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História

Brasília tem gente, tem cheiro, tem cor e tem pulsação

História de: Paulo Valério Silva Lima
Autor: Ana Paula
Publicado em: 30/01/2021

Sinopse

Paulo conta sobre sua infância nos anos 1970, vivida entre as cidades satélites de Brasília. Fala de sua infância e juventude em Brasília nos anos 1980, contando histórias sobre o carnaval de rua e a cena musical. Por fim, reflete acerca das mudanças ocorridas na capital ao longo do tempo, comentando a formação multicultural da cidade e seus problemas urbanísticos.

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História completa

Projeto Fundação Banco do Brasil Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Paulo Valério Silva Lima Entrevistado por Aurélio Araújo Brasília, 02 de fevereiro de 2006 Código: FBB_CB001 Transcrito por Augusto César Maurício Borges Revisado por Alice Silva Lampert P/1- Paulo, boa tarde. R- Boa tarde. P/1- Obrigado por ter aceitado participar do nosso projeto Cabine Brasília. Eu gostaria de pedir pra você falar o seu nome completo, local e data de nascimento. R- Então, Paulo Valério Silva Lima, nascido em Taguatinga, cidade satélite do Distrito Federal, 17 de novembro de 1969 na maternidade São Vicente, hoje conhecido como HPAP [Hospital Pronto Atendimento Psiquiátrico]. P1- HPAP. Certo. Como é o nome dos seus pais? R- Paulo Darci ______ de Lima e Maria de Nazaré Silva Lima. P/1- Qual é a atividade profissional deles? R- O meu pai era taxista e a minha mãe cuidava das crianças, nós da casa. P/1- Da casa, né? Como é que era a infância naquela época em Taguatinga Paulo? R- Então. Na verdade eu sou nascido em Taguatinga, mas nós acabamos fixando moradia na cidade do Gama. Então na verdade a época, a infância na década de 1970 era uma infância romântica, né? Época de sentar no meio-fio conversar com os amigos brincar de golzinho, soltar pipa, fazer torneio de futebol com os amigos da rua de baixo ou da rua de cima, então biloca e finca, né? E o dado bom que eu me lembro também é que, ao contrário das outras mães, que sempre expulsavam todo mundo de casa, a minha mãe juntava todo mundo da rua e levava pra dentro de casa. Então, eu tenho bem a lembrança da gente deitado no chão da sala pintando, desenhando com a minha mãe também deitada com a barriga no chão desenhando junto com a gente, então bacana. P/1- E como foi a sua relação com a escolha profissional? Você sempre estudou no Gama? R- Na verdade, nós morávamos de aluguel. Então, no Distrito Federal eu já morei em quase todas as cidades: do Gama a Sobradinho, passando por Ceilândia, chegando até o Novo Gama na região do entorno e própria Taguatinga que eu morei em três setores; em Taguatinga centro, no setor “M” Norte e Taguatinga Norte na Comercial Norte. Então, assim, nós tivemos um período que nós mudávamos de seis em seis meses. P/1- Bem itinerante assim. R- É, porque como não havia ainda, né, a legislação não era pró-inquilino como hoje, então vencido o prazo de seis meses o dono da casa queria aumentar, e como a intenção dele era sempre aumentar mais do que nós poderíamos pagar então mudança nas costas. Isso deu para gente uma diversificação de escolas, acabamos estudando em muitas escolas, né? Eu e mais quatro irmãos, dois homens e duas mulheres. E, da mesma forma, acabamos tendo um leque de amizades. É um pouco interessante quando a gente encontra algumas pessoas que moram a vida inteira na mesma casa. Eu não tenho noção do que é estar 30 anos dentro da mesma casa. P/1- Sempre itinerante. R- É um referencial que eu nunca tive. P/1- E você tinha alguma relação com Brasília já essa época? R- Ah, desde de sempre. Porque, então, como a minha avó morava em Taguatinga e nós morávamos no Gama numa época em que as cidades satélites eram poucas e muito distantes, os finais de semana necessariamente eram ou na casa da minha avó em Taguatinga ou no parque da cidade, que hoje é aquele parquinho que chama Parque Ana Lídia, né? Na época já era a principal opção de lazer da garotada porque era de graça, então ia todo mundo pra lá. P/1- E qual a impressão que você tinha de Brasília naquela época, Paulo? R- Então. Da infância para a adolescência, a infância foi muito assim Taguatinga, Gama, brincadeira de rua, parque da cidade. Mas da infância para a adolescência, a minha adolescência começa ali nos idos da década de 1980 e é