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História

Bordadeira do morro São Bento

História de: Beatriz de Freitas Leão Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/02/2005

Sinopse

Lembranças da infância em Portugal, na Ilha da Madeira. As lições de bordados. Os namorados e o casamento com um marceneiro. Vinda para o Brasil e a viagem de navio na segunda classe. O trabalho de bordados para fábricas de enxoval. O emprego do marido no porto e a construção da casa no Morro São Bento. Vista de Santos. Trabalho como revendedora da Avon. A morte do marido. As fontes de sobrevivência: a aposentadoria do marido, as vendas da Avon e a confecção de bordados. Viagem para Portugal e a visita às irmãs. A volta para o Brasil onde tem os filhos e netos. Montagem de equipe de bordadeiras do Morro.

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História completa

Identificação

Meu nome é Beatriz de Freitas Leão Pereira, nasci no dia 19 de outubro de 1924, na Ilha da Madeira, no Funchal, freguesia de São Martim, em Portugal. Nesse tempo ainda davam o nome de São Martim, agora é tudo Funchal. Por isso que pros antigos a gente tem que dizer no endereço de mandar uma carta, São Martim. Melhor pra os correios entregar tudo direitinho.

 

Nome e atividades dos seus pais

Meu pai era António Pinto Leão e minha mãe, Matilde de Freitas. Meu pai era dono de uma padaria. Minha mãe, no começo ela ajudava um pouco na padaria e depois ela se dedicou ao bordado. Era bordadeira. Só tenho irmãs. Éramos seis, faleceu uma há pouco, a mais velha. E somos em cinco irmãs. Quatro estão lá na Ilha da Madeira.

 

Descrição da casa

Eu morava ao lado da padaria, do negócio do meu pai. Não era bem como é agora. Era um pouquinho mais simples. Era na estrada Monumental, quem for à Ilha da Madeira, era a primeira estrada à beira do Funchal. Você sai do avião e já chega no centro do Funchal. Aí segue a estrada Monumental. Tinha uma escadinha, uma sala grande que nem essa que era a padaria. E ao lado tinha a moradia. Ali o meu pai trabalhava, era moço novo, tinha vinte e poucos anos, e três funcionários. A cozinha era grande. Na data que o meu pai deixou da padaria, aquela sala que era a padaria ficou uma cozinha. Se cozinhava na lenha e tinha aquela chaminé da padaria. Os fornos não eram elétricos, eram esquentados com pinheiro. Eles cortam com as serras, trazem aquilo de caminhão, comprava e esquentava o forno. E a mesma coisa, cozinhava na mesma lareira que tinha naquele espaço. Não era classe rica, mas os ricos eram a mesma coisa. Não tinha quase nenhuma diferença, só nas sobremesas. A gente cozinhava na lenha essa comida, daí talvez o gosto. Pode ser.

 

Lembranças da infância

Ah, lembro muito bem. Esse senhor que era funcionário do meu pai que amassava o pão, porque naquele tempo não tinha máquina. Era com a mão. Um ou dois sacos de farinha, num espaço de madeira, davam o nome de masseira, parece. Depois o meu pai desistiu, dava muito trabalho. E esse senhor veio aqui pro Brasil, seu José. Eu lembro de sacudir por ele e dizer: "Ah seu José, faz um pãozinho bem pequenininho" Então ele fazia um pãozinho bem menor que essas médias. Era o primeiro que saía do forno. Aí passava manteiga e me dava. Eu lembro do gosto do pão. Eu tinha uns cinco anos. Depois teve aí uma guerra, uma revolução com Portugal mesmo. Lisboa com a Ilha da Madeira. Eu lembro que nessa data o meu pai ficou muito cansado, muito trabalho e o médico disse que ele fechasse a padaria, que ele estava muito doente. Ele começou com um negócio de bar e mercearia. Depois novamente pra uma padaria grande. Aí já não era nesse local. Era sócio com outro senhor, a responsabilidade não era só pra ele. Não trabalhava tanto. Era maior, mas tinha mais funcionários. Aí ele ficou bom. Era muito jovem, muito trabalhador. Aquela vaidade de ter casas, fazendas e ter todo conforto pra família, um orgulho, uma vaidade, uma necessidade. Eles trabalhavam demais. De noite e de dia, não contavam horas de trabalho. Isso pra sobreviver, a família. Graças a Deus, veio a guerra de 40 e nós não passamos nenhuma necessidade.

 

Reflexões sobre as dificuldades advindas da guerra

Vocês que rezem pra Deus pra não chegar os horrores da guerra. Não a guerra, os horrores O governo começa a mandar a comida do país para o estrangeiro, pra onde está a guerra. Que lá o povo não trabalha, não cultiva e os outros países tem que ajudar. Então nessa data era Salazar que era o presidente de Portugal e o que ele fazia? Mandava o alimento de lá pra ajudar a Inglaterra, a Alemanha, os Estados Unidos. E aquela alimentação era pouca. Muita gente passou fome. Quem tinha dinheiro pra comprar em mercado negro, vocês sabem o que é mercado negro? E aqueles que sempre escondem pra ganhar dinheiro, os mal-intencionados. Meu pai, com esse esforço que ele fez, garantiu dinheiro pra pagar o preço que havia. Ele se achou compensado por isso. como se nós aqui fizéssemos o mesmo, não é? Você chega num lugar e não pergunta por preço. Eu preciso disso, você tem? Faz o pacote, me dá a nota e pronto. Por isso rezem brasileiros porque vocês moram no melhor país do mundo. Isso eu lhe posso garantir porque conheço outros países e não tem país melhor. Nem Portugal vai passar à frente de nós brasileiros. Eu acredito nesse país. Tem uma meia dúzia de malandrinhos, mas é a minoria. A maioria vence, trabalha e quer o bem desse país. Eu sou estrangeira, vocês sabem, mas eu quero bem. Lá eu falava que estava no Brasil, quando fui à Portugal, eu achava que num estava lá, estava aqui.

 

Educação informal

Olha, lá tinha algumas escolas quando eu era bem pequenininha, alguma coisa de seis, sete anos. Mas eram escolas particulares que ficavam longe da casa do meu pai. Era num outro local chamado Freguesia. Era o modo de falar. Era de um lugar pra outro, como se vai daqui à São Vicente. Só conhecia dois colégios e não tinha vaga porque de manhã, entravam às nove e ia até as cinco horas. Então nisso eu estudava com a catequista. Estudava o catecismo, a religião, nós que somos católicas. E ela ensinava mais, levavas um caderno e aprendíamos a ler e escrever. Não davam diploma, nada. Só que tu saías dali, sabias ler um pouco de jornal, um livro, o catecismo pra aprender a rezar e pronto. Eu cheguei aqui poderia ter estudado, tirar até o diploma, mas aconteceu um imprevisto. Meu marido logo adoeceu e morreu. E eu fiquei com a responsabilidade da família, trabalhar.

 

Política educacional em Portugal

Os pais se contentavam com isso. Já quando eu tinha os meus 14, 15 anos, o governo já estava fazendo colégios pra os menorzinhos. Quem tinha até 12, 13 anos. Eu, que já ia pros meus 15, não tive espaço. Então por isso nós não estudamos, não por preguiça. Era um outro tipo de governo, se interessava muito na evolução do mais humildes. E lá os moradores no Funchal, pra mandar os filhos pra Lisboa, tinha que ser uma pessoa bem rica, pra aguentar os filhos estudando.

 

Formação das moças

Comecei a trabalhar cedo. A minha mãe nunca deu muita moleza pra ficar no "não faz nada". Isso, na classe humilde, todo mundo tem que ensinar. Então a gente fazia o serviço de casa e tinha que ter aquelas horas pra aprender o bordado. Ali nem pobre, nem rico não tem moleza. Todas as mocinhas têm que aprender a costurar, a bordar, fazer crochê. A gente não acha que é obrigação. É que a mãe falou pra fazer e a gente tinha o dever de obedecer. Não tem aquela coisa de "não faço", "não quero". Era aquele regime. Não é que era regime, era realidade natural. E aqui eu também criei a minha família assim. Meu marido faleceu, meus filhos me obedeciam. Dizia: "Faça assim" e tudo deu muito certo graças a Deus.

