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História

Bondades irreversíveis

História de: Rômulo Martins dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Entre diversos relatos de momentos da sua carreira no BNDS, Rômulo Martins nos conta um caso em que ele teve que mentir o valor da taxa de juros fingindo um desconto para que um empresário implementasse um projeto social em sua localidade em paralelo ao seu negócio. Segundo ele “Às vezes tem que mentir também para fazer o bem. E você tem que criar o que eu chamo “Bondades irreversíveis”, que são as bondades que ficam para sempre na vida de quem é atingido por elas.

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História completa

P/1 – Boa Tarde, Rômulo, eu gostaria de começar o depoimento pedindo que você nos forneça o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – O meu nome é Rômulo Martins dos Santos, nasci no dia 10 de outubro de 1948, aqui no Rio de Janeiro mesmo.

 

P/1 – Em relação aos pais, o nome e a atividade profissional?

 

R – O meu pai chamava Manuel Martins dos Santos, ele era funcionário do Correio, Correios e Telégrafos se chamava naquela época, e minha mãe era enfermeira, trabalhava num Posto de Saúde em Jacarepaguá. O meu pai morreu cedo, morreu com 42 anos, conheci pouco, eu tinha seis anos quando ele morreu.

 

P/1 – E os avós, conheceu seus avós, lembra deles?

 

R – Conheci minha avó, baiana, por parte de mãe. O avô, pai da minha mãe, eu não conheci. E a avó, por parte de pai, eu conheci e o avô também não conheci, era português. Então, minha origem é, como eu estava falando para ela, Bahia e Portugal. Que, no fundo, quer dizer a mesma coisa, quer dizer, é Portugal.

 

P/1 – E irmãos, você tem irmãos?

 

R – Tenho, nós éramos quatro. Um morreu, o mais velho, morreu cedo também. Na minha família os homens morrem cedo e as mulheres duram muito. Nós somos quatro e eu sou o caçula.

 

P/1 – Você foi criado em Jacarepaguá, conta um pouquinho como é que era esse bairro na sua infância.

 

R – Por acaso, eu estive lá ontem... A imagem que a gente tem de bairro de cidade do interior, as pessoas falam: ah, voltar para a minha terra, e tal... Eu tinha aquela lembrança, eu voltei, a minha mãe ainda morou lá no mesmo lugar até uns anos atrás e... Eu voltava lá, eu não gostava, eu reprimia, porque o lugar onde eu nasci é daqueles lugares que foi se degradando ao longo do tempo, entendeu. Quando eu nasci, lá era zona rural, chamada zona rural. O pessoal do colégio imitava, dizia que eu pegava charrete para ir para casa, que os índios atacavam... E foi se degradando como boa parte do Rio de Janeiro, foi empobrecendo e super habitado, né, então a imagem que eu tinha eu não gostava. Eu voltei ontem lá e vi que... E as pessoas falando, né, porque era um vale cercado assim de morro e esses morros eles foram sendo ocupados por favela, segundo dizem, segundo diziam. E eu quando voltei lá ontem... Eu quando voltei lá ontem estava com meu filho, meu filho já está com 23 anos e nunca foi lá, aí eu mostrei para ele: “Ó, vem ver a rua que eu morava...”. Daí fui olhando assim a minha rua, que era uma ruazinha simples, teve uma especulação imobiliária desenfreada, está cheia de prédio alto, só a minha rua, as outras não. E no final da rua surgiu uma favelazinha, da outra rua do lado... Então aqueles morros, eu estava dizendo para ele que eu andava em cima dos morros com meu cachorro e meus amigos, a gente corria por cima do morro... A imagem que eu tinha é que estava tudo ocupado, mas, nada, não está ocupado nada, está lá, está bonitinha.

 

P/1 – Que lugar de Jacarepaguá: Taguara, Rio, (Passa seca?)?

 

R – (Passa Seca?).

 

P/1 – E a tua casa? Como é que era um pouquinho da tua casa?

 

R – A minha casa, olha eu tenho história de casa muito boa em Jacarepaguá... Os lugares que eu morei até quinze anos eram assim, dois quarteirões, eu morei em uns quatro lugares, mas dentro de uns dois quarteirões. Foi numa vila, numa rua chamada Pedro Teles, depois foi numa outra vila mais para a frente, depois foi numa terceira vila, a gente gostava de morar em vila... A gente sempre falava que vila era melhor que apartamento porque apartamento fica um em cima do outro, vila tem aquele negócio... Hoje em dia, estão até voltando aqueles projetos de vila. Mas eu estudava num Colégio Militar e demorava muito a chegar ao colégio, tinha que tomar um bonde até Madureira, um trem até São Cristóvão e, depois, andar meia hora da Estação de São Cristóvão até o Colégio Militar. Ou pegar um ônibus, mas, eu pegando o bonde e mais o trem, a diferença para a passagem do ônibus era um pastel e um caldo de cana na volta, naquele tempo dava uma diferença... Eu não sei como que é hoje, mas dava uma diferença boa... Aí a gente ia de trem, de bonde, só que depois ainda tinha que andar para burro para chegar ao colégio. Era meio sacrificante aquele negócio de morar tão longe, aí eu comecei a morar na casa da minha tia, que era perto do Colégio Militar, na Tijuca, então de segunda a sexta eu ficava na casa dela e sábado eu ia para Jacarepaguá. Eu acho que dos... Eu fui para lá com uns quinze anos, até... Eu saí de lá para casar, dos 15 até os 25 anos, eu acho que eu devo ter passado uns dois fins de semana na Tijuca, o resto tudo foi em Jacarepaguá, sempre.

 

P/1 – E o Colégio Militar, quero dizer, essa foi uma opção sua, uma exigência dos pais?

 

R – Olha, Colégio Militar era o grande colégio da época. Naquela época você tinha o Pedro II e o Colégio Militar. Os pais queriam que os filhos estudassem nesses colégios e, até porque era público. Eu passei no Pedro II e fiquei, chamava excedente no Colégio Militar, quer dizer, excedente é porque reservava-se um número de vagas para os filhos de militar e quem não era filho de militar, mesmo que passasse, tinha que esperar abrir uma vaga. Eu passei para o Pedro II, já estava contente no Pedro II na minha primeira semana de aula, quando eu soube que por conta de um Mandato de Segurança lá alguém conseguiu botar os filhos de civis no colégio militar. Chamaram-me, eu entrei para o Colégio Militar, e foi muito bom. Eu agora estou reencontrando... Eu já tenho um amigo General, da minha turma já tem um. Essa semana parece que um foi promovido a General... Mas a pior coisa do Colégio Militar é cortar o cabelo, tinha que cortar o cabelo de dez em dez dias e essa barba que eu tenho hoje é a mesma que nasceu em mim que nunca tirei. Só dei uma raspadinha quando o meu filho tinha uns seis anos... Mas aquele negócio era tão marcante, aquele negócio de ter que cortar o cabelo que, quando eu saí do colégio, eu fiquei com o cabelo desse tamanho, a barba grande, tudo... Durante muitos anos... Até hoje eu não cortei a barba, por causa dessa história dessa repressão.

 

P/1 – E em relação à formação, por exemplo, política e religiosa, isso na sua casa era marcante? Sua família era religiosa, como é que era?

 

R – Minha mãe era muito católica, muito religiosa. Mas, também, nós nunca fomos e ela nunca misturou as coisas. Aliás, nós fomos antirreligiosos e ela super-religiosa, mas também nunca influenciou, ela rezava por nós todos.

 

P/1 – Por isso, né, todo o mundo se sentia amparado...

 

R – Mas na minha formação, por exemplo, a do colégio, eu sou engenheiro. Eu não sei, se tivesse uma vocação mais artística o negócio era mais difícil, né? Porque no Colégio Militar isso é coisa de boiola, ser artista não tinha muita vaga não. Você tinha que estudar Engenharia ou, sei lá, ser militar. Mas acaba que, hoje em dia, eu conheço várias pessoas que estudaram no Colégio Militar e foram para o lado das artes. Esse, como que é, o (Montarollos?), o que é que ele toca...

 

P/1 – Acho que é sax, né...

 

R – É, pistom, uma coisa assim. Mas esse cara é famosíssimo, esse cara era o nosso corneteiro, era colega nosso, era um famoso corneteiro... Agora, para sair artista no Colégio Militar tem que ser muito artista, tem que ser daqueles excepcionais, porque o negócio era... Esse negócio de trabalho manual não tinha não. (risos)

 

P/1 – Mas a opção pela Engenharia, quero dizer, foi uma coisa sua, individual, como que é?