exatamente o momento que está explodindo, no cenário nacional, Brasília como capital do rock. Então fica muito forte Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, né? Aquela coisa de cantar Brasília, né? As frases “meus Deus ai que cidade linda” é um pouco a impressão que a gente acaba construindo mesmo de Brasília. E aí a adolescência era andar de ônibus e ir passear na Feira da Torre ou andar com os amigos no Eixão. Eu lembro de um carnaval, quando os desfiles das escolas de samba do DF [Distrito Federal] ainda eram no Eixão, e a gente inventou de vender cerveja. Então compramos umas quatro, cinco latinhas de cerveja e foi todo mundo para o Eixão, eu e mais quatro amigos na mesma na faixa etária, ali dos 18, 19 anos. E o carnaval de Brasília sempre foi um fracasso, o carnaval de rua, né? Então, eu me lembro que nós vendemos três latinhas de cerveja pro mesmo carnavalesco, o único que estava assistindo aos desfiles. Então, o cara. E tinha muito mais vendedores de cerveja do que folião no Eixão. Então o grosso mesmo eram as escolas de samba com quinhentos passistas, né, imagina, a maior, né, a Aruc [Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro], como sempre. Então o cidadão comprava uma cerveja da gente, ia até o fim da passarela, voltava e comprava outra cerveja. Começou a chover, aquela garoa fina de carnaval, quando nós vendemos a terceira cerveja três horas depois para o mesmo cara, e a gente desistiu de vender cerveja no Eixão e resolveu acampar na casa de uns amigos que os pais tinham resolvido passar o carnaval fora e a gente passou o resto dos três dias de carnaval bebendo a cerveja que tinha comprado para vender. Então, assim, coisas do carnaval de Brasília, né? R- De Brasília, né? E nesse momento de você adolescente já você já teve um envolvimento maior com a cidade, com a cidade de Brasília. E os estudos depois do ensino médio como é que vai acontecer isso, onde é que ele vai se dar? R- Então. O ensino médio todo ele em Taguatinga, né, no EIT que é famoso até hoje por ficar numa localização privilegiada, no centro de Taguatinga. Tem inclusive toda uma disputa de algumas correntes que defendem que o EIT deve deixar de existir para se instalar ali um shopping, porque é uma área muito nobre em Taguatinga. Então naquela época estudar no EIT era quase como uma demonstração de prestígio, né? Você estudava na escola do centro de Taguatinga, a Escola Industrial Taguatinga, o EIT. E foi exatamente ali que o ensino médio se deu. Nós acabamos montando, aqueles mesmos amigos que iam vender cerveja lá no Eixão, nós montamos uma rádio estudantil na EIT. Pegávamos uma caixa de som ainda na época dos bolachões. E, na hora do intervalo, a gente tocava os bolachões e tinha sempre alguém no microfone, a gente se revezava falando com a galera que vinha do intervalo, Rádio Boca da EIT era o nome. E dali para a comissão de formatura do ensino médio foi um pulo. Então a gente passou a promover eventos para juntar dinheiro para a formatura no terceiro ano. Então acabamos participando de uma festa junina na Praça do Relógio que era quase uma insanidade. A Praça do Relógio em Taguatinga na década de 1980 era a zona do baixo meretrício mesmo, né? Aliás, uma zona muito bem localizada no centro da cidade. E bancamos fazer uma festa junina com direito a barraquinha e vender cachorro-quente, churrasquinho, essas coisas, junto com as meninas lá. Então, na verdade, do ponto de vista da arrecadação foi um fracasso, mas morando nas cidades satélites em Brasília você acaba tendo duas opções: ou você se isola do plano piloto, né, e algumas pessoas passam a vida sem chegar ao plano piloto ou sem conhecer o plano piloto. Ou você acaba tendo uma visão de todo do Distrito Federal, que é exatamente o corte de achar que Brasília é só a Esplanada dos Ministérios, que é o que fica muito claro pro resto do Brasil. Então tem vida nas cidades, né? A Esplanada pode parecer muito fria, mas por trás daquilo tem gente e aí até pela própria necessidade de trabalho que era sempre no plano piloto e a vida social, afetiva, estudantil nas cidades satélites e a residência em outra que não era aquela onde eu estudava eu acabei conseguindo ter uma visão do todo daquilo que representa Brasília. Brasília para além do projeto urbanístico de Lucio Costa, né? Que, assim, do ponto de vista da projeção do planejamento foi fracasso porque a história