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História

Brincadeiras de criança

História de: Regiane Maria Sabino da Silva
Autor: Érika
Publicado em: 17/06/2021

Sinopse

Infância em Seberi. Brincadeiras com o pai e os irmãos. Liberdade de correr e de brincar. Incentiva os pais a oferecerem espaço adequado, que permita seus filhos a brincar. Acredita que a criança se transforma quando faz parte de um ambiente acolhedor. Considera importante a motivação, o incentivo e a persistência.

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História completa

Projeto Instituto Camargo Corrêa Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Regiane Maria Sabino da Silva Entrevistada por Fernanda Prado Ipojuca, 05 de maio de 2011 Código: ICC_HV029 Transcrito por Ana Carolina Ruiz Revisado por Caroline Cristine da Silva P/1 – Regiane, queria começar pedindo para você falar para a gente seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R – Meu nome é Regiane Maria Sabino da Silva. Fala o local do nascimento? P/1 – Isso. R – Eu nasci no Paraná, mas estou em Pernambuco há dezesseis anos. P/1 – E a data. R – A data é 18 de janeiro de 1964. P/1 – Qual é o nome dos seus pais, Regiane? R – O nome do meu pai é Antelmo Sabino da Silva e o da minha mãe é Darci Souza da Silva. P/1 – E eles são lá do Paraná? R – Não. Eles são do Rio Grande do Sul, do interior do Rio Grande do Sul. Meu pai é de Estrela e a minha mãe é de Santa Clara. P/1 – E você sabe como eles foram parar lá no Paraná? R – No Paraná eu sei que foi sugestão do meu pai, porque os outros irmãos dele já tinham ido, disseram que era uma cidade... Realeza, onde eu nasci, era uma cidade que estava crescendo muito e tinha muita oferta de emprego. E o meu pai era construtor na época, então incentivaram muito ele a ir. Foi nossa família, que saiu do interior do Rio Grande do Sul e mais outras famílias que foram para lá. Mas a gente em dois anos já retornou de novo para o Rio Grande do Sul. E as outras famílias que foram com a gente ainda estão lá. P/1 – Então você só nasceu lá? R – Eu nasci no Paraná e depois fiquei até os dezessete anos no interior do Rio Grande do Sul. Em seguida fui para a capital e para o litoral do Rio Grande do Sul e há dezesseis anos vim para o litoral do nordeste, fugi do frio. P/1 – Então deixa só eu entender, como era a sua casa de infância? Quantos irmãos você tem? Se você tem irmãos. R – Então, minha casa eu me lembro assim, como uma casa muito grande e movimentada, porque nós éramos dez irmãos, são quatro mulheres e seis homens. Lembro-me das reuniões na hora do almoço, que nosso pai insistia muito que todo mundo estivesse lá. A gente sempre fazia oração e essas coisas me marcaram muito. O brincar também, me chamava muita atenção, porque tinham muitas possibilidades de brincar. O pai brincava com a gente, a mãe não tinha tempo, porque dez filhos ela tinha muita ocupação. Então me lembro dessas. Recordação boa é isso, o junto na mesa, um sinal dele, uma batida no prato, um assovio e tinha que estar todo mundo ali a postos, quem chegasse por último é quem fazia a oração do dia. E tinham os finais de semana também, de sair para o interior, comer fruta, ir para os rios, para os lagos. A gente fazia essas histórias todo mundo junto, uns iam de bicicleta, outros de carro, mas a ideia de final de semana era sair mais do interior ainda, porque já era interior, buscávamos mesmo rio, árvore e frutas. P/1 – Em que cidade era? R – Era Seberi. Seberi é um nome indígena, significa rio de pedras preciosas. Havia índios morando lá, mas a população diminuiu muito, na época em que eu estava lá, tinha de vinte e dois mil a trinta mil e diz que agora não chega a dez mil. Eu brinco com o meu irmão, porque ele sempre fazia o censo e esse ano ele não fez, aí eu perguntei: “Poxa, por que tu não fizeste o censo e ia ganhar um?”. Ele ainda é o único que mora em Seberi dos meus irmãos. Ele disse: “Mas eu vou fazer com quem? Seberi está desaparecendo”. Porque a pessoa vai em busca de estudar, de trabalhar e cidade do interior, geralmente, não tem isso. P/1 – Regiane, você falou do momento de brincar, do que você brincava com seus irmãos? R – Era brincadeira de correr mesmo, de se esconder... Meu pai, como carpinteiro, fazia aqueles carrinhos, os “vai e vem” ...andar de bicicleta a gente fazia muito. Ao lado de nossa casa tinha uma serralheria, então tinham aqueles morros de serragem que subíamos aquelas “toras”, ficávamos pulando de uma “tora” para outra, havia essa liberdade de subir... Meu pai mesmo, era o único que mandava. As pessoas sempre que vêem criança na árvore mandam descer, já meu pai mandava subir: “Vai, vai que tu consegues”. Ele fazia o contrário. Então essa liberdade de correr, de brincar marcou bastante a minha infância. Acho que isso é que me leva hoje, a incentivar os pais a darem esse espaço para as crianças brincarem, acho fundamental incentivar e garantir o direito de brincar. Infelizmente as crianças de hoje não têm um espaço adequado, principalmente aqui, pessoas que visitamos, não existe um lugar, um espaço adequado para crianças brincarem e isso não é bom. P/1 – E voltando a falar da sua infância, qual a sua primeira lembrança da escola? R – Da escola o primeiro dia mesmo, é um dia inesquecível. Eu me lembro de que eu tinha um cabelo muito comprido, uma franja, na época me chamavam de índia. Eu mesma me achava parecida com índia. Era muito magrinha e como... Eram ao contrário as filas, quem era mais alta ficava na frente, os mais baixinhos atrás, então eu ocupava os primeiros lugares na fila e como eu tinha um cabelo comprido, todo mundo passava por mim, ou dava puxãozinho no cabelo, ou fazia alguma referência com meu cabelo. Mas gostava muito de ir para a escola e ficava muito próximo da minha casa, tanto que a merenda, eu sempre esperava lá no portão o pessoal me levar, na hora do recreio, esperava a merenda lá no portão. P/1 – E teve algum professor que te marcou? R – Teve. Eu tive a sorte de, em um dos colégios que estudei, por exemplo, a diretora ser a minha tia, então eu me sentia muito em casa com isso. E teve outra, Alzira ______, foi quem me alfabetizou. Ela tinha uma fama de ser muito severa e brava, mas vi depois que ela foi muito importante para mim. Me lembro das histórias que ela contava, de cada letra que passava e de como ela ilustrava, também tínhamos que repetir o som do “a”, do “e”, por várias vezes se repetia a vogal... era de um jeito que não vejo hoje, também é diferente. Então para mim, a primeira infância foi muito boa. O colégio era muito próximo e bem grande, era uma quadra. Então me lembro com saudade dos meus primeiros dias de aula. E dei sorte que eu ia muito bem também. P/1 – E tinha uma matéria que você mais gostava? R – Eu gostava de Ciências, mas as histórias me atraíam muito quando se contava, porque cada letra nova que a gente passava, se contava uma história. Abelhinha tinha uma história do “a”, e depois da escova... A professora enfatizava muito isso, então a gente ficava a semana inteira visualizando ali a escova toda desenhada, pintada e ela contava uma história em cima disso. O que marca muito é o som que tínhamos que fazer, lembro-me do “m”, e a gente ficava com os lábios “assim”, às vezes amortecia, porque ela ficava, a gente tinha que fazer “mmm”. Ou “n”, tinha que ficar com a boca, ela enfatizava a posição da boca, para você ter essa percepção melhor de como você pronunciar o “p” e o” b”, que era uma dificuldade para muitas crianças, o “m” e o “n”. Então muitas vezes a gente ficava pronunciando o “p” e o “b”, apenas o som, que isso aí é uma coisa muito legal. Hoje é diferente, pena, mas acredito que alguns lugares ainda fazem. P/1 – Regiane, você morou então nessa cidade de Seberi, né? R – Seberi até os