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História de: Vanísia Santos Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Infância em um ambiente familiar cercado por violência. Trabalhou com artesanato junto com a mãe. Espiritualidade. Morou na rua com oito anos. Fez aula de artesanato e artes marciais. Casamento forçado. Lutou para conquistar sua independência financeira. Sofreu violência doméstica. Filhos. Ajudou mulheres e crianças de comunidade junto com o Instituto Camargo Corrêa em Aracaju.

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História completa

Instituto Camargo Correa

Entrevista de Vanísia Santos Ferreira

Entrevistado por Márcia Ruiz

Nossa Senhora do Socorro, 15 de abril de 2011.

Realização Museu da Pessoa

Entrevista ICC_HV018

Transcrição Ana Lucia Queiroz

Revisado por Júlia Teixeira Reis

 

P/1 – Boa Tarde, Vanísia. Pra começar gostaria que você dissesse seu nome e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Vanísia Santos Ferreira, de 9 de maio de 1969. Local?

 

P/1 – Isso.

 

R – Aracaju. 

 

P/1 – Qual o nome dos teus pais?

 

R – __ Santos Ferreira e Alfredo __ Ferreira.

 

P/1 – Seus pais faziam o quê?

 

R – A minha mãe sempre trabalhou no artesanato. Ela bordava renda irlandesa, renda de bilro, ponto de cruz. Ela ensinava. Esta arte que eu tenho hoje na verdade eu adquiri dela. Ela bordava na comunidade. Ela dava aula e ela mesma avaliava o pessoal. Naquele tempo não tinha avaliador como tem agora. 

 

P/1 – Ela ensinava em que região?

 

R – Ela ensinava em Riachuelo e Divina Pastora. Até mesmo aqui em Aracaju antigamente tinha uma legião, chamada legião, que agora é o Centro de Referência da Mulher. Nesta legião ela trabalhava fazendo o enxoval com mulheres carentes, e lá ela dava cursos.

 

P/1 – O teu pai fazia o quê?

 

R – Por incrível que pareça o meu pai é Caboclo de Reisado. Enquanto minha mãe trabalhava ele dançava e mais nada. 

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho sete irmãos homens e três mulheres só.

 

P/1 – Nesta escala você está no meio, você é a mais nova? Como que é?

 

R – Eu sou a mais nova. Encostada a mais velha das mulheres. Dos homens eu sou encostada ao mais novo. 

 

P/1 – Os seus pais nasceram também aqui em Aracaju?

 

R – A minha mãe é descendente de índio. A minha mãe não era daqui, era de uma tribo do Amazonas e a história que eu sei de vida dela é que quando ela tinha sete anos a mãe dela faleceu e meu avô, ele é descendente de italianos, trouxe ela pra cá, pra Sergipe. Porque ele trabalhava com cacau em Salvador e com ouro. E ele tinha que ficar viajando, deixou os filhos aqui na mão dela, pra minha mãe terminar de criar e ele ficava pelo mundo.

 

P/1 – E a tua mãe era a filha mais velha?

 

R – Minha mãe era a filha mais velha. Era só ela de mulher e três homens.

 

P/1 – E por parte de pai, seus avós eram de que região? Eram aqui de Sergipe ou não?

 

R – Não, não eram não. A minha avó, a mãe do meu pai, era de uma cidade dos bruxos de Salvador. Uma ilha de bruxos de Salvador. A minha avó era bruxa, então ela era de uma ilha que ainda tem lá em Salvador, pro lado de Itaparica. E a minha outra avó, não. A minha avó era de lá do Amazonas. Era de uma tribo do Amazonas mesmo.

 

P/1 – E os avós, você sabe alguma coisa a respeito deles?

 

R – Não, eu não conheci eles, não. Eu só conheci o meu avô por parte de mãe. Eu conheci assim: porque quando a minha mãe casou com meu pai meu avô tinha posses e não gostava de preto. Tanto que meus irmãos são todos brancos de olho claro e eu sou a única negrinha. A minha mãe ainda brincava: “Não fique triste, quando falarem sobre a sua cor você diz que faltou energia e você saiu nesta corzinha”. Na verdade o meu nascimento foi assim: foi a primeira criança a nascer em 1969 no dia das mães. Naquele tempo a criança que nascesse naquela data ela tinha um mercadinho o ano todo, ela tinha um enxoval completo e por ordem do destino quem nasceu nesta data fui eu. E até então meu avô não falava com a minha mãe porque meu pai era um cachaceiro, mulherengo, gostava muito de bater em mulher e meu avô disse: Se você for fugir com ele você esqueça de seu pai. Ela já não tinha mãe, só tinha ele. Aí minha mãe disse que se viu sozinha e fugiu com ele. Ela disse que foi morar num buraco de caranguejo, a mobília dela era uma caneca de alumínio, um pote de barro. Dormia no chão e era a vida que ela queria escolher. Era o homem que ela queria pra viver. Ela foi e meu avô virou as costas. Quando eu nasci, meus irmãos por serem muito branquinhos e serem todos homens, meu avô até então nunca ligou pra minha mãe. Quando eu nasci, ele soube do meu nascimento, minha mãe estava na maternidade, estava na maior festa. Tinha um jornal bem antigo que eu guardei e depois se acabou nas mudanças. E aí, segundo a minha mãe, meu avô foi me visitar. Quando chegou lá – eu era bem gordinha, eu tenho uma foto minha aí, muito bonita. Eu era bem gordinha, bem cabeludinha. Os cabelos bem cacheados, bem cacheados mesmo. Diz que meu avô olhou no berçário e disse: “Que coisinha mais linda. Você vai ser a menina dos meus olhos”. E aí depois desse dia ele foi até a minha mãe e minha mãe se assustou: “Meu pai veio me visitar? Eu tive sete filhos ele não visitou nenhum”. Inclusive ela tem dois especiais e ele não visitou. E aí ele chegou e ela: “Benção, meu pai”, aí ele disse: “Antes de lhe dar a benção vou lhe dizer: você tem algo que me pertence”. Ela disse: “O quê?”. “Você botou um pedacinho de ouro nas minhas mãos”. “O que foi?”. “Você vai me dar a sua filha pra mim”. “Não, papai, é a única filha que eu tenho. Porque a mais velha já tinha dado”. Aí ele disse: me dê ela para pelo menos eu criar. Para dar uma dignidade a ela. Porque eu sei que você não vai ter condição”. Aí ela disse que dava pra ele. E meu avô me criou até os sete anos de idade. E aí o que aconteceu? Minha mãe foi pra casa, me deu os cuidados, tudo. E eu fui crescendo. Só que eu cresci de uma forma. Minha mãe, ele dizia que a minha mãe dava as primeiras papas e a comida que fortificava o estômago quem dava era ele. E a educação também. E eu fui criada de uma maneira, distante dos meus irmãos, praticamente com tudo do bom e do melhor. As primeiras peças de __ que ele fazia eram minhas, as primeiras artes, o primeiro chocolate do cacau era meu. Ele fazia um refrigerante na época, ele tinha uma fábrica chamava Marita. O primeiro refrigerante que ele fazia na fábrica era o meu. Eu estudava num colégio internato que eu ia de quepe, de meia até em cima, fardinha engomada, saia plissada. Era tida como uma riquinha. E os meus irmãos, não. Os meus irmãos para a minha mãe sustentar eles, minha mãe tinha que ir para a cozinha dos outros. Minha mãe fazia colcha de retalho pra vender, colcha de renda irlandesa que ela dava de graça pra sobreviver e fazer com que as mulheres dela sobrevivessem. E meus irmãos pra comer, pra ter o sustento – eles quase não tiveram estudo, tiveram estudo depois – eles tinham que ir pro matadouro. Minha mãe saía sete horas da manhã pra ir trabalhar e deixava os sete homens dentro de casa, cada um com uma missão. Um dava banho, outro varria a casa, outro limpava o banheiro e os dois mais velhos, um ia pro matadouro e o outro ia vender sonhos nas escolas. O matadouro por quê? Tinha um matadouro próximo, que matava boi, e lá sobrava o fato; sobrava os pés, o mocotó; sobrava o rabo, que hoje é vendido como rabada e como os meus irmãos eram muito interesseiros o que eles faziam? Eles ajudavam os marchantes e os marchantes achavam interessante. Por ele serem muito branquinhos,  eles se destacavam muito fácil, pela cor e pelos olhos. E achavam interessante que ele era trabalhador. O que fazia? Depois do final dava pra eles a __ inteira. Aí eles botavam no carrinho e vinham para casa na maior alegria porque a gente tinha comida, só que eles não tinham comida só pra eles. Porque a minha mãe, além deles, ainda alimentava quase um quarteirão inteiro. Porque o coração dá pra quatro famílias comer. Um fígado dá pra várias pessoas comer. Ela alimentava a gente, eles, como alimentava os outros. E meu avô ficava irado porque ele tinha posses e ficava pensando como que a única filha dele, mulher, vivia numa miséria daquela. E pra completar a situação quando minha mãe chegava em casa cansada, chumbada de trabalhar o dia todinho, ia se sentar numa máquina no candeeiro, de pedalinho, para bordar richelieu; meu pai ia pra rua, enchia a cara de cachaça; chegava em casa espancava ela. Se a gente brigasse, entrasse na frente era espancado também. Ou então ele ia dançar, que era Caboclo de Reisado na época, ele trazia os machos da dança porque minha mãe tinha que dormir com eles. Se não dormisse ele simplesmente espancava de novo. Como ela era baixinha e era muito tinhosa e não fazia aquilo por respeito aos filhos, ela apanhava. Até que foi passado o tempo, um belo dia, eu já estava com sete anos e não me desapartava do meu avô de jeito nenhum. Era tanto que minha mãe dizia assim: “Papai, deixa Vanísia vir pra casa, ficar com a gente e tudo”. Meu avô disse: “Ela vai, só que eu vou ver como ela está sendo tratada”. Porque ele morria de medo do meu pai. Meu pai tinha prometido desde pequena pra ser a bruxinha, a seguidora da minha avó. E aí ele tinha muito medo do que poderia acontecer comigo. Com sete anos de idade eu fui na minha mãe e tive um sonho, um pressentimento que algo ia acontecer. Praticamente eu vi o que aconteceu com meu avô. Eu vi a morte dele. E eu cheguei pra minha mãe e falei: “Mãe”. Aí vim pelo caminho com ele; ele antes me colocou no colo, me abraçou, me beijou, me alisou toda. Eu falei: “O que foi, vovô?”. Ele disse: “Você sabia que você é a coisa mais importante da minha vida?”. Eu digo: “Sei, por que o senhor está falando isto?”. “Porque eu lhe amo muito. Amanhã você vai visitar a sua mãe e o que se chama de seu pai, mas qualquer coisa você peça ajuda”. “Vovô, por que você está dizendo isto?”. Ele disse: “não, estou lhe dando só um alerta”. “Tudo bem”. Aí eu fui. Quando chegou lá eu comecei a passar mal. Minha mãe: “O que foi? O que foi?”. E geralmente quando eu tenho estas visões, segundo os estudiosos, eles disseram que eu não fico em mim, eu fico em trânsito. E eu comecei a chorar. Minha mãe: “o que foi? O que foi?”. Eu digo: “Meu avô está morrendo”. “Não, não fale isto”. Eu: “Meu avô está morrendo, meu avô está morrendo”. Então contei a ela do sonho. E ela acreditava porque eu já tive outras premonições e foi certinho, como o que aconteceu. E ela disse: “Não, não está”. E eu digo: “Daqui a dois minutinhos a senhora vai ter a notícia que meu avô morreu. Só que eu quero estar com ele”. Meu avô tomou uma queda dentro do banheiro. Ele escorregou numa casca de banana e morreu. Eu fiquei com muita dor porque eu não pude ver ele. Aí enterraram ele; não me deixaram ver. Meu pai até então, ele não me deixou ver de jeito nenhum. “Você não vai ver seu avô. Ele não é seu pai, ele só criou, mas seu pai sou eu”. E me pegou pelo braço: “Oh, eu sou seu pai”. E eu fiquei muda por um ano. Eu não falava com ninguém, não brincava com ninguém. Só pensando no que eu podia ter feito. Como criança eu achava que eu podia salvar ele. E aí ele começou a me maltratar. Ele tomava umas cachaças e quando chegava e eu muda, ele: “Fale, você tem que falar” você tem que falar!”. Aí eu olhava pra ele e minha mãe: “Solte a menina”. E ele soltava e espancava ela. Um belo dia uma senhora, já com quase um ano, uma senhora ia viajar pro Rio de Janeiro, ia embora, e ela tinha um papagaio. Ela estimava muito este louro. Eu batizei ele como Rafael. E ela disse que queria vender o louro. Ela queria dar, mas como ela precisava da passagem pra viajar ela disse que tinha um preço no louro. “Como você tem um bichinho como uma pessoa e você vai vender?”. “Eu dava”, minha mãe falou pra ela. Meu irmão também assim: “Ah, vai ser legal, quem sabe se a minha irmã não solta a voz? Papagaio fala”. E meu irmão pegou o primeiro salário dele de jardineiro e comprou este louro. Chegou em casa todo alegre, satisfeito. Minha mãe esperando o dinheiro chega ele com o papagaio. “Mainha, mainha”. “O que foi?”. “Trouxe uma coisa pra Vanísia, ela vai gostar. Ela gosta de bicho”. Aí a minha mãe disse: “Que foi que você trouxe?”. “Mainha, só que tem uma coisa”. “O que foi?”. “Peguei meu primeiro salário, paguei o papagaio”. “Como é que tu faz isso? A gente vai precisar deste dinheiro!”. “Não, mas está bom. está ótimo. Pra ela sarar”. Aí me deram este papagaio. Eu me sentava no muro lá de casa e só olhava o papagaio. Ele cantava, falava, ___, pintava e bordava. E neste tempo a minha mãe já tinha uma mercearia e fazia bala de banana pra vender. E aí tinha uns meninos que gostava de roubar bala. Minha avó, tinha uma avó que criou minha mãe depois que minha avó morreu. Esta irmã do meu avô ficou com ela. Eu chamava ela de tia mãe de dinha. Porque ela era tia da minha mãe, mãe da minha mãe e madrinha da minha mãe. Como ela me pegou um tempo pra morar com ela eu chamava tia mãe de dinha. Então o que ela fazia? Ela chegava, não sabia que o papagaio ia falar e dizia assim: “Ó louro, vou botar este queijo aqui, estas balas aqui em cima. Se chamar alguém pra comprar bala chama a Liete. Se chegar pra roubar o queijo você grita. Grita, __ e chega”. Aí o menino vinha pra jogar pedra na bala pra quebrar o vidro e levar. Quando eles não conseguiam eles roubavam o queijo. O louro gritava: “Vó, ô vó, chega vó! Não conseguiram pegar a bala roubou o queijo!”. Aí eles se mandavam. Eu comecei a observar aquilo e um belo dia eu comecei a cantar pra ele. Minha mãe me pegou cantando pra ele: [entrevistado canta] “Comprei um quilo de farinha, farofa fa. Pimenta malagueta, farofa fa. E te dei”. E ninguém tinha visto eu cantar. Quando eu terminava de cantar o papagaio começava: “Fa faro faro faro, faro faro faro”. E com essa brincadeirinha eu soltei a voz. E o papagaio era muito bravo. Ele subia e descia e não pegava. Só que eu tenho enigma muito forte de domesticar bicho selvagem. Eu comecei a brincar com ele. Ele era a única criança, ele era o único brinquedo, ele era a única pessoa, o único ser humano que me entendia. Eu começava a beijar ele, abraçar ele. Minha mãe dizia: “Mas como pode uma coisa desta? O papagaio não é dela e ela pega o papagaio na maior naturalidade”. Aí minha mãe me botou num médico, em vários tipos de médico e o médico disse: “Olha, vai dar um bloqueio no cérebro. De uma hora pra outra ela vai apagar o cérebro dela”. Minha mãe me botou pra fazer um curso de boneca, me botou pra fazer um curso de tela, me botou pra fazer vários cursos. Porque ele disse que com determinado tempo eu ia ter uma amnésia e ia perder todo meu projeto de vida e que isto aí foi ocasionado pelo trauma do meu avô, que não se explicou. E aí eu perdi realmente o cérebro e depois de muito tempo, através das telas, através das cores, eu fui voltando o resgate de vida. O que aconteceu? Além do resgate de vida eu comecei a criar. Eu durmo, estou com sono, eu me deito e começo a ver imagens, coisas, peças, algum artesanato, alguma coisa assim. Eu me levanto rápido, a maioria das vezes é à noite; minha mãe me chamava de louca. “Você é louca. Você está falando com os espíritos”. Eu falava: “Não, mãe, estou criando”. E me levantava, rabiscava e no outro dia eu chamava as artesãs e dizia: “Gente eu via assim, assim”. E a gente começava a criar na palha, a criar no tecido. Foi quando eu comecei a trabalhar a fundo com artesanato. Minha mãe viu que além de eu ser a filha dela ela tinha uma colega de trabalho. Só que ela falava assim, ela dizia que eu era uma pessoa muito impaciente e gostava muito de “mangar” do povo. Que o pessoal que ela ia sempre faltava – tapa os ouvidos – sempre faltava uma calcinha, sempre faltava uma anágua. E como eu era a mais jovem e fazia a modelagem sempre faltava um pedaço de pano. “Mãe, o que aconteceu? A senhora pegou meu pano? Meu material de bordar?”. “Não, você está ficando louca. Seu material está aí”. “Mãe, meu material está faltando”. Quando era na semana próxima que a gente ia aparecia neguinho com uma saia estampada com o pano, mostrando a cor da calcinha, que tinha ganho de presente, uma anágua de presente. E é onde que eu ia ver onde foi parar os meus tecidos do bordado do povo, que era doando de presente. Então correu até os meus sete, dez anos. Quando eu fiz – a idade do bruxo é sete anos completo – meu pai decidiu que ele ia me sacrificar e aí ele ia ver a minha descendência. Meu irmão, que morreu, ia ser o bruxinho e eu ia ser a bruxinha. Meu pai trabalha com crânio. Trabalho com __ do cemitério, com ossos. E ele acreditava que eu ia ser seguidora dele. Ele foi até uma filha de santo dele e lá eles jogaram os búzios, abriram a mesa branca e deu o contrário. Eu ia ser a mesa branca do Xangô. Eu ia ser uma pessoa que tudo que eu me colocasse, no Xangô, no espiritismo, no catolicismo, no evangelho, na religião que eu escolhesse eu ia ser a mesa branca. Eu ia ser melhor do que ele. Chegou ao ponto de que se ele tentasse me sacrificar ele ia ser sacrificado. E aí ele chegou em casa azedo. Sabe o que é uma pessoa azeda, com o demônio no corpo? Ele veio transtornado. Meu pai é moreno, ele chegou da cor deste tecido. Os olhos dele parecia os olhos do cão. Ele chegou na minha frente, eu vi naquele dia, e ele chegou em casa me catando. E aí, como eu tinha sete irmãos, a minha mãe: “O que foi? O que foi?”. “Ela vai ser uma prostituta!”. Ela vai ser isso, ela vai ser aquilo. Ela vai ser igual as suas irmãs, seus irmãos. Ela não vai valer nada. Não sei o quê. E minha mãe queria ver o que estava acontecendo. Só que a filha de santo dele sabia e correu para avisar. Chegou e disse o que era. E minha mãe: “Eita, ele vai sacrificar ela”. Se ele não conseguir de uma maneira ele ia conseguir de outra. E ele era de uma maneira, o que nós dois temos, que ele não conseguia chegar próximo a mim, de jeito nenhum, porque o diabo que existia nele tinha medo de mim. Tanto que eu enfrentava ele e ele obedecia e ficava perguntando como uma menina de sete, oito anos, fazer isto com uma pessoa de 40, 50 anos? Isto não existe. Ele não acreditava que ele ia ser derrotado pela própria filha que ele instruiu para ser o demônio. Aí ele deu uma surra no meu irmão, uma surra com uma taca de cavalo. E acreditou que tinha matado meu irmão. Só que meu irmão entrou numa boleia de caminhão e foi parar em São Paulo. E a mim, minha mãe saiu correndo, ele deu a tal fivela, ele bateu na minha perna que o couro saiu junto com a carne. E minha mãe, começou: “Não faz isso. Tu vai matar tua filha. Não faz isso. Tu é um miserável. Matou dois filhos, com ela vai ser três”. Não sei o quê. E eu fugi de casa. Eu disse: “Mãe, não se preocupe, não. Eu vou sair, mas eu volto. Com 13 anos eu volto. E eu digo uma coisa pra senhora. Com 13 anos ele não vai conseguir me pegar, porque eu vou fazer artes marciais. E ele não vai dar mais tapas na senhora. Quando ele der tapas na senhora eu revido”. Minha mãe: “Não faça isso. É seu pai”. “Não se preocupe com isso. Eu vou trabalhar, eu vou estudar, eu vou ser gente e a senhora não vai sofrer mais”. E aí eu fui. Parei na porta de um pastor. Eu ajudava numa escola chamada Ruy Eloy e que de uma hora pra outra tinha na base de 250 crianças. De um lado tinha um lugar chamado CIBRAZEM [Companhia Brasileira de Armazenamento] e daí eu soube que eles armazenavam veneno de formiga. E eu perguntei: “Biscoito tem veneno de formiga”. Ele disse: “Não, o biscoito é pra merenda escolar e o veneno de formiga é pra colocar nas formigas mesmo”. Eu digo: “Eh, vou matar a escola inteira pra me vingar do meu pai”. E aí eu pedi a ajuda de dois coleguinhas, dois abençoadinhos, subi na caixa d’água, botei veneno de formiga na caixa d’água pra matar todo mundo. Eu estava consciente que só assim meu pai e minha mãe iam na escola. Porque todo mundo ia pra reunião de pais e eu não tinha pai, nem tinha mãe. Era um zé ninguém. E todo mundo gostava de mim na escola. O diretor que me chamava de espoleta. Porque é coisa de teatro, eu dançava, imitava ___ sem nunca saber inglês. Eu fazia dança desde os cinco anos de idade. Eu fazia balé. Eu dançava na pontinha do pé e eles achavam interessante. Mas ocasionou esta desgraça. E um dos meninos ficou com a consciência pesada e chegou pra diretora na hora que os meninos iam tomar água, tudo de uma vez só, aí o menino entrou em crise, começou a se tremer. “O que aconteceu? O que aconteceu?”. “Não tome, não. Não tome, não, que Vanísia botou veneno na caixa d’água pra matar todo mundo”. Aí ela fechou a torneira todinha. Mandou fechar o registro e me chamou. Perguntou por que eu tinha feito aquilo. E eu disse que eu ia matar todo mundo. Ela disse: “Você tem coragem de se matar?”. Eu disse: “Vai ser meio difícil eu morrer, mas se eu matasse todo mundo pelo menos, meu pai, eu ia ficar viva e meu pai ia ser chamado, ia ser incriminado e vocês vão ver que eu tinha um pai e tinha uma mãe. Que me colocaram no mundo”. Aí a diretora me chamou, que hoje é colega de trabalho minha, e disse: “Você vai ser expulsa da escola. Você não vai estudar mais em escola nenhuma. Você vai parar na FEBEM [Fundação para o Bem Estar do Menor]”. Eu não estava nem aí. Já estava perdida mesmo. Meu pai já dizia pra todo mundo que eu ia ser uma prostituta. Ia ser mais fácil eu ir pra rua. Eu disse: “Oba, agora eu vou morar na rua de vez”. E aí apareceu uma vizinha que gostava muito de mim, que eu alimentava escondido da minha mãe, a minha mãe me dava a comida, eu comia a metade e ia pra casa dela e alimentava ela. Ela chegou chorando e falou pra diretora e disse: “Não, já que vocês vão expulsar, não chamem nem o pai nem a mãe, que o pai vai matar ela aqui. A mãe vai morrer de desgosto. Dê ela na minha mão, eu vou levar ela pra um lugar e eles vão acreditar que ela é uma boa menina e vão dar uma oportunidade pra ela”. E aí eles deram na mão dela. “Está na sua mão. Se vire. Se acontecer alguma coisa de errado a responsabilidade é sua”. Como ela é aluna de corte e costura da minha mãe com o tempo ela contou a minha mãe. Porque a minha mãe sabia que eu estava na rua, não sabia o que eu estava fazendo. Meu pai não se importava. Mas ela tinha a minha guarda. Ela me levou até uma igreja chamada metodista, que hoje ainda tem o prédio no Siqueira Campos. E nesta metodista existia um pastor chamado Jeremias Romão, que ele não podia ter filhos, a esposa dele era dentista, mas sempre dizia que todo aquele que ninguém queria, que ninguém dava oportunidade, era que ele apostava que ia dar certo. Ela chegou lá, contou minha história pra ele e ele não disse nada. Abriu as portas e disse: “Você vai estudar de sete da manhã às três da tarde. Outro dia você vai estudar de sete da manhã às cinco da tarde. Se você aprontar vai ficar o dia todo”. Já sabia que eu aprontando ia ficar o dia todo. Eu comecei, ele viu que eu não era aquele cãozinho com desenharam. Por quê? Eu estudava e ao mesmo tempo eu gostava muito da coxia, onde eles treinavam teatro, treinavam música. Um belo dia ele me descobriu cantando uma música gospel e ele viu que eu ali me podia me tornar uma voluntária na igreja. Ele então pegou uma professora de matemática, de nome Estelita, que gostava de me bater de apagador e mandou ela perguntar, fazer pergunta. “Se todo mundo ganhar uma torrada, dê duas a ela. Que todo mundo ganha uma bala, dê duas a ela que ela é mais carente que os outros. Comece a beijar e abraçar ela. Se ela tem que ficar três horas deixe ela ficar até quatro horas. Leve ela pra sua casa. Leve ela pro __ da minha esposa. E comece a perguntar sobre a vida dela”. Um belo dia eu comecei a falar e comecei a chorar. Com raiva do meu pai. Aí estava a explicação da minha agressividade. Quando tinha cuscuz com sardinha, que era o lanche, todo mundo entrava uma vez. Eu não tinha o que fazer eu ia no banheiro e trocava a roupa três vezes, que era pra eu comer três pratos. Porque quando eu saia dali eu não tinha comida nenhuma. Ela começou a observar. Ela começou a guiar uma vez e descobriu que eu dormia na rua. Não tinha casa. E aí, dona Estelita, ela era uma moça velha, ela disse: “Vou lhe ajudar”. “Mas, professora, eu tenho um bloqueio. Eu sou péssima em português e adoro tomar reguada na matemática. Mas se a senhora me der uns feijõezinhos, umas pedrinhas, eu posso aprender a matemática. Contei a ela: “Minha cabeça, se a senhora raspar, minha mãe dizia que se me botasse de cabeça pra baixo saía água pela cabeça”. De tanto ela lascar a minha cabeça. Lascar __ descia. Eu acho que devido a estas pancadas e estas operações que eu tive nos olhos, eu não assimilo fácil. Mas como na história as pessoas mais difíceis de estudo foram as mais inteligentes, a prova é Albert Einstein, eu creio que eu ainda vou ser um geniozinho. Ela achava super interessante. “Mas eu posso dizer uma coisa pra senhora: eu posso não saber bem escrever, mas eu sou ótima na leitura, apesar de ter só 50 por cento da visão, eu sou boa na leitura. Mas eu tenho um “que” que os outros não tem. Eu danço, canto, sapateio e sou muito boa de teatro”. Aí começava a improvisar a história do sertanejo. E ela achava interessante. Eu era pequenininha. Ela botava um pedacinho de carteira emborcada e eu começava a contar história. Ela disse: “Realmente você é uma história”. O meu pai tinha mania, quando a gente era pequenininha, quando ele estava são, ele começava a tirar prova. Fazer cordel. Ele não sabia ler nem escrever, mas ele cantava. E ali eu começava a escutar, eu dormia, eu acordava, enchia o saco. E com o passar do tempo comecei a cantar. E eu começava a cantar: “Bendito, louvado seja. Bendito louvado seja”. E o pessoal achava interessante porque a música folclórica. “Como uma menina nesta idade sabe?”. Eu disse: “Infelizmente, apesar de eu ser filha de uma artesã porreta, de um camarada espancador e vagabundo, meu pai é um Caboclo de Reisado legítimo”. Eu tenho esta cultura embutida. E aí tinha uma dança lá, eles não cultivaram o folclore, porque eles diziam que era do mundo, mas tinha dança portuguesa. Como eu já era classificada cinco anos de balé eu já era classificada por eles como uma bailarininha. E aí eles começaram a ensaiar dança portuguesa e eu me destacava mais do que todo mundo. E o meu pai em Cristo achava a coisa mais linda. Porque meu cabelo era enorme, as minhas roupas caiam muito bem porque eu era sempre magrinha. Sempre estava na __ porque meu corpo era idêntico ao que ele queria. Eu era comportada quando se tratava de teatro, de música, de dança. Eu me comportava. Só não me comportava na matemática e português, na escola. Eu já não era mais uma criança agressiva, eu já tinha uma formação. Quando eu fiz doze para treze anos eu comecei a correr. Tinha os jogos na cidade que era chamado o ___. E eu me destaquei nos cem metros. Eu tinha um colega que disse: “Vanísia, me ajude que eu vou dividir com você os cem metros de barreira. Você tem as pernas longas e eu sou gordinho, mas eu consigo correr”. Digo: “É, é só botar um cachorro feroz nas tuas costas que você num instantinho chega na barreira”. E aí eu comecei a treinar com ele e o olheiro do campo Sergipe veio, viu. A dona Estelita contou a minha história. Foi fácil. Ele disse: “Vou ajudar ela”. Aí me deu um par de chuteiras e a chuteira tinha que ter uns preguinhos em baixo, uns parafusinhos. Só que tinha quase 50 alunos que não tinham chuteira e todos eles queriam correr. Eu disse: “Gente, vamos fazer assim? Eu corro um pouquinho, tiro as travas. Você corre, o outro bota a trava. O outro corre, tira a trava”. E assim todo mundo pôs a trava. E lá o professor falou bem assim – eu era louca pra fazer ginástica olímpica, não podia porque era muito alto e eu estava com um corpinho a mais do que a ginástica olímpica. Eu me frustrei. “Poxa, como eu não posso”. Aí o pastor falou bem assim, ó: “Tu tem que aprender ganhar e perder. Tu ganhou a corrida, ajudou todos os outros seus irmãos. Agora você vai aprender a perder, a ginástica olímpica. Mas pense que você pode ter outra arte”. Eu disse: “Eu quero engordar”. “Vá fazer judô”. Aí se vai fazer judô na mesma escola. Na presidente Vargas, ainda tem, na Siqueira Campos. Quando eu cheguei na presidente Vargas, que eu me apresentei para o professor, o professor Osvaldo olhou pra mim e deu uma risada: “Você quer fazer o quê?”. Eu disse: “Judô”. Ele disse: “Pera aí”. Aí pegou o espelho. “Se olhe no espelho. Você vai ser a famosa chico tripa. Peso leve. Você acha que você vai pegar peso suficiente pra você entrar no campeonato”. Eu disse: “Se o senhor me der uma oportunidade eu tenho um ditado que minha mãe sempre disse: Você não sabe nada, mas se me ensinar eu aprendo. Me dê uma oportunidade”. “Tu tem quimono?”. Eu digo: “Eu não tenho, nem tenho como comprar”. Aí ele disse: “Eu vou emprestar um meu”. E emprestou o da filha dele. Só que como eu era alérgica toda vez que eu vestia o da filha dele suada eu começava a espirrar, no outro dia estava muda. Aí ele disse: “Por que você está muda?”. Eu digo: “Por nada”. Aí eu conversando com o pastor e ele disse: “Por que você está triste?”. “Todo mundo tem um quimono e eu não tenho”. Aí ele falou: “Não seja por isto. Vou lhe dar um quimono. Qual quimono você quer?”. “Trançado”. “Por que trançado?”. “Como ele é mais pesado o meu corpo vai se adaptar e eu vou ganhar músculo”. Ele disse: “É, tu é esperta. Tu não quer treinar, tu quer pegar músculo através da roupa”. “Eu disse: “É, pastor, me dê um trançado”. Aí eu peguei 68 quilos rápido. E eu comecei a assistir os filmes de Bruce Lee. E comecei a pensar: se eu treinar muito e terminar o campeonato. Quando eles bater o gongo eu fizer os primeiros pontos, eu vou me livrar mais rápido de quem está na minha frente. Então, quando eu chegar na frente tinha um que dava duas vezes mais do que eu. “Eita, vou apanhar”. Aí eu conversei com um irmão meu e ele disse: “A melhor maneira de você ganhar o campeonato é você pensar que você tem problema de ossos, não pode tomar pancada nos ossos. Você tem problema de coração, você não pode tomar pancada no coração. A sua cabeça você tem um olho 50%. Então você tem que treinar o golpe rápido.” Aí eu peguei o professor e disse: “Professor, qual é os golpes vitais?”. Ele me mostrou um boneco. Esse, esse, esse e esse. Eu disse: “Eu quero treinar este”. “Não pode, você não é faixa preta. Você está começando agora. Se você treinar os golpes vitais eu, como professor, vou ser expulso da Federação porque vou estar treinando um monstro”. Eu digo: “Não, professor, vou explicar”. Sentei com ele e expliquei. Ele disse: “Não, por este lado está certo, mas você é muito novinha. Se lembre que você vai sempre pegar pessoas mais graduadas e com mais peso que você”. Deu certo. Eu fui considerada o peso pena mais rápido da Federação Brasileira de Judô. E eu só saí do judô porque eu fui quase agredida sexualmente. Um belo dia ele me chamou pra treinar com ele e ele começou a me agarrar. Só que eu já estava mais treinada do que ele, como professor de idade. Aí eu tentei me livrar dele, joguei ele e quando eu joguei ele viu que eu estava me defendendo. Eu disse: “A partir de hoje o senhor não é mais meu professor. E eu vou sair da Federação”. E ele não me disse nada, nem que sim, nem que não. Eu saí e a federação não soube o que estava acontecendo. E eu comecei. No outro dia eu disse: “Pastor”. E ele disse: “Por que você não vai mais para o judô?”. E eu não falei pra ele o que estava acontecendo. Eu disse: “Eu vou trabalhar”. Ele disse: “Você vai trabalhar? Você não pode. Só posso largar mão de você com 14 anos. Vou chorar, vou sofrer, mas só com 14 anos você pode sair daqui”. Eu disse: “Pastor, eu posso trabalhar e ficar com o senhor. Eu varro casa, eu lavo prato, eu tomo conta do escritório do senhor. Eu faço o que o senhor quiser. Deixa eu trabalhar, minha mãe precisa de mim. Eu vou fazer 14 anos e eu prometi pra ela que com 13 anos eu voltava. Aí eu tive a oportunidade, numa confecção chamada Amazonas, na Rua de Amazonas Siqueira. Chamava dona Nega. Dona Nega e ___. Eu entrei lá catando pedacinho de pano na porta. Daquele pedacinho de pano, a mulher achou interessante, eu fui vender salgadinho na anteporta. E a mulher achou interessante, que eu era muito franzina, pequenininha, e vinha com a bagagem nas costas. Ela disse: “Vou lhe dar uma oportunidade”. Eu disse: “Eu quero ser costureira”. Ela disse: “Você não pode, você não tem nem 14 anos fechado”. Eu disse: “Mas eu prometi a minha mãe que eu ia ajudar ela. E a senhora vai me ajudar”. Só que eu não sabia que a minha mãe, a minha irmã, que a minha mãe deu, era estilista formada e minha irmã tinha vergonha de minha mãe e da família dela. Minha irmã é branca, alta, ruiva, bonita. E até então ela tinha vindo de São Paulo, pelo __, como estilista. E eu negra. Negra, maltrapilha. E o que eu fazia? Eu vendia o lanche e tinha um dinheirinho que eu guardava. E aí o meu almoço, o que eu fazia? Tinha uma mulher do olho de sapo, que o povo que tem olho grande a gente chama de olho de sapo, ela começou a observar e ela gostava da minha comida, porque o pastor mandava tudo do bom e do melhor. Ela falou bem assim: “Qual o seu maior desejo?”. Eu disse: “Estar no seu lugar”. “Você não acha que é muita ousadia?”. Eu digo: “Não”. Ela disse: “O que você tem pra me oferecer?”. “Não vou lhe dar dinheiro, mas posso dar minha comida. Quando todo mundo sair meio dia eu não vou almoçar nem dona Nega vai saber, mas você vai me ensinar. Não precisa nem eu me sentar. Você me ensine, eu lhe dou minha comida, quando dona Nega chegar eu to fora da máquina”. E o que ela fez? Ela comia a minha comida, eu ficava com fome, e ela me ensinou os primeiros passos. Até que um belo dia Yves Saint Laurent, que era aqui o dono da Vila Romana, ele veio visitar e eu não sabia e me pegou pelas costas, na máquina. Nem a própria dona sabia que eu sabia costurar. E aí quando foi um dia ele chegou e mandou bem assim: “Quem é a dona Nega?”. Ela disse: “Até então eu não sabia que era uma costureira”. Aí chegou e falou que eu tinha 14 anos, tudo. Aí ela contou a minha história que a minha professora já tinha passado pra ela. Isso a minha irmã, escutando com a cara inchada porque eu não sabia que ela era minha irmã, mas eu sabia que ela era a irmã dela. E aí ele chegou bem assim: “Deixa fazer um teste rapidinho em você? Disseram que você é boa de criação”. E a cobra mãe estava do lado. Aí eu disse: “Sou”. Ele: “Desenha uma coisa pra mim”. “O que o senhor quer que eu desenhe?”. Ele disse: “pense numa coisa que você poderia criar”. Aí eu criei um vestido, rabisquei um vestido. Quando eu terminei ele sentou e começou a rabiscar o restante. Aí eu conversei e ele disse: “Tira ela porque senão a delegacia do trabalho pode chegar aqui e pegar uma de menor”. Ela me criou; me deu uma bronca, disse que ia me botar pra fora, tudo, e nem me colocou. Aí passou. Quando foi com quatro, cinco meses já, que eu estava na fábrica, minha mãe aparece na fábrica. E quando a minha mãe apareceu eu vi que a minha irmã chegou: “Tu veio fazer aqui o quê?”. Ela disse: “Soninha, sou sua mãe”. “Você não é minha mãe, você me deu. Você me deu pra minha avó. A senhora não me criou. O que eu sei fazer hoje não foi a senhora que ensinou”. E lá se vai, lá se foi. E eu peguei, empurrei ela e disse: “Não faça isto. Ela é sua mãe. Quer dizer que você é minha irmã?”. Ela disse: “Eu não sou sua irmã. Veja só. Olhe pra mim. Olhe pra você. Eu pareço com você?”. Aí dona Nega disse: “Até parece. Os traços dela de rosto, boca. Só que na cor, eu acho ela bem mais bonita que você. Soninha, como você faz isto com a sua mãe? Você não sabia que a sua mãe é super-inteligente? O que você tem veja a sua mãe. Sua mãe é costureira de mão cheia. Sua mãe faz um vestido de renda irlandesa de dois mil e 500 e vende por 60 reais pra dar comida a vocês”. “Mas ela não me criou”. Aí começou e a mulher botou ela pra fora. E aí minha mãe saiu chorando, foi para casa. Minha mãe tinha uma mágoa, porque ela rejeitava a minha mãe num constante, num constante. E eu não, tinha orgulho, ela não me ensinou nada, mas eu tinha orgulho que ela era minha mãe. Eu sempre falava: “Não, com todos os erros e acertos a senhora é minha mãe. Não me criou, não me deu educação, mas é minha mãe”.