 

Bordado

Tinha que bordar muito bem, que era tudo pra exportar. Não podia ser "trabalhinho", "bordadinho" como se costuma dizer. Tinha de ser trabalho bem feito, que aquilo ia revisar nas fábricas. Se não fosse bem feito não ia pôr à venda. Não podia expor. Todo mundo bordava. Era profissional, todo mundo tinha a sua profissão. Não ganhávamos bem, não. Não tinha aquele espaço de todo mundo fazer e sair, vender pro Funchal, pro centro, quando entrava aquele turismo. Porque a Ilha da Madeira era sustentada do turismo. Até hoje. Os turistas vão pra Madeira e passam um mês, dois meses. E vão levando todos aqueles trabalhos, que não eram de avião. Eram de recreio, de navio então podem levar o que eles quiserem. Não tem aquela quantia como o avião, que tem aquela pequena quantia de carga pra levar. Podem levar o que quiser. 

 
Comidas típicas da Ilha da Madeira

Ah lembro com muito carinho. Muita comida, muito vinho. Não era todo dia que tinha comida especial. Lá a gente cuidava muito do cozido de cova. Aqui é cozido, lá chamava sopa. Ele levava pedaços de carne de porco, de costela, daquela "carne gorda". E ia cozinhar com um pouco de repolho, de brócolis, batata-doce, batatinha, que lá é semilha. E já tinha aquele caldo de acordo, você fazia ali quantos caldos quisesse. Tirava a batata-doce e a carne cortada já era o primeiro prato. Com a semilha, que é a batata. Lá era semilha. Semilha vocês não sabem o que é. Então saía daquela travessa pra mesa. Então vinha o segundo prato, isso era quase todo dia. Que era um pouco daquele caldo muito gostoso, nossa ali vem um pouco de repolho e um pouco da couve, que chama "trouxa" e um pouco de brócolis. Então a pessoa comendo esses dois pratos está muito bem alimentada. E a polenta que era muito apreciada com o peixe, com bacalhau ou com espada. Muitos peixes. No mercado do meu pai tinha sempre aquela travessa de bacalhau pronta, pra quem quisesse comer com pão, ou polenta ou com batata. Até parece que eu enjoei do bacalhau. Minha mãe punha aquela travessa, mas a gente nem olhava. Aqui eu não tenho grande apetite, não tenho grande vontade. E depois tinha os cozidos do feijão verde. Enfim, diversos cozidos, era o prato de todo dia. Ricos também as comidas são quase iguais. Só fazia diferença as sobremesas. No Natal faziam uma carne, que ainda não fiz aqui no Brasil. Matava-se um porco enorme, com 15, 16 arrobas. Vocês sabem quanto é uma arroba. Precisava uns quatro, cinco homens pra limpar aquele porco. Então aquela carne minha mãe botava dentro do vinha dalhos e de manhã, quando chegava da missa que era cedo, cortava a carne em pedacinhos pequenos, uns quadradinhos de carne pra ir pra panela. E ela ficava a cozinhar ali uma meia hora só na gordura. Eu não sei se vocês iam gostar, mas eu acho que é muito bom. Pega um pão da véspera do dia, amanhecido, pode ser o do dia. Mas o pão amanhecido de lá tem melhor cheiro que o do dia. Um cheirinho tão bom aquele pão. Não sei se porquê a farinha era pura. Acho que é o fermento. Eu falei com o meu padeiro lá: "Escuta aqui, deixa ver, português, que fermento está botando no pão" Ele sabe que eu sei. Aí pegavam as fatias de pão, quando a carne estava ali há uns 20 minutos, meia hora naquela gordura, panelas grandes de ferro. Aí botavam aquelas fatias de pão. Elas não ficavam tão molhadas na gordura, o pão ficava quente e umedecia. Tapava com a tampa e ficava tão gostoso aquele pão e aquela carne, uma caneca de café. Quem gostava de leite, punha leite, quem não gostava tomava café preto. O café era o primeiro lanche da manhã. O pequeno almoço. Isso quando tinha essa carne fresca do porco. Fazia-se isso com carne de porco, de boi. Só que lá, vocês vão me perdoar, a comida tem um outro cheiro, outro gosto. Não sei porque. Aqui a gente também põe os temperos, fica muito bom mesmo. Mas lá a gente fazia essa comida Era a comida do pobre e do mais. Todo mundo tinha essa comida, pobrezinho e que fosse. Por isso que os portugueses vêm tudo bem fortes, bem gordinhos. E o vinho que não faltava na mesa. 

 

Produção de vinho

O vinho tinha sempre na mesa, no almoço, no jantar. Fazíamos o vinho com as nossas uvas. E os próprios funcionários do meu pai, da fazenda, cortavam os bagos em grandes cestos e faziam o vinho e vinham botar naquela pipa que estava ao lado da cozinha. Aí eu me lembro de uma partida que eu fiz pra o meu pai. Engraçado que eu não sei onde ele teve paciência, que não me deu uns bons tapas. Meu pai saiu lá pra reunião da igreja, que ele era da irmandade de Nossa Senhora do Carmo e ia mais minha mãe pra igreja. Eu esperei ele desaparecer à esquina, e era ali pelo dia de São Martim, que passávamos o vinho dessa pipa. Vocês não entendem o que é passar vinho. Passávamos pra duas tinas de vinho, retirava todo aquele líquido e não se lava. Nós amechávamos, chamava mecha: era um quadradinho amarelo, a gente fazia um furinho e colocava um arame. Abria aquela boca que tem a pipa e tampava. Aquilo saía um cheiro. Era enxofre com mais algum preparo. E eu fui passar essa pipa de vinho sozinha. A minha irmã disse: "Não vou me dar ao trabalho de te ajudar, te arruma com o meu pai e minha mãe" Passei aquele vinho, tudo direitinho porque eu via como o meu pai e os dois funcionários trabalhavam. Quando acabou de queimar, que queima devagarzinho, fui lá, destampei e joguei o vinho dentro. Todo o que eu já tinha pousado, passar a coar por um saco de estopa, vai a coar e fica ali depois se faz vinagre. Eu sabia fazer tudo isso. Quando o meu pai chegou em casa; "Quem está mexendo na pipa?" Com um jeitinho me escondi pra ver se não ficava culpada. "Eu acho que foi Beatriz, que ela andou mexendo no vinho, tirando vinho." "Ô Beatriz, tu foste passar o vinho?" "Mas eu fiz tudo direitinho como eu via o meu pai fazer. Limpei a pipa, escorri tudo pela torneira e não sei, mas consegui" O meu pai falou; "Não vou falar nada, só vou ver se tu botaste o vinho do ano todo a perder." Olha, deu certo. Depois, minha mãe não achou ruim e nem o meu pai, vêm santinhos da igreja. Agora eu vou abrir a torneirinha e vou beber vinho. Mas não podia mexer naquele vinho que ele estava com aquele preparo que era desinfetar a pipa, dar calor ao vinho. E eu me lembro como seja hoje, abri a torneira e comecei a beber. Menina, me deu uma tosse. Eu sabia tudo disso, só não sabia dessa parte. Que não podia mexer no vinho senão passando uma semana. E não deixei vinho do lado de fora pra ele beber. Eu achei, passei o vinho e nem bebi. Eu vou experimentar. Pra quê menina? Não sei aqui como é que fazem com a preparação do vinho. Sei que lá na Madeira o meu pai tratava do vinho assim. E era pra um ano todo aquele vinho. Era pro ano todo, tinha mais de 100 litros.

 

Dia-a-dia no quartel

Eu conheci meu marido depois que ele veio do quartel. Ele ficou três anos nas fronteiras. Foi na guerra de 40. Portugal não entrou na guerra, mas sofreu os horrores da guerra. Ele estava no quartel bem longe. Nem pense que o quartel de Portugal era como o quartel daqui. Que alimenta muito bem, boas roupas, bom dinheiro. Não. No tempo da guerra eles davam um colchão e um cobertor. E dava aquelas botas do quartel. Aqui nem sei se ainda é bota, se é sapato. Num tive filhos no quartel. Tinha que estar sempre muito bem limpo, exigia limpeza. Não davam ferro pra passar a roupa e davam um pedaço de sabão em pedra. E as roupas tinham que andar muito bem limpas. E os sapatos. Quem tinha família que podia ajudar, dava um dinheirinho pra ele. Mas era longe. Andavam oito horas de a pé, noite e dia pra ver a família. De seis em seis meses vinha ver a mãe dele. Ele era do mesmo lugar. Foi destacado pra um espaço que não era quartel, nas fronteiras. Era provisório, enquanto a guerra durasse tinha que ficar ali. Aqui estão guardando? Não estão, nas fronteiras acho que não. Mas lá, o Salazar era decidido. Então convocou todos os pracinhas de 39 e 38, de 40, 41 e destacou. Ia na casa deles buscar com umas botas e uma roupa. Quando ia aquele plantão buscar, porque não tinha telefones, de um cabo e um soldado que tinham o endereço, tinha que vestir aquela roupa e andar. Não podia reclamar. E não sabia aonde ia. Se pra Lisboa, pra África, e outros ficavam na Ilha da Madeira. Se achassem que já tinha ido uns tantos pra Lisboa, deixava outros na Madeira. E formaram grandes quartéis nesse tempo. E pra poder fazer as panelas pra comida? E que comida que eles faziam, um tipo de uma sopa, de uma lavagem. Não podiam reclamar. De jeito nenhum. Se reclamasse era um revolucionário. Aí os pais nunca mais iam saber deles por muito tempo. Era um povo muito sofrido Graças a Deus já estava aqui no Brasil quando esses abençoados o chamou pra lá. O Salazar e o general.

