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História

Bordando outra vida

História de: Zeneida Souza Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2013

Sinopse

Infância. Trabalhando na roça desde cedo. Pai rígido. Casamento. Escola. Transtorno mental de um dos filhos. Falecimento do primeiro marido. Projeto e aprendendo a bordar. Desfile do Projeto. Modelos de bordado.

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História completa

"O pai nunca pôde deixar a gente na escola. Estudei pouco. Tinha que trabalhar pra ajudar. Quando começamos a ir pra um grupo escolar, Íamos correndo, a pé. Era longe. Eu e meu irmão corríamos atrás da professora: ela de bicicleta, e nós correndo atrás. Eu sinto saudade até hoje de estudar...tão bom. Andava a pé, mas era divertido. Papai trabalhava na roça, mexia com gado, plantava capim. Mãe cuidados dos filhos e da cada.

A roça não era nossa, ele trabalhava pra outra pessoa. O que eu mais lembro é que meu pai era bravo. Pegava os filhos pra bater, colocava em fila esperando pra apanhar. A mãe era boa. Às vezes ele batia até nela porque ela apoiava os filhos, guardava coisas que nós fazíamos. Era baixinha, branca, cabelo curtinho, magrinha...boa pra nós. Eu nem saía de casa, meu pai não deixava. As amigas pediam pra ele para eu ir ver um jogo, pra ir na festa, mas ele dizia “Pode chorar sangue”, e eu ficava chorando, sem ir.

Eu casei com quinze anos com meu primeiro namorado e aí parei de trabalhar. Meu filho mais velho tinha problemas nos rins, ficava muito internado no hospital e eu ficava lá com ele. O caçula não mora comigo. Ele tem, acho que é esquizofrenia. Fica agressivo. Disse que ia me matar dormindo. Então eu construí dois cômodos pra ele, pra morar aqui perto. Meu marido morreu vai fazer dezessete anos. Estava trabalhando, veio almoçar em casa. Descansou um pouco e foi pra roça de novo. Daqui a pouco, voltou, mandou eu arrumar a casa porque estava com tremura e dor de cabeça. Aquela tremura chegava a sacudir a cama. Botei três cobertas pra ele, mas não passava.

O médico examinou e disse que era a garganta inflamada. Aplicou três injeções e viemos embora. Passamos a noite e quando foi três horas da manhã eu levantei pra fazer o almoço pros meninos que trabalhavam. Ele dava aquela ronqueira, aquela ronqueira... Eu destapei: ele já estava todo urinado, as unhas já todas roxas. Ele era epilético e o médico falou que era garganta. Depois, já recente, apareceu um projeto pra mulheres pra ficar aqui bordando. Eu fui. Ficava em casa só, nervosa, pressão alta. E aqui o bordado me distrai muito. Nós conversamos, bordamos... Eu nunca desanimei, e peço a Deus que nunca desanime. Estou rezando pra que não pare esse projeto. Às vezes as mulheres, algumas falam que vão sair. Eu falo: Ah, não sai, não! Por que é que algumas falam em sair?"

 

 

P/1 - Rosana Miziara

R - Zenaida Souza Silva



P/1 – Você pode me dizer seu nome, local e data de nascimento?

 

R – Zeneida Souza Silva. Bom Será.

 

P/1 – Em que data?

 

R – 25 de agosto de 1954.

 

P/1 – Seus pais são de Bom Será?

 

R – Sempre foram.

 

P/1 – E seu pai e sua mãe moravam aqui em Bom Será? Onde é a casa deles?

 

R – Eles moravam lá em Coroa da Onça.

 

P/1 – Coroa da Onça é uma região daqui? 

 

R – É...

 

P/1 – Por que é que chama...

 

R – Na chegada, quando a gente vem da Vila, não tem uma entrada que vai lá pra beira rio, assim?

 

P/1 – Tem.

 

R – Pra cá... Aquela casa anterior, João de Cruz, você conhece? João de Cruz, uma casa que tem desse lado. Assim...

 

P/1 – E a casa existe ainda?

 

R – Existe.

 

P/1 – Como é que é essa casa?

 

R – De laje. Tá lá, velhinha, mas em pé ainda.