da arquitetura mundial tem dois momentos: antes e depois de Brasília, né? Todas as escolas de arquitetura no mundo inteiro hoje discutem o traçado urbano de Brasília. Ela, hoje, no ano de 2006, é considerada futurista. Faço ideia como não deveria ter sido considerada na metade do século XX, né? E, por outro lado, projetou-se Brasília para ter um milhão de habitantes. Nós hoje estamos com mais de dois milhões de habitantes. Então a retidão das retas de Brasília que acaba delimitando uma certa frieza, né, na cidade não corresponde à realidade das pessoas que explodiram em torno da capital do Brasil que estão nas cidades satélites. P/1- E Paulo o que seria esse “torno”? R- Então. Aí é a própria pulsação mesmo, né? A gente vê na mídia do resto do país: quando se fala de Brasília, fala-se do viés político da capital do Brasil e que na verdade não é isso, né? Brasília tem gente, tem cheiro, tem cor e tem pulsação. Então hoje, na verdade, está acontecendo um movimento inverso. Essa pulsação começa a sufocar a área tombada como patrimônio da humanidade e começa a entrar nas Asas, né? Hoje as próprias asas, a Norte e a Sul, já tem muito mais vida e pulsação do que há 20 anos atrás porque as cidades satélites cresceram de tal maneira, incharam de tal sorte, que isso começa a pressionar hoje a sobriedade do traço arquitetônico, né? Então é um pouco também o movimento que se deu na década de 1980, só que era muito localizado na classe média alta, com as bandas de rock, e que agora está vindo à periferia vem a capital do Brasil. Acho que é esse o movimento que está se dando. Ainda para quem mora no plano piloto é muito difícil medir, mas para a população das cidades satélites isso é muito claro, é muito latente. P/1- Como é que era Brasília na década de 1980? R- Pois é. Era absolutamente outra. Grandes espaços vazios na capital, né, o plano piloto era mesmo Asa Norte e Asa Sul. O próprio lado norte não era nem sombra do que é hoje e as habitações da gente comum, os próprios mortais, muito distantes do plano piloto. Então, de Taguatinga para o plano piloto você levava 40 minutos numa viagem de ônibus. E, hoje, você até pode levar o mesmo tempo, mas saindo de Taguatinga até chegar no plano piloto era só mato, era só verde. A Estrada Parque tinha grandes árvores, ainda do cerrado nativo, eram imensas e davam um quê de cidade européia, né? E hoje, se você faz o mesmo percurso você olha pra um lado vê Águas Claras, olha para o outro e vê Vicente Pires e na verdade é ao contrário, né? Águas Claras tenta seguir o padrão do planejado e Vicente Pires é exatamente o amontoado urbano de quem não tinha solução pra morar. P/1- O caos. R- Então, talvez fosse um exercício legal as faculdades de arquitetura levarem os seus alunos ali pra uma passarela e mostrar: “Veja como é que fica uma cidade planejada: olha a esquerda. E agora veja como fica quando não é planejada, e olha a direita”. Então mudou muito, né? Os últimos 10 anos foram absolutamente transformadores para a realidade do Distrito Federal. Mudou, inclusive, a questão da concepção. Nós temos cidades satélites hoje com 270 mil habitantes. P/1- Ceilândia um milhão. R- Então não dá mais para você ter este tipo de cidade sem representatividade política, por exemplo. Não dá mais para você pensar o plano piloto como indivisível. O Distrito Federal sem ter bairros, sem ter municípios porque acaba sendo antidemocrático você imaginar uma cidade com 200 mil habitantes sem representatividade política, por exemplo. Então essa concepção vai precisar mudar para acompanhar o curso do desenvolvimento de Brasília. O próprio Eixo Monumental quando você hoje, subindo a Rua da Rodoviária, vira à direita e vê prédios do que é o sudoeste, aquilo não existia. Então em 10 anos o que era cerrado passou a ser habitação coletiva. Isso dá outra dinâmica, o que acaba provocando o caos urbano no trânsito do Distrito Federal. Hoje tem engarrafamento na hora do rush, mas tem engarrafamento na hora do almoço e tem engarrafamento até finais de semana nas vias dos “eixinhos” ou da W3. Isso era impensável em Brasília há 10 anos atrás. R- Paulo, muita gente fala que Brasília não tem cultura, né? Que Brasília seria um negócio, assim, diferente, que as pessoas muitas vezes não têm apego, vêm para ir embora. Muito a questão do funcionalismo público que vem passar um período e depois transfere. Você ainda acredita