dezesseis anos. P/1 – E você estudou sempre na mesma escola? R – Sim, estudei na escola municipal Alfredo Westphalen, era bem próxima de casa. E depois na escola estadual Madre Tereza, que era mais no centro da cidade e maior também, muito grande. Tinham três quadras esportivas, a quadra das crianças, a dos homens e a das mulheres, porque era uma escola de freira, então havia essa separação. Era muito bem cuidada e eles tinham um capricho imenso com... Os dias de chuva mesmo, todos os alunos tinham que trazer um calçado para entrar, deixava na... Ela já colocava um pequeno número ali, porque era tudo igual. Eram aqueles tênis Kichute, então tinha um número, para a pessoa identificar na saída e não pegar o do outro. A merenda era muito boa, eu era apaixonada pela comida das irmãs. Essa escola ainda está lá, mas com outra administração... aumentou, ampliou, reformou, mas ainda tem... As salas eram de madeira, todas com cortinas e cada uma tinha também um representante, que mantinha o cuidado com a sala de aula, para mantê-la arrumada e limpa. Havia prêmios para quem cuidasse melhor da escola e também a questão da água... Eu via muita disciplina no colégio, bem diferente de nós hoje. P/1 – Você chegou alguma vez a ser representante? R – Sim, fui. Eu fui convidada uma vez para ser representante do Grêmio Estudantil. Até fui eleita na época a... Depois de representar do Grêmio, fui representar o município. Tinha a questão de “Miss Simpatia”, e nesse ano, no penúltimo ano eu conquistei esse título de “Miss Simpatia”. Não sei o porquê, porque tinham excelentes concorrentes lá. Mas enfim, acho que foi por causa do Grêmio, o Grêmio Estudantil tinha muita força e como fui representante do Grêmio, acho que foi por esse motivo. P/1 – E o que significava ser “Miss Simpatia”? R – Acho que de repente, mais aceitação, porque existe nessa faixa etária certo grupinho, alguma coisa assim. Eu sempre me mostrei uma pessoa simples, diferente das... Considerava-me também por meu pai ser construtor, minha classe social era menor, mas eu nunca senti essas discriminações dentro da escola. Mas acho que isso influenciou bastante. A gente ter conhecimento, por exemplo, nós conhecíamos a maior parte das pessoas de Seberi. Lembro da minha tia que morava em Porto Alegre, quando ia lá no Natal e final de ano, ela dizia: “Eu não conheço a minha vizinha ali da frente”. Eu ficava pensando: “Poxa, eu conheço todo mundo aqui em Seberi, quem passar aqui eu posso dizer até o nome”. Eu ficava impressionada, como é que pode, ela não conhecer o vizinho da frente? Então a vida do interior, eu acho que quem teve o privilégio de nascer no interior, deve ter boas histórias para contar mesmo, é muito legal. P/1 – Quais eram suas atividades no Grêmio? Você se lembra? R – No Grêmio a gente fazia atividades para arrecadar fundos para melhoria das salas de aula, ou para fazer algumas excursões e até para ajudar algumas... Tínhamos um movimento na época dos Sem Terra, em que levávamos algumas coisas para eles. Eu desde os dezesseis, dezessete anos já participava, então fazíamos esse tipo de movimento, até para melhorar mesmo, comprar alguma coisa para o colégio que não tinha. Nós tínhamos a sala de pintura, tínhamos o... Para Ciências também tínhamos laboratório, então fazíamos muitos eventos para melhorar a condição do colégio. Promovia bailes, bingos e outras coisas para esse fim. P/1 – E como foi essa passagem de término do colégio? R – Meu tempo de colégio foi muito decepcionante, porque no último ano fui reprovada e para mim, foi uma surpresa muito grande. Fiquei decepcionada mesmo, parecia... Agora vejo o porquê. Porque tive um problema com Matemática e na época levei para o lado pessoal, porque a professora era meio parente da gente e eu fiz umas críticas. Então talvez para me conformar coloquei essa questão e não assumir como não passei na Matemática no último ano. Tanto que eu quis sair da cidade, quis ir pra outro lugar, fui até para o Paraná que é onde a minha... Para Realeza, onde minha madrinha ficou, para apagar aquilo, para mim foi uma coisa muito decepcionante, a ideia de eu não passar em Matemática. Hoje reconheço que deveria ter ficado mesmo. Mas na época para eu aceitar, com dezesseis anos, que eu teria que repetir e não ia ficar com meus amigos, foi uma coisa muito triste. Então meu pai sugeriu que eu fosse... minha madrinha há muito tempo me convidava para ir, porque ela não tinha filhos, meu pai tinha dez... para ir morar com ela e foi uma oportunidade para eu ir. E lá no Paraná tinha cursos técnicos. Optei por fazer enfermagem, mas antes de concluir o primeiro ano, retornei para Seberi de novo e concluí o segundo grau no Madre Tereza. Vim com... Quem bebe dessa água, né? E vim com a cara e a coragem de novo. P/1 – E como foi esse um ano com a sua madrinha, a mudança? R – Foi muito interessante, porque minha madrinha era parteira. Até queria saber o porquê ela não fez o meu parto e minha mãe disse que “santo de casa não faz milagre”, então ela não tinha essa confiança toda. Mas ela fazia isso gratuitamente na comunidade, as pessoas vinham, ficavam de três a quatro dias em casa. Ela nunca me deixou participar de um parto, queria muito ver, ela não deixava, mas a gente via a preparação, a água esquentar, aqueles panos brancos que tinham que ficar passando... É de casa, mas ela teve uma formação técnica mesmo, mas atendia muita gente, tinha farmácia junto, então foi uma experiência muito boa, talvez foi isso que me levou a fazer enfermagem, porque eu gostei dessa... Mas eu senti muita falta da família, porque lá sozinha, minha madrinha é só ela. Ela tinha nos arredores, mas não era a mesma coisa, eu não aguentei, retornei antes de concluir. P/1 – Então você voltou para Seberi e concluiu? R – Voltei pra Seberi e concluí o segundo grau. Concluindo o segundo grau fui para a capital, para Porto Alegre, para fazer cursinhos. Fiz o pré-vestibular, o primeiro foi para Fisioterapia, mas fui incentivada a fazer em Santa Maria, pois disseram que era o Centro Universitário. E quando fui fazer inscrição mesmo, me apaixonei, porque vi aquele Campus Universitário, aqueles espaços imensos, lá é o centro disso, é o centro daquilo, eu disse: “Poxa, deve ser muito bom estudar aqui, a casa de estudante”. Então fiz a inscrição para Fisioterapia. Mas a meu ver, não fui bem, acompanhei nos primeiros dias as minhas médias e achei que não tinha passado, na verdade nem conferi _________ se tinha passado ou não, para mim me bastaram aqueles três ______ dois, não sei se era o primeiro ou segundo dia. E aí retornei mais frustrada também porque era tudo de bom, acho que até seria uma boa aluna, mas não repeti a dose. Fiquei trabalhando uns tempos em Porto como... Tempos não, nove anos quase, como funcionária pública no fórum, foi quando iniciei Ciências Sociais em uma faculdade particular e nesse tempo meu pai foi para Goiás e nos chamou para ir para lá. Ele começou a trabalhar, foi para construir ainda, mas como Cristalina tem muitas pedras, ele até fez uma troca do carro dele por pedra e era muita pedra lá em casa. Eu me lembro que minha mãe dizia: “Minha filha, não tem nem onde dormir aqui de tanta pedra”, “Ele bota em cima da cama, bota na geladeira, bota em tudo porque ele trocou um carro por pedra”. Então ele começou a mandar para gente de lá, uns conjuntos que ele montava e eu, junto com minhas colegas de trabalho no Nono Cartório Cível de Porto, tinha onze ou doze andares e pessoas ali trabalhando... Comecei a vender e me saí super bem como vendedora, ou seja, aumentou o salário e no verão tive a oportunidade de participar de uma feira em Tramandaí, no litoral, uma das minhas amigas me convidou para ajudá-la nas férias... nas férias que ela fazia feira. Fui no primeiro verão e no outro