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História

Brasília: uma cidade psicodélica

História de: José Nilton Ferreira Pandelot
Autor: Ana Paula
Publicado em: 14/01/2021

Sinopse

José conta sobre sua infância no interior de Minas Gerais e em São Paulo. Fala sobre sua mudança para Brasília, em 2005, e conta suas experiências na cidade. Fala de sua atuação no movimento associativo de juízes, sobretudo na Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho e de sua militância política contra o trabalho análogo à escravidão e contra o trabalho infantil.

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História completa

Projeto Fundação do Banco do Brasil Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de José Nilton Ferreira Pandelot Entrevistado por Aurélio Araújo Brasília, 02 de fevereiro de 2006 Código: FBB_CB006 Transcrito por Raquel Martins Reis Revisado por Alice Silva Lampert P/1 – Boa tarde. R – Boa tarde. P/1 – A gente agradece a participação e por aceitar o nosso convite de estar batendo um papo aqui... R – É um prazer. P/1 – Em nome do Museu da Pessoa, para a gente saber de você, queria que você falasse seu nome completo, local e data de nascimento. R – José Nilton Ferreira Pandelot, nascido em Leopoldina, Minas Gerais, no dia 07 de setembro de 1965. P/1 – José, você passou sua infância inteira lá em Leopoldina? R – Não, eu nasci em Leopoldina, na roça, como a gente costuma falar em Minas Gerais, numa casinha de terra batida, não é? Mas meus pais eram proprietários da terra, é mais a simplicidade da vida daquela região. Com menos de três anos, fui para o estado de São Paulo, acompanhando meus pais que, como muitos brasileiros, tentaram a vida na... P/1 – Na grande capital. R - ... na grande capital. Em São Paulo, fiquei até os 12 anos de idade. Retornando para a minha cidade - coincidência disso é o término do milagre brasileiro, né? As oportunidades para a minha família e para os meus pais desapareceram em São Paulo, e nós retornamos para a minha cidade de origem. Lá eu estudei, depois fui para uma cidade maior, que é Juiz de Fora. Lá eu me formei em Direito. P/1 – Como é que você veio parar em Brasília? R – Eu acho que começa com a formação na faculdade. Fiz a faculdade pública, Universidade Federal de Juiz de Fora, tinha um interesse especial pela área de Humanas, fiz Direito, bacharel em Direito. A minha vida profissional começou, como todo bacharel em Direito, na advocacia. Depois fiz o concurso público para o Ministério Público de Minas Gerais, fui promotor público durante três anos e meio, depois prestei outro concurso público, para juiz do trabalho. Também em Minas Gerais, fui juiz substituto, depois juiz titular e, a partir de 1999, ingressei no Movimento Associativo, que é a associação de juízes, né? Os juízes não podem exercer, desempenhar nenhuma atividade política, então o braço político do juiz é... P/1 – A Associação. R – ... é a sua Associação. Ali ingressei nos quadros da associação, me tornei... P/1 – Qual associação? R – Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 3ª Região, que se dá o nome de Amatra, a sigla é Amatra. P/1 – 3ª Região seria? R – 3ª Região: Minas Gerais P/1 – Minas Gerais. R – A Justiça do Trabalho tem essa organização, então fui presidente da associação de Minas, depois me tornei diretor legislativo da Associação Nacional, que fica aqui em Brasília, a Anamatra. Foi quando eu comecei a ter o contato com essas causas de combate ao trabalho escravo, de combate ao trabalho infantil. Essa minha atuação me permitiu me candidatar e vencer as eleições para a Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho, que é a Anamatra. Hoje, eu sou presidente com mandato de dois anos. Por causa disso, eu me mudei com a minha família - e a minha família sou eu e a minha esposa - aqui para Brasília, para residir aqui, desempenhar o meu mandato. P/1 – Você conta a história onde você passou uma parte da infância em Minas, como é que era aquela infância? R – Eu acho que eu tive o privilégio de viver a infância da grande