 

P/1 – Quem é que morava nessa casa?

 

R – Era papai, eu [e] mamãe. Tinha dois irmãos.

 

P/1 – O que é que o seu pai fazia?

 

R – Papai trabalhava na roça, mexia com gado, plantava capim, roçado. Fazia tudo.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Mãe só cuidava dos filhos, mesmo.

 

P/1 – Mas era uma roça dele ou ele trabalhava pra alguém?

 

R – Trabalhava pra alguém, pra Ronildo. Ronildo Coelho.

 

P/1 – Era o patrão dele?

 

R – É.

 

P/1 – E seu pai... Quem é que exercia a autoridade na sua casa, seu pai ou sua mãe?

 

R – Papai.

 

P/1 – Ele era mais bravo, como é que era?

 

R – Papai era bravo, pegava nós pra bater... Fazia fila de criança!

 

P/1 – Você brincava do que, na infância?

 

R – Brincava de boneca.

 

P/1 – Sozinha ou tinha outras amiguinhas? 

 

R – Tinha, brincava com as meninas.

 

P/1 – E você tinha alguma educação religiosa, alguma formação religiosa?

 

R – Não. Quando eu morava em casa, com papai, não ia [a] igreja nenhuma. No tempo que eu casei, é que eu fui pra igreja.

 

P/1 – Mas antes você não ia?

 

R – Não.

 

P/1 – E como é que era a vida na sua casa? Você ajudava a sua mãe, brincava?

 

R – Eu estudava e quando chegava da escola, ia trabalhar na roça também. Só dia de domingo que eu varria a beira da porta, lavava roupa...

 

P/1 – Com quantos anos você começou a trabalhar na roça?

 

R – Com doze anos, treze, catorze, quinze. Com dezesseis, casei.

 

P/1 – O que é que vc fazia na roça?

 

R – Plantava capim, capinava, quebrava milho, arrancava feijão; fazia tudo.

 

P/1 – Tinha outras crianças que faziam isso com você?

 

R – Os irmãos meus também.

 

P/1 – Mas vocês trabalhavam, conversavam, como é que era lá?

 

R – Conversava. Trabalhava mais gente também, junto.

 

P/1 – Aconteceu alguma coisa de que você sempre se lembra e nunca esqueceu, enquanto você trabalhava na roça? Algum fato?

 

R – Não aconteceu nada, não. Quando nós trabalhávamos na olaria... Trabalhei na olaria também.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Aí, papai mandava meu irmão buscar as ferramentas em casa. Ele ia e quando chegava, esquecia de outra ferramenta. Papai corria atrás dele pra bater! Tadinho, trabalhou tanto... Só. Não lembro mais de nada, não.

 

P/1 – Na olaria, quantos anos você tinha?

 

R – Na olaria, eu já tinha uns quinze anos

 

P/1 – O que você fazia lá?

 

R – Eu empilhava os tijolos, armava a carreira de tijolo. E depois, eles botavam fogo pra assar o tijolo - eu que armava a carreira.

 

P/1 – Você gostava de trabalhar?

 

R – Gostava.

 

P/1 – Tinha dia em que você falava: “Ah, hoje eu não vou, estou cansada”?

 

R – Não. E se falasse, papai também batia na gente.

 

P/1 – Seu pai era bravo?

 

R – Era, papai era. Quando ele olhava pra gente, a gente já tinha medo só dele olhar...

 

P/1 – E você aprontava muito?

 

R – Não, os outros irmãos que aprontavam. Eu, ele chamava: “Vem aqui”; pros pés dele, eu ia. Os outros corriam, se escondiam. Dormiam até fora de casa, com medo de ir pra casa. Eu não, ia nos pés dele.

 

P/1 – Ele contava histórias, conversava com vocês?

 

R – Não, muito difícil.

 

P/1 – E sua mãe, como é que era?

 

R – Mãe era muito boa pra nós. Tadinha, às vezes ele batia até em mamãe porque apoiava nós, guardava algumas coisas que a gente fazia, arte. Ela era muito boa pra nós.

 

P/1 – Ela conversava com vocês, contava história?

 

R – Uhum...

 

P/1 – Tem alguma história dela que você lembra da infância?

