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Bordando a vida

História de: Laura Menezes Krawaski
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/03/2019

Sinopse

Em seu relato, Laura Menezes Krawaski relembra momentos importantes de sua vida: sua infância alegre com família, sua paixão por costura, com o que trabalhou a vida toda, seu casamento e filhos. Por fim, conta sobre seu amor por seus netos e bisnetos, a quem dá tudo de si.

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História completa

P/1 - Vamos agora começar a conversar com a senhora e tentar trazer lembranças do seu passado, da sua vida, da sua infância, quer dizer, tudo que foi feito nesses seus 83 anos. Então o que eu vou pedir agora é que a senhora me diga o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R - Bom, o meu nome é Laura Menezes Krawaski, nasci na Barra Funda.

 

P/1 - Em que ano, Dona Laura?

 

R - 1909.

 

P/1 - Agora os seus pais, como era o nome do seu pai e o nome da sua mãe?

 

R - O meu pai é Antônio Menezes e a minha mãe Maria Pacheco de Menezes.

 

P/1 - E seu pai nasceu aonde?

 

R - Ilha da Madeira.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - A minha mãe [nasceu] em Santos.

 

P/1 - A senhora teve muitos irmãos, Dona Laura?

 

R – [Contando] comigo, somos em oito.

 

P/1 - Quantos rapazes e quantas moças?

 

R - Quatro homens e quatro mulheres.

 

P/1 - Estão todos vivos?

 

R - Não, estão vivos só três.

 

P/1 - A senhora é a mais velha deles?

 

R - Os mais velhos faleceram.

 

P/1 - Mas hoje a senhora é a mais velha?

 

R - Hoje eu sou a mais velha.

 

P/1 - E quando a senhora morava na Barra Funda, como era a sua vida com a sua família na Barra Funda? Como era vida na Barra Funda naquela época?

 

R - Era boa, brinquei bastante, estudava...

 

P/1 - A senhora morava em que rua da Barra Funda?

 

R - Rua Brigadeiro Galvão.

 

P/1 - E como era o bairro naquela época? As ruas?

 

R - O bairro era bom, era calçado, iluminado, era bonzinho.

 

P/1 - A senhora estudava na escola do bairro também?

 

R - No mesmo bairro, não me lembro o nome da escola, mas estudei perto.

 

P/2 - Como é que era o dia a dia na escola? As aulas? Os colegas?

 

R - Era bom. Eu achava bom, eu sempre fui muito comportada, sempre tirei nota alta, porque era muito bem-comportada. Meu pai era muito enérgico, então a gente tinha que andar muito direitinho. Eram boas sempre as notas, eu gostava bastante da escola. Mas fiz só até o quarto ano.

 

P/1 - Dona Laura, e o seu pai trabalhava com o que? Era lá na Barra Funda mesmo que ele tinha negócio, onde é que ele trabalhava?

 

R - Trabalhava no Cambuci, ele era encarregado do almoxarifado.

 

P/1 - No Cambuci?

 

R - No Cambuci.

 

P/1 - E como é que ele fazia para ir da Barra Funda para o Cambuci?

 

R - Era um pouco difícil. Tinha que tomar duas conduções, porque... Primeiro morava perto, né? Perto do serviço, porque ele morava no Cambuci, [aí] era pertinho do serviço, depois mudamos e ele construiu a casa na Casa Verde e tinha que tomar duas conduções para lá e para cá. Ele levava a marmita para esquentar no lugar onde trabalhava, comia ali porque não tinha tantas casas de lanche que nem agora, não tinha tanta lanchonete, pensão... Não tinha que nem agora, era muito difícil, então ele tinha que levar marmita, esquentar no serviço e almoçar.

 

P/1 - E qual era a condução que ele pegava naquela época?