 

Como conheceu o marido

Ah, lá a diferença é muita daqui. A gente tem muitas festas nas igrejas. E tem uma festa, vamos à festa, pra procissão. A noite também tem aquela diversão de banda de música, como aqui, mas eram bandas grandes. A banda Municipal, a banda Recreio. Tem uma festa, vamos prestigiar. E os rapazes, os moços ficam com os mesmos costumes, passeando. Olha uma turma de moças ali, toca passear e conhecer. E ali que nós se conhecemos. Eu ia fazer 20 anos. Mas é que ele tinha estado no quartel. Eu tive um namorado que tinha vindo pro Brasil e fiquei com uma decepção. Não queria mais nenhum esperando o João. Ele veio morar ali no Monte Serrat. O meu primeiro namoradinho, não cheguei nem a conversar com ele. O namorado não fala sem primeiro o pai autorizar. No meu tempo era assim. Ele era primo em segundo grau. Morava perto, íamos na mesma missa. A hora que a gente passava mais perto um do outro era na igreja. Quando ele tinha 19 anos, vendeu um pedaço de terra, que ele ainda foi pro quartel, já tinha terminado a guerra. E veio aqui pro Brasil, virar estivador. E eu esperando ele, quatro anos, escrevendo pra ele. Um dia foram me dizer que ele tinha uma namorada aqui. Ah, não prestou. Ele mandava as cartas, escrevia pra mim, nas cartas da mãe dele. A mãe dele gostava muito de mim. Eu não quis saber se era verdade ou era mentira. Eu achei que eu não era trouxa, ficar ali esperando ele. Não tinha namorado, esperando e ele aqui paquerando. Não, essa não era comigo... Aí apareceu o Sebastião, eu conhecia a mãe dele que era do meu lugar, só que tinha ido morar pra longe. Casou com o pai dele que era de uma cidade pegadinho. Ele me viu, eu estava com uma prima, e daí pronto. Daí começou a paquera. Dali a três anos nós casamos. E o João estava na Venezuela. Quando eu fui à Portugal, eu tive uma surpresa. Tinha as fotos dele e cartas que me enviava, contando que ia ficar aqui mais um pouco e que ia pra lá, queria que eu o esperasse. E eu fui acreditando até que ele dissesse alguma coisa. Qual foi a minha surpresa, a minha sobrinha disse que ele esteve lá e queria o meu endereço pra vir no Brasil. "Eu sou ainda solteiro. Morei com uma mulher mais não casei porque o meu pensamento estava na Beatriz" Será que era verdade? Dá pra acreditar? Quando ele foi na Madeira minha sobrinha disse: "Quem tem o endereço da Beatriz é lá a irmã dela, a gente aqui não tem." Ela era irmã, mas de fato nunca tinha escrito pra ela. Não havia necessidade de andar escrevendo pra todas. Escrevia pra uns e tinha notícia de toda a família. Ela disse: "Sabe quem teve aqui? O João." Ele era a coisa mais linda. Aqui no Brasil ainda não vi uma pessoa tão linda. Ele era mesmo lindo de verdade" E aí minha sobrinha falou: "Ele ainda estava bonito como ele era, só que com alguns fios de cabelos brancos" Ele chegou pra Venezuela, que ele era rico. Lá o dinheiro era forte em Portugal, ele mandava dinheiro pra mãe dele. Ele foi lá pra riqueza dele, pra Caracas. Quando ele chegou lá, caiu de uma escada, bateu com a cabeça e faleceu. Não deu tempo pra vir no Brasil.

 

Profissão do marido

Ele era carpinteiro e marceneiro. Fazia os móveis. Aqui vai tudo das fábricas, porta, janela, tudo prontinho. Chega e é só montar. E lá não. Essa data era uma data mais fraca. Você ia fazer uma casa, "Quero uma casa com dois, três, quatro cômodos." Ele já via quantas portas precisava. O chão era madeira, não era taco. No fim já ia aparecendo. E não era de laje a maioria, era de telha. Então tinha aquele travejamento pra por as telhas, eles davam nome mas não me ocorre, e depois o forro. Tudo aquilo era mão-de-obra. Conforme a casa dava dois, três meses pra ele trabalhar. A parte que pertencia a carpinteiro. Se a pessoa precisasse de algum móvel, também ele fazia. Guarda-roupas, cama, cadeira e tudo com grandes modelos. Olha, nunca mais tive os móveis que eu tinha. que lá era madeira maciça. Ele que fez os móveis, quando nós casamos. Mas tivemos de vender, não dava pra trazer. 

 

Vinda para o Brasil

Não é que Portugal estivesse ruim, ia tendo comida, nunca passamos fome. Era solteira nos tempos da guerra. Quando eu casei, ele trabalhava por conta própria, não tinha firmas como aqui tem, as grandes serrarias, as docas. E ele tinha duas irmãs. A Glória, que eu falei pra você, morava na rua da Constituição. Ainda lá está o prédio. Ainda é deles, da minha família. E tinha a Maria José, a irmã mais velha dele, que morava no Monte Serrat. Era a dona Maria José, hoje falecida, mas ainda tem os filhos. Nós escutamos falar pelas cartas que aqui tinha diversos trabalhos que a pessoa se empregava e trabalhava efetivo. É ruim de se ter saúde, ser jovem, querer trabalhar e não ter onde. Acabava aquela casa, tinha que esperar que aparecesse mais algum trabalho. Até que aparecesse levava um mês, dois. Toda aquela economia que você fazia naqueles dias que ele trabalhava, lá pagavam bem o marceneiro, carpinteiro. Aquela reserva era tudo pra gastar. Que vida vamos ter futuramente? Trabalha dois meses, descansa um mês e meio, dois Quer dizer que assim é um passo à frente e dois pra trás. E também, queríamos ter a nossa casa. Morávamos na casa que era dos pais dele. Que a mãe já era viúva, tão velhinha. Que logo o filho caçula foi pra fronteira e ela teve que morar com a filha pra não ficar sozinha. A mãe dele falava: "Olha Sebastião, se tu vieres a casar com a Beatriz, a casa dá uma reforma e vai morar pra lá". Ela tinha um empenho muito grande no nosso casamento. E então, aconteceu que deu certo, nós casamos. Meu pai não gostava muito. Já era maior de idade e a gente acha que tem a nossa razão. Mas eu acho que ainda pai é que tem a razão. Mas é agora que eu penso assim. Que dantes não pensava assim. Já sou maior de idade. Ninguém é maior de idade, meu Deus. Casamos e depois de três anos era o que te falava, dávamos um passo à frente. Guardávamos um dinheiro pra se fazer uma casa. Não aparecia trabalho, o dinheiro tinha que ir pras despesas, não podia ficar guardado. Foi quando mandamos uma carta pro meu cunhado Agostinho, o que tinha uma espécie de mercearia que vendia de tudo. Lá chamava de venda, aqui é mercearia. Era bar e mercearia Agostinho Valério. Ali na rua da Constituição. Mas não foi no tempo de vocês, que eles há muitos anos estão pra Santo André. Aquele tempo era muito fácil de conseguir emprego, um profissional. Chegamos aqui no Brasil, fomos morar pro Monte Serrat, onde a minha cunhada arrumou. Como nós quando viemos, trouxemos malas, ferramentas do meu marido.

