?

R – Sim, por parte de mãe meus familiares são descendentes de Conceição de Macabu, na época pertencia a Macaé, mas depois se emancipou, né? E por parte de pai é Carapebus que hoje também é uma cidade, mas na época pertencia a Macaé. 

P/1 – Quer dizer que todo mundo aqui é do Estado do Rio, né?

R – Todos do Estado do Rio, todos macaenses.

P/1 – E seus avós? Você sabe o que eles faziam antes? Os seus pais contaram?

R – Não tenho informação.

P/1 – Irmãos você tem?

R – Tenho. Eu tenho um irmão que já é falecido e tenho quatro irmãs todas já casaram e têm filhos.

P/1 – São mais velhas?

R – Não, eu sou o mais velho da família.

P/1 – Ah que bom, né? Se não já pensou quatro mulheres mandando em você. Você é o mais velho, você cuidava delas então quando você era garoto?

R – Na verdade quando eu tinha 14 anos de idade eu já ajudava o meu pai, né? Ele na época com seis filhos e pra bancar todo mundo na escola era complicado, então eu ajudava em alguma coisa pra manter todo mundo na escola.

P/1 – E vocês moraram aonde quando eram crianças?

R – Nós moramos em Quissamã, eu não sei se você já ouviu falar?

P/1 – Não. 

R – Quissamã fica mais ou menos uns 50 Km depois de Macaé, eu morei lá, vivi lá até os 13 anos de idade, meu pai trabalhava lá em Quissamã. Aí depois o departamento de estrada de Rodagem decidiu acabar com o posto lá de trabalho. Aí meu pai então foi transferido pra Macaé, então a gente foi pra Macaé e lá ficamos durante muitos anos e agora tem seis anos que eu estou envolvido com a atividade da empresa aqui no Rio de Janeiro e aí quatro anos e meio morando em Niterói.

P/1 – E Joel lá em Quissamã vocês moravam numa casa? Como era?

R – Isso. Lá a gente tinha uma vida muito legal, porque a gente morava numa casa, tinha um quintal muito grande, o meu pai gostava de plantar, então lá a gente tinha um pomar, tinha a horta. E sempre quando eu ia em casa almoçar depois do almoço pegava uma faquinha e aí ia lá pra baixo tinha um pé de laranja e ali utilizava a minha sobremesa, né? 

R – Que gostoso. Vocês brincavam bastante, então?

R – Lá era... Hoje cresceu bastante, mas era um lugarejo assim muito tranquilo, a gente brincava muito no quintal, na rua, não tinha trânsito de carro, era um movimento muito pequeno, então a gente brincava na rua a vontade. 

P/1 – Tinham muitas crianças também? Muitos amigos?

R – Muitos amigos, muitas crianças. E a gente ficava na rua até tarde brincando.

P/1 – Do que você gostava de brincar Joel?

R – Olha, eu lembro que a gente gostava muito de brincar de pique cola, eu não sei se você já ouviu falar de pique cola?

P/1 – Explica pra gente como é?

R – Pique cola é o seguinte: você fazia uma divisão e ficava um grupo de cada lado e você invadia o outro lado e tinha que sair correndo pra ninguém tocar em você, então se tocasse você ficava lá e ficava como prisioneiro do outro lado, até que alguém... Alguém tinha que ir lá e tentar te liberar e se ele não conseguisse ia ficando todo mundo lá. Então o grupo que conseguisse, vamos dizer assim, colar todo mundo ganhava a partida.

P/1 – Ah que bacana. Isso era o que você mais gostava?

R – Eu gostava disso, aí tinha... Eu gostava muito de correr, né? Pique bandeira, aquele negócio da bandeirinha que você tinha que ir lá pegar e... Eu gostava também de jogar bola de gude, né?

P/1 – Isso é bom também, né? A molecada nem sabe mais jogar, né? 

R – Hoje você quase não vê isso.

P/1 – E como era esse cotidiano Joel seis filhos... Como era o dia-a-dia da sua casa?

R – Então...

P/1 – Vocês acordavam e iam pra escola todos juntos?

R – Eu fui o primeiro a ir pra escola por ser o mais velho e depois as minhas irmãs também, então era sempre aquela rotina, né? De acordar cedo e prepara todo mundo pra ir pra escola, né? Geralmente nos primeiros anos a gente estudava na parte da manhã, então tinha que acordar bem cedo e ir pra escola. E a parte da tarde a gente tinha pra brincar, fazer um exercício, né? Eu sempre fui perna de pau, mas gostava de ir pro campo pra correr atrás de uma bola e quando dava sorte de faltar gente, então era: “Joel entra aí’ mas quando o time estava completo eu ficava lá de gandula ou de observador.

P/1 – E vocês ajudavam nas tarefas da casa? Vocês tinham obrigações que a mãe determinava?

R – Sim, mamãe sempre colocava a gente pra trabalhar, eu com oito anos de idade já sabia fazer arroz, hoje eu não sei fazer mais, já esqueci, mas naquela época eu fazia, né? Eu lembro que às vezes quando ela tinha que viajar com meu pai, eu ficava em casa e eu com oito anos já fazia. Teve um dia que ela chegou tarde e eu fiz uma surpresa, foi a primeira vez que eu fiz arroz, ela saiu de Quissamã foi a Macaé e na volta chegou já tarde e falou: “puxa vida vou fazer almoço” aí quando ela chegou lá o almoço estava pronto, né? Aí o meu medo era: e agora e se esse arroz tiver ruim? Mas até que deu pra passar.

P/1 – Ela deve ter ficado feliz, né?

R – Também quando você está com muita fome qualquer coisa fica bom, né? Mesmo que o tempero não esteja lá essas coisas, mas fica bom.

P/1 – Tá certo. Joel você foi pra escola lá mesmo em Quissamã?

R – Isso, eu estudei lá... Naquela época tinha o ginásio, eu estudei lá até o primeiro ano ginasial quando então meu pai foi transferido para Macaé, aí eu vim estudar em Macaé. Aí terminei em Macaé e lá continuei, né? Fiz o segundo grau e depois de já estar na Petrobras eu fiz faculdade, mas fora de Macaé, eu tinha que viajar todo dia depois do trabalho para outra cidade Campos dos Goytacazes, não sei se vocês já ouviram falar? Então todos os dias após o trabalho eu tinha que viajar pra lá.

P/1 – Você fez técnico?

R – Fiz o segundo grau técnico de Contabilidade e depois fiz faculdade na área de contabilidade também e eu estava até dizendo ali que eu fiz, mas nunca atuei na área, o meu projeto na época era mudar, né? Sair da área de logística de transporte para área contábil, mas acabou que a oportunidade não apareceu e estou na atividade logística até hoje.

P/1 – E dessa época de escola o que você gostava mais? A matéria que você gostava mais? Você lembra?

R – Ah, sempre gostei muito de matemática, aliás, eu só não fiz matemática porque nem em Macaé e nem em Campos não tinha, mas na verdade eu queria fazer mesmo era matemática.

P/1 – Você era bom aluno?

R – No geral sim, inclusive na época do ginásio... Hoje está muito fácil passar de ano, né? Mas naquela época eu lembro que a gente tinha prova mensal e pra passar direto tinha que ter média sete. Então chegava no final do ano se você não tivesse média sete, você tinha que fazer prova final e detalhe se você não tivesse média sete numa matéria você tinha que fazer prova final de todas, então era puxado. Eu lembro que eu cheguei no final do ano, matemática não precisa falar, eu já estava com nota sobrando, mas tinha uma matéria que era o meu calo que era Geografia e eu cheguei no final do ano e pra passar direto eu precisava de oito vírgula sete e as minhas notas durante o ano sempre ali com sufoco, eu falei: “bom, como é que minha nota...” Minha maior nota durante o ano acho que foi seis e alguma coisa, eu falei: “como que vou conseguir oito vírgula sete no final”? Aí o que eu fiz? Quando chegou na última prova mensal, eu falei: “bom, eu vou esquecer as matérias que eu não preciso de nota e vou estudar Geografia.” Aí eu só estudava Geografia, Matemática, Português, ficou tudo pro lado, eu estudei muito. Aí no dia da prova, aquele nervosismo lá e tal, antes de fazer a prova eu dei uma olhada assim e pensei: “acho que eu sei tudo” aí fui fazendo, fazendo e teve uma questão que eu não me lembrava de jeito nenhum, aí pulei e fui fazendo as outras, aí ficou aquela, mas não lembrei de jeito maneira. Cada questão valia sete décimos, eu falei: “bom, se eu garantir agora as outras questões está safo” porque aquela eu não lembrei mesmo, ou seja, o restante eu acertei tudo, então eu tirei 9,3, eu precisava de 8,7 aí escapei. E nessa época a turma era grande devia ter aí uns 40 alunos e desses 40 alunos somente cinco escaparam da final e eu fui um deles graças a Deus. 

P/1 – Que bom, hein? Isso, que ano você lembra, que série?

R – Puxa, aí você está querendo puxar muito, né? 

P/1 – Não é só se você por um acaso lembrar, não tem problema.

R – Deve ter sido mais ou menos...

P/1 – Terceiro ano, quarto ano...

R - Não, isso foi no primeiro ano ginasial.

P/1 – Ah, essa da Geografia foi no primeiro ano, ah, então tá bom.

R – Eu pensei que você queria saber qual o ano que isso aconteceu.

P/1 – Não, que série tinha sido, porque no ginásio eu lembro que da segunda série pra terceira série sempre foi mais terrível, né? Mas você foi bem?

R – Fui bem e naquela época... Hoje a coisa é muito tranquilo, mas naquela época pra entrar no ginásio tinha uma espécie de vestibular, o exame de admissão e o que acontecia? Puxa era difícil, você tinha que... Alguns colegas meus faziam cursinho pra fazer prova de admissão, mas meu pai não tinha condições de me botar num cursinho, então eu falei: “bom, eu tenho que me virar, eu tenho que estudar sozinho mesmo.”

P/1 – E Joel teve algum professor que te marcou nesse período escolar? Antes da faculdade? Algum professor que você falasse: “nossa esse cara foi determinante” ou essa professora foi determinante?

