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História

Brasileiro por opção

História de: Joaquim Gonçalves Rodrigues da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/04/2006

Sinopse

O depoente, de origem portuguesa, chegou ao Brasil com 13 anos. Começou a trabalhar muito cedo na Companhia Antarctica Paulista, na função de "picão" - o nome como eram conhecidos os office-boys na época. Em seu depoimento, fala sobre sua trajetória profissional e sobre a Companhia Antarctica Paulista.

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História completa

Identificação

Meu nome é Joaquim Gonçalves Rodrigues da Silva. Nasci na cidade de Mezão Frio, na região do Douro, em Portugal, em 20 de setembro de 1938.

 

Nome e atividade dos pais

Meu pai chama-se Miguel Rodrigues da Silva e minha mãe, Maria José Gonçalves Dias, ambos portugueses. Meu pai era comerciante e minha mãe era senhora do lar.

 

Chegada ao Brasil

Quando nós viemos ao Brasil, eu tinha 13 anos. O meu pai faleceu num acidente de automóvel, um motorista que ele tinha, e tinha-se tomado um pouco de bebida e ele não percebeu; quando ele vislumbrou o acidente e tentou sair, foi vítima, foi prensado pela porta do automóvel, e acabou falecendo, deixando minha mãe viúva aos 19 anos e com três filhos. Então depois de alguns anos, meu pai era de uma família rica, abastada, e minha mãe era jovem ainda; ela casou-se em segundas núpcias, contrariando toda a família da parte do meu pai. Então desse segundo casamento a minha mãe teve mais quatro filhos. E com essa numerosa prole entenderam que a gente deveria vir para o Brasil, para ter uma oportunidade melhor. Viemos pra cá e aqui chegamos em 1952.

 

Primeiro emprego

Quando chegamos ao Brasil nos instalamos na casa de um tio nosso, um tio muito amado, muito querido por nós. E ele era gerente geral da Feira das Nações, que era uma grande casa que tinha ali na Praça Ramos de Azevedo, que hoje não temos mais - nós temos algumas casas assemelhadas, que é Santa Luzia, ali bem em frente, na esquina da Barão de Itapetininga com a Praça Ramos de Azevedo, bem em frente ao antigo Mappin. Então ele deu oportunidade para o meu padastro trabalhar lá, como funcionário, como auxiliar lá dentro. E eu trabalhei durante uns dois ou três meses numa empresa ali também, na Barão de Itapetininga. Foi quando me falaram: “Vá para a Antarctica. Vá fazer um teste na Antarctica”. Nós morávamos ali na Rua Mariano Procópio, no Ipiranga, casa alugada.

 

Ingresso na Companhia Antarctica Paulista

O meu primeiro contato com a Antarctica deu-se logo na minha chegada. Eu trabalhava nessa empresa próxima da Feira das Nações; fazia serviço de office-boy - ia nas companhias de seguro, etc e tal. E em determinado momento uma empresa gostou de mim e queria que eu fosse trabalhar com eles. E aquilo me chocou, porque eu sempre coloquei muito amor naquilo que eu faço, então o gerente dessa corretora de seguros me falou: “Joaquim, se você não quer, você não precisa sair”. E o contador falou: “Você é um moço que estava estudando em Portugal; você está preparado, você ia frequentar o quarto ano do Liceu. Você tem uns bons conhecimentos. Por que você não vai para Antarctica fazer um teste?” E aí eu fui na Antarctica - nem sabia o que era a Antarctica, não tinha nem a mínima noção do que era essa empresa. Meus estudos começaram em Portugal. Mas quando eu cheguei ao Brasil, talvez por desinformação, eu prestei exame de admissão num colégio do Estado, o Alexandre de Gusmão, e entrei como primeiro classificado. Fiz o Ginasial e o Científico sem qualquer esforço; eu apenas tive que me adaptar a História e Geografia do Brasil, porque o restante eram matérias equivalentes. Então, na realidade, eu perdi uns quatro anos, cinco anos de estudo, porque eu poderia ter apenas feito uma adaptação. Mas como não havia convênio cultural na época, isso não foi possível. Mas se eu tivesse insistido, talvez eu tivesse encontrado um caminho melhor para aproveitar todo esse tempo de estudo que eu tive em Portugal. E graças a esses conhecimentos que eu adquiri como estudante, eu fiz um excepcional teste na Companhia. Eu nunca me esqueço que eu cheguei lá pra fazer o exame e falou o senhor: “Estão aqui as questões de matemática. Você tem seis páginas; escolha aquilo que o senhor tem capacidade de fazer.” Eu peguei, olhei, olhei, fiz até o último. Eram quatro ou cinco exercícios. Aí o encarregado de recrutamento falou: “Não é para o senhor fazer todos”. “Eu já fiz todos, já estão todos feitos.” Quando ele olhou a minha prova, falou: “Puxa vida” - ficou assim, né? Aí ele me mostrou um monte de testes: “Olha quantos testes; são pessoas que estão na sua frente.” Aí eu saí e fui embora. Falei: “Ih, isso aqui vai demorar uns dois anos para me chamarem”. Surpresa minha, menos de três semanas eu fui chamado pela Companhia. Isso em 1953. Fui chamado dia 31 de agosto de 1953; dia 1º de setembro fui registrado como empregado da Companhia. Como office-boy, mas o nome não era office-boy, era “picão”, que era o nome que se dava à função de office-boy. E como éramos de menor, só podíamos trabalhar dentro da Antarctica, você não podia ir para a rua, era um serviço interno. E todo novo office-boy, todo novo “picão” que entrava na Antarctica, eles procuravam dar um serviço assim mais difícil, mais distante, mais longe - a fábrica era muito grande. E eu nunca me esqueço: a primeira coisa que eu fiz foi levar uma carta para um alemão que trabalhava na tanoaria, que era bem distante porque a empresa era grande, escritórios antigos, cheio de departamentos. Então você tinha que levar a correspondência que chegava, porque na Antarctica você tinha a portaria e tinha a recepção de correspondência - e aquilo era um monte. Então eu saía levando protocolo. E foi assim que eu comecei a minha vida na Antarctica.