 

A viagem

Foi de navio. Esse navio estava uma carroça já velha. Levou quase 15 dias. Eu gostei imensamente das comidas, tratavam a gente muito bem. Nós viríamos de 3ª classe. Sabe onde é a 3ª classe? É nos porões Mas era navio de passageiro, não era junto com carga. Só vinham as nossas malas e as malas das pessoas que vinham de Lisboa. Meu marido pagou na agência, na última hora, e viemos de 2ª classe. Tínhamos um camarote com ventilador, guarda-roupa. Viemos muito bem mesmo. Pra mim foi um paraíso. Eu gostava de ficar no convés pra ver o mar e o azul do céu. Era tão bom, eu achei maravilhoso.

 

Trabalho do marido na Companhia Docas

Quando chegamos aqui, as Docas estavam precisando de carpinteiro. Muitas obras ainda foram feitas pela mão do meu marido, aquelas bases daqueles tanques do Valongo... Aqueles tanques de óleo tem uma base pra baixo, mais alto que uma pessoa. Meu marido falava que era uma largura imensa e ele que sabia fazer aquilo. Aquelas formas pra subir aquele concreto. Voltando ao assunto de como ele se empregou, a minha cunhada fazia bordados pra os doutores, feitores das Docas, aquelas pessoas. Era um pouco diferente de hoje. Não era um pouco, era muito diferente. Então a minha cunhada disse: "Olha Sebastião, tu querias ir às docas?" "Eu quero trabalhar Não posso ficar desempregado, gastei todo o meu dinheiro na passagem e agora temos que começar a assumir nova vida" O filho vai entregar um bordado, eu ajudei a terminar pra ser mais rápido. Era feito lá pra um doutor das docas. Deve ser advogado, não é? Ele disse: "O que ele faz?" Agora é diferente, eles já deram uma modificada pro lado deles, não pro funcionário. Ele conhecia as docas. Minha cunhada falou: "Ele tem uma carteira profissional do sindicato, já tinha o sindicato. Toda comprovada que ele era um bom carpinteiro, marceneiro." Mas marceneiro não interessava pras docas. Interessavam os carpinteiros. Ele vai entrar porque ele é um profissional. E pra ele entrar nas Docas, tinha que entrar dois brasileiros. Não era deixar os brasileiros pra lá que vai entrar um estrangeiro. Era um estrangeiro, que chegavam muitos aqui. Mas, profissionais não chegavam muitos. É que ele beirava a cidade, já era uma pessoa instruída. Já vinha de família também. E então, ele foi pras Docas. Ele trabalhou só nas Docas. Ele era profissional de carpinteiro, lá no Macuco. Depois foi melhorando, já começaram a gostar muito dele. No dia em que ele foi fazer a prova, ele chegou em casa, dando risada. "Fostes aprovado?" "Ó mulher, que coisa, parecia que eu era uma criança. Me botaram a fazer um caixilho. Acho que era um tipo de uma janelinha, quadrinho que fazem pra pregar as dobradiças. eu entendi que caixilho era isso." Ele disse: "Ó meu Deus, eu fazia isso de olhos fechados Claro que fui aprovado, já posso começar" Vê? 

 

Primeiras impressões

Olha, pra te dizer a verdade, eu gostei que já me veio aí o Brasil, conseguimos chegar aqui, mas pra me acostumar levou um tempinho. Me sufocava, eu ia pra casa da minha cunhada na rua da Constituição, que ela que vendia as coisas fiado, no caderninho. Eu sufocava, não tinha respiração. Me sentia mal. E nunca disse isso pro meu marido. Ele morreu e eu nunca contei. Mas eu pensava que não chegava na casa dela viva. Uma falta de ar que me dava. A comida não sentia gosto. A mudança de país a gente sente muito, filha. Por melhor que seja o país. E depois fui acostumando. Eu disse: "Oh gente, eu vim pra cá, tenho que acostumar."


Doença e falecimento do marido

Tenho três filhos brasileiros. Um morreu de acidente aos 15 anos. Meu marido ficou quatro anos doente. Por causa desse trabalho que ele fez lá no Valongo, umas bases pra por esses tanques, que ainda não tinha nenhum. Ele não queria calçar botas, que davam botas usadas e ele falou; "Botas usadas não vou calçar" Então ficava com o pé naquela friagem, que era profundo. E ele nesse tempo já estava tomando conta de equipe. Acho que ele sabia melhor trabalhar nas docas que os próprios feitores. Que ele mandava ir pra lá, com a equipe de homens e vai ensinando pra eles. Que ele sabia muito bem trabalhar, graças a Deus. Fez muita falta. Um profissional daquele jeito. Não é por ser o meu marido, mas sabia fazer um trabalho com o maior carinho e delicadeza. As Docas não perdiam dinheiro com ele .

 

Bordados

Eu cheguei aqui num domingo e na terça-feira minha cunhada trouxe o dedal, a agulha e bordado. A minha cunhada: "Quer ajudar aqui nesse bordado?" "Claro que eu quero" "Então vai almoçar aqui na minha casa, que o tempo que a senhora tem pra fazer o almoço, que era pertinho, a senhora já vai bordando pra se acabar este." Eu sei que nisso foi tudo muito bem, graças a Deus. Eu tinha saúde, depois me passou aquela falta de ar. Fui me acostumando, não fui nem no médico A minha cunhada: "A senhora não está bem?" Eu digo: "Estou bem sim, não tenho nada" E uma falta de ar. Como se eu me sentisse num lugar fechado. Era o clima que é diferente, claro. Então nisso eu acostumei, o meu filho não acostumou, morreu uns meses depois e o meu marido ainda durou dez anos. Depois que ele morreu, eu cuidava dos filhos e bordava de noite e de dia. Nesse tempo eu ainda bordei uns tempinhos, para as fábricas, pra São Paulo. Depois teve uma pessoa que em deu um conselho. Eu analisei bem: "Que tal se a senhora comprasse os panos? Riscasse os bordados?" Aquilo tem que saber todos os detalhes, se não souber, não se meta. Vai botar o pano a perder e não vai ter vantagem. Como eu já bordava, já sabia as medidas do pano. A gente media, porque também bordava pros outros, pra fábrica e tinha que tomar as medidas. Ia na loja, comprava papel manteiga e passava o risco dela pro meu papel. Quando ia pensar em bordar, já tinha uma porção de riscos. E eu já sabia o certo, as medidas, fronhas, tudo. E vendi muito bordado pra Casa Regente, que hoje está fechada, faz uma grande falta, pra Casa Araújo, que também está fechada, uma Casa Mauá que tinha ali. Eu ia e arranjava emprego pra todo mundo. Lidava com o pessoal dali, fazia amizade logo com as meninas. Depois mandava lá. A fábrica mandava o pano riscado e as linhas. E nós já sabíamos o que tinha a fazer naquele pano. Que era bordar e bem feito. Quando o meu marido faleceu, ainda era mês de novembro, vai fazer agora 40 anos, eu estava bordando uma grande toalha de banquete. Cambraia de linho. Estava quase pronta. Ele doente na Santa Casa e eu em casa bordando. Porque não dava pra eu ficar, tinha as três crianças. E eu vim acabar essa toalha nas vésperas de Natal. Porque se eu não terminasse, a minha cunhada tinha que pagar o tecido da toalha. Que era pra um banquete. Aí me esforcei, trabalhei que não podia, estava muito fraca, muito na Santa Casa. Foi uma doença esquisita mesmo, uma trombose nas pernas. E eu tive que trabalhar, mesmo sem poder, pra terminar essa toalha. Porque precisava, era pra fábrica, encomenda. E a gente tinha que fazer esse sacrifício. Uma toalha dessa dava uns dois meses ou mais. Um jogo de lençol nessa data eu bordava num mês. Agora eu levo mais de um mês. O que está ali, eu levei quase dois meses. Continuei bordando e mais ainda.

 
Crítica ao INSS

Sabe o que o INSS faz? Isso é uma coisa que vocês brasileiros tem que botar a mão. Eu não posso, vou falar e eles dizem que eu sou estrangeira. Ele me deu 60% do que o meu marido recebia. Vê a sem-vergonhice que pode se encontrar de gente que pensa que está sabendo fazer as coisas, mas não estão. Estão longe disso. Eu não pagava aluguel, tinha essa abençoada casinha que terminou de eu ter. Não é grandes coisas, mas pra mim é uma grande coisa.