metrópole e a infância da cidade do interior, né? Nos anos 1970, até os meus 12, 13 anos eu vivi ainda aqui em bairros da grande capital, mas uma vida bastante fechada, né, mesmo morando em casa, não tinha liberdade, ia da escola para casa, da casa para escola. Depois dos 13 anos, dos 12, com o retorno para a cidade do interior - e uma cidade de 70 mil habitantes onde fiquei 3 anos - fiz o científico. Nessa cidade do interior, a vida é completamente diferente. A liberdade de ficar manhã, tarde e noite na rua, sem problema, sem violência, sem nenhuma preocupação, algo especial dos pais a não ser aquela preocupação natural do filho, de saber onde que se está: “Ah, estou aqui” “Então tá ótimo, não é?” Foi bastante interessante esse viver a metrópole e viver o interior. P/1 – A opção de ser advogado ___, foi influência da família, o curso de Direito... R – Não, não, meus pais... existe uma pesquisa recente de uma associação de magistrados que revela que o concurso público para magistratura ainda é um fator de ascensão social, que 70% dos juízes hoje no Brasil - são uns 15 mil - tiveram uma elevação no seu patamar econômico ou de vida por causa do concurso. No meu caso não é diferente. Meus pais não tinham muitas posses, ainda que fossem produtores rurais, hoje nem isso mais são, são aposentados, não vivem mais da terra. A tendência da minha família seria que a minha geração, que é a geração que foi para universidade, que fosse para uma agronomia, que fosse pra um curso de veterinária, alguma coisa vinculada à terra. Eu posso dizer que eu fui a ovelha negra, né? Bastante desgarrada, porque eu sou filho único e meu pai queria que eu mexesse com a terra, cuidasse. Hoje ele já mudou de opinião, ele acha que eu fui muito além do que ele poderia permitir, né. Mal sabe ele que eu sou hoje tudo que ele me permitiu ser, porque não é só com bem material que a gente dá futuro para alguém, né? Com boa educação, com carinho, e ele e minha mãe me deram isso. P/1 – Como é que é para você ser filho de pequeno produtor rural e sair do interior, ter sua casa de terra batida e, de repente, hoje morar na capital da república, ter uma situação melhor, né? Isso não dá orgulho pro seus pais? R – Dá muito orgulho, dá muito orgulho, a vida simples que nós tivemos tá muito longe da minha memória porque foi mesmo antes de ir para São Paulo, né? A volta de São Paulo permitiu uma elevação do patamar de vida, né, o nosso padrão de vida. Então, a minha memória já é de São Paulo, é de uma vida urbana, com todo conforto, com alguns bens, com automóvel e o retorno para cidade do interior também. Eu estudei em São Paulo em escola pública, que era possível pra nossa família ali, e já no interior eu estudei em escola particular e hoje eu reconheço que foi o que me permitiu ingressar numa universidade pública. Então eu não tenho esse...eu não percebo ascensão social na minha história de vida não, isso para mim é mais raciocinado do que vivenciado. P/1 – Como foi chegar em Brasília, você já tinha contato antes com a cidade? R – Sim, como presidente da minha associação de Minas, eu, por dois anos, vinha periodicamente à Brasília, uma vez a cada 15 dias em determinados períodos por causa do trabalho, né, acompanhar algum projeto no Congresso Nacional, por exemplo, alguma reivindicação no Tribunal Superior do Trabalho, que é o órgão de cúpula da Justiça do Trabalho, a gente tinha que vir mais vezes. Chegar na segunda ou ir embora na sexta ou na terça, e a minha relação com Brasília foi uma coisa bem profissional mesmo: chegar, hotel, repartição, repartição hotel, restaurante, comer só à noite e ... P/1 – Aeroporto? R – Ir ao aeroporto e ir embora. Na diretoria legislativa a relação ficou mais próxima, minha frequência à Brasília aumentou muito e eu comecei a, confesso, a não gostar da cidade, né? A nossa relação de amizade aqui é apenas entre as pessoas que vêm de fora, a gente não conhece as pessoas de Brasília, né, e o nosso movimento é um movimento político, que vem e encontra em Brasília a sua área, o seu campo de batalha, vamos