R – Olha, eu tive uma professora de Matemática e foi exatamente nesse... Foi no primeiro ano ginasial que me marcou bastante, eu lembro que no dia que eu fui lá pra ver o resultado da classificação da admissão, ela estava lá olhando as notas e tal e ela me marcou bastante durante o... Era uma excelente professora e me cobrava, ela sabia que eu era bom aluno, então às vezes quando eu dava uma pisada na bola, não tirava nota muito boa, ela falava: “Joel você me decepcionou dessa vez.” Então aquilo me incentivava “bom, na próxima tem que recuperar.”

P/1 – Qual é o nome dela Joel você lembra?

R – Maria... Eu esqueci o segundo nome.

P/1 – Depois você lembra. E você acha que essa sua vontade, esse seu gosto pela Matemática acabou mesmo influenciando essa tua escolha de profissão? Ou não? Porque contabilidade também tem muito a ver com números, né?

R – Influenciou sim, influenciou por quê? Como eu não tinha a opção de Matemática eu falei: “bom, vou procurar alguma coisa que tenha conta” então influenciou. Então eu fiz Ciências Contábeis, no início eu até pensei... Por causa da empresa “se eu fizer Administração, acho que vai ser melhor pra mim” aí eu até fiz vestibular e comecei a fazer Administração e vi que: “não é nada disso, isso não vai dar certo.” Aí eu mudei pra Contabilidade e de fato foi um tempo muito bom na faculdade, eu me diverti muito com algumas matérias, né? Tinha Matemática, Matemática Financeira, eu vibrava com a Matemática Financeira na faculdade era muito bom, pesquisa operacional. Então eu me diverti com essas matérias, mas depois ficou só no papel, eu acabei não atuando na área. 

P/1 – A tua adolescência você já passou em Macaé?

R – Em Macaé.

P/1 – Como era Macaé na época que você era...

R – Olha, Macaé era uma cidade bem tranqüila, né? Não tinha ainda a Petrobras, então vivia mesmo era do comércio, da pesca, então era um local muito tranquilo. A minha adolescência na verdade não foi das melhores porque eu cheguei a Macaé com menos de 14 anos, não conhecia ninguém, já comecei a trabalhar nessa época e uma coisa assim que eu valorizo muito... É porque eu com 14 anos, eu já tive que trabalhar pra bancar meus estudos, então eu estudava durante o dia, não eu trabalhava durante o dia e estudava a noite porque meu pai tinha seis filhos e com essa questão da transferência tinha que pagar aluguel e tudo, ele falou: “não vai dar pra bancar todo mundo na escola, então eu vou ter que priorizar os mais velhos.” Aí eu falei: “então eu vou trabalhar, eu pago o meu e ajudo a pagar o de um deles pra todo mundo poder estudar.” Então com isso a gente conseguiu conciliar e todo mundo estudar, então desde cedo eu trabalho, eu comecei a trabalhar ainda em Quissamã, mas lá eu comecei porque eu queria fazer alguma coisa, não que meu pai falasse: “você vai trabalhar.” Mas com 12 anos eu comecei a trabalhar, eu falei: “eu quero fazer alguma coisa.”

P/1 – E aí você foi trabalhar em quê?

R – Eu era auxiliar de mecânico.

P/1 – Isso em Quissamã?

R – Em Quissamã, então eu falei: “ah pai eu quero fazer alguma coisa” ele ficou me enrolando, eu falei: “eu vou lá procurar então” até que um dia ele resolveu e foi lá, aí eu comecei a trabalhar. Então eu trabalhava lá, era auxiliar de mecânica, carregava peça daqui pra ali me sujava todo de graxa e tal.

P/1 – Numa oficina que tinha lá?

R – Numa oficina. E lá também além de serviço de manutenção, eu fazia também lavagem de carro e aí... Puxa, lavagem de carro era terrível, porque você lavava o carro e depois colocava o carro no alto para aspirar aquele óleo, né? Só que hoje o pessoal usa óleo de mamona, óleo limpinho e naquela época não, o pessoal usava o seguinte: o óleo que tirou do carro que é aquele óleo já queimado, né? Usava aquele óleo, aí você saía espirrando, aí você fazia assim até aí tudo bem, depois você tinha que virar o contrário, né? Aí na hora que você virava o contrário saía pingando e você ficava com a roupa toda...

P/1 – Isso com 12 anos?

R – 12 anos.

P/1 – Depois em Macaé você foi trabalhar em quê? 

R – Aí em Macaé... Porque como auxiliar de mecânico o valor era irrisório, não dava pra nada, era mais assim porque eu queria fazer alguma coisa mesmo. Então em Macaé eu fui trabalhar no comércio, eu trabalhei três meses num comércio só que esse comércio que eu fui trabalhar, ele tava com alguma dificuldade financeira e logo depois falaram: “a gente vai ter que dispensar algumas pessoas e como você é o mais novo vai ser o primeiro.” Depois eu fui para outro e aí sim era um comércio novo que estava crescendo e aí lá foi bom, eu trabalhei seis anos no comércio e foi muito bom, porque eu fui crescendo junto com o negócio. Depois de um tempo eu deixei simplesmente de ser entregador de compras e balconista, era uma espécie de gerente ainda novinho com 16 anos, então... Não tinha esse cargo lá de gerente, mas o patrão falou: “fica com você” então toda parte de controle de compra, do que faltava... Chegava o vendedor e: “fala com ele” então...

P/1 – E era comércio de que Joel? O que vendia?

R – Era supermercado, porque hoje a gente chama de supermercado e naquela época era mercearia, né? Que era um comércio assim que você atendia as pessoas no balcão, hoje você entra e pega o que você quer, né? E era mercearia, então você tinha um balcão, você atendia as pessoas no balcão.

P/1 – O primeiro também era assim nesse...

R – O primeiro também o mesmo esquema. Aí trabalhei seis anos, aí depois eu já estava enjoado disso no final eu fiz prova pra Petrobras, aí passei, mas como eles estavam construindo ainda a base em Macaé levou um tempo pra chamar, né? E nesse ínterim eu fiz prova também pro Correio, aí fui trabalhar no Correio, eu trabalhei sete meses no Correio e também foi um tempo muito legal, eu trabalhava como entregador de carta, eu conhecia um monte de gente.

P/1 – Foi carteiro mesmo?

R – Carteiro mesmo, então foram sete meses, mas muito bons. Então foram assim sete meses, mas muito bons.

P/1 – Mas Joel só antes da gente... Eu quero saber mais da tua vida como carteiro, mas deu dinheiro, o que você ganhava dava pra pagar a escola e ainda ajudava em casa, deu certinho essa coisa do comércio?

R – Deu porque a gente estudava em escola pública, então o gasto que a gente tinha era: livros, uniformes e alguma coisa pra levar merenda e tal. Então deu pra safar.

P/1 – Eu quero saber do carteiro, sete meses como carteiro, eu sempre quis saber Joel, agora você vai ser a minha fonte de informação, tem um curso? Como é que faz? Quer dizer fez o concurso entra? Tem um curso ou não simplesmente dão uma sacola e falam: “se vira”?

R – Não tive o curso, eu fiz o concurso, passei, o cara falou: “eu vou te explicar como você arruma carta” aí me deram um mapinha das ruas e ele falou assim: “olha como você arruma carta pra facilitar na hora que cada número chegar pra você não ficar procurando a ordem aqui.” Então foi assim uma orientação do gerente, de um supervisor que tinha lá de como arrumar as cartas pra entregar, nada de curso, depois “vai pra rua.” Mas foi um tempo muito bom.

P/1 – Você tinha um mapa, mas você mesmo determinava o roteiro, “você vai ao bairro tal”, mas aí se você começar pela rua A ou pela rua B é você que determina?

R - É. Então eu tinha lá “você é responsável pelo bairro Cajueiros, então esse é o seu bairro, né?” Então eu escolhia qual o meu melhor esquema, por onde começo e tal e fazia aquela arrumação de acordo com o que eu achasse melhor.

P/1 – Certo. E era um bairro tranquilo assim pra entregar? 

R – Era tranquilo, na verdade eu era responsável por dois bairros, eu rodava muito e tinha um terceiro bairro que era afastado da cidade, mas esse bairro era assim: tinha pouquíssimas casas, pouca correspondência e lá eu só ia uma vez por semana. Então geralmente sábado era o dia que eu tirava para fazer esse bairro, porque tinha pouquíssimas casas, né? Hoje é famoso, o bairro de Cavaleiros em Macaé, em 78 tinha pouquíssimas casas, terreno lá...  Meu ex-patrão tinha um terreno em Cavaleiros e decidiu vender e ele ficou um tempão oferecendo o terreno e...

P/1 – Hoje é um bairro de gente bacana, né? 

R – E não conseguiu vender o terreno e no final acabou vendendo por uma mixaria, mas hoje... Então naquela época tinha pouquíssimas casas, eu ia lá uma vez por semana, hoje aquelas ruas estão todas tomadas.

P/1 – E Joel tem mesmo essa coisa do cachorro correr atrás do carteiro? Tomar bronca porque entregou conta?

R – Olha, cachorro eu tenho uma história com cachorro que... O que acontece? Você chega numa casa e às vezes você chama e não atende, aí você fala: “pô, mas eu tenho a correspondência para entregar” o que você vai fazer? Tem que entregar a correspondência quando não é carta registrada que não precisa assinar você joga pela janela, joga debaixo da porta. Aí um dia eu cheguei numa casa chamei, chamei e ninguém atendeu, aí era uma casa onde ficava... Tinha um portão, tinha um corredor assim e a casa era lá nos fundos, né? Aí gritei “correio, correio” e ninguém atendeu, eu falei: “caramba, eu vou ter que ir lá levar a carta, eu abri o portão” eu pensei: “gritei não teve latido, não tem cachorro, né?” Aí entrei, naquele corredor, aí quando eu chego perto da varanda da casa um cachorro enorme, olha quando ele me viu não dava pra eu correr, porque o corredor era enorme e ele ia me pegar. Ele partiu pra cima de mim, partiu e a minha sorte é que tinha uma mesa com umas cadeiras na varanda eu em vez de correr pra cá, eu corri pro lado da mesa e peguei uma cadeira e batia, ele saía fora e vinha de novo e eu gritava: “cachorro” e eu metia a cadeira e ele pulava em cima de novo. Olha, até que apareceu alguém que gritou: “para, para” até que ele parou, aí eu entreguei a carta e saí, olha, eu passei o maior aperto se não fosse aquela mesa com cadeira eu estava perdido.