 

Descrição Morro do São Bento e da casa

Do Morro São Bento, eu vejo tudo aqui. Quando vai assim no quintal, na janelinha, a Bernardino desde a Santa Casa. Lá tem a praia, ali no morro Santa Terezinha, morro do Marapé. Mas lá não é casinha de cortiço, como é que chama aqui? Favela. Não. É casinha com planta da prefeitura e a minha escritura. Foi comprado. Estava loteando e compramos aquele pedacinho. Tínhamos acabado de começar a casinha, não estava pronta. E eu tive que terminar a casa, a minha casa é lançada na prefeitura. Tem os impostos, tem tudo legalizado mesmo. Não sei se é bem o mesmo que na cidade, mas eu acho que sim. Eu tenho todos os documentos, que estão lá em casa, que o dia que eu me for, fica pra quem ficar depois de mim. Pra mim eu acho que vai dar. Se Deus permitir. 

 

Venda de enxovais

Eu vendia o bordado, aonde eu comprava o pano. Eu deixava na Araújo. Era o seu Moraes, e eu dizia: "Seu Moraes, hoje eu vim com o bordado já pronto." Ele dizia: "Fique à vontade, que eu também vou olhar." Ele não proibia as meninas funcionárias de olharem e ele sempre tinha aquela palavra de carinho especial. Que ele sabia que quando eu vendesse um, comprava novamente o pano. Vendia dois, comprava dois. O meu negócio era este. Fazer dois jogos e quando estava pronto, eu ia até a cidade, nas lojas. Quando vendia, elas já me pagavam e eu comprava outro pano. Não era grande negócio, eu achava que ganhava mais um pouco, mas depois teve uma data que eu descia na cidade com a minha sacolinha e não vendia. Foi quando me veio a verdade que no bordado ganhava pouco... E agora? Como é que eu vou comprar? Eu vim na cidade pra ver se vendia e vi ali na João Pessoa: precisa-se de vendedoras de Enxovais Jangada. Eu disse: "Meu Deus, eu não tenho muito estudos, se precisar de muita coisa eu não vou ficar." Eu subi a escada, e logo dei de cara com a promotora de vendas. Logo dei bom dia e perguntei: "Estou vendo que estão precisando de vendedoras. E eu queria participar. queria começar, ver se dava." Ela perguntou pelo grau de estudo. "Não tenho nenhum diploma, mas eu leio e escrevo. Mas tem a minha filha tem diploma." E ela trabalhava numa loja de tecidos, a Rio Branco em frente da rua Augusto Severo - minha filha trabalhou lá, no seu João da Casa Mauá, que fechou há muitos anos. Ela disse: "Então a senhora já vai levar o seu álbum de amostras." Eu assinei o meu nome e já garanti. "Manda a sua filha na hora do almoço passar aqui pra eu lhe dar as dicas, pra senhora e pra ela." Falei: "Tem que fazer as notas das vendas na loja." "A senhora não vai ter problemas nenhum." E eu subi o morro a pé, não tinha condução e já fiquei toda tranquila. Aí preparei o almoço, almocei, descansei, reparei no álbum, no material que ela tinha me dado. Eu vou sair na rua à cata das colegas. Pois naquele dia não imagina o quanto eu vendi. Toda a semana eu tinha que ir lá com as vendas. que eles mandavam fazer o carnê em São Paulo pra pessoa fazer pelo banco. Eu só recebia a entrada. Anotava quanto eu tinha vendido, tudo, mostrava e era roupa barata pelo álbum. Naquele dia eu vendi muito entre amigas. Aquilo foi numa terça-feira e quando foi no sábado de manhã eu chego com as minhas vendas. Pra promotora, mostrar o que é que eu tinha feito do álbum. "Mas a senhora vendeu tanto, aonde?" "Pertinho da minha casa, entre as amigas, conhecidas." Eu fui a segunda de vendas, das que tinham há muito tempo, eu fui a segunda. Vendi aquele e continuei pra outro lado no morro. Aí tinha o gerente e a promotora que davam todas as dicas, que ensinavam tudo. Eu que estava precisando, pegava aqueles dados todos. Fazia tudo direitinho, minha filha arrematava, fazia nem que fosse a noite. E deu tudo certo. O gerente de vendas mentiu pra mim e eu não gostei. Fiquei com raiva dele. Porque ele disse: "Beatriz, você vai na rua, mostra o álbum. Se a pessoa quiser ver em ponto grande, como é a peça, os tamanhos, tudo. A pessoa vem aqui e se comprar na balconista a comissão é sua, porque você é quem trabalhou. E a balconista aqui tem o salário." Eu fui na Loja Americana, que eu tinha amizade de todo o lado. Mocinhas, gente de mais idade. Fui lá com as amigas de minha filha na hora do almoço. Eram minhas colegas que já tinham ido lá em casa, e duas foram pra comprar. "A gente vai escrever na peça." "Ali na João Pessoa, dei o número, todos os dados, vai lá. Tu podes até encomendar que ele vai dar a comissão." As meninas que também trabalham na loja e que não são nada bobas... uma comprou. "A gente vai dar a comissão pra Beatriz, pode comprar aqui." A outra disse: "Não, eu primeiro vou conversar com ela, nem que vá na casa dela" Porque na Americana não podia abrir o álbum, outra gerência, diferente das lojas. Uma coisa, mais politicamente falando, os funcionários ali não tinham tanto direito como nas outras lojas. "Senhor Rodolfo, tem comissão aqui pra mim." Ele disse; "Não, Beatriz." Digo, "Tem. Eu vou lhe dizer quem foi a pessoa que teve aqui na hora do almoço. Foi uma menina, colega da minha filha." Que a minha filha também trabalhava em loja, então ia lá comprar. Nessa data tinha mercearia na loja Americana. "Ah, não tem, ela comprou, não sei." "Tem ou não tem?" "Eu sou clara, não gosto dessa coisa de rolo. Não enrola." Aí ele falou que não... Eu sei que por isso, dele não me dar a comissão, que era justa, eu é que tinha arrumado essas freguesas. Eu me enjoei e no outro dia levei todas as vendas que eu tinha. Umas colchas lindas, umas roupas muito boas. Ali não tinha nada, o falso foi esse senhor Rodolfo: "Eu não dei importância, mas o senhor vai ver quanto isso vai custar pro senhor."

 

Vendendo Avon

Eu fui no Avon com essa dona Aparecida. Peguei a bolsa e tudo que era preciso pra vender Avon e fui mostrar pra ele. "Agora mudei de firma" Aí eu deixei o Jangada por isso. Eu achei que como ele fez uma, não ia chegar a duas. Quer dizer que eu ia andar na rua, arranjando freguesia pra ir à loja e o meu? A gente trabalhava por que precisava. Aí passei pra Avon e fiquei 26 anos. Olha, a Avon é o seguinte: primeira coisa, a gente tem de ter muita amizade, conhecer muita gente e andar muito. Não ter preguiça de andar e disposição pra demonstrar as qualidades do Avon. Usar o perfume e o batom. Porque a gente usando, cobiça os outros. Ali a gente fazia amizade com as promotoras, aquelas que vendiam mais. Era uma família. Eu gostei demais de vender. O que atrapalhava era alguma pessoa manhosa que pegava o perfume e não pagava. Isso ainda me deu umas dorzinhas de cabeça. Aí eu trabalhei 26 anos, até eu viajar pra Portugal. Vendia de tudo. Perfume de homem, creme de barba, colônias de toda a qualidade. Levava umas amostrinhas. Comprava. No começo eles dão uma caixinha com as amostras e depois nós temos que comprar. Vendia pela rua, em casa, que ia gente em casa. Vendia mais pra mulher. Homens iam lá comprar também, na minha casa: rapaz, senhor... Marcavam o dia de ir lá buscar. "Pode ir nem que seja à noite." Eu não vou dormir cedo, antes das 10 horas. "Então você pode vir buscar, que de dia ia trabalhar." E as minhas filhas arranjavam muita amizade, minha casa era cheia de gente. Não tinha lá grandes coisas na minha casa, mas o povo gostava de ir lá. Às vezes se perfumavam todos e iam embora. Tinha lá umas coleguinhas que iam lá: "Humm, perfuminho está bom" Se perfumavam, passavam o batonzinho, as amostrinhas e iam embora. Às vezes não compravam. Mas outro dia elas vinham e compravam. Que as mesmas freguesas das roupas do Jangada, eu já lá fui com as amostras do Avon. Até o fim eles me compraram Avon. Mas no fim eu já tinha vontade de sair, que eu queria viajar, e o Avon estava sendo padastro. Por exemplo, nós recebíamos, hoje, uma caixa de Avon, às vezes duas caixas grandes. Como é que eu ia dar conta de entregar duas caixas de Avon, receber o dinheiro pra dali a três dias ir pagar? Não era possível. Nem que eu fosse um avião, porque aquilo leva um tempo, tem pessoas que é tal dia que recebem. Aquela mesma freguesa que comprava pra pagar no começo do mês já tinha outra caixa pra pagar no fim. Então ele não podia tirar dinheiro pra pagar duas vezes. Eu só compro se pagar no mês que vem. E agora? Era tudo estudado.