 

R - Ele pegava uma mão na porta onde ele trabalhava, descia na Praça da Sé, andava um pedaço da Rua Quinze de Novembro e ia tomar um bonde de Casa Verde no Largo de São Bento, onde tem uma igreja grande hoje, então o ponto do bonde era ali, não tinha ônibus, nada, naquele tempo, nem lotação tinha ainda. Depois que começou a vir lotação, né?

 

P/1 - Então ele pegava o bonde que vinha para a Casa Verde?

 

R – É, tomava duas conduções, era muito difícil, quer dizer, do Cambuci até a Praça da Sé era fácil, mas do Largo de São Bento até a Casa Verde era muito difícil o bonde, tinha pouca condução, às vezes ficava uma hora, uma hora e meia, às vezes até 2 horas para chegar, porque o bonde descarregava no caminho e até entrar na linha [de novo] demorava, aí ele chegava em casa tarde para jantar.

 

P/1 - E esse bonde a senhora se lembra o caminho que ele fazia para chegar na Casa Verde? Ele ia por onde?

 

R - Ah, ele dava a volta no Largo de São Bento, descia a Rua Florêncio de Abreu, ia pela Estação da Luz, Rua José Paulino, Rua dos Italianos e depois Avenida Rudge, esse era o trajeto.

 

P/1 - Era uma viagem...

 

R - Era uma viagem, chegava em casa cansado, tarde, né? Muitos anos depois é que veio o ônibus, então ficava um pouquinho mais fácil, porque era muito povo [que] morava no bairro onde eu morava, então aqueles bondes vinham lotados. Vinha 5 [pessoas] sentadas espremidas e cinco de pé no estribo, era uma tortura para tomar uma condução. Eu ainda era pouquinho mais fácil, porque eu ia pouquinho mais tarde. E eu trabalhava lá na Rua São Bento, então era só atravessar a rua e já estava onde eu ia trabalhar. Mas era muito difícil a condução, custou muito para melhorar. Nós éramos acostumados a morar no Cambuci, com rua calçada, iluminada, fomos para lá, não era calçada, não tinha luz elétrica...

 

P/1 - Não tinha luz elétrica?

 

R - Não tinha. Era os lampiões belgas que se chamavam, bem grandes, que iluminavam toda a sala. Quando o chovia era uma tortura, porque tinha um pedacinho para andar a pé do ponto do ônibus até a minha casa, não era muito longe, mas também não era muito pertinho. A gente tinha que pisar naquele barro, então nós chorávamos escondidos do meu pai para ele não ficar triste, porque ele tinha construído a casa com tanto sacrifício, por isso a gente não falava nada, mas eu muitas vezes chorei escondido [por ter que] pisar naquele barro. Depois veio a luz elétrica, foi uma festa o dia que inaugurou a luz elétrica. Nossa, meu pai já tinha toda a instalação pronta em casa, foi uma verdadeira festa. Depois demorou um pouco veio o calçamento, aí o bairro começou a progredir, porque tinha calçamento, aquilo começou a crescer. E quem viveu naquela época e vê hoje [como está] o bairro, não diz que é o mesmo. É uma cidade. Se você vai lá para cima vê quanta casas de negócios tem, muitos carros, tem igreja, igreja custaram muito para construir [também]... Meu pai era muito católico, porque ele foi criado em colégio de padre, então ele era muito católico. Pisava naquele barro, mas não faltava a missa, né? E depois foram nós, conforme íamos crescendo, íamos trabalhando, já saíamos do bairro para trabalhar. Então assim que era a nossa vida.

 

P/1 - E tinha festa em fim de ano, qual era a época de festa da sua família em casa?

 

R - Ah, o meu pai respeitava muito o dia de Páscoa, porque ele era muito católico. Na Páscoa e na Sexta-feira Santa ninguém fazia nada, só fazia aquela bacalhoada a moda Portuguesa, vinho e pão, que era o regime que tinha que guardar... Nem a casa ele deixava varrer, nós tínhamos que guardar. De tarde íamos na igreja, de noite tinha a procissão e nós tínhamos que ir na procissão. Mas era uma vidinha boa vida, viu. (risos). A gente achava muito bonita aquela procissão.