 

R – Foi medo de ser militar. Porque pobre num Colégio Militar, a carreira natural é ser militar. Então, eu tinha um verdadeiro pavor de ter que ser militar... (riso). O pavor foi tanto, quando chegou ao último ano, no terceiro ano do colegial, um amigo meu me arranjou uma bolsa de estudos num curso... Então a minha opção por Engenharia, quer dizer, tem certa tendência natural, né, um gosta mais de número... Aquele negócio assim, as matérias que eu gostava tinham mais relação com... Mas eu era ruim em todas elas. Eu tive um primário brilhante, no primário eu ganhava tudo quanto é prêmio ___________  saia tudo por aí, concurso, prêmio, não sei o quê. Aí, quando eu entrei no Colégio Militar ganhei bolsa de estudos, mas fui daqueles alunos absolutamente médios, sabe, aquele que se a nota para passar é quatro eu tirava 4,2. Como é que um cara com um currículo desse ia conseguir uma bolsa num curso pré-vestibular, né? E curso pré-vestibular era caro para caramba, né? Aí uns amigos meus convenceram um dos donos do curso que eu era bom, que eu era bom aluno, que eu só ia dar orgulho para o curso. Aqueles que no final do ano aparecem lá, aparece a foto do cara no jornal. Aí eu entrei e tive que estudar, passei um ano da minha vida estudando muito, estudava muito, de segunda a sexta, sábado e domingo eu não conseguia... Porque eu vinha da Tijuca para cá e tinha muitas atividades, para Jacarepaguá. Mas eu estudei desesperadamente, tinha que passar para Engenharia e tinha que passar para uma Universidade pública, né, não podia passar para uma particular. Quando foi no final do ano, eu fui escolher... Era um negócio de opções, eu botei Federal depois, segunda opção, Petrópolis, PUC nem passou pela minha cabeça, nem botei como opção PUC. Aí passo eu para a PUC de Petrópolis, desespero total, além de passar para uma paga ainda é longe, daquelas que você tem que ter lugar para morar... Quando foi no carnaval, logo depois assim, na quarta-feira de cinzas eu pego o jornal e está lá: reclassificação. Eu fui o último da Universidade Federal, eu era o primeiro de Petrópolis e depois era o último da nacional. O meu apelido era E, eu nunca entendia porque me chamavam de E, era por causa da lista dos aprovados, e eu era Ê Rômulo Martins dos Santos... Então o pessoal só me chamava de E. E assim, _____________ de Engenharia.

 

P/1 – E um pouco da vida social, de lazer, de atividades quando jovem , como que era nessa tua época? Festas, bailes, como é que era?

 

R – Olha, quando eu era jovem eu tinha o meu grupo. Como eu disse a você, eu ficava na Tijuca e meu grupo era de Jacarepaguá. Eu vinha sexta-feira à noite para cá, eu andava mais com a turma da Freguesia. Mas eu tinha umas atividades boas, tinha uns grupos organizados de discussão, nós discutimos até uma vez a eutanásia, eu me lembro, depois eu votei em branco, eles ficaram danados comigo. A gente fazia tipo uns tribunais, se era contra ou a favor... Mas era bacana, tinha festa, tinha teatro. Era muita atividade, muito bom, fora o futebol. Eu era atleta naquela época, porque eu lutava judô e tinha bastante, bem intenso. Agora, a minha vida era danada de movimentada, porque eu morava na Tijuca, a namorada era em Jacarepaguá, a faculdade era no Fundão, o estágio era em Magé... Eu ainda arranjei uma faculdade à noite, Administração. A gente tinha um grupo que resolveu fazer Administração à noite, ainda tinha Administração em Botafogo. Então, se você for somar as distâncias e os tempos, já viu que não dava para fazer tudo todo dia, um dia eu ia numa outro dia ia noutra, não dava para fazer todas aquelas atividades todos os dias...

 

P/1 – E a Universidade, quando você entrou como era o ambiente da faculdade de Engenharia? Porque era uma época, né, até politicamente recente...

 

R – É, eu acho muito interessante isso. Eu acho que pelo fato de eu ter essa vida tão atribulada eu não participei, apesar de eu ter vivido a época ali do Movimento Estudantil, eu não participei do Movimento Estudantil. Eu fui muito mais próximo dos hippies, da música, tal, que ocorreu na mesma época, do que do Movimento. Não sei o porquê, calhou. Eu tive conhecidos que até que eram, não que conviviam comigo, mas conhecia gente que participou do Movimento brabo mesmo... Mas eu não sei, nessa época eu andava muito mais do lado do Festival da Canção, aquela coisa, do que da participação política. Eu não, não passou, não quer dizer que eu tenha sido alienado, mas eu não vivi aquele... Eu e um monte de gente, não era todo mundo que vivia isso. Os Anos de Chumbo, né? Mas eu vivi exatamente esse tempo, 68, eu me lembro que em 68 foi o meu primeiro ano de escola, de faculdade. Naquele ano, de oito provas a gente só fez uma de uma mesma matéria e repetia sete porque, praticamente, não houve greve, mas também não houve aula, só confusão... De vez em quando chegava lá o Exército sentando o cacete em todos os alunos, a faculdade de Engenharia era muito grande, só na minha turma tinham 300 alunos... A minha turma de engenheiros tinha 300, eram duas de 150.

 

P/2 – Deixa eu voltar um pouquinho, o Senhor falou que tinha um grupo de debates... Quais eram os temas mais polêmicos dessa época, desse grupo?

 

R – Olha, por exemplo, eutanásia foi um dos temas, fizeram até um... Um acusava, o outro defendia, e tal. Tinha teatro. Mas estou lembrando agora, política, apesar de vários dos amigos serem bastante informados, mas a gente não... Eu não sei se foi por causa daquela, eram quase todos ex-alunos do Colégio Militar, não sei se aquilo botou a gente... Quero dizer, a minha revolta contra militar é que tinha que cortar o cabelo, aquela disciplina, não é disciplina, é aquela coisa que não dá liberdade de raciocinar, você tem que só... A tal da hierarquia, que só serve aquilo, aquilo é o principal, manda quem pode, obedece quem precisa. Tem aquele negócio, aquelas teorias. Então, eu acho que pode ter sido por aí.

 

P/1 – E os festivais de música, você ia? Conta um pouquinho para a gente, a torcida, por exemplo, como era a torcida do Festival?

 

R – Ah, todos, todos. Tinham amigos nossos que participavam, que era bacana. O Sílvio da Silva Júnior, aquele famoso amigo é para essas coisas, que cantam tanto hoje em dia, ele era da minha turma, é engenheiro da Petrobras. Tá vendo, mais um artista que saiu de lá, diz que não sai artista do Colégio Militar, sai sim... O Agildo Ribeiro foi do Colégio Militar. A gente ia a todos.

 

P/1 – Algum que te marcou mais?

 

R – Ah, não sei, acho que foi aquele que o Sérgio Ricardo quebrou o violão, jogou na platéia. Porque, olha, era muito bacana festival, mas para ouvir depois de gravado, porque lá você não ouvia droga nenhuma. Não adianta dizer que... Mal começava a cantar, já era ou a vaia ou o aplauso, quer dizer, dependia da torcida. Acho que na televisão era muito melhor, sempre melhor.

 

P/1 – Mas você era parte de uma torcida, de certo cantor?

 

R – Não, não. A gente ia lá para ver, só ir cantar. E o nosso grupo cantava muito bem, tinha gente que cantava. Em alguns grupos pessoas cantam, outros não...

 

P/1 – Violãozinho...

 

R – É, é, tinha uns... Na geração depois da minha, dos meus primos mais novos, mais pessoas cantam. Quero dizer, a geração subsequente à nossa veio mais musical.

 

P/2 – Alguma canção em especial desses festivais, que tenha marcado o Senhor?

 

R – Essa, “Amigo é para essas coisas” é uma, porque a gente conhecia muito. Agora, a que marcava, a que tem Gilberto Gil, Caetano, o Chico Buarque que eu não entendia nada daquelas coisas que ele fazia... Sabia que era bonito, mas não tinha obrigação... (risos) Ai ganhava sempre, sabia, podia ser bonito. E ele está cada vez melhor, né? Hoje em dia, o meu filho que é bem musical, ele canta bem, ele estava dizendo: “Poxa, daqui a uns dias eu não vou mais poder cantar o Chico, porque ele está ficando a cada dia mais elaborado, mais sofisticado.” Como o Jobim foi ficando, ao longo do tempo foi sofisticando, né?