Um belo dia, Yves Saint Laurent, quando voltou pra terra dele, deixou na Vila Romana uma carta que eu me apresentasse lá. Esta carta chegou na dona Nega. Dona Nega disse: “Vanísia, você quer trabalhar numa empresa grande?”.  Eu digo: “Com 14 anos?”. Ela disse: “Com 14 anos. Ninguém precisa saber que você tem 13 anos e meio. Você vai entrar como 14 anos. Você vai fazer um teste”. Aí eu fui pra Vila Romana – lembro como hoje – saí cinco horas da manhã; fui fazer teste dez horas. Botei um monte de agulha no palheiro, um monte de ___ no palheiro. E costurei um monte de papel. Aí o homem falou assim: “essa menina é muito rápida. Esta menina na produção vai ser um crânio. Até mesmo porque quantos anos esta menina tem?”. “Esta menina tem 16 anos”. “Se ela tiver tem 14 anos”. Aí o encarregado de lá começou a me ensinar. Ele disse: “Vanísia, me contaram a sua história e eu gosto muito de você”. Porque até então eu trabalhava de segunda a sábado. Ou de segunda a sexta. Sábado e domingo eu pedia na rua pra ajudar quem não tinha. Aí ele soube e disse: “Eu vou investir em você. Vou colocar você pra fazer um curso de montagem e desmontagem de máquina. De mecânica. Você quer?”. “Quero. Porque até então eu posso ganhar um valorzinho para uma mecânica.” Aí eu fiz o curso de mecânica logo. Só que quando quebrava de vez em quando eu consertava. Até então eu trabalhava na travete e a máquina é de travetar. E eu trabalhei quase cinco anos da minha vida dentro desta fábrica. Eu não tinha sábado, domingo, feriado. A hora que eles me chamassem eu trabalhava. Eu não tinha almoço. Ia almoçar às três horas da tarde. Minha mãe morria de pena porque com o reumatismo que eu tenho – eu tinha que sair cinco, seis horas da manhã, tinha que estar dentro da fábrica pra tomar um café com pão duro. Às sete horas estar na fábrica e minha mãe morria de dó porque eu pegava o dinheiro todinho e tinha orgulho de dar na mão dela. “Mãe, este dinheiro é seu”. Como eu ganhava na época 800 reais. Que agora é 800 reais, não era no real, era no cruzeiro, eu ficava com o lucro da produção. E guardava, nunca gastava. Guardava. Então minha mãe, tinha as festas do interior, e o povo do interior guarda dinheiro o ano todo pra comprar uma roupa pra vestir num dia só. Minha mãe guardava porque ela me chamava de bonequinha de luxo. Porque ela tinha o maior orgulho que eu tinha tudo do bom e do melhor e era do meu dinheiro. Não era do meu pai. E nem era dela também. Era do meu suor. Aí quando eu fiz 14 anos fechado eu digo: “Eu vou voltar, vou falar com a minha mãe”. Aí eu fui. Quando cheguei lá disse: “Mãe, hoje a senhora pode deixar de trabalhar no candeeiro. Eu vou comprar uma máquina industrial e a senhora vai ser a minha colega de trabalho. A senhora vai trabalhar industrialmente e eu vou ajudar à senhora. Agora me diz uma coisa. Por que a senhora hoje, nesta data, com uma filha de 14 anos, com um filho já de maior, por que a senhora ainda se submete a tomar pancada deste homem? A senhora colocou o nome dele na minha certidão. Um homem que matou três filhos teus de pancada. Me colocou numa cadeira de roda. E a senhora viu aquilo tudo e ficou calada. Me __ a vida inteira com um marcador de cavalo. E a senhora ainda vive com ele?”. Ela disse: “É, minha filha, porque eu me criei sem mãe, meu pai foi um carrasco. Me tomou você muito pequena. E meu pai me odiou quando eu casei com teu pai. Ele é um traste, mas é seu pai. Porque ele me espanca, ele faz o que faz com você, mas ele nunca me abandonou. Então eu tenho o pai de vocês”. Ela achava um orgulho ter um homem desta forma. Por ele saber que ele na primeira vez, eu com dez anos, ele disse na minha cara que não comprava uma calcinha pra mim, eu disse, “Não se preocupe, hoje eu tenho dez anos. Eu posso comprar muitas calcinhas, não uma só. Eu tenho um salário”. Eu tinha mais que um salário. “Eu não vou lhe dar um centavo. Vou dar tudo pra mim mãe”. Minha mãe tinha tudo do bom e do melhor. Ficava feliz, chegava no final do mês comprava roupa de marca pra ela; comprava anágua de marca. Comprava uns ourozinho pra ela. Que era barato naquela época. Agora que a gente usa bijuteria. Naquele tempo. E ela não usava o outro. Ela guardava. Porque ela dizia que era a herança dela quando ela morresse. O que aconteceu? Ele guardou consigo uma vingança pra mim. E aí eu trabalhei dez, onze, doze, treze, catorze. Quinze anos eu cheguei dentro da casa de minha mãe; estava a casa cheia de gente. “O que aconteceu? Morreu alguém?”. Minha mãe está doente?”. “Não. Você hoje vai casar”. “Eu casar?”. “Está aqui o teu marido”. “Eu não conheço ele”. “Mas ele lhe conhece. Conhece sua família. Isso é que importa. Você vai acabar com o seu judôzinho, com a sua dança, vai sair da fábrica e você vai casar”. Só que meu primeiro amor, eu nasci e me criei com ele. Na rua brincando de calcinha e de cueca; brincando de médico. Estudei na mesma escola. A gente fez corrida junta. Era meu príncipe encantado. E ele queria, e ele achou, determinou que a vingança seria esta. Eu cheguei pra __: “Você quer casar comigo? Se prepare porque eu não gosto de você”. Ele tinha a idade de ser meu pai, branco, gordo. A família dele é da Tchecoslováquia, não era brasileira. Aí ele casou. Arrumou o casamento. Isto foi no começo de maio, no finalzinho de maio estava eu na porta da igreja. Tentei rasgar o vestido; entrei na igreja de pé descalço, pra ver se dava errado. Mas nada deu errado. Tudo deu certo. Me casaram. Quando este homem chegou entre quatro paredes aqui no __ simplesmente hoje eu sei que isto aí é, como que chama? Que você alicia menor? Pedofilia. Hoje eu sei que é pedofilia e ele seria preso. Simplesmente ele falou bem assim: “Agora estamos em quatro paredes. Você não pode correr. E eu vou lhe mostrar quem eu sou”. Este homem mostrou foto minha de biquíni com onze anos de idade, com sete anos de idade, com oito anos de idade. Foto que nem minha mãe nunca teve. Ele dizia: “Se você não vier comigo eu vou dizer a seu pai e seu pai vai lhe pegar de volta”. Porque até então meu pai estipulou um valor. Ele trabalhava na Petrobras, o salário dele vinha pra minha conta. O que ele fizesse de extra era dele. “E eu vou tomar tudo. Vou deixar você sem nada”. Como eu tinha muito medo da agressividade de meu pai, eu engoli seco. Um ano, dois anos, três anos, quatro anos, cinco anos. A minha mãe já estava desconfiada porque ele fazia a relação, mas eu não sentia nada. Não sentia nada. Um belo dia, com cinco anos ele começou a passar na minha cara que ele queria onze filhos. Quando ele falava onze filhos passava a história da minha mãe. Ou eu bato neste homem, ou ele me bate. E ele começou a fazer várias tentativas e eu vi que tinha algo errado no homem. O pinto do homem era deste tamanho. “___, como este homem vai fazer filho?”. Fui pra médica, chamada doutora Valdemira, na clínica. Falei pra ela o que estava acontecendo. A médica chamou ele e disse que ele tem um problema chamado ejaculação precoce, que ele não tinha esperma suficiente para engravidar e comprou vários apetrechos pra ver se o pingulim do homem crescia. E não crescia. Do jeito que era ficou. A médica disse: “O defeito está em você”. Fez o exame e descobriu que meu útero era muito fundo e ele era praticamente estéril. Não sei como ele arranjava tanta rapariga na rua. Acho que era só fazendo com os olhos. E ela disse: “A única maneira é a gente fazer uma inseminação”. Ele disse: “É, mas o filho não vai ser meu”. Ela disse: “Vai. Olha, Vanísia, para que ele não tenha, vamos fazer assim: você vai trazer ele, vai botar atrás daquela porta, vamos colher, vamos misturar. Dele não vai sair quase nada, mas pra ele, que está botando pra fora, vai ser”. Só que na realidade, na realidade, não era. E por sorte minha e obra do destino meus meninos saíram com o meu sangue, B positivo. Não saíram com nada dele. Então eu poderia ir na justiça, argumentar que segundo ela a minha genética era mais forte do que a dele. E aí a doutora fez com que ele assinasse um documento, que mesmo ele tendo relações, os meninos seriam dele. Entre aspas, a cor dele, os olhos é dele, só o mais velho que parece comigo. São tudo branquinho dos olhos azuis. Branquinho, dos olhinhos verdes. O mais novo é ruivo e o mais velho é da minha cor, mas um moreno muito diferente, muito índio ele. E como ele não tinha relação comum ele começou a brigar comigo. Começou a ter relação, creio eu, com homens, com mulheres, com prostitutas na rua. Porque a maneira que ele queria, de tudo quanto era canto eu achei estranho. Um belo dia ele ia pra Petrobras, chegou em casa cheio de __. Eu soube que um colega dele viajou, teve relação com uma prostituta, e estava com AIDS. Eu disse pra ele: “Se eu pegar uma doença, pode ter certeza, eu lhe mato”. Aí ele veio ter relação comigo e veio me agredir. Só que ele não contava que eu, cinco anos eu estava bem treinada, quando ele veio me agredir eu botei os pés na barriga dele, joguei ele na parede e dei um ___. Já ouviu falar no ___? Dois pedacinhos de ferro assim, que é de artes marciais. E eu era muito rápida com o __. Eu disse: “Agora, você vai ver o que é uma nordestina brava”. Minha irmã! Ele era branco, bem branco, ele ficou da cabeça, acho que ele só defendia mesmo a cabeça, mas daqui do ombro até embaixo ele ficou todo marcado de hematomas. Simplesmente no outro dia, quando ele foi pra Petrobras, que ele tirou a roupa, o pessoal perguntava assim: “Ué, o que aconteceu com você?”. Ele falou assim: “Como aconteceu?”. “Isto a minha esposa faz capoeira, só que eu não fazia capoeira, e a gente começou a brigar e ela se defendeu”. Ele diz: “Que nada, rapaz, você apanhou”. E aí, encheram o saco e tudo e ele, pra tirar por menos, ele disse: “Vou me vingar dela”. Chegou pra meu pai e disse que não queria mais andar comigo. Lá se vai. Eu digo: “Pronto, agora ele vai dizer a meu pai o que está acontecendo entre quatro paredes”. Eu falei pra minha mãe primeiro. Ele foi e disse pro meu pai: “Vou deixar a sua filha”. Meu pai, com medo, porque o dinheiro que eu recebia dele eu bancava as coisas na casa da minha mãe, meu pai tinha do bom e do melhor. Não fazia nada, não contribuía nada, mas ele sabia que era daquele dinheiro. Das aulas que eu dava. Ele chegou e disse: “Vou deixar a sua filha porque a sua filha tentou me matar”. Meu pai disse: “Como? Quer dizer que você apanhou daquela magrela? Ela tentou lhe matar sabe por quê? Porque você nunca chegou a ela e fez o que eu fiz com a mãe dela. O dia que você chegar em casa e der uma __ nela, imagina que ela vai fazer isto. O que ele fez? Ele foi pra casa; disse que ia fazer as pazes; chegou e disse: “Agora eu vou lhe pegar e vou lhe dizer que você não vai ter escapatória”. “Por quê?”. Porque o seu pai disse isso, isso, isso. “Então você não vai levar meus filhos pra casa de seu pai. Seu pai não gosta de você. Seu pai não vale nada. Sua mãe não tem poder contra seu pai. Você vai ficar onde? Na rua com os meninos? Eu vou tomar na justiça os meninos de você”. E eu morria de medo dele tomar os meus filhos. Aí eu tive que engolir seco. Engolir seco. Eu disse: “Bom, eu não quero mais o seu dinheiro”. Eu comecei a fazer biscoitinho. Eu chamei o biscoito de batata. E este biscoito ganhou fama, que é uma receita antiga que a gente tem, que é feito com maizena. Ninguém sabe que é feito de batata, mas eu dizia que era de batata. Porque eu gostei de parecer batata. Eu consegui vender fácil. Na escola estava precisando de professora de educação física. Eu não era formada em educação física, mas como já fazia artes marciais e tinha 50 alunos, minhas aulas não era menos de 50, a diretora falou que ia dar uma oportunidade. “Vou botar você pra dar aula de ginástica olímpica aqui na escola. Salto mortal”. Que eu sabia, meu irmão me ensinou. Ganhei a confiança da escola, uma escola chamada Mirtes, que ainda tem aqui em Socorro. Eu comecei a ensinar nesta escola. Com 50 alunos já ensinava na escola inteira, pela confiança que eu tinha entre as mães dos alunos e entre a dona e consequentemente a escola cresceu com estas aulas. Porque os meninos participavam de campeonato e os meninos ganhavam. Rapidinho. Porque além de eu ser a professora eu era meio mãe. Quando eles faziam as coisas erradas a mãe vinha, me dizia e eu: “Se você não se endireitar em casa; não respeitar a sua mãe, não estudar, você não vai participar do campeonato”. Eles como gostavam da professora, eles chamavam de professora moleca, eles se endireitavam em casa. Comecei a ganhar confiança de uma escola, duas escolas, três escolas. Eu já estava com cinco escolas dando aula. Chegava em casa não podia nem respirar de tão cansada. Já dobrava meu corpo todinho, perna, braço. De tanto exercício que eu fazia. 