 

P/1 - Onde era a procissão?

 

R - Era lá na única igreja que tinha na Casa Verde mesmo. Depois construíram outra mais para cima, então agora o bairro ficou com duas igrejas boas.

 

P/1 - Descreve essa procissão para a gente? Como é que era?

 

R - A procissão era o padre com aquele... Agora não me lembro nome... Aquele cálice que vinha todo coberto, tinha a congregação que tinha uma capa vermelha por cima e velas acesas. Então esses que eram da congregação ficavam todos perto do padre e corriam as ruas do bairro, pisando no barro. Só que era barro, mas era liso, não tinha buraco, podia andar. Mas era uma festa, depois tinha os dias que tinha quermesse. Era uma festa para o bairro.

 

P/1 - Como era a quermesse?

 

R - Era fora da Igreja mesmo.

 

P/1 - E o que se fazia na quermesse?

 

R - Se vendia prenda, tinha barraca de doce, de bolo, tinha prendas, o padre pedia na hora da missa, então todos davam alguma coisa, aquelas que faziam os doces que davam prendas... E todo aquele dinheiro era para ajuda da igreja. Aí veio muita coisa para o bairro. Hoje estamos beleza lá, ninguém diz... Quando eu ando lá para cima, eu digo assim “Meu Deus do céu, nem parece aquilo que foi”. Tinha o rio Tietê, tinha uma ponte de madeira e não era nada calçada, e não tinha bonde camarão aquele tempo, aqueles bondes fechados, vocês lembram, né? Então o bonde, quando entrava assim, ele dava um pulinho, eu tinha muito medo, eu pensava que eu ia cair no rio, sempre me estremecia. Depois que calçaram, começou a vir os ônibus, já tinha lotação. E quando era o tempo das enchentes, eu ia para casa da minha tia, porque enchia toda aquela parte e a gente tinha que passar de barquinho, tinha barco da prefeitura, pagava 400 réis naqueles bancos de lado, ele atravessa onde hoje é uma avenida. Aquele barco passava na água, calcule a enchente que era. Então, como eu era muito medrosa e sou até hoje, tenho medo até da minha sombra, eu passava de barco e ia para casa da minha tia, aí quando já começava a passar bonde eu vinha para a casa.

Mas foi um problema, no começo foi muito difícil, mas mesmo assim a gente se sentia feliz, porque meus pais se davam muito bem, graças a Deus, sempre teve muita harmonia em casa, muito amor, muita compreensão... Não tinha briga [entre] meu pai e a minha mãe, nunca vi os dois discutindo e nós mesmos éramos muito obedientes. Ele era um pouco severo, porque ele foi criado em colégio de padre. Mas mesmo assim nós seguíamos, nunca contrariávamos o que ele dizia para nós, nós obedecíamos a tudo. E vivíamos muito bem, graças a Deus.

 

P/2 - E esses seus irmãos, como é que eram? Eles brigavam?

 

R - De vez em quando tinha uma briguinha, né? Sempre tinha aquele que a gente se dava melhor, aquelas briguinhas, mas assim, escondido do meu pai e da minha mãe, na frente não, porque eles eram muito severos, então a gente brigava quando eles não viam. Mas não chegava a vias de fato, não, às vezes um colocava apelido e a gente achava ruim, entendeu? (risos)

 

P/1 - Dona Laura, a senhora depois foi trabalhar... A senhora foi trabalhar com que idade?

 

R - Eu fui trabalhar já com 15 anos, porque fui aprender costura muito menina, saí do grupo [escolar], já fui aprender a costurar. Então, eu já sabia alguma coisa e queria trabalhar na cidade. E aí já comecei a trabalhar na cidade.

 

P/1 - E a senhora foi trabalhar aonde?