 

P/1 – Rômulo, você contou que fazia um estágio em Magé, como que era isso, era Teresópolis...

 

R – Ah, essa é uma fase difícil da minha vida. Porque Magé, vamos imaginar, a Ilha do Fundão é ali na Av. Brasil, depois eu saia dali, tinha aula de manhã, pegava um ônibus que passava quando queria... Até hoje ele passa quando quer. É o ônibus que vai para Magé, às vezes dá uma hora, às vezes dá meia hora. Saltava lá no meio da estrada, andava um esticão, a Rio - Magé naquele primeiro trecho dos 22 primeiros quilômetros. Então, eu saia meio dia e chegava lá tipo umas duas horas.

 

P/1 – Isso era estágio como engenheiro já?

 

R – É, como estagiário de engenharia. Eu gostava de estrada, eu queria fazer estrada. E foi uma oportunidade única, porque as estradas sempre são longe daqui, né, não tem estrada aqui para fazer. Tem lá na Transamazônica, lá em Goiás, lá no interior, mas aqui só tinha aquela. Aliás, nesses anos todos só teve a... ah, teve a Rio – Santos, de dizer que é perto, a Linha Vermelha, a Linha Amarela, mas só teve aquela no meu tempo.

 

P/1 – Isso é o que, Rio – Teresópolis?

 

R – É, Rio – Teresópolis. Então, eu saia meio dia chegava lá duas horas, terminava as seis para esperar o ônibus, para voltar. Às vezes tinha que pegar um para ir até Caxias e em Caxias pegar outro para ir até a Praça Mauá, e depois pegar outro para a Tijuca ou Jacarepaguá. Eu sei que eram quatro horas de viagem, então não dava. Aí tinha uma casa lá, que era a casa dos engenheiros, toda obra de estrada tem a casa dos engenheiros. Era uma casa bem montada, com mordomia, com um cozinheiro profissional bom, porque onde os caras dão grana estão lá, né. Em geral, qualquer estrada que você vai, a casa dos engenheiros é onde ele recebe os diretores que vão lá ver a obra, onde recebe o pessoal do governo que vai fiscalizar a obra... E essa casa com mordomia era literalmente vazia porque, como a obra era perto do Rio de Janeiro, todos eles moravam em Copacabana, todos eles tinham carro, então o camarada preferia sair no carro dele e dava uma hora, menos de uma hora, ele já estava em casa. Eu é que pegava aquele monte de ônibus. Então acabava que eu dormia lá, naquele... Eu dormia sozinho naquele casarão, era um barato para mim, eu parecia engenheiro mesmo. E a mordomia, comida, comia tudo que deixavam lá, sobrava troço para burro e o mordomo lá querendo agradar alguém e não tinha ninguém, só tinha eu, então era uma beleza.

 

P/1 – Mas você já era ligado nessa coisa de Transporte, de estrada, isso já foi um...

 

R – Foi uma especialidade. Você quando faz Engenharia Civil, lá pelo quarto ano você tem que escolher, tem umas cinco opções, eu tinha escolhido estrada. E, graças a Deus, eu entrei para o BNDES, porque se eu tivesse sido estradeiro pô, que coisa horrível, já pensou? Um dia você está em Mato Grosso, outro dia na Transamazônica... Isso não me passou pela cabeça, era jovem e até achava legal. Mas, depois dessa vida de BNDES também eu viajei muito, o pessoal do BNDES viaja muito.

 

P/1 – Como é que foi, então, o seu ingresso no BNDES? O que representava o BNDES nessa época?

 

R – Absoluto acaso (riso). Eu não tinha a menor ideia do que era o BNDES. Eu só sei o seguinte, aí eu terminei a faculdade e ingressei direto na pós-graduação. E tinha uma bolsa de estudos de Capes ou CNPQ, não sei, nem me lembro qual era. Eu comecei em janeiro e eu estava com casamento marcado para setembro... Porque a gente começou a fazer umas pesquisas e começamos a ganhar um dinheiro, eu e meus amigos abrimos uma firma de pesquisa, a gente trabalhava para o Citibank, o Citibank tinha um pessoal da vice-presidência que fazia projeções financeiras e tal. Eles não sabiam fazer gráfico e a gente era bom de gráfico para burro, hoje em dia tem computador que faz tudo, mas...

 

P/1 – Como era o nome da sua empresa?

 

R – Era (Pesquise?), o Zé que era o chefe, era pesquisas do Zé.(risos). A empresa foi tão bem que o nosso primeiro escritório foi num apartamento na Carlos Góes, no Leblon. Aí a gente aproveitou e misturou tudo, né? Nos mudamos para lá, fizemos o escritório e a gente estava indo muito bem, porque eles pagavam para nós o salário hora equivalente a uma aula particular. Então, você vê quanto é uma hora particular hoje, sei lá quanto é, 50 pratas, era isso o que eles pagavam, 50 pratas. Só que a gente trabalhava 36 horas seguidas, dormia no tapete, era um de... Rodava. Porque quando tinha a tal da reunião de diretoria, que o pessoal vinha dos Estados Unidos, eles tinham que produzir gráfico, né, e era só dar os números que a gente fazia os gráficos.

 

P/1 – Tudo na mão, naquela época, não tinha computador, não tinha nada.

 

R – Tudo na mão. Um monte de engenheirinho novinho lá, fazia tudo muito rápido. Então, naquela época, foi no início do ano, eu juntei um dinheiro, a minha namorada também trabalhou nas pesquisas. A gente fazia pesquisa de obra de arte, equipamento dentário, coisas que o Citibank estava apostando em alguns segmentos que não são os tradicionais. Por exemplo, financiar obra de arte. Nós gravamos entrevista com pintores, tal, a gente tinha um pique violento. Aí ficou um dinheiro guardado que era para alugar um apartamento para quando, porque eu ia casar em setembro, eu não tinha perspectiva de sair da pós-graduação e ir trabalhar num lugar, não sei onde é que ia trabalhar, sei que eu ia. Aliás, era um tempo bom porque a gente sabia que tinha lugar para trabalhar.

 

P/1 – Tinha emprego naquela época...

 

R – Você se formava, tinha um emprego. Quer dizer, advogado era um pouquinho mais difícil, porque tinha uma produção muito grande de advogado, mas engenheiro, em geral, tinha uma estatal aí que te acolhia. Concurso público também, bom... Aí um dia eu estou passando no corredor lá da (Cope?) e vejo um papel colado na parede: Faça concurso para o BNDES. Eu falei, o que é isso... Não tinha a menor ideia do que era esse BNDES e fui fazer sem ter ideia. Eu sei que o salário era bom, era três vezes a minha bolsa.

 

P/1 – Você lembra do concurso?

 

R – Claro que eu lembro, eu estava em lua-de-mel quando desci para fazer o tal do concurso... Eu casei num sábado e o concurso foi no outro sábado, eu tive que voltar para fazer a prova. Acho que foi na PUC. Mas a prova foi tranquila, porque era tudo o que eu sabia, eu tinha acabado de estudar aquelas coisas. Se eu fosse só engenheiro eu não passava não, mas como eu já tinha feito pós-graduação em produção, aí foi mais ou menos parecido. A galera que entrou comigo era quase todo mundo de... 90% eram recém-saídos da pós-graduação, de gente que saiu da faculdade, entrou na pós-graduação e passou para lá. Mas foi assim, eu não tinha a menor ideia do que era BNDES. Fui para lá, fui fazendo o meu trabalho, também não tinha muita ideia do que era, do que significava... A gente descobre depois de uns 20 anos, a gente descobre o que significa O BNDES.

 

P/1 – Em que ano foi isso?

 

R – 74.

 

P/1 – Aí você foi trabalhar em quê? Em qual departamento, quais eram suas atribuições, como é que era?