 

Trajetória Profissional

Até que um dia, uns 15 dias depois, eu estava a fazer embaixadinha com tampinhas de refrigerante - porque a gente podia tomar refrigerante a vontade, não tinha problema - e passou um secretário, que falou: “É, Joaquim... cuidado, não faça isso” No dia seguinte - eu entrava às 10 horas e saía as 7 da noite - o chefe da portaria, que era o Seu Straub, falou: “O Seu José de Maio quer falar consigo”. Eu falei: “Pronto, eu já perdi o emprego” - eu tinha sido chamado a atenção no dia anterior, por um secretário. O Seu José de Maio era assistente do superintendente da Companhia. Aí eu fui lá falar com ele. Falei: “Bem, nem comecei e já estão me mandando embora...”. Ele falou comigo: “Não, nós temos uma vaga aqui na secretaria B” - que era a secretaria que cuidava dos assuntos do Dr. Belian, o superintendente da Companhia. E na hora que ele estava falando comigo, o Dr. Belian chegou. Daí ele falou: “Dr. Belian, esse aqui é o Joaquim. É um moço de origem portuguesa e fala muito bem o francês”. Aí ele começou a falar comigo em francês. Aí eu falei - um catatauzinho e conversei com ele. Aí passei a trabalhar na secretaria. E aí começou a minha vida. Tive a felicidade de logo conhecer o superintendente, que depois veio a ser o presidente da Companhia. E assim comecei, com um salário razoável - ganhava bem mais que o salário mínimo, porque o salário mínimo na época era expressivo, tinha uma representação boa. E até o fim do ano eu recebi três vezes o salário que eu ganhava. Então eu achei: “a Antarctica é uma empresa divina”. Eu nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida. Eu, como menino, ganhava tanto ou mais que meu pai. Então com a família grande - nós éramos em sete, porque meu irmão mais velho ficou lá em Portugal, assim como minha irmã do primeiro casamento - eu era praticamente o arrimo de família. E devo isso tudo a Antarctica. A Antarctica me abriu as portas. Por isso eu digo que a gente se emociona.

 

Adaptação no Brasil

Nós nos adaptamos muito bem no Brasil. Essa é uma terra maravilhosa. Eu sou brasileiro, me naturalizei brasileiro; eu sou brasileiro por opção. Não porque eu nasci geograficamente aqui, mas porque eu quis ser brasileiro. Meus irmãos não são, mas eu sou, porque eu acho que o Brasil é uma terra para quem quer trabalhar; quem age com retidão, com empenho, com interesse, com vontade, vence. Só não vence quem não quer. O exemplo disso são todos os imigrantes que vieram para esse país, todos eles progrediram dentro do país, porque se voltam para o trabalho. Não estão preocupados com o vizinho, se o vizinho tem ou não tem. Eles estão preocupados em produzir e cuidar da família. E eu tive muita sorte na Companhia.

 

Faculdade e progressão na carreira

E eu percebi logo que quem tinha preparo estudantil tinha oportunidade de subir. Porque todos os funcionários eram forjados dentro da Companhia. Daí eu procurei estudar, fiz o Ginásio, fiz o Científico à noite. Depois fiz a faculdade de Economia, me especializei em Marketing. Fiz a faculdade de Direito. Tudo para quê? Para que eu pudesse subir, ter carreira dentro da Companhia. Mas sempre ligado aos presidentes da Companhia. Fiquei 32 anos no convívio deles, ora como secretário, depois como assistente, depois como assessor e depois como diretor-adjunto do presidente, que foi a minha última função dentro da Companhia. E com o falecimento de D. Erna - uma dama inesquecível - eu entendi que era o momento de eu dar uma desviada na minha carreira dentro da Companhia. Eu pretendia me aposentar, mas me ofereceram a oportunidade de ser revendedor. E eu fui ser revendedor da Antarctica. Lá fiquei até 2002, de 85 a 2002, quando a AmBev negociou comigo a compra da revenda. E aí encerrou a minha vida, vamos dizer, relacionada a Antarctica.

 

Fundação Antônio e Helena Zerrenner

Mas eu não deixei jamais de me envolver com as coisas da Fundação, onde eu, desde 53, sempre estive com a D. Erna, voltado um pouquinho para o Serviço Social. Porque quando a Companhia montou um grande departamento social na Companhia, em 1954, a despeito de tudo o que a Fundação fazia, a Antarctica tinha também que oferecer alguma coisa aos seus funcionários. Então eu fiquei lá praticamente um ano e depois eu voltei a trabalhar novamente com o Dr. Walter Belian. Agora eu já estudava, e a Antarctica tinha por orientação que todo jovem que estudava à noite e trabalhava durante o dia, fosse obrigado a frequentar uma escola que tínhamos lá dentro - a gente chamava de escolinha - com professor, para fazer as lições do dia-a-dia, se preparar e estudar com um professor, que traçava a orientação para a gente nas dúvidas que a gente tinha. E permitia também que antes de a gente sair, jantasse no refeitório da Companhia. Então você entrava 10 horas - eu entrava - e tinha pão com manteiga e café com leite. Almoço às 11 horas, lanche à tardinha - pão com manteiga e café. E às 5 horas tinha o jantar. Veja bem, o que se conclui de uma Companhia que fazia com isso? Ela conquistava todos os empregados. E foi sempre o que o Dr. Belian falava pra mim: “Joaquim, a afetividade e a efetividade a gente conquista. A capacidade técnica a gente pode contratar, mas a dedicação a gente conquista”. E isso era uma forma, além da excepcional remuneração que a gente tinha, de fazer a gente crescer. E eu sou da época que tinha gente que falecia em cima da escrivaninha. Eu me sentia um jovem, embora com bastante tempo de Companhia, quando via gente com 40, 50 anos de Antarctica, 60 anos, trabalhando ainda. Então era uma empresa que cativava a gente demais. Quando fui trabalhar com o Dr. Walter Belian, eu tinha exatamente 14 anos. Muito jovem, e veja bem, era uma praxe da Companhia. As admissões para o quadro administrativo eram todas elas em cima de jovens de 14 anos - nem menos de 14, nem mais de 14; era nessa idade.

 

Cotidiano de trabalho

Veja bem, eu fazia o serviço de protocolo. Então todo o expediente que vinha, ele era despachado pelo Dr. Belian, como superintendente, e depois de acordo com o despacho dele, se o documento era para o departamento técnico ou o departamento de pessoal, você fazia o protocolo, relatava e mandava aquilo. Depois, com o tempo, o Dr. Belian passou a ter menos tempo para se dedicar às coisas da Companhia. Lógico que ele sempre centralizou essas atividades e estava mais preocupado com aquelas lutas que a Fundação teve que travar com certas pessoas para que todo o patrimônio do casal Zerrenner fosse preservado e ficasse aqui, à disposição dos empregados aqui no Brasil. Por que havia um movimento no sentido de se apropriar de tudo isso. Então o que que eu tinha que fazer? Você me perguntou o que eu fazia. Então todo o expediente que vinha para ele, chegava nas minhas mãos e eu fazia um resumo; então vinha um relatório de quatro, cinco páginas, eu fazia um resumozinho em meia folha de papel, condensando tudo que estava lá dentro, e ele despachava: “Tá, faz isso, faz aquilo.” Era uma tremenda de uma responsabilidade. E eu era jovem ainda, deveria ter uns 16, 17 anos, fazendo isso. E em cima do despacho, de acordo com a natureza do assunto, a gente criava um protocolo especial. O que é que era um protocolo? Você punha um documento dentro, dava um número. E sistematicamente, eu tinha dois auxiliares que me ajudavam a fazer a cobrança do andamento do assunto. Então eu despachava: “Tem que fazer isso, tal, tal, tal”. Então, uma semana depois, foi feito, não foi feito, e acompanhando. Então havia um acompanhamento para garantir que aquilo que ele deliberou, aquilo que foi despachado pelo presidente da Companhia - na época superintendente - fosse cumprido. Então foi essa a minha função. Depois passei a secretário. Era aquele contato direto, agenda. E vamos dizer, como eu falei desde o começo, eu entrei na secretaria dele, que era a famosa Secretaria B. É um serviço de secretariado. Você cuidava, vamos dizer, tudo que era formal com relação ao desempenho dele como presidente da Companhia, a gente tinha que dar todo o apoio. Depois passei a assessor. Não muda muito assistente, secretário, assessor - não muda muito, a não ser a remuneração. Porque o empenho tem que ser o mesmo, a capacidade tem que ser a mesma, você está entendendo?