ela me incentivou a ir com as pedras e a pegar um espaço também e no outro ano eu já tinha saído do fórum e comecei a trabalhar com as pedras lá em Tramandaí mesmo. Acabamos ficando com um dos espaços, só que Tramandaí é uma cidade fantasma no inverno, não fica ninguém. Nos três primeiros meses tem muita gente, porque é a capital da praia gaúcha, vem gente de tudo que é região. Então fizemos um espaço lá, mas não tinha como nos mantermos no inverno, porque a cidade era deserta. E sempre fiquei pensando: “Precisamos trabalhar com esse material no Nordeste”, fiz o convite e na época meu namorado disse: “Não. Nem pensar... Poxa, é loucura tu largar isso e ir para lá”, ele também era funcionário público, mas eu disse: “Pô, mas onde o turista está, a gente deveria estar”, porque as pedras brasileiras mesmo, são muito valorizadas lá fora. Era o meu desejo, eu sonhava muito com Fortaleza, então disse: “Olha, acho que devemos ir”, eu sempre fazia o convite para alguém, mas nunca dava certo. E quando conheci meu marido, fiz a proposta. Na época ele era piloto comercial, mas estava fazendo... A mãe dele era costureira e ele estava vendendo jalecos, assim, roupa de... Para pagar o curso que ele queria fazer para entrar na Varig, que tinha ___________, mas foi reprovado, não passou no inglês. Então quando fiz o convite, ele topou na hora. Ele já tinha alguns cursos de couro e outras coisas de artesãos, aí fez também o curso de ourivesaria e começou, ele mesmo, a montar as pratas. Antes de vir para cá, fizemos algumas feiras no Rio Grande do Sul, Feira de Arroz, essas que fazem em circo, você compra um espaço e vende, achamos essa ideia muito boa e quando surgiu a oportunidade, viemos para o Nordeste. Paramos primeiro em Bezerros, porque tínhamos um parente que era de lá, então paramos em Olinda e depois em Porto de Galinhas, porque fomos roubados em Olinda, e meu marido falou: “Não vamos para casa, isso aqui já é um aviso, que não sei o quê”. Há dezesseis anos Porto de Galinhas era uma praia nativa linda, eu tenho saudade daquele tempo. Muito coqueiro, muito verde, as ruas ainda eram areia, não tínhamos o posto ali, as ruazinhas todas eram estreitas e as casas nativas, não existia comércio, o único comércio que tinha era a feirinha de artesanato e uma casa que alugava caiaque e máscara. Então ficamos ali, disse: “Pô, aqui é o meu lugar”, e aí a gente ficou. P/1 – Regiane, só para entender, como é que você fazia para ir buscar as pedras logo no começo? Seu pai... R – Era tudo pelo correio e quando íamos para lá de férias, trazíamos um pouco mais. Lembro-me que, com minha indenização de funcionária pública de oito anos, quase nove, comprei tudo em pedras. Eu era apaixonada pela Opala e como ainda não tinha o conhecimento e meu pai também não, compramos uma que não tinha nada a ver, então, depois que conhecemos as outras, porque tem aquelas esbranquiçadas, tem aquela com várias cores, tem a vermelha, vimos que não tínhamos feito um bom negócio, mas até então... Diz que quem trabalha no ramo de pedra tem isso, às vezes tu acertas, às vezes tu erras. Mas deu tudo certo, mandei montar as opalas, desenhamos pulseiras, fizemos colares, enfim, rendeu mesmo não fazendo um bom negócio, mas toda a minha indenização eu investi em pedra. P/1 – E como seu pai foi parar lá em Cristalina? Como é que ele decidiu ir para lá? R – Porque lá em Seberi, ele recebeu um convite de um senhor que tinha comprado essa terra lá em Goiás, mas que reclamava muito da mão de obra de lá, que era muito lenta, e meu pai tinha fama, porque havia um grupo de dez pessoas que trabalhava sempre com ele e eram muito rápidos. Então esse senhor o chamou e fez uma boa oferta para ele ir para lá, porque precisava de um silo muito grande, precisava armazenar produto e queria muito que ele fosse. Primeiramente foi apenas o meu pai e ele gostou muito do clima, porque Goiás tem um clima seco, e aí foi chamando... Foram os quatro irmãos menores, mas a mãe não queria ir, porque o pai ainda começou a... Até aquele tempo ele não tinha terminado nossa casa e com a história de... Como é que é? Quando o... De pau e ferro que tem a história do... Quando... Aí minha gente... Quando o espeto é de pau... Ajuda-me aí Aline. Quando o espeto é de pau... Casa de pau... Como é que é? “Casa de ferreiro, espeto de pau”. Meu pai era construtor, ótimo construtor, excelente construtor e nossa casa nunca foi terminada, ele vendeu sem terminar e trocou por uma lá em Goiás. Minha mãe ficou super insatisfeita, porque as casas lá são baixinhas, me lembro que o chuveiro a gente levantava as mãos e batia nele. Já era uma casa velha, antiga, mas enfim, o pai disse que fez ótimo negócio, porque lá ia supervalorizar, pois era próximo de Brasília, ele comprou “por tanto” e dali há dois meses ia durar “tanto”, aí convenceu a mãe para ela ficar animada, mas a mãe nunca gostou de lá, nem do clima e também os outros filhos “aqui”, só os quatro lá e ela sempre ficou nessa... Depois de lá, meu pai começou com as pedras também, ia para o Mato Grosso, ficava um tempo vendendo, como um bom aquariano ele não para e minha mãe sentiu-se muito só lá, ela falou com a minha irmã mais velha e disse que ia embora e foi. Meu pai não gostou dessa história, então até hoje eles estão discutindo sobre quem deixou quem, ele não quer assumir que a deixou. Minha mãe disse que ele saía de lá e demorava um ano ou dois para voltar e meu pai também diz: “Olha, eu estava trabalhando, ela estava em casa e saiu”. Eles estão separados, achei até melhor, porque sempre vi minha mãe muito submissa mesmo e estão vivendo separados e bem hoje, aqui em Porto. P/1 – Os dois? R – É, primeiro veio o pai, a mãe veio mais a passeio, fica dois, três meses e volta, mas o pai está morando aqui já. P/1 – Também trabalhando com pedras? R – Também trabalhando com pedras, pedras e outras coisas. O pai não ficou só nas pedras não, ele vende todo artesanato local aqui, cerâmica... Ele tem um quiosque bem pequenininho ali na pracinha que às vezes ele mesmo vai vender, tem duas que trabalham, mas às vezes ele vai, gosta também de ficar lá contando histórias. P/1 – Você foi pra Cristalina e se apaixonou pelas pedras? Como é que... R – O que me motivou nas pedras foi mesmo essa possibilidade de ganhar dinheiro. As pedras, claro, são apaixonantes, mas como teve boa aceitação enquanto eu estava trabalhando... Começamos a montar mesmo, já vinha às vezes montado nas pratas, porque Cristalina tem muito artesão que monta. Então eu vi uma possibilidade de aumentar o orçamento. E depois tive a chance de abrir uma loja lá em Tramandaí com isso também, participar dessas feiras, né? Porque essas feiras de verão abrem caminho para outras feiras. Então antes de vir para cá mesmo, meu trabalho lá era fazer as feiras. Feira de Arroz, da soja, da uva, que abrem espaço para comerciantes e artesãos. A gente ia lá, comprava espaço, às vezes acampava, porque o custo é alto dessas feiras, para ajudar mesmo na renda. Acho que demorei muito no fórum, começaram lá meus cabelos brancos, porque se eu tivesse a possibilidade dessa liberdade de tempo, de coisa, acho que eu teria saído antes. P/1 – E como é que foi a chegada aqui em Recife? Você falou que montou primeiro em Olinda. R – Então, nós já viemos com uma filha, essa parte eu pulei... Nós viemos com uma criança de quatro meses e ainda não tínhamos morado juntos. Meu marido veio dois meses depois que a Tainá nasceu para, como se diz, abrir o caminho. Então veio com esse pernambucano que é padrinho da minha filha, né? A ideia era vir a Caruaru, porque a gente via como era uma grande feira e como nossa ideia lá era feira, então fomos para Caruaru expor nosso produto. Mas quando conhecemos, vimos que não tinha nada a ver a nossa... Ali eram produtos