 

R – Aí eu fui num departamento que fazia as prioridades para infraestrutura, prioridades de aplicação dos recursos do BNDES na infraestrutura. Mas eu dei muita sorte, eu caí na sala... Tinham umas pessoas históricas no BNDES, fundadores, chamava Inácio Rangel, Américo Curi, eram os velhinhos que estavam saindo. Eles eram homens que tinham trabalhado no projeto de criação do BNDES, da Eletrobrás, na Petrobras, entendeu, uns caras fantásticos. Eu caí dentro da sala deles ali, eu já aprendi aquele negócio que numa empresa você não tem que ficar sempre querendo ser um executivo que quer a tal da carreira, você tem que fazer carreira chutar o que está do lado, pisar na cabeça do outro para poder subir. Porque eu estava convivendo numa sala com pessoas que tinham participado da construção do país e estavam sentados naquela salinha, ainda dividindo comigo. Eram caras que deviam estar num trono, num lugar especial. No entanto, como não eram da política do momento, estavam lá naquela sala e isso propunha discutir qualquer assunto. Então, isso foi muito bom, eu aprendi muito. O Saturnino quando foi eleito Senador pela primeira vez, ele já tinha sido Deputado, na hora de ir embora ele me chamou e me deu o dicionário de inglês dele, o Michaelis que eu tenho até hoje, o grampeador que eu também tenho até hoje e um projeto da Serrana Mineração, que era uma empresa estrangeira que queria financiamento do banco e ele estava escondendo no fundo da gaveta, havia anos que ele estava escondendo aquele negócio. Aí eu falei: “O grampeador e o dicionário eu entendi, agora porque o projeto da Serrana?” (riso) Ele falou: “Ah, isso estava no fundo da minha gaveta aí, você guarda”. E ficou mais alguns anos no fundo da minha gaveta aquele projeto, porque o BNDES não financiava empresa estrangeira, só com autorização do ministro, era uma coisa assim muito especial. Só que essa autorização tinha que partir da base, lá do técnico do BNDES, mandavam lá, ia subindo e o ministro fazia a autorização. E ele estava justamente segurando para não fazer subir aquilo, eu segurei também. Depois eu trabalhei com outro também, que se aposentou logo depois, chamava Carneiro Leão. O Carneiro Leão quando se aposentou me deu uma gaveta inteira de projetos deles, é coisa chata que não dava para negar, aí eu fui guardando... (risos).

 

P/1 – Mas eu queria voltar um pouco a esse ambiente, do Sr. Rangel e do Curi, naquele momento quais eram as discussões, em termos econômicos, do país?

 

R – Por exemplo, discutindo se valia ou não botar a Fiat no Brasil. Era a discussão se valia à pena o governo brasileiro dar subsídios para a implantação de uma fábrica nova no Brasil, uma vez que já tinha Volkswagen, Ford, Chevrolet, não sei o quê... Ela não ia nunca atingir 5%, porque a meta da Fiat chegar a 5% do mercado. E hoje ela já tem, ela chegou a desbancar as outras aí, né. Então eram essas grandes questões. A Ferrovia do Aço se fazia, se não fazia, você bota aí nos anos 70, eram os grandes projetos. O Porto de Sepetiba, coisas só... E eu como sempre trabalhei com a infraestrutura, só tinha projetão. Itaipu! Itaipu...

 

P/1 – E qual era a posição do banco nessa época?

 

R – Não, a posição do banco sempre foi a posição do momento. Agora, as pessoas do banco é que vão mudando, né, o banco, se você for ver, sempre esteve com as posições que foram mudando no país, o banco foi mudando também. Naquele tempo, era muito mais o banco que vinha e depois o país vinha junto com o banco. O banco tinha um papel muito importante nas decisões do destino do país. Até hoje, o que o país faz, o banco está fazendo. Então, não há hipótese de se dizer assim, a posição do banco era isso, era aquilo... O banco tem a sua história particular que é a posição das pessoas, né? As pessoas... Isso é que é o interessante do BNDES, é essa, como é que chama, essa diversidade, esse meio ambiente múltiplo com várias opiniões. O que tem o banco de diferente, hoje, daquela época é que naquela época se discutia tudo e hoje em dia não se discute mais, o banco perdeu essa coisa da... Eu não perdi não, o banco é maioria, eu discuto ainda. Mas perdeu aquilo como atividade, a gente tinha uma atividade que era aprender com aqueles caras ali, a gente ia atrás deles para aprender e eles tinham disposição para passar as coisas, muito bom.

 

P/2 – E, nesse sentido, seria possível traçar que projeto de Brasil aparecia nessa discussões, nesse momento?

 

R – Sempre foi assim, os projetos de Brasil sempre surgiram ali, o banco sempre participou. Hoje em dia, eu não posso dizer que tenha um projeto de Brasil dentro do BNDES, o banco perdeu essa qualidade, essa característica que eu acho até que devia fazer força para resgatar. Resgatar essa coisa de discutir o futuro, discutir como será o país e como nós iremos. Porque, hoje em dia, o banco... Tem uma coisa importante, que a escassez faz a prioridade, você quando tem pouco recurso seleciona onde atuar e você atua depois de muita discussão, é coisa de duro mesmo. Duro escolhe onde vai gastar o dinheiro, se tem muito dinheiro não escolhe. O banco tem passado por uns anos de abundância de recursos, abundância... Posso até estar falando não corretamente. Mas tem muito recurso, então quando você tem muito recurso começa a fazer projeto que não tem a mesma prioridade. Aí você começa a ser mais flexível, e isso o banco perdeu. Por que eu vou escolher onde aplicar o dinheiro se eu posso aplicar em tudo, né? Que, aliás, acho que até um problema do banco é excesso de recurso, ele tem esse problema. Como tem muito, tem que aplicar, né? O banco pega o dinheiro dos outros para aplicar, ele pega o dinheiro do trabalhador, lá do FAT, aí ele vai emprestar, então ele tem obrigação de emprestar bem para poder remunerar o outro lá. Mas aí quando vem com muita abundância, acaba você... Você não selecionando muito. Não estou dizendo na qualidade do tomador não, na qualidade do projeto.

 

P/1 – E aí depois você vai trabalhar em que área, em que departamento?

 

R – Ah, eu já fui em tanto...

 

P/1 – Essa, depois que você sai desse... É Área de Planejamento, não é?

 

R – É Área de Planejamento. Aí eu fui, eu trabalhei, mais ou menos, até 70 e... Entrei em 74 até 78, setenta... Já não sei mais. Eu fui promovido, a primeira vez que fui promovido foi lá em 78, 77. Em 77 fui promovido a um cargo lá que me deram, era o equivalente a Gerente, mas não era Gerente.

 

P/1 – Conta um pouquinho, como é que foi essa promoção?

 

R – Tinham uns três caras lá que o Diretor achava que devia promover, eu era um deles. Aí ele deu para nós, era eu, a Beth e o Zé Mauro eu acho, e o Marcelo, não, o Marcelo não, ele foi promovido a Gerente. Ele deu para nós esse cargo de Coordenador, que era só para aumentar salário, na verdade, mas a gente não coordenava ninguém. Eu fiquei de Coordenador até o ano seguinte, que foi quando mudou o governo e entrou o Figueiredo, foi no começo do governo Figueiredo, aí me tiraram do cargo.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Sei lá o porquê, porque pesquisaram. Sempre é assim, a pessoa está num cargo não está, para quem trabalha numa empresa estável com carreira não tem que ficar contando com esse negócio de cargo não, o cargo é dado por quem está na direção no momento, né?  Então não tem que chorar quando perde não, eu já fui tanto e desfui tantas vezes, fui não fui, fui não fui, fui não fui... Aí eu saí dali e fui para outra área, ainda quando eu deixei de ser chefe até foi quando nasceu o meu filho, porra, tinha acabado de fazer a minha casa e nasceu o meu filho, estava duro... Ainda cortaram o meu cargo, mas a gente tem que se acostumar. Depois fui para outra Área de Projeto, projeto de infraestrutura ainda. Foi lá que eu trabalhei com o projeto de Itaipu, quer dizer iniciou, porque Itaipu demorou tanto tempo que eu, em diversas fases da minha vida, Itaipu estava lá dentro do banco.

 

P/1 – Mas nesse momento qual era o estágio da discussão em relação a Itaipu?

 

R – Era, não... Já estava implantando, o BNDES veio a reboque. Itaipu foi um projeto tão autônomo que ele mesmo, o projeto Itaipu, conseguia dinheiro no mercado internacional para se financiar. A concepção dele foi nessa época em que o Brasil estava bom de pegar grana lá fora, todo mundo estava a fim de emprestar. Aí eu fiquei ali, sei lá, um ano, dois anos nessa área e fui para uma área nova que estava sendo criada, que cuidava do Proalcool. Isso já era 79, por aí assim. Trabalhamos nos projetos de usinas de álcool, aí eu fui Gerente de novo, depois...

 

P/1 – Como era o nome desse Departamento?

 

R – (DALC?) Parece coisa de alcoólatra, né, (DALC?)...

 

P/1 – Departamento de...