 

Dr. Walter Belian/Dona Erna Belian Wernsdorf Rappa

 E vou dizer, eu me orgulho muito da Antarctica exatamente por tudo isso. E pelas figuras excepcionais, porque a gente não pode falar na Antarctica sem falar no casal Zerrenner, que deixaram toda a riqueza deles, a empresa, para ser dedicada aos empregados. Mas ao Dr. Belian e a D. Erna especialmente, porque eles se empenharam para desenvolver essa obra magnífica que é a Fundação Antônio e Helena Zerrenner. Dr. Belian foi um homem de uma visão, de uma dedicação, de um empenho, com sacrifícios pessoais. Ele era um homem que foi jornalista correspondente na Primeira Guerra Mundial e teve algumas sequelas dessa trajetória dele. E quando ele já tinha um pouco mais de idade, ele foi, como se diz, vítima dessas sequelas. Então ele era um homem que chegava na Companhia às 7 horas, 7 e 15 da manhã e não saía nunca antes das 7, 8 horas da noite - e levava ainda trabalho para casa. Então ele fez um tremendo sacrifício. Ele era um homem, nos últimos anos, que quando ia para casa estava tão esgotado que, quando chegava no elevador, não conseguia ficar de pé. E uma vez eu segurei ele e ele me deu uma cotovelada. Aí ele falou: “Não preciso que me ajude”. Ele tinha uma fibra, um negócio espantoso. Então o Dr. Belian foi para mim um ídolo, um homem de uma capacidade indescritível; foi um brasileiro - embora nascido na Prússia, na Alemanha - que poucos a gente encontra como ele. Ele tinha um amor todo especial por este país - como eu tenho também, mas eu acho que o dele, pela obra que ele fez, devia ser muito maior. E ele foi um homem que sempre se preocupou com o desenvolvimento do país, se preocupou sempre com as classes menos favorecidas. Essa obra que ele desenvolveu, coadjuvada pela D. Erna, sua irmã - e depois do falecimento dele, também presidente da Companhia - é uma obra magnífica; eles fizeram uma das primeiras escolas técnicas, senão a primeira escola técnica, que era a Escola Vocacional Getúlio Vargas, aqui no Parque da Água Branca, que depois se transformou em Escola Técnica Walter Belian, em homenagem ao Dr. Belian. Nós tínhamos o Hospital Santa Helena, abrigo para menores, pensionato para meninas, lar de idosos. Foi um trabalho magnífico no campo social. E isso era um pioneirismo para a época. Eu me orgulhava demais de trabalhar na Companhia e sou eternamente grato, tanto ao Dr. Belian, quanto a D. Erna, pelo que eles fizeram pela Companhia e pelo Brasil.

 

Conviver com a D. Erna era... Como se poderia dizer? Fizeram a forma e jogaram fora. Era uma mulher de uma capacidade, de uma inteligência incomum, mas de um sentimento humanitário... Olha, não há como descrever. Ela era uma senhora, veja bem, que podia estar envolvida num problema mais importante da Companhia, mas se soubesse que alguém estava com um problema sério, de saúde, ela praticamente saía do ambiente e ia cuidar da orientação: “Faça isto, faça aquilo.” Era uma senhora que, todo dia antes de ir para a Companhia, ia ao Hospital Santa Helena visitar todos os andares, para saber como os internados estavam, se tinha algum problema, se precisava de ajuda. Inclusive tem um caso que muita gente deve estar sabendo disso também, de um tio de colaborador que tinha até recebido a extrema-unção e ela foi lá fazer uma visita; falou, conversou, entregou para essa pessoa um relógio desmontado que veio da Floresta Negra, trazido por um padre - frei aliás, não padre. Entregou e disse: “Isso aqui é para o senhor montar”. Está vivo até hoje. Isso faz o quê? Mais de 20 anos, uns 25 anos. Então você veja o carisma que essa senhora tinha. Era uma coisa. Olha, e eu convivia com ela. Nós chegamos a um ponto que eu acabei morando próximo da residência dela, e ela me falou: “Eu gostaria que o senhor me levasse de carro para a Companhia e me trouxesse, porque assim a gente pode conversar à vontade.” Eu fiz dois cursos superiores – três, aliás - mas a maior faculdade e a melhor faculdade que eu frequentei foi o convívio com D. Erna e com Dr. Belian. E quando a gente fala não pode falar sem mencionar essas duas ilustres criaturas que tanto dignificaram a Antarctica. Olha, não houve nenhuma resistência quando D. Erna assumiu a presidência da Antarctica, por ser mulher; porque ela era uma senhora que pela sua própria natureza, sua própria índole, era extremamente generosa, não tinha uma só pessoa que não respeitasse a figura dela e não respeitasse a capacidade dela. Evidentemente ela era mais voltada para o campo social, para o campo comercial, enquanto o Dr. Belian era voltado mais para o campo empresarial, industrial e jurídico, porque ele se envolveu por demais. E até muita gente dizia que o Dr. Belian criava o problema e a D. Erna ia lá e resolvia. Porque ela tinha uma qualidade extremamente delicada, penetrante; você conversava com ela e se sentia tremendamente à vontade, sentia que tinha uma mãe ali na frente. E sempre foi assim, até os últimos dias. Então não houve resistência nenhuma. Nenhuma, nenhuma. Embora ela fosse vice-presidente da Companhia, tinha mais outros três vice-presidentes; mas ninguém se rogou no dever de que: “Eu vou assumir porque eu sou homem.” Não. A figura de D. Erna foi sempre entendida como uma coisa intocável dentro da Companhia. A turma podia até às vezes contestar o que o Dr. Belian fazia, mas a D. Erna, dificilmente. E por isso que eu digo que eu sou um afortunado por ter convivido tanto tempo com eles. Então eu vinha com a D. Erna de carro, a gente vinha conversando, tratando, discutindo. Porque você não podia tratar essas coisas na frente de um motorista, porque é muita coisa, muita particularidade que a gente tem que tratar e que não pode passar, ninguém pode ouvir, porque a gente discute: “Olhe, isto, aquilo e aquilo.” Se você quer saber alguma coisa lá da Companhia, era só ir na garagem lá de passageiros; você sabia de tudo que se passava dentro da Companhia. Dr. Belian faleceu em 75; de 75 até o falecimento dela, passei 9 anos conduzindo o carro, conduzindo. Ela só me liberava na sexta-feira, para eu jogar bola. Então jogava eu, os diretores, o Dr. Victório; o Gracioso, o seu José de Maio e os funcionários daqui, nós íamos jogar bola na quadra da Escola Técnica Walter Belian. Nós tínhamos o clube dentro da Antarctica, mas para a gente ficar num lugar mais reservado, porque éramos todos já relativamente veteranos, a gente não podia ser motivo de brincadeira de pessoas, então ficávamos lá na escola jogando bola - e era o único dia que eu não a levava.