industrializados, muito baratos. Lembro-me hoje que eram quatro, cinco saias por dez reais, dez calcinhas por dez reais, fiquei impressionada, vendia de tudo. Lembro-me que havia um senhor com uma peneira com um barbante amarrado, vendendo lingerie, bem feliz vendendo, achei a cena muito engraçada. Era uma pena que não tinha a ver com o nosso produto. Sugeriram para ele Olinda, porque na época, o pessoal dizia que estava bombando, disseram que tinham de cinquenta a cem ônibus que passavam no Alto da Sé por dia. Não eram cem não, mas tinham muitos ônibus mesmo. Nos demos muito bem, chegamos e claro, não tinha espaço ali porque o pessoal já estava lá há anos e todo mundo já tem sua barraquinha, mas cederam um espaço para a gente, talvez por motivo de estarmos com criança e tal, ficaram motivados. O espaço era na frente do lixão, nos emprestaram com segundas intenções, porque disseram que tínhamos que ficar ali para o lixo se manter limpo, já que o fluxo de turistas era muito grande e às vezes as pessoas acumulavam lixo e não tiravam. Lembro-me que atrás ficava a caixa d´água de Olinda, então o guia turístico sempre parava ali para mostrar a caixa d´água, porque foi o primeiro edifício criado no estilo Rococó, não sei o quê. Toda vez que parava ali, ele repetia essa história, e ficávamos ali de frente, como se ele tivesse parado para nós. Nos demos muito bem em Olinda, às vezes nossa barraca ficava com meia dúzia de coisa, ele produzia e o pessoal vinha mesmo de bando, eram pedras, alguma coisa diferente, né? O menino do lado, que era um artesão, fazia camisetas lindas pintadas à mão, xerografadas, ele tinha uma Kombi muito velha, até foi me buscar no aeroporto de Kombi, porque meu marido veio antes de mim. Meu marido alugou um espaço ali por oitenta reais, ele ainda não tinha comprado... Ele dormia na rede, então ainda não tinha pensado em mim e na Tainá, disse que deixou para pensar no último momento se iriamos querer rede ou colchão. Era só um quarto com banheiro e quando cheguei tinha um tonel, aqui eles chamam de outro nome, eu que falo tonel, que vim perceber depois que eles só tinham água duas vezes na semana e fiquei pensando: “Pô, com a Tainá, quatro meses, criança, fralda”... “Nossa, como é que eu vou me virar com água duas vezes por semana?”. Eu me lembro da noite em que cheguei, era o dia da água e já ficava pronto para encher, então a água encheu e não nos demos conta, então derramou pelo quarto todo. A gente tinha comprado um colchão, mas ele estava no chão e quando acordamos estava molhado, porque a gente não percebeu a água caindo. Eu achei muito legal ali também, eu inexperiente, porque essa parte de lavar e passar, eu contava com a minha mãe, ou com as minhas irmãs, então eu só amamentava a Tainá nesse período de três meses e ali me vi sozinha, né? Lá nós não tínhamos água em abundância, então as minhas vizinhas, porque era muito próximo uma casa da outra no Morro do Farol em Olinda, conhece Aline? No Morro do Farol. Então, elas me viram lavando aquela roupa e uma delas disse: “Dê-me isso aqui minha filha, você vai gastar essa água toda e não vai lavar direito”. Então ela me ajudou a lavar, porque viu que eu não estava desenrolando direito, mas depois aprendi. Aí nos sugeriram, um pessoal de lá, disse que estávamos numa zona muito perigosa por aquilo que trabalhávamos, porque a gente trabalhava com prata e essas coisas. Ele me disse isso depois que eu contei uma história, porque meu marido ficava lá das duas às dez, onze da noite, às vezes eu ficava com ele na feira e às vezes ficava em casa. Numa noite um chegou e ficou batendo, um senhor bêbado, bateu muito na porta e a Tainá começou a chorar e gritar, ele não entendeu e começou a dizer: “Quem é que você trouxe para cá sua isso, sua aquilo”. Percebi depois que uma mulher abriu a porta, umas duas depois da minha, gritou lá: “Ô Fulano, tu não sabes nem aonde mora, a tua casa é aqui”. Então ele tinha se enganado de porta, batido na nossa e feito um escândalo e ainda acordado a Tainá. Eu contando no outro dia essa história e o vizinho: “Nossa, lá é muito perigoso. Vocês têm que sair de lá porque vocês trabalham com isso aí, o Morro do Farol é perigoso”. Na outra semana esse nosso vizinho sugeriu uma casa que estava em construção... Eu diria uns dez anos ou mais, porque tinha árvore dentro da casa. Era em uma esquina, uma casa grande, mas mal acabada, não tinha começado a construir, fez umas partes aqui, umas ali. Então ele propôs para o meu marido para ele terminar, fazer para a gente um quarto, uma cozinha e ajudar ele. Então cedeu para nós o quarto que ele fazia as camisas, que era o único que tinha piso, os outros não tinham... Era um piso assim... E do lado tinha um banheiro, era a proposta do banheiro, porque era só um buraco também e tinha um cano que caia, tu ligava aqui, a água batia lá e respingava assim, estava tudo por fazer. Então a proposta era essa, moraríamos ali gratuitamente, na condição do meu marido ajudá-lo, eles acordavam cedo, das cinco às duas da tarde e construiriam no espaço. Ficamos lá até construírem o espaço e quando estavam terminando, fomos roubados, os ladrões entraram nesse quartinho. Meu marido e nosso vizinho estavam lá atrás, os dois na obra, o que é muito engraçado, porque nenhum deles sabia fazer coisa nenhuma, eu tinha muito mais experiência pelo meu pai, né? Então eu ficava impressionada vendo-os fazerem as coisas, eles diziam: “Não. Mas não é”, e eu dizia: “Olha que eu sou filha de carpinteiro”. A primeira chuva que deu, foi uma coisa de doido, desmanchou tudo o que eles fizeram... Então eles estavam lá atrás e eu tinha saído com a Tainá, fomos a uma consulta ou vacina, não me lembro, era em torno de uma hora e o pessoal entrou no nosso quarto e levou tudo que a gente tinha. A gente tinha conseguido aqueles carrinhos, né, porque a gente subia a Ladeira da Misericórdia sempre com o material, então tinham umas _____ carrinho com os engradados e a gente subia aquela ladeira. Levaram tudo aquilo, o material que ele fazia, a prata, os consertos, a limpeza, levaram tudo. Uma coisa é você ser roubada, outra é levarem o teu instrumento de trabalho... meu marido ficou desesperado, me lembro que ele batia a cabeça na parede, ele ficou muito revoltado e eu na emoção, naquele tempo não senti...Estava ali na vida nova, minha filha... Lembro de uma música que ouvia de longe assim: “Se as águas do mar da vida quiserem te afogar, segura na mão de Deus”, lá foi a primeira vez que havia escutado isso e me deu uma força muito grande. Aí o nosso, no caso inquilino... Inquilino não, inquilinato disse: “Gente, isso aí é alguém do morro que estava de olho em vocês. Eles devem estar por aí subindo o morro”. Eu disse: “É”, motivando o meu marido, “Isso aí vai aparecer, só a gente que trabalha com esse tipo de coisa”, mas ele não tinha esperança nenhuma, achava que não tinha jeito mesmo. Fomos a delegacia incentivados pelo nosso inquilinato e contamos nossa história, ele pediu o que a gente tinha ali, porque só tínhamos aquele quarto mesmo e uma estante com uma panelinha que eu fazia alguma sopa para a Tainá, tinha a ____, ela só tinha o berço com mosquiteiro, porque era muito mosquito e a gente continuava no colchão. Quando dissemos que trabalhávamos com pedras preciosas, que tinha “x” coisas, me lembro que vieram quatro pessoas de terno e gravata, perfumados, foram até a gente, dava a impressão de que estávamos contando uma história mentirosa e eles viram nossa condição, né? Ainda bem que tinham algumas fotos lá para ilustrar ele fazendo algumas peças e havíamos tirado foto para comprovar. Dissemos também que estávamos ali há pouco tempo, quatro meses e que estávamos procurando, contou a história... Isso foi dia quatro de setembro e no dia quatro de