 

R – Não lembro mais nada. Tô muito ruim da minha cabeça agora.

 

P/1 – A imagem dela, como é que ela era?

 

R – Ela era baixinha, branca, cabelinho curtinho, magrinha...

 

P/1 – E quando você foi ficando jovem aqui em Bom Será, como é que você se divertia?

 

R – Ah, eu nem saía de casa, meu pai não deixava sair de casa. As outras amigas chegavam e pediam a ele pra “mim” ir ver um jogo, ir na festa e ele não deixava, não. Aí eu ia chorar . Ele olhava pra mim: “Pode chorar sangue”, eu chorando e papai falava assim pra mim. As outras amigas saíam, iam pro jogo e eu ficava chorando.

 

P/1 – Você nunca saía?  

 

R – Às vezes, quando a mãe dele ia num lugar e pedia a ele pra eu ir junto; às vezes ele deixava. Tinha vezes que ele não deixava não. Passeava, nada.

 

P/1 – Você nunca foi numa festa? 

 

R – Ele não deixava, não.

 

P/1 Você casou com quinze, dezesseis anos; foi com o seu primeiro namorado?

 

R – O primeiro...

 

P/1 – Como é que você conheceu ele?

 

R – Eu trabalhava com ele junto na roça; conheci ele na roça.

 

P/1 – Logo que você viu, você se apaixonou? Como é que foi?

 

R – Não, demoramos ainda. A gente trabalhava juntos, trabalhei mais de ano junto...

 

P/1 – Como é que ele te pediu pra casar?

 

R – Pediu a papai, né?

 

P/1 - E como é que vocês namoravam? Como é que era o namoro de vocês?

 

R – Ah, sentava um aqui e outro lá. Tinha uma paredinha assim, no meio da sala, eu ficava de um lado e ele do outro. Pai ficava cercando.. Ai, era assim o namoro!

 

P/1 – Ele pediu pro seu pai e seu pai deixou?

 

R – Deixou.

 

P/1 – E aí quando é que vocês resolveram casar? Como foi que ele te pediu em casamento?

 

R – Não lembro mais, não.

 

P/1 – Vocês casaram e foram morar onde?

 

R – Nós moramos lá num lugar chamado Limão, que tem lá pra adiante, pra cá da Usina.

 

P/1 – Como é que era o Limão?

 

R – O lugar?

 

P/1 – É

 

R – Era uma cidadezinha. Duas igrejas, um Grupo...

 

P/1 – E vc quando casou, trabalhava ou parou de trabalhar?

 

R – Casei e parei de trabalhar.

 

P/1 – E ele continuou na roça?

 

R – Depois ele trabalhou na Usina também.

 

P/1 – E como é que era o casamento de vocês?

 

R – Ah, era bom, né?

 

P/1 – E você logo teve filhos?

 

R – Não, fiquei seis meses sem engravidar. Depois eu engravidei.

 

P/1 – De qual filho?

 

R – Edson Mauro.

 

P/1 – Em que ano foi isso?

 

R – Foi... Ah, não lembro a data, não. Ele está com 41 anos, o mais velho, mas a data...

 

P/1 – Deixa eu voltar um pouquinho lá pra trás. Você entrou na escola com quantos anos?

 

R – Quantos anos? Acho que eu já tinha uns oito. Eu estudei primeiro...

 

P/1 – Você ia como pra escola...?

 

R – Eu estudei primeiro numa casa, na Coroa da Onça mesmo. O patrão do meu pai mesmo é quem me deu aula. Eu e meu irmão mais velho. Aí ele deu aula pra nós, depois fizeram um Grupo e nós começamos a estudar no Grupo.

 

P/1 – Você ia como pra escola?

 

R – Ia a pé. Era longe a escola. A gente ia correndo atrás da professora; a professora de bicicleta e nós correndo atrás.

 

P/1 – Gostava de estudar?

 

R – Gostava, gostava dela e ela gostava de mim também. Até hoje ela gosta de mim. Ela mora na Barra...

 

P/1 – Você tem alguma lembrança de alguma coisa que tenha acontecido nesse período de escola?