nisso? Brasília não tem cultura? R- Tem. E aí eu acho que tem a cultura da miscelânea. Brasília é o conjunto, é tudo ao mesmo tempo agora. Brasília é a Feira da Torre quando você vai e tem numa barraquinha o acarajé e na barraquinha seguinte, o pato no tucupi e, se preferir, na terceira barraca você tem feijão, arroz e bife. Então isso é Brasília. Não tem em outro lugar do Brasil essa possibilidade. Eu estive em Belém e passei uma semana comendo maniçoba. Então, várias formas de preparar maniçoba, mas era maniçoba. Você vai, por exemplo, aos estados do sul e passa uma semana se dedicando à culinária que tem um traçado europeu. Em Brasília você tem tudo ao mesmo tempo agora, né? E essa cultura acaba sendo assim. Eu, por exemplo, minha mãe de era de Manaus, meu pai era fluminense, né, do interior do estado do Rio. É claro que ela trouxe a carga cultural dela e conta para a gente que passou a infância nadando no Rio Negro e que às vezes na floresta pisava num negócio que se mexia e quando olhava era uma cobra. Meu pai, por outro lado, na cidade imperial. Os dois só vieram a se encontrar na região sudoeste em função do surgimento de uma nova cidade, a capital. Então é claro que a geração que eles promoveram, eu e os meus irmãos, vai ter um pouco o conjunto da cultura do que foi Manaus e do que foi Petrópolis, no interior do Rio, mas também vamos ter o jeito próprio de Brasília. Talvez, por isso, a população seja um pouco distante um pouco fria, qualquer um que chega em Brasília sente isso, não é? Em função, talvez, das largas avenidas, mas em função mesmo até da própria forma da cidade ser e se organizar. Como tudo era muito longe, muito distante, então até a possibilidade de você manter as relações sociais acaba sendo resumida ou à cidade satélite ou ao plano piloto. P/1- E o plano do bloco, né? A galera do bloco. R- É, exatamente. No plano, o bloco das superquadras e aí as superquadras também são separadas de acordo com as classes sociais. Quem mora nas Quatrocentas acaba sendo mal visto pela Cem, Trezentas, então isso rola também. A própria apartação, né, um termo criado por um ex-governador do Distrito Federal, mas é isso mesmo. Ainda que hoje o trabalhador não dê conta, o assalariado das mais baixas rendas não dê conta de morar nas Quatrocentas ainda assim quem mora nas Quatrocentas vai ser visto no mínimo de “rabo-de-olho” por aqueles que moram nas Cem. E todos eles das Cem, das Trezentas, das Duzentas, das Quatrocentas vão olhar de (trecho inaudível) de quem vem na cidade satélite. Então... Na verdade acaba todo mundo vivendo no mesmo ambiente que é a capital do Brasil e aí continua recebendo o representante do norte ao sul do Brasil. Então essa coisa de alimentar a miscelânea cultural vai continuar acontecendo. Que não foi só da fundação da cidade, né? A própria natureza do funcionamento da cidade, nós continuamos sendo o poder federal e nós continuamos sendo o lugar onde os representantes de todos os estados se reúnem então você vai ter na mesma mesa de bar alguém com sotaque capixaba e alguém com sotaque sulista, quer seja catarinense ou curitibano. Isso é Brasília, isso não tem, não é em nenhum outro lugar do Brasil, isso não tem em nenhum outro lugar do mundo. Porque, se o Brasil é do tamanho de um continente, é no Distrito Federal que o representante de todos esses lugares desse continente se reúnem. P/1- Quando a gente vê na TV denúncia de escândalo, problemas e tal, muita gente fala: “Brasília, tá vendo, Brasília é isso, Brasília é aquilo” e muita gente que mora em Brasília se sente um pouco magoado com essa situação porque a gente fala: “Pô, não são os brasilienses”. Você concorda com isso aí? R- Claro, até porque quem promove os grandes escândalos de Brasília no Distrito Federal são os representantes escolhidos pelos outros estados. Não quero dizer que os representantes escolhidos no Distrito Federal são exemplos da moralidade, da dignidade, até defendo a renovação desse nível de representatividade, mas é que Brasília acaba estando no centro do continente, ecoando todas as coisas, né? E também não é uma novidade de Brasília, nem é pela natureza Brasília. Quando o distrito federal era no Rio de Janeiro, os escândalos eram os mesmos. O imperador tinha que pagar o apoio que recebia de deputados e senadores no poder legislativo, e pagava. Quando a capital era em Salvador e, portanto, o distrito federal