dizer assim. Então, eu não tinha muito contato, né, na verdade até as pessoas que moram aqui são de fora, não são de Brasília. A minha experiência atual, e que é ainda incipiente, tá no início, não me permite ainda tecer comentários sobre essa minha relação com Brasília. Eu, por exemplo, estou aqui nessa entrevista e minha mulher e minha sobrinha, que está aqui essa semana, estão na igreja, aquela igreja ali na Esplanada dos Ministérios. P/1 – Na Catedral. R – Na Catedral, né? Na Catedral e a gente ainda não conhece Brasília. Não conhece os pontos turísticos, né. Essa semana é que eu comecei a olhar para os prédios, para essas repartições públicas, como monumentos arquitetônicos importantes, então eu acho que eu poderia falar melhor de Brasília no final deste ano [risos]. P/1 – Você está morando onde agora? R – Eu moro no Cruzeiro, que é uma área administrativa, me parece, aqui de Brasília que o pessoal chama de Sudoeste, né? É o Sudoeste de Brasília, uma área habitacional que fica depois do parque da cidade. P/1 – E há quanto tempo exatamente você tá aqui em Brasília? R – Eu me mudei no final de novembro, tive uma grande dificuldade de conseguir um apartamento aqui, eu fiquei impressionado com a pouca oferta de habitação em determinado padrão. Ou encontrava imóveis muito simples ou muito luxuosos. A classe média parece que aqui tem problema sério em comprar, alugar não tem jeito, né? E o meu mandato começou em maio - assumi em maio - junho e julho normalmente é o período de adaptação. Comecei a procurar apartamento em agosto, só achei no início de novembro, o contrato foi assinado no final, em meados de novembro, e me mudei no final de novembro. E um apartamento muito maior do que as minhas necessidades porque eu só encontrei um quatro quartos para mim e minha esposa apenas. P/1 – Você falou que a família é pequena, a família é você e sua esposa. O que ela ta achando da cidade? R – Ela ainda está muito fechada, né? Acho que com a vinda da nossa sobrinha, que é a Luíza, é que ela começou a sair. A minha função me absorve demais, eu fico de segunda à sexta, saio de casa cedo, só volto... vou chegar hoje em casa nove da noite. No final de semana normalmente a gente... nesse período eu fico em casa colocando em dia os meus assuntos profissionais, fazendo contatos políticos, ligando, né. Amanhã eu viajo, vou levar minha sobrinha de volta, e no outro final de semana eu viajo pra Marabá no Pará, mais uma função nossa que é defender a ideia do combate ao trabalho escravo lá em Marabá. Isso é um outro aspecto da minha função: eu tô sediado em Brasília, mas sempre eu tenho que sair daqui e usar o aeroporto para ir à São Paulo ou voltar para Minas ou ir para o Pará, ir para São Luiz do Maranhão. Eu deixei de fazer uma viagem agora para Caracas na Venezuela, para o Fórum Social Mundial, por causa de compromissos no Congresso Nacional. Eu tive que mandar um substituto para acompanhar o fórum, então essa que é a vida. Brasília ainda tá uma cidade de passagem pra mim. P/1 – Ainda é um mistério. R – Ainda é um mistério, é... P/1 – Fala um pouquinho mais dessa luta contra o trabalho escravo. R – A Anamatra, a nossa associação, tem se dedicado muito ao combate ao trabalho escravo, né? E a gente tem várias frentes de luta. Primeiro é tentar conscientizar a sociedade que o trabalho escravo existe, que não é uma fantasia, não é uma visão radical de esquerda de que o trabalhador está sendo explorado, não! Existe sim, e existe a exploração do trabalhador de forma mais degradante e indigna possível, as pessoas são trazidas das suas regiões, não sabem para onde vão, com promessas maravilhosas vão pra lugares que só são acessíveis depois de horas de ônibus ou de caminhão - normalmente são transportadas por caminhão - e lá eles recebem o alimento a preços altíssimos. Com o que eles recebem não é possível com isso pagar os produtos que recebem. P/1 – Quando, na verdade, o empregador tem que bancar isso. R – Tem que bancar tudo e é um absurdo, que eles já chegam endividados. O transporte para essas localidades