 

R – Aconteceu o quê? Com a gente? Ah, um dia o sapo correu atrás de nós. A professora largou a bicicleta e correu também. Outra vez, nós íamos passando [e] vinha uma jiboia, uma cobra “grossona” assim. Vinha. As crianças emperraram. Começamos a jogar pedra na cobra - matamos a cobra na pedrada! A gente sente saudade até hoje de estudar... Tão bom. Andava a pé, mas era divertido.

 

P/1 - Por que você parou de estudar?

 

R – Parei porque pai não podia deixar a gente na escola, tinha que trabalhar pra ajudar...

 

P/1 – O que é que você gostava de estudar na escola, qual parte?

 

R – Gostava mais de Português. Conta, não havia meio de aprender...

 

P/1 – Português, você gostava de aprender?

 

R – Uhum. Matemática eu também gostava, só que eu não aprendi muito conta de dividir, mas as outras contas eu aprendi.

 

P/1 – Você pensou em algum dia voltar?

 

R – De quê?

 

P/1 – A estudar?

 

R – Depois que eu casei, mesmo. Agora, depois de idade, eu estudei nesse Grupo aí de Bom Será.

 

P/1 – É? Quando?

 

R – À noite.

 

P/1 – Foi bom?

 

R – Foi.

 

P/1 – E aí, você casou e não trabalhou mais fora, trabalhava só em casa?

 

R – Só em casa. Logo engravidei do mais velho e com três meses, engravidei do outro.

 

R – Era doente, também, a criança.

 

P/1 – É? Doente como?

 

R – Doentinho, sofria de pneumonia. Ficava internado e depois deu desidratação

 

P/1 – Em quem?

 

R – No meu menino mais velho...

 

P/1 –  O mais velho, o Edson?

 

R – No Edson. Ficava internado no hospital e eu ficava lá com ele. Era muito doentinho, tinha problema de rins também. Não dava pra “mim” trabalhar.

 

P/1 – Quantos filhos são?

 

R – São em seis.

 

P/1 – Seis filhos, você teve?

 

R – Seis, mas só tem cinco vivos, um morreu.

 

P/1 – São quantos homens?

 

R – Três homens, três mulheres.

 

P/1 – Eles moram todos fora, alguém mora com você?

 

R – O caçula meu mora perto de mim, mas ele não mora comigo não porque ele tem problema. Ele falou que ia matar eu dormindo.

 

P/1 – Tem problema é?

 

R – Tem, é, distúrbio mental, e esquizofrenia, parece - se não me engano. Aí ele não quer tomar o remédio e fica agressivo comigo. Falou que ia me matar dormindo. Aí eu [me] separei dele. Fiz dois cômodos pra ele, um banheiro. Ele mora sozinho, está com 29 anos.

 

P/1 – Desde pequeno a senhora notou que ele tinha esse distúrbio?

 

R – Não, eu fui descobrir, ele já estava grande, já.

 

P/1 – Quando é que a senhora notou a primeira vez?

 

R – Ele estava com quinze anos, já, quando eu fui descobrir.

 

P/1 – O que é que ele fez?

 

R – Ele ficava muito agressivo; me bateu uma vez... Ele tomava o remédio e depois não queria mais tomar, porque dá muito sono nele. Tenho até remédio pra jogar fora porque...

 

P/1 – E com o seu marido, como é que ele é?

 

R – Ele [filho] estranha [com] ele [marido] também!

 

 P/1 – E ele trabalha? O que é que ele faz?

 

R – Nunca trabalhou, nunca. Não aguenta trabalhar, não. Quando o pai dele mesmo - é morto o meu primeiro marido, que é o pai dele - levava ele, às vezes, pra roça, pra trabalhar, ele trabalhava um pouquinho e vinha embora. Quando eu botava o almoço pra ele, ia lá ver ele, a comida estava todinha - ele não podia comer. Ele estava tremendo. Estava mesmo, a gente via ele tremendo; não podia nem almoçar. Aí eu não deixei ele trabalhar mais, porque como é que ele ia trabalhar assim? Não podia nem almoçar...

 

P/1 – Quando foi que seu marido morreu?

 

R – Meu marido morreu... Vai fazer dezesseis anos.