 

R – De álcool. Depois começou uma nova reforma... A gente fala em reforma, o BNDES já teve tanta reforma, só eu já vi umas dez reformas administrativas. Aí o (DALC?) passou a cuidar de toda a energia e virou (DEN?) Departamento de Energia, de Energia e Álcool, como se álcool não fosse energia, mas... Esse (DEN?) cuidava de todas as empresas de energia elétrica que, por sua vez, eram todas estatais. Chegou um tempo em que não tinha mais projeto, porque era proibido financiar estatal, porque elas não tinham mais dinheiro para pegar, então você tinha que inventar outra coisa para poder... Então, o departamento não tinha cliente, não tinha onde emprestar dinheiro. Foi mais ou menos por aí que saiu a tal da privatização, que é um caminho meio tortuoso... Um dos caminhos que levaram à privatização foi você não ter também, o BNDE não tinha como emprestar para o setor público, o setor privado não demandava suficiente dinheiro para justificar aquele caminhão de dinheiro do BNDES... Então, a privatização teve esse caminho também, você tornar a empresa privada para poder ter capacidade de investir nela, foi um caminho que deu certo, que funcionou. Quer dizer que ao privatizar você conseguiu financiar. Não estou dizendo que tudo deu certo, mas um dos caminhos que funcionou. Em que ano que eu estava aí?

 

P/2 – Você estava nos 80, entrando nos 80...

 

R – Aí eu virei chefe do Departamento de Energia, fiquei mais uns cinco anos, sei lá, talvez um pouco mais. E quando foi em 89...

 

P/1 – Mas conta um pouquinho mais para a gente, como é que funcionava esse departamento? Como é que eram as diretrizes, os projetos maiores, mais marcantes para você?

 

R – Igual ao banco todo, um monte de gente... Um departamento com um monte de gente e que cuidava dos projetos de energia.

 

P/2 – E o Proálcool, especificamente, como é que foi esse?

 

R – O Proálcool foi uma correria. Foi um projeto assim, durante um ano, dois anos, você tinha que implantar centenas de destilarias de álcool no Brasil inteiro. Então, para nós, foi uma correria só. O Governo Federal colocava o dinheiro à disposição do BNDES, foi escolhido pela sua capacidade de seleção de projetos, seleção de devedores, de mutuários, como chamam. A gente no banco demora a fazer um projeto, demora dois meses, três meses para fazer um projeto, às vezes demora um ano para fazer um projeto, dependendo do porte dele, da importância, se você está criando ele ou se ele já vem pronto... Mas no Proálcool a gente fazia uns quatro por semana assim porque eles eram parecidos, é uma usina de tantos mil litros por dia fabricado pelo fulano, aí você tinha plantação de cana, tinha os Sem Terra, tinha os não sei quê lá, tomava cuidado... Era uma loucura. Em dois anos fizeram sei lá quantas e o Banco do Brasil também fez centenas de usinas. Foi um desafio, não era muito nobre não, a gente não gostava muito, mas era um desafio. Quero dizer, não era nobre por que o que é projeto nobre? É você participar desde a criação. Mas esse não era, esse era diferente.

 

P/2 – O que significava nesse momento o álcool como alternativa para a energia? Como é que foi essa discussão? O senhor poderia falar um pouquinho para a gente?

 

R – Olha, o álcool como alternativa de energia sempre foi muito pequeno. O Brasil tem muita energia de fonte hidráulica, tem muito rio. Você tem que ter rio e ter rio inclinado, não pode ter rio caidaço, tem que ser rio bom, inclinado, para você poder aproveitar a queda d’água. Então, a matriz energética brasileira é isso e petróleo para os carros. O álcool foi justamente substituir, o grande papel dele foi substituir a gasolina. Nós tivemos em 83, já tinha carro a álcool bom. 82 tinha pouco, 83 tinha muito, 84 e 85 era 95% dos automóveis de passeio a álcool. Aquilo deu uma liberada na gasolina, que a gasolina pôde ser usada para outras coisas e o álcool foi misturado na gasolina... Quero dizer, a gasolina para outras coisas não. O petróleo pôde ser aproveitado diferentemente, craqueamento que eles chamam. Então, o Proálcool teve o seu papel. Agora, teria um papel importantíssimo... Vocês devem estar ouvindo, algumas pessoas estão falando em voltar o Proálcool, o que significa voltar ao Proálcool? Em termos de energia, isso o que significa é nada. Porque vai o que? Fazer álcool para botar em automóvel, se tem gasolina abundante, o Brasil produz 95% do petróleo que consome. Para quê você se preocupar com o Proálcool? Para botar carro a álcool, aquela confusão de novo, carro que estraga depois, muda de novo aí todo mundo perde o carro que comprou, tal. Fala para quem teve, você teve carro à álcool?

 

P/2 – Eu tive.

 

R – Depois começou a ser um desespero, não é?

 

P/2 ou P/1 (?) – Ainda tenho.

 

R – Quase não tem... Daqui a pouco vai chegar ao posto e não tem álcool, né? Os postos já estão quase no... Antigamente era meio a meio, lembra? Bomba de gasolina...

 

P/1 – E era competitivo o preço, era mais barato do que você tem agora.

 

R – Fora isso. Então, o álcool tem um papel... Você perguntar se eu defenderia, eu defenderia. Mas, não é só pelo álcool não. Tem esse papel estratégico e tem o papel da mão-de-obra, a cana ainda é, ainda é...

 

P/1 – Empregadora, né?

 

R – Empregadora de uso intensivo de mão-de-obra, exploradora e bóia fria e escravidão e etc. É tanta gente trabalhando nesse negócio de cana, que você poderia fazer, não um projeto da matriz ridícula energética com esse __________. Não, para fazer um baita projeto social no campo. Aí você muda de figura, entendeu? Vai sair caro, vai ter subsídio, mas tanta coisa que é cara e tem subsídio aí no país e não tem um alcance social que teria um projeto desse. São milhares e milhares de pessoas, eles ganham só para viver uma parte do ano, porque a cana é colhida seis meses só. Nos outros seis meses não tem cana. Então esse pessoal... Aí a gente no BNDES fazia assim, nos projetos do BNDES não pode ter bóia fria. E nós somos fogo, o BNDES é fogo, não deixa ter bóia fria. Aí você ia lá para o cara e perguntava assim: “Você tem boia fria?”, “Não, nenhum”, “Mas como é que o pessoal cata?”, “Ah, eu pago o cara do caminhão, ele é que tem bóia fria”. Ele pagava o cara do caminhão, o caminhão ia lá e enchia o carro de boia fria, trazia. É aquela coisa de tapar o sol com a peneira, sei lá, tem outro nome aí, não sei qual é, fingir que não vê. Você diz assim, no empreendimento que o BNDES financia não tem boia fria, não tem mas o camarada contrata o outro que explora, então qual é a diferença? É a mesma coisa quando você terceiriza, porque terceirizar tem a sua responsabilidade, você terceiriza, mas você tem que terceirizar para uma pessoa responsável e você não deixa de ser responsável porque terceirizou. Você quando quer fazer uma economia diz: vamos contratar agora uma empresa para fazer a limpeza, porque a faxineira está cara. Você pagava 300 reais na faxineira, vem a empresa e diz: “Eu boto três faxineiras aí por 500”, aí você diz, obá, eu vou ganhar. E você paga para ele, só que ele não dá 100 para a mulher lá ou para o homem, sei lá. Ele dá 100 pratas lá e o camarada faz trabalho escravo e ele fica com a grana, e você fica feliz porque, ó, aqui você não tem trabalho escravo. Mas você terceirizou a consciência, é o que você terceirizou, e isso ainda é feito muito no Brasil.

 

P/1 – Vocês viajavam para esses projetos?

 

R – Sempre, eu não gostei muito de viajar, eu tenho até meio um trauma. Às vezes eu tiro férias e fico em casa, por causa de... Para não pegar avião. A gente viaja muito. Quero dizer, eu tive tempo que viajei, tempo que não viajei. Mas, em geral, aliás, é uma das qualidades do BNDES. Como o BNDES é um banco bilionário, um banco bilionário que trabalha com bilhão, você quando quer... Um camarada pede um dinheiro lá no interior da Amazônia, você diz, ah, eu vou lá ver. Então você sai daqui, pega um avião. É uma das coisas que dá prazer de você trabalhar como técnico do banco, essa possibilidade, essa mobilidade que você tem. Se bem que esse ano agora, no mês passado, houve corte do orçamento administrativo e não pode viajar (risos).

 

P/2 – Tem alguma viagem marcante que o Senhor tenha feito?