P/1 – Mas de resto... Você estava dizendo que conheceu bastante gente, né? As pessoas gostam dos carteiros em geral, né? 

R – Gostam, quando você vem de longe perguntam: “tem carta pra mim”? 

P/1 – É uma coisa que hoje também diminuiu, porque eu acho que carta hoje é mais difícil, né? 

R – Eu nem sei como que está hoje, você não vê muito carteiro na rua, né? Mas naquela época era muito comum.

P/1 – E aí você ficou sete meses, então?

R – Sete meses.

P/1 – Tá, então na verdade qual você fez primeiro, Petrobrás ou Correio?

R – Eu fiz a prova pra Petrobras primeiro e aí como estava demorando a chamar e surgiu a oportunidade e eu fui trabalhar no Correio, aí sete meses depois a Petrobras me chamou, aí eu fui embora.

P/1 – Aí você saiu do Correio e foi pra Petrobras? Mas aí você foi pra onde? Porque ainda não tinha a base, né?

R – O que aconteceu? Eu e outras pessoas na mesma época nós fomos admitidos em Vitória, vários colegas foram trabalhar em Vitória e como eu fui escolhido pra trabalhar na área de transporte, o transporte aéreo na ocasião era feito pelo aeroporto de Campos dos Goytacazes. Então eu fui lá, fui admitido, eles falaram: “você se apresenta em Campos e você vai trabalhar lá.” Então eu fiquei um tempo trabalhando em Campos até mudar pra Macaé.

P/1 – E você... Quando você foi fazer Petrobras você tinha uma noção que a Petrobras era uma grande empresa? O que você pensava na época do concurso?

R – Olha, eu não conhecia muito de Petrobras, mas aí começou a construir lá e já tinha o porto funcionando e as pessoas falavam: “Petrobras é um bom emprego e tal” eu tinha assim informações vagas, eu não tinha noção da grandiosidade da Petrobras. Mas as pessoas falavam: “é um bom emprego e tal, é uma grande empresa” aí eu fiz inscrição...

P/1 – Porque até então você estava no comércio, quer dizer você lembra assim o que você pensava para o futuro? Você era muito menino também?

R – Eu inclusive quando saí do comércio o meu patrão até falou assim: “puxa, você vai sair mesmo”? Eu falei: “vou” aí ele falou: “a gente pensava até em futuramente dar uma parte a você nos negócios pra você continuar com a gente e tal.” Então ele gostaria que eu permanecesse lá e... Mas eu na verdade estava me preparando, estava estudando pra fazer algum tipo de concurso, eu não pretendia ficar no comércio toda a vida, inclusive teve uma época que eu cheguei a fazer um concurso pro INSS, um pouco antes do concurso da Petrobras e nesse concurso até foi uma coisa assim... Aconteceu uma coisa que: puxa você não tem nem como reclamar, né? Porque naquela época tinha prova de datilografia também e o que acontece? A minha prova de datilografia, eu peguei uma máquina que estava com problema, eu começava a digitar e aí o carro disparava, aí voltava. Então a minha prova foi um desastre, em datilografia a nota foi sei lá, quase zero, aí eu falei: “puxa vida uma oportunidade dessas, eu peguei uma máquina que estava com defeito” e ninguém quer saber, né? Então ficou pra lá. Mas eu na verdade estava estudando e tinha assim...

P/1 – A expectativa era de emprego público, né?

R – A expectativa de fazer uma prova e sempre...

P/1 – Ta. Então você foi pro aeroporto, mas me diga uma coisa, você entrou, você foi lá pra Vitória, teve algum curso? Algum treinamento? Ou também foi uma coisa mais direta?

R – Então, naquela época tudo era novidade e a Petrobras era pioneira na Bacia de Campos estava começando, estava recém iniciada a Bacia de Campos, então não tinha curso de transporte aéreo, não tinha nada disso. Então elas falaram: “você vai lá e se apresenta ao senhor Henrique” foi o meu primeiro chefe na Petrobras, eu menino ainda, eu entrei na Petrobras com 21 anos e eu cheguei lá me apresentei “senhor Henrique eu sou Joel” “você é o Joel?” “sou” “entra aí” aí depois ele falou pra mim assim: “quando falaram Joel, eu pensei que ia chegar aqui um cara forte e tal de mais idade e chegou um menino pra trabalhar comigo.” Então não teve treinamento, então meu treinamento foi assim sentar “senta aí do lado” e ele sozinho. Naquela época tinham aí umas talvez umas dez plataformas, mas ele sozinho cuidava de tudo e toda programação era passada pela sede lá em Vitória e eu via esse Henrique pra lá e pra cá, no telefone, dois telefones daqui a pouco estava com outro e depois estava com os dois e chama o despachante e prepara voo e tal. Aí eu perguntava: “isso aqui é o quê?” Ele olhava pra minha cara, dava um sorriso e falava: “fique calmo” eu falava: “mas eu quero aprender” ele não tinha tempo de ficar... Ele escrevia rápido, botava lá... Ele abreviava as siglas das empresas, aí eu olhava “o que é isso aqui”? Aí ele ria: “fique calmo, tudo tem sua hora” e eu ficava ali em cima perguntando e tal interessado e uma coisa engraçada que eu nunca tinha trabalhado... Nunca tinha entrado em aeroporto na minha vida, aí tudo era novidade, né? Aí eu olhava avião, helicóptero, avião todo dia vindo de Vitória, saindo, chegando, aí um dia ele virou pra mim assim... Pra mim não, ele virou pro despachante e falou assim: “ô Zé manda trazer o hotel Gofiosque pra cá” aí eu olhei lá pro pátio, aí tinha a pista do outro lado só mato, aí eu pensei comigo: “que raio de hotel, não tem hotel nenhum aqui.” Aí depois que eu fui entender que hotel Gofiosque era o prefixo do helicóptero, né? Depois que eu fui aprender aquelas siglas todas e tal, mas eu pensava: “que raio de hotel? Manda trazer o hotel Gofiosque pra cá.” 

P/1 – Que era o (HGO?), né? 

R – É. 

P/1 – Era José Henrique de que você lembra?

R – José Henrique Lisboa da Silva.

P/1 – Ele que tomava conta dessa parte toda?

R – Era ele, ele ficava quase doido lá.

P/1 – E você ficava lá então só...

R – Eu fui aprendendo assim na marra. E aí o que acontecia? E não tinham outras pessoas da área de transporte, era ele sozinho e ele ficava lá direto às vezes dois meses lá direto e aí de repente: “ah, eu vou mandar alguém pra te dar folga.” Aí ele tirava uma semana de folga, ficava alguém no lugar dele e depois ia embora, e depois ele ficava lá mais outro tanto. E na época que eu fui pra lá, eu me lembro bem que o meu chefe de divisão falou assim: “olha, tem um empregado lá trabalhando sozinho no transporte aéreo, ele precisa de alguém para ajudá-lo lá, você vai pra lá, você vai ficar uns três meses ajudando ele lá.” Aí eu fui, quando eu completei dois meses de casa um dia ele falou assim: “Joel é o seguinte: eu estou muito cansado, eu vou folgar esse fim de semana e você vai ficar aí” aí eu falei: “o quê? Você está maluco rapaz, eu não sei fazer isso não” “é fácil, sábado e domingo é mais tranquilo” “rapaz e não sei...” “Não olha só você faz isso e isso, vai ter troca da plataforma tal e você bota esse helicóptero, bota aquele e tal, se der muito problema você manda me chamar, mas eu preciso descansar.” Olha, naquele final de semana aconteceu tudo de errado que podia acontecer, teve um helicóptero que deu defeito na plataforma, ficou lá o dia todo, sobrou gente, faltou helicóptero, sobrou gente de sábado pra domingo, a carga não deu pra ir no sábado e teve que ir no domingo. Mas eu fiquei com pena dele e consegui me virar lá e não mandei chamá-lo, aí na segunda feira ele perguntou: “e aí Joel foi tudo tranquilo?” aí eu falei assim: “rapaz olha, você levanta a mão por céu, porque eu não mandei te buscar porque eu fiquei com pena de você, mas aconteceu tudo de errado que você podia imaginar, todas aquelas dicas que você me deu aqui foi tudo pro espaço, porque nada funcionou.” Aí ele ficou me olhando e rindo, aí na semana seguinte eu folguei, né? Na próxima ele falou: “vou folgar de novo” eu falei: “o quê?” ele falou: “você ficou aí e deu certo, agora nós vamos fazer o seguinte: eu folgo um final de semana e você folga outro” eu falei: “rapaz...” “não, fique tranquilo, fique aí.” E naquela ocasião, eu tinha muito medo, porque com dois meses de empresa, não era só a questão da programação, quando você tinha problema de ficar, vo pro dia seguinte a responsabilidade de providenciar hotel para aquele pessoal que sobrava era nossa também.

P/1 – Então eu ia te perguntar exatamente o que vocês faziam? Quer dizer vocês cuidavam de transporte de pessoas e de carga também, não é Joel? Como era esse dia-a-dia?

R – A central ficava lá em Vitória, né? Então todos os clientes do transporte passavam a solicitação lá pra Vitória, as plataformas também passavam pra lá, porque em Campos não tinha contato com plataforma. Aí ele passava toda essa programação lá pra Campos e o material e o pessoal que tinha pra embarcar, o pessoal vinha de Vitória pra Campos de avião, aí desembarcava aquele monte de gente com um monte de carga lá e a gente tinha que fazer a distribuição. 

P/1 – Pelos helicópteros, não é isso?

R – Isso. Aí tinham lá as empresas aéreas e a gente dizia: Você vai botar o passageiro pra plataforma X, Y, Z no helicóptero tal, esses outros aqui no helicóptero tal tinha que fazer e a gente fazia a programação onde o helicóptero tinha que passar.

P/1 – Quer dizer que o que vinha de Vitória era uma coisa assim: “vão chegar 50 pessoas pra ir pra tais plataformas” e essa distribuição eram vocês que faziam?

R – Era a gente que fazia.

P/1 – E a carga também?

R – A carga também. Vinha lá a lista com o material e a gente tinha que programar pra ver qual helicóptero a gente ia mandar pra...

P/1 – Era muita coisa pra duas pessoas, né?