 

P/1 – Ele é que é o pai dos cinco filhos? De todos eles?

 

R – Todos eles.

 

P/1 – Como foi que ele morreu?

 

R – Ele estava trabalhando, veio almoçar em casa, almoçou, descansou um pouco e foi pra roça de novo. Daqui a pouco, vem ele voltando, mandando arrumar a cama porque ele estava com muito frio. Não tirou nem a roupa suja, de tanta tremura e dor de cabeça. Aquela tremura que chegava a sacudir a cama. Aí eu botei três cobertas em cima dele, aqueles cobertor grosso em cima dele, mas não passava aquele frio. Não tinha condução pra levar ele pro hospital, e quando o irmão dele chegou de tarde do serviço, nós fomos no hospital. O médico examinou e falou que era garganta inflamada. Aplicou três injeções nele e nós viemos embora. Passamos a noite e quando foi três horas da manhã, eu levantei pra fazer o almoço pros meninos que trabalhavam. Ele dava aquela ronqueira, aquela ronqueira... Aí eu chamei a minha sogra que morava aqui perto, ela veio e falou: “Não, Zeneida, ele está roncando porque está dormindo. Está ressonando”. Eu falei: “Ah, não, direto assim essa ronqueira?”. Ela foi pra casa: “Não, ele tá roncando porque tá dormindo”. Eu mexi o almoço dos meninos e fui lá no quarto de novo. Aí, eu “destapei” ele: já estava todo urinado, as unhas já todas roxas. Então levamos ele de novo pro hospital, mas no caminho, morreu. Ele era epilético, e o médico falou que era garganta...

 

P/1 – Você se dava bem com ele?

 

R – Dava, ele era muito bom pra mim. Eu sofri um pouco com ele porque ele era epilético. Quando dava a crise nele... Mas, de me maltratar, nunca me maltratou, não.

 

P/1 – Até então a senhora tomava conta da casa e dos meninos, e depois que ele morreu? Como é que a senhora fez?

 

R – Os outros meninos, só tinha três comigo, solteiros, aí e eu acabei de criar. Tem uma menina que é mãe solteira, mãe de três filhos...

 

P/1 - Mas e o dinheiro pra casa, como é que fazia?

 

R – Com quinze dias, eu recebi a pensão, corri atrás e recebi a pensão. Depois, eu arranjei outro.

 

P/1 – Depois de quanto tempo?

 

R – Já tinha onze anos, tinha mais de onze anos... Não estou bem lembrada.

 

P/1 – Como é que você arranjou outro?

 

R – Mas eu arrumei porque...

 

P/1 – Como é que você arranjou...

 

R – Por causa do meu menino, mesmo! Porque ele me maltratava muito, aí eu tive que; se eu ficasse sozinha, ele fazia arte comigo.

 

P/1 – Como é que você conheceu o outro?

 

R – Ele que veio me procurar...

 

P/1 – Mas você conhecia ele de onde?

 

R – Daqui mesmo, ele morava aqui mesmo.

 

P/1 – Aqui perto? Era seu amigo?

 

R – Era amigo.

 

P/1 – Você conhecia ele de onde?

 

R – Ele não tinha mãe, não tinha pai também e queria morar comigo. Eu falei com ele que eu era mais velha do que ele. Ele falou que não tinha importância nenhuma, ele queria assim mesmo. Até hoje, graças a Deus, nós vivemos bem. Ele não me maltrata, nem nada.

 

P/1 – Há quanto tempo vocês já estão juntos?

 

R – Vai fazer catorze anos.

 

P/1 – Até antes de entrar no Projeto, a senhora não tinha feito nenhum trabalho pra fora, remunerado?

 

R – Não.

 

P/1 – Fora a roça...

 

R – Só em casa. Aí apareceu o bordado.

 

P/1 – Como é que apareceu, como é que a senhora ficou sabendo?

 

R – A Olga veio pra dar o curso. E eu não entrei logo não, porque ele falou assim: “Você não vai aprender mais nada”. Eu falei: “Ah, mas eu tenho vontade de aprender”, ele deixou e eu entrei.

 

P/1 – Quem é a Olga?

 

R – A que vem aqui, acompanha nós.