 

R – Olha, muitas viagens marcantes, eu vi muitos projetos superinteressantes. Você mesmo ir lá ver esses projetos de álcool nos canaviais, ver o que é aquela miséria, aquele troço era um negócio marcante. Você ver uma estrada sendo cortada no meio da montanha, dentro de uma floresta, também é um negócio bacana. Ou ver surgir uma indústria no meio do nada, também, como aquela mina de Carajás, são coisas marcantes. Agora, tem umas marcantes também que você pega um teco-tecozinho e sai tremendo lá... Uma vez eu me afoguei dentro de uma garrafa de Coca Cola, por causa de um troço desses. Eu era novo ainda, eu ia de Belo Horizonte para Ipatinga, onde tem uma Usiminas. A gente pegou um teco-teco, éramos quatro pessoas e o piloto falou: “Se vocês quiserem beber alguma coisa, tem aí atrás”, aí eu peguei uma garrafa de Coca Cola e fui beber no gargalo. Quando eu estou bebendo, o avião deu uma afundada e o meu nariz entrou dentro do gargalo, o meu nariz tem uma bolinha aqui assim e ficou presa. A garrafa sacudiu e a Coca cola subia e entrava no meu nariz, eu falava: “Estou me afogando, estou me afogando...”, parecia que eu estava me afogando num mar de Coca Cola... (risos) Essas coisas que acontecem em viagem, é tudo bacana, mas tem uns fatos...

 

P/1 – Marcantes nesse sentido...

 

R – Marcantes nesse sentido.

 

P/2 – Como é que foi a experiência de conhecer o Brasil via BNDES?

 

R – Foi muito boa. Tem um negócio que eu nunca, não sei se todo mundo é igual a mim, têm uns que parecem, eu nunca consegui passar um fim de semana num lugar desses que eu viajo. Então, a viagem para mim não era um negócio prazeroso, o prazeroso era o projeto. Eu tenho vários amigos que conseguiram aproveitar as duas coisas, mas eu não, qualidade ou defeito, eu sei lá, uma característica minha. É uma característica minha, acho que por causa da minha criação, que toda sexta-feira eu tinha que correr para Jacarepaguá, então eu nunca avancei uma sexta-feira viajando. Coisa mais natural, não é? Quando é que você vai a Belém? Belém custa caro para caramba, quando é que você vai a Belém? Belém é bonito que dá gosto. Eu fui há pouco tempo para Belém, eu falei: “Jamais viria aqui com o meu dinheiro”, é caro pô, bota um pouquinho mais e você chega a Miami (risos). Eu ia a Nova Iorque e o meu mecânico perguntou: “Dr. Rômulo, o senhor vai passar em Miami?”, eu falei: “Passo em Miami, sim”, ele falou: “Nasci lá perto”, aí eu falei: “Aonde?”, ele disse: “Garanhuns”... (risos) Aí eu fui olhar no mapa, deve ficar mais perto de Miami do que daqui, né? Então, você perguntou se eu conheci muito o Brasil, eu conheci. Mas se eu tivesse, se eu fosse solteiro ou estivesse mais folgado, eu acho que eu não tinha aquela dependência de voltar rápido no fim de semana. Eu ficava, em vez de voltar sexta eu voltava no sábado, mas eu já não aguentava. E carioca tem esse negócio, ficar fora do Rio não é bom não, fim de semana é no Rio.

 

P/1 – Agora, do seu ponto de vista pessoal, você já era casado? Qual é o nome da sua esposa?

 

R – Eu já entrei, eu entrei no banco casado.

 

P/1 – Qual é o nome dela? Qual é a profissão?

 

R – Eu estou casado, vai fazer 30 anos. Eu já troquei de mulher duas vezes, mas nunca deixei de ser casado.

 

P/1 – Boa a sua resposta...

 

R – Só deu uma mudança.

 

P/2 – Política...

 

R – Eu fui casado de 74 até... 73, eu casei em 73 e separei em 84. Depois eu casei de novo em 86 e estou até agora.

 

P/1 – Você tem filhos?

 

R – Tenho dois. Um do primeiro casamento dela, que tem idade mais ou menos... Uma vez eu fui falar um negócio de filho único, aí a pessoa com quem eu estava falando falou assim: “Você tem alguma coisa contra filho único?”, e eu falei: “Eu não, eu gosto tanto que tenho dois”. Eu tenho dois filhos únicos, um é do meu casamento primeiro e o outro é do primeiro casamento dela.

 

P/2 – O senhor fez doutorado e depois regressou ao BNDES, qual foi a relação do curso com a atividade profissional, como é que foi esse encontro?

 

R – Foi o seguinte, a minha formação é engenheiro civil especializado em Transporte e depois eu fiz mestrado em Transporte. Em 89, mais ou menos, 88, 89, numa das “n” reformas que o banco teve fizeram a criação de novos departamentos, novas áreas, eu fui escolhido para sair do Departamento de Energia e chefiar uma nova missão. Eu sou chegado a novas missões, quero dizer, o pessoal acha que eu sou chegado a nova missão. Mas eu fui a essa nova missão, foi esse tal de DESUR, eu não me lembro nem o nome, era Departamento de Desenvolvimento Urbano e Rural, sei lá como que era, porque tem o DERUR que é Recursos Humanos, nego mistura... Enfim, essa parafernália de nomes eu não sei. Mas era um Departamento que tinha como missão fazer atividade social na área industrial e atividade industrial na área social. É, é difícil de entender mesmo...

 

P/2 – Dá para explicar um pouquinho?

 

P/1 – O que é social nesse caso?

 

R – É o seguinte, tinha um projeto de laranja, a senhora sabe que o Brasil é um grande exportador de laranja, né? E laranja emprega bóia fria para burro... Era um projeto do Antonio Ermírio, ele estava entrando no setor de laranja e laranja tem sempre um risco enorme porque a geada da Flórida é o nosso grande aliado, quando dá geada lá a laranja vai para o chão e a gente exporta tudo. Então você não pode ter uma indústria dependendo de geada na Flórida, né? Nem de praga, nem dessas coisas... Ele estava entrando no negócio e obviamente que iria dar certo, se não desse certo ele... Segundo ele mesmo falou: “Eu chupava laranja, eu não preciso vender porque eu tenho grana... ou eu dou na feira”. O grande desafio é você pegar a tecnologia desses caras de sucesso e aplicar lá no bóia fria. Como? Aí a gente dizia, tem bóia fria? Novamente veio a história, não, não tem bóia fria, aí o boia fria vinha num caminhão porque ele terceirizava o bóia fria. Eu falei assim: “Olha, nós estamos exigindo que seja feito no seu projeto um projeto social”, aí ele falou para mim assim: “Olha, projeto social eu faço pagando imposto”. Eu falei: “O senhor está com toda a razão, mas nós queremos que o senhor faça um projeto social aqui na área do seu projeto”, aí ele: “Tá bom, o que você sugere que eu faça?”, eu falei: “Eu quero justamente aproveitar a sua capacidade de gerenciamento, vamos...”, “Ah, então a gente faz uma escola, uma creche, uma praça, um poste...”, não sei quê, e eu: “Ah, mas isso aí é pouco, vamos ensinar esse pobre a plantar, vamos dar um pedaço de terra para eles?”. Porque a coisa é feita em lotes de dez hectares, são cem mil hectares, com lotes de dez... Acho que estou mentindo, cem mil, sei lá, mas é um negócio desses, por aí. São lotes de, digamos mil hectares, porque eles não compram a terra toda, são pessoas que tem aqueles terrenos, de dez hectares aqui, dez hectares ali, dez ali, e a cada um ele dá a laranja, dá a laranjeira, dá o adubo, dá o negócio de tirar a praga, vai lá borrifa a laranjeira do cara lá... Quando a laranja está madura ele vai lá e compra. Agora, se não der geada na Flórida, você come as suas laranjas porque eu não vou comprar. Entendeu? É mais ou menos assim para não ter o risco. Aí eu falei: “Mas se vocês fazem isso com um cara que é gerente do banco e tem um sítio, porque não pega dez bóias frias desses aí, ou vinte, e dá para ele uma área desse tamanho, de dez hectares, que você está transformando vinte caras em gente”, “Ah, mas isso daí é muito trabalho, isso daí é papel de governo”. A minha missão era convencer esse camarada que ele tinha que ensinar o outro. Eu falei assim: “Olha, então vamos falar a sua linguagem, a sua linguagem eu já sei qual é, é taxa de juros. E se eu diminuir a taxa de juros em 2%?”, aí ele rapidamente fez a conta, trezentos milhões, 2% ao ano, ele viu quanto era o tamanho do lucro que ele ia ter... Ele falou: “Agora você já está falando a minha língua”, eu falei: “Ah, então tá bom”. Então combinamos que ele pegaria umas terras. Em vez de ele pagar aquilo tudo e depois vinha aquele monte de bóia fria e catava, aquele negócio que ele não tomava conhecimento, a partir do aumento no lucro dele causado pela redução da taxa de juros ele ia ensinar, aí ele criou uma cooperativa... Eu não sei. Porque depois eu saí, não fiquei muito nesse departamento, talvez até por isso, não deu certo porque eu tinha que encher muito o saco dos outros. Ele fez um negócio, pelo menos prometeu fazer um negócio que era de transformar aquele pessoal em gente. Aí, o pessoal: “Rômulo, como é que você conseguiu fazer isso?”, “Eu mudei a taxa de juros de doze para 10%”, “Mas a taxa não é dez?”, “É, mas ele não sabia...”, entendeu? (risos). Era só no poder que a gente tinha, isso eu sempre falo para o pessoal, o poder que a gente tem de fazer o bem, né? Fazer o mal é fácil, agora fazer o bem dá trabalho, às vezes tem que mentir também para fazer o bem. E você tem que criar o que eu chamo “Bondades irreversíveis”, você tem que criar mecanismos para as bondades serem irreversíveis, porque as maldades em geral são. As maldades são feitas e fica arrasado, é floresta destruída, é gente miserável, tal. Agora, faz bondade irreversível, é um negócio difícil, mas a gente tem que ter sempre essa preocupação na cabeça. E foi esse o tal do departamento do desenvolvimento de não sei que... Juntava ali todos os projetos sociais, aí foi quando entrou o Collor, em que ano entrou o Collor?