 

Cotidiano de trabalho

Domingo estava lá, sábado estava na casa deles. Porque quando eu entrei na Antarctica, o trabalho também era aos sábados. Eu passei inclusive, como o Dr. Belian era um homem muito sobrecarregado, um ano indo de domingo para a Companhia, para organizar o arquivo dele - e consegui. Ele tinha a escrivaninha dele e atrás tinha um balcão grande, onde ele punha toda a papelada. Ele olhava e só pela pasta, pela cor da pasta, já sabia onde é que estavam os documentos. Aí eu falei: “Como é que eu vou organizar isso?” Aquilo era uma empreitada - outras pessoas tentaram e não deu certo. E eu pensei: “Como é que eu vou resolver isso?”. E na época ele estava reorganizando a Companhia; criou uma gerência geral e isso me deu uma inspiração, porque se ele está criando é porque ele quer ter um gerente para a parte industrial, para a parte de recursos humanos, para abastecimento, para isso, para aquilo. “Eu vou fazer isso aí e vou fazer mais alguns grupos como Fundação, problemas jurídicos, de impostos...” - que nós tínhamos, na época, alguns problemas lá de fiscais, que tentavam deixar a Companhia assim em situações... Não porque houvesse algum desvio, alguma sonegação, em absoluto. Criar problemas talvez insuflados por pessoas. E criei aquilo lá, fiquei um ano trabalhando de domingo. Aí um dia ele pediu um papel e não estava mais naquela pastinha que ele queria. E fiz um arquivo a cores, cada grupo tinha uma cor, em ofício de cartolina com as cores diversas; e em cada ficha eu punha um resumozinho do que estava dentro da pasta. Então se ele queria um assunto, vamos dizer, comercial: “Quero ver propaganda, o que está se gastando em luminoso, o relatório, etc e tal.” Era só chegar lá e olhar. “O processo tal, do, como é que era? imposto... de imposto” - eles ficavam lá, era só ir no arquivo, pegar a pasta, virar, tinha até divisória dentro. E encontrava. Aí no começo ele ficou meio bravo, depois ele chegou, reuniu todo mundo lá e falou: “Olha, o Joaquim não pode mexer nesse arquivo, senão ele vai estragar toda a organização que foi feita aqui.” Nossa, o Dr. Belian era um homem de umas tiradas fantásticas. Quer dizer, eu fiz e eu não podia mexer, está entendendo? Mas isso me deixou cheio de orgulho, porque eu consegui fazer uma coisa que muita gente tentou e não conseguiu. Agora, como se diz, é aquele bem estar que ele proporcionava a gente, que nesses momentos que ele ficava bravo com a gente, compensava tudo.

 

Companhia Antarctica Paulista

Olha, nunca pedi hora extra. Trabalhava sempre extraordinariamente. Aliás, ninguém na Companhia reclamava hora extra. Ninguém tinha o condão de pedir pagamento de horas extras, jamais. Havia sim horas extras na fábrica, porque era um trabalho mais pesado. Mas na administração, com exceção da contabilidade, por ocasião do levantamento do balanço, porque você tinha um prazo menor, então você teria que fazer isso em serviços extraordinários. Mas eu jamais vi um empregado pedir hora extra e jamais vi um empregado ser dispensado da Companhia por um ato assim, vamos dizer, não agradável - a não ser um, um único, que foi dispensado sumariamente porque ele praticou um ato lesivo à Companhia. Então era uma empresa que se você se empenhasse, cumprisse as suas obrigações, você jamais teria necessidade de ficar preocupado em ser demitido da Companhia. E para você ter uma ideia, a Antarctica, na época que eu estava lá - vamos dizer, nos idos de 60, 70 - tinha um conceito aqui em São Paulo, e a nível nacional, tremendo. Quando o Mappin lançou a primeira TV a cores portátil, eu fui no Mappin para comprar uma e eles só vendiam em três pagamentos. Aí ele falou: “O senhor trabalha onde?” Aí eu falei: “Na Companhia Antarctica” “O senhor tem a carteira?” Mostrei a carteira, ele falou: “Bem, o seu crédito está aprovado.” Só a carteira. Só a carteira de trabalho da Antarctica, para você ter uma ideia do que era o conceito. Por quê? Embora a Antarctica fosse uma empresa dedicada a produção de cervejas e refrigerantes, Dr. Belian e a D. Erna sempre procuraram dar uma imagem à Companhia voltada para a parte artística, para a parte cultural. Grandes eventos daqui eram promovidos pela Companhia - concerto no Municipal, vinda de ginastas dinamarqueses. A Antarctica estava por trás. Então ela criou uma imagem que, vocês são muito jovens ainda, mas quem é da nossa época, você falava Antarctica e tinha uma sensação de que não era uma empresa fabricante de bebidas; era uma empresa com uma imagem fantástica, está entendendo? Para você ter uma ideia, quando entrei na Companhia Antarctica, a gente se surpreendia. Eu me surpreendi com tudo aquilo que a Companhia me ofereceu, com as coisas que aconteciam. Lá no pátio a gente andava a caminho de onde foi, há muitos anos atrás, um campo de futebol, onde jogou Germânia, São Paulo, naquela época - 1900 e alguma coisa. Tinha lá uma área grande, onde tinha vários muares, que eram os cavalos usados na entrega dos produtos quando se usava as carroças. Eu convivi com isso dentro da Antarctica; depois eles foram ficando velhinhos e foram transferidos para um terreno que a Companhia tinha lá no Sítio Pedra Branca, aqui perto do Tremembé. Então você veja bem, era uma empresa que se preocupava até com os animais. Se preocupou não só com os muares; se preocupou muito também com a UIPA, a União Protetora dos Animais. Sempre ajudou, colaborou; os restos, vamos dizer as sobras - não os restos, as sobras dos refeitórios - iam tudo para cuidar dos animaizinhos que eram recolhidos pela UIPA, que naquela época era na Avenida Quarto Centenário, uma zona tremendamente nobre de São Paulo, quase na esquina com a República do Líbano. Depois ela foi transferida para aqui perto da Marginal, perto do campo da Portuguesa - aí hoje ela não tem expressão, mas naquela época... Por isso que eu digo que o Dr. Belian e a D. Erna fizeram muito pelo país, não só retendo todos os bens da Fundação aqui como esses atos, essas ações, essa visão que eles tinham nesse mundo de negócios. Agora, são figuras que eu jamais posso esquecer e eu não posso, vou repetir, vou ser repetitivo, falar na Antarctica sem falar nos dois a cada cinco minutos. Porque não é uma forma de gratidão. Lógico que eu tenho muita gratidão por tudo, mas é uma memória que não pode perecer; ela tem que estar sempre viva em qualquer coisa que envolva a Antarctica e a própria AmBev. E aquilo que eu falei, que quando era mais jovem, que o próprio Dr. Belian chegou a comentar e eu não tenho certeza hoje que são tantos anos, ele cogitou de uma aliança, uma junção com a Cervejaria Brahma, na época - que também tinha figuras exponenciais que nem o Sr. Hubert Gregg, o Sr. Künning. Mas foi um pensamento que acabou acontecendo agora, nesses anos atuais. Mas enfim, tem tanta coisa para falar, que eu não sei, eu não sei nem como me conduzir...