dezembro, esse pessoal que fez o registro lá nesse quartinho, soube que estávamos em Porto e vieram com uma sacolinha amarrada, quando vi não sabia se ficava feliz ou triste com aquilo, porque tinham algumas coisas nossas, uma meia dúzia, mas muita coisa de outras pessoas que não tinha nada a ver com a gente. Tinha correntinha e umas coisas douradas, mas não trabalhávamos com dourado, fazendo o registro de ocorrência que tinham pegado esse pessoal que eram antigos feirantes e tal. Mas eu fiquei até animada com a história. Então é isso. E a partir daí da barraquinha a gente passou para um box, do box passamos para outro box maior e agora montamos a loja. Começamos com uma, depois fomos para três e agora estamos encolhendo de novo por conta do “boom” do mercado, a invasão, os turistas, o pessoal de fora que gostam de pedra, não estão vindo, acredito que é por conta do dólar, então dividimos pela metade o quadro de funcionários e o tamanho da loja. (troca de fita) P/1 – Regiane, você estava nos contando da sua loja aqui, quero saber como foi que começou esse seu trabalho com a pastoral, de você vir para esse lado mais social, o que te trouxe para fazer isso? R – Acho que o que me marcou bastante foi desde lá, tínhamos essa participação em grupos de jovens e o próprio grêmio estudantil. Mas o que me motivou mais foi ter chegado em Porto sem nada, né, porque fomos roubados lá, então foi um recomeço. Eu morei aqui no ______, me lembro que quando cheguei minha vizinha me viu com uma criança e ficando do lado da casa dela, a casa também era nas condições lá do... E ela me ofereceu um prato de sopa para a Tainá, lembro que ela disse: “Eu tenho sopa de carne, você quer dar para tua filha?” Eu não a conhecia e achei uma atitude muito acolhedora, mas disse: “Ela não toma, só amamenta” ... Ela ficou surpresa: “Poxa, tão gordinha e não come nada?”, “Eu a amamento toda hora”. Aí ela disse: “Então coma você”. Aquele dia ela me deu essa sopa e em outro dia, uma outra vizinha também ofereceu, então achei uma coisa muito boa no meio da comunidade carente, essa troca. Percebi que é algo a mais, acontece uma coisa solidária e mais verdadeira nas pessoas que têm menos. Solidarizam mais umas com as outras e isso me motivou muito a desenvolver um trabalho nesse sentido. Considero-me com muita sorte por ter chegado à Porto na hora certa e com a coisa certa, porque não existia comércio, então nós crescemos muito rápido e com a possibilidade do pai mandar as pedras do Sul e meu marido sendo artesão, demos muito certo, então o turismo de Porto foi bom. Nesses dez anos, da barraquinha, do box para a outra barraquinha e construir essas lojas, tivemos 12 funcionários uma época, em função da oportunidade mesmo, da coragem de enfrentar as coisas sozinha, de sair com a cara e a coragem. Então me considero com sorte por isso, chegamos na hora certa com a coisa certa e trabalhamos em cima disso, aproveitando a oportunidade. Passamos por muita dificuldade, essa casa mesmo, quando chegamos aqui, tínhamos que pagar um salário, eles queriam adiantado, então tivemos que pedir já de cara emprestado já que fomos roubados. O pessoal mandava as pedras, mas nós tínhamos que pagar, né? Então tivemos que pedir adiantado para pagar o aluguel, porque eles só aceitavam adiantado, já que ninguém nos conhecia. Quando fomos para a feirinha já não estava mais aberta para ninguém, não poderíamos expor porque já havia vinte e dois estandes, mas uma senhora nos cedeu a metade da barraca dela e expomos. E depois com o tempo, o pessoal decidiu que poderíamos alugar a barraca, alugamos e ficamos. Depois o espaço foi superfaturado, barracas foram vendidas, começou com três mil e foi para cinco e até em oito mil, ainda tinha gente na venda de camisetas com três barracas, então se tornou um comércio porque se vendia muito, só de camisetas acredito que as pessoas vendiam mais de 500 por dia. Da barraca fomos para um box, onde começamos a fazer pastel e essas coisas, meu marido se sentiu realizado e disse: “É tudo o que eu queria na vida, um bar à beira da praia, era tudo o que eu queria, estou satisfeito, eu não quero mais nada”. Mas isso durou pouco, uns dois, três meses ele já estava de saco cheio, o pessoal chegava lá, pedia gelo, pedia... O pessoal do domingo pedia garfo emprestado, gelo, garrafa e não foi aquilo que ele queria, aí já foi repassando, né? Então quando repassou o ponto conseguimos comprar nosso terreno, que é onde a gente mora hoje e a partir daí a gente foi fazendo nossas coisas devagar. P/1 – Você falou do sentimento da solidariedade aqui, como é que foi para... R – Então, faz nove anos que estou nesse movimento da pastoral, porque sempre achei muito interessante o trabalho da pastoral porque agrega várias coisas. Tem o lado ecumênico da fé, a proposta da fé, mas junto a isso agrega outras coisas e entra o projeto de geração de renda, nisso eu me encaixava melhor. Acredito que o trabalho pode modificar a vida da pessoa, aumentar a autoestima, as possibilidades dela e aqui eu ficava impressionada quando conversando com as meninas, elas nunca tinham ido a Recife, nunca tinham ido aqui nas praias próximas como em Carneiro, Maracaipe, por falta de condição financeira mesmo, aqui na praia, tinham mães que diziam: “Olha dona Regiane, não vou.” E quando as incentivávamos para levarem as crianças a praia diziam: “Regiane, não vou porque chego lá e meu filho vai querer picolé, coco e se não dou, ele faz uma gritaria”. Então isso me motivou a fazer com que elas corressem atrás disso, porque toda criança tem o direito de um picolé, um coco, né? E dentro da pastoral tinha esse incentivo a geração de renda para melhorar a qualidade da vida daquela família que tu visitas, porque nossa função como voluntários da pastoral, é ajudar a mãe a cuidar da criança, é verificar o que está faltando em seu ambiente, se ela tem alimentação saudável, se as vacinas estão em dia, se ela não recebe nenhum tipo de violência, porque hoje as famílias estão desestruturadas, eles são cuidados por vó, às vezes por vizinhos. Então o voluntário tem esse olhar, ele visita aquela criança todo mês e vai conhecendo o contexto familiar dela, vê os sinais de perigo que oferece, mas a principal necessidade que vemos é a situação econômica para melhorar a alimentação e ter um espaço adequado para dormir, tem criança que se empilham três, quatro crianças em um espaço só, dorme junto com o pai e a mãe e isso é muito desfavorável para o crescimento da criança. Estou contente porque saiu esse mês o Plano Nacional da Primeira Infância, dando prioridade absoluta para essa faixa etária, porque é onde se forma o intelecto da criança, o lado psicomotor é muito importante nessa faixa etária. Se faltar alimentação, se ela sofre algum tipo de trauma ou de agressão, leva para a vida toda. Então essa primeira infância, que é de zero a seis anos, o governo juntamente com o Plano Nacional de Primeira Infância, deu prioridade absoluta, com isso, acredito que haverá grande mobilização, porque em nosso país temos apenas dezessete% de creches, e creche está na constituição, é direito de toda criança. Aqui temos vinte e oito crianças só e vinte e oito crianças é uma quadra aqui da ________ tem, né? É pouco pela demanda, é preciso muito investimento nessa área, muito mesmo e a minha preocupação é justamente isso com esse polo industrial, com homens solteiros, aumentou o número de exploração sexual, porque eles estão aqui de passagem, vão... Eu tenho essa preocupação de geralmente ter planos para a primeira infância e ter esse cuidado com esse pessoal que está chegando agora. Aliás, disse que não chegou nem a metade, vão chegar mais dez mil funcionários ainda, são mais de cem mil empresas e eu tenho essa preocupação, irá modificar muito, ou