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História

Botando vento na palavra

História de: Paulo Netho (Paulo Feliciano Barbosa Netho)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/09/2019

Sinopse

Paulo Netho é um pedaço de poesia que anda pelo mundo. A sua história vem desde quando ele andava descalço pela Vila Yara, ouvia histórias inventadas pela sua mãe e repentes em viagens ao nordeste com seu tio. Paulo, ainda na infância, curou a gagueira recitando poesia, coisa que faria o resto da vida. Entre cada pergunta feita, declama versos, contando histórias vividas em favelas, escolas, buffets, na rua e relata também como subia em cima das mesas de bares para recitar Maiakóvski. Vivendo da poesia, criou suas filhas, botando vento na palavra e buscando ouvidos ávidos por histórias, como as tantas que contou na livraria comunitária que montou em Osasco.

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História completa

“Enquanto passava café  

Mãe cantava, feliz, de pé              

Dizia que assim voava

Antenado eu captava tudo:

Tia ralhando com tio

Uma pipa cortando o céu

Um peão riscando o chão

E os cães latindo gratidão”

 

Esse poema eu fiz lembrando minha mãe, a primeira palavra que eu me apaixonei na vida foi a palavra mãe pela importância que ela teve na minha vida,  eu acordava, desde menininho, ia até a pia, a minha mãe cantava na pia, enquanto passava café. A minha mãe no tanque, lavando roupa, cantava, mesmo que a vida acabasse dando aquelas porradas, a minha mãe sempre estava cantando. 

Eu lembro muito da minha mãe contando história pra nós... Imagina: sete filhos. Eu nasci em Osasco, minha mãe e meu pai são do Rio Grande do Norte e eu cresci na Vila Yara, em Osasco. Tanto é que a base da minha poesia eu trago a Vila Yara, o menino,  as histórias da minha mãe eram histórias que ela inventava pra gente, ela tinha cada uma! O anãozinho que vivia debaixo de uma bacia pra ver as moças tomando banho! E tinha um horário, sim, pra contar isso, era sempre quando o dia ia terminando, a minha mãe ia e dava banho. A gente tomava banho de bacia, minha mãe botava a gente na bacia, esfregava, tirava o cascão e quando colocava todos os irmãos numa cama, porque eu morava numa casa de três cômodos, para sete filhos, não tinha essa história de ‘o meu quarto, o quarto da minha irmã’. Era a cozinha, o banheiro do lado de fora, o banheiro que não tinha chuveiro elétrico, não tinha nada dessa coisa, era tudo água gelada e, então, pra você tomar um banho quente, você tinha que esquentar água na panela, jogar e misturar com água fria.

Minha mãe, depois que dava o banho na gente, ela ia colocar talco Pom Pom, aí ela brincava, fazia cosquinha na gente e começava a contar essas histórias, não com a pretensão de ser uma contadora de história, mas ela era, né? Ela contava essas histórias. Muitas a gente achava que eram fantasia.  Mas quando ela contava, a gente a ouvia, sabe por quê? Porque a gente só era capaz de ouvir a minha mãe contando as histórias dela porque a gente era capaz de se esquecer de si mesmo, né? Eu, até hoje, procuro debaixo da bacia o anãozinho que ficava de olho nas meninas tomando banho, né?

 A primeira vez que eu fui recitar poesia, eu tinha acho que dez anos de idade.

 Isso no palco da escola, eu fui recitar uma poesia: “Com A escrevo amor...”, que não era nem minha, era um chavão: “Com A escrevo amor, com P escrevo paixão, com A escrevo Antonieta, Antonieta do meu coração”. Sabe quem era Antonieta? Era minha professora de História amada,  eu falei: “Puxa, eu gostei disso, hein?” Aí comecei a recitar poesia, e eu era gago. Eu era gago! A professora me chamava pra ir falar na frente, eu chegava lá: “Éééé, hum hum”. De poesia em poesia, uma palavra puxando outra, outra poesia, outra poesia, eu comecei a perceber que eu acabei ganhando uma coisa muito importante. Eu ganhei vez na vida, ou melhor: eu ganhei voz. Eu descobri que eu tinha uma voz e que essa voz me deu vez na vida. Se eu estou aqui hoje é por causa da voz. Da voz que eu descobri dentro de mim. Eu falei  “Puxa, não tem mais esse problema, porque a poesia me deu confiança”. Sabe, você montar em uma palavra e saber que você pode dar voz pra essa palavra, colocar vento nessa palavra, me empoderou. De certa forma, me empoderou. E eu falei: “Ahhhhhhh, a minha voz mexe com o que eu sou. E faz sair de dentro de mim um pouquinho do Paulo que ficou perdido lá atrás, com medo de tudo”. Aquele medo eu fui vencendo aos poucos, e a gagueira foi embora por causa da palavra.

 

Eu não quis mais ser o bancário que meu pai tinha sonhado pra mim porque o sonho do meu pai, como eu cresci em uma cidade chamada Osasco, onde é a matriz de um Banco famoso que é o Bradesco, todo mundo que morava em Osasco tinha que trabalhar no Bradesco ou nas empresas como a Cobrasma, a Bromoveri, mas o meu pai me queria bancário e eu falei: “Pai, não vou ser bancário, pai. Vou viver de poesia”. Ahhhhh, meu pai ficou nervoso: “Poeta, poeta, poetaaaaaaaaaa”. Ele falou assim: “Esse homem é um vagabundo, vai viver de poesia?”

Ah, eu recitava em escolas, no meio da rua, sempre no meio da rua. Como eu disse aqui, eu passei a recitar em cima de balcão de bares, dentro de ônibus. Eu lembro que, puxa, aí eu comecei a fazer uns poemas eróticos, eu entrava dentro do ônibus falando: “Não vou dizer que as suas tetas são esguias, porque não são. As suas tetas me guiam e, por onde me guias, nem eu sei”. Claro que eu falava pra uma pessoa e a pessoa ficava tímida, né? Não podia falar isso. Uma vez, na USP, a menina falou: “Ô, Paulo eu sou casada” e eu falei: “Calma, dona, isso aqui é só poesia, é ficção”. Mas é que eu pulei sem paraquedas no reino das palavras.

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