 

R - Eu trabalhei primeiro na rua São Bento, primeiro lá na Casa Alemã, uma casa que hoje ainda tem, parece que é Anglo Brasileira, se não me engano, mudou de nome no tempo da Guerra, o nome dela era Casa Alemã, mas depois da guerra, precisava mudar o nome, né? Então é Anglo Brasileira, foi a primeira casa que eu fui trabalhar. Era uma casa de muito luxo, costura muito fina para a alta sociedade. Então eu ficava encantada com aqueles vestidos ricos em bordado, eu já aprendi bordar miçanga, já bordava aqueles vestidos caros, né? Então, eu me sentia feliz de estar fazendo aquilo, porque eu gostava muito. Mas depois do serviço era muito pesado para mim, porque hoje tem a lei que paga se trabalha depois da hora, não pagava umas horas extraordinárias, e eu era muito menina também, meu pai não deixava. E como eu tinha arrumado um cartucho para entrar nessa oficina... Que era um pouco difícil, mas eu arrumei um cartucho e entrei... A primeira vez quando que eu fui falar com a contramestre, ela falou “Não, mas você é muito menina para vim aqui na oficina”, e eu disse “Não, mas eu já sei costurar”, mas ela não acreditou, porque eu fui aprender muito novinha, eu ia na escola e já ia aprender com uma costureira perto de casa. Aí eu arrumei esse... Porque tinha a parte que trabalhava para a loja para vender a roupa feita... Mas eram vestidos lindos, aquelas vitrines que paravam muita gente para ver, porque era um encanto aqueles enfeites, que, conforme a época, eles arrumavam... Eu fui [trabalhar] na encomenda de fora, melhor ainda. Então as meninas me chamavam de galinha branca, porque chegava naquela hora, contramestre dizia “Laura pode ir embora” e as outras ficavam, entendeu?

Mas como era um pouquinho puxado e eu comecei ficar muito magrinha, então meu pai quis que eu saísse. Aí fui trabalhar no Largo de São Bento, que era pertinho do Bonde, em um instante a gente tomava o bonde e não ficava depois da hora. E também era uma oficina boa, os vestidos finos, tudo... Trabalhei lá 4 anos e foi assim a minha vida. Foi uma vida boa, depois comecei namorar...

 

P/1 - É, agora conta sobre o namoro.

 

R - Comecei a namorar [quando] eu tinha 14 anos, foi na revolta de 1924, foi em uma época muito triste, porque não o meu bairro não era muito ambientado, começou a faltar muita coisa. Em casa, graças a Deus, nós não passamos necessidade, porque tinha o mantimento já que meu pai tinha feito. Que tinha a cooperativa da Life e ele fazia as compras para o mês inteiro e bastante, graças a Deus, era bastante. Depois os meus tios que fugiram, que moravam perto do Palácio, foram para a nossa casa. Então a nossa casa parecia um hotel, dormia a maioria no chão, porque não tinha cama para todo mundo. Chegava a noite, a gente ouvia aquele tiroteio, tiro de canhão, foram 24 dias de martírio, aqueles canhões que não deixava a gente dormir. E tinha lá no bairro tanta gente que fugiu dos Campos Elíseos, hoje Campos Elíseos, fugiu tudo porque ali tinha o Palácio do Governo, e eles bombardeavam o palácio, então quem morava teve que sair. Quem tinha parente lá no bairro onde eu moro, ia para [ficar] na casa de parente.

Mas, mesmo assim, nós passamos uma vida boa porque a gente pulava muita corda, jogava muita peteca, porque não tinha televisão naquele tempo, não tinha rádio. Então a gente se divertia na rua, não tinha condução, os primos moços, mais velhos do que eu, viravam uma corda e a gente pulava, jogava peteca... Tudo quanto era jogo a gente fazia. Eu sei que nós passamos muito medo com aquele bombardeio, eu tinha medo que viesse um canhão, qualquer coisa, e bombardeasse a casa... A gente tinha um pouquinho de medo, porque estava perto do bairro, né? Mas no bairro não aconteceu nada. Até que enfim, graças a Deus, passou. Aí eu fui trabalhar, arrumei esse meu marido, foi o primeiro namorado que eu tive, eu comecei a namorar com 15 anos e casei com 19. Nunca tive nenhum namorado, foi o primeiro namorado e com ele eu me casei. Fiz trinta [anos casadas], fiz bodas de prata e fiquei 34 anos casada, depois ele, que era um homem forte, cheio de saúde, cheio de vida, pegou um câncer no pâncreas e faleceu. E eu fiquei viúva até agora.

