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História

Bom de papo

História de: Afonso Augusto Borges Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2016

Sinopse

Em seu depoimento, Afonso Augusto Borges Filho conta sobre sua infância e sobre as experiências que teve nos locais em que morou. Fala um pouco sobre sua adolescência em Belo Horizonte, onde participou de atos contra a ditadura militar e começou a se interessar em escrever. Conta sobre suas experiências profissionais, sobre os jornais que escreveu e sobre o seu programa “Sempre um papo”.

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História completa

Meu nome é Afonso Augusto Borges Filho. Nascido em Belo Horizonte em 10 de março de 1962. Meu pai chamava Afonso Augusto Borges, naturalmente eu sou Filho. Ele tinha uma fábrica de móveis, trabalhou no comércio em geral. Minha mãe chama Maria Pereira Borges, ela era funcionária pública aposentada do funcionalismo público e era costureira. São quatro irmãos, eu sou o mais velho. Antonio Henrique Pereira Borges, abaixo de mim. Ana Teresa Borges, três anos abaixo de mim e Adriana Augusta Borges, quatro anos abaixo de mim. Conheci todos, inclusive minha bisavó. Minha bisa o nome dela era Nonna, uma italianaça. Isso quando eu era muito pequenininho, a parte da família da minha avó paterna era Lovaglio, Terezina Lovaglio Borges. Ela toda italiana, a família toda italiana por parte de pai e materno portugueses.

Meu pai era um artista que não se viabilizou. Fazia quadros, tinha uma habilidade tremenda, manual, fazia esculturas em qualquer palito de fósforo. Ele fazia esculturas em madeira, por isso dedicou-se até grande parte da vida em uma fábrica de móveis na Rua Rio de Janeiro. E acontece que o meu pai pelos idos de 70, 71, ele era da geração do Hélio Garcia, do Ieié, aquela geração de pessoal que gostava muito da bebida e ele teve uma cirrose. E dessa cirrose não morreu, mas praticamente o inutilizou pelo resto da vida. Ficou alternando trabalhos por ali e nunca se fixou em nada. Minha mãe sempre foi funcionária pública da Secretaria de Segurança Pública e aposentou-se até muito cedo por uma questão de saúde e sempre foi costureira. Depois de um certo tempo ela dava marmita pra fora e a gente, os filhos, iam entregar as marmitas nos lugares. Assim que a gente sobreviveu muito tempo no período que o meu pai estava covalescendo.

A gente mudou muito. Eu nasci no Lourdes, até seis anos na Praça Marília de Dirceu, em um apartamento que tem até hoje. Aos sete fui pra Rua Rio de Janeiro, depois fui pra Serra, depois morei muito tempo na Praça Raul Soares. Muito tempo no centro da cidade também, no edifício Uberaba, no mesmo quarteirão do prédio do Murilo Rubião, dali que inclusive eu conheci muita gente que frequentava o Suplemento Literário durante o período que eu morei ali. Depois eu fui pra vida, com 15, 17 anos eu já estava morando no JK, no 22-14; o prédio JK só tem 24 andares. E segui minha vida.  Criança naquela época trocava muita porrada. Mas era uma coisa muito livre, era na rua. Ao mesmo tempo tinha só uma faixa ali do quarteirão onde uns 20 meninos jogavam bola todo santo dia, pro desespero dos motoristas de ônibus e dos caras. Nunca aconteceu nada, fora os dribles de vaca, os motoristas que ficaram cardíacos.  Sempre fui, desde já, muito ligado a estudo. Eu tinha coleção de Monteiro Lobato, tinha muito livro infantil, contos de Anderson. Minha primeira leitura, minha primeira referência de leitura sempre foi a literatura infantil daquela época disponível.