 

Remuneração

O dinheiro que eu ganhava do Avon não dava pra viver. A minha filha me ajudava, que ela começou a trabalhar em loja. Tinha a pequena pensão do meu marido, era tudo um conjunto. Porque você não pode fazer uma conta. E se você não receber? Vai sujar o seu nome? O meu fica limpo a vida toda. Nem que eu não recebesse, pagava. Recebia o meu dinheiro, poderia aplicar em alguma coisa em casa em dúvida, pra pagar ou pra comprar. Eu nunca faltei a uma reunião, senão quando meu filho faleceu. Nunca devolvi uma caixa pro Avon. Agora produtos com defeito, eu levava pra troca. Vinha produtos meio vazios. Eu chegava a comprar amostrinhas da mesma fragrância pra preencher aquele vazio do vidro. Eu levava às vezes pra trás, quando não tinha como preencher. Tinha de ser a mesma fragrância. Se você quer ter uma amizade, tem que ser correta, transparente. Não adianta querer fazer uma amizade por dois dias. Eu queria as minhas amizades pra sempre. Ainda hoje tenho amizades daquele tempo. Embora bem menos, muitos mudaram, faleceram.

 

Clientes

Minhas clientes eram do morro, a maioria. No Jabaquara, na Rua Almirante Barroso eu tinha duas freguesas, tinha na Rua Carlos Gomes... Um dia mudou a minha freguesa pra rua Goiás, eu ia na casa dela. Mas depois que eu vi que elas compravam um produto só, fui as primeiras vezes até se acostumarem no lugar e conhecer novas vendedoras, depois eu fui deixando. Ainda quando me encontram; "Vai lá em casa" Digo não o Avon eu só uso, agora não vendo. Já não tenho mais como subir e descer escadas. Comecei a ficar com a pressão alta. Não sei se foi de eu subir muita escada e descer. Tinha que entregar onde o pessoal morava. 

 

Praia

À praia eu ia de passeio. Tomar banho de mar, eu nunca aprendi a nadar. Mas as minhas filhas iam pra praia, eu acompanhava elas. Ia até a beira do mar. Na noite de Iemanjá eu ia pra praia, passar a noite no mar. Noite de fim-de-ano. Ia se fazer piquenique na praia. enfim, a praia é pertinho. Depois que a minha filha casou, o meu genro vinha me buscar em casa de carro. Me levava, me trazia. Às vezes me levava pra casa deles passar o dia de Natal. 

 

Filosofia de vida

Tudo as coisas combinadas dá tudo certo A gente tem que saber levar a nossa vida e assumir logo a responsabilidade. O que eu não gosto é de pessoas, nem todo mundo tem que ter o mesmo pensamento, que se encostam nos outros. Eu gosto de assumir o meu papel. Pode dar muito certo, alguma coisa que não dê tão certo, a gente procura ajeitar. Eu acho que o pessoal não pode esperar nada pelos governos.

 

Atividades atuais com bordado

Sempre bordei. Não é só bordado, também tem os enxovais de bebê. Fazia toalhas, jogo de lençol, lencinhos. Fazia de tudo que me encomendavam. Depois de passado aí, uns 16 anos, eu continuava com a Avon e com o bordado.

 

Cooperativa de bordadeiras

Aí apareceu o seu Francisco, ele foi nosso coordenador, tem que falar nele. Uma pessoa maravilhosa. Era o professor Albino Caldas, que até tenho um livro em casa que ele fez pra ficar de lembrança. O professor Albino Caldas era um descendente de português ou era português e ele tinha paixão pela cultura dos bordados. Tudo quanto era raízes, que não podiam acabar. Ele começou subindo o morro, ainda no começo, não me chamaram. Era lá umas mais conhecidas do seu Mané, dum português que tinha no morro que não sabia nem ler e escrever, mas era adorado por todo mundo. Tão bom que ele era. Minha filha, precisa gente dessa. E depois o seu Francisco, que é vivo, Francisco Ribeiro, subiu o morro e falou com o seu Maneco, esse português: "Vamos marcar uma reunião no salão da igreja, chamar as pessoas que sabem bordar." Eu estava na folia do Avon. Lá no salão da igreja, tem um senhor que veio pra quem saber bordar se apresentar. Eu também fui. Tinha deixado um pouco, não podia. A Avon cansava muito, deixei o bordado um pouquinho. Aí eu fui. "Precisa ter pano, ter linhas, eu não sei riscar." Tem que saber tudo, não é só bordar. Tem que saber riscar e como riscar. Escolher entre todos os retalhos. Depois lavar, passar, recortar, voltar a passar. Tem que pôr tudo prontinho. Como você viu. Tudo isso eu sabia fazer. Eu disse: "Seu Francisco, eu acho que não vou voltar que trabalho muito com a Avon." "Mas a senhora continua aqui nos dando sugestões, venha nas reuniões" Na reunião ninguém queria, ninguém tinha dinheiro pra comprar pano, ninguém sabia riscar, tinha que continuar com o bordado de São Paulo. Aí eu tive uma ideia. "Seu Francisco, será que o senhor conseguia, por intermédio da promoção social, alguns panos e linhas. Quem sabe o pessoal se deixava levar e entrava mais na onda de querer bordar." Bordar elas sabiam, não queriam era ter o trabalho. E como é que ia vender? Isto deu um rolo "Seu Francisco, eu não vejo outro jeito. Ninguém dava ideia, dava sugestões e eu tive a ideia." Elas têm que arranjar os riscos. No começo, ainda, a gente dava alguns riscos, emprestava. Ah, mais aquilo foi rolando, só ficaram seis mulheres. Eu e aquelas que ainda estão no grupo. Uma faleceu, que era a que bordava pra São Paulo, ela que fazia os riscos. Eu ainda risquei bordado pra ela. Pegava os riscos, riscava e mandava bordar. Em vez de dar os de São Paulo, ela dava os dela. Aí fizemos muitos bordados, jogos de cama. Aí eu digo; "Eu não vou bordar seu Francisco." "E tem bordados e linhas aqui pra quê que há de ser?" "Meu Deus, eu dei a ideia, eu vou fazer também um bordado, um pedacinho de pano" Aí eu bordei. Aí dizia o seu Francisco: "Vamos fazer uma reunião pra novas ideias. Vamos vender esses bordados" Ninguém encontrava onde vender. Eu vendia os meus pela cidade. Mas eram os meus, eu não vou andar com sacolas dos outros. Cada um vai tendo as suas ideias. Aí o seu Francisco e essa tal que faleceu, anda por uns sete anos: "Tem o Ilha Porchat" E o seu Francisco: "E quem vai no Ilha Porchat?" "Se depender de mim, se vocês acharem que não querem ir, eu vou" Eu era viúva, não tinha ninguém a puxar. As outras tinham medo dos maridos. Até hoje ainda dou risada da cara delas. Lá fui eu e dona Júlia. O que eu falava a ela, eu vou falar aqui. Era uma brincadeira boba, mas ainda falo pra esquentar elas. Fomos no Ilha Porchat, o seu Francisco telefonou, como é que poderíamos falar com o doutor Odárcio, que até hoje é o presidente de lá. "Meu Deus, será que ele é uma pessoa que vai nos atender? Nós somos pessoas humildes pra ele" Olha, ao contrário Lá fomos nós. Chegamos lá, ele já tinha conversado por telefone com a gerente de lá, pessoas maravilhosas. Melhor que eles não existe Pode ter igual. Aí nós aproximamos do doutor Odárcio, o seu Francisco falou: "Doutor Odárcio, essas bordadeiras portuguesas que queriam vender os trabalhos e não tem aonde." "Mas vocês têm os trabalhos aí?" "Nós não trouxemos, viemos primeiro conversar com o senhor" Ele disse: "Podem vir domingo, trazem os seus trabalhos, tudo que vocês tiverem. Anunciem na Tribuna, na televisão, os dias que quiserem" Olha, a verdade é de Deus. Ninguém sabe a pessoa maravilhosa que está ali. Um dom que ele tem de ajudar as pessoas mais simples. "Dona Júlia, pronto Já temos o local." Cada uma já tinha uma boa sacola de bordados. Ela tinha uns quatro e eu tinha menos. Que eu não queria voltar a bordar. E agora pra carregar os bordados pro Ilha Porchat? Minha filha, na hora de entrar lá, nós tínhamos tudo. Lá tem bons restaurantes, almoçávamos lá, mas pagávamos. Nunca nos cobrou um centavo O espaço que a gente quiser, tudo O seu Francisco foi falar ao prefeito da promoção social ou de turismo..., foi a de turismo. Encontramos uma maravilha. Mas será que a gente, estrangeiras e eles faziam tanto por nós? Depois tivemos uma explicação porquê era isso. Era a cultura portuguesa que eles não querem que acabe. É uma coisa que é uma raiz. E afinal nós somos todas irmãs e nós queremos tanto bem que é difícil compreender quem é que quer mais bem ao Brasil. Se os portugueses, se os brasileiros. E sempre nessa vontade de trabalhar, nesta alegria. Olha, chegamos lá e vendemos o trabalho quase todo. Mas vendíamos muito barato. Não se tinha ideia do trabalho. Aí o que aconteceu? Nós fomos estudando a forma dos preços, que desse pra gente ganhar alguma coisa. Nós vendemos, gostamos muito. Parecia uma festa ali E o Dr. Odárcio, aquela bondade que ele tem... E até hoje estamos lá. Há 16 anos. 