 

P/1 – E a senhora conheceu o senhor Krawaski lá no bairro da Casa Verde mesmo?

 

R - Não. Ele não morava na Casa Verde, morava em outro bairro, tinha que tomar condução para vir namorar.

 

P/1 - Como era o namoro?

 

R - O namoro era assim, um de lado e outro do outro, nada de mãozinha, de beijo, não, e meu pai sempre passando [por perto]. Eu tive um namoro que eu não sei como é que eu gostei do meu marido e me casei, eu era tão vigiada... Porque eu tinha a minha irmã velha, mas eu que comecei a namorar primeiro, né? Então eu era vigiada, um sentava lá e outro sentava aqui e quando era 8 horas, o meu pai pegava o despertador, vinha perto e começava a dar corda no despertador, aí ele já sabia que tinha que ir embora (risos). Pegava a palheta, a bengala, já se despedia... E nada de acompanhar no portão, não, se despedia ali, só com boa noite, não tinha beijinho, não tinha nada (risos). E assim me casei...

 

P/1 - Não tinha beijinho e tchau, tchau (risos)

 

R - Era só tchau, tchau, só isso. Eu fui muito vigiada mesmo, porque fui a primeira. E quando íamos dar uma voltinha pelo bairro, todas as minhas irmãs iam junto, aquela turminha toda atrás andando, sabe? Eu era bem policiada mesmo, se eu quisesse fugir não dava (risos).

 

P/1 - E como foi a festa do casamento, a senhora se lembra, dona Laura?

 

R – Eu casei em casa, que era a moda, casava na igreja, mas era bonito casar em casa, então como eu me casei em janeiro, que era o tempo das enchentes, eles ficaram com medo que desse uma enchente e atrapalhasse meu casamento para os convidados... Então a minha sogra morava em um bairro que era calçado, iluminado, um bairro bom... Eu quis casar em casa porque achei bonito e estava na moda tudo muito bem enfeitado, o padre, uma almofada muito bonita que a minha irmã que bordou, um casal de príncipes, muito bonito... O padre quando chegou no altar falou “Oh, mas que almofada linda”, teve bufê... Mas não fomos viajar, porque o meu pai não me deixou ir viajar, não quis, não queria se separar, então eu nem fui. Já fui direto para a casa e morava perto da minha sogra em uma casa boa, sentia muita falta da minha mãe e do meu pai, porque era um pouco longe, tinha que tomar bonde para ir na casa deles. Depois de uns anos, quando eu tive filho e tudo, aí que fui morar na Casa Verde.

 

P/1 - Qual foi o bairro que a senhora morou quando casou?

 

R - Cambuci.

 

P/1 - Depois é que veio morar na Casa Verde?

 

R - É, depois eu fui morar um pouco mais adiante do Cambuci, aí que eu fui para Casa Verde e nunca mais saí, estou até hoje.

 

P/1 - Quantos anos a senhora já está na Casa Verde?

 

R - Há muitos anos, não sei bem agora no momento, mas muitos anos que moro na Casa Verde. Eu casei e fui morar fora do bairro, mas depois quando eu voltei para a Casa Verde, já estava bem adiantada, iluminada, calçada, tinha negócios, né? Por isso que eu vim, senão, por causa das crianças, eu não vinha, porque não tinha água encanada, tinha poço com bomba, eu tinha medo de dar água do poço para eles. A minha mãe dizia “Vem morar para cá”, mas eu tinha medo de ir. Depois já veio a água encanada, melhorou muito o bairro, então eu vim morar e fiquei até hoje.