Meu primeiro texto, eu publiquei num jornal, a família da minha mãe é toda de Muriaé, na zona da mata, publiquei com 14 anos no jornal de Muriaé. Era aobre o Ano Internacional da Criança. Já foi desde o início texto jornalístico, olha que curioso. Primeiro texto tinha 14 pra 15 anos. Eu falei do contraste, era um texto polêmico falando que era o ano da criança pela ONU, mas o tanto que as crianças no Brasil sofriam. Nesse momento já era polêmico. Estava em plena ditadura, nós estamos falando de 75. Então eu já nessa época já participava, não de movimentos, mas como morava no centro eu acompanhei toda a movimentação contra a ditadura militar presente. Com 14, 15 anos estava na passeata xingando os policiais. Tomei uma cacetada uma vez na cabeça de um policial, mas o policial pediu tanta desculpa, tadinho, eu quase fiquei com pena do policial. Quando o Professor Aluísio Pimenta era reitor da UFMG, a movimentação contra a ditadura foi muito forte, muito muito muito forte. Os meus avós moravam na frente da Faculdade de Direito, Afonso Arinos, onde grande parte das manifestações ocorreram. Eu subia e escolhia, via onde é que os policiais estavam e jogava tudo em cima deles. Tudo, tudo o que tinha dentro da casa que podia ser descartado eu jogava neles. Uma vez eu joguei duas dúzias de ovos, mas o que eu fazia? Pra eles não perceberem de onde vinham, que era só olhar pra cima, eu joguei as dúzias em intervalos de segundos. Então pegava os ovos e fazia zu zu zu zu zu, caíam os ovos todos em cima deles como se fosse um bombarbeio e eles não sabiam de onde vinham. A minha casa, depois que meu pai adoeceu, virou pensão. Então eu dividia quartos com pensionistas pra pagar aluguel. A pensão era a minha vida, não tinha muito segredo. Agora, e era curioso porque durante cinco anos da minha juventude moraram dois japoneses em casa. Que é o seguinte, o Fuji Bank mandava economistas recém-formados para o Brasil pra aprender a língua e voltar para o Japão pra trabalhar em negócios. Então vinham economistas, vieram dois japoneses que moraram cada um dois anos em casa, foram quatro anos.

Minha experiência empreendedora, de ganhar dinheiro, vem de, entre 15 e 18, 19 anos, dando aula de violão de dia e tocar à noite nos botecos. Eu tocava de oito às quatro com 18, 19 anos, então não era muito saudável pro fígado e pelos 20 anos, 22 eu decidi parar. Eu tocava num boteco e nessa época ao lado do violão eu já tinha publicado meus livros e saía vendendo pela rua afora, também uma coisa que eu comecei a ganhar dinheiro com isso. Eu publicava meu livro de poemas, saía vendendo pra pagar a edição, normalmente a gente não conseguia pagar a gráfica, ficava devendo a gráfica porque não dava pra pagar, mas tinha um dinheirinho da noite ali que a gente vendia pela madrugada e conseguia não só pagar a gráfica como também sobreviver um pouquinho. O primeiro livro chamava-se Retratos de Época. Ele foi publicado com um amigo que eu conhecia, a gente dividiu o livro meio a meio, meio dele e meio meu. Fizemos um lançamento maravilhoso na Distribuidora Benji que o diretor era pai de um amigo meu. Um lançamento imenso com coquetel. Essa coisa que aconteceu toda num período, 75 a 86.

Esse foi o primeiro, Retratos de Época, esse é o que eu vendi mesmo na rua. Mas depois eu fiz um outro que já refletiu um pouco essa minha inquietude. É o seguinte. Eu fiz o Festival de Inverno de 79 em Ouro Preto, que foi o último festival de inverno que aconteceu porque a ditadura não deixou mais acontecer. Então já houve uma repressão grande, a UFMG parou de fazer porque se transformou em um bunker cultural contra a ditadura. Então em 80 não aconteceu o festival por força da repressão, mas 81, 82, 83, 84 aconteceu em Diamantina. E eu já tinha trabalhado um pouquinho na comunicação em 79. Em 79 eu saí do Dom Silvério, eu estava com 17 anos. Eu entrei na Católica em 80. Então já estava junto com a UFMG e eu fui contratado em 80, 81, 82, 83, 84 pra trabalhar assessoria de comunicação do festival de inverno em Diamantina. Então ali começou a minha injeção fortíssima de cultura onde eu convivi com núcleos do festival de inverno com todas as artes. O festival, a proposta era essa, Artes Plásticas, Literatura, Dança, Música, tudo junto ali em Diamantina. E eu fiz o segundo livro, chamava Bandeiras no Varal que é uma ode à Diamantina, meio apaixonada, um poema meio apaixonado, mas que contou com Caio Graco, um músico que até hoje é importante na Sinfônica de Minas Gerais fez a música, uma música instrumental dodecafônica. Isso em 81. O Bernardo Mata Machado falou o texto. E o Eder Santos fez um visual, fez o vídeo. Então você imagina, em 80, eu já tinha feito esse livro e lancei não só em Diamantina, mas depois fiz uma sessão na sala Humberto Mauro, Palácio das Artes, do que jeito que estava. E ali já até começou a minha experiência com leis de incentivo. Porque não existia Secretaria de Cultura, existia Superintendência de Cultura ligada à Secretaria de Educação e eu consegui uma verba pra fazer esse evento. Você imagina, começou ali, um pouquinho as coisas da minha relação com financiamento público de cultura. Fui fazer Comunicação, fiquei uns dez anos e não me formei.

E logo depois, 82, 83, tive o primeiro e único emprego da minha vida. Não, antes com 17 anos eu trabalhei no Banco Real, trabalhei 11 meses no Banco Real. E o engraçado, hoje eu faço essa correