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Brasileira alemã

História de: Gertraut Ostermann
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/11/2013

Sinopse

Em sua história de vida Gertraut Ostermann conta que nasceu na Alemanha, na cidade de Helle an der Saale. Após vivenciar a Primeira Guerra Mundial seu pai decidiu mudar-se para o Brasil buscando construir a vida em um país sem perspectivas de guerra. Sua família passou por diversas dificuldades, mas conseguiu estabelecer-se e prosperar em São Paulo. Ao concluir seus estudos, Gertraut foi estudar na Alemanha para tornar-se professora de jardim da infância, porém, a Segunda Guerra Mundial estourou e ela precisou sobreviver aos horrores da guerra. Com ajuda de sua família retornou ao Brasil, casou-se e por muitos anos acompanhou o seu marido na liderança de uma indústria de rolamento de motores e fios magnéticos. Com a morte de seu esposo e os anos de idade decidiu mudar-se para o Lar Recanto Feliz, onde hoje recebe muitas cartas e pacotes com guloseimas da Alemanha.

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História completa

O meu nome é Gertraut Ostermann, mas meu nome mudou por que casei. Eu nasci na Alemanha, na cidade de Halle [Halle an der Saale], no dia 24 de junho de 1921. Meus pais vieram em 1924 para o Brasil. Os dois eram órfãos, se conheceram no orfanato, mas em 1924 eles vieram para o Brasil. O meu pai viveu a Primeira Guerra de 1914 a 1919, aí ele não quis mais saber, ele quis ir para um país onde tem sossego. Como ele era marceneiro, ele fazia móveis, ele achou que o Brasil era um país bom, tem bastante madeira, e viemos pra cá. Eu tinha três anos naquela época, então viemos pra cá, nós viemos com algum dinheiro, ele tinha vendido a casa na Alemanha. Só que caímos no conto do vigário, ele comprou uma serraria lá em Santo Anastácio, e quando chegamos lá não era o dono, ele tinha pago para um intermediário que fugiu com o dinheiro dele. Aí ele começou bem menor. Quando vim com três anos para o Brasil, na época, na rua tinha um pré [pré-primário], eu nem lembro mais o nome, mas eu fiz todo o grupo aqui. Eu fui lá no Grupo Escolar Marechal Floriano e depois fui na escola Padre Anchieta. E depois da Revolução de 32 o grupo teve que fechar porque virou alojamento para os soldados.

 

Em 39 eu quis estudar na Alemanha, já tinha o Ensino Médio completo. Fui para Alemanha, arrebentou a guerra e não pude voltar. Fiquei nove anos na Alemanha, isso foi sem querer. Na guerra toda não tinha correio, a gente podia mandar uma carta pra Cruz Vermelha e eles mandavam pra cá, mas era a cada três meses, 20 palavras, uma coisa assim. Tipo telegrama. Antes da guerra sim, eu tinha parentes na Alemanha, amigas na Alemanha, a gente sempre trocava cartas, bastante carta. Primeiro foi de navio, as primeiras cartas vinham de navio, não tinha correio aéreo. Eu lembro de falar “agora vai ser mais depressa porque agora vai ter por avião”. Eu recebia muitas cartas e enviava muitas cartas. Eu tenho muitos amigos na Alemanha. É que agora a gente fala mais por computador, mas eu escrevia muitas cartas. No meu aniversário recebia de 15 a 20 cartas da Alemanha. Quando terminou a guerra a gente estava passando fome, o que mais valor tinha na Alemanha era café. Amigos do meu irmão, porque minha família não tinha mais dinheiro, os amigos do meu irmão mandavam pacote com café, a gente vendia lá e ganhava bastante dinheiro com o café. Eles mandavam aqueles pacotes com comida.

 

Logo que terminou a guerra eu fui em Berlim pedir visto de entrada, só que para voltar pro Brasil, para comprar a passagem eu não tinha. Meus pais, que tinham o restaurante aqui, eles, com muito custo, compraram minha passagem pra eu voltar. Eu vim de avião. E eu ajudei meus pais no restaurante e um moço da Alemanha frequentava lá foi o meu marido depois. Nós começamos uma fábrica, compramos o terreno em Santo Amaro pra construir a fábrica, entramos com a planta. O pai dele tinha uma fábrica de máquinas da Alemanha e mandou umas máquinas de tecelagem, tinha fábrica de tecelagem da Alemanha, fazia as máquinas e mandou para filho aqui, que estava aqui. Então ele fundou lá na Rua Vergueiro, fundou aquela industriazinha e fazia fios para rolamento de motores. E como era alugada e como eu não suporto aluguel, meu pai sempre falava: “Você tem que ter seu próprio teto em cima da cabeça”. Construímos em Santo Amaro e fizemos a fábrica lá que até hoje tá lá, em Santo Amaro, na Rua Da Paz, tá alugada.

 

Eu morei 40 anos em um prédio na Rua da Paz, depois meu marido faleceu, eu tava sozinha lá. Na minha idade, o que faço sozinha lá no apartamento? Como eu conhecia isso aqui [Lar Recanto Feliz], já há muito tempo que a minha cunhada tava aqui, meu irmão morreu aqui. Eu fiquei com dor nas costas e falei: “Vou pra lá também”. Como eu conhecia, meu irmão estava aqui, minha cunhada tava aqui, então eu resolvi vir aqui também. E aí, eu saí lá do apartamento e vim morar aqui. É muito bom aqui, tem companhia. Eu fui muitos anos sócia, ainda sou, da Lyra, a gente cantava lá. A gente se encontra lá, conversa, faz um café e lanche. Isso no próximo sábado vou de novo, vai ter outro café lá. Esses são os prazeres que a gente ainda tem porque aqui, pra dizer a verdade, eu tenho um gênio, a maioria não quer mais sair, não quer mais saber disso, só quer ficar aqui. Eu ainda não sou muito sossegada não, no sábado que vem eu vou lá. Aqui eu gosto de fazer todos os eventos que eles fazem, eu faço. Deixar os amigos que estão lá onde eu morava foi difícil. Lá eu era a síndica do prédio, eu tinha amizade com todos eles, inclusive uma afilhada minha mora lá. Então, semana passada eu fui visitar lá, eu tinha muita amizade no prédio. Eu sou uma pessoa, eu me comunico com as pessoas, eu não gosto de discussão, eu sou da paz! Eu morava na Rua da Paz e sou da paz (risos). E olha, na semana que vem eu vou passar um dia lá, minha afilhada quebrou a perna, eu vou visitar ela lá. Aí eu passo no Banespa também pra ver os amigos lá, eu sou de me mexer, eu não sou acomodada ainda.

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