 

P/2 - E depois de casada o que mudou na vida da senhora?

 

R - Depois de casada?

 

P/2 - É.

 

R - Eu tive uma vida praticamente boa, porque tinha um marido bom, tive filhos bons, perfeitos, sempre vivi bem com meu marido, com os meus filhos e tinha uma vida... Não éramos muito ricos, mas dava bem para viver. Porque quando os meus filhos eram pequenos, eu tinha que cuidar deles e não costurava, mas depois que começaram a ir para a escola, eu comecei costurar por minha conta. Então [com] nós dois trabalhando, graças a Deus, dava para a gente viver com um certo conforto, né?

 

P/1 - E o seu marido trabalhava com o que?

 

R - Ele trabalhava na General Carneiro. Primeiro trabalhava na loja e nós começamos a namorar, depois a loja fechou, ele trabalhava na rua General Carneiro, que agora parece que mudou de nome... Tinha um mercado embaixo. Ele lá trabalhou muitos anos mesmo, de lá ele saiu para morrer. Ficou pouco tempo doente, veio logo para matar, sabe? E agora eu vivo assim... De noite, eu vou dormir na casa do meu filho, meu filho passa de carro à noite e me leva, e de manhã, eu venho a pé para [fazer] exercício, faço uma boa caminhada, o médico me mandou andar para exercitar. Então eu levanto cedo, tomo café na minha nora, venho andando, faço as minhas comprinhas de loja, já vou para casa com a sacolinha com tudo. Aí entro em casa e não saio mais, só se eu tiver uma consulta marcada no médico ou dentista, aí eu fico quietinha onde eu moro. Quando é 5:30, mais ou menos, ele passa e me leva de carro para dormir porque aí eu já estou cansada. O domingo eu passo com meu filho e com a minha nora, as vezes eles vão passear e eu vou junto. E assim é a minha vida.

 

P/1 - E durante o dia que a senhora fica na sua casa o que senhora faz?

 

R - Ah, eu faço a minha comidinha. Eu gosto de fazer a minha comidinha. E costuro, fico sempre quietinha costurando, nem tenho televisão para não perder tempo. Costuro para as netas, quando acaba as das netas, para as noras, quando acaba as das noras, para as irmãs. Então tenho sempre o que fazer, todo mundo sempre fica em cima falando “Agora é minha vez, agora é a minha vez!”, acabo a de uma, começo a de outra. E assim eu fico quietinha costurando lá e passo a minha vida assim. E já faz muitos anos que eu estou vivendo assim e me sinto feliz assim.

 

P/1 - A senhora participa de alguma associação religiosa, caridade?

 

R – Não, não participo. Deixei até de ir na missa por não ouvir direito. Eu não ouvia direito, então eu ficava nervosa de ir na missa e não escutar o que o padre falava. Eu me desacostumei a ir na missa, mas eu não deito sem fazer as minhas orações, em dias de festas eu vou à missa, vou fazer minha confissão na Páscoa, minha comunhão, isso eu não deixo de fazer. É assim a minha vida.

 

P/1 - Dona Laura, me diga uma coisa. Tem algo que tenha marcado muito a vida da senhora? Que tenha transformado muito a sua vida que a senhora se lembra?

 

R - O que eu mais achei importante foi quando nasceram os meus filhos, achei muito importante e fiquei muito feliz. Ainda mais porque meu marido queria menino e veio menino. Então fiquei muito feliz.

 

P/1 - Quantos meninos?