 

P/1 – Você conhecia a Olga de onde?

 

R – Ela morava em Cachoeira - que acompanha a gente aqui.

 

P/1 – E ela procurou a senhora? Quando foi isso?

 

R – Vai fazer [um] ano já que nós estamos no bordado.

 

P/1 – Quanto tempo?

 

R – Vai fazer ano em...

 

P/1 – Um ano? 

 

R – Em agosto

 

P/1 – Ela procurou e falou o quê?

 

R – Arrumou umas dez mulheres pra ficar aqui bordando. E pra mim foi uma grande coisa, porque eu sofria muito com esse menino. Eu ficava muito nervosa, porque eu tenho a pressão alta. Eu ficava nervosa com ele me xingando. Ele me xinga muito, esse menino. Fala que vai me matar. Quando ele fica assim, eu fico tão nervosa! Saio de dentro de casa. Fecho a casa, saio. E aqui eu me distraio, o bordado aqui me distrai muito. Se eu ficar em casa, fico só pensando que ele vai me matar, vai fazer isso e aquilo comigo. E eu aqui, não, a gente conversa, borda, distrai a gente.

 

P/1 – Você já sabia bordar antes?

 

R – Não, eu aprendi agora.

 

P/1 – Você gosta de bordar? 

 

R – Gosto, tô rezando pra que não pare! Às vezes as mulheres, algumas, falam que vão sair. Eu falo: “Ah, não sai, não!”.

 

P/1 - Por que é que algumas falam em sair?

 

R – Porque às vezes custa a aparecer um dinheiro pra elas e elas querem parar porque não estão ganhando nada. Eu falo: “O dia em que vier o dinheiro, está bom. Eu tenho a minha pensão, mas o dia que ele vier, eu pego”.  

 

P/1 - E aqui é sua casa, esse pedaço é sua casa?

 

R – A casa é minha, mas só tem o lugar da casa; não tem mais este terreno. Ali é de outro dono.

 

P/1 – E é bom pra senhora, ser aqui do lado?

 

R – Bom.

 

P/1 – O que é que mudou na sua vida, esse curso de bordado?

 

R – O que é que mudou? Mudou porque me distrai muito. No dia que eu estou triste, venho pra cá, começo a brincar com as meninas, conversar. Distrai a gente.

 

P/1 - Vocês brincam de quê?

 

R – Caçoa! Fala besteira...

 

P/1 - Você já conhecia todas?

 

R – Conhecia, tem umas que são parentes minhas também. A Heloisa, que é vizinha minha, que mora aqui - e eu moro ali. 

 

P/1 - E como é que foi pra senhora aprender o bordado?

 

R – A Olga deu o curso pra nós.

 

P/1 - Mas foi difícil, a senhora teve facilidade? Como foi?

 

R – Fácil. Não foi muito difícil, não. Agora é que está sendo difícil, porque a minha vista está muito ruim. Esse óculos meu já passou da validade, tenho que fazer outro.

 

P/1 – E como é? Todas bordam, cortam? Cada uma faz um pedaço, como é que acontece?

 

R – Têm as bordadeiras, as que cortam, as que desenham as coisas pra gente fazer.

 

P/1 – Você faz o quê?

 

R – Eu bordo.

 

P/1 - Sua parte é bordar? E quem é que vende?

 

R – Quando bota... Nós ficamos na feira em Taipá, na Vila, nós ficamos na barraca. Aí vai duas, depois vão mais duas, e ficam na barraca vendendo. Quando é pra vender, eu saio também pra vender na barraca.

 

P/1 – Qual foi a primeira vez que a senhora saiu pra vender em uma barraca?

 

R – A primeira vez foi na Vila, no 7 de setembro; nós ficamos lá vendendo. E o mês passado, nós fomos lá pra Taipá, na feira, vendendo.

 

P/1 - Qual foi um dia que a senhora lembra que foi um dia marcante no Projeto, que a senhora não esquece? Que foi um caso, uma história?

 

R – Foi no dia do desfile nosso lá. Nós ríamos muito desfilando lá. Tiramos um retrato nosso...

 

P/1 – Como é que foi, desfilaram onde?