se localizava ali, os escândalos eram ainda mais cabeludos. Então, na verdade, o que aumentou não foi o nível nem o grau de escândalos. Ao colocar a capital no centro do país, o que aumentou foi a possibilidade dos escândalos ecoarem mais rapidamente por todo o país. P/1- Ao longo desses anos, quais foram as transformações que você observou na cidade que mais te marcaram? Assim, aquilo que você tinha e não tem mais, ou aquilo que mudou, aquilo que surgiu de repente, algo novo. De repente uma geração formada no rock n’roll do Capital, da Legião e hoje é banda mais tal do Natiruts outro, quer dizer, outro perfil cultural. O que você sentiu na cidade de forma geral? R- Então. Tem uma música inclusive da década de 1980 que diz isso, né? “Até pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?”. Então na verdade a cidade também envelhece, né? E ao envelhecer, mesmo que ainda jovem Brasília envelheceu muito rapidamente, a ponto de inclusive o próprio tombamento estar sendo colocado em risco agora porque esse envelhecimento trouxe um inchaço, que em determinadas regiões descaracteriza o que era o traçado original. Mas também é preciso pensar o tombamento porque esse planejamento de dizer que nós teríamos aqui um milhão de moradores agora, quando nós temos já o dobro, fracassou. Então, é preciso que se readeque aquilo que de fato é o exemplo urbanístico de Brasília à realidade. Porque aí mudaram os engarrafamentos, que não existiam, tá certo? Aí mudaram as novas cidades ou os aglomerados urbanos que tinham nos espaços entre um e outro. Outro dia eu estava vendo um dado do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. A densidade populacional de Brasília hoje é maior do que a do estado de São Paulo. Nós temos 343 habitantes por quilômetro quadrado. Nem o estado de São Paulo tem isso. Fora o fato de Brasília estar a 1000 metros acima do nível do mar. Então aqui era pra ser um deserto mesmo, um deserto do ponto de vista ambiental. A secura de agosto, a dificuldade de se respirar, os problemas respiratórios que isso causa, a dificuldade do abastecimento de água. Tudo isso você agora se depara com a cidade que é cada vez mais concreta e que as novas tendências arquitetônicas usam cada vez mais espelhos nas fachadas dos edifícios. Você não via edifícios com espelho nas fachadas em Brasília. Isso pode não parecer nada, mas isso aumenta a temperatura da cidade que já tem muito asfalto, o que nos aquece, e agora tem muito espelho, o que aquece ainda mais. Junto a isso, a densidade populacional dá o medo da falta d’água, que de fato é um fantasma que tem assombrado Brasília. Ou se pensam novas formas de se ocupar o espaço urbano em Brasília, ou Brasília pode ficar difícil de se viver, não por causa dos escândalos, mas por conta daquilo que se considera moderno hoje, que é prédio espelhado. Isso é uma grande mudança, também, de 10 anos pra cá. P/1- Paulo você tem como resumir para gente algumas poucas palavras? R- Então. Brasília tem dois hinos, né? Tem o hino oficial e tem o hino que caiu no gosto do povo. O hino que caiu no gosto do povo diz [entrevistado canta]: “Em meio à terra virgem desbravada na mais esplendorosa alvorada, feliz como um sorriso de criança um sonho transformou-se realidade”. Isso é Brasília. Mas o hino oficial também é tão bonito quanto esse, e acabou não se tornando popular. Ele diz [entrevistado canta]: “Todo o Brasil vibrou/ e nova luz brilhou/ quando Brasília vem raiar na nossa história com esperança e fé/ era o gigante em pé vendo Brasília vir surgir na nossa história”. Aí, ele diz: “capital de um país audaz bom na luta/ melhor na paz”. Então isso é Brasília, né? Isso é a capital do Brasil. A soma de tudo isso não pode esquecer que esta cidade se constrói pelas pessoas que fazem essa cidade. Então viva o povo brasileiro! P/1- (trecho inaudível). Paulo, obrigado pela participação. O Instituto Museu da Pessoa agradece a sua participação na cabine Brasília, e a sua entrevista vai estar disponibilizada no acervo. E a gente vai agradecendo de coração a participação. Espero que você tenha aí gostado desse curto bate papo. R- Bom, é eu que agradeço. É sempre bom contribuir com a história de cada um, de cada um que faz esta cidade. Obrigado. ---------------------------------------------- Fim da entrevista ---------------------------------------
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