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História

Brincadeiras de Roda em Lençóis

História de: Rosalina Pereira dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/05/2008

Sinopse

A história do próprio nascimento, com o rei batendo à porta, o povo sem querer cantar porque Etelvina tinha parido de pouco. As lembranças da roça e da pesca, do garimpo e de pai empunhando a palmatória. Mané Rico pedindo que é pras irmãs cantarem, em troca de quatro tostões. A festa bonita do casamento, quatro filhos já nascidos, oito noites de folguedo, com novena e sanfoneiro. As Caminhadas com o Griô, as cantigas lembrando a cantoria da infância, cantigas daquele tempo e outras aprendidas. A beleza da entrada na escola, já cantando, já dançando, e as crianças aplaudindo.

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História completa

Eu nasci em 1928, fevereiro, uma quarta-feira. Eu fui nascendo e o rei foi batendo na porta. E o povo não queria cantar não, que mãe tinha parido. Mas ela disse: “Não, pode cantar!”. E assim, eu fui nascendo, o rei foi chegando e o povo foi cantando.

Mãe chamava-se Etelvina. Etelvina trabalhava na roça, que, naquele tempo, era o único lugar onde a mulher podia trabalhar, além da casa. Não é como hoje, que cada qual labuta num lugar. Pai chamava João, também era da roça, depois da pesca, e todo o tempo foi do garimpo. Pegava os diamantes e vinha, orgulhoso, mostrar em casa. Só que com muito cuidado, porque o diamante, se ele cai no chão, acha mais não: “encanta no chão mesmo”.

Eu era danada, acompanhava pai no garimpo, pescava com anzol e ainda tinha o meu serviço na roça. E, à noite, brincava de roda, ia cantar as cantigas de roda.

Uma coisa que guardei na lembrança foi a tal da palmatória. Pai não era de bater não, mas quando pegava a palmatória… Outra lembrança era a lenha que, todo dia, ia buscar pra cozinhar. E outra ainda, era a roupa que lavava lá no Serrano: mais tarde, levava a fileira de filinhos comigo e trazia as trouxas - não tinha carrinho não, era bacia na cabeça. Só que, antes, deixava quarar e secar na pedra. Depois eu casei. Quer dizer, no início, “ajuntei”. Só depois de quatro filhos é que teve o casório, oito noites de festa - trabalhava de dia e de noite ia vadiar. Vadiar quer dizer sambar, comer e beber. E a brincadeira ia longe - tinha até sanfoneiro. Eu sempre pedi a meu Deus pra casar, ou seja, “juntar na beira de um toco pra não precisar viver com a cuia na mão, pedindo a um e a outro”.

E hoje o meu orgulho são essas Caminhadas que a gente faz com o Márcio, o Mestre Griô. A gente canta, ele puxa, algumas canções são bem antigas, outras a gente aprendeu a cantar:

Ô, mulher rendeira,

ô, mulher rendá

você me ensina a fazer renda,

que eu te ensino a namorar.

Lampião desceu a serra

vai de Cajazeira

pra caçar mulher bonita

pra cantar mulher rendeira.

Ô, mulher rendeira

ô, mulher rendá

você me ensina a fazer renda

que eu te ensino a namorar

E tem, também, aquela da Gabiraba, que fala “meu chapéu caiu”, e que eu canto junto com Lina. Essa é daqui, dessa região do Remanso, que nós aprendemos criança ainda.

E uma outra que costumo cantar mais Lina é essa daqui:

Periquito do Maracanã,

cadê sua iaiá?

Periquito do Maracanã,

cadê sua iaiá?

Faz dias que eu não vejo ela passar

Faz um ano, faz um dia, que eu não vejo ela passar

Quando eu era pequena, eu cantava junto com Maria, minha irmã. Tinha um garimpeiro dos bons, o Mané Rico, que ia lá em casa pedir a pai pra nós cantar. Ganhava quatro tostões, não era de graça não.

Agora, sobre as Caminhadas, a gente quando chega, por exemplo, nas escolas, já chega cantando com o velho Griô. As crianças levantam, batem palmas, é uma beleza!. Eu acho o trabalho dele uma maravilha. Tem as Caminhadas, depois a gente senta, vai prosear, vai cantar, é sempre bem recebido. Acho uma bênção de Deus, deixa a gente muito feliz, que a gente não tem vista mas tem voz. Às vezes eu ensino pras crianças alguma coisa de erva, fazer chá, fazer remédio. E assim a gente vai, cada dia mais descobrindo a lindeza do Griô. E a gente recebe deles carinho, ajuda pra nós e pra nossa família. É o que eu digo: Deus promete e não falta!

 

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