 

R – Ah, lá no campinho; aí forraram assim, pra desfilar. Desfilavam três, depois desfilavam mais três... Eu com uma vergonha, porque eu nunca tinha ido!

 

P/1 – E por que é que teve esse desfile?

 

R – Pra mostrar as camisas que nós estávamos fazendo. Nós desfilávamos cada uma com uma blusa.

 

P/1 – E quem estava assistindo ao desfile?

 

R – Ah, muita gente, deu muita gente. Era festinha. Teve quadrilha...

 

P/1 – E vocês venderam bastante esse dia?

 

R – Não vendemos nenhum, foi só pra mostrar. Ninguém comprou, não. Lá na Vila também nós não vendemos nada, porque a barraca nossa ficou muito escondida, né, ficou muito escondida a barraca. Agora, lá em Taipá, nós vendemos acho que umas quinze peças, umas toalhas.

 

P/1 – O que é que a senhora espera desse Projeto?

 

R – Espero que vai melhorar mais pra nós. Se as meninas não desanimarem, mais pra frente vai melhorar.

 

P/1 – Teve algum dia que a senhora mesma desanimou? Falou: “Ah, isso não...”?

 

R – Eu nunca desanimei. E peço a Deus que eu nunca desanime.

 

P/1 – Quais são os motivos? Que tipo de bordados, quais são os desenhos que vocês fazem nas peças?

 

R – Fazemos o Monte H, o Frade e a Freira.

 

P/1 – O que é o Monte H?

 

R – É um lugar que tem...

 

P/1 – Onde é que é o Monte H?

 

R – É lá em... O nome do lugar é Monte H mesmo, aí tem o desenho.

 

P/1 – A paisagem?

 

R – É, o Monte H mesmo.

 

P/1 – O que é que significa Monte H?

 

R – Ah, não sei [o] porquê...

 

P/1 – E o Frade e a Freira, o que é?

 

R – É uma serra que tem. Quem vai pra Cachoeira, não vê, assim, aquela serra? É isso.

 

P/1 – Como que é o desenho?

 

R – Assim, desenha o Frade e a Freira... A gente borda.

 

P/1 – Por que é que o lugar se chama "O Frade e A Freira", você sabe?

 

R – Não sei, não. Olha lá.

 

P/1 – Ah, é aquele desenho lá.

 

R – É.

 

P/1 – E que outros desenhos vocês fazem? Tinha peixe...

 

R – Peixe. Agora, igreja tem... Acho que só.

 

P/1 – Tem um motivo que vocês vendem mais?

 

R – Nós vendemos Monte H, o Frade e a Freira, o Peixe.

 

P/1 – Qual faz mais sucesso?

 

R – Agora é a Igreja, né? As toalhas, agora, já estão encomendando pra gente.

 

P/1 – O que é que você mais gosta neste projeto?

 

R – O que é que eu mais gosto de fazer? Ah, de bordar mesmo, eu gosto.

 

P/1 – Olhando pra vida da senhora, isso tudo o que a gente conversou, se você pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o que é que você mudaria?

 

R – O que eu podia mudar...

 

P/1 – Se quisesse mudar, você mudaria alguma coisa?

 

R – Fazer outro projeto, assim, mudar de coisa...?

 

P/1 – Se você tivesse que fazer alguma coisa na sua vida diferente do que você fez. “Eu não faria tal coisa, faria de outro jeito." Ou não, você faria tudo igual de novo?

 

R – Igual mesmo, né? Ah, faria outras coisas diferentes, né?

 

P/1 – É?

 

R – Porque às vezes o pessoal não compra só de um modelo assim. Às vezes fazer de outro modelo, sai melhor.

 

P/1 – Deve ter várias coisas que a gente não falou aqui. Tem alguma outra coisa que a senhora gostaria de contar, alguma história?

 

R – Não, não.

 

P/1 – O que é que a senhora achou de cotar a sua história aqui, agora?

 

R – Achei importante, né?

 

P/1 – Por quê?

 

R – Saber o que a gente já passou. Foi muito bom.

 

P/1 – Eu queria agradecer, então. Obrigada.

 

R – De nada. Pode sair?

 

P/1 – Pode. Obrigada.

 

[Fim do depoimento]

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