Ele começou a tomar ódio. Tomar ódio. Tomar ódio. Um belo dia eu fui trabalhar, ele pegou meu menino mais velho, falou pro meu menino que ia botar eu de casa pra fora e ia tomar ele na justiça. E fez com que meu menino pegasse as minhas roupas, todinhas, do guarda-roupa, botasse num saco de lixo preto e botasse na porta da rua. Só que ele não contava que eu vinha pra escola com uma das donas da escola, que nasceu e se criou comigo. Quando cheguei em casa meu menino estava na porta da frente. Eu disse: “Meu filho, o que foi que aconteceu?”. Ele disse: “Mainha, me perdoe, me desculpe, painho mandou botar as roupas da senhora dentro do saco de lixo”. Eu disse: “Foi?”. Ele disse: “Foi”. “Não tem problema, não”. Eu entrei, deixei o saco lá e fui pra dentro de casa. Ainda vivi com este macho mais uns três meses. Quando passaram três meses, que ele estava numa boa, deixei ele ficar numa boa. Ele viajou pro Rio Grande do Sul. Cinco horas da tarde: toc toc toc. Eu disse: “To indo”. Cheguei na porta apareceu uma mulher com uma menina com a idade do meu menino. “Boa tarde”. “Boa tarde”. “É aqui a casa de Ernesto?”. “É”. “Quem é a senhora”. “Sou a empregada dele”. “Eu posso falar com ele?”. “Ele está chegando às cinco horas da tarde, porque ele viajou, mas eu sei quando ele está chegando. Você entre e espere que você fala com ele”. Eu prendi meu menino pra que ela não visse. Eu disse: “Quem é esta menina?”. “Eu trouxe para ele conhecer a filha dele”. Meu mundo caiu [entrevistada canta] “Num buraco por acaso”. Aí eu digo: “Entre”. Aí fui lá, peguei o facão, pus atrás da porta. Esperei o cidadão chegar. Eu nunca tinha recebido ele na porta com um beijo. Neste dia quando ele chegou na porta a porta estava aberta. Ele estranhou. Até então a minha casa era chamada de penitenciária. O muro era maior para os vizinhos não falar comigo; a grade era toda gradeada que era pra criança nenhuma brincar. Minha casa tinha piscina. Que era pra ter todo lazer ali dentro. Pra eu não ter contato nenhum com a rua, nem com ninguém. 

Quando ele chegou às cinco horas da tarde, eu fui atender ele. Eu digo: “Boa tarde, meu amor”. Ele olhou pra um lado, olhou pro outro: “Está acontecendo alguma coisa?”. Eu digo: “Não. Entre”. Quando ele entrou, que ele chegou na sala, a mulher estava sentada. Ele disse: “Que tu está fazendo aqui?”. Ela disse: “Eu vim conversar com você”. Ele disse: “Você não sabe quem foi que lhe atendeu?”. Ela disse: “Não é a sua empregada?”. “Não. É minha esposa”. “Mas como, você casou?”. “Ele disse: “Casei. Por quê?”. Ela disse: “Vim trazer sua filha pra você conhecer”. Da mesma idade do meu menino. Eu saí, olhei pra ele e disse: “Está bonito, né? Você não faz filho, mas você engravidou alguém. Foi numa dessas suas viagenzinhas ___? Vamos fazer assim: filho não tem culpa da safadeza do pai nem da mãe. Mas de certa forma ele tem que contribuir com alguma coisa. está vendo o meu filho? Tem a idade da sua. Você vai dormir? Da onde você é?”. Ela disse que era de uma coisa, do lado de Fortaleza. “Você vai dormir aqui e eu vou pra casa da minha mãe. Amanhã você vai pro médico fazer o teste de DNA, eu vou pagar. Se der positivo, você, meu camarada, vai pagar pensão. Se der negativo, vou lhe mostrar uma coisa, vou-lhe apresentar Chico Preto”. Aí fui lá, peguei Chico Preto, que era uma base de facão deste tamanho. “Está vendo isso aqui? É Chico preto, meu amigo inseparável. Se der negativo vou pegar você, vou cortar em três pedaços: pescoço, barriga e perna. Vou botar dentro de um saco e vou mandar pro seu pai. Só vou poupar sua filha, mas você vai dentro do saco. Se prepare”. Aí entrei. Quando eu entrei, quem dizia que a mulher esperou! Foi embora. Quando foi depois de 15 dias eu fui pra feira, me aparece uma mulher, que mais parecia uma pomba gira do que uma mulher, numa esquina, cantando e dançando, e rodopiando que o meu marido era o amor da vida dela, era o sonho da vida dela e que ela ia destruir meu casamento. Meses depois descobri que esta mulher estava com AIDS. Só que ele já andava saindo com esta mulher. Então falei com a minha sogra que eu ia deixar o filho dela, que eu não estava agüentando mais a situação. Aí eu fiz a quarta inseminação, não, a terceira inseminação, de Eva. E ele contribuiu. Um belo dia ele disse que o bip tocou e ele ia ver a planta da Petrobras. “O bip tocou, vá ver a planta”. Ele saiu. Quando ele chegou uma hora da manhã abri a porta, mas o cheiro dele embriagava a gás. Eu disse: “se eu riscar um fósforo eu lhe explodo, mas estou cansada”. Aí dormi. Só que no último curso dele em São Paulo, ele tinha deixado uma mulher – ele tinha muito sangue pra mulher rica – uma petroleira. Trabalhava com a química. E quando é uma hora da manhã, bate uma pessoa na porta; ele morto de dormindo. Batem na porta uma hora da manhã. “Toc toc”. Um breu na rua. Um pé de pessoa não tinha. “Abre a porta que eu vim buscar o meu macho”. “Minha querida, você tem noção de perigo? De espaço? De hora? Você já olhou pra rua? Você vem pra porta do meu marido uma hora da manhã e acha que eu vou abrir o portão porque você quer seu macho? Espera aí que eu vou lhe apresentar Chico Preto. Vou abrir o portão e você entra, mas vou lhe avisando, se você vai sair eu não sei”. E a nega, bonitona, fortona, bem forte mesmo, um carro! Era um Kadett vermelho novo, na porta, encostou na minha porta. Ela entrou. Quando ela entrou eu fechei o cadeado. Aí eu digo: “Agora você não sai”. Peguei o carro dela, peguei um prego, furei os quatro pneus, passei Chico Preto nos quatro pneus dela. Rasguei o carro todinho de prego, quebrei o vidro, pintei e bordei. Eu digo: “Agora vou abrir o portão e você vai sair. Agora corra. Se você ficar em pé no meio da rua eu vou lhe matar”. Quando eu abri a mulher saiu doida pelo mundo afora. E eu só riscava o facão ali no chão e ela carreira, carreira; e eu riscava o facão e ela carreira. Aí olhava pra trás conseguiu pegar o carro e foi embora. Até hoje não vi mais essa mulher. Aí vim pra casa. Cheguei em casa o camarada dormindo. Eu me sentei na cama com Chico Preto do lado. Ele roncando e eu sentada. Quando ele se acordou seis horas da manhã pra ir trabalhar ele tomou um susto que caiu da cama. “O que você está fazendo aqui?”. “O que eu to fazendo aqui? Vá ver lá na rua”. Já estava a roupa dele e o carro, tudo, pra ele ir embora. “A partir de hoje você não vive mais comigo. Terceira! Falta de vergonha demais. E vir de São Paulo pra cá? A mulher veio pra cá atrás do macho dela? Porque você deu cabimento para isto”. Ele cortou a conversa. Eu fui agüentando. Do meu quarto menino eu tive eclampsia, de tanta raiva. Da terceira menina eu caí com a barriga em cima de um casco de coca cola, mas deu tudo certo. No quarto menino eu já não podia mais ter filho e a médica me avisou que eu podia morrer do menino. Mas eu queria ter um menino porque meu irmão, que ia ser o bruxinho, morreu e ele não tinha uma filha mulher. E eu prometi pra minha mãe que se fosse homem eu botava o nome dele e ia fazer junção, ia ser Jeová. Era a junção de Jeová, dele, com Aliete. Eu disse que ia dar pra ela e ela ia criar como meu irmão. Só que quando eu estava já pra fazer oito meses eu comecei a inflar. Porque eu estava trabalhando demais em cima de uma máquina, e não parava; desesperada porque eu tinha que guardar dinheiro porque se eu morresse eu tinha que deixar alguma coisa pras minhas meninas. Eu comecei a sentir as dores, fui pra médica, inflei. A médica disse: “Você vai __ agora”. Eu digo: “Como, com oito meses?”. “É, vou ser curta e grossa, como você fala. “Se você não morrer seu menino vai morrer”. Eu digo: “Mas meu menino não vai morrer não. Se tiver que escolher entre a minha vida e a dele a senhora leva a minha e deixa a dele”. Ele tinha que assinar um documento. Ele queria ter onze filhos; ele não queria ter quatro. E ele chegou pra médica e disse: “Ela veio com as pernas dela; ela vai com as pernas dos outros. Eu não vou assinar pra ela fazer esta laqueadura”. Eu fui pra maternidade com a médica, passei 15 dias lá, para eles controlarem a minha pressão. Quando chegou na hora de ter o menino a minha pressão subiu. Eu inflei mais ainda do que eu já estava inflada. E a médica tinha certeza que ou um ou outro morreria. Ela escolheu pelo menino. Meu menino nasceu perfeito, bonito, coração perfeito, batendo. Só que para os médicos, com oito meses ele não ia vingar, que ele não tinha oito meses fechado, ele ia morrer. E por azar dela. Eu digo assim, porque eu acho que ela não podia ter feito isto, ela passou no quarto, era plano particular, eu tinha regalia, ela disse: “Vanísia, vim trazer seu filho pra você ver. Oh, Vanísia, como é lindo!”. Meu menino bem ruivinho, muito bonitinho, cabelinho brilhava bem vermelhinho. Chamava ele de laranja vermelha.  Quando ela mostrou eu disse: “Doutora, é meu filho?”. Ela disse: “É, só que você tenha consciência que amanhã, sete horas, ele pode estar morto, porque a gente optou por você e não por ele”. Quando ela disse aquilo ali meu coração trancou. Eu pensei: se não for ele vai ser eu, e se for ele vai ser os dois. E aí eu comecei a me bater, me bater, me bater. Só me lembro que eu vi os médicos dizendo: “A menina está morrendo, está morrendo, está morrendo”. E o choque que eles davam. Até hoje eu tenho as dores do choque. Ela disse que deu três choques e eu não voltei. Mas eu disse pra ela que se caso acontecesse alguma coisa comigo ela nunca chamasse a minha mãe; chamasse o meu irmão, que ele ia assinar a certidão de óbito que o marido não ia. E ela ficava horrorizada com as coisas que eu dizia pra ela e ela chamava ele e ele confirmava na cara dela. A maternidade à casa da minha mãe era como daqui à esquina. E aí ela disse: “Eu vou dizer uma coisa pra você, eu tirei o valor que você pagou, isolei a área de risco e vou lhe dar o dinheiro como presente. Não morra não que eu vou lhe dar um presente”. Porque eu bordei o casamento dela inteiro. Desde os lençóis dela ao vestido, mais minha mãe, foi a última coisa que a minha mãe fez, até os guardanapos da visita. E ela tinha o maior orgulho em saber que ela era a minha ginecologista e minha parteira. E aí eu passei a segunda, a terça-feira foi peregrinação na maternidade. Este interior todinho por onde eu passei o médico diz que nunca viu uma enchente daquela. Era gente pelo corredor, gente na rua, gente que queria me ver. E o médico: “Isto é santo”. Porque eles tinham uma gratidão pela pouca idade que eu tinha pra me ver pela última vez. O médico saiu, porque o pessoal, como não foi pago o anestesista disse que me desligar porque eu não estava respondendo mais, minhas unhas já estavam roxas e ele tinha que me desligar. Ele foi até a casa do dito cujo pra falar com ele. Quando chegou lá ele estava em frente a televisão, com as pernas estendidas num banquinho. E o médico falou com ele. Ele disse: “Eu não vou assinar. O menino quem quiser que vá buscar. E eu não vou assinar. Ela foi com as pernas dela ela volta com as pernas dos outros. E eu não vou porque eu não mandei ela lhe ligar; não mandei ela fazer esta operação”. Meu irmão chegou. Minha mãe ia saindo da cozinha e o médico recuou e chamou o meu irmão, Silvio, e pediu pra ele que ele assinasse. Ele disse: “Doutor, minha irmã é guerreira. Minha irmã tem alguma coisa embaixo do travesseiro dela que vai fazer com que ela volte. Ela não vai deixar os quatro filhos dela pra ninguém criar. Ele voltou e eles tinham me desligado e me colocado no necrotério. Quando chegou lá ele disse: “Cadê a moça que estava aqui?”. “Ela morreu de vez”. Quando ele chegou no necrotério eu estava entre as pessoas e ele pegou e foi se despedir de mim pela primeira vez. Quando ele descobriu eu segurei na mão dele. “E aí, doutor, está pensando que o senhor ia me enterrar?”. O médico se mijou na hora. Ele só chorava. Eu só sentia as gotas quentes das lágrimas dele no meu corpo. Que eu estava parecendo um gelo. Até hoje ainda sinto um gelo nas minhas costas. Tem dias que estou que não agüento respirar. As médicas dizem que ainda é. Porque como eu sou muito magrinha em noite de lua bem forte eu ando assim.

Eu voltei e ele me deu testemunho de vida. Que eu nasci. Os médicos testemunharam que foi um milagre de vida. E eu passei mais de mês passando dores nas unhas. Porque até __ é gelo, para conservar. Porque o sangue coagulou e voltou. A partir daí eu comecei a ver coisas que eu nunca tinha visto. Quando eu estava do outro lado, eu acredito assim, eu comecei a chorar. Eu subia, subia, subia numa cadeira de rodas e eu começava: poxa, eu via tudo lá embaixo, eu via os médicos no maior alvoroço, eu via pessoas no corredor, eu via o alvoroço da minha mãe, que ela queria morrer. Que ela achava que ela que tinha que morrer e não eu, que tinha que criar meus filhos, e eu não conseguia voltar. Foi quando eu cheguei e disse assim: “Pô, Jesus, tudo isso está acontecendo e minha mãe não está do meu lado. Foi quando eu senti. A última vez que meu avô foi embora ele passava tanto as mãos dele no meu corpo que eu não vi ele, mas eu sentia a pele dele como ele me pegou aqui, me levantou: “Vamos, não chegou ainda a sua hora”. E eu creio que naquela hora que ele me levantou foi na hora que eu acordei no necrotério. Depois deste dia mais nunca eu sonhei com meu avô. Que eu creio que ele descansou porque ele me devolveu a vida, porque ele me amava muito. 