melhor, já modificou. Tu já vês Pojuca, Nossa Senhora do Ó, muito vulneráveis as crianças, pelos conselhos tutelares que a gente tem, já aumentou a incidência de exploração pelo turismo e essas pessoas que estão chegando sem família e vão ficar por pouco tempo. P/1 – Regiane, agora vamos falar um pouco do projeto, como foi a aproximação, como é que surgiu a ideia da implantação desse projeto? R – O projeto Camargo Corrêa, que é uma das empresas que se instalou aqui no polo no município e fizeram um diagnóstico para verem quais entidades trabalhavam com crianças. Eles tinham três projetos: a infância ideal, a escola ideal e adolescência, seriam as três faixas etárias e como a pastoral trabalha nessa faixa etária, de zero a seis anos, eles nos propuseram elaborar projetos, então no primeiro momento chamaram todos os grupos que trabalhavam com crianças do município e pediram para pensarmos qual a maior dificuldade e foram apontadas as principais que seriam a escola infantil. Nossa escola é muito ruim, não tem espaço físico adequado, são seiscentas crianças que ficam próximas à praia e são dois a três quilômetros. As crianças que ficam ali no Centro, geralmente estudam no Ó, no Cabo, em Ipojuca ou em outras escolas particulares. Então as crianças vêm todas dessa _____________ para a escola de lá, ficam também vulnerável, pois são horários intermediários, o que não é bom, aliás, é ilegal. Quando começou nós fomos até a secretaria da educação e disseram que era por no máximo seis meses, porque estavam em período de reforma e construção, mas se estende até hoje, então elegemos o controle da escola, creches e espaço para brincar, espaço ideal para a criança brincar. Cada componente ali poderia escolher qual projeto atuaria e qual se daria melhor, então no momento eu e a Ana estávamos representando a pastoral, a Ana ficou com a creche e eu fiquei no projeto do lazer, que seria brincar e escrevemos esse projeto pensando em criar espaço para a criança brincar. Sugeri brinquedos, oficinas de arte, contação de histórias e itinerante, porque era para a gente pensar no município todo e sugerimos o espaço de lazer ou a rua do lazer, onde “tal dia” será em “tal rua” e no outro dia em “tal rua”, mas o município Ipojuca é muito grande, então começamos com uma ideia assim, para envolver todo mundo da zona rural. Tem zona rural que é grande, são setenta engenhos e isso é muito grande. Tem criança sem documento, que nunca foram assistidas, não tem carteira de identidade, tu encontras ainda quem não tem certidão de nascimento nem a carteira de vacina, então há muita coisa para ser feita nesse contexto e a Pastoral da Criança vai entrar como parceiro cedendo um espaço, nesse dia terá pessoas brincando com as crianças. No mínimo, uma vez por semana, começaremos a acolher crianças para brincar e serão cinquenta por dia. Começamos com duzentas, mas conforme o orçamento tivemos que diminuir, porque entraria o lanche, os monitores, então tivemos que ir diminuindo conforme o que tínhamos para trabalhar com o orçamento. O projeto já está escrito e provavelmente começará mês que vem, então a casa da Pastoral da Criança e o Camela no Maracatu, serão espaços abertos para crianças na faixa etária de zero a seis anos brincarem. P/1 – O que foi considerado nesse projeto, de atividade para as crianças ou por que é importante a implantação desse projeto? R – O brincar é uma coisa... Garantir o direito da criança brincar é uma coisa fundamental para o desenvolvimento dela, porque brincando ela vai se desenvolver e fazer o que é adequado para sua idade, então mesmo com a pastoral, nós incentivávamos muito o pai e a mãe que não tinham o hábito de brincar com a criança, hoje não vemos a mãe brincando de casinha mesmo, ou de contar história e incentivamos muito a contar. Aqui encontramos também a dificuldade de as mães não saberem ler, então sugerimos nas visitas que quem puder contar uma história que conte, pois as crianças são apaixonadas, se você abre um livro que tem fotos ilustrativas, você fica sem enxergar o livro, porque elas se juntam para ver, então é muito importante elas terem acesso a brincadeira, terem acesso a brinquedos e nesse espaço tem essa possibilidade. P/1 – E quais as suas expectativas para os primeiros trabalhos? O que vai ser feito primeiro? R – Estou louca para que aconteça isso, porque é uma proposta nova e acho que poderemos agregar muitas coisas com isso. A pastoral fará o lanche nutritivo e vai sugerir coisas naturais como por exemplo o suco, tanto aqui como para Camela. As próprias mães das crianças farão o lanche, orientadas por nutricionistas para que eles tenham um lanche saudável também. E com a participação dos pais, as mães deverão ficar no local nesse período, e terão pessoas preparadas para incentivá-las a isso e achamos que, por conta disso, haverá uma multiplicação, e é o que queremos e acho também que a mãe perceberá a mudança na criança, na alegria dela. Costumo perguntar assim: “Tu já convidaste a tua criança para brincar?”. Quando a mãe convida, as crianças ficam surpresas, elas ficam sem acreditar naquilo. Convida: “Vamos brincar de esconder, vamos brincar de...”. Ou até passear na praia, alguma coisa, pegar... Também sugiro, aqui tem muitas frutas e incentivamos muito isso, você criar um tempo, pelo menos meia hora para brincar com teu filho, isso é muito bom. Acredito que não é só na comunidade carente que a criança não tem essa possibilidade, acho que acontece isso em todas as classes. Hoje tem muito computador, muita televisão e agora a pastoral também combate a obesidade e acredito que é por muita falta da, claro, a má alimentação tem muito a ver, mas a falta de movimento mesmo, porque a criança fica muito parada, estagnada, então acho que hoje a pastoral tem também esse desafio de combater a obesidade, mas em função do comportamento da criança, ela não tem aquela... A energia dela é trancada e não é... Costumo dizer que criança parada tem algum problema, ela tem que estar sempre em atividade, fazendo alguma coisa, subindo em muro e a pastoral sugere isso, porque: “Não, não e não”. A mãe está sempre dizendo: “Não faça isso. Não faça aquilo”. A gente mesmo nas visitas vê: “Fulano, se tu caíres daí tu vais apanhar, não sei o quê”. A criança cai mesmo, machuca e a mãe... Então o que a gente sugere? Que ela traga a criança e ofereça alguma coisa para brincar, porque a criança é curiosa, ela vai, é inocente, ela quer fazer as coisas mesmo para conhecer, por conhecimento, é a natureza dela. Se ela está fazendo alguma coisa que oferece perigo, então precisamos orientá-la, sugerir outra coisa para ela fazer. A pastoral incentiva a criança a participar das suas atividades, você deixa teu filho participar das suas atividades? É uma das perguntas que fazemos na visita, se você permite que ela ajude a arrumar a casa, a lavar roupa, nossa é uma alegria se tu convidares uma criança para lavar uma casa, por exemplo, deixar jorrar água e botar sabão, é uma alegria para eles fazer isso. E até o fato de lavar roupa, quando criança eles veem isso muito bem, depois de adulto eles não querem saber, então muitas mães dizem: “Ah não, eu não quero aperreio, eles vão lá, fazem bagunça”. Mas é muito importante. O pai também deixar assim, como se lava a bicicleta, como arrumar isso, deixar a criança participar de todas as tuas atividades, é muito importante para o crescimento dela e a pastoral incentiva muito esse tipo de coisa. P/1 – E qual é o seu papel, Regiane, dentro desse projeto? Como é que você vai atuar, ou quais são seus... R – Eu, na verdade... No decorrer do processo, tivemos muitas divergências, porque cada um tem uma linha de pensamento. Como eu tinha mais experiência nessa faixa etária, esse fato mesmo das mães participarem do projeto e os outros componentes, achavam que não íamos conseguir, porque a mãe ia dizer: “Que hora eu pego?”