R – Muita coisa, como eu falei quando eu cheguei lá, ele estava quase morto lá, ele não conseguia me dar atenção pra me explicar como funcionava.

P/1 – Então como você estava explicando se o cara não pudesse embarcar pra plataforma, ele tinha que ficar num hotel ali em Campos ou em Macaé, né?

R – Não em Campos mesmo e a gente é que tinha que providenciar hotel, a gente tinha que ligar pro hotel ver qual tinha vaga, fazer uma requisição, entregar pro passageiro para ele ir pro hotel e se hospedar e voltar no dia seguinte.

P/1 – Porque também não tinha só a ida pra plataforma também, tinha o retorno do pessoal, né?

R – Tinha o retorno também.

P/1 – Nossa! É trabalho pra burro.

R – Era muita coisa.

P/1 – E Joel dava pra ir no mesmo helicóptero pessoas e cargas ou eram coisas diferentes?

R – Então pelo pioneirismo da época, né? Eu nada conhecia dessa atividade, ele também tinha vindo de outra área, ele tinha vindo lá do norte e também aprendeu assim, ele não era da atividade aérea, né? Ele veio e aprendeu ali no dia-a-dia e era comum... A gente mandava passageiro junto com carga, inclusive carga solta dentro do helicóptero, depois com o passar do tempo a gente foi vendo que: “puxa aquilo era um risco tremendo, né?” Era um pioneirismo, a gente fazia aquilo sem conhecimento de causa só que depois a gente viu que: “puxa isso não pode, porque se a aeronave fizer um pouso forçado ou alguma coisa a carga pode machucar alguém.” Mas graças a Deus a gente não teve problema nesse sentido, né? Deus foi bom com a gente, né? No sentido de: “vocês não conhecem, estão fazendo uma coisa por ignorância, então eu vou ajudar vocês.”

P/1 – Você disse que tinha o que, umas dez plataformas nessa ocasião?

R – Mais ou menos isso.

P/1 – Quer dizer isso é o quê? Anos 70, né?

R – Foi em 1979. (troca de fita)

P/1 – Então em 1979 era essa loucura e também a própria atividade era um pouco nova ainda, né? Joel essa coisa da exploração de plataforma, né?

R – Não tudo era muito novo, né? Inclusive as locações, na época, por exemplo, em termos de linha regular de avião, o pessoal tem os corredores aéreos, tem toda uma estrutura pra isso e a gente estava começando e não tinha nada, o tráfego aéreo lá era assim: “a coordenada tal” o cara ia se soprava um pouquinho o vento o cara tinha que ir “então deve estar pra lá.” então a gente não tinha muito essa... Era muito pioneirismo, eu lembro que um piloto falou pra mim uma vez que ele foi levar o superintendente numa plataforma, aí ele foi, decolou e o pessoal fazia o cálculo de tempo, né? “Bom, o helicóptero voa tantos quilômetros por hora, a plataforma está a tanto de distância, então daqui a 45 minutos eu tenho que estar chegando lá.” ele decolou com o superintendente e foi, aí ele olhou no relógio deu o tempo e cadê a plataforma, ele falou assim: “caramba, cadê a plataforma e já devia estar vendo” só que ele pegou um vento no caminho e ele saiu um pouco e daqui a pouco ele olhou assim e a plataforma estava lá. Aí pro pessoal não perceber ele foi virando devagarzinho assim e quando ele ficou de frente assim o pessoal falou: “está lá a plataforma, estou vendo já”, mas ninguém sabia que ele estava um pouco fora da rota, porque ele pegou um vento forte, né? Aí ele falou: “rapaz eu fiz aquilo pra ninguém perceber que eu estava um pouco fora da rota.”

P/1 – Gente que loucura, quer dizer numa dessas podia... Ele deu sorte porque viu a plataforma, né?

P/1 – Mas o que acontece? O esquema era esse, né? Ele já sabia quanto tempo levava, então “deu tanto tempo, eu já tinha que estar vendo, então se não está aqui ou está pra cá ou está pra lá.”

P/1 – E Joel como era? Era um barracão? Era um escritório? Como é que eram as instalações físicas?

R – A gente ficava dentro do próprio aeroporto, então assim como você tem aqueles balcõezinhos de empresa aérea nos aeroportos, a gente tinha um balcãozinho daquele pequeno onde ficávamos eu e o José Henrique, né? Só tinha o espaço pra isso, as empresas aéreas de helicóptero também ficavam, tinha um balcãozinho do lado e nós tínhamos contato com todos os passageiros, ou seja, a gente estava programando o voo e o passageiro estava aqui no balcão.

P/1 – Fazendo check-in?

 R – Não, fazia check-in na empresa aérea, mas vinha falar com a gente “ah, que hora que vai sair meu voo”? “que hora vai chegar o voo tal“ então todo mundo vinha falar com a gente e até hoje eu tenho certo tipo de problema com isso, por quê? Como eu trabalhei muitos anos dentro do aeroporto todo esse pessoal me conhece, sabe meu nome e vira e mexe eu encontro com alguém e o pessoal vem e fala: “e aí Joel como vai? Tudo bem”? Aí eu falo assim: “caramba, eu não lembro o nome dele” não tem como, era muita gente, né? E foram vários anos fazendo isso, não tem como lembrar o nome das pessoas, tem gente que às vezes eu nem lembro que eu conheça, né? Tem gente que pelo menos eu conheço, mas não sei o nome, têm outros que falam comigo e eu falo: “será que me conhece mesmo ou estão me confundindo com outra pessoa.” Uma vez eu estava aqui no Rio a trabalho, estou tomando café, chegou alguém e ele disse assim: “O rapaz como vai? Tudo bem?” Eu falei: “tudo bem” “o que você está fazendo aí”? Eu falei: “eu estou aqui emprestado no desenvolvimento do SAP [Software de Gestão de Negócios] tal” ele falou: “ah tá bom” aí ele falou: “o João também está aí” eu falei: “ah é”? “ta, ele está aí também.” Aí eu falei: cara agora eu não sei quem é não sei o nome, aí...

P/1 – E nem sabia quem era o João, né?

R – E não sabia quem era o João, aí lá pelas tantas eu falei: “você me dá licença que eu tenho que ir está na minha hora” até hoje eu não sei quem é, né? Então...

P/1 – Joel, mas assim você falou que você ficou muitos anos, quantos anos você ficou nessa atividade? 

R – Olha, direto assim na operação entre mão na massa, supervisão e até gerência mesmo da atividade eu fiquei 15 anos na operação.

P/1 – Bastante tempo, né? E nesses primeiros tempos você estava contando coisas ótimas e tal, em algum momento assim você pensou: “o que eu estou fazendo aqui”? Você pensou em desistir? Porque é um cenário...

R – Olha, teve um dado momento que eu disse pra mim mesmo “onde é que eu amarrei a minha bezerra”? Porque era uma loucura, você tinha lá uma frota e todo dia tinha aquele monte de gente a mesma coisa, o mesmo tumulto, até o horário do pôr do sol você tinha que dar conta de tudo se não desse ficava pro dia seguinte, se não desse no dia seguinte ficava pro outro, né? Então era uma loucura, mas eu sempre gostei da atividade, eu sempre gostei dessa coisa agitada, eu trabalhei com um senhor que ele já está bem idoso já está aposentado e aquele não morre tão cedo, porque ele... Eu sempre fui um cara preocupado e falava: “tem que dar conta e o passageiro tal, tem que mandar hoje” e ele às vezes o circo estava pegando fogo e ele dizia assim: “fica calmo rapaz, no final dá tudo certo, fica calmo, depois dá certo.” Então ele era muito despreocupado.

P/1 – Aí começou a vir mais gente pra ajudar vocês?

R – Aí começou, né?

P/1 – Esse senhorzinho qual era o nome dele? Você lembra?

R – Eu lembro. Tem até uma história... O nome dele é Agildo Marins, mas ninguém o conhecia como Agildo Marins quando ele veio trabalhar comigo já estávamos em Macaé, ele veio de uma empresa de aviação e todo mundo o conhecia como canela. Aí ele já estava a uma semana trabalhando comigo e um dia uma pessoa do RH [Recursos Humanos] ligou e falou assim: “bom dia é do aeroporto”? Eu falei: “é” “eu gostaria de falar com o senhor Agildo Marins” eu falei assim: “ah, desculpe não tem ninguém aqui com esse nome não” ela falou: “não é do aeroporto”? Eu falei: “é” “me disseram que ele foi trabalhar no aeroporto, aí eu falei: “um minutinho” aí eu falei assim: “Canela como é o seu nome todo”? “Agildo Marins” eu falei: “e onde é que tem canela nesse negócio”? “não tem canela.” Então todo mundo conhecia ele como canela, mas não tinha canela no nome.

P/1 – Era o apelido, você sabia por quê? Ele chegou a contar?

R – Não sei, está aí eu não sei por que é Canela.

P/1 – Mas você estava falando então que já estava em Macaé, como é que foi essa mudança? Porque vocês estavam naquela loucura e em algum momento Macaé ficou pronta, não é isso?

R – É. O que acontece? A sede em Macaé estava ficando pronta, né? O porto já estava funcionando em Macaé e aí começou a vir o pessoal de Vitória pra Macaé, em Macaé não tinha aeroporto, tinha na verdade um aeroclube, a pista não era pavimentada, era de terra, de barro, né? Mas o pessoal queria colocar tudo junto, a operação toda em Macaé, então ainda em 1979 no final de 1979 teve um problema no aeroporto de Campos, porque lá o aeroporto tinha uma boa estrutura, a pista era pavimentada, mas lá tinha uma área que era próxima da pista e que era barro também e lá ventava muito. Então teve uma época lá que ventou muito pra você ter uma ideia o aeroporto fechou vários dias por poeira, ficava aquela nuvem de poeira não dava pra helicóptero decolar, pra avião decolar, o aeroporto fechava, igual nuvem mesmo, mas de poeira. E aí alguém chegou e falou assim: “espera aí entre barro em Campos e barro em Macaé vamos pra Macaé, porque lá a gente está próximo de toda nossa estrutura” e aí veio a decisão: “então vamos mudar barro por barro vamos pra lá.” Então a gente começou a mudança, aí eu e o José Henrique que folgava cada um num fim de semana, aí quando começou a mudança falamos: “vamos primeiro levar a troca, então vai Joel pra lá porque ele é macaense com uma parte da frota e você fica aqui.” Aí acabou a nossa folga, né? Enquanto não fez toda mudança a nossa folga acabou e ficou ele sozinho lá e eu sozinho em Macaé, mas depois ele foi também.