 

História da Fundação

A Fundação, veja bem, ela começou com o Hospital Santa Helena, que foi na década de 40 que ele foi construído. E ele foi construído exatamente onde era a residência do casal Zerrenner, o palaciozinho dele. E veja bem, eu não sou dessa época, eu vim um pouquinho depois, eu vim uns sete, oito anos depois. E eu inclusive, ouvindo de um funcionário antigo - se hoje ele tivesse vivo ele teria uns mais de 100 anos de Antarctica - que ele tomava o trenzinho na rua Vergueiro e ia até a Avenida Paulista buscar leite na chácara do Seu von Bülow, que era o sócio do Comendador Zerrenner - tinha 30% e o Comendador Zerrenner tinha 70. Ele ia buscar leite de trenzinho. Voltando a situação da Fundação, ali onde ele morava, foi construído o Hospital Santa Helena. Depois veio a Escola Vocacional, no Parque Antarctica, transferida posteriormente para o Cambuci, para ficar mais próxima da fábrica, para que ela pudesse receber os filhos dos empregados. O empregado vinha trabalhar e eles eram levados para a escola. A escola tinha o ensino fundamental e o curso técnico, coisa que também, com o tempo, foi modificado. Modificado quer dizer aprimorado, porque por lei a Companhia tinha que dar o berçário para os filhos dos empregados, filhos das empregadas, etc e tal. Então ficava lá por seis meses, mas a Companhia e a Fundação sempre permitiram que ficasse por mais dois anos. O médico justificava que precisa, e isso e aquilo. Depois criou-se o Recanto Infantil, então aos dois anos ele ia para o Recanto I, o Recanto II, e ficava até chegar os seis anos. Aí já entrava na idade pré-escolar, ia pra nossa escola. Então ele nascia no Hospital Santa Helena, ficava no berçário e ia até completar o curso colegial, técnico. Olha, a gente é até suspeito para falar dessas coisas, mas foi motivo de orgulho os alunos que passaram por lá. São algumas dezenas de milhares que passaram por essa escola e que iam prestar exames no ITA, na Poli, sem qualquer curso e entravam sempre em primeiro, segundo, terceiro lugar. O nível de nosso ensino era fantástico. Então é isso com relação à escola. Nós tínhamos também em Tremembé, que depois se desativou, um ginásio onde o aluno ficava internado lá - e não era só para filhos de empregados, era para filhos de pessoas que moravam, pessoas necessitadas. Nós tivemos isso aí durante muitos anos, o Ginásio de Tremembé. Tínhamos um pensionato feminino, onde a gente punha jovens meninas, que embora tivessem o pai ou a mãe, servia para facilitar a vida e o estudo. Da mesma forma, um pensionato masculino. Um abrigo de menores, onde só tinham crianças órfãs. E tínhamos o Lar dos Velhos, além do Hospital Santa Helena, é lógico. Então a Fundação prestava, e presta até hoje, uma gama de assistência que pode ser registrada como pioneira no país. E daí eu volto a figura do Dr. Belian e da D. Erna. Então não tem como, você vai e volta lá. Da Fundação eu ainda faço parte hoje; e faço com muito prazer, com muito orgulho. Parte da comissão de beneficência que cuida daqueles casos especiais, em que há dificuldade de solução, de problemas de ordem financeira e econômica, principalmente de saúde, aqueles casos excepcionais que normalmente as assistências, os convênios não abrangem, a gente estuda, encontra um caminho para que esses casos sejam atendidos. E faço isso com prazer, com um grupo que trabalha conosco, também todos antigos empregados. Tem um, inclusive, mais antigo do que eu no grupo. E a gente procura dar continuidade, dentro do possível, do legado que nos foi deixado.

 

Trajetória na Fundação

Eu faço parte da Fundação desde 1977, mas antes, já em 53, no final de 53, quando eu fui requisitado pela D. Erna junto ao Dr. Belian para participar da criação de um grande departamento social, eu comecei a me envolver com a parte social. Porque nós tínhamos, inclusive, uma chefia constituída por um elemento da Fundação e por um elemento da Antarctica; seriam três procuradores e um procurador, que coordenava as duas coisas. Então eu me envolvi desde lá. Participava das reuniões da mesa - sistematicamente toda reunião mensal estava eu lá, junto da D. Erna. E em 77 eu fui reconhecido e fui promovido; fui indicado para ser membro da mesa administrativa, já como vice-presidente da Comissão de Beneficência e Sindicância, jovem ainda. E em 78 continuei ainda na Antarctica, fui eleito Diretor Adjunto da Presidente, onde fiquei até 85, quando eu me afastei para ser revendedor da Antarctica. Eu fui revendedor. Comecei como revendedor pequeno, depois acompanhei, fiz revendas de mega distribuidoras. Eu fui um mega distribuidor. Comecei em 85; em 87 eu estava já organizando, implantando, criei os estatutos da Associação dos Distribuidores da Antarctica, presidi essa Associação durante seis anos - contra a minha vontade, porque eu acho que devia ficar só dois anos, mas os companheiros diziam: “Não, Joaquim você...”. E com isso o que é que eu consegui fazer? Eu consegui aprimorar o relacionamento entre a Antarctica e os revendedores. A minha revenda era na Zona Leste. Ela iniciou na Amador Bueno da Veiga, como Dicap. Depois como mega distribuidor, nós agregamos a Tip Top de Guarulhos, que era da Companhia, o Vila Matilde que era da região. Então praticamente toda a Zona Leste e Guarulhos fazia parte. Quando iniciei, tínhamos quase 400 empregados. Depois fomos racionalizando, adequando. E quando a AmBev se interessou em fazer a distribuição direta, evidentemente que a gente negociou. Mas foi uma negociação de alto nível, muito bem proposta, muito bem realizada. E eu sempre procurei fazer um trabalho de estreitamento entre os postos, porque ninguém se conhecia como revendedores.