 

P/2 – 89...

 

R – 89. A primeira coisa que ele fez foi acabar com a área social, acabou com a área social. Eu tinha ainda o trabalho de juntar os projetos para acabar porque acabou a área social e tinham duzentos projetos em andamento. Eu falei: “Gente, vamos fazer pelo menos um inventário disso, para daqui a dez anos a gente se arrepender e saber do que está se arrependendo, porque está documentado, deixei de fazer esse, esse e esse...”. Se não registrasse, como é que a gente ia saber depois o que errou?

 

P/1 – Vocês conseguiram fazer isso, inventariar?

 

R – Conseguimos, passei um tempo fazendo isso com o grupo, fazendo esse inventário. Aí, mais uma reforma dessas e criaram o tal do Departamento 4, que eu fui chefe. Foi quando eu falei para você que começou a mudar, a reforma começou a ser boa, porque o nome do departamento não precisa mais explicar o setor de atividade, nem o que ele faz.

 

P/1 – Isso ele aponta no currículo dele de uma forma muito divertida... (risos)

 

R – Departamento número quatro é um quatro, cuida de um monte de projetos, entendeu? Por que chamar DESUR. Eu não consigo me lembrar até hoje o que ele fazia, acho que pouca gente sabe o que ele fazia... Porque a pessoa fica preocupada, o nome tem que dizer tudo o que faz, repara como a gente perde tempo nisso. Então o Departamento 4 era uma maravilha, essa reforma que o banco fez agora voltou a ser difícil, tem uns nomes lá que eu não consigo entender não, tem umas siglas...

 

P/2 – Já que o senhor tocou nessa questão da preocupação com o social na hora de implementar um projeto, em 82 o banco incorporou um S, como é que o senhor vê isso? Essa preocupação com o social junto com o desenvolvimento?

 

R – Nessa época eu estava no Departamento de Energia e confesso para você que a entrada do S foi tratada como “Nós não estamos aqui para isso, o BNDES não é social...”. Porque o BNDES é industrial, social é a Área Social, é o Ministério do Social, é qualquer coisa social... Quero dizer, na cabeça da grande maioria das pessoas, o BNDES é um banco que tem que tratar do investimento, tem que fazer o bolo crescer para depois dividir, já ouviu isso? (risos). Então o social vem a reboque, cria-se o emprego. Eu estava nessa turma, porque eu estava trabalhando lá com as Itaipu da vida, mas isso é uma grande besteira, uma grande besteira. Porque o social está em tudo, se você tivesse incorporado a mentalidade social nos projetos do BNDE, tipo isso que eu acabei de falar da laranja. Se você tiver a cabeça social, fazendo qualquer coisa você melhora. A pior coisa que existe é o técnico do banco, do governo, fechar os olhos para a responsabilidade social. E, no fundo, é isso que a maioria de nós faz, fecha os olhos, eu cuido disso e o social... Aquele negócio de dizer eu pago o meu imposto e quero que o governo cuide. Mas nós devemos ter essa preocupação do social em todos os nossos projetos e eu... Já que estou dando um depoimento, eu queria dar o depoimento que eu acho que isso tinha que ser resgatado ou desenvolvido no BNDES, para que os técnicos novos no banco incorporem a visão social em todos os seus projetos, porque o que nós fazemos é uma omissão, em alguns projetos é quase criminosa. Quando você constrói uma hidrelétrica, vamos falar de hidrelétrica porque é um exemplo que todo mundo entende, você faz uma obra grande de impacto e leva para ali cinco mil trabalhadores, empregados da sua construtora. Você faz ali uma cidade para essas pessoas, atrás dessas cinco mil pessoas vem cinquenta mil vender seus produtos, eletrodomésticos, não sei que lá, os derivados... Quando você termina a hidrelétrica, você retira os seus cinco mil, desmonta aquela cidade que você montou e a hidrelétrica emprega... Ela, depois de quando, emprega dez pessoas se muito, por que no caso da ___________ não emprega nenhuma, é tudo pela TV. Você deixa naquele lugar cinquenta mil miseráveis que não tem como viver. Isso é um absurdo. Você quando for fazer um projeto grande desses, tem que fazer junto com ele um projeto de assentamento de uma cidade, porque você já sabe que depois que sair dali você vai ter cinquenta mil miseráveis. Então por que não tratar no início? E pensa que isso custa dinheiro? Não custa não, isso está no preço da Energia. A Energia o que está fazendo hoje no chamado (Belomonte?), que é a hidrelétrica da moda agora, vai custar doze a unidade, doze milésimos de hora por KW/hora, essa é a unidade. Ela vai custar doze e vai ser vendida a 45, a que está sendo feita agora está custando 45, ela vai fazer uma de doze. Entre doze e 45 tem muito dinheiro, não tem? Tem muito dinheiro, então você pode usar esse diferencial para fazer um projeto junto com ele. Não é fingir que faz não, é fazer mesmo. É dizer: “Olha, seu projetista você não sabe calcular uma barragem? Então, calcula também como é que faz um assentamento, uma cidade nova. Procura produção, procura o eixo econômico daquele lugar, vai ver o que você pode extrair e se você disser que não pode fazer nada, então está proibido de fazer hidrelétrica, você vai gerar um monte de miseráveis ali, então não faz essa hidrelétrica.” Ela só tem viabilidade se o projeto social tem viabilidade. Isso na concepção de social que a gente tem, a gente costuma separar o social dessa parte, do industrial, do empresarial. Eu acho que o BNDES tem obrigação de não separar isso e ter coragem de assumir que o papel de um órgão do Estado é fazer isso e não disfarçar. Disfarçar e fazer coisinhas sociais... Coisinha social não adianta nada, tem que fazer projetão.

 

P/1 – Rômulo, em dois momentos você se licencia do BNDES para assumir cargos no Governo do Estado do Rio de Janeiro nessa área de Transporte. Comenta um pouquinho, agora como Secretário qual é o seu maior desafio nesse cargo?

 

R – Em 1999, no início desse Governo, eu fui convidado para ser Subsecretário de Transporte aqui no Estado do Rio de Janeiro, onde o Secretário de Transporte é uma pessoa que estudou comigo, Transporte, e depois no Doutorado ele foi meu professor. Ele foi chamado para ser Secretário e me convidou para ser subsecretário.

 

P/1 – Quem é?