Eu fiquei com os pontos pra tirar com 15 dias depois. Fiquei em casa, na minha mãe, minha mãe disse que eu não ia pra casa pra ele não me judiar. Ele disse: “Nega, vá pra casa que eu contratei uma pessoa para limpar a casa”. Só pra limpar a casa, minha irmã. Quando cheguei em casa eu tinha galinha no quintal. Encontrei meu menino na cama. A pirrincha de galinha. Cheguei na cama o menino estava espumando. A casa estava o teto, a cama, cheia de pirrincha de galinha. E quem tinha eu acho que tinha mais de 200 quentinhas. Que ele estava alimentando a cachorra e se alimentando e botava lá. “Vou judiar dela enquanto ela está de resguardo. Vou matar ela de resguardo”. Eu comecei a fazer as coisas e comecei a inflamar os pontos. Fui pra médica pra ver os pontos. Deixei o meu menino com ele e deixei a piscina pra ele limpar. Um metro de fundura por seis metros. Era redondinha. E quando eu saí meu menino engatinhou. Ele dormindo. Meu menino caiu de cabeça na piscina e começou a vomitar. Ele com medo de quando eu chegasse deu iogurte para o menino. Como a pancada foi muito forte na cabeça o menino só vomitava e começou a botar bola de sangue junto com iogurte. E ele dizia que era o iogurte, que era rosa, e não, era o menino. Quando eu cheguei na casa com uma menina minha, minha menina mais velha, a casa estava cheia de gente. Me veja na situação. Quando eu entrei a vizinha já foi me pegando logo, me avisando que ___ levado. “O que foi que aconteceu?”. Ele disse: “Não, o Jan caiu na piscina e não se machucou. O que ele está vomitando é iogurte que eu dei”. “Como? Você deu o quê? Você não sabe que numa queda quando a criança começa a vomitar é o estado mais grave? Por que você não levou o menino no hospital e deu iogurte?”. Falou nada, não. Peguei o menino com todo corpo do menino mole – era bem gordo – botei no colo; esqueci dos pontos e levei. Minha irmã! Fui pro hospital sem saber dos pontos e o médico também não sabia. O pediatra começou a me esculhambar; pintar e bordar. Dizer que eu era responsável. E a vizinha e eu estava sem fala. E ele pensando que eu estava sem fala porque o menino tinha coisa grave. E eu estava com medo do médico. Só que eu estava sem fala porque eu estava com o ponto __, e eu estava entrando em coma de novo. A vizinha disse: “Doutor, ela está com 15 dias de resguardo. Ela teve uma cesariana; ela teve eclampsia e ela está cheia de pontos”. Quando ele falou assim, os pontos abriram. Aí eram dois no hospital. Quando eu voltei pra casa, com 30 dias eu fui pra médica. E eu trouxe o menino pra casa, cuidei e tudo. Mas até então eu não tinha mais nada com ele porque eu criei um bloqueio, um nojo dele mesmo por causa disto. Ele já não prestava como marido. Como pai, pior. O que eu queria com este homem? Mas tinha que viver. Por causa dele que eu ainda não podia criar meus filhos. E aí eu fui pra médica e a médica disse: “Olha, Vanísia, eu gosto muito de você como pessoa, como profissional e vou lhe dizer uma coisa pelo que aconteceu na maternidade. Seu marido não lhe merece”. O marido dela chegou e me disse, que ele disse que eu fosse com as minhas pernas que não voltasse com as pernas dos outros. E mesmo eu estando ali no hospital, em convalescença, ele não me respeitou. Eu fiquei com a batata quente na mão. O que eu faço agora? Eu vim pra casa, tudo, olhava pra cara dele e ele: “Você está me rejeitando, me rejeitando”. Eu disse: um dia a casa cai. Fui pra minha mãe e falei. A minha mãe disse: “Olha, eu já tô na beira da morte. Deixe ele enquanto eu to viva. Pelo menos eu tive o orgulho de dizer que dei alguma coisa pra você. Lhe ajudei a se separar do teu marido”. Ele começou a ter ódio da minha mãe. Aí eu disse: já que minha mãe me disse isso, que é a pessoa que eu respeito. Meu pai que eu tenho tanto medo. Eu vou fazer isto. Eu já conhecia a Cris da igreja e ela tinha uma loja aqui em Socorro. E por coincidência todos os brinquedos do meu menino eram comprados na loja dela e ela sabia a história. Eu cheguei e contei pra ela o que estava acontecendo. Ela disse: “Não tenho muito pra lhe oferecer, não, mas se você quiser morar comigo eu lhe ajudo”. “Como que eu faço?”. “Pega um caminhão, bota as tuas coisas dentro, seus filhos, e vamos embora”. Eu disse: “Eu queria deixar tudo em casa, não queria levar nada, não”. E ele me dizia que o dia que eu fosse além dos filhos ele tomava a casa, tomava tudo. E tudo que ele comprava, o que deixou de herança, ficou no nome de irmão, no nome de mãe. E aí eu fiz. Ele foi pra Petrobras, eu me despedi dele, e tudo. Quando ele saiu eu digo: “Agora eu me vingo”. Peguei meus filhos, minhas malinhas, botei em cima do caminhão, fui embora e Cris me deu guarita na loja dela. 

A minha vida começou a melhorar. Era gente e mais oito. Passamos um perrengue! Casa que encheu d'água, os meninos amanheciam boiando nos colchões. A gente teve que morar na loja. Outra: a gente batizou a casa como muquifo. Que era três por três com um monte de crianças. Mas a vida foi melhorando. A gente foi prosperando. Os meninos estudavam em colégio particular e meu pai disse: “Um dia eu me vingo”. O que aconteceu? Ele foi pra justiça; eu fui pra justiça também que eu queria a separação de corpos. Só que ele tinha dinheiro e eu não tinha. Ele conseguiu comprar o irresponsável do advogado. Quando eu fui conseguir a pensão alimentícia foi com quase cinco anos de separada. Foi quando eu consegui 600 reais. Foi a única vez só. Ele plantou na mídia, praticamente assim, ele ia pras portas das escolas, ele dizia: “Como vocês deixam esta mulher trabalhar com as suas filhas? Ela é homossexual. Ela vai usar as suas filhas. Ela vai aleijar as suas filhas”. Dava o show dele barato na porta das escolas. Um belo dia a dona da escola me chamou e disse: “Como profissional eu lhe respeito. Você é uma pessoa super trabalhadora. Só que escolher entre as mães dos alunos e você, eu escolho os alunos. E o marido dela... 

[Silêncio por 4 minutos]

 

 

P/1 – Vanísia, boa tarde. Vamos dar continuidade ao depoimento. Eu queria, você nos contou que quando você era pequena você viveu com seu avô e você tinha alguns irmãos. Eu queria que você esclarecesse também um pouquinho. O teu pai via em você uma bruxinha e seu irmão um bruxinho. Isto tinha a ver com a tradição da família dele. Como ele sabia quem era o bruxinho? Qual era o papel desse bruxinho? 

 

R – Bom, era assim: minha avó, quando eles chegam na base de 80 anos. Provavelmente, eu nunca ouvi falar que eles pegavam doença. Porque eu nunca vi meu pai doente, com doença que a gente pega. Porque eles mesmos fabricavam o próprio remédio deles. Ele dizia que alguém no meio do mato soava pra ele qual seria o remédio da doença e ele fazia o chá e curava. Tanto que meu pai estava com câncer de próstata e o médico está estudando como ele se curou 95 por cento do câncer. Eles estão estudando a erva que ele está usando. Como é feito? Minha avó, com 80 anos, ela queimou seu corpo. Meu pai chegou em casa e ela tinha feito uma fogueira da casa e estas cinzas foram guardadas. Quando a minha mãe engravidou, da primeira vez foi um menino, foram sete irmãos homens. E tinha que ter uma menina. No caso seria Iansã ou Oxossi. Teria que ter uma menina que era pra ter a continuidade. A minha irmã branca a minha mãe deu pra minha avó e eu, a negrinha, que seria a continuidade deles. E provavelmente eu acho que desde o berço ele sabia que seria eu porque eu era diferente. Eu tinha canção da __ dele. Eu sonhava os mesmos sonhos que a minha avó tinha. As premonições. Eu domesticava bichos, eu conversava com os bichos no meio do mato. Cobra, eu encantava. E ninguém nunca explicava o porquê. E com o passar do tempo ele me observando ele percebeu que seria eu. Porque minha irmã era diferente. Minha irmã era branquinha. Minha irmã foi criada em meio ouro, em meio glamour. E eu, não. Eu era diferente. Como dizem os meus artesãos do mato eu era uma caiçara legítima. Eu fui criada, quando eu ia pro interior, me soltavam eu ia pra roda dos ciganos. Lá em Laranjeiras tem um cemitério indígena, nosso, que tinha meio mundo de passarinhos coloridos. E eu imitava os cantos. Eu chamava sagui. E todo mundo ficava falando: como esta menina faz isto? Foi aí que ele deduziu que eu seria a bruxinha porque eu tinha o canto dos pássaros, como ele fala; eu tinha raio dos ciganos. Minha mãe dizia que era tudo que não presta. Mas aí foi que antes de fazer sete anos ele foi jogar os búzios e lá, quando a filha de santo dele jogou, descobriu que era eu e meu irmão. Minha mãe dizia: “É, você tomou nos “óio”!. Porque um morreu pastor e a outra você não conseguiu crivar”. Porque aí no caso, com sete anos de idade, eu ia ter que raspar a minha cabeça, me colocar num quarto, crivar o meu braço pra colocar os guias. Só que na hora dele fazer isto ele deu tudo errado. Porque os guias dele não __ eu e meu irmão ele não tinha como. O que aconteceu? Um belo dia, quando ele soube disto, chegou em casa para fazer o que ele queria; já que ele não podia de um lado ele ia me matar. O satanás dele, ele estava no meio da rua, ali no __ Aracaju, tinha uma caçamba parada, e segundo a minha mãe, levantou ele e jogou. Eu me lembro bem que meu pai quando chegou em casa todo esbagaçado, todo estilhaçado. Como se um carro tivesse passado por cima dele. Começou a acontecer coisas ruins com ele. Ele tomou uma cachaça, foi circuncidar. Umas filhas de santo, quando ele saía de lá ele tomou cachaça, deitou numa ladeira e a carroça veio e passou por cima. Já era a segunda vez. Outro dia ele foi pegar o demônio dentro de casa para sacrificar os próprios filhos dele e minha tia, com a própria madeira que bateu nele, fez uma cruz, queimou e tirava o demônio dele. Aí ele começou a judiar de minha mãe. Cada filho que minha mãe tinha, fora os sete, teve sete filhos homens, que dizia que um vira lobisomem, e era eu e minha irmã de mulher. Ele chutava porque ele queria matar. O demônio que ele tinha tomava sangue. Era o único dele que tomava sangue de bicho vivo, com vinho. Quando ele tomava isto ele se transformava. Chegava em casa e chutava ela. Um dos meus irmãos, Sérgio, nasceu com epilepsia. Depois desencadeou epilepsia. Uma irmã que a gente teve, Célia, nasceu mongolóide de chute na barriga que ele deu. Ele não conseguiu que a minha mãe botasse pra fora, mas quando ela nasceu, nasceu mongolóide, morreu engasgada com a saliva. O outro meu irmão, que hoje está no Rio de Janeiro, é deficiente mental. Desencadeou pequeno, ele bateu na minha mãe grávida, ele não conseguia, pegou uma pedra e disse: “Se você não botar de um jeito vai botar de outro”. Jogou a pedra, que não pegou na barriga dela, mas acho que deve ter pego em algum lado das costas e ela deu as dores e foi pra maternidade. E tudo isto acontecia e ela não falava com o médico. O médico achava estranho porque ela chegava muito machucada. O médico disse: “Seu filho vai nascer. Se ele não desencadear uma doença mental pequena, quando ele crescer qualquer coisa que impactar ele, ele pode ter uma deficiência mental. Ele foi um bom filho; ele foi um bom pai. Só que quando a minha mãe morreu, eu estava grávida, eu enterrei a minha mãe não tive nada. Pensei que ele também não tinha nada. Só que ele começou a sentir dificuldade e ele era muito calado. Muito calado mesmo. Um belo dia, não sei o que aconteceu na casa dele. A gente sempre fala que foi uma (gaia?) mal equilibrada. Que ele tomou, que ele surtou e hoje ele acha que é deus. Vai ficar magro, porque deus era magro, e ele está rua acima, rua abaixo como deficiente mental. Eu me queixo disso porque minha mãe o tempo todo falava. Eu era a única filha que ela sentava e conversava. Com 13, 14 anos eu comprei, dei de presente a minha irmã uma panela de pressão. Quando eu tinha que voltar – eu prometi a ela que voltava com 13 anos, não voltei. Voltei com 14 – e um belo dia eu já estava cansada de ver ele bater nela e ele disse: “Olha, você vai ficar em casa. Mas se pai vier, você pega a panela de pressão; traz ele pra escada; e dá só uma panelada. Ele vai desmaiar e aí acaba”. Eu fui trabalhar e deixei a minha irmã em casa. Quando cheguei em casa, minha mãe estava deitada num andar, que meu quartinho era num andar, e meu pai veio bêbado da rua, procurando a minha mãe. Minha irmã sabia que ele ia espancar ela. E ele pegou uma colher de pilão, que ela moía café, pra matar ela. Ela deitada. E minha irmã viu. Minha irmã ficou agoniada porque eu que era a guerreira dentro de casa e não elas. Porque eles nunca tinha feito nada. Eu não batia nele, mas saía rebocando ele e ele tinha medo da minha força. A primeira coisa que ela viu foi a panela de pressão. Pegou a panela de pressão e deu uma na cabeça dele que ele caiu escada abaixo. Quando ele se acordou, que olhou pra ela, amaldiçoou ela ___. Por isto que ele tinha certeza. E aí eu comecei a participar para entender o que era que eu sentia. Porque eu sonhava com pessoas mortas; eu conversava; eu ia por mato; eu via espírito; eu brincava. Era uma criança diferente. Todos os ciganos gostavam de mim. Eu comecei a participar das rodadas do Xangô. Minha mãe não gostava, não, mas eu ia escondido. Ou ia dentro de uma caixa. Ou escondida debaixo das mesas, do baú. Pra eu entender o que acontecia quando ele vinha do Xangô. Um dia, com a minha inocência, cheguei lá na hora do santo virar meia-noite, que era coisa ruim, eu dormi. Minha irmã! Quando eu me acordei com uma tal de umas risadas! Das mulheres que eu conheci com os cabelos arrumados, os cabelos levantavam todo! Eu fui entender quem era a passagem deles. Que aí eu vi Iansã, Oxossi, Ogum. Fui ver tudo. Aí passou. Neste dia eu fiquei, eles me protegeram. Quando foi da segunda vez foi quando eu vi meu pai sacrificando um bicho. Eu perguntei o porquê daquilo. O bicho vivo não tinha culpa de estar ali. Eles disseram que meu pai era coisa ruim e toda vez que ele sacrificava um bicho, que ele tomava o sangue, era como se ele tomasse o espírito. Acumulasse mais um espírito pra ele. Como ele não me sacrificou. O que eles faziam? Eles não tinham poder. Toda vez que eu entrava no Xangô eu baixava. Os santos dele não tinham poder. Nenhum deles. Porque eles diziam que ali tinha um santo menino, que era virgem. E ele não sabia que este santo menino que estava ali dentro era eu. Que era um santinho. 

Fui crescendo, fui estudar o catolicismo. Fui protegida por Frei Damião nos Capuchinhos. Estudei um bom tempo com ele, quase três, quatro anos com ele pra entender o catolicismo. Depois eu fui para o espiritismo pra entender porque: eu sonhava com jogo da logo, jogo do bicho. Dizia pro pessoal e o pessoal ganhava 500, mil, dois mil reais. E eu não ganhava. Pessoas escreviam números pra mim, eu passava pras pessoas e as pessoas ganhavam. Aí eu comecei a ficar complicada. Eu trabalhava de segunda a sexta e sábado e domingo eu pedia nas portas comida. Fundei o Lar Espírita que tem na Siqueira Campos, chamado Lar Irmão Febo. Todas as crianças que eu pegava na rua eu colocava naquele espaço que era só de areia. Um dia eu cheguei e disse: “Aqui eu vou fundar um orfanato que vai ser diferente. Vai ser uma menina que vai tomar conta e vai ter uma mãe menina. Mas algum dia alguém vai adotar todos estes meninos e eles vão se formar pra ajudar o orfanato”. Eu passei quase dez anos da minha vida neste orfanato. Quando saí já mobilizava quase uma cidade inteira, porque eu já tinha Kombi. As pessoas que me davam não davam só um quilo de arroz; me davam a minha passagem; me davam a gasolina. Ajudavam com que formasse os meninos. E ao lado se formou o Lar Irmão Febo, que é o centro espírita. Ficou melhor ainda. Do outro lado tem o centro pediátrico, que tem no Siqueira, que era do Lar Irmão Febo também. Aí foi se aglomerando, ali no Siqueira Campos, estas entidades. Só que pela noite eu via pessoas me levantar, um senhor de branco me chamava e me levava, o meu espírito, até os hospitais. Eu ficava calada, minha mãe me entendia, meus tios me entendiam. Mas se eu falasse pra alguém ia me chamar de doido. E Frei Damião me entendia. Ele sabia que eu era uma criança especial. Que eu nasci com um dom, não pra ser rica, mas pra ajudar as pessoas. Ele disse: “Não se preocupe, um dia, quando Deus lhe levar, você vai estar cumprindo aqui a sua missão”. Só que eu me sentia muito mal. Eu ajudava esta pessoal todinho, só que chegava em casa e era como se me dessem uma porrada e eu não sabia me explicar. Quando eu me casei isto foi me complicando. Foi me complicando porque o cidadão me chamava de demônio. Eu acordava de noite e via coisas que iam acontecer até com ele mesmo. Se ele me rogasse praga era pior pra ele. 

Teve um acontecimento com a minha menina após a morte do meu irmão. Minha menina era muito apegada ao meu irmão e ela não viu meu irmão morrer. Que ela chamava de painho. Um dia eu cheguei em casa; eu enterrei meu irmão; eu estava com oito meses grávida de Jeová, e eu cheguei em casa, estava a minha menina em pé, uma cadeira de balanço em frente, minha menina fora de si e a cadeira de balanço balançando. Quando eu tentei me aproximar dela tinha um fio bem assim, que era um ferro que eu tinha ligado, pra passar ferro. Quando eu tentei me aproximar dela ele se transformou numa corrente de fogo e começou a pegar fogo. Eu comecei a gritar, gritar, gritar. E eu vi que aquilo ali era como se fosse uma cobra que quisesse proteger ela. Pra eu não me encostar nela. Que na verdade não era cobra, não era ninguém, era meu irmão que, provavelmente, tinha morrido e não tinha visto a filha dele e não podia encostar mais nela. Foi aí que eu consegui pegar uma toalha molhada; joguei em cima; peguei ela e saí. Esta menina começou a queimar 40 graus de febre. Eu entrei no médico era meio-dia, quando eu voltei, três horas da tarde o médico disse: “Mãe, uma cirurgia, a senhora acredita em Deus?”. Eu disse: “Acima de qualquer coisa na minha vida eu tenho Deus comigo”. “Pois acredite que o que a sua filha tem não é natural. está aqui, ó, sua filha já tomou ene injeções de doses fortíssimas que podiam matar a menina. Tomou dois anos de piscina com álcool, e a sua filha não melhora. Ela é branca e está vermelha. Não tem nem como ela entrar em coma porque ela não está nela. Olhe pra mim. A menina não está nela”. E eu disse: “E agora, o que vou fazer?”. “Pegue sua filha e leve pra casa porque sua filha não tem nada, só que ela está em transe”. Eu me lembrei do que tinham me dito tempos atrás e peguei a menina, botei no colo. Marido em casa, eu sozinha. Me encostou; eu peguei um táxi. Aí comecei a falar pro taxista o que tinha acontecido. Ele disse: “Mãe, você acredita em Deus?”. “Acima de qualquer coisa na minha vida”. “Tem um centro espírita chamado Alan Kardec, que é de Bezerra de Menezes, lá no Salgado filho. Eu sei que a sua religião vai de encontro a isto, mas quem sabe a senhora não pode salvar sua filha. E hoje é o dia deles receberem crianças”. Digo: “”Ixe”! Minha mãe e meu marido não vão gostar desta história”. Ele disse: “Mas vamos, senão a senhora vai perder a sua filha”. A gente pegou e foi até este lugar. Quando eu cheguei lá, a menina foi morta, nos meus braços, e ele viu, quando chegou lá, que ele abriu a porta do carro a menina se levantou e saiu caminhando, rindo, brincando, como se tivesse alguém a guiando até dentro. E o homem ficou com tanto medo quando ele viu aquilo que ele disse: “Minha senhora, me desculpe, eu acho que eu trouxe um demônio dentro do carro. A senhora nem precisa pagar pelo que estou vendo”. Eu digo: “Mas você não me trouxe até aqui?”. Ele disse: “Precisa pagar, não. Faz de conta que estou fazendo uma boa ação pra senhora”. Eu digo: “Obrigada”. Fui embora. O homem chegou na frente e ficou observando, porque ele não acreditava que ele estava vendo a menina. Era como se alguém tivesse pegando na mão dela e guiando ela até o espaço. Só que antes de eu levar ela, um dia antes, eu tinha visto uma pessoa, eu sonhei e tinha visto minha filha deitada numa cama e um senhor barbudo. Eu até desenho ele se me der um papel. Um senhor barbudo sentado do lado dela. E este homem conversava com ela o tempo todo. Antes de acontecer o que aconteceu com ela. Quando eu cheguei lá a primeira coisa que eu vi foi o quadro do homem na parede. A minha menina entrou. A mulher pegou a mão dela; botou ela numa sala que tinha um vidro. Começou a conversar com ela e pediu que eu ficasse sentada. Não, minto. Ela ficou sentada e eu entrei. Eu disse: “Moça”. Ela olhava pro quadro e conversava como se o homem estivesse ao lado dela. E eu olhava pra um lado, olhava pro outro: “Será que estou ficando louca?”. E a mulher começou a conversar comigo. Me trouxe um copo d´água e eu disse que não queria. Eu disse pra ela o que tinha acontecido e perguntei quem era aquele cidadão. “Ele foi um médico que morreu há não sei quantos anos, deixou uma herança e ele foi um dos fundadores”, não sei o que, não sei o que, não sei o que. “Como eu vou explicar isto se ninguém vai acreditar?”. Ela disse: “Vamos fazer a regressão da sua vida pra eu tentar lhe ajudar. Estou vendo que você está sendo prejudicada. Você está sendo protegida por várias entidades e você não quer seguir nenhuma. Você quer entender. Só que a partir de hoje você vai virar as costas, e a que você escolher você vai ter pra vida inteira. Se você virar as costas, tem uma passagem da Bíblia, você vai virar pedra. Você vai acabar de vez com a sua vida”. Eu digo: “Está certo”. Ela fez uma passagem que eu era uma princesa rica, negra. Que eu fui muito judiada. Eram as dores que eu tenho no corpo. Eu fui uma cigana que não era brasileira. Mas era uma cigana muito famosa. Eu fui, na igreja católica, eu tinha a imposição de mãos. Foi passando, foi passando, foi passando e minha menina lá. Sei que quando eu saí da sala minha menina saiu como se nada tivesse acontecido. E até hoje minha menina está perfeita, normal. Não sonha mais com o tio. O tio dela desencarnou e acabou. 