 

Primeira Convenção de Revendedores Antarctica

Quando nós fizemos a primeira convenção - porque a Associação foi fundada em 87, em 88 nós fizemos a primeira convenção - vieram 500, quase 600 revendedores do Brasil inteiro. Aquilo foi uma festa de confraternização tão grande, porque ninguém se conhecia. A convenção foi no Hilton, na Avenida Ipiranga. Foi um evento importante, um destaque na época. Teve a cobertura da Folha de São Paulo, do Estado. Foi um começo e se criou um elo muito forte entre a Antarctica e os revendedores. Foi uma coisa maravilhosa que nós pudemos fazer. Tive, é lógico, a ajuda de vários companheiros; mas quem assumiu o condão da coisa, fui eu. E também foi uma coisa que me deu muito trabalho, inclusive cheguei a ficar doente por causa dos problemas. Ligavam pessoas lá de Manacapuru: “Joaquim, estou com um problema assim, assim...” E liga um lá de Caxias. Quer dizer, são coisas... lá o horário é um, aqui o horário é outro... Tinha gente que me ligava 5 horas da manhã: “Olha, Joaquim, notícias da Província. Aconteceu isto, isto, isto...”. Então eu cheguei a um grau de estresse violento em função disso. Mas foi um trabalho em benefício da Companhia e em benefício do distribuidor. Porque eu sempre entendi que a fábrica, a Antarctica, o revendedor, eles têm que caminhar juntos; podemos ter até pontos de vista divergentes com relação a problemas de margens, fretes, carretas, mas não podemos trabalhar um longe do outro. O primeiro ano foi um tal de lavar roupa, mas depois a gente foi se enquadrando, enquadrando e deixei a coisa de uma forma harmoniosa. Porque o estatuto permitia uma reeleição, e eu fui reeleito na terceira vez por uma decisão unânime da Assembleia, que aclamou meu nome. Eu falei: “Mas eu não posso, o estatuto não permite.” Fui eu que elaborei isso, com a ajuda de um colega meu da Companhia, que ele que me ajudava com o protocolo lá na secretaria, que é um excelente advogado. Eu falei: “Não posso. Como é que vou, eu mesmo, contrariar uma coisa que eu preparei e vocês aprovaram?” “Não, você é patrimônio da Abradisa, você não pode sair.” Mas eu já estava doente naquela época; eu saía dessa assembleia, ia até o Hospital Santa Helena, pressão altíssima 22, tomava o remédio e voltava. Esse espírito eu ganhei dentro da Antarctica, eu aprendi isso na Companhia.

 

Dr. Walter Belian/Dona Erna Belian Wernsdorf Rappa

Esse espírito de dedicação, empenho, de colocar as coisas acima de qualquer interesse pessoal; isso a gente herdou do Dr. Belian, que ele não tinha interesse nenhum pessoal. O Dr. Belian morreu praticamente sem nada - D. Erna, idem - porque eles dispunham do que tinham em benefício de coisas, de empregado, de pessoas necessitadas, que por razões não se enquadravam dentro do programa estatutário da Fundação e das normas da Companhia. Então eles, de próprio bolso, ajudavam - ajudaram muita gente. Evidentemente eles premiavam a gente também, quando podiam. Eu me lembro que o primeiro imóvel que eu comprei, eu comprei na convicção do meu progresso dentro da Companhia e de que eu jamais seria mandado embora. E o Dr. Belian e a D. Erna sempre tiveram uma inclinação para ajudar quem precisava; eles tinham satisfação em ver os funcionários subirem, criarem o seu pequeno patrimônio, você está entendendo? Nós tínhamos lá no serviço de limpeza da Antarctica uma equipe só de portugueses. Você podia largar o que quisesse em cima da escrivaninha, dinheiro, tudo; você chegava no dia seguinte, conforme você deixou lá, estava. Impecável a limpeza, pessoas de absoluta honestidade. Por isso eu citei o fato: eu só vi um empregado sumariamente ser mandado embora, por ter praticado um ato lesivo à Companhia. Tiveram outros que praticaram alguns, mas mesmo assim, a Companhia ofereceu uma oportunidade.

 

O sumiço de 400 dúzias de cerveja”

 E tem até um fato pitoresco. Nós, um dia, estávamos na reunião de diretoria e a Companhia estava desenvolvendo, como se diz, o aumento da sua produção. Então começou a derrubar alguns imóveis do lado de lá da Presidente Wilson, imóveis antigos, que iam até quase a Rua da Mooca. Na hora que foram derrubar um prédio lá, tirar o forro, encontrou-se cerca de 400 dúzias de garrafas vazia. Aquilo foi uma tensão... Então o segurança ficou de olho e descobriram quem era o indivíduo que tomava a cerveja e largava a garrafa lá. Aí o caso veio para a diretoria. Chegou: “Não, vamos pedir a pasta dele”. Porque todo funcionário tem uma pasta pessoal onde vai tudo arquivado, tudo que você pede; então se a pasta é grande, fala-se: “Esse funcionário pede muito” Quando a pasta é pequenininha, é bom funcionário. Então quando veio a pasta desse indivíduo, era uma pasta que não tinha nada, só tinha documentos de férias, etc. Ele trabalhava há anos na Companhia. Então um diretor da Companhia, hoje falecido, falou: “Pô, nós temos que premiar esse homem. Esse homem é um empregado, pela pasta, exemplar. E conseguiu enganar todo mundo por tanto tempo e ninguém percebeu.” E esse homem não foi dispensado da Companhia. O que se fez foi rever a nossa forma de segurança. Então são essas coisas que não existem mais hoje. Hoje não quer nem saber, você está demitido sumariamente e acabou. Então era esse espírito que existia na Antarctica.

 

Comercial

Veja bem, até agora só falei de um lado. D. Erna cuidava muito da parte comercial, isso na década de 60, porque o Dr. Belian tinha outras preocupações fundamentais para a Companhia. D. Erna começou a se dedicar a propaganda e a vendas por isso. Então participei de muitos trabalhos de propaganda, festa de cerveja. A festa de cerveja foi uma coisa que promoveu o produto da Antarctica.

 

Malzbier/Guaraná Caçulinha

O tratamento que a gente dava para a Malzbier... A gente mandava, tinha uma equipe que ia nas maternidades fazer um trabalho junto às gestantes, levando Malzbier em embalagem bonita. A mesma coisa se fazia com o Guaraná Caçulinha - levava também para o recém-nascido, com uma cartilha, dizendo: “Quando você aprender a ler e escrever, escreva para nós” etc e tal. Então é esse tipo de coisa que cativou. É que vocês são muito jovens ainda, mas a Antarctica criou um clima, a nível de São Paulo e Brasil inteiro, de uma empresa que se voltava muito para aquilo que era bom para o cidadão, está entendendo?

 

Festas da Cerveja/IV Centenário da Cidade de São Paulo

Na década de 60 foi quando a D. Erna estava cuidando da parte comercial. Ela era vice-presidente então. E é difícil a gente falar, mas nós conseguimos reverter o mercado. A Antarctica chegou a um ponto dela se tornar líder em todos os produtos, graças a esse trabalho. E a D. Erna: “Não, você vai ajudar também”. Eu ia para as festas de cerveja, montar as coisas. Tinha a propaganda do futebol pelo canal 7, com o Tabajara, e eu não me lembro mais o outro. Eu ia lá em frente ao Parque Antarctica. Tem aquele prédio de apartamentos, não sei se vocês assistiram algum jogo. Lá, carregando, aparecendo, entregando engradado com bebida para a turma ficar bebendo - e a turma focalizando com a televisão. Então a gente fazia. Parque do Ibirapuera: quando São Paulo completou o IV Centenário, puxa vida, a Antarctica se empenhou grandemente na contribuição, não só com os bares, mas oferecendo também recursos. Fui lá muitas vezes ajudar.