 

R – Chama Raul de Bonis, ele é o atual Secretário de Transportes. Nós fomos para lá e o Governador pediu para fazer um estudo tarifário, porque ele tinha prometido na campanha que ia baixar o preço das tarifas de ônibus que era muito caro, e a gente fez o estudo em 15 dias. Mal sabe ele que não foram quinze dias, são 30 anos e 15 dias, porque a gente já vem estudando há trinta anos aquele negócio... (risos). Ele tomou um susto quando viu que o estudo estava pronto. Uma coisa que a gente vem trabalhando, eu estou falando que estudei Transporte, mas você não me viu em hora nenhuma falando que fiz Transporte no banco... Mas sempre estudando, sempre com projetos, alguns de ferrovia etc., mas o tema Transporte sempre esteve acompanhando a gente. Aí quando chegamos lá, falamos: “Olha, vamos realizar tudo o que a gente pensou nesses 30 anos” e fizemos um baita de um projeto de cálculo tarifário, e tecnicamente feito, não foi chute. O pessoal das empresas de ônibus entrou com liminar contra o Governador e era para perder, né? Quer dizer, o Governador tinha baixado, mas estava esperando a liminar para aumentar de novo. Aí o Procurador me chamou e disse: “Olha, vocês fizeram isso daí, mas agora eu não tenho como defender, agora que eles entraram com a liminar”. Eu falei: “Tem como defender sim”, “Mas vocês calcularam?”, “Calculamos”, “Linha por linha?”, “Linha por linha”, “Empresa por empresa?”, “Empresa por empresa”, “Vocês tem isso escrito?”, “Tenho sim, está no computador, mas eu posso imprimir”. Aí mandei, eram nove mil páginas. Eram três mil, mas como a gente trabalhava com três hipóteses... Ele ficou com vergonha de perder e teve que cassar a liminar porque estava fundamentada. Aí a gente começou a realizar muito, sabe... Não que a gente quisesse baixar tarifa, a nossa intenção era melhorar o serviço.

 

P/1 – Mas acabou baixando, não é?

 

R – Baixou e depois subiu, quando a gente saiu subiu. Mas o negócio que a gente queria era ter o poder de conhecer a coisa, chamar os empresários para melhorar o serviço. São dez milhões de passageiros por dia, intermunicipal, na região metropolitana. A ideia era essa, ter o poder de melhorar, mas a coisa era de mentirinha, então nove meses a gente ficou e volto eu para o BNDES... Mais uma subida e descida.

 

P/1 – Mas aí você entra para uma Superintendência, não é?

 

R – É, aí eu fiquei uns três meses e depois fui convidado para ser Superintendente da Área de Infra Estrutura. Talvez pelo fato de eu ter ido ser Secretário disseram “Ih, esse menino aí sabe alguma coisa”... Aí eu fui ser Superintendente da Área de Infra Estrutura durante um ano e tal, um ano e pouco. Aí, nova reforma e não sobrou lugar para mim. Eu voltei para a Área de Assuntos Fiscais, onde nós criamos um belíssimo programa, talvez tenha sido o meu mais importante trabalho durante esse tempo todo, é um programa de ajuda aos municípios. É um plano de financiamento que, em vez de dar dinheiro para fazer estrada, ponte, praça, escola, hospital, é um dinheiro pouco que ajuda na capacitação da prefeitura. Esse dinheiro é usado em treinamento, capacitação, compra de computadores, tudo que não se compra porque, quando a prefeitura tem um dinheiro ela vai fazer escola, porque ela precisa... Então nunca sobra um dinheiro para ela arrumar a sua casa e nós obrigamos que esse dinheiro fosse destinado exclusivamente à melhoria da sua capacidade de gerenciar. O que é isso, né? Dito assim, em tese dá para se entender, mas como é que isso se transforma em realidade? Você tem que ter uma teoria por trás e tem que exigir onde ele vai gastar o dinheiro. Ele vai gastar dinheiro comprando software, comprando computador, contratando professores, capacitando o seu pessoal, reservando, adequando um ambiente para o seu trabalho. Aquele negócio da Secretaria de Fazenda que cobra o IPTU, não sei o quê, botar um balcão de atendimento melhor porque a pessoa que vai pagar tem que ser bem atendida. Você já está pagando imposto e ainda é mal atendido, você não paga, né? Isso foi um projeto idealizado nesse lugar que eu estava, nessa Secretaria, e em pouco tempo, foi fantástico... Em dois anos a gente já tinha 200 projetos e hoje em dia tem mais de 600 projetos. Um programa que está no Brasil inteiro, já está com tese de Doutorado, tese de Mestrado, já tem pesquisa no Banco Mundial, foi um projeto muito gratificante. É um projeto que, toda vez que eu saio de um lugar, eu volto para lá porque... (risos)

 

P/1 – E agora você voltou ao Governo do Estado, agora esse ano...

 

R – É, para terminar aqueles nove meses de lá, terminar agora. E tem um grande desafio aí que é terminar essa obra do Metrô.

 

P/1 – Que é o carro chefe do governo da Benedita, não é?

 

R – É um trem chefe... (risos)

 

P/1 – É um trem, né? (risos)

 

R – É um trem. Mas a maior dificuldade é arrancar dinheiro do BNDES, agora que eu estou sofrendo lá com as coisas...

 

P/1- E como que é agora estar do outro lado do balcão, como você diz? Você está do outro lado do balcão agora... (risos)

 

R – Agora que eu vi como nós somos chatos. Ver como o BNDES é chato... Mas é justo, é chato, mas é justo.

 

P/1 – Então para finalizar, o que é o BNDES para você, Rômulo?

 

R – Para mim é muito fácil de responder. É a minha vida toda, não é? É o meu provedor, meu sustento, meu formador, eu me informei, formei. Eu tenho saído de lá para trabalhar fora, mas sempre em nome do BNDES e com a consciência... Que eu acho que é a consciência pública que eu tenho, do tratamento da coisa pública como uma coisa importante, não uma coisa desprezível como as pessoas têm desprezo pelo bem público e o funcionário público tem raiva do setor público. A pessoa que trabalha no Estado não gosta do Estado, trabalha contra o Estado. Isso não acontece comigo, você vê, em 28 anos na mesma empresa eu fiquei poucos anos no mesmo lugar... É como se eu tivesse mudado de trabalho, eu fui da Energia para a Agricultura, para o Transporte, tudo nesse tempo, né? Viajei o país inteiro, quer dizer, em que outro lugar eu estaria trabalhando... Ainda sou bem pago, tenho um salário justo, fora isso. Em que outro lugar eu estaria durante tanto tempo fazendo coisas diferentes? Cada projeto é uma experiência nova, desde que você seja feliz, que você viva aquele projeto. Eu vivo cada projeto que eu participei, aliás é uma qualidade nossa lá no BNDES, sentir o projeto, a gente vive o projeto. E é bacana, apesar de às vezes você estar triste, às vezes você estar mais alegre, mas essas coisas acontecem em tudo quanto é lugar. O BNDES está sempre por trás de mim...

 

P/2 – O banco está fazendo 50 anos, como é que você vê o BNDES para o Brasil, o papel do BNDES para a História do Brasil nesses últimos 50 anos?

 

R – Olha, o papel do BNDES para a História do Brasil é muito importante, acredito que ele se mistura com a História do Brasil. Mas eu acho que ele devia voltar a ser um pouco mais o que era porque hoje em dia, eu acho que nos últimos anos, ele tem estado a reboque do que acontece, quando na primeira fase dos 50 anos ele era a vanguarda, era ele que fazia. Agora não, agora ele está numa situação, acho que está um pouco acomodado. Mas tenho certeza que eu estando lá, eu provoco.

 

P/2 – Bom, Rômulo, o que acha desse projeto de memória, 50 Anos do BNDES, e de ter dado o seu depoimento para o projeto?

 

R – Eu não queria dar não porque a gente tinha falado desse negócio, chama Museu... Mas não é por causa disso, não, eu não queria, estava meio zangado com o BNDES. Por que eu vou dar o depoimento se eu não estou gostando da história do BNDES, agora? Mas aí eu me lembrei que eu preciso dar o depoimento para dizer isso também, né? Eu acho que é importante, o BNDES precisa de uma adaptação. Não é modernizar, o BNDES não precisa se modernizar, qual é o oposto de modernizar? Se antiquar, então pronto o BNDES precisa se antiguizar, precisa voltar a ser o que ele era e não querer ser moderno, moderno, pelo moderno. O BNDES não é um banco comum, o BNDES é um banco que cuida do investimento do país, cuida do dinheiro do trabalhador, portanto, ele é um banco social. Não vai esquecer nunca que é um banco social, o BNDES não tem que concorrer com nenhum dos bancos privados, essa raia é dele, essa corrida é dele. Então acho que precisa voltar um pouquinho, não ser tão moderno, tão livre, tão mercado assim como está. Até porque nós não temos concorrente, não é?

 

P/1 – Eu agradeço, Rômulo, pelo seu depoimento, muito obrigada.

 

R – De nada.

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