 

Local de vendas

Deus é bom minha filha. É só nós ter confiança nele, achar que Deus está ao nosso lado que tudo nos vem. Não pedimos riquezas, que Ele não quer que a gente peça riquezas. Deus quer que a gente seja humilde, não é? E depois fomos pro Orquidário. Vocês imaginem quem foi que nos levou pro Orquidário. Adivinha? A maior autoridade de Santos nessa data. Foi no morro e mandou me chamar. De uma em uma. O rapaz que estava lá era filho do presidente da Sociedade Melhoramentos. E nós íamos pra casa fazer o almoço, depois da missa das nove. Olho pra ele, eu tenho visita, estava a fazer o almoço: "Sabes quem está aguardando vocês, a prefeita de Santos." Meu Deus do céu, ela veio porquê?"; "Ela quer ver os trabalhos de vocês." Mas ela se vestia simples, quase que nem nós. O carrinho dela não era carro oficial. Ela quis se fazer humilde, pra que a gente não se sentisse acanhada. Ela mesma carregava a bolsa deste tamanho de coisas de bordados que ela tinha de presentes de avô, que era português. Aí nós levamos nossos trabalhos no salão da igreja, mandamos abrir o salão da igreja. E ela disse; "Olha, o que eu tenho pra falar é que eu adorei o trabalho de vocês e que esse trabalho não pode ficar guardado na gaveta. Vocês precisam vender ele." Claro que a gente precisa. "Olha, me aguarda um pouquinho que eu vou estudar um lugarzinho pra vocês." Eu não sei se era época de eleição pra alguns. Eu não me lembro E então, nós esperando que ela nos mandasse um recado. Qual foi a nossa surpresa que ela telefonou pra gente se encontrar com ela Nós éramos recebidas na prefeitura como se fossemos umas rainhas, umas princesas. Isso eu admiro muito nela porque ela é uma mulher humilde, que reconhece outra mulher. Reconhece que a gente trabalha porque precisa. Não é por luxo, por vaidade. Então ela disse: "Pra vocês ficava bom um cantinho lá no Orquidário?" "Vamos experimentar, mas eu acho que vai ser mais que bom" "Quando é que vocês podem?" Toca organizar, fazer primeiro reuniões e no Orquidário também estamos até agora. Vendemos pra quem chega lá. Há gente que me compra alguma coisa desde o primeiro dia que eu pisei no Orquidário. Mora ao lado na praça Washington. Eu tinha um jogo pronto, mas ela quis outro pano. Então, ainda ontem, estive cortando. "Beatriz, eu quero um jogo pra presentear a minha filha que mora em São Paulo, de Natal." Eu tinha o jogo pronto, só que há necessidade de comprar outro pano pra ela. Que a gente recebe encomenda. Nessas três vezes que fomos lá não temos tido muitas vendas. Anda um pouco fraco. Mas gente, ninguém desanima aqui. Sempre foi assim. Temos tempos que vamos com a sacola vazia. E no outro mês não se tem muito bordado. Então ninguém vai desanimar, vamos trabalhar. Vai chegar o dia da venda. Nós não desanimamos não. Embora que faça um pouco de falta o dinheiro a menos no bolso. Quando a gente tem dinheiro, gasta mais, não gasta? Vai na cidade, uma notinha melhor, vê uma coisa compra, vê outra, um presentinho maior. Enfim. E até hoje estamos lá no Orquidário. Infelizmente, temos tido umas exposições... uma fica doente, que é tudo velhinha já. A mais nova tem 65 anos. 

 

Resultados do trabalho

Eu acho que ia tendo bom resultado. Não fiquei rica. Sou pobre, moro na mesma casinha. Mas o importante é você querer fazer uma conta e pagar, você querer uma coisa, não compra nesse mês, mas no outro, Deus ajuda que a gente compra. E você andar em todo lugar, com a cara erguida, não devo pra ninguém. Devo muitos favores às minhas amigas que me ajudaram nas vendas. E quando menos esperei, quis ir à Portugal e fui com o meu trabalho. Economiza, borda. Olha minha filha, não posso dizer aqui que pode estar gravando e eu não queria dizer. Uma vizinha minha ia pra Portugal que o filho estava lhe pagando a passagem, que ele tinha se aposentado da Companhia Docas. Até era pra ela vir comigo, vou lhe dar um beliscão, porque ela não foi lá pra ver o que queria pra trazer. E eu disse pra ela: "Dona Isabel, vamos comigo? Umas senhoras me chamaram, mas eu não conheço." Então, porque não sou uma pessoa medrosa, não tenho medo, nada "Estou com uma dor no joelho, não sei se posso ir. "Olha, toma cuidado que isso é conversa pra botar boi pra dormir. Se a senhora pode ir à feira, pode andar. Vamos de ônibus, desce na porta." Desci ali. Duas quadras, que isso? Ela foi na minha casa e disse assim: "Dona Beatriz, vou à Portugal. Quero que a senhora vá comigo." "Mas o meu filho é falecido Só tenho duas filhas e meus genros pra me dar passagem à Portugal. Você não acha que é muito?" Eu tinha bordado uns jogos, estava ali pra bolsa, guardados. Aí olhei pro santo da minha devoção, e eu falei: "Se eu vender esse bordado, vai me ajudar a outra continha que está lá guardada, eu vou à Portugal Impressionante que eu vendi o bordado todo que eu tinha na bolsa Só um doutor, Benedito, chegou lá, médico dos meus netos, lá de São Vicente. Ele comprou dois jogos.

 

Devoção à São José

O santo de minha devoção é tão velhinho O pai adotivo de Jesus. São José. Eu olhei pra ele e disse; "Ai meu São José, será que eu mereço uma passagem? Não é por vaidade, eu quero ir ver minha família." Minhas sobrinhas, cinco irmãs. Eu queria tanto abraçar as minhas irmãs E as minhas sobrinhas. Meu Deus, não é luxo. 

 