 

R - Eu tive dois e um perdi antes, não chegou a vingar. Então tive só dois, depois eu precisei ser operada e não pude ter mais. Fiquei só com esses dois. Me dou bem com os dois, graças a Deus, são muito bons para mim. E não tem motivo para queixa, as minhas noras também são muito boas, os meus netos, eu adoro meus netos. Viviane é a minha afilhada de crisma, né? E o Junior então... Ah, ele agora vai viajar sempre lá para Águas da Prata. Sabe que eu fico triste, porque eu sou muito agarrada com meus netos, sabe? Eu adoro meus netos, para mim serão sempre pequenos (risos). E esse é tão carinhoso. O Amauri também é muito carinhoso, o mais velho. Eles são muito bons para mim. Então eu dou tudo de mim para eles. Tudo de mim. A minha neta é danada, para costurar para ela dá um trabalho, tira aqui, tira alí, mas eu faço todas as vontades dela e no fim dá tudo certo.

 

P/1 - A senhora tem quantos bisnetos, dona Laura?

 

R - Eu tenho 3.

 

P/1 - E já são grandes os seus bisnetos?

 

R - Não, são pequenininhos. Amanhã vai ser o aniversário de uma. Eu tenho quatro bisnetos, tenho o mais velho de 12 anos. Uma coisa interessante, a gente gosta dos netos e depois gosta dos bisnetos também. Eu adoro os netos. Tem que ver como eu gosto. E dos bisnetos eu também gosto, vai descendendo o amor. Eu gosto de todos e acho que todos me querem muito bem também, porque todos me tratam muito bem. Então eu me sinto feliz. A única coisa que eu sinto muita falta é do meu marido, porque nós nos dávamos muito bem. Éramos muito agarrados, né? Então sinto muita falta. Eu gosto de costurar por causa disso, porque eu me distraio. Quando não tem costura para elas eu faço aventalzinho, faço pano de louça, pegador de panela, estou sempre inventando uma coisa. Não sei, por exemplo, sair na porta e ir na casa de vizinhos, me dou bem com todo mundo, mas eu gosto de ficar no meu cantinho, sossegada.

 

P/1 - E tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de fazer nada na sua vida, alguma coisa que a senhora imagina que é um sonho que a senhora gostaria de realizar?

 

R - Meu sonho era ver os [meus] netos todos casados e felizes. Esse era o meu sonho, né? Tem só um solteiro, que é o mais novo. O resto é tudo casado. Todos são bons, estudam.

 

P/1 - A senhora achou que valeu a pena vir aqui hoje e dar esse depoimento? O que a senhora achou disso?

 

R - Eu achei muito bom, me distrai muito, porque eu fiquei muitos anos muito fechada por não ouvir direito. Eu me fechei muito. Agora o médico me mandou colocar o aparelho, eu escuto um pouco melhor, mas eu escuto. Por exemplo, a televisão, eu via, mas não ouvia nada, então eu não sabia o enredo, mais ou menos só. Agora eu ouço a televisão direitinho, as novelinhas, eu gosto da das 6 e da das 7, depois não vejo mais nada. Se tem algum conserto para fazer, eu vou consertar, e tem sempre. “Encurta o vestido”, “Deixa mais cumprido”, “Prega o botão”, eu estou sempre lá com a agulha na mão. E deito cedo, porque levanto muito cedo. Então fico cansada e aí deito cedo e levanto cedo. Meu filho fala “Eu não sei porque a senhora levanta tão cedo” e eu disse “Mas eu não sei dormir”, eu quero viver fora da cama logo. Já vou para o banheiro, tomo meu banho, meu café, arrumo minha caminha, deixo meu quarto arrumadinho e já me mando para a minha casa. No caminho faço todas as compras para não sair outra vez, né? E assim é minha vida.

 

P/1 - Dona Laura, muito obrigada pelo seu depoimento, nós agradecemos.

 

R - O prazer foi todo meu, eu me senti muito feliz porque passei umas horas muito felizes. Conheci aqui o colégio por dentro, porque passei muitos anos aí fora, mas aqui dentro eu nunca pensei em entrar, então para mim foi muita felicidade de conhecer. Todos são muito bons, todos muito alegres, todos muito dispostos. É um ambiente muito gostoso. Eu vou para casa muito feliz e vou dormir bem essa noite (risos).

 

P/1 - Obrigada, então, Dona Laura (risos).

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