Aí eu vim pra casa e o bonito do meu marido começou a se transformar, se transformar, se transformar. E eu já separada dele, já, mas estava com a menina, estava na casa da minha mãe. Só que eu estava próximo a meu pai, isso me prejudicava muito. Eu estava conversando com uma colega na escola que não acreditava no que estava acontecendo comigo. Porque isto não era pra estar acontecendo; e estava acontecendo. E aí ela disse: “Vanísia, tem uma igreja ali que vai ter uma passagem pro vale do sal. Você quer ir?”. Eu digo: “Só que tem um problema. Eu tenho uma entidade comigo que por mais que eu queira negar, mas eu vou morrer, porque é meu sangue, se passar a mão na minha cabeça vai sair coisa que neguinho vai correr da igreja”. Ela disse: “Mas eu tenho como você bloquear isto”. E me ensinou. E eles também já tinham me falado como que fazia. Digo: “Então eu vou”. E neste dia eu fui, quando eu cheguei lá eu consegui passar por uma, por duas, por três. Na quarta vez tinha um pastor que ele era o bom. Ele era o tal. Lá se foi pra igreja, uma igreja que tem aqui chamada Batista Brasileira. Eu fui pra igreja. Já não sonhava mais com os mortos. Não tinha mais aquela visão que eu tinha antes. Mas neste dia eu senti de Deus indo para igreja. E nesta hora, quando ele foi pra igreja a esposa dele em casa estava se arrumando pra ir a outra igreja pregar a palavra. Quando eu cheguei na igreja me sentei no último banco. E este homem começou a falar que ele era isso, aquilo outro. Daqui a pouquinho ele começou em transe, a falar que ali dentro tinha um filho do demônio. Dentro daquela igreja. E que ele ia se manifestar, ele ia pintar e bordar. E quando ele começou a falar eu comecei a ver luzes. Saíam do meu corpo luzes azuis que irradiavam entre três pontos. E um dos pontos caia nele. E eu vi entrar um homem pelo lado esquerdo da igreja; este homem veio até mim e se sentou do meu lado. Quando este homem se sentou ele mandou que eu levantasse a mão. Eu não me lembro se alguém viu isto, mas eu me lembro que eu vi. Não me esqueço disto nunca. E ele pediu que eu levantasse as duas mãos sobre a cabeça dele. E eu me levantei e a pessoa também se levantou e colocou as duas mãos. Quando ele colocou as duas mãos foi como se tivesse uma televisão na frente do rosto dele que passava a história da mulher dele. O que ia acontecer. Ela foi pra igreja, no meio do caminho ela teve uma dor e estava morrendo no hospital e ele não sabia. E ele só querendo exorcizar o demônio ali, e provavelmente ia ser eu. E eu estava com medo que ele tivesse poder de se levantar e apontar. Eu digo: “Se ele apontar eu to ferrada”. E quando terminou eu chamei o genro dele. “Pastor, posso falar com o senhor?”. Ele disse: “Pode”. “O senhor promete que não vai me condenar?”. Ele disse: “Não. O que está acontecendo?”. “Eu tenho um dom dado, creio eu, que por Deus, vindo da raiz da minha família, que eu vejo coisas. Eu vejo o que vai acontecer. O senhor pode dizer que é o demônio, mas se não correr daqui agora o senhor não vai encontrar a sua sogra viva”. Ele olhou pra mim e eu digo: “Enquanto seu sogro estava lá querendo exorcizar um demônio dentro da igreja, Deus me revelou que a sua sogra tinha caído no meio da caminho e que ela está no hospital agora, entre a vida e a morte. O senhor pode me condenar pro resto da vida. Mas ela está indo satisfeita porque o arrebatamento pra ela chegou e ela está morrendo feliz porque é Deus que está levando ela”. Ele olhou pra mim assim e falou: “__”. “O senhor quer provar se é verdade, ligue pra sua esposa”. Ele procurou a esposa dele na igreja e não tava. estava no hospital. Ele correu pro hospital e quando chegou no hospital realmente a sogra dele estava no hospital no leito da morte. Pergunta pra ele como foi que ele soube. Ele nunca disse pra ninguém. Só que a partir deste dia em diante o pessoal da igreja começou a se rebelar contra mim. Me tirar do louvor. Começaram a dar nomes aos burros. Eu me retraí, me retraí, me retraí e saí da igreja. Continuo orando. Continuo fazendo as boas ações, mas eu sinto que meu Deus é único. Tem uma passagem que fala: “onde está uma ou duas pessoas, que ali fale no nome do senhor Jesus Cristo, ali eu me faço presente”. Então eu creio que Deus me deu o dom, como a minha aluna ex-prostituta fala, ela diz: “Professora, a cada sentada na mesa da senhora é um flash. Quem se arriscar a sentar na frente da senhora ou na mesa da senhora, este vai ser salvo onde ele estiver”. Porque até então, eu fiz a prova com dez prostitutas, e hoje ela bate no peito e diz: “Eu hoje sou uma mulher de verdade. Tenho uma profissão. Bato no peito e digo que sou uma artesã. E meus filhos têm orgulho de dizer que a comida que comem não é da prostituição e sim do trabalho e do suor da minha mãe”. Então eu digo: o dom que Deus me deu foi pra que eu chegue pra essas pessoas, não pregue a palavra, mas cante uma bela canção. Ensine alguma coisa. Porque o dom que eu tenho não foi de uma universidade, foi da rua. E ali modifique pessoas. Então eu digo pra você: “Eu jamais vou me arrepender se alguma coisa der errado, porque eu sei que vai fazer sempre parte da minha vida. Altos e baixos vai sempre existir. A prova é o que aconteceu com meu casamento. O homem pintou e bordou. Fez meus filhos ficarem contra mim, que é minha maior riqueza. Foi pra justiça no dia da morte da minha mãe ele arrumou uma audiência. Nesta audiência, meu pai nunca tinha dado um beijo na minha testa, saí do cemitério. Tinha acabado de enterrar a minha mãe depois de 90 dias de hospital e aí Cris me levou e disse: “Vanísia, você tem que sair daqui e tem que ir pro fórum porque vai ter uma audiência. Eu digo: “Hoje?”. “Hoje”. Quando cheguei lá encontro meu pai sentado, que tinha vindo do cemitério, digo: “Benção, pai”. “Deus abençoe”. E me deu um beijo. Quando ele me deu o beijo eu senti algo muito ruim, mas muitas das vezes eu não acredito no potencial que eu tenho e por isso que muitas vezes eu sofro. Quando entrou na sala de audiência a juíza perguntou: “Cadê seu advogado?”. Eu digo: “Está aqui do lado, a senhora não está vendo?”. Ela disse: “Quem é?”. Eu disse: “Deus. Quando eu saí de onde eu saí ele disse “Vá que eu lhe acompanho””. A juíza olhou assim... Aí entrou uma colega minha e disse: “Eu estava aqui na audiência, mas eu vou ser o advogado dela”. E ela perguntou: “Cadê a sua testemunha?”. Eu digo: “Não tenho nenhuma”. Aí ela falou: “Mas ela acabou de sair do cemitério agora”. “Mas como?”. “A mãe dela morreu”. E aí entra o abençoado. A testemunha dele era meu pai. A juíza começou a falar: “Vanísia, olhe, pai fica com filho e fica sem filho. Mãe fica com filho e fica sem filho. Sabendo você quem é; que você passou seis anos aqui e fez até uma colcha chamada “As flores de fuxico do fórum”. Todo dia eu levava, eu ia pro fórum pra pensão; pra me divorciar, e levava um saquinho com um pedaço de pano. E aí a juíza achava interessante que toda vez que ela passava para uma audiência estava eu lá fazendo fuxico. E fazia um quadro. E ali eu começava a escutar as histórias das mulheres que estavam ali por pensão alimentícia. Trinta reais, dez reais, cinco reais; quando era marido que sobrevivia de caranguejo é cinco reais a pensão. E ali eu começava a contar a história dos fuxicos pra ela e tentava trazer estas mulheres aqui pra associação. E estas mulheres começavam a ser associadas. Um dia, quando eu terminei uma colcha de quase dois metros, a juíza falou bem assim: “Vanísia, qual o nome você vai dar pra esta colcha?”. Eu disse: “As flores do fórum”. E foi batizada como As flores do fórum e ela mesma comprou esta colcha. 

Ela disse: “Pelo que você fazia no corredor, o que vai acontecer hoje aqui vai dar a oportunidade de você se formar. Vai depender de você. Agora, seu pai pode lhe ajudar”. Só comigo! Eu disse: “Meu pai, afinal de contas o que o senhor está fazendo aqui no meio mesmo?”. Ele ficou calado, não disse nada. O dito cujo do marido riu. Quando ele riu eu vi o demônio nos dentes dele. Eu digo: “É verdade”. Ela disse: “É. Sua mãe faleceu. Você não tem com quem deixar as crianças. Você trabalha muito viajando. Mas seu pai pode lhe ajudar a sustentar teus filhos junto com você até que você possa ter uma sustentabilidade”. Ele disse: “É, minha filha sempre foi uma boa filha, sempre foi uma boa mãe. Mas se é de eu ter que permitir que os netos fiquem com ela ou com o pai, eu prefiro que fiquem com ele. Porque minha filha sai de manhã; chega de noite. Às vezes chega no outro dia. Como a mulher muitas das vezes ela participa de eventos que tem trio elétrico, ela chega no outro dia os meninos vão ficar com quem?”. Na verdade não é nem banda. É ação global. É só criança. A juíza olhou pra ele e disse assim: “Como? O senhor podendo ajudar a sua filha vai ajudar seu genro?”. Ele disse: “Não, eu prefiro que os meninos fiquem com ele”. Eu olhei pra ele e disse: “Hoje eu só tenho a agradecer ao senhor. Mais uma vez o senhor me provou que é meu pai”. Saí e o homem começou a rir. “Não se preocupe, não, você pode ter a visita e daqui a um ano você pode pegar os teus filhos. Você pode pegar seus filhos”. Eu disse: “Doutora, isto vai por escrito?”. Ela disse: “Vai”. 

Isto aí foi na segunda feira. Quando foi na sexta-feira eu crente fui pegar meus filhos. Cheguei lá, ele pegou minha menina, botou de frente, de escudo e disse: “Você veio fazer o que aqui?”. “Vim buscar meus filhos”. Ele disse: “Você não tem filho. Você não tem casa. Você mora embaixo de uma ponte. Como você vai levar os seus filhos que nem seu é mesmo? Prove que estes filhos são teus. Seus filhos não têm nem sua cor. Você vai comer o quê?”. Meus filhos tudo vendo aquilo. Fui na delegacia; levei o documento da juíza. Ele tinha um colega que era policial; me tratou como uma prostituta. Mas pior que uma prostituta. E meu mundo desabou. Eu estava com 35 quilos. Eu só chorava. Eu não contava pra ninguém. Eu só chorava. Nisto eu perdi o meu emprego da prefeitura. Eu fazia parte de um partido jovem; perdi este partido. Eu passei a comer que Cris me desse. Passei a viver como molambo. Tive que sair da Federação Brasileira de Karatê como professora, para meu filho não ser expulso. Passou-se dois meses eu consegui com um juiz chamado Fausto que ele escutasse a minha história. E ele sabia de campeonato, quem eu era. Ele chegou e disse assim: “Se preocupe, não, eu vou fazer no conselho tutelar que seus meninos possam lhe ouvir. Os seus meninos vão ter que ouvir. E aí passado este tempo um dia eu passei por ele numa esquina, aqui do João Alves, e eu vi que ele não estava nele. Aí eu cheguei em casa e disse: “Cris, eu vi Ernesto no ponto de ônibus, mas algo vai acontecer com ele”. Ela disse: “O quê? Repreenda”. Eu disse: “Algo muito ruim vai acontecer com ele”. Meu menino foi pro campeonato. estava eu e meu menino. Malu também estava no campeonato que a gente ia; um brasileiro. Ia pro nordeste, pra depois ir pro brasileiro. Meu menino treinou comigo, tudo, alegre, satisfeito. Até então a gente era separado, mas eu via meus meninos. Era amiga da escola. Tinha as minhas meninas comigo. Ia comprar as coisas pra elas. Ele morreu de ataque cardíaco fulminante, dentro de casa. Ninguém teve como dar ajuda porque diz que ele teve uma crise, teve duas e quando botaram ele no carro ele já estava morto. Meu menino se despediu de mim e disse: “Mainha, me deu tanta saudades da senhora”. Eu disse: “”Vixe”, gente, que coisa ruim. A gente não está se despedindo, não. Você só vai pra seu pai”. “Mainha, deixa eu ir com a senhora?”. “Meu filho, seu pai está precisando de você”. Ele se despediu de mim e foi pra casa. Quando ele chegou em casa encontrou o pai morto. “O que foi que aconteceu?”. “Sua mãe matou o seu pai”. “Como se ela tinha acabado de sair comigo? A minha mãe matou meu pai?”. “Foi. Sua mãe teve uma briga dentro da escola Jorge Amado, que fica em frente a casa e aí ele teve uma contrariedade muito grande e ele morreu”. E foi passando para os três. “Minha mãe matou meu pai”. “Minha mãe matou meu pai”. “Minha mãe matou meu pai”. Enterraram e eu estava no meio da rua. Eu saí da academia. O SESC [Serviço Social do Comércio] me convidou, que ia ter uma passeata e eu tinha que ir com os meninos. Se passou cinco dias desta morte. Eu estava em frente ao SESC, que era na João Alves, eu vi uma das irmãs dele, com o nome de gaúcha, passar com a minha menina, branquinha, Eva. Quando ela passou por mim ela não me deu a benção mais. Virou o rosto. Eu disse: “”Vixe”, que coisa ruim. O que está acontecendo?”. A gente passou a festa, tudo, todo mundo virando a cara pra mim. Porque o homem tinha morrido há cinco dias como a mulher estava na rua com um trio elétrico e um monte de crianças? E os meus meninos não participaram. A diretora do SESC chegou e falou: “Vanísia, me faça um favor?”. “Que foi?”. Ela: “Vá até a igreja Odair Menezes, vá ver de que forma está sendo a culminância dos meninos para que a gente possa terminar o nosso projeto”. Eu fui. Quando cheguei lá uma menina de dez anos veio correndo no meio da igreja e me abraçou. “Tia!”. Eu digo: “Oi, meu amor”. Ela disse: “Posso lhe dar um beijo?”. Eu lhe digo: “Um beijo?”. Ela disse: “É”. E me deu um beijo na testa. Quando ela me deu um beijo na testa eu vi no espelho do rosto dela algo errado. Peguei no rostinho dela e disse: “Meu amor, está acontecendo algo errado que a tia não está sabendo?”. “A senhora não está sabendo, tia. Pai de Evinha morreu”. Minha irmã, no meio da igreja eu procurei um buraco pra enfiar o corpo inteiro e não encontrei. E ela disse: “Tia, a senhora não estava sabendo?”. Eu digo: “Não”. As professoras saíram, já começaram a me tratar como piada, porque acharam que eu estava fazendo pouco caso; que como os meninos estariam na mão de outras pessoas há cinco dias; que os meninos estavam precisando de mim e eu fiz de conta que não estava sabendo. Eu desci, fui até o __, que tem assistente social do município e fui pedir ajuda. Contei o que estava acontecendo e elas ficaram horrorizadas. “Vanísia, eu vou até o conselho tutelar com você pra saber o que está acontecendo”. Na descida pro conselho tutelar, quando eu comecei a falar, mais a assistente social, uma pessoa do conselho tutelar, com o nome de Edilene, chegou e falou bem assim: “Ah, você veio atrás dos teus filhos?”. Eu disse: “Foi. Meus filhos estão na mão de pessoas estranhas, que a tia deles quando eles estavam em hospital nunca me ajudou com nada. Por que querem ficar com eles agora?”. Ela disse: “Ah, quer dizer que foi você que matou o marido depois de uma briga dentro da escola Jorge Amado?”. Digo: “Como? Você é louca? Como foi que isto aconteceu?”. Ela começou a falar. Só que eu soube, anos depois, que esta pessoa foi comprada para pregar esta pecinha. Escrever que esta brincadeirinha foi parar em fórum. Esta brincadeirinha passou-se seis anos, meus meninos na mão dos outros. Por quê? Uma pensão de mil e 500; uma casa aqui no João Alves, uma loja, meia, em Carmópolis, uma casa meia, que segundo o pessoal tinha petróleo. Se tem ou não eu não sei, nunca procurei saber. A ficada com os meninos nada mais seria do que os bens que o falecido deixou. O que ela fazia? Como ela sabia que eu fazia artes marciais e ela tinha amigos na delegacia, ela procurava me agredir com palavras. Eu procurei junto ao juiz ir até o conselho tutelar levar os meninos pra que ele tivesse uma conversa comecei a conversar com os quatro numa sala e numa sala separada estavam as abençoadas. Eu comecei: “Jan, vem cá, deixa eu dizer uma coisa pra você. Você se lembra o que aconteceu com meu filho quando era pequeno? Até sete anos de idade o aparelho que você usou? Quantas vezes a tua tia foi lá em casa pra me ajudar com aquele aparelho?”. Ele calado. “Juliete, quantas vezes que você estava com o corpo ensangüentado, cheio de feridas, a sua tia ajudou ao menos tirar ou vestir uma calcinha tua, que era a coisa que mais doía por causa das tuas feridas?”. Ela calada. “Jeová, quantas vezes no hospital a sua avó ou a sua tia por parte de pai, ajudou mainha quando mainha muitas das vezes amanhecia o dia sentada, pra que você não morresse engasgado?”. E ele calado. “Evinha, quantas vezes foram que mainha tinha que levar você pro hospital, você cansando, a sua tia lhe ajudou?”. Ela calada. E quando eu comecei a equilibrar eles, botar eles assim, eu falei: “Jan, você se lembra quando a gente estava treinando que tempo mainha teve pra correr até o colégio e matar seu pai? O que foi que mainha disse pra você quando você disse que estava com muita saudade de mim? Que você fosse pra casa pra cuidar do seu pai, não foi?”. Que tempo eu teria pra correr até lá e fazer isto?”. Nesta hora uma delas entrou e começou a me agredir com palavras, palavrões, botou a mão na minha cara. Quando ela botou a mão na minha cara – eu tinha acabado de treinar – eu me lembrei da ação que tinha em defesa. Eu peguei o dedo dela, virei pras costas pra empurrar. Nisto meu menino veio e deu um ___. Naquele __ se ele pegasse meu pescoço ele me matava na hora. Só que eu era mestre dele. Não era aluna dele. Quando ele deu o ___, foi pelas costas, eu me esquivei e saí. Olhei pra ele e disse: “Filho, só vou dizer uma coisa. Na minha família mãe bota no mundo; quando não pode mata e engole. Se fosse lá fora você não ficava vivo pra contar a história. Com certeza eu lhe matava. Porque você não sabe o que corre no meu sangue. Você nunca se revolte contra sua mãe que você pode pegar uma maldição pro resto da vida. Eu não vou lhe amaldiçoar, vou lhe abençoar, mas um dia...”.  

 

[Fim do Arquivo]

 

R – Depois deste dia eles saíram levados pela família do falecido e daí então a minha vida foi só inferno. Porque eu ia pra justiça, eles tinham dinheiro. Revidava o caso. Eles colocaram no processo que eu não podia ficar com os meninos porque eu era homossexual; porque eu saía de manhã e chegava de noite, atrás de trio elétrico; que eu não tinha casa pra ficar com eles; eu não era formada; eu era só uma professora de artesanato. Aí começou aquele rola, rola e toda vez que ia pra justiça este caso se levantava. Um dia eu mirei e disse: “doutora, eu tenho aqui um depoimento do meu menino quando eu tive eclampsia. A senhora já ouviu falar que uma pessoa com alergia crônica, possa ficar no trio elétrico a noite toda, em meio a fumaça, em meio a maconha, em meio a bebida? A senhora já ouviu falar que uma pessoa que tem reumatismo crônico, que sente dores terríveis nos ossos possa ficar a noite todinha bebendo, fumando, na frieza? Sim, eu sou homossexual, tudo bem, vocês podem até falar isto, mas desde quando o direito de ir e vir me impede, como mãe, não tomar conta de meus filhos? Porque até então, eu tenho alunas que são prostitutas de carteira assinada, de Fortaleza e a juíza me disse que ela só não podia ficar com o filho se caso ela levasse a prostituição pra dentro da casa dela, que aquilo ali fizesse que os meninos fossem explorados. Ao contrário, os filhos dela estudam num dos melhores colégios de Aracaju e ela coloca, quando vai fechar a ficha da escola: “Qual a sua profissão?”. “Faço vida”. Porque na carteira de trabalho dela tem que ela faz vida. Quer dizer, eu não posso? Qual a lei que dá este direito? A lei Maria da Penha diz que o direito de ir e vir. Neguinho não pode ir no meio da rua, segurar meu filho pela mão e me agredir. E eu como professora de artes marciais não posso agredir ela porque cada golpe que eu der eu complico da Federação. Mas eu tenho que escutar aquilo e ficar calada? É justo isto, doutora? Eu vou perder meus filhos pra eles? Eu tenho uma aposentadoria, que eu chego no INSS eu não posso tirar esta aposentadoria porque eu tenho uma pensão de mil e 500, que é ela que está recebendo para criar os filhos dela, e não os meus. Porque segundo o que eu conheço de vida; que eu tenho mais de 2000 filhos no mundo, e eu provo isso, que nada não, a mãe tem quatro filhos adotivos, os meus foram criados com partes iguais. Foi com outra mãe porque eles quiseram. Mas são meus filhos. Não vão deixar de ser meus filhos. Eu criei. Mas ela, sabendo ela quem é, que a mãe renegou ela com 13 anos de idade porque ela se perdeu. O pai dela morreu sem falar com ela porque ela é branca e o marido preto e vagabundo, como ele mesmo dizia. Ela só ia na minha casa porque eu ajudava a criar o filho dela. O senhor acha que ela vai pegar este dinheiro e em vez de comprar o melhor pro filho dela ela vai comprar pro meu? Se não tem nem o pai nem a mãe pra ver isto? Então eu digo pro senhor, se caso alguma coisa der errado com um dos meus filhos o senhor pode ter certeza, eu sou uma mãe violenta. E ela pode correr o risco de ter alguma coisa ruim com ela. Eu quero que vocês me resguardem isto. Já que meus filhos vão ficar com eles pra vida inteira. 