Visita às irmãs em Portugal

De repente me deu aquela vontade de ver as minhas irmãs, abraçar a minha família. Olha minha filha, eu acho que Deus estava no avião. Eu não tive medo de nada. Eu viajava de pé no avião. Doze horas de avião pra chegar. Cheguei à Lisboa, ainda mais hora e meia pra chegar no Funchal, aquele aeroporto pequenininho. Eu fui com tanta alegria, quando cheguei em Lisboa, telefonei à Madeira. Falei com a minha irmã: "Olha, estou aqui em Lisboa, mas o avião que me vai levar é só onze e meia da noite. Vocês podem dormir que eu pego um táxi, chego aí, conheço tudo. Não vou ter problemas nenhum, não quero dar problemas a vocês." "Podes deixar, que tu tenhas boa viagem pra Madeira, não se preocupes. De Santa Cruz pra chegar a nossa casa está tudo te esperando. Ninguém vai dormir esta noite" Quando eu chego lá, por impressão, a minha mala não passava naquela roda, sabem? Pra gente pegar a nossa mala. Fora o que levava na mão. "Meu Deus, a minha mala, será que não passa? E a minha família vai embora, sei que estão aí." Eu era a última. Aí quando veio a minha mala, eu pus a mão e saí à porta, olhei e eles estavam por cima no mirante, lá em Santa Cruz. Aí eu dei a mão. Vou dar a mão porque não sei se eles me conhecem; vou dar a mão pra dizer que está alguém aqui. E nem vi, que estava de noite, uma hora da manhã. Saí de lá onze e meia e já ia dar uma hora da manhã, a espera pela mala. Os guardas falaram; "Quem é que vem tão importante que há tanto carro aí, tanta gente esperando uma pessoa alta noite?" As minhas irmãs falaram: "Ela é muito importante. Porque é a minha irmã que não se vê há 46 anos." E já não conhecia elas. A minha irmã que não tinha nenhum bebê, a Matilde estava com uma neta. filha daquela primeira filha, que nem tinha filhos ainda. Já com 17 anos. E aquilo foi tudo uma alegria. Eu andava um pedacinho pra cada um, por telefone, tudo marcado: tal dia pra casa de tal sobrinho, tal dia passado na casa de Marcelino. Então disse às minhas irmãs: "Olha minha filha, você vai fazer-me um favor. Você é que vai marcar pra onde vou" Ora pra casa da minha irmã que era no centro do Funchal, casa da prima Laurinda, que estava na Venezuela e que depois ia embora. Ela veio me buscar duas vezes. Passei três dias. Noite e dia, ficava-se conversando até duas horas da manhã, três, pra pôr as coisas em dia. E não deu, ficou muita coisa. Outro dia pra casa de uma sobrinha, que eu morei, nasci lá, onde morava minha sobrinha, que aqueles bens eram pra minha irmã Maria, mais velha. E lá arrumaram, e eu digo; "Eu não quero saber de bens. Eu vim ver a família, não me falem em bens." Ninguém ia me dar nada, já se passaram tantos anos, nem falei em nada, nem quis saber de nada.

 

Despedida

Aí quando chegou a hora de ir embora que foi. E agora tenho que partir. Agora minha terra é lá. Minhas filhas, meus netos. Apesar que a minha família é pequenininha, mas me aguardava aqui. Quando cheguei no aeroporto, minha filha já estava lá me esperando. "Mãe, como é que foi a viagem?" "Eu nem sei te contar" Parecia que nem pisava no chão. Todo mundo me acarinhando. A família toda, vizinhos, conhecidos. E tinha uma que estava doente de cama, naquele dia, assim, vizinha da minha casa. Ainda era prima. Foram dizer que estava na Madeira. Ela falou; "Pois hoje eu não como se a Beatriz não vier aqui me ver" A filha era professora e veio correndo: "Ah, a estrangeira que venha logo ver minha mãe. Ela hoje não aceita nada sem ver a Beatriz" Até ela que estava tão doente. E está, continua, só se ela faleceu. Era um derrame, ia médico todo dia pra ela. Agora lá está muito bom.

 

Sobre o Brasil

Mas a minha terra é aqui. Graças a Deus ele me concedeu um cantinho, e me deu muitas amizades. Agradeço à Deus o povo maravilhoso que eu sempre tive ao meu lado. Eu não esperava tanta ajuda das autoridades. Eu achei que isso foi uma coisa muito boa. Até hoje, estamos ali. Trocou de prefeito e não se opôs que a gente estivesse ali no Orquidário. Pensei, agora troca de prefeito, nem sei se ele vai gostar. Mas ele também é muito bom. Antes das eleições, telefonava todo dia pra minha casa. E eu sempre dizia: "A minha família vota, mas eu não" Mas eles sabem que a gente sai na rua, conversa, tira partido. Eu me dou com todo mundo, graças a Deus, pra mim não teve nenhum ruim. 

 

Lições de comércio

Olha, o comércio é pra quem é persistente... você não pode pensar que vai dar de imediato os lucros que você quer. Você tem que aguardar. Nesse aguardar você vai fazendo amizades, conversando, muita gente, amigos, agradando o povo. O negócio depende muito das amizades, não importa a cor, a religião. Não visa também se ele é o "A" ou o "B". O que importa é que aquela pessoa está ao nosso lado. Se não comprou hoje, comprou amanhã e pagou O negócio pra mim, eu acho muito importante mesmo. Posso dizer que não tenho negócio. Essas pequenas coisas me ajudaram muito. Que se fosse depender da pensão que eu recebia de meio salário mínimo. 

 

Segundo Casamento

Eu voltei a casar novamente. Com outro português, há 18 anos. A pensãozinha dele é um pouquinho maior. Conhecia ele desde que cheguei de Portugal. Mas não tínhamos nada, absolutamente, Deus me livre. Eu casada e ele casado. Depois ele veio a ficar viúvo e queria casar, queria casar. E aos 59 anos? Aí foi quando eu comecei os bordados, depois daquelas datas. Ele ainda era vivo. Pra mim, eu achei que foi bom. Eu não cruzei muito os braços aqui no Brasil, não. E o meu genro era o mesmo. Eu tenho um genro que era garçom. Eu dizia: "Ainda há de te ver com um negócio teu porque essa coisa de trabalhar pros outros não é bom negócio" Eu sabia que ele não ia poder casar, pagar aluguel. Eu não tinha casa pra dar. Aí com aquelas conversas, não precisa a gente falar muito. Às vezes uma palavra que nós escutamos da boca de uma pessoa, aquilo não é um conselho, é uma dica pra nos abrir os olhos e a mente. Qual não foi a minha surpresa, ele tinha comprado um barzinho. Mas ele teve sorte, não desistiu. Um barzinho de posto. O posto entrou em falência, não sei porque motivo. Cortaram a luz, a água, não parava ninguém. Ele perdeu tudo. Ele comprou outro, com aquela economia dali, deu entrada no outro. E foi ali o começo dele. Já está tudo certo, vamos marcar o noivado e o casamento... Aí ele se casou e até hoje está com o barzinho. O filho, um menino, ajuda no bar. Eu dizia pra minha filha: "Teu filho está desempregado? Que o pai faz que não leva o filho pro bar? Vai lhe ensinando uma profissão. Parece que não, mas já é uma profissão. De que foi que o teu marido viveu?" Aí uma palavrinha hoje, outra amanhã, o meu genro chamou o filho. Lá está ele servindo no bar, ajudando o pai. Que precisa, o pai já não é tão jovem. Ganhando o dele. Eu acho que o negócio é muito importante. O mais importante é a pessoa saber conviver com a freguesia. Quantos entram lá: "Me dá uma pinga aí" Não perguntam por dinheiro, bebe a pinga e vai embora. Não é bom freguês. Mas por causa de uma pinga ele vai ficar mais pobre? Não. Ao menos não arranjou um inimigo, arranjou um amigo: "Ele me deu uma pinga, amanhã eu compro uma cerveja". Então a alma do negócio é a amizade. Fazer amigos, às vezes até uma pessoa que você não conhece. Mas é teu amigo amanhã. Não importa que não conheça. E vai levando a vida assim. Eu tenho duas netas, dois netos, quatro. E dois bisnetos. Eu tenho um bisneto com 7 anos. 

Depoimento

Eu achei que pra mim foi bom. Eu não sei se alguma palavra podia ser dita. Vocês não mandaram recuar nenhuma palavra. E então foi bom conhecer vocês. Ponto pra mim e ponto pra vocês Não é? Valeu.

 

Continuidade de Bordado com as filhas

As minhas filhas aprenderam a bordar. Mas uma está no Rio. Outra em São Vicente. Ela disse; "Ô mãe, eu posso bordar e me desculpa de não poder ajudar. Mas a minha casa é grande e é tanto trabalho" O marido não dá trabalho quase nenhum, pra falar a verdade. Ele sai de madrugada. Quatro e meia da manhã e chega oito, oito e meia da noite. Só que tem a comida prontinha, ao gosto dele e pronto, tudo em ordem. Bem ou mal a parte dele tem que estar em ordem. E o filho chega às três horas. Das pessoas que costumam; "Ai, isso aqui eu não estou com apetite. Me arranja outra." E ela gosta de estar em casa por isso. Ontem fui lá cortar o tal de jogo, que a máquina de costura me aprontava sempre. Eu joguei no meio da rua. Eu vou na casa dela que a máquina é mais moderna. Quando não dá pra costurar, deixo lá. "Vou cortar aqui um jogo, que esse jogo eu preciso, que é de encomenda". Ela viu o trabalho na cozinha, foi na máquina e também costurou os dois lençóis. Agora, as fronhas são depois de tudo, o bordado. Ela, de vez em quando, me dá uma ajuda, graças a Deus pela boa filha.

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