. Elas tinham esse pensamento, então me disseram que eu era muito doida se eu conseguisse isso das mães, mas como temos essa experiência do dia da celebração da vida que a mãe vem aqui, a gente pesa o filho dela e anota, passa para ela como ele está e ela fica aqui de duas a três horas pelo menos, então eu disse: “Olha, vai ser essa a condição de ela deixar”. Se ela não puder ficar, não poderemos aceitar, porque a ideia da gente é mostrar a ela a importância do brincar e ela tirar esse tempo para a criança. Geralmente não se tem tempo para brincar, então a ideia é essa, que a gente repasse para as mães a importância do tempo e do brincar, de incentivar a brincar, isso é bom. Nós vamos junto com elas também, para que elas mesmas limpem o prato que eles usaram, independente da... Se a criança anda e alcança a pia, ela mesma lavará o prato e o guardará e isso é ótimo também para o desenvolvimento dela e vamos nessa proporção. P/1 – Como está sendo pensado? Porque de zero a seis anos é uma diferença brutal de grande, como é que foi pensar nessa diferença e os trabalhos nessa faixa etária tão diferente? R – Vamos dividir em três blocos, serão eles o canto do bebê, onde vamos agregar os de zero a três anos, são as crianças que estão na fase do engatinhar, do andar, então serão oferecidos nesse canto do bebê brinquedos e objetos para aquela faixa etária, brinquedos que não ofereçam perigo, cordões que despertem a criança... As crianças recém-nascidas mesmo, é muito importante ter cores para elas... Então a ideia é essa, de criarmos um canto do bebê e os outros seriam para atividades motoras, do correr, de brincadeiras com bola e a outra, esse lado de oficinas de pintura, contação de histórias, depois de uma contação de histórias, será proposto para eles, fazerem alguma atividade que tenha a ver com o meio deles. A própria oficina de culinária, queremos envolver algumas mães também, para que elas possam levar para casa, serão oferecidos produtos simples, fáceis de fazer e com baixo custo. Então queremos agregar esses valores, por exemplo, escovar os dentes, lavar as mãos, o cuidado com essas coisas simples mesmo, lavar as mãos antes de comer ou limpar o nariz e teremos o cuidado de passar para as mães isso. P/1 – Regiane, com esse projeto implantado qual é o seu sonho? R – Meu sonho é que todas as crianças tenham um grande espaço para brincar, todas mesmo, independente, que tenham essa liberdade. Porque hoje as crianças escutam muito o “não” e podemos viver sem o “não”, quando ela estiver em uma situação de perigo, é só oferecer uma outra coisa também atrativa que não ofereça. Eu digo para a mãe: “Não adianta tu chamar ela ali e dizer ‘Vem cá, fica aqui sentadinha do lado da mãe’”. Não é isso que ela quer, elas querem: “Olha, vem cá, vamos lá buscar isso no teu pai” ou “Vamos lá na Fulana” que ele gosta de ir, ou: “Vamos fazer isso aqui”. Tem que conhecer o teu filho para saber o que ele gosta de fazer. Eu me perdi, o que eu estava falando? P/1 – Você estava falando sobre... R – O meu sonho, que todas as crianças tenham essa possibilidade de brincar. Eu tenho um amigo, o _____ que eu brinco com ele: “Poxa, ______, como é que você sabe de criança se você não tem?”. E ele diz que prega a liberdade, tanto para a criança como para o indivíduo adulto, diz que se a gente prestar atenção na criança e vê-la com outro olhar, não precisaríamos jamais de corretivo, palmada. Precisaria apenas de acrescentar e deixá-la livre. Nossos índios fazem isso, os índios não batem em filho nenhum, eles deixam aquela liberdade, cada um tem a sua função, é sinal que a coisa funciona sem bater mesmo. Essa é uma coisa que a pastoral combate muito, a não agressão, palmada de jeito nenhum, porque é batendo que a criança aprende a bater, então insistimos muito nisso e para mim é confortante, porque o trabalho da pastoral é um trabalho educativo, ela não dá nada, ela dispõe do teu para ajudar a educar a criança. Então para mim é gratificante quando escuto uma mãe dizer: “Dona Regiane, quando fico com uma vontade de bater no meu filho, mas uma vontade, que ele já aprontou, eu vou lá e me lembro da senhora e conto até dez”. Que eu sugiro que conte até dez, porque é uma raiva da gente mesmo que descontamos ali, porque às vezes a maioria das crianças apanham sem saber o porquê. Por que ele não pode fazer aquilo ali que está tão gostoso mexer? Subir mesmo em árvore, pular em muro, ou ligar a televisão, ventilador, que é uma coisa que eles adoram, tudo que é botão criança gosta de mexer. Outro dia eu cheguei em uma casa que a senhora era recém mudada e as taças dela estavam todas no chão, aí eu olhei e disse: “Ah, aqui não tem criança, né?”. Ela: “Tem. Tem três. Minha filha deixa aqui”. Ela cuidava de três crianças, elas não moravam ali. Eu disse: “Mas como é que a senhora deixa essas taças aqui?”. “Ah, mas eles já apanharam tanto para não mexer aí e apanham ainda”. Então quer dizer, eu disse para ela: “Então a senhora vê que não é por aí que ela vai aprender. A senhora disse que já deu, a senhora dá todo dia, eles ainda... O ideal é que a senhora tire daqui o que oferece perigo, eles podem entrar e tropeçar, cair, se cortar.” “Ah, mas criança tem que ser educada, criança minha não mexe em nada, “blábláblá””. Então essa criança não tem liberdade, ela não vai descobrir, é uma pena que isso aconteça. Porque o bom é mexer em tudo mesmo, a descoberta da criança é mexer e ter um adulto dizendo o que é bom e o que não é. Então é isso. P/1 – Regiane, você brincava com a sua filha? R – Brincava, mas ela faz uma cobrança comigo, porque acha que eu não brincava muito, principalmente a última, que a primeira a gente sempre brinca mais, então reclama que eu fico pouco com ela. Quando ela tinha nove meses eu já comecei a participar da pastoral aqui, então a gente vai se envolvendo cada vez mais. Agora ela está com dez anos e quando perguntam de quem ela tem ciúme diz: “Da Pastoral da Criança”. Ela cobra muito isso de mim, que eu fico muito na Pastoral da Criança, mas eu sempre a trago aqui e ela gosta da celebração da vida, principalmente do lanche. P/1 – Mas um momento... R – Mas eu a acho uma criança feliz, está obesa também e minha preocupação é essa, mas o pai dela acha que é porque ela está em fase de crescimento, que tem que comer e sugere coisas que não tem nada a ver e nós temos mais esse conflito por conta da alimentação. P/1 – E quando você tem um momento com elas o que você faz? R – Ela gosta muito de ir à praça e à praia, quando vamos à praça, convidamos as amiguinhas dela também. A ______ sugere castelos, coisas assim para fazer. Gosta quando conto histórias antes de dormir, diz que conto poucas e que gostaria de duas ou três, uma só não basta. Agora, às vezes inverto, peço para ela contar para mim também, ela gosta de história inventada, que a gente invente: “Não. Aquela ali eu já conheço, quero outra”. Ela gosta muito de inventar, é muito criativa. P/1 – Então como ficam divididas as suas atividades durante o dia? R – Falei que era comerciante, mas estou afastada do trabalho, diria que já fazem uns cinco anos que não vou mais lá. A princípio não tinha necessidade, porque estávamos com doze funcionários, mas agora até que teria, pois estamos com o quadro mais reduzido. Tivemos alguns problemas de saúde e percebi que eu e meu marido seguimos linhas diferentes, eu quero fazer uma coisa e ele quer fazer outra, então não estamos mais em sintonia no trabalho, antigamente tinha. Quando chegamos aqui, até fizeram uma reportagem, que não foi só da gente, com outros artesãos também, mas que saiu no jornal assim: “O casal joia”, contaram um pouco da nossa história e a história de outros casais que também trabalhavam com joia. Antes tinha mais sintonia, agora não, ele pôs, por exemplo e isso eu queria muito que ele fizesse desde o início, que é botar a oficina dentro da loja, então ele botou no começo que eu pedi, depois ele tirou porque disse que dava muita... Não ficava a vontade, atrapalhava muito a concentração e o cheiro do... O cheiro é horrível mesmo, porque você está fundindo a prata, queima muito gás, o cheiro não é agradável, mas tinha espaço e podia fundir a prata em casa e já levá-la para passar no maçarico, não era esse o caso. Mas ele é muito constante assim, principalmente quando para de vender, aí ele quer mudar e já mudou a loja umas trezentas vezes, está sempre inovando. Acredito que seja também o segredo do sucesso, estar sempre modificando, inovando e agregando outras coisas. Lembro-me que ele fez o curso, no auge dos piercing, ele foi a São Paulo para fazer curso de colocar e já pôs piercing em tudo que é lugar. Foi muito engraçado que ele, claro, as pessoas chegam inseguras, piercing é uma coisa que tem que ter autorização da mãe, do pai e me lembro que a pessoa chegava: “Dói para botar?”