P/1 – E aí como vocês foram estruturando? Quando é que começa a chegar mais gente pra ajudar vocês?

R – Aí aconteceu o seguinte: no final... Essa mudança foi no final de setembro, em dezembro o José Henrique com essa nova estrutura em Macaé, ele foi convidado para chefiar o setor de transporte que aí envolvia não só o transporte aéreo, mas também o transporte terrestre, o setor de transporte. Aí ele foi convidado e aceitou e o que aconteceu? O Joel ficou sozinho, aí eu trabalhei dezembro tudo sozinho inclusive Natal e Ano Novo porque o transporte aéreo roda direto e janeiro todo sozinho, fevereiro tudo sozinho inclusive carnaval somente em março chegou o Canela pra trabalhar comigo. E nesse período de três meses, teve um dia que eu estava assim que não me aguentava mais, direto sábado e domingo, eu falei: “Zé Henrique, rapaz eu preciso de um dia pra folgar, porque eu não aguento.” Aí ele falou: “ta bom” pegou alguém lá que trabalhava no transporte e falou assim: “você hoje vai lá pro aeroporto dar folga pro Joel.” Era uma quarta feira, eu não me esqueço disso, eu falei: “tá bom, que dia eu posso”? “quarta feira, amanhã você está de folga.” Aí eu fui pra casa descansar, aí aproveitei a folga estava em casa ajeitando alguma coisa lá e tal, eu estava na escada ajeitando alguma coisa e aí daqui a pouco um carro buzinou lá na frente “Joel estão te chamando aí” aí cheguei lá e falei: “pois não” “olha, o Carlos mandou te buscar” eu falei: “Mandou me buscar”? “é mandou te buscar pra você se arrumar e ir pra lá.” Aí fui lá me arrumei e fui pra lá ”rapaz assume esse negócio aí eu não aguento que isso aqui é uma doideira eu não sei como você consegue trabalhar aqui”, ou seja, eu tive meio dia de folga. Meio dia pra ele foi o suficiente pra ele pedir arrego, aí continuei e em março chegou o Canela, o Canela chegou, ele veio de uma atividade aérea, mas não tinha nada a ver com helicóptero da Petrobras. Aí ainda ficou um tempo até ele pegar e passar, eu acho que mais um mês ele ficou trabalhando comigo lá até chegar um final de semana eu falei: “Canela esse fim de semana você fica aí e se complicar você manda me chamar, mas esse fim de semana você fica aí.” E a atividade foi crescendo foi aumentando o número de plataforma, foi crescendo o número de helicóptero, aí depois eu falei: “Zé Henrique eu preciso de mais gente” aí várias pessoas passaram por lá e alguns não aguentavam “isso aqui não serve pra mim, não posso ficar aqui não.” E até porque em Macaé de novo a gente ficava num balcãozinho e todos os passageiros tinham contato com a gente, teve um rapaz que foi trabalhar lá, era um excelente profissional, mas ele chegou, ele sentou assim na cadeira e eu estou lá fazendo programação para cada local e ele: “Joel o voo tal sai que horas?” e eu estou fazendo “Joel esse passageiro tal bota em qual voo?” Eu estou fazendo e ele falando “ah no voo tal” ele arregalou o olho assim “como é que você consegue fazer programação com esse pessoal toda hora te chamando e perguntando os negócios, eu não vou dar certo aqui não.” E realmente ele não ficou, um tempo depois ele falou: “eu vou pra outra área, isso aqui não serve pra mim.”

P/1 – Era tudo na mão Joel? Ou já tinha computador?

R – Não, nessa época não tinha computador, era tudo na mão, chegava o passageiro... E outra coisa hoje a gente tem todo um esquema de segurança, mas naquela época era assim: você chegava lá “ô Joel, Zé Henrique o senhor João da empresa América me mandou aqui pra embarcar pra PA6” ”ah ta bom, pode dar o nome ali” o outro chegava: “vou embarcar pra S10” “ah ta bom, dá o nome ali” não tinha requisição, não tinha nada na hora que ela chegava: “dá o nome ali” qualquer um que chegava lá “dá o nome ali.” Era assim não tinha essa... E aí de vez em quando a gente falava: “quantos já têm”?  “ah tem 15, tem 10” “deixa eu ver aqui as plataformas, não vamos fazer uma programação aí, vamos mandar algumas dessas pessoas embora.” Era assim, era tudo manual durante anos era assim. Aí depois foi crescendo a atividade, depois foi evoluindo e aí nós falamos: “agora vai ter que ter requisição, vamos acabar com esse negócio de qualquer um chega e vou.”

P/1- Adoro essas histórias desse pessoal segurança.

R – Aí falei: “vamos ter requisição” aí começou todo mundo a fazer requisição, vinha aquele papel, aí todo dia a gente recebia aquela maçaroca de papel lá e aí um para não sei onde, outro pra não sei onde. Aí você tinha que separar aquelas requisições todas e pedir o cara pra fazer um manifesto só que aí o cara numa requisição fazia um pra PA6 outro pra PA10 caramba tinha dois caras que tinha feito o manifesto. Aí juntava eu e o Canela e pegava a requisição e cortava assim a fitinha “olha, esse aqui é seu e esse aqui é seu” pro cara preparar o manifesto pro dia seguinte. Bom, esse foi o primeiro passo, a requisição depois a gente ficava doido, porque pegava uma mesa assim e botava aquele monte de requisição, porque começou a aumentar o número de plataforma, né? Não podia abrir a janela, porque os papéis voavam “fecha a janela” e a gente prendia lá aquelas requisições separar pra programar e a gente... “Rapaz a gente precisa controlar... Não dá pra controlar esse negócio com papel” aí um dia foi lá um rapaz lá da gerência de planejamento e perguntamos: “como vocês fazem”? “vamos fazer um trabalho aí.” Aí começou a fazer todo um levantamento, ele ia lá pegava nossa papelada, a gente explicava ele como funcionava, aí criaram um programinha que pelo menos digitava as requisições e depois a gente tirava uma lista, bom, aí agora pelo menos você tirava uma lista pra empresa A, uma lista pra empresa B e falava: “faz manifesto aí.” Então já foi um primeiro passo, mas a programação ainda continuava a mão, mas aí o tempo foi passando e foi evoluindo.

P/1 – Joel como vocês se comunicavam... Tudo bem que vocês foram pra Macaé, mas tinha alguém no aeroporto ou não precisava nessa época ter ninguém pra conferir nada já saía tudo certinho?

R – Então quando nós fomos pra Macaé a gente ficava no aeroporto, a gente fazia todo controle...

P/1 – Sim, mas o pessoal embarcava por Campos ainda ou não? Ou passou a embarcar por Macaé?

R – Não, passou a embarcar por Macaé quando foi pra lá o povo passou a embarcar por Macaé, só que lá em Macaé o que acontece? Como eu falei não era um aeroporto, era um aeroclube, então era um negócio era muito pequeno, né? Não tinha restaurantes, não tinha nada, não tinha estrutura nenhuma e detalhe quando nós chegamos lá nem linha telefônica tinha no aeroporto, não chegava lá a linha telefônica. Aí eu falei: “bom, tem que resolver, como a gente fala com a sede”? Aí mandaram lá pra gente uns radinhos que a gente chamava a central lá na Petrobras chamava no rádio o cara fazia uma ponte por telefone pra onde a gente queria falar “alô, câmbio e tal.” Aí uma vez uma senhora de tanto falar com o aeroporto “câmbio, câmbio” aí um dia ela chegou ao aeroporto pra embarcar virou pro Canela e falou assim: “quem é o senhor câmbio aí”? Aí tivemos que explicar pra ela, porque ela queria saber quem era o câmbio.

P/1 – Mas depois voltou, porque o embarque hoje não é por Campos?

R – Hoje nós temos embarque uma boa parte em Macaé e temos uma parte em Farol de São Tomé que pertence a Campos, isso aí anos mais tarde quando a operação explodiu que o aeroporto em Macaé já não dava conta aí São Tomé que pertence a Campos é um local estratégico que fica bem mais próximo das plataformas. Então construiu lá um heliporto, uma estrutura que pudesse atender uma parte da demanda, né? Inicialmente pretendia-se atender por lá dez mil passageiros e hoje se atende a 20 mil por aí. 

P/1 – E a Petrobras tinha helicóptero próprio ou não nessa época?

R – Não, sempre foi contratado

P/1 – Não existe um helicóptero que seja da companhia?

R – Não.

P/1 – Tinha uma coisa de transporte por lanche também não tinha Joel? Vocês não cuidavam disso?

R – Isso eu não sei precisar pra você quando foi, mas já anos mais tarde com o crescimento da demanda, então se contratou lanchas pra fazer uma parte do transporte por lancha, ficava na mesma gerência, né? Tinha a nossa gerência, aí passou a ter transporte aéreo, transporte terrestre e tinha um grupo que cuidava do transporte marítimo, então uma parte era transportada de lancha.

P/1 – Mas você sempre ficou mais com essa parte aérea, né? 

R – Eu sempre ligado a atividade aérea.

P/1 – Vamos entrar um pouquinho nessa coisa do Pré Sal, né? Aí você ficou 15 anos e depois...  Como foi a sua trajetória?