Passou-se, um belo dia eu to dando aula, eu estava com 300 alunos no SESC. Ela chegou em baixo – eu tinha dado uma aula de chocolate no jardim – e tinha uma menina que veio de Alagoas que elas estavam criando. Eu achava estranho que não se explicava de quem foi que foi tirada esta menina, mas a menina parecia com eles, era branca, tinha olhos azuis, e parecia com a minha menina. Eu achei estranho que aquela menina poderia ser filha de um relacionamento com alguém na família e eles tomaram a menina a força. E a menina ficou muito apegada a mim. Eu tinha costume de beijar sempre na testa dela e esta menina me tinha como mãe dela. Eu comecei a comentar sobre esta menina. Eu acho que esta menina quando chegava em casa falava das coisas que ela levava. “Quem foi que deu isto?”. “Titia Vanísia”. Um belo dia a mulher __; foi pra porta do espaço e falou pra professora que como tinha uma professora daquela, homossexual, que era isto, aquilo outro. estava lidando com aqueles meninos; podia agredir o menino. Que não tomava conta dos filhos; deixava os filhos a toa. E ela falou tanto que conseguiu através das câmeras chegar até a assistente social chefe. A assistente social viu que ela poderia me complicar e me chamou e disse o que estava acontecendo. Mas não me disse me tirando pra fora. Me disse como era. Pedi perdão a ela, desculpa; que aquilo não ia acontecer mais; que eu ia tomar a minha providencia. E a professora veio e disse, irada, porque ela gosta muito de mim pelo meu trabalho, eu sou muito amigueira, lá. Aí fui até a delegacia, prestei uma queixa. Queria que aquela queixa fosse até o fórum, porque eu ia dar um basta nisto. Rolou, esta queixa não chegou no fórum, por amizade no meio do caminho. E uma pessoa que trabalhava no conselho tutelar me disse que a pessoa que trabalhava na delegacia no meio do caminho pegou o envelope e segurou. Só que dias depois, um negrão que tinha, bem forte, por eu ser negra ele tomou as dores e chamou a responsabilidade dentro da delegacia. E conseguiu que eles viessem, só que mais uma vez ela trouxe meu menino mais velho, que já estava maiorzinho, já estava com 16 anos. O primeiro acontecimento ele tinha dez anos. Na conversa que o delegado começou a falar com ela; ele chegou e falou bem assim: “Qual o seu nome?”. Ela disse: “Gaúcha”. “Gaúcha, por quê? Você nasceu no Rio Grande do Sul?”. “Não, porque eu sou muito branquinha, tenho os olhos azuis. Minha mãe achava que eu parecia com uma gaúcha e botou meu nome de gaúcha”. “Sim. Que história é essa de você ter ido até o espaço que a sua cunhada trabalha há muitos anos e você falar isto, isto e isto?”. Ela não prova. Ficou calada. Ele disse: “Você sabia que você pode ser punida?”. Ela disse: “Ela é muito mentirosa”. Aí começou. Eu disse: “Abaixe seu tom de voz. Porque se você chega na justiça e levanta a sua voz, no mínimo você fica presa”. Ela: “Duvido”. Quando ela disse duvido ela sabia que tinha algo errado. Ela disse assim: “Por que você trouxe uma criança de 16 anos pra delegacia?”. “É, mas ele já responde”. “Já responde pelo quê? Ele é de menor, só tem 16 anos. Você está usando o menino a seu favor”. Aí disse: “Sente você ali. Traga o menino”. Aí ele falou assim: “Qual o seu nome?”. Ele: “Jan”. “Jan significa o quê? De João? Qual o seu nome?”. Ele disse: “Ernest”. “Por que você chama de Jan?”. “Não, é porque a minha mãe, quando era pequeno o meu nome era pra ser Jan e na hora de registrar meu pai botou Ernest porque era o nome dele. Pelo que meu pai andou fazendo eu prefiro Jan do que Ernest que é o nome dele”. Na verdade o menino está criando vergonha do nome que tem. “Jan, você é o quê? carateca?”. Ele disse: “Sou. Campeão Norte e Nordeste de karatê”. “Legal, seu irmão é o quê?”. Ele disse: “É campeão brasileiro de Jiu Jitsu”. “Sim, muitas das vezes os filhos requer este esporte do pai. No seu caso quem é?”. Ele disse: “Não é o meu pai. É minha mãe”. “Sua mãe. Com este corpo?”. “A minha mãe é campeã brasileira de pesos leves e rápido”. Ele disse: “Ah, ta. E por que foi que você veio mesmo com a sua tia? Você tem raiva da tua mãe?”. Ele disse: “Não, eu amo a minha mãe, mas eu fiz aquilo com a minha mãe pra defender a minha tia”. “Defender a sua tia de que se tua tia agrediu sua mãe?”. Ele se recolheu e eu vi que os olhos deles estavam ficando vermelhos. Ela disse: “Jan, saia, fique lá fora”. Aí ele disse: “Não é você que manda. Eu que mando. Pode sentar, Jan. Obrigado pelo seu depoimento”. Ele: “Não, tudo bem”. Se sentou e a outra começou a falar. Ele chegou pra mim e falou assim: “Vanísia, seu nome, né?”. Eu disse: “É”. “E aí, Vanísia, o que você quer?”. “Olhe, doutor, eu faço artes marciais e estou por aqui deste povo. Se meus meninos quiseram ficar com eles, problema deles. Mas até então eu não cheguei na justiça pra uma juíza chegar e dizer bem assim: Hoje este problema seu vai acabar aqui. Sua mãe não matou seu pai. Isto foi uma mentira da sua tia pra ficar com vocês. Segundo a lei, doutor, está aqui o documento, meus filhos nasceram e se criaram na Avenida G, número sete. Foi o que elas colocaram depois que eu tive que provar que ele foi morto; foi enterrado como indigente em Carmópolis; quem enterrou foi ela. E depois que eu fui pra justiça este documento foi aparecer com dois meses depois? Que ele morreu de morte não comprovada. Que ele morava na Avenida G numero 880. não existe este número, porque só tem quatro casas na rua. Avenida G: o meu é sete, nove, doze, catorze. Como tem 880? Ela já podia pegar um processo por bigamia, né? Por mentir. Muito bem. Mais uma mentira: que eu matei o pai. Onde? A diretora diz que vai pra justiça pra provar que isto nunca aconteceu na escola. Ela complicou a cabeça dos meus filhos, meus filhos estão num ponto que eu tenho medo do crescimento deles. Principalmente o mais novo, que é calado? Você já pensou de que forma a cabeça desse menino vai estar? Hoje muita gente mata os outros e a gente não sabe o que é. São os alicerces da vida. Eles continuam ainda com meus filhos. Eu hoje não tenho o prazer de dar a benção a meus filhos. Provavelmente eu vou dar a bênção para os meus netos. Meus filhos continuam com eles”. 

Quando o Instituto Camargo Corrêa chegou aqui eu só chorava. Contava a minha história e chorava, chorava, chorava. E nunca consegui uma ajuda para que esta história fosse adiante. Porque eu sei que eu não vou trazer mais meus filhos de volta. Talvez até traga, mas eu sei também que outras mães irão passar o semelhante. No dia que elas escutarem esta minha história vão dizer: “Vou ter que me defender. Aquele menina passou por aquilo e hoje ela é vitoriosa”. Entre aspas. Eu sempre digo que meu coração tem quatro partes. E uma delas é oca. Que é o lado dos meus filhos. Eu fui pra justiça há quatro meses atrás. Eles me chamaram pra falar de que forma os meninos estavam. Meus meninos chegaram bem vestidos, bem limpos, bem arrumados. E eu tinha vindo de ___. E elas, quando olhavam pra minha cara começavam a rir. Eu ficava olhando assim. Será que ninguém está vendo isto? Será que eu vou ter que passar por isto até quando? Meus filhos estão crescendo. Meu menino quando o falecido morreu estava com 15 anos, hoje está com 19. Meu mais novo está com 15, ainda precisa de mãe. Minha mais nova está com 14, ainda precisa de mãe. Mas eles estão com os meus meninos a ponto de eu ver o meu menino, eu poder empregar ele numa Petrobras da vida, vê o meu menino fritando pastel na feira. E ele me vê e fica com vergonha. Porque ele sabe a mãe que ele tem. A ponto dela dizer que ela não ia criar vagabundo – já gastou o dinheiro todo. Já começou aquela história que o filho dela não é vagabundo, mas os meus são. E foi quando me deu, através das histórias do fórum, e através da minha história, de eu dar continuidade e fortalecer a Casa do Artesão. Que hoje pra gente já é uma glória. Aqueles 83 que a Camargo Correa pretendia estar dentro da casa não tem como. Mas hoje eu tenho mais de dois mil. Cada mulher que está hoje na associação tem uma história. Não sou Maria da Penha, mas cada uma delas tem um nome e uma história pra contar. E cada uma, como ontem você não viu, chegou mais três. Uma que o filho, quando o filho é muito ruim a ponto de matar outro, a gente bota o nome de papa vento. Dela se segurar num pufe 24 horas, porque ela sabe que qualquer hora daquela alguém vai matar o filho dela e ela vai estar com a cabeça no pufe. E não está focada para o que o filho dela está fazendo na rua. A outra, o filho dela foi pra rua, pegar carrego, pegaram ele, bateram, massacraram, para tomar o dinheirinho do carrego dela. E ele está ali no pufe porque ela diz que o filho dela não vai ser mais massacrado, mas ele vai fazer pufe dentro de casa mais ela. “Eu botei meu filho embaixo da asa e ele vai estar nos ajudando”. As outras onze, cada uma história de vida. Então, em cada ponto que eu tiver, cada bolsa que eu fabricar, de certa forma vai ter um preço, vai? Mas o mais importante pra mim é que ela tem uma história envolvida e cada pessoa, cada universidade, cada estabelecimento, cada cidade que ela vá chegar, ali, estas bolsas, estes fardamentos, estão passando por mãos que eu posso bater no peito e dizer: “Eu contei a minha história. De certa forma eu não vou ter meus filhos. Eu posso até ter. Mas de certa forma eu mudei só no depoimento delas me ouvir. Como muitas delas aqui, Daiane é a prova disto, outro dia eu estava conversando com ela e ela disse: “Vou lhe dizer uma coisa. Se hoje me colocassem pra fora eu não sobreviveria mais sem a casa. Porque a família da minha mãe disse na minha cara que não sabe como eu construí uma casa com 350 e elas estão morrendo no aluguel e nunca tiveram uma casa. Ela chegou e disse: “Sabe por quê? Cada pano que eu faço, cada coisa que as meninas trazem pra gente fazer é com amor. Então eu sei que não ganho 350. Ganho três mil e 500”. “Que bom, Daiane. E quando você terminar o seu resguardo você vai voltar pra casa?”. Ela disse: “Eu espero. Vou contar os dias que quando eu disser “Eu to boa”, a minha máquina, o meu espaço esteja ali. Eu não quero mais ganhar 350. Agora quero ganhar mais”. Eu disse: “Que bom, Daiane, é isso aí. É uma história que como dizia seu Jair, como dizia quem passou pela gente, tinha tudo pra dar errado. E eu bato no peito e digo: “Nós somos vitoriosas e hoje demos certo”.

 

P/1 – Eu queria só pegar algumas coisas da questão do projeto. Me fala uma coisa: como você conheceu a Cris? Só pra tente situar.

 

R – A Cris foi assim. Quando eu era casada eu comprava na loja dela. E Cris tem um QI, que ela começa a amizade com você daqui a pouco ela já está sabendo da tua vida toda. Foi quando começou a despencar o meu casamento. Ela ainda estava casada. Despencou o casamento e um belo dia eu conversando com ela; ela disse: “Não tenho muito a oferecer, mas se você quiser mudar de vida, parar de sofrer tanto, você pode morar comigo”. Eu já tinha conhecido a mãe dela. E a mãe dela já tinha me adotado como filha através da igreja. A mãe dela é o tipo pessoa que vai pra igreja – os outros vão orar – e ela na casa dela sempre tem aquele cantinho amigo. Muitas vezes ela não gosta da pessoa, mas ela vai pregando a palavra, vai falando de Deus. E com jeitinho, jeitinho, jeitinho, ela bota embaixo da asa. Quem deixar filho ali que não queira, ela adota. Ela adotou um; adotou dois. Era eu, Lili e Carol, uma menina de ___, que morreu com câncer. Um belo dia ela soube o que tinha acontecido em casa e me convidou. Foi quando eu botei, ela tinha me dado, me garantido que eu não ia ficar na rua com meus meninos. Porque eu sempre trabalhei, mas como eu fui criada no cabresto eu tinha medo de enfrentar a realidade. Mas ela, por ser mais velha e por ter já tido uma empresa, ela sabia o que fazia. Quando ela me convidou, que ele foi trabalhar na Petrobras, eu peguei o caminhão, loquei, botei lá dentro a metade das coisas, botei os meninos e fui embora. Fui morar numa casinha que ela alugou. Depois a gente morou dentro da loja, que era a loja dela. Depois a gente alugou outra casa que a gente chamava de muquifo. Que era a gente e oito crianças. Oito, com a gente eram 10. Foi quando o casamento dela começou a despencar. Ela começou a falar pra mim do casamento dela e eu cheguei pra ela e falei: “Cris, da forma que você fez comigo eu vou fazer com você. Se você quiser deixar este marido porque se ele encostar um dedo em você ele vai sentir o peso da minha mão; se você quiser deixar o seu marido eu lhe ajudo. Você não precisa pagar uma pessoa pra trabalhar com você; eu tomo conta dos meninos; eu trabalho mais um pouquinho e a gente se equilibra”. Aí ela fez. Ela pegou um caminhão, a casa dela era um palácio, ainda é um palácio. Ali no dezoito, uma mansão. Uma casa de andar; a coisa mais linda que foi ela que desenhou. Uma casa que hoje seria quase 250 mil, o camarada vendeu por 60 mil, uma coisa assim. Ela chegou em casa, conversou com ele, botou o caminhão na porta, pegou os três meninos. Malu, que era pequenininha na época, Malu tinha três anos, quando veio pra mim tinha três anos, Lulu, Carol, Manuelzinho, que é especial, botou num caminhão e deixou ele dentro de casa. E viemos morar todo mundo junto. Eu saía pra trabalhar, porque ela não podia trabalhar. A minha meta era que ela não trabalhasse, ficasse com o menino e eu trabalhava. Eu fazia biscoito, dava aula de educação física, dava aula de dança, dava aula de artesanato. Só que por onde eu passava alguém queria vir comigo. Só que eu não podia. A gente tinha oito pessoas dentro de casa. Foi quando ela pegou o primeiro dinheiro que ele deu da casa, parece que foram dois mil reais, ele disse que tinha vendido por muito pouco. Mentira. Dei dois mil reais pra ela e ela foi e comprou uma caixinha de lápis, uma caixinha de régua, que ia montar uma livraria. Montou. E aí ela saía de escola em escola, carimbando as coisas, falava com a diretora. E como eu dava aula nas escolas ficava mais fácil. Até quando o dito cujo ia para as portas me esculhambar. Aí eu fazia assim: Ela carimbava, eu ia pras editoras; comprava os livros e eu ia entregar. Foi que a vida da gente foi crescendo, foi crescendo. Eu tinha conseguido aposentar uma pessoa que tem problema de osso, e ela tinha se separado do marido e conseguiu comprar uma casa no Albano Franco. Só que a casa era de frente pra rua e de lado pra rua. O fundo todinho dava pra fazer uma casa que dava de lado pra rua. Todo mundo que eu aposentava eu não pedia nada. Nunca recebia nem a passagem. Porque era de mim mesmo ajudar. Eu já tinha ajudado mais de 50 pessoas a se aposentar. Já tinha a credibilidade do gerente do INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] e aí esta pessoa soube o que aconteceu com a gente. E ela chegou e disse: “Vanísia, eu não tenho muito pra lhe oferecer, não, mas pelo pouco que lhe conheço; pelo muito que você me ajuda, as pessoas, sem pedir nada em troca, eu tenho um lugar que não vou lhe dar, porque não preciso, mas vou lhe vender de maneira que você possa me pagar. Cheguei em casa alegre, satisfeita.”Cris, comprei um espaço pra gente”. “Você é louca. Com que dinheiro?”. “Nenhum. A gente vai se virar e vai pagar”. “Mas Vanísia, a gente não tem onde cair morta!”. “Não, mas a gente vai lá”. A gente foi pra Albano Franco. Chegou lá era um quadrado, todo branquinho. Só que antes disso eu tinha sonhado com um espaço. O espaço era todo branquinho que __ uma criança jogava uma bola e dava num espaço quadrado. E eu disse pra ela sobre este sonho. A gente foi pra este lugar. Chegou lá era branquinho. Será, Jesus, que é este espaço? 

E a gente construiu do nada. Da minha mãe, quando minha mãe morreu, do seguro dela deu mil reais pro caixão. O dito cujo dividiu entre os filhos, quem menos ganhou foi eu. Veio cem reais. Estes cem reais eu disse: “Cris, a gente vai comprar água mineral que dá dinheiro”. Só que eu não contava que o __ de água mineral tinha água, né? Era 20 litros de água. Eu contei só com o vaso seco! E o que a gente fazia? Eu disse: “A gente vai ganhar dinheiro. Você comprou seus lápis, suas réguas, tem o espaço, eu vou comprar água mineral e a gente vai vender água mineral”. Que dava na época 50 centavos. Mas dava. Eu calculei, com as escolas, ia dar certo. Minha irmã! Primeiro que a gente botava na terra era bom, mas tinha gente que pra judiar da gente botava uma escada, maior que esta casa, pra gente subir e descer com __ água mineral. O que a gente fazia? A gente levava a pé, daqui no João Alves, uma pegava no gargalo e a outra pegava no fundinho do coisa. Ir até lá até que era bom. Quando a gente subia e descia uma das duas estava morrendo. E começou o rim dela a doer. A doer e sobrava pra mim. Eu consegui comprar uma bicicletinha e fiz um carrinho na bicicletinha. Ficou melhor. Já levava quatro bujões. E a __ satisfeita que parecia uma Suzuki. E a coisa foi melhorando. Com este dinheirinho a gente comprou o primeiro __. Eu consegui com as amizades, com os pedreiros. Eles foram e fizeram o ___. Depois a gente fez o esqueleto. Só que Cris é muito boa de planta. Ela fez uma planta pra mim que a casa ia ser uma academia. “Você não vai precisar mais de trabalhar fora. A gente vai montar a sua academia. Não é academia que você quer?”. Eu disse: “É”. A forma dela me retribuir pelo terreno. E a gente pagou este terreno. Parece que foi 50, ou 500 por mês. Uma coisa assim. Não me lembro muito bem. A gente conseguiu pagar e construir a casa. Como aquela história [entrevistada canta] “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”. A gente construiu só a metade e a gente dormia com os meninos todos só na metade da casa. Meus meninos não estavam mais comigo. Eram só os delas. E na parte de lá quando o vento batia a gente ficava, se juntava todo mundo que era para passar o frio porque a casa... Quando tinha briga na rua as primeiras balas a gente ficava orando pra não pegar a gente no meio da rua. Até que um belo dia uma mulher, nesta casa, estava morrendo de peso mórbido. Ela estava com quase 200 quilos, morrendo dentro desta casa. Uma neurótica dentro desta casa. A nossa mãe, mãe Zefinha, morava aqui do lado e soube que ela estava querendo trocar a casa. E ela ofereceu pra mãe Zefinha se ela não queria trocar a casa na nossa. Perguntou: “Você viu a casa de minha filha? Não tem piso”. Mas meu imóvel era bom. Ela disse: “Eu quero”. Porque até então esta casa ela ia perder pra Caixa [Caixa Econômica Federal] e lá ela não ia pagar nada, porque a gente fez no terreno. Eu estava viajando, em Itabina esta época e Cris foi ver a casa; levou ela pra ver a casa. E veio ver esta casa aqui. Esta casa é só a frente e o espaçozinho que era um minimercadinho, não tinha este espaço aqui. Quando eu cheguei Cris falou que queria. Eu falei: “Você é louca? Como vai morar aqui sem ter piso?”. “Não, mas a gente dá um jeitinho”. Eu disse: “O Deus que a gente serve não me deixou o direito de tomar nada de ninguém. Eu vou tentar enxergar que esta mulher enxergue que ela vai perder uma riqueza. Que não é justo a gente ficar com uma coisa que vale cinco vezes mais que a nossa”. Levei a mulher na Caixa. Tentei de varias vezes, com amizade, negociar. Arranjei um emprego pra ela. Botei o menino dela no bolsa-família. A mulher não quis acordo. Ela disse assim: “Agradeço o que você fez, mas de antemão vou lhe dizer: se eu não perder pra você vou perder pra outra pessoa. Então eu prefiro não perder pra você, a gente trocar. Ficar uma por uma”. Eu disse: “Essa mulher está ficando louca. É isto que você quer?”. Ela disse: “É”. Falou com o marido. No outro dia o marido arranjou um caminhão pra fazer a mudança. Quando é no domingo, que eu chego. “Vanísia, Orlando está na porta”. “Orlando está na porta fazendo o quê?”. Daí disse: “Vá lá ver”. Cheguei lá disse: “Oi Vanísia, tudo bom? Estou com o caminhão aí pra fazer sua mudança e da minha mulher”. Eu olhei pra cara dele assim. O homem estava querendo casar com uma tia minha e a mulher não sabia. Só eu e ele sabíamos. Nem Cris sabia também. Cheguei na casa da minha mãe um dia e ia ter o noivado e o noivo era ele. Por isso que a mulher estava morrendo. Porque ele chegava em casa e não fazia nada. Só que ele já estava com outra. Eu disse: “Você é muito descarado. Quer dizer que você está matando sua mulher pra se livrar dela”. Cheguei e disse: “Já que é assim pode voltar com o seu caminhão que eu vou fazer a troca de porteira fechada”. “O que é porteira fechada?”. “Toma a chave que eu vou embora. Cris, pega a televisão e vamos embora”. Cris pegou a televisão, botou nas costas e viemos para aí. Minha irmã! Quando a gente chegou aqui tinha móvel quebrado, garrafa pet por tudo quanto era canto. O banheiro da mulher era do tamanho de um quarto. Eu acho que o maior tempo que ela passava era dentro do banheiro tomando banho, pela gordura dela. 

Eu comecei a falar sobre história de vida para ela. E resolvi emagrecer aquela mulher. Fazer aquela mulher um ser humano, que ela estava virando um trapinho dos bravos. Aí quando a mulher chegou em casa e viu a casa montada de todo, e que ela não levou nada. Os __ dela a gente botou tudo na rua. Nem o lixo quis levar. Ela começou a chorar. Eu disse: “Vou fazer melhor. Vou botar essa mulher num spa”. Comecei a levá-la a academia; a fazer aulas de natação. Moral da história: ela de 200 quilos baixou pra 98 quilos. Quando ela conseguiu fazer 98 quilos, que ela começou a caminhar, ela disse: “Vanísia, a melhor troca que eu fiz da minha vida não foi a casa. Foi eu me trocar com você. Foi eu ter lhe conhecido”. Hoje os filhos dela são formados; hoje ela conseguiu se separar do marido. Ela disse que alcançou a dignidade dela e eu fiquei satisfeita. Que Deus não queria troca; queria que tivesse feito isto. 

Viemos para cá. Quando chegamos era uma casa em uma boca de fumo. Aqui do lado tem uns moleques que por mês matavam dois; eram da pesada. Você tinha que pagar pedágio aqui na esquina. Se você não desse um real, dez reais, você não entrava aqui. O muro da casa, uma hora da manhã, eu trabalhava dando aula de hidroginástica quando eu saia cinco horas da manhã eu não entrava fácil dentro de casa porque o fedor da maconha era braba. Eu comecei a ficar doente aqui. Até um dia que eu peguei um colega meu que trabalhava na polícia e pedi para ele fazer uma batida aqui uma hora da manhã. E ele descobriu que aqui era vitrine. Vitrine como? Eles pegavam no __ da casa, era oco, eles armazenavam os papelotezinhos. Pegavam um raio de bicicleta; botavam um azougue e, quando eles iam vender, eles botavam lá, tiravam e passavam. Quando a polícia chegava eles estavam sentados no muro e ninguém sabia. Só que era dentro do muro que eles guardavam. Só que eu chamei um trator e mandei derrubar tudo. Passou a primeira vitrine. A segunda, eles pegavam um tambor e perequete, perequete, perequete, na porta. Atraía. Quando a polícia chegava eles estavam no sambão, ninguém sabia. Um belo dia, cheguei irada, fui pro campeonato de karatê, aí eu me sentei. “O que está fazendo aqui, professora?”. “Ah, vim fumar com vocês. Já que vocês não me deixam dormir vou sentar com vocês e vou experimentar a droga que é para ver se eu fico maconhada e durmo. Vocês não tem a casa da mãe de vocês? Por que vocês não vão para porta da mãe de vocês? Respeita a mãe de vocês e não respeitam os vizinhos? Hoje vocês vão acabar. Se não a coisa aqui vai ser ruim. 