. E ele: “Dói. Dói muito”. Ele disse também que demorava muito tempo para fazer um piercing, porque tinha que ter autorização da mãe, a pessoa tinha que ver outra fazendo para se sentir segura, então ele desistiu dos piercing. Acho que hoje não estarmos mais falando a mesma linguagem no lado comercial e prefiro não estar, as vezes ele me chama de primeira dama, porque eu vivo sem ir trabalhar e porque faço coisa social, mas no lado pejorativo mesmo. Ele está sempre perguntando quando é que eu vou ganhar, quando é que eu vou receber pelo que estou fazendo e agora com a possibilidade do Camargo, ele brinca com isso, porque agora tem ajuda de custo, então tenho que me disponibilizar os dois dias. Como supervisora ficarei das oito às cinco, fico aqui também, mas não nesse período cheio, eu procuro vir sempre, então ele brinca comigo: “Poxa, daqui um dia... Dez anos você vai contribuir para a renda familiar”. P/1 – Regiane, ele ficou então bem contente quando aconteceu aquela história que você estava contando pra gente na [troca de fita] aquele episódio da loja. Queria que você contasse, para a gente deixar registrado. R – Quando aconteceu esse episódio da devolução das joias e teve essa possibilidade de a mãe dos meninos falar para ele que me conhecia aqui da comunidade, mesmo que o filho dela não tinha esse costume, mas isso pesou muito, porque ela me conhecia desde que a gente chegou aqui, tenho certeza de que a conheço, mas não por nome nem me lembro do filho dela. Então ele chegou naquele dia emocionado e disse que nunca mais ia pegar no meu pé, porque tem essas cobranças: “Pô, a gente às vezes recebe visitas aqui, que fica até mais tempo”, até voluntários vêm, querem muito saber como funciona e a gente às vezes estica mesmo o tempo, então ele disse que nunca mais ia encher o saco, podia ficar, podia morar na pastoral, que ele reconheceu a troca, como se eu tivesse dando e recebendo de outra maneira. Isso foi na véspera de Natal, mas depois já mudou de ideia também, porque... Ontem mesmo a gente chegou às seis horas e a casa estava quase entrando água, hoje entrou e ele disse: “Poxa, você lá no hotel, teus filhos aqui”. Mas a mãe mora do lado, ninguém estava desassistido, mas existe essa ciumeira de... Ainda existe. Esquece esses detalhes, né? P/1 – E quais são, para você, as coisas mais importantes hoje? R – Hoje? Mais importante? Eu diria que várias. Esse projeto eu vejo como um desafio, porque acredito muito nisso, de que a criança vai se transformar tendo um ambiente acolhedor e a pessoa tendo essa disponibilidade para isso. Agora preciso que elas também acreditem nisso, porque me chamaram a atenção: “Você quer muito isso, mas será que as outras pessoas querem também?”. Eu me considero uma incentivadora desse projeto, incentivo mesmo, às vezes se precisar ir até a casa buscar: “Olha, nós pegamos a encomenda de “tal” loja, eles precisam de “tal” dia, “Bora lá”. Porque aqui a gente encontra problemas, claro, com os maridos bêbados, com os pastores que têm celebração de quarta, quinta e sexta, que às vezes tiram as mães, então tem várias coisas que atrapalham mesmo de não formar um grupo. Eu também... Meu sonho é que tenha uma cooperativa e que todas as mães tenham a possibilidade de trabalhar, porque eu sei que melhorando, ela vai repassar para o filho e é necessário que tenha essa função. P/1 – Regiane, você falou o nome da sua filha mais velha, só para a gente registrar o nome da sua... R – Tainá. P/1 – É. E o nome da mais nova? R – Maíra. P/1 – Maíra. Está certo. E como foi, para você, contar a sua história para a gente hoje? R – Então, eu já contei, talvez não nessa íntegra, por exemplo, essa parte do colégio de que repeti o ano, eu tentei apagar da minha memória e foi o que contei primeiro para vocês, porque era uma coisa que doía muito e agora já não dói mais, não sei se pelo fato de a minha tia ser a diretora do colégio, então isso teve um peso muito forte, a gente era mais cobrado por isso. Eu sofri muito com essa ideia, acho que não me lembro de ter contado para outra pessoa essa história não, meu marido também não sabe. Esses dias estávamos falando sobre colégio, porque ele estudou em um colégio na capital e ele tem muito trauma de cidade grande, de barulho, de ônibus, ele disse: “Poxa, se eu tivesse a felicidade de morar em Seberi”, ele ainda não conhece, “ Tu serias outra pessoa”, porque ele tem essa ansiedade, essa coisa, né, de cidade grande nem pensar. Chegamos até a morar um ano em Recife por conta da Maíra, porque a Maíra era avessa às escolas daqui. Aqui _______ eram escolas reformadas, casas sem espaço, e sempre que ela ia para a escola, ficava doente, tinha diarreia, ficava com febre. Ela já estava com seis anos e não era alfabetizada, onde o normal é quatro, cinco anos, a Tainá com quatro anos já lia até com a gente, então ficamos de certa forma preocupados. Tentamos em Recife e conhecemos a Polichinelo, que é maravilhosa e tem vinte e cinco anos de escola, para começar as salas de aula não tinham nenhuma parede, estenderam o teto, então ficam livre, natureza e a criança também tem muita liberdade. Ela ficou um ano lá e na metade deslanchou, começou a ler, a descobrir muita coisa e no outro ano retornamos, porque ele não aguentava essa história de ir e vir, já que o comércio ficou aqui, retornamos no ano seguinte, só ficamos um ano mesmo. P/1 – Então, você gostou de contar a sua história? R – Gostei, quero que pegue os bons exemplos e enfatize isso, porque os maus não precisam. Acho que é dever de todos nós e isso é uma alegria, dar possibilidade para as crianças do nosso entorno, então passamos a vê-las com outro olhar, e também o incentivo ao trabalho, acho que isso tira a pessoa da miséria, a oportunidade de trabalho. Considero-me uma motivadora, uma incentivadora, persistente, porque acho importante essa persistência, já que a autoestima das mães é baixa, tanto que elas vêem isso aqui e acham que não serão capazes de fazer. Então tu precisas incentivar, precisas estar ali diariamente, por isso sugerimos almoço e lanche aqui, porque isso já agrega, incentiva até para chamar... Às vezes tem gente que vem interessada mesmo só no lanche e no almoço, depois começam a fazer e acabam ficando. Muitas pessoas já entraram e muitas já saíram, outras têm uma visão assim que... Umas entram aqui e querem saber quanto vão ganhar, antes de fazerem algo já querem saber quanto irão ganhar. Então para um projeto se manter firme é preciso de muito incentivo mesmo. P/1 – Está certo, Regiane. Obrigada. R – Obrigada vocês. ------FIM DA ENTREVISTA-----
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