R – Apesar de gostar muito daquilo que eu fazia lá, mas chega uma hora que você fala: “eu quero mudar um pouquinho, chega desse tumulto, né?” E eu vinha falando pro meu chefe: “deixa eu ir pra outro lugar, deixa eu caçar outro canto por aí, eu quero fazer outra coisa e tal” “não, você não pode sair.” Aí até que um belo dia trocou o gerente lá e eu já fui dizendo pra ele “eu já estou um tempão tentando sair daqui e vou aproveitar que você está chegando agora vou logo falando eu quero mudar, 15 anos nesse negócio aqui, eu já não aguento mais, eu gosto disso aqui, mas quero fazer uma coisa diferente.” Aí ele falou assim: “não, é o seguinte: eu não vou te liberar não, mas eu tenho um plano aí pra gente mudar isso” aí passou um tempo, ele me tirou do aeroporto e me levou pro escritório “você vai trabalhar aqui na sede comigo” tinha ele e tinha outra pessoa “você vem trabalhar aqui.” Aí fui pra lá e pra quem estava acostumado com aquele tumulto, né? Aí fui pra lá e uma coisinha aqui e outra ali e eu falei: “cara o que eu estou fazendo aqui”? Aí eu falei: “rapaz, não tem nada pra fazer aqui” ele falava: “não, fica tranquilo rapaz.” Aí foi estruturando, foi estruturando, aí criou uma atividade de contato com o cliente, de apoio ao cliente e aí eu fui me envolvendo nisso e aí daqui a pouco chegou um ponto que eu já estava de novo... Mas tudo bem já era uma coisa diferente, então eu tinha contato com todo o pessoal. Aí nessas alturas do campeonato a gente já tinha um sistema legal de requisição e programação, aí não era só requisição, o cliente requisitava, o pessoal já acessava, programava e eu nessa época era o suporte do cliente, né? Quando tinha alguma dúvida e tal no sistema, eu era o suporte do cliente.

P/1 – Cliente? Quem é esse cliente?

R – Essa cliente... São todas as gerências que utilizam o transporte aéreo, que requisita o transporte aéreo, então eu tinha contato com esse pessoal todo. 

P/1 – De qualquer natureza que seja esse transporte?

R – Qualquer natureza carga, passageiro. Aí passei nessa atividade um tempo, depois ainda, assumir outra atividade que é a atividade de medição de contrato era da nossa gerência, não era antes, mas aí passou e eu passei também a supervisionar essa atividade do pessoal que fazia medição de contrato. Depois disso eu passei a ser gerente de contrato, aí já na parte de contrato de helicóptero, aí eu e um colega passamos a ser gerente de contrato. Então toda parte gerencial de contrato, a gente cuidava e aí fiquei nessa atividade como gerente de contrato uns cinco anos e depois surgiu uma oportunidade de trabalhar no desenvolvimento do modo logístico de um sistema que a Petrobras comprou, eu acho que vocês já sabem, a Petrobras comprou o R3 da SAP. E então esse sistema precisava ser customizado pra Petrobras e na área de logística, ele tinha algumas funcionalidades que não atendiam a gente que precisava de desenvolvimento complementar. E aí eles pediram: “olha, a gente precisa de alguém da área que conheça a atividade pra vir pra cá” no início o meu chefe não gostou muito da ideia, não queria que eu saísse e tal, mas aí depois eles pensaram: “não, a gente tem que mandar alguém que conhece as atividades se a gente mandar alguém que não conhece depois a gente não pode reclamar do produto que a gente vai receber de volta.” E aí me perguntaram: “você está disposto mesmo”? “estou, estou disposto.” Aí eu vim e fiquei um ano e meio lá direto, aí voltei pra Macaé e depois retornei pra ir fazer os testes e aí pra fase de implantação do sistema que aconteceu no Brasil todo, a gente andou rodando por aí implantando. E aí o tempo foi passando, passando e chegou um momento que eu falei assim: “oh, chefe eu quero ficar no Rio” porque aí chegou à época da minha filha ir pra faculdade e... Aí ele disse: “puxa, mas não pode, porque eu estou precisando de gente como é que eu vou te liberar”? Mas aí depois a gente chegou a um bom termo e acabei conseguindo minha transferência só que aí não me deixaram na atividade que eu estava, né? Porque o desenvolvimento já estava pronto já estava em produção, funcionando e falaram: “tudo bem, a gente vai liberar você, mas...”

P/1 – Eu queria que você contasse um pouquinho assim do sistema rapidamente, porque é sempre legal registrar como vocês contam, né? Que é o R3, né?

R – Então o que acontece? O R3 é um sistema parrudo, né? E ele é dividido em módulos, então você tem lá o módulo de RH, você tem módulo de produção, você tem módulo de projeto, tem módulo de inspeção. E na parte de logística, ele não tinha um módulo de logística, ele tinha um módulo que é serviço ao cliente que foi o módulo que a gente utilizou só que esse módulo tinha muita coisa que não atendia a gente. Então o que aconteceu? A gente pegou lá e falou: “olha, isso aqui atende, isso aqui atende, agora o que vocês têm mais lá que a gente não tem mais aqui”? Então a gente, eu e outro colega fomos pra lá com esse objetivo “olha, a gente precisa de tal funcionalidade" “ah, não tem” “então temos que desenvolver. 

P/1 – Vocês fizeram esse trabalho onde Joel?

R – No Rio, a gente ficava, eu não sei se você conhece tem um edifício chamado Ouro Negro que ele fica atrás do EDIBE [Edifício Horta Barbosa], um prédio ali, até onde funcionava a Golden Cross, então a gente ocupou ali, o projeto ficava quatro andares ali naquele edifício. E aí a gente desenvolveu.

P/1 – Aí tem que a fazer ajuste...

R – Fazer ajuste, a fase teste, implantou e depois que implantou já teve um monte de ajuste que foi feito, mas enfim o pessoal hoje usa esse sistema.

P/1 – Ta, então voltando, aí você queria ficar no Rio, depois eu quero falar da sua filha, da sua vida, mas agora eu quero saber como é que ajeitou isso?

R – Eu pedi então pra ficar e o que aconteceu? Eles não queriam me liberar, porque o que acontece? Eu sou da área de AIP [Aeronautical information Publication] serviço e o desenvolvimento do R3 é outra área na companhia, então eles não queriam que eu saísse da área, porque puxa você trabalhou nesse sistema e a gente aqui está usando esse sistema agora. Então se a gente precisa de um suporte você vai pra outra área “a gente investiu em você pra ter esse conhecimento e agora a gente vai perder você? Você que tem o conhecimento a gente vai perder.” Então eles não queriam me liberar pra outra área. Aí ficou um tempão essa negociação “vai, não vai” até que um dia eles definiram a minha vida, a minha gerência geral que fica em Macaé criou aqui no Rio de Janeiro uma atividade nova que é onde eu estou hoje que é o CCTA que é o Centro de Competência Técnica em Aviação. E aí quando criou, eles começaram então a recrutar o pessoal pra essa área e aí me ligaram e falaram: “olha, você que queria ficar no Rio de Janeiro, a gente tem essa atividade e a gente queria contar com você lá, o que você acha”? Eu falei: “pra mim sem problema se é pra ficar no Rio está tudo certo, está fechado” aí...

P/1 – Porque é uma coisa nova Joel? É isso? O CCTA é novo?

R – É novo, fez dois anos esse ano.

P/1 – E o que faz o CCTA?

R – Bom, o CCTA é o seguinte: ele foi criado com o objetivo de dar suporte pra atividade aérea no Brasil todo e não apenas dar suporte, tem outras responsabilidades, por exemplo, o CCTA, ele... A gente está finalizando agora alguns manuais pra aviação, então a gente tem o manual de manutenção de aeronave, um manual de operação de voo, um manual de sistema de gerenciamento da atividade aérea, um manual de resposta e emergência. Então esse trabalho visa o quê? Elevar o padrão de segurança da atividade aérea no Brasil.

P/1 – E padronizar de certa forma todas as atividades, né? Porque ele atende o Brasil inteiro é isso?

R – Isso. O que acontece é o seguinte: uma coisa assim que eu me orgulho na Petrobras é que eu vejo que a alta administração da empresa, ela está sempre preocupada com algo mais. Então nós não teríamos necessidade de ter um desenvolvimento desses manuais, a Petrobras não teria necessidade de estar se metendo nessa questão, por quê? Porque todas as empresas que operam para a Petrobras, elas são registradas, elas têm autorização pra voar, tem registrada a área de manutenção, elas têm capacidade, né? São cadastradas pra fazer a manutenção da aeronave. Então legalmente todos estão dentro das normas pra atender a Petrobras só que a Petrobras, ela sempre quer algo mais, então hoje já há alguns anos a Petrobras não se satisfaz só com o que é legal, né? Então a Petrobras, ela vem se atualizando naquilo que há de mais moderno e de melhor no mercado internacional e incorporando aos nossos contratos, né? Colocando como requisito nos nossos contratos.

P/1 – Mas o CCTA só faz isso? 

R – Não tem outras coisas, tem um programa, vocês já devem ter ouvido falar que é o programa de excelência operacional em transporte aéreo e marítimo, no nosso caso a parte aérea é conosco. Então esse programa é tocado pelo CCTA, esse programa é composto de auditorias nos processos das empresas, essa auditoria acaba levando a empresa depois em função das pendências gerar um plano de ação. Então esse programa visa aumentar, vamos dizer assim, aumentar a capacitação do nosso fornecedor, né? A gente quer uma qualidade dele maior do que aquilo que ele oferece e aí a gente teve uma rodada de dois anos de auditoria num primeiro momento, né? Aí agora a gente já está numa segunda rodada que já é olhando para os novos manuais, então a gente agora está indo lá e: “olha, nós agora queremos esse padrão aqui, nós temos esses manuais e queremos esse padrão. Então a gente está vindo aqui pra ver onde é que você está em relação a esse padrão” então vai lá e fala: “olha, o nosso padrão é esse e você está aqui, então a gente quer que você chegue até aqui.” Então de novo gera pra ele alguns deveres de casa, um plano de ação que ele tem que cumprir pra atender esse novo padrão. 

P/1 – E Joel essa coisa do pré sal desde a descoberta isso teve algum impacto no trabalho de vocês? Porque vai exigir uma nova programação, né?  