Eles passavam pro outro lado. Digo: “Vou acabar com esta história”. Peguei meu gravador, botava o CD evangélico e quando eles começavam do outro lado eu botava aqui. Aumentava e batia do outro lado. Eles começavam a escutar. Um belo dia mataram um deles, o mais bravo. O segundo, que estava perto de morrer, também chegou e falou assim. Quando eles passavam por mim: “Bom dia, professora”. “Bom dia abençoado. Que Deus lhe acompanhe e lhe traga em paz pra casa”. E com aquilo ali um dia eu sentei com eles e disse: “Tenho duas perguntas para fazer para vocês”. Ele: “Qual?”. “Se alguém lhe desse uma oportunidade qual que seria? Se vocês tivessem uma chance pra sair de onde vocês estão o que você queria ser?”. Ele disse: “Uma, deixar de ser chamado de vagabundo; e duas, ter um emprego. Porque todo mundo acha que a gente é ladrão”. Eu digo: “E se eu lhe der e você roubar a firma?”. Ele disse: “A senhora está me chamando de ladrão”. Digo: “Pronto”. Aí botei ele na fábrica de postes. Esse menino se converteu, hoje ele é evangélico. Converteu a família inteira. Aí eu decidi – Cris vendo isso – que eu ia transformar um vão, que era este daqui, numa associação. “Mas Vanísia, como você vai fazer isto?”. “No dia que você acabar com a sua loja”, que só dava fiado, eu trabalhava como cobradora oficial no município, e __ parava cinco mil dela na minha mão e eu não podia fazer a cobrança. Até que eu fui ameaçada de morte por um cliente dela. Cheguei em casa irada e digo: “Ou você acaba com isto ou vamos embora. Não agüento mais”. “Pô, até minha cor! O povo está me chamando de pretinha na rua. Que eu sou uma Zé ninguém. Isto não é certo não”. Aí ela acabou. Quando ela acabou com tudo ficou 15 mil na rua e eu disse que não ia cobrar mais. Um dia este espaço aqui da frente estava cheio de boneca, cheio de livros. No outro dia a Cris chegou aqui não tinha nada. Salão vazio. E ela olhou pra mim. Eu disse pra Deus: “Eu tenho que ser forte. Porque se eu chorar ela vai chorar também”. Ela disse: “E agora, Vanísia? O que a gente vai fazer”. “Mais uma vez você vai levantar a cabeça e você vai cantar aquela música [entrevistada canta] “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. E você creia que aqui você vai ver um monte de máquina. Porque Deus me mostrou aquele espaço branco com uma bola. E não é ainda este espaço. Eu vou parar neste espaço. E você vai estar costurando. Eu tenho uma meta: que você trabalhe com seus filhos e ajude outras mães. Você tem que me ajudar”. E eu tinha uma Vigorelli, pretinha, e ela começou; ela já sabia a história do trapo e contou pra mim. Eu comecei a fazer o trapo mais ela. Até que o dono de uma loja de máquina viu e perguntou: “Você está fazendo trapo com esta máquina? __ tem? Você é louca! Qual a máquina que daria pra você fazer trapo?”. Aí eu falei pra ele: “Esta máquina custou 1.200 reais ___. Eu não tenho como pagar esta máquina pra você”. Ele disse: “E com o trapo, em quantos meses você pagava?”. Eu disse: “Em 30 dias”. “Pode levar”. E com 15 dias a gente pagou a primeira máquina. E desta máquina foi aparecendo, foi aparecendo. Só que Cris não podia fazer sozinha. Por incrível que pareça nesta porta, nesta escada aí, todo dia passava uma pessoa com problema, com dificuldade de vida. Então eu montei __ horizonte, uma creche. Foi pior! Porque na creche eu tinha, de dez mulheres passou para 20. E não era só mulher, os filhos. E aí eu consegui junto ao __ Brasil, que eles me dessem uma alimento. Eu alimentava lá e cá. 

Foi quando o Instituto Camargo Corrêa veio aqui pela primeira vez, colheu a história, nos escolheu e resolveu nos ajudar. 

Eu, Itabaianinha, eu ganhei as primeiras máquinas. Que foram doze máquinas sucateadas. Sobraram cinco máquinas. Das doze máquinas a gente restaurou e sobraram cinco máquinas e a gente começou a trabalhar. O Instituto Camargo Corrêa contratou uma empresa pra fazer o trabalho: burros n'água. E aí passou-se um ano e nada foi concluído. A gente continua trabalhando com as máquinas velhas. E Cris sempre à frente. Sempre à frente. Nunca desiste, nunca desiste, nunca desiste. A gente caía e levantava, caía e levantava. Foi quando entrou o Instituto Realice e começamos a comprar. Compramos primeiro as cadeiras, que são estas cadeiras verdes; depois Alice foi e comprou computador. E seu Jair até então não sabia que estava sendo aqui. Depois Alice entrou em contato com ele e conseguimos fazer esta reforma; depois da reforma comprou mais máquinas. E ele pensava que só tinha, toda vez que ele chegava da rua, da primeira vez que ele chegou aqui tinha duas ou três mulheres, com __ tinha cinco e ele sempre revoltado porque tinha que ter 83 mulheres inscritas. Só que estas mulheres, como vocês presenciaram, são da comunidade. Eu não posso colocar aqui dentro ainda. Só que além da comunidade, apareceu Daiane, apareceu Lide, apareceu Albani. Cada uma com uma complicação que tinha que fugir de casa; tinha que aprender alguma coisa; botar a cabeça no lugar. Como disse seu Jair, “foco, Vanísia!”. Focar em alguma coisa pra fugir da sua realidade. E estas mulheres, nós fomos investindo para que elas fossem não uma empregada da associação. Que não podemos ter empregada. Mas que eles fossem parceiras. Que elas fossem donas do pedacinho que a gente ajudou a construir. E que elas pudessem contar a própria história, a nossa história, a história de alguém que ninguém conhece. E aí uma foi trazendo outra, foi escutando história de outra e foi trazendo. E hoje é a nossa realidade. 

 

[Pausa de um minuto]

 

Hoje somos em 20. Agora, como eu estava dizendo hoje de manhã, somos 20 aqui dentro, 80 lá fora. Cada comunidade estou amparando 20 mulheres. Daqui a dois meses estas 80 serão multiplicadoras, aí vai se passar a 160. Porque o projeto do GB é em dois em dois meses a gente faz avaliação, para saber em que pé elas estão pra começar em outra comunidade.

O Instituto Camargo gira em torno de Nossa Senhora do Socorro, acontecendo a inclusão. Que no caso eu teria que amparar o (Caiubi?), que fica próximo a Taques, a Taboca e Taiçoca que ficam próximas a Taques. E vindo pra cá nós nos transformaríamos numa âncora, amparando e dando raiz. Não sabendo eles que isto já está sendo feito. E de onde eles vão ver que aqueles 83 que alguém chegou e disse que não existia, que era uma instituição fantasma, hoje eles vão dar a mão à palmatória, me dar os parabéns, porque não são 83; daqui a cinco anos, como é previsto no projeto, provavelmente vou estar com cinco mil alunos. Porque hoje já tenho argumento; já tenho verbas; já tenho maquinário. Hoje já temos matéria prima de sobra. E hoje as minhas alunas já tem a conclusão de dizer que realmente hoje já podem ser multiplicadoras. Porque elas já tem em mãos algo que ela termina dois meses já sendo realmente multiplicadora. Como na ___ onde a primeira lixeira, onde tudo, através do reciclado, em Aracaju, por aqui, em Itabaianinha, Gararu, Salvador, que eu alunos; em Brasília eu tenho alunos também. São alunos que passaram por mim e ramificou lá. Eles sempre entram em contato comigo. Eles enramaram e então eles já têm argumento para dizer: “Realmente, a professora hoje vai ter um site; a professora já tem um e-mail; a casa já tem uma história”. A nossa história, como Daiane mesmo provou, já está aqui registrada. Para ela vai ficar pra vida inteira marcada. Para ela, pra mãe, pros netos. Para uma comunidade que deu certo. As nossas mulheres daqui a mais um ano, quando vocês vierem nos visitar, que eu creio que vocês vão nos visitar, vocês vão ver estas mulheres já dando aulas em outras comunidades. E eu digo pra vocês: eu agradeço primeiramente a Deus, a seu Jair, que não desistiu, as filhas do Camargo Corrêa, porque o pai dela faleceu, mas como elas disseram lá na reunião que tinham medo de fazer este serviço social e mexer com as empresas. Porque de certa forma eu sempre falo  pra Cris: “Gente, você vai trabalhar num lugar que tem ouro em pó. Se equilibre porque aquele ouro em pó estava lá, não é seu. Você foi pra lá pra fazer um montinho; arrumar em montinho em montinho, para que ali eles possam trabalhar. Então eu posso dizer pra todas elas, ou para uma delas. A que estava na reunião vai saber quem é. Que nós somos uma instituição que sabe dar valor a cinco centavos quando é dado e a cinco mil. E que jamais, se eles derem cinco centavos e cinco mil, a gente jamais vai deixar de trabalhar pra comunidade pra comprar um carro, uma casa. Porque a gente está vendo que este dinheiro não é nosso. Eu sempre digo que eu não sou a presidente. Porque uma presidente entra, muitas vezes não entende o que está fazendo ali; pega o dinheiro, bota no bolso e sai. Eu sou a fundadora, a idealizadora de um sonho. Que muitas vezes eu sonhei com um galpão branco e hoje eu sei que este galpão está em Itabaianinha, com 70 crianças, que hoje é uma realidade, não é um sonho. Eu voltei pra minha terra para dar continuidade a este meu sonho. Que hoje não é só meu. É de mulheres que tinham tudo pra dar errado. E deu certo. 

 

P/1 – Como é hoje, pela sua história maravilhosa que você nos contou, o que mudou esta parceria com a Camargo Corrêa e com o Instituto Realice? O que eles trouxeram pra vocês que conseguiram que vocês dessem um salto? Fora a questão financeira o que mais eles trouxeram pra poder ajudar vocês? 

 

R – Vou dizer por mim, Vanísia. Como eu não tive uma formação acadêmica, minha formação foi a minha mãe, foi a rua. E, como diz o meu professor japonês, ele sempre fala: “Vanísia, você tem que ter (Chan Kun San?), que pra eles quere dizer visão. Você tem que aprender a ouvir e assimilar o que você ouviu. O que for bom você guarda; o que for ruim você cresce. O Instituto Camargo Corrêa, quando veio a primeira vez aqui, eu perguntei a seu Jair o que eles tinham para nos dar porque eu estava cansada de chegarem aqui, colherem a história e ir embora e a gente continuar no mesmo lugar onde tudo começou. Na verdade a gente tinha boa vontade, mas se ele não tivesse dado este empurrão e não tivesse desistido da gente, a gente estaria no mesmo lugar. Não está morrendo de fome, não, mas a gente teria que estar dando mais duro ainda e sem conhecimento nenhum. Quando o primeiro projeto deu errado que seu Jair me ligou em dezembro – não me lembro muito bem a data, mas me lembro que foi entre dez e 15 de dezembro, próximo ao natal – estava desenganada porque o projeto tinha tido maior alvoroço lá e ia acabar. E ele chegou e ligou: “Vanísia – ele ia pra Brasília e alguém queria colher meu depoimento – oh, Vanísia, que mulher difícil! Seu telefone, eu já liguei quatro vezes pra você e não consigo. Até que enfim que eu consegui”. Eu digo: “Graças a Deus. O que o senhor quer?”. “Não é que eu to indo pra Brasília e lá eu vou entrar em contato com o pessoal da Ashoka e eles querem o teu depoimento. E aí, como vocês estão?”. Eu digo: “Seu Jair, estou onde o senhor me deixou. Eu tenho esperança de um dia melhorar. Mas eu ligo pro senhor. Se não der certo eu vou continuar existindo e um dia o senhor vai voltar pra trás e ver que não desisti. Mas de antemão, eu conheci uma pessoa no primeiro congresso que esteve no Instituto, uma pessoa por nome de Alice, que eu disse, quando ela levantou a primeira revista dela da __, eu disse: Vou estar dentro desta revista. Não sei como, mas vou estar lá. E no sorteio todo mundo ganhou e eu não ganhei a revista. Foi quando o senhor estiver com a revista o senhor me empresta esta revista para eu dar uma olhada? E esta menina foi embora. Eu sei que ela é muito ocupada, mas quem sabe se o senhor entrar em contato com ela não vai dar certo. Eu sei que o senhor pode desistir da gente, mas tente”. E ele escutou e foi embora. Quando foi dias depois ele entrou em contato com a Alice e ela, como sempre, ela é muito atarefada, como se diz aqui no Nordeste, ela é muito “assoberbada”, muito cheia de trabalho, ela disse que tinha tudo pra não pegar, mas algo tocou fundo dela e não era o dinheiro. E algo que ela viu que ela ia trabalhar. Só que ela não sabia de que forma; quem seriam estas mulheres que ela ia ajudar. O seu Jair escreveu um pouquinho e ela resolveu topar. E com isto ela veio pra cá, pra reunião da ___. Houve várias reuniões, que eu já estava cheia destas reuniões, e eles tinham que ter um gestor para ficar com a gente aqui. Ela não podia ficar em Aracaju; tinha que trazer uma pessoa. E o Instituto Camargo Corrêa escolheu o Semear. Só que eu já conhecia a fama do Semear. Eu disse: “Seu Jair, deixa eu dizer uma coisa pro senhor. Por que o Semear? O Semear já é uma instituição rica e a pessoa que está à frente do Semear chegou no meio da hora e falou que ali era um espaço que ele não dava pra ninguém. Que ele ganhava 15 mil reais. E que eu poderia estar ganhando 15 mil reais. Quando ele falou isso vi que tinha coisa errada. E fui pro fundo e descobri que ele tem vários irmãos advogados que ajuda ele nesta. E eu não tenho estes irmãos advogados. É eu e Cris e Cris e eu. E as meninas. Marcaram com várias pessoas que tinha que ter o gestor. A do Semear quebrou a perna. Mara ganhou nenê, que era nossa, era Mara. A outra não pode vir; sobrou pra Fernanda. Fernanda era uma pessoa que ela conheceu no Rio, pela história de outra instituição. Que ele pegava instituição falida e levantava. Só que Fernanda não sabia que aqui a gente tinha outra cabeça. Que nós não éramos pessoas que ele pensava que eram falidas, que não sabiam fazer nada e que ele ia chegar aqui e fazer mesmo que fazia no Rio. Ele disse: “Vanísia tem uma pessoa”, assim, assim, assim, ele está com dificuldade em casa e eu preciso ajudar ele e eu fiz uma proposta pra ele vir pra cá, guardar um dinheirinho e daqui a um ano ele estar com um dinheirinho guardado”. Eu digo: “Manda, mas primeiro manda uma semana que se eu não gostar do camarada, se ele não falar a nossa língua, ele vai voltar no outro dia”. Ele trouxe Fernando, Fernando passou uma semana aqui com a gente e foi embora. Fernando veio mais um ano. Fernando veio mais um ano. Só que neste ano ele ficou impactado. Ele é muito inteligente, ele é um crânio, só que por falta de comunicação Fernando se bloqueou. Fernando se tornou um Zé ninguém. Ele não dizia pra que vinha; ele não sabia fazer nada e eu mais Cris. E eu vou dar um jeito neste homem. E foi passando um mês, dois meses, três meses, quatro meses, cinco meses. Seis meses, sete meses, oito meses e nada. Aí a gente fez uma reunião com Alice; chamamos a atenção dele. E nada dele desembaraçar. Quando faltava dois meses pro __ terminar, Fernando, um  belo dia, começou a me observar. Que eu só crio quando estou sozinha. Eu boto o disco de __ Silvia; eu boto um CD africano ou um indígena e aí começo a criar. E ele começou a me observar e viu que ele poderia contar com alguém aqui. E eu comecei a fazer os artesanatos, participar das feiras, e ele foi gostando. E aos pouquinhos, aos pouquinhos, Fernando foi saindo. Um dia eu e Cris chegamos aqui e Fernando desembesta na máquina; começa a criar bolsa de tudo quanto era jeito; fazer calça social; fazer camisa social. Eu disse: “Cris do céu! O que a gente está vendo?”. Cris diz: “Eu não sei o que está acontecendo com o homem”. Parece um homem parado e agora começa a fazer de um lado, do outro e lá se vai, lá se foi. E eu já tinha falado com a Alice que o Fernando ia embora. Quando eu volto do Rio e converso com Alice digo: “Alice, minha filha, tem um problema pra resolver”. Ela: “O que foi?”. “A gente quer Fernando mais um ano aqui”. “Mas, Vanísia, não pode. Não tem dinheiro, o projeto acabou”. Não sei o quê. E a gente resolver baixar mais um pouquinho o projeto e contratá-lo pela associação. Porque Fernando fez um cálculo e Deus fez outro pra ele. Filho dele é muito estudioso, um moleque de 15 anos, superdotado no computador, surpreendeu o pai. Ele fez um concurso aqui, que é muito raro, na escola técnica, se eu não me engano parece que até pra mecânica ele passou. Não acreditaram que ele com 15 anos passou; não sei se foi segundo ou foi décimo lugar, mas foi um lugar que surpreendeu os professores. E Fernando crente que ele ia embora; ia voltar pra instituição dele lá; ia montar uma firma; ia pintar e bordar; se o menino dele saísse de Aracaju ia perder. E o menino não queria perder de jeito nenhum. Fernando resolveu que ele ia sozinho e a mulher ia ficar com o filho. E a mulher não gostou dessa história. E pelo que a gente conversou com a Alice a mulher dele ficou meio bronqueada com a gente. Porque a gente conseguiu tirar ela daqui. E Cris, como uma boa samaritana, boa evangélica que ela é, conhecedora da palavra, resolveu chamar a mulher dele e conversar com ele de frente. Porque até então conversar com ele estava sendo difícil porque ele, como a gente chama aqui, é o famoso boi de Minas. Ele só faz o que a mulher quer. Aí a Cris resolveu falar com ele na frente dela e fez a proposta pra ela dizendo que ele queria ir embora e tudo. Que o projeto tinha acabado, e que pelo filho dela, ele já estava sabendo que ele ia embora e ela ia ficar, que não era justo. A gente não podia pagar os três mil e 500, mas podia pagar dois mil e ajudá-lo com os custos que ele tivesse. Ele ficou calado. Como um belo boi de Minas ele ficou calado. E a mulher dele, como uma boa mulher, como uma mulher sábia, começou a falar que realmente ela estava sentindo que poderia perder o marido; que o ama; e que não queria que ele fosse embora. Porque ele fuma demais. Ela não disse isto, mas a gente sabe. E que ele poderia se estragar. O que a gente também temia. Que ele aqui cada pessoa que entra aqui a gente não tem só como profissional e sim  como uma pessoa e a gente tem muito cuidado com a saúde dele. Muito zelo, por bem dizer. E a mulher topou. E ele topou. Fez um charminho e topou. Aí o Fernando ficou. E é como a gente fala: o Instituto Camargo Corrêa ele praticamente mudou a nossa realidade. Ele fez com que os nossos sonhos se transformassem em realidade. Ele fez mulheres desacreditadas acreditarem que sonhar é possível. Que sonhar pode transformar a realidade. Que nem tudo na vida é o dinheiro, mas o acreditar vale a pena. O instituto Realice mostrou pra gente que não é porque não somos de universidades que não podemos acreditar em nós mesmos. Tanto que a Alice é uma pessoa tão maravilhosa, tão meiga, tão ser humana, que eu sempre digo pra ela: “Mocinha, você pode ganhar rios de dinheiro, mas o dom que Deus lhe deu foi pra transformar pessoas; transformar vidas. Eu vi você num lugar lindo, maravilhoso. Você vai ganhar muito, mas você vai ser sempre perseguida por pessoas como a gente. No seu coraçãozinho você vai sempre se pecar, porque você vai dizer: “eu tenho que ser profissional”, mas o coração vai falar mais algo. Ela começou me escutar, ver as minhas dificuldades e querer me ajudar com meus filhos com advogado. Trazer profissionais como Larissa. A gente pensou que Larissa fosse só uma pessoa formada. Larissa está dentro de uma universidade dando aulas. Pra gente é muito importante, porque tem gente que chegou na minha cara , dentro de um espaço, dentro de uma universidade, dizer: “Você hoje não está recebendo 15 mil reais porque você não tem um diploma universitário”. Não sabendo eles que eu não cheguei lá ainda não foi porque eu não quis. Foi porque eu vi que não era a hora ainda. Este ano eu vi que já está na hora, através dela. As pessoas que ela trouxe daqui, como Fernando, como Larissa. O pessoal do Instituto Realice, em si. Ela faz com que eles não sejam uma empresa que está nos gerenciando; seja uma empresa que trate a gente com respeito, com dignidade acima de tudo. A ponto de que mesmo as pessoas que entram pra ___ serem pessoas classificadas, ela viu que não tem como não colocar a gente porque a gente se destaca como criação. Como criação. A ponto dela me levar pro Rio de janeiro agora, eu dar uma olhada no todo e ter condições de eu mesma montar uma revista. Só com os artesãos que eu tenho aqui no Nordeste eu monto três, quatro revistas, se eu quiser. Que o site nosso não seria um ponto de venda. Até mesmo porque as bolsas que vão para o mercadinho o pessoal está comprando pela etiqueta. Então se fosse pelo site não teria tanta venda como pela etiqueta ou então ia bombar de uma maneira Que a gente não pudesse equilibrar? Porque graças a Deus tudo que aconteceu com a gente aqui, eu sempre digo, tem horas que eu acordo – eu cheguei esta semana; eu queria tanto ter uma moto. Um sonho era ter uma moto. Muita gente pensa: “É só luxo!”. Não, porque eu ia chegar mais rápido. Chegou tempo aqui dentro da gente precisar de um real e 50 centavos pra comprar tecido e eu e Ivone irmos a pé, nós duas contando histórias e mangando do povo, pro centro de Aracaju; e voltar a pé, porque aquele um e 50 a gente só tinha pra comprar o tecido. Comprava um e 50 de tecido e voltava. __, vendia e aí a gente tinha dez reais, a gente ia de passagem. Eu disse: “Cris, eu queria tanto comprar uma moto, para ajudar você, ajudar Fernando. Porque num instantinho eu vou”. Mas aí eu tinha muito medo. Eu digo: “Não posso tirar dinheiro do projeto. Vou comprar em 50 meses”. A única coisa que pude comprar foi a Jonny. E dou graças a Deus. Esta semana fui dar aula na comunidade e quando terminou a aula eu montei na minha motinha e... Tem uma passagem que eu assisti na televisão que tinha uma velhinha no Paraguai que todo dia passava pelos fiscais – meio mundo de gente era preso – e essa velhinha passava com a carga dela e nunca era presa. Quando foi um dia o guarda chegou e falou bem assim: “O que leva aí, velhinha?”. Ela: “Cimento”. Passava pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá: cimento. Esta velhinha construiu uma casa do lado de cá. Ela era traficante, mas dizia que era cimento, né? Com o passar do tempo ela montou uma cidade só de coisa ruim e os guardas foram perceber que ela não trazia droga, ela trazia mais do que a droga. Ela construiu uma casa de onde ela ia ter os traficantes. Aí eu peguei a moto e comecei a rir. E eu ria sozinha. E as meninas diziam assim: “Professora, Deus lhe acompanhe. Vamos ficar aqui até a senhora chegar no finalzinho da ponte, pra gente saber que a senhora já está indo embora”. Eu disse: “Tá, muito obrigada”. Lá vou com a minha motinho. Quando cheguei na ponte com a minha caixa laranja, eu comecei a rir sozinha. Eu disse: “Olha a velhinha aqui passando”. Só que não levo cimento, nem levo maconha. Levo felicidade. Cheguei em casa alegre e satisfeita. A Cris disse: “Por que você vem rindo a toa?”. “Sabe por quê”? Porque eu entrei no brincando com arte, o pessoal pegava cinco mil reais comprava de brinquedo. A Casa do Artesão, a gente chegava com as sacolinhas de plástico ou então com as bolsas que eu fazia rapidinho e botava material, começaram a observar. Quando foi um mês depois teve uma festa no GBarbosa e eu comprei as caixinhas laranja. A gente já entrava chique, eu ganhei uns panos verdes e já botei o nome: Casa do Artesão. Entrava eu, Daiane, Albani, Malu, Nide. E o pessoal da universidade. Cada um entrava com uma caixinha, alegre e satisfeito. A gente fazia um trenzinho pra entrar no lugar. Aí a menina falou bem assim: “onde você comprou esta caixa tão chique? Casa do Artesão está enricando”. Daiane olhou assim e disse: “Olho de sapo!”. Aí eu disse: “No GBarbosa”. Ela foi comprar e não conseguiu. A promoção foi só naquele dia. Não sabendo ela que a gente conseguiu comprar porque era uma promoção! Porque a caixa era 50 reais. A gente comprou cada caixa por 20 reais dividido em dez meses. E aí a gente fazia o quê? Pagava uma, comprava outra. Pagava uma, comprava outra. Conseguimos comprar cinco. A minha alegria da motozinha era porque a caixinha, de tanto a gente “mangar” que era pobre, eu com a minha motozinha não vinha a pé e vinha com a minha caixinha laranja tão cobiçada. Por que eu falei isso? É para vocês verem que quando Larissa chegou pra mim e falou que era professora de universidade, eu cheguei no SESC alegre e satisfeita. “O que foi que lhe deu?”. Eu digo: Estou na universidade. A professora saiu da universidade pra me dar aula particular. Cindo meses. Cinco meses nada! O projeto vai poder pagar um mês só, mas eu vou orar pra que eles permitam que ela faça cinco meses. Onde quero chegar? Eles tem vários projetos que, sempre que eu vou pro fórum, o mais importante pra mim é entrar em contato com os projetos. O que eu quero, se eles puderem, mas vou tentar conseguir, que antes de começar os outros projetos eles comecem pela nossa história. 