 

Cotidiano de trabalho

Eu também viajava muito para o Dr. Belian, porque ele era um homem que se dedicava um tanto que eu tinha que ir levar documento, pedir parecer de advogados. Um dia eu cheguei em Belo Horizonte, peguei um DC3 que chacoalhava, acho que foi em 59 – chaq, chaq, chaq... Então eu tinha que procurar um ilustre advogado lá - eu não quero citar o nome, se me permitem declinar isso. Se ele não estivesse lá, eu teria que ir até Brasília. Quando cheguei lá, olhei assim, perguntei: “Qual é o avião que vai sair?” Era um teco-teco que tinha lá, se eu não me engano era Sadia. Por sorte minha ele estava lá, então fui lá, ele olhou, deu o parecer dele e voltei - mas não voltei de avião. Foi a primeira viagem da Viação Cometa de Belo Horizonte para São Paulo pela Rodovia Fernão Dias. Levamos 14 horas para chegar. Então eu viajei muito, muito, muito de avião. Passei maus momentos. Mas, olha, aquilo que eu digo, faria tudo de novo, com muita alegria, com muita dedicação. Foi um exemplo de vida, um exemplo que eu transferi para o meu filho e estou transferindo para as minhas netas hoje. Tenho só um filho e tenho 3 netas, mas a eles eu procuro transferir tudo isso, embora eu não esteja mais na AmBev, mas continuo na Fundação. A gente não pode deixar de registrar isso.

 

Cerveja Antarctica

O carro-chefe da Antarctica, para mim? Por incrível que pareça, teve uma época que era a cerveja Antarctica. Então por quê? Porque nós tínhamos limitação na capacidade de produção. Não tinha a facilidade que tem hoje. Você tem indústrias que fabricam os equipamentos. Os equipamentos na época, vamos dizer, na década de 60, você tinha que importar dos Estados Unidos, da Alemanha. Então você tinha limitação na produção de cerveja, o que não acontecia com o refrigerante; você tendo a matéria-prima, você tinha uma capacidade tremenda, porque os equipamentos da fábrica de refrigerante, a maioria deles, eram americanos e tinham uma capacidade muito grande. Então o carro-chefe era a Cerveja Antarctica. Inclusive tinha uma casadinha: leva uma Antarctica, tem que comprar 2 caixas de refrigerante. E hoje a gente sabe que os refrigerantes da Antarctica são notáveis, estão consagrados, mas era o inverso.

 

Cerveja Portugueza

Você vê, eu entro e falo em parte comercial. Para você ter uma ideia, quando aconteceu a visita do presidente Craveiro Lopes ao Brasil, a Antarctica lançou a cerveja Portugueza, e com isso nós derrubamos a concorrência- o mercado do Rio de Janeiro que era totalmente da concorrência. Então para você ter uma ideia de como a Antarctica se envolvia nos problemas, assim políticos, no sentido construtivo. Se envolvia, participava. Como participou em Brasília, da fundação de Brasília; a Antarctica tem uma participação relevante.

 

Boko-Moko/ “Você veio aqui pra beber ou pra conversar?”

Uma campanha que eu acho marcante foi aquela do Teobaldo, criada pela Almap - o Boko-Moko. Veja bem, lamento esse moço aí; ele podia ter um futuro brilhante, mas eu acho que a glória subiu para a cabeça. Depois ele acabou tendo um desvio de conduta. Não sei se você conhece, de vez em quando ele aparece, não sei ainda, deve estar vivo ainda, aparece em programas - Praça da Alegria, outras coisas assim. Mas com um negócio que não tem nada a ver com a campanha que ele fez parte. Ele fez parte de uma campanha dizendo que ele era o Boko-Moko. Porque o intuito era exatamente mostrar que você não tem que tomar um produto escuro da concorrência; você tem que tomar o Guaraná Antarctica. Então era uma forma de você chegar. Lógico, são campanhas antigas. Essa aí, aquela da cerveja “Você veio aqui pra beber ou pra conversar”, do Adoniran Barbosa. E quando entrou o time do Olivetto e do Nizan na Companhia, tiveram outras campanhas também. Mas eu acho que a campanha que mais marcou, pelo menos a mim, foi essa campanha do Boko-Moko.

 

Fusão com a Brahma

Quando aconteceu a fusão da Brahma com a Antarctica, por incrível que pareça, eu reagi com um pouquinho assim de espanto. Porque é aquele velho negócio, eu sei que do outro lado era verdadeiro, embora a gente tivesse um tremendo respeito, a Antarctica e a Brahma, se um pudesse engolir o outro, engolia, né? Então você foi educado a engolir o outro. Aliás, eu depois fiz parte da AmBev e me contaram: “Olha, quantos pinguins nós vamos matar hoje?” E não sei quê. Aquelas conversas, né? Então quando veio aquilo, eu fiquei meio assim: “Pô, será que eu vou poder conviver com isso?”. Depois a gente começa a analisar e começa a lembrar aquilo que o Dr. Belian comentou, lá nos idos de 50, de uma junção com a Brahma. E a gente começa a aceitar e a analisar os prós e os contras. Mas isso foi bom? Foi. Eu achei que foi para a Antarctica, foi bom para a Brahma, foi bom para a Skol, foi bom para a Fundação. Então é aquele velho negócio: você tem que repartir a mesa com outras pessoas, vamos repartir. Se isso é para o bem, se nós estamos comendo carne de segunda e vamos comer carne de primeira, por que é que a gente não vai juntar?

 

Cessão da marca Coca-Cola

Aliás o Dr. Belian tinha uma teoria. Teoria não, um dia ele conversando, não me lembro com quem, e eu estava participando - foi quando ele cedeu a marca Coca-Cola. A marca Coca-Cola era registrada pela Antarctica e ele cedeu os direitos a pedido do Presidente do Brasil - se eu não me engano era o Presidente Dutra - e recebeu uma indenização. E ele dentro daquela filosofia própria dele, porque ele era formado em filosofia. Então, de vez em quando, eu dava uma entradinha. E ele falou: “É, no Brasil sempre cabe mais um.” Então isso também vale para essa fusão, sempre cabe mais um na família. Como também nós estamos cabendo na família que era da Brahma e da Skol, né?

 

Trajetória Profissional

Na minha revenda, me relevem os meus companheiros de Companhia Antarctica, mas acho que melhorou depois da fusão. Para o revendedor, as técnicas e os rádios utilizados pela Brahma e Skol são muito mais avançados do que as nossos eram. Nós tínhamos também uma pequena semelhança com isso, mas o nosso era um pouco mais em pico. A Brahma veio com mais técnica, com mais estrutura, com mais dinâmica, criou uma série de ferramentas de trabalho fantásticas. E a gente acabou impactando tudo isso. Para mim na revenda foi ótimo, participei de vários concursos. Inclusive na minha revenda, que ficava na Zona Leste, eu estava em uma região de consumidores, clientes de pequeno poder aquisitivo, eu tinha “n” clientes - eu tinha cerca de 18 mil clientes, mas compravam uma caixinha, duas caixinhas.