R – Vai. Eu até quero falar um pouco mais global, porque a Petrobras, ela já vem há algum tempo mesmo antes até de a gente estar no ponto que está hoje, né? Que é o pré sal, mas já um pouco antes a Petrobras vem trabalhando no sentido de aumentar a segurança e a qualidade de serviço dos nossos fornecedores. O pré sal ele traz um desafio adicional, porque se a gente antes já vinha colocando um maior rigor e mais requisito nos contratos, o pré sal ele tem um desafio maior que é o seguinte: nós temos maiores distâncias no pré sal, então nós temos área aqui no pré sal que a distância chega a mais de duas vezes do que algumas distâncias na Bacia de Campos. Então o que acontece? Nós temos que garantir voar com segurança para essas distâncias e transportar os passageiros que é o que a gente precisa só que aí entra um fator que é o seguinte: o helicóptero mesmo... Vamos pegar aqui um modelo, um helicóptero médio de 12 passageiros, nem sempre ele consegue levar 12 passageiros por quê? O helicóptero cada modelo tem uma limitação de peso, então ele tem o que a gente chama de peso máximo de decolagem. Então se, por exemplo, um helicóptero tem um peso máximo de cinco mil quilos pra decolar, esse é o peso máximo incluindo inclusive o peso dele, então vamos imaginar: se o helicóptero pesa dois mil e quinhentos quilos sobram dois e quinhentos só que desses dois e quinhentos, uma parte é o combustível, aí o que sobra é o que eu vou levar de passageiro ou carga e aí o que acontece? Quanto mais longe maior quantidade de combustível e menos capacidade de transporte de passageiro ou carga, né? Então a gente tem esse desafio adicional que é o quê? Especificar e colocar requisitos de aeronaves que voam pra essa distância com segurança e que a gente consiga transportar uma quantidade razoável de passageiro.

P/1 – Só pra gente dimensionar Joel se é que é permitido, qual seria assim essa distância ou tempo mais ou menos? Só pra gente ter uma imagem na cabeça?

R – Olha, a gente tem hoje área no pré sal que chega a quase... Chega a mais de 300 quilômetros de distância.

P/1 – E que daria em tempo de voo...

R – Em tempo vai dar mais de duas horas e meia de voo entre ida e volta.

P/1 – Ah entre ida e volta num helicóptero que é uma coisa que teoricamente, eles têm uma autonomia reduzida? Quer dizer tem que fazer esse cálculo que você diz, né?

R – Tem que fazer, então a gente tem modelos de helicóptero que faz isso, que atende isso perfeitamente, mas existem outros modelos que não atendem que ele até vai lá e volta, mas chega aqui e “ufa, está acabando o combustível.” Então esse...

P/1 – Ou com vai e volta, mas com uma capacidade menor de repente, né?

R – Exatamente. Então você tem que especificar corretamente, você tem que colocar muito claro “eu preciso de helicóptero que vá a uma distância tal e que transporte o mínimo de tantos passageiros.” Porque se não o cara diz: “tá bom, eu tenho um helicóptero aqui o tanque dele não cabe muito combustível, mas eu vou colocar um tanque adicional pra levar mais combustível" Ah tá e os passageiros? “ah, vou levar dois” então não serve. Eu vou pagar um dinheirão pra levar dois ou três passageiros, não vale a pena.

P/1 – Esses contratos normalmente com empresas, eles são anuais? Ou eles têm um tempo maior?

R – Eles variam, a gente tem contrato hoje que chega... Tem contrato de cinco anos, três anos.

R – Mas com uma fiscalização permanente de vocês, né? Não é coisa de o cara pegar assim cinco anos e ficar tranqüilo?

R – Não.

P/1 – Vocês estão lá em cima o tempo todo, né?

R – É como eu falei, né? Eu não estou mais nessa atividade, mas existe um gerente pra cada contrato desses.

P/1 – Sei. E há uma previsão inclusive de crescimento, né? Quer dizer vocês têm hoje determinados pontos, mas provavelmente...

R – Inclusive a gente tem dentro da (USTA?) dentro da (IP?) serviço, tem grupos aí estudando toda essa parte de logística, não só a parte aérea, mas marítima também tem grupo estudando isso aí, porque isso vai crescer tremendamente, né?

P/1 – Há uma integração, né? Entre o pessoal que está descobrindo os campos com vocês também, né? Em algum momento isso tem que...

R – Sim, porque se não... O que acontece? A fabricação de um helicóptero desses leva aí mais de um ano. Então quando você hoje contrata um helicóptero “ah, eu quero contratar um helicóptero novo” aí vai entrar na fila de produção, né? “ah, eu vou te entregar daqui a dois anos" então se você chegar pra mim hoje e dizer assim: “olha, a gente vai começar a operar um campo novo aqui e precisamos de helicóptero pra mês que vem” isso não existe, né?

P/1 – Mas também eu acho que deve haver certa... Há uma contrapartida, estou chutando “ah, eu descobri tal campo em tal lugar a tal distância” se não houver também como chegar lá...

R – Ah, sim claro também não vai adiantar.

P/1 – Quer dizer então há uma necessidade muito grande desse pessoal da descoberta conversar com o pessoal da logística o tempo todo, não é Joel?

R - Com certeza, até pra saber, né? “vocês conseguem chegar lá”? “conseguimos” “em quanto tempo você me coloca um recurso aqui pra atender”? “dois anos, um ano e tal, então ta bom. O pessoal tem que ter essa informação se não...

P/1 – Até pra tomar uma decisão, né? Vai de helicóptero ou vai com outro tipo de transporte, né? Porque isso também pode acontecer, não é Joel?

R – É. O que acontece? Não sei, mas de repente pode chegar um dia que vão descobrir numa região “olha, no mercado não tem helicóptero que consiga chegar lá” de repente eu estou falando uma tremenda besteira, né? Mas vai ter que se estudar uma maneira de chegar ou tentar desenvolver o mercado pra um novo modelo de aeronave ou um tipo de embarcação rápida, eu não sei estou aqui pensando...

P/1 – Mas o que é interessante é que também me ocorreu isso agora, quer dizer as coisas são muito juntas, né? Nunca havia feito essa relação entre descoberta com a logística...

R – Não só com a logística, com tudo aquilo que vai ser necessário pra desenvolvimento de um campo desses, tem que andar tudo junto ali e estudos novos, né? A gente tem aí o CENPES [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello] que faz estudos, estruturas das plataformas pra operar num lugar desses. Então tem áreas que eu não entendo aí, mas tem todo um conjunto de coisas que tem que ser...

P/1 – Mas é legal porque também acho que isso é uma característica da Petrobras, a montagem desses grupos de estudo, não Joel? Parece que tudo é um pouco bem compartilhado, né? 

R - E não só essa questão do grupo de estudo, a Petrobras...  E eu me orgulho disso, porque eu sou de um tempo que eu vejo o crescimento da empresa e vejo como os profissionais atingem um grau de conhecimento tão elevado, né? Eu sou de um tempo em que ainda lá em Macaé eu recebia solicitação assim: “Joel, deixa um helicóptero aí reservado às 12 horas porque está chegando um técnico dos Estados Unidos ou não sei de onde que ele tem que embarcar imediatamente, porque a sonda está parada.” Então trazia um cara lá de fora, o cara chegava no Rio a Petrobras fretava um avião pra levar o cara em Macaé e chegava lá tinha um helicóptero exclusivo esperando por ele pra chegar o mais rápido na plataforma pra poder ele resolver o problema lá... [troca de fita] (...) aí quando chegou lá trouxeram o cara “o que aconteceu, rapaz?” “não, eu não voo naquele negócio não” “rapaz você não disse que queria trabalhar na plataforma?” “Ah não, mas eu pensei que a plataforma era aqui” olha a ideia do cara, ele pensou... Ele via o pessoal embarcar, ele pensava que a plataforma era ali pra dentro do aeroporto, quando entrou no helicóptero, ele saiu correndo, né?

P/1 – Era até uma parte que eu estava deixando pro final, você deve ter mil histórias, né? De medo que o pessoal passou, né?

R – Tem muita história.

P/1 – Então Joel retomando aí, a gente estava falando... Quer dizer o CCTA não cuida, aliás, ele cuida do Brasil inteiro e aí você estava me explicando que o pré sal evidentemente quando chega já está tudo estruturado é isso? 

R – É isso. Na verdade o pré sal trouxe um desafio a mais, mas a Petrobras já vinha caminhando no sentido, vamos dizer assim, de elevar o nível da operação, né? Então quando o pré sal chegou, a gente estava já meio que estruturado pra atender o pré sal, teve um requisito a mais? Teve, essa questão das distâncias que a gente teve que incluir essa questão aí, mas a parte assim de voar pra longa distância com segurança, com acompanhamento de voo, isso quando o pré sal chegou isso já estava definido esses requisitos para esses contratos. Então hoje isso já está fazendo parte não só dos contratos que vão operar no pré sal como a Bacia de campos também. Então só pra você ter uma ideia hoje já é requisito contratual um equipamento que por satélite você consegue acompanhar o voo durante todo o tempo, então você pode inclusive configurar “eu quero receber informação a cada dois minutos.” Então a cada dois minutos o sistema está lá “eu passei em tal ponto” aí vai marcando os pontos que a aeronave vai passando durante aquele trajeto. Outro sistema é anticolisão é um equipamento que o piloto recebe informação “olha, você tem a aeronave se aproximando.” Então quer dizer são equipamentos de fato de última geração que hoje são requisitos contratuais e isso visa garantir o voo com segurança e voar pra uma distância maior tendo acompanhamento do voo.

P/1 – Essa coisa de pegar o vento que você contou dos primeiros tempos, isso ainda existe?

R – Não, com os equipamentos isso não existe mais, né?

P/1 – Ele nunca perderia pelo tempo, né?

R – De jeito nenhum.

P/1 – E Joel me diga uma coisa, quando você casou? No meio dessa confusão toda? Como achou tempo?

R – Olha, foi complicado, porque... Eu casei cedo, né? Eu casei na época que estava tudo fervendo, né? E inclusive aqueles três meses que eu falei três, quatro meses que eu trabalhei direto sem folga, eu já estava casado. Então foi difícil, a minha esposa, né? Às vezes ela me acordava no sofá “puxa, você chegou aí deitou, acorda vai tomar banho e vai dormir” porque naquele período eu chegava em casa super cansado, eu sentava no sofá e apagava, né? Ela que me acordava pra tomar banho, pra jantar e...

P/1 – Como chama a sua esposa?

R – Sara.

P/1 – E você a conheceu onde?  

R – Eu a conheci na escola, eu estudei com ela em Macaé na última série antes do segundo grau, a gente estudou um ano junto e no ano seguinte a gente foi estudar em turmas diferentes, não, aliás, eu estudava a noite e ela passou a estudar de manhã, aí a gente perdeu contato e tal. Aí de vez em quando a gente se via e acabou rendendo.

P/1 – Rendeu um casamento, né? Você tem filhos Joel?

R – Tenho três filhas e um neto.