 

[Troca de fita]

 

P/1 – Você estava falando o que você queria que o Instituto fizesse.

 

R – Eu acho que pode ser muita ousadia da minha parte. Mas tem uma passagem no livro de seu Camargo Corrêa, eu li o livro todo, e o que mais me tocou: Quando ele foi construir a primeira estrada alguém chegou pra ele e disse: “Você é louco. Com que carro?”. E ele começou, se não me engano, com carroça com burros. Depois ele comprou os primeiros carros. Quando ele construiu a primeira estrada dele ele fez uma, fez duas, fez três. Mas foi por causa de um sonho que ele queria transformar em realidade. E hoje, ele deve estar no céu, ele não transformou só estradas. Na estrada dele tem pessoas. Ele está transformando vidas. Restaurando sonhos. Pessoas como eu, que estava com a vida no fundo do poço. Eu posso transformar dez centavos num fuxico de um real. Então o que eu vejo muito nos projetos é que existem pessoas que estão perdidas. Elas estão recebendo os benefícios, mas ainda não se encontraram. E eu acho que se eles escutassem a nossa história, até mesmo alguém quisesse nos conhecer, acho que seria a melhor escola de um projeto. São mulheres que tinham uma vida complicada, que tinham tudo pra dar errado, por causa dos maridos. Eu até estava brincando com a Cris que a gente vai montar a segunda associação: Só de mulheres que não querem mais nunca saber de homem porque os homens aprontaram com elas. E o trauma foi tanto que elas desistiram de se casar. Mas mesmo assim elas não desistiram de viver, de sonhar. Então que elas vejam na nossa sacola, nos nossos fardamentos, que daqui a mais dois anos nós vamos nos transformar numa bela (homologada?). Isto aí não tenha dúvida. Cris busca, e eu vou estar, quem sabe, já formada em design, que eu vou ser uma sessentona formando em design, e que eu vou estar com várias lojas com artesanato. Não vou fugir da minha associação. Minha associação em breve pode ser que até a gente esteja bem maior. Seja a âncora que eles tanto sonhavam. E que eles vejam na nossa história, na nossa realidade, porque hoje não somos mais sonho, somos realidade, que eles podem chegar lá. Agora chegar lá com os pés no chão. E não sonhando. Porque um sonho que se sonha só é só um sonho, mas um sonho que se sonha junto é uma realidade. Porque se você vai sonhar só é só você e seu espelho, mas um sonho que você vai transformar uma, duas, três – eu sempre digo para as minhas alunas, quando eu chego na sala, só tem eu e ela, somos duas – vai ter aula. Quando chega dez, eu digo, glória a Deus, eu tenho uma turma. E de cada uma aluna minha eu sei que vou ter mais uma multiplicadora. De dez tenho cem multiplicadoras. Que cada mulher daquela dali se transforme em dez famílias. Então, pelo que eu já vi do projeto, a minha experiência de vida não é só dinheiro, não é só restauração. E sim um resgate. A primeira reciclagem que temos que fazer não é de lixo. Não é confecção de bolsa. Não é confecção de fardamento. E sim uma reciclagem de pessoas. Uma restauração dos seres humanos. Um design da beleza da mulher, da beleza do homem. Um resgate do respeito pelo próximo. Um resgate da cultura. Um resgate do amor da mãe para com seus filhos. Um resgate, até mesmo um dia, na formação de um juiz e de um advogado, que eles olhem na minha história e pensem que mais uma vez – o símbolo deles é uma estátua com uma venda nos olhos. Que eles saibam que estão se formando e que se eu não tivesse uma boa cabeça, um bom espírito, uma boa história, eu poderia ser mais uma traficante, uma assassina, uma desequilibrada, ou mais um Zé ninguém no mundo. Eu sempre digo: Só vive neste mundo quem tem coragem de bater no peito e dizer: Eu sou louco! Porque na verdade, na verdade, muita gente pensa que deficiência física é só aquele que é mutilado, ou que tem uma deficiência no corpo. Mas não, cada um de nós, se for olhar no espelho, tem um pouco de loucura. E foi pensando nessa loucura que a nossa história deu certo. 

 

P/1 – Vanísia, eu vou voltar numa coisa que eu queria que você falasse um pouco. Que é você ter sido campeã brasileira de karatê. Como se deu isto? E você falou que chegou até a faixa marrom. Por que você parou? Conta pra gente.

 

R – Eu comecei a fazer o karatê porque, uma, eu tenho reumatismo e muitas dores nos ossos. O meu vem direto pelo sangue e quando ele chega no sangue o impacto é ou você morrer do coração ou você sentir muitas dores nos ossos. Como minha mãe me botou pra fazer aula de balé desde os cinco anos de idade. E eu era sempre o avesso do que eles queriam. Eu comecei a fazer judô porque era uma coisa que o pastor gostava. Dava disciplina. Era pra disciplinar. Meus irmãos faziam artes marciais. E através do karatê eu vi que podia tirar a agressividade das crianças que eu pegasse na rua. Como lá em Itabaianinha eu deixei 50 crianças, que eram crianças super agressivas, que uma delas chegou para colega minha chamada Mara e disse que se ela não desse o segundo prato de comida ela ia matá-la. Esta criança foi parar na FEBEM. Eu fui e peguei esta criança de volta. Criança não é pra estar na FEBEM, criança é pra estar na escola. Pode me dar esta criança que eu tomo conta dela. Esta criança se tornou meu melhor aluno de karatê. Eu comecei a fazer karatê e Lulu, a filha de Cris, chorava por demais. Eu decidi que esta menina ia ser a melhor artista que tinha, porque estalou os dedos e ela já estava chorando. E como ela era muito bonita, fotogênica, eu dizia: “Lulu, seu cabelo, você tem um trauma no seu cabelo. Seu cabelo é uma vassoura de palha”. Mas se você botar uma câmera no rosto dela, ela é uma menina muito linda. Apesar da agressividade dela. Ela tem um gênio de cão. Mas ela é muito linda! Eu comecei a fazer karatê ela tinha três anos de idade. Comecei na faixa branca, mas eu sempre me destacava porque apesar da minha idade, da minha fragilidade, eu sempre busquei o melhor. Eu sempre treinava mais do que os outros. Só o professor que não sabia que eu treinava mais do que os outros, por causa dos ossos. Como eu tinha os meus alunos para ensinar a única maneira de eu ensinar era chegar na verde. Como eu me destacava bem, o professor viu que rapidão, pela minha idade, eu poderia ensinar. Um belo dia Lulu viu eu treinando em casa e disse: “Tia, posso fazer karatê?”. Eu disse: “Pode, meu amor, mas você só tem três anos”. Aí eu comecei. Dava aulas e chegava em casa ensinava ela e meu filho. Lulu rapidinho pegou. O kata dela era o kata mais perfeito que tinha. O ___. Todos os campeonatos que eu ia levava ela. Só que ela não era de federação nenhuma, de professor nenhum. O professor dela era eu. E ninguém sabia quem era aquela menina que estava ali treinando e ganhava. Eu matriculava ela como na academia do meu professor e ela ganhava. Só que o professor dela era eu, não era ele. Um dia o professor perguntou: “Por que não bota essa menina na academia?”. Eu digo: “Vou botar, agora não que ela está muito nova ainda e não quero que ninguém bata nela”. E ela só se destacava. Destacava. Destacava. Comecei a treinar mesmo para campeonato. Como desde pequena eu me guiava pelo Bruce Lee a minha perna direita é muito rápida. O professor dizia que era uma bomba. E eu treinava muito no saco. E como os meus irmãos ensinavam capoeira e eu tenho maior facilidade com meia lua e com giro, muitas das vezes eu batia no saco e passava. “Vanísia, você vai bater no saco e passar”. “Mas acontece que o saco eu vejo que é uma pessoa. Se eu der uma meia lua ela não vai querer outra. Aí eu vou começar a treinar os pontos vitais”. Por quê? Como eu tinha muito medo de pancada, por causa dos ossos, e agora eu descobri, o médico disse que eu podia esfarelar meus ossos, eu treinei os pontos vitais sem ninguém na academia. E o que eu fazia? Treinava Lulu também. Porque Lulu tem o irmão especial e ele tem sempre dez anos mais do que ela e sempre judiava muito dela. O que eu fazia comigo eu fazia com Lulu. E Lulu fazia com os outros. Só que eu não pensei que o menino poderia crescer e Lulu ficar sempre pequenininha. Foi o que frustrou ela mais. O que acontecia? Como eu treinava os pontos vitais, quando começava o campeonato com dois rounds só eu já tinha terminado. O professor ficava olhando assim. Eu ganhava. Ganhava fácil. Ganhava e ganhava Lulu. Eu sempre dizia: “Lulu, você tem que treinar pra ser a melhor”. E todos os meus alunos eu treinava dizendo pra eles serem os melhores. “Você tem que aprender ganhar e perder. O respeito é acima de tudo. A postura também. Então vocês têm que pensar que quando vem as drogas, as dores, as dificuldades, você vai se alimentar bem e vai sentar e pedir que Deus lhe dê a visão. Na hora do karatê não quero ninguém nervoso. Vocês não olhem pra mim. Mas vocês vão estar sempre ganhando”. Aí era fácil. Todos os campeonatos que ia, se eu levasse um, dois, três, dez, todos eles ganhavam. Isto começou a chamar a atenção dos professores da federação. Como ela não é formada em faixa preta e ganha? Só que eu já tinha um treinamento de televisão. E eles não sabiam. E aí Lulu foi se destacando. Eu também fui me destacando. Só que de 45 quilos eu não passava. Descobriram que a minha agilidade era os 45 quilos. E aí eu, ela, meu filho, mais meu filho adotivo, nos transformamos em atletas caros. Aqueles que o Arquidiocesano, que é uma das escolas mais caras que têm em Aracaju, eles mandam olheiros e compravam os passes deles e levavam. E eu perdia mais um atleta. Mas ninguém me comprava e Lulu, porque ninguém me comprava, também não ia. Era sempre dizia assim: “Não levaram a minha tia também não vou”. E ficávamos nós duas em casa. E as minhas faixas foram ficando mais caras. Se eu pagasse, é isto que eu fazia: Eu comprava uma faixa pra mim e quando Lulu chegasse daqui a quatro, cinco meses ou um ano, na minha faixa, ela herdava a minha faixa. Ela não comprava a faixa dela. Quando meu filho chegasse na faixa dela, meu filho herdava a faixa dela. E o que meu filho, sem vergonha, fazia? Em vez de me devolver a faixa, e devolver a ela, ele dava pra outro coleguinha dele que ele achava que era mais pobre do que a gente. Eu digo: “Menino, eu tenho que ter a minha coleção de faixas. Que eu perdi as minhas faixas”. Aí fui graduando, graduando, até que quando eu cheguei na verde eu já tinha 70 alunos e a federação não sabia. Até que um dia teve um campeonato e meus alunos participaram e ganharam. Só que eu comecei a ser mais cara ainda. Porque eu tinha que ter ônibus para transportá-los, eu tinha que ter alimentação pra eles. Eles já estavam sendo convidados pra ir pra Brasília, pra ir pra Salvador, pra ir pro Nordeste. E cada viagem de Lulu era 600, 800 reais. Cada viagem de meu filho era 500 reais. Cada viagem minha ia ser mais cara ainda. Depois do que aconteceu com meu filho no conselho tutelar, eu pensei assim: Se eu continuar no karatê eu não vou ter como olhar mais pro meu filho. Porque ele vai estar sempre com vergonha. Meu professor da Federação vai perguntar, vai querer saber. Porque meu professor até cabelo __. Tudo isto ele tinha três mil alunos como filhos dele. O que acontecesse ali ele tinha que saber. Segundo a Federação Brasileira, meu filho ia ser expulso, não ia participar mais de esporte nenhum pelo que ele fez. Ele agrediu o mestre dele, não foi a mãe. Segundo, ele agrediu a mãe dele e, terceiro, eu poderia matá-lo se eu quisesse. Então eu pensei: Se eu botar meu filho em trauma, tirar ele do karatê, eu vou jogar ele na rua. Sabendo ainda o que ele tem no pai, ele vai se drogar e chegar na minha casa: Eu sou isto mesmo porque a senhora me tirou do karatê. Então eu preferi sair e dizer que eu não tinha patrocínio. Porque na verdade eu não tinha. E deixar ele. Só que com o tempo, quem ficou com ele achou que ele estava muito caro. Não quis bancar ele. Porque até então ele não tinha “paitrocínio”, ele tinha “mãetrocínio”. Lulu era “mãetrocínio” e “tiatrocínio”. Como eu conheço muita gente rica, de firma, eles patrocinavam o quimono dela, aquilo levava a marca. Eles patrocinavam o lanche dela. Que Lulu já estava tendo que ter lanche balanceado. Lulu não tem este corpo, Lulu era desta grossura, o couro e o osso. Era só biscoito recheado. Este corpo dela foram os cuidados que eu tive com ela. Quando a menina de Cris morreu foi que a gente despencou mais um pouquinho. Porque além de cuidar deles eu tinha que cuidar de Cris, que Cris quase enlouqueceu. Se eu hoje tivesse, eu pedi uma vez uma ajuda a Tales, mas eu acho que não me expliquei direito. Hoje eu posso ter meus alunos e fazer eu mesmo os quimonos. Se os meus alunos, eu pedi uma vez os quimonos, que a __ ia ser conhecida. Porque é assim: se eu tiver dez alunos eles vão entrar num campeonato que tem várias cidades com o nome do patrocinador. E aquelas medalhas, aqueles troféus, vão para a empresa. A medalha fica e os troféus vão para a empresa que patrocina. E aquela criança estuda. E as melhores escolas, como COC [Curso Oswaldo Cruz], Coesi, São Paulo, Arquidiocesano, colégio de fora, e aquela criança, eu tenho uma criança aqui da pia beira, da lixeira, que está em São Paulo há cinco anos. Ela vai estudar inglês, francês, música, aquilo outro. Passou pela minha mão.

 

P/1 – Quais as coisas mais importantes pra você hoje?

 

R – Primeiro que tudo é Deus na minha vida. Segundo, eu agradeço muito, mas muito, muito a Deus. Se antes eu já orava, hoje eu oro mais ainda, pelas pessoas que o Instituto Camargo fez passar por aqui. A terceira é a minha família, que Deus me deu, a mãe Josefa, Cris, Lulu, Emanuel, meus filhos, que mesmo sem estarem comigo nunca vão deixar de ser meus filhos. Eu sempre digo: Um filho não é pra cem mães, mas uma mãe é pra cem filhos. A experiência de vida que eu ganhei. Eu sempre digo que hoje eu sou rica. Eu sou rica. Deixa ver mais. Acho que é só.

 

P/1 – E qual o seu sonho?

 

R – Meu sonho é que um dia, não posso dizer assim, muita gente diz que sou boba, é que meus filhos possam vir a mim e me reconhecer como a mãe que eu sou. Porque mesmo estando distantes eles sabem, eles não sabem, mas eu sempre peço a Deus que onde eles estiverem Deus dê a benção a eles. Matinal, da noite. Que eu estou orando por eles 24 horas. Que no dia que eles quiserem me abraçar, receber a minha benção, as minhas portas vão estar sempre abertas. Hoje, praticamente, eu sonho em estar formada. Que o projeto de vida, do outro lado, vai ser bem mais esperado do que o Instituto Camargo pensa. Espero que com este parceiro que vai entrar agora venha se concretizar o sonho de mais crianças saírem das ruas. De mais crianças deixarem de ser exploradas. De que elas  como Lulu, teve uma oportunidade na vida de hoje estar fazendo o segundo ano. Mesmo forçado, sem querer estudar, fazendo o primeiro e segundo ano e ver que ela é uma criança que não tinha condições de estudar num colégio particular e hoje tem um dos melhores colégios. Tem uma realidade de ter um emprego mais tarde que ela não precise procurar. Ela já está como primeiro emprego dentro desta realidade. Que lá no nosso espaço vão ter mulheres que deram certo. Mães, avós que estão ali tirando o seu sustento. Criança porque eles disseram que eles não têm condições de acontecer. E eu sei que não tem condições, mas que o coraçãozinho sempre vai falar mais alto. E eu tenho certeza que num retalho de pano sempre vai estar ali um quimono. Que este quimono muitas vezes vai resgatar uma criança. Que esta criança vai ser um adulto feliz, um adulto que teve oportunidade. Um adulto que o Instituto Camargo Corrêa deu oportunidade a Vanísia, a Cris e outras, outras que aqui passaram. Que esta criança mais tarde não vai só ler a história do senhor Camargo Corrêa, mas vai ler a história do bisavô deles, que sonhou em fazer uma estrada, mas que hoje, nesta estrada dele vai estar mulheres, crianças, que estão realizando os seus sonhos. E mais tarde eu creio que ele será um doutor, um juiz, uma médica. Como hoje temos aqui na associação a assistente social formada, que passaram pelo Instituto Camargo Corrêa. E que daqui a mais cinco anos provavelmente, que é cinco anos ou seis anos pra eu me formar, que eles venham nos visitar, provavelmente a gente pode ter sido transformados em (homologada?). E que aqui vai estar não só homologada, mas vai estar o lado também uma vila olímpica. Que ali vai ter crianças com a vida sendo transformada. E que muitos outros projetos se inspire e que possa transformar o seu sonho em realidade.

 

P/1 – Vanísia, como foi contar sua história pra gente?

 

R – A minha história é um sonho. Porque meu pai participou do “Conte a minha História”, pelo Banese [Banco do Estado de Sergipe], e ele esqueceu da melhor parte. Da parte do trauma que ele criou nos filhos, na minha cabeça. Mas nem por isso eu deixei de ser feliz, nem por isso eu deixei de sorrir. Nem por isso eu deixei de me informar. E nem por isso eu deixei de contar a história da minha mãe e a história dele. Ontem, se você viesse perguntar sobre a minha história, eu ia chorar muito, não ia encarar nem você nem a câmara. E ia ficar com muita vergonha, como há uma semana atrás, dentro de um quarto de hotel, eu falei pra Alice e ela pensou que eu já tinha resolvido este problema. E se propôs, como advogada, tomar o caso, tomar as dores, e ir em frente e mostrar para os meus filhos quem eu sou. Pra mim foi como se eu tivesse tirado um peso. Não era um sonho eu contar a minha história. Mas eu tinha que contar outra história que meu pai não contou. A história mais feliz. Hoje ele está com 88 anos. Está numa cadeira de rodas. Me pede perdão todos os dias. Mas eu disse pra ele: Eu não tenho raiva dele. Nós dois vamos ser um história que vai sempre caminhar lado a lado. Ele pode morrer, mas eu posso morrer antes dele. Uma coisa você pode ter certeza. Um dia, com certeza, meu filho vai acessar o site. O juiz pode não dizer pra eles o que aconteceu. Mas esta vai ser uma história que vai ficar pra os meus netos, meus bisnetos. Hoje a minha história, já vai ser uma história, que as minhas mulheres, eu vou dar aulas de informática, e os meninos lá vão poder saber a história de Daiane. Quem sabe com esta história a irmã dela não possa acessar o site e realizar tanto o sonho dela e da mãe dela. Não de morrer, mas de realmente acreditar que, eu sempre falo para as minhas alunas: Cada dia que o sol nasce é o dia que a gente passa numa estrada, algo novo acontece. Um dia tem uma pedrinha, no outro dia tem um espinho, outro dia tem um cipó, outro dia tem uma cobra. No outro dia tem chuva, noutro dia tem sol. No outro dia tem capim, no outro não tem. No outro tem __, no outro tem uma estrada asfaltada. Mas a nossa vida é como uma estrada: Nunca é igual. Tem sempre algo diferente. Que provavelmente você, que hoje está me entrevistando, jamais poderia escutar isso de alguém. 

Eu resumo a minha história como uma louca feliz. Que fez um sonho ser transformado em realidade. Que hoje a gente ainda não fechou cem por cento da nossa realidade, mas eu creio que 35 por cento a gente adiantou. Só do Instituto Camargo Corrêa não ter desistido do nosso sonho. Ter apostado que ia dar certo. Ver o brilho de seu Jair e de seu João, de seu Francisco, da filha de seu Camargo Corrêa ter escutado a minha história. O banco BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], dona Lílian em nome da Taques. Do Instituto Realice, de vocês que estão fazendo a matéria. Pra mim é muito gratificante. Pra mim é o melhor presente que um ser humano pode ter ganho. Porque muitas das vezes a pessoa pensa que ganhar um presente é só ganhar na loteria esportiva. Não sabendo eles que o maior presente que um ser humano pode ganhar na vida é o meu. É o de transformar tristeza em alegria. De transformar revolta num abraço, num beijo. De transformar sonho em realidade. E de transformar muitas vezes um pedaço de pano, através da geração de emprego e renda, a transformação de uma família inteira. Como aqui na associação, ___, a gente está fazendo.

 

P/1 – Vanísia eu queria agradecer em nome do Instituto Camargo Corrêa e do Museu da Pessoa pelo seu depoimento. Parabéns pela sua história de vida. Ela é maravilhosa. Muito obrigada.

 

R – Eu que agradeço.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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