 

Programa de Excelência

Então eu tinha aqueles parâmetros de programa de excelência em que eu registrei várias vezes a minha insatisfação com isso, que exigia um mínimo que você podia colocar dentro de um caminhão de pedidos. Então você podia entregar com um caminhão o máximo de 50 - eu não me lembro os números, vamos dizer 50 - mas eu, para fazer o mesmo tipo de serviço, tinha que por 100 clientes, porque eu tinha o mínimo de clientes e o máximo de capacidade dentro do caminhão. Então se eu tenho clientes que compram pouco, eu carrego ele - dentro dos limites - mas eu ultrapasso... Então, com isso, você perdia pontos no programa de excelência. Então eu nunca ganhei grandes laudos, mas quando se tratava de uma competição, quem vai vender mais cerveja, quem vai vender mais refrigerante, eu praticamente, se não ganhei tudo, fiquei sempre em segundo lugar. E ganhei um prêmio, “Os Gladiadores”. Inclusive fui premiado com uma viagem para um safári na África. E perdi para um revendedor Skol por uma questão de dois, três décimos de ponto. Só que o meu grau de dificuldade era maior que o dele, porque eu tinha quantidades enormes, tinha que ter uma performance maior que a dele. Uma coisa mínima. Ele foi comigo para a África do Sul, no grupo que foi para a África do Sul. Mas ele ganhou também para ir assistir a Copa do Mundo. Então veja bem, por que que eu cheguei a esse nível? Porque eu tinha as ferramentas, tinha o controle de mercado, tinha tudo. E a AmBev investia - e eu também tinha que investir. E eu investia, premiava os empregados, facilitava pagamento, tudo. Mas tudo dentro de uma forma que eu não fosse ao prejuízo, né? Então nesse aspecto a gente tem que reconhecer o grau mais avançado que herdamos da AmBev.

 

Companhia Antarctica Paulista/Grupo Antarctica

Olha, o ponto alto da Companhia Antarctica foi, na minha forma de ver, em 1973, 74. Dr. Belian tinha um projeto fantástico de ampliação do parque industrial da Companhia. Ele se voltava para um momento de produção e inclusive para ter um retorno de resultado para poder beneficiar melhor ainda a Fundação. Ele queria garantir à Fundação pelo menos 20% de rendimento do valor que a Fundação tinha investido dentro da Antarctica. E tem mais: um pouquinho antes - é aquele negócio de você começar a lembrar - um pouquinho antes, ele, numa estratégia de mestre, conseguiu comprar aqueles quase 30% de ações que era do Grupo von Bülow. A Fundação: “Mas como é que ele fez isso?”. Ele pegou todas as empresas, todas as filiais, transformou em empresas autônomas - porque a própria Antarctica não podia comprar suas próprias ações. Então ele criou a Indústria de Bebidas Antarctica para o Rio de Janeiro, Nordeste, Manaus etc e tal, que era outra razão social. Não era Companhia Antarctica Paulista. E elas foram no Banco Central e compraram as ações que eram do Alt. O Alt estava com essas ações - e eu me lembro hoje qual era o plano - e ele conseguiu. Foi lá e comprou essas ações através dessas empresas do Grupo Antarctica, que depois foram adquiridas pela Fundação com permuta de patrimônio. Então para mim esse fato, o planejamento do crescimento da Antarctica, foi o fator preponderante. E isso a gente pode dizer foi no início da década de 70, né? Como também tivemos problemas nessa época, como o problema do petróleo. Uma encomenda fantástica de garrafas que foi feita para exportar cerveja para a Arábia Saudita - que depois nós chamamos de Arábia Maldita... (risos). Porque nós viemos descobrir alguns anos, não muitos, alguns, de que eles tinham feito uma sabotagem, um boicote à Antarctica, porque nós tínhamos a Estrela de Davi - tanto que ela desapareceu depois - na logomarca da Antarctica. Aí ficaram só os dois pinguins depois disso.

 

Importância da História

Olha, eu acho uma colocação particular da AmBev digna de todos os elogios, essa de resgatar a história das empresas através de seus funcionários. Eu acho isso fantástico. É aquilo que acabei falando há pouco, quando você falou do que eu achei da AmBev. A Antarctica tentou fazer o seu museu, tem o seu museu lá, mas sempre foi uma coisa assim, não com técnica, como está sendo feito hoje, com gente especializada. Nós tínhamos um museu lá, feito por um antigo empregado que eu acho que, quando ele se afastou da Companhia, devia já ter uns 60 e poucos anos de Companhia, porque ele conhecia tudo, então ele organizava. Na escola mesmo, Escola Técnica Walter Belian, tem um museu para o casal Zerrenner, mas foi tudo feito na paixão, no amor, mas sem uma técnica específica. E eu estou vendo isso hoje. Por isso que eu fico feliz por estar participando disso e agradeço por estar fazendo este depoimento, porque eu estou vendo que se quer realmente resgatar uma coisa que é um tesouro, que não pode jamais ser esquecida. Olha, está de parabéns por essa brilhante iniciativa que a AmBev está tomando e isso aqui já me deixa mais tranquilo com relação a relembrar a memória daqueles que foram importantes na vida da Antarctica.

 

“O Poder do Pensamento Positivo”

O Dr. Belian era um homem de um trabalho fantástico, dedicado, mas ele também tinha as suas coisas. Então, um dia, ele chegou na Companhia de muleta; veio um gerente de um departamento e virou: “Doutor, o senhor está mancando?” Ele falou: “É, eu manco da perna, mas o senhor manca da cabeça. Então tinha essas coisas. Um dia ele chegou no gabinete da D. Erna, nervoso: “Erna, eu não consigo Porque não sei o quê...” Bravo, bravo, bravo... E D. Erna, com aquela bondade e equilíbrio que Deus deu a ela: “Walter, você precisa ter mais controle, você precisa ler o livro “O Poder do Pensamento Positivo”, do Norman Vincent Peale. Ele ficou assim arredio, porque a D. Erna falava tudo que ela tinha que falar para ele, mas ela falava com jeito. Ele pegou, saiu e de repente voltou com o livro do homem na mão: “Aqui, Erna. Eu li e anotei tudo isso aqui, tudo que eu li de bom eu anotei nessas várias folhas.” Aí ela falou: “Então você não entendeu nada”

 

Avaliação

São essas coisinhas assim gostosas que a gente tinha dentro da Companhia e é isto. Nós éramos uma família, a gente se congregava muito. Não tinha, como tem hoje, essas convenções, essas reuniões, etc e tal. Era uma amizade espontânea. Não havia necessidade de se estar festejando. Tínhamos pequenas reuniões de fim de ano, mas não era nada assim estruturado. Então tem algumas coisas, mas eu acho que nem convém dizer aqui, porque eu vou exagerar no meu sentimento. Então eu quero concluir dizendo que estou feliz em poder relembrar momentos felizes. Eu sou um homem que sou grato à Companhia, ao Dr. Belian, a D. Erna, ao casal Zerrenner, porque tudo que eu tenho foi fruto do meu trabalho na Companhia. Evidentemente que não veio de graça, veio pelo meu empenho, pela minha dedicação, mas eles foram instrumentos do sucesso que a gente tem hoje. Inclusive colegas nossos que ainda continuam na administração da AmBev e da Fundação.

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