já é debitado na conta do trabalhador, sem falar de outras formas: a coação, o uso de arma, isso existe. A sociedade tem que saber. Com o juiz do trabalho que é quem vai lidar com isso no dia a dia não é diferente. Nós estamos levando esse tipo de informação para o juiz, para ele saber lidar com essa situação, e nós também trabalhamos no Congresso Nacional, por exemplo, para aprovar leis mais rigorosas, que punam com mais rigor aqueles que, por ventura, explorarem o trabalhador, né? E aqui não há nenhum ataque à classe do empresariado não. Eu tenho certeza que na classe dos empresários, os bons empresários são até vítimas, de certo modo, dos maus empresários porque a utilização da mão-de-obra escrava, sem dúvida, barateia o produto final e isso gera uma concorrência desleal com outro produto com aquele que cumpriu a lei. P/1 – Sério. R – Com o empresário sério. P/1 – E eu sei que Brasília ainda é algo novo, que você está experimentando, mas o que é que você achou, assim, quando você chegou aqui: “Vou morar em Brasília”, chegou aqui no agora, como tá, tá meio perdido, essas ruas estranhas, negócio bem largo, essas distâncias meio longes, né, e como é que foi isso daí... R – Eu conheci, conheço, por estudo, a história da construção de Brasília. Eu sou mineiro, né, e Minas Gerais tem uma relação quase familiar com Brasília, com a sua construção, com a história de Juscelino Kubistchek e tudo, e viver Brasília, e atuar na política de Brasília, ainda que seja a política, não diria uma política menor, mas uma política muito específica, segmentada, que é desse movimento associativo dos juízes do trabalho, me faz lembrar, por exemplo, que eu vim para cá com um compromisso político. Quando eu disputei eleição e houve uma disputa de eleição nacional, eu rodei o Brasil fazendo campanha igual gente grande, um dos pontos da minha plataforma é que eu, se ganhasse a eleição para presidente da associação, teria condição de trazer minha família e residir em Brasília, para melhor desempenhar o meu mandato. P/1 – Então Brasília tem envolvimento com a sua vitória. R – Tem. Então eu vim satisfeito pra Brasília, sabendo que o fato dessa mudança e da minha fixação de residência aqui ia ser importante pra mim, né, pro meu grupo político na vitória e pra associação, porque aqui eu tenho condição mesmo de desempenhar melhor os princípios e as diretrizes da nossa entidade. P/1 – Se o senhor pudesse resumir Brasília em poucas palavras, o que é que o senhor falaria? R – Ah, é interessante. Eu acho que o que explica bem Brasília é ter alguns paradoxos, né. O fato de Brasília não ter esquina, mas ser cheia de voltas e curvas, né, esses trevos de Brasília, é uma coisa psicodélica, o tempo todo, não tem esquina, mas também não é reta não, é cheia de curvas. E o outro, é essa experiência que eu tive de viver Brasília nas convocações extraordinárias, né. Que o presidente da associação antes - eu era o diretor legislativo - tem convocação extraordinária em julho, eu tenho que vir pra cá em julho e é seco demais, a gente sofre muito com a aridez da cidade; e agora essa experiência de final de ano. Eu nunca passei um final de ano em Brasília, depois que eu mudei que eu vi, chove o tempo todo! É água demais e a gente consegue ver como não tem montanha. Eu venho de uma terra que é de montanhas, então o pessoal fala que o mineiro é desconfiado por isso, ele não consegue ver o que é que tem atrás da montanha ali na frente. Brasília você vê tudo. P/1 – Você vê a chuva chegando. R – Eu vejo a chuva chegando, lá não. Se lá no Gamas tá chovendo, daqui a pouco vai chover aqui e eu vejo a chuva chegar, isso é uma maravilha, né? Brasília é uma cidade de paradoxos. P/1 – Tá certo, muito obrigado por sua participação, o Instituto Museu da Pessoa agradece e espero que você tenha aproveitado um pouquinho... R – Olha, eu agradeço, eu, Cecília, minha mulher, e a Luiza, minha sobrinha. Todos agradecem. P/1 – Obrigado. -------------------------------- Fim da entrevista -------------------
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