P/1 – Ah, um netinho já? 

R – Está com um ano e três meses.

P/1 – Que gostoso. Como chama o netinho?

R – Micael.

P/1 – E as meninas como chamam?

R – A mais velha é Márcia, a do meio é Vanessa que é a que está fazendo Medicina aqui no Rio e a Íris que é a mais nova.

P/1 – Tá e o Micael é filho...

R – Filho da Márcia.

P/1 – E vocês estão todos aqui no Rio hoje?

R – Não, a Márcia mora em Atibaia em São Paulo, né? Perto de Campinas.

P/1 – De vez em quando então tem que ir pra lá?

R – De vez em quando, aliás, esse final de semana próximo eu vou lá.

P/1 – Ah que bom. E Joel você tem hora de lazer hoje ou ainda continua nessa loucura?

R – Tenho. Hoje eu trabalho numa atividade que não rodo fim de semana, né? Então eu trabalho no administrativo de segunda a sexta e sábado e domingo é por conta do lazer, de ir a igreja, enfim...

P/1 – O que você gosta mais de fazer? Ler? Ver filmes? Pescar?

R – Eu na verdade sou muito caseiro, mas fim de semana a gente sempre sai pra alguma coisa e a esposa também fica em casa a semana toda e fim de semana ela fala: “chega de...” às vezes eu brinco com ela, né? Porque ela fala assim: “ah, a semana toda em casa” e eu falo: “puxa e eu a semana toda fora de casa”, mas é claro é brincadeira.

P/1 – É assim mesmo, né? Agora eu queria algumas histórias, conta algumas, vai? Além do senhor câmbio, além do cara que teve medo de helicóptero?

R – Teve uma, isso foi um fato real, eu acho que às vezes a gente peca porque a gente trabalha muito e às vezes não faz a divulgação correta, não faz um marketing do nosso trabalho. A Petrobras tem um contrato com uma empresa de assessoria que ela faz periodicamente auditoria de manutenção nos helicópteros só que isso às vezes as pessoas não sabem, isso às vezes não é muito divulgado. Uma vez um passageiro estava indo embarcar e ele viu um mecânico com um rolinho assim de arame, aí ele embarcou e quando chegou na plataforma ele falou: “olha, ninguém me contou não, eu vi mecânico fazendo armengue com arame no helicóptero.” Aí aquilo na plataforma, né? “puxa o cara viu com arame” só que nessa plataforma tinha uma pessoa lá que era da área administrativa e me conhecia, ela foi e ficou assim surpresa, ela foi e me ligou “Joel, o cara falou que viu o piloto fazendo armengue no helicóptero com arame, eu estou te ligando porque eu achei isso esquisito.” Eu falei assim: “olha, você fala pra ele o seguinte: ele viu e é fato e se chegar aqui a empresa que faz a auditoria se encontrar alguns pontos ali sem aquele arame, o helicóptero não decola.” Porque têm alguns pontos na aeronave eles usam arame de freno, então você parafusa e pra garantir que mesmo que ela folgue pra não sair, você amarra um arame, tem um arame de freno. Então ele chegou à plataforma dizendo que o cara estava fazendo uma gambiarra lá com arame, então eu falei assim: “você esclarece pra ele que se não tiver esse arame o helicóptero não pode voar.”

P/1 – Arame de freno?

R – Arame de freno.

P/1 – E o outro é armengue, o que é um armengue?

R – Eles chamam de armengue o seguinte: você estar fazendo uma coisa indevida, né? Uma gambiarra “ah, está fazendo uma gambiarra” está fazendo um negócio lá que “ah, o cara não tem o parafuso lá, não tem equipamento, então põe arame no lugar” é isso que ele queria dizer.

P/1 – Joel 20 anos, não 30 anos de Petrobras, né? Um momento que te marcou assim muito?

R – Olha, tem vários momentos assim que me marcaram, momentos assim de... Por exemplo, eu falei no início que a gente trabalhou muito assim com papel, né? Então a gente teve um sistema assim muito legal que foi desenvolvido pra atividade aérea, eu participei passando os requisitos, o que a gente precisava, foi desenvolvido pela TI [Tecnologia da informação] lá em Macaé e foi muito bom quando a gente implantou esse sistema, foi um momento assim muito legal, as pessoas da atividade... Porque todo sistema quando você começa a usar, você começa a identificar algum problema que precisa de ajuste, né? Então o pessoal, você vê o pessoal estava acostumado com um negócio mais a mão quando foi passar o sistema muita gente falou: “esse negócio não serve está dando problema, está vendo e tal.” então eu que ficava lá no aeroporto acompanhando a implantação e falando pras pessoas: “não, pessoal, calma aí” o que aconteceu? “Vamos com calma isso é assim mesmo a gente ajusta, vamos ver o que está acontecendo” e levava o pessoal da TO e falava: “está acontecendo isso é preciso ajustar e tal.” E depois esse sistema virou uma cachaça, né? Quando entrou o módulo de logística do R3 o pessoal falava: “puxa o STA [Supremo Tribunal Administrativo] era tão bom e não sei o que...” eu disse assim: “está vendo quando a gente implantou o STA vocês reclamavam que ele era uma porcaria e agora vem o R3 vocês reclamam que não podem dispensar o STA, porque era muito bom é a mesma coisa gente, vamos ajustar, vamos passar por dificuldades momentâneas, mas daqui a pouco ele está redondinho, está funcionando.” Então assim a parte de implantação do sistema foi um momento muito bom, eu me considero uma pessoa bem sucedida na empresa dentro da minha carreira, né? Eu venho galgando as etapas e uma coisa muito boa, a última prova que eu tive que fazer na Petrobras pra mudar de função, eu sentei lá pra fazer a prova, eu tinha estudado muito com outro colega que trabalha junto comigo... Isso foi uma coisa muito legal, porque eu estava fazendo a prova assim com muita tranquilidade, com muita consciência, os conhecimentos estavam todos na ponta da língua só que essa prova foi aplicada a nível nacional e tinha um coordenador regional aplicando a prova. Aí chegou uma questão que fui tentar resolver e não chegava a um resultado, eu chamei o coordenador e disse: “olha, eu preciso de uma confirmação, essa questão aqui pra ser resolvida está faltando informação, eu quero saber se esqueceram alguma coisa ou se é isso mesmo? Porque se for eu já tenho a resposta, não tem como resolver.” Aí ele falou: “só um minutinho” aí ele foi e ligou pro coordenador que ficava aqui no Rio e tal e depois ele volta e fala assim: “pessoal a questão número tal, está faltando tal informação, acrescenta aí, por favor.” Aí tiveram que sair ligando pro pessoal do Brasil inteiro pra poder acrescentar a informação, isso é uma coisa assim... Eu me considero uma pessoa muito realizada, né? Teve uma época que eu pensei em sair da área de logística e ir pra área contábil, não obtive sucesso, mas eu me considero uma pessoa realizada na empresa naquilo que eu tenho feito. Já estou próximo aí de me aposentar, mas levo aí uma bagagem de muitas aventuras e com a certeza que dei minha contribuição aí pra tudo que aconteceu. 

P/1 – Com certeza. Joel o que você acha dessa ideia do Projeto Memória Petrobras, de ouvir as pessoas, registrar essas histórias?

R – Olha, eu acho essa ideia... Quem teve fantástica, porque a gente nunca foi muito de registrar as coisas e especialmente naquela época pioneira, puxa muita coisa aconteceu e as pessoas queriam resolver “vamos fazer, vamos fazer” e isso ficou, né? Então isso está na cabeça de algumas pessoas, vira e mexe alguém fala: “ah, vou escrever um livro”, mas mesmo que alguém queira escrever um livro, ele vai escrever da área dele, né? E esse projeto não, vocês estão pegando pessoas de todas as áreas, você vai conseguir realmente montar uma história da empresa, né? Então eu acho assim importantíssima, história é fundamental. 

P/1 – Legal. Foi tranquilo dar o depoimento? Foi bacana ou não?

R – Eu fiquei um pouquinho inquieto aqui, mas...

P/1 – Deu pra contar, né? Tem alguma coisa a mais que você queira deixar registrado Joel? Porque eu acho que a gente falou de tudo, né?

P/2 – Eu quero que ele me diga, porque eu fiquei com uma curiosidade, dentro desse contexto que você... Dessa história que você narrou aí dos primeiros anos lá trabalhando com os helicópteros, né? Quando foi a primeira vez que você andou de helicóptero?

R – Ah quando foi? Foi cedo, com menos de seis meses eu já tinha rodado de helicóptero e nenhum problema, tem muita gente que tem medo de andar de helicóptero, né? Eu não tenho nenhum problema talvez até por estar trabalhando no meio e saber como a coisa funciona, não tenho nenhum problema. Já várias vezes fui à plataforma, as pessoas até acham estranho porque já teve caso assim de voos mais longos que eu fui, eu durmo no helicóptero, o pessoal fala: “você dorme”? “durmo” “eu não sei como você consegue”? Não tem nenhum problema é tranquilo. 

P/1 – Dormir no helicóptero é...

R – Voo assim de 50 minutos, uma hora eu já dormi, eu cochilei, tem gente que fica... A minha esposa tem um medo terrível, né? Uma vez a gente viajou a noite, aí eu falei: “ah, não estou nem aí“ estiquei o banco e dormi, ela ficou o tempo todo acesa, aí quando estava chegando, a gente estava indo pra Manaus quando estava chegando ela falou: “está chegando, está chegando” porque estava o avião fazendo procedimento de pouso, ela me acordou e eu falei: ”você não dormiu”? “Eu não, está doido.” Eu não tenho nenhum problema não.

P/1 – Então tá bom. Então tá Joel”, obrigada por você ter contribuído, compartilhado a tua história com a gente.

R – Esse momento assim é um momento que a gente fica meio inquieto, meio tenso assim, mas acho que deu pra contar alguma coisa, mas certamente depois que eu for embora eu vou falar: “poxa eu devia ter falado aquilo.”

P/1 – Certamente você vai lembrar, mas nós estamos ai dá uma ligada qualquer coisa a gente registra também.

R – Eu agradeço vocês aí pela oportunidade, espero que possa realmente ter contribuído pra Memória Petrobras. 

P/1 – Certamente contribuiu. Obrigada.             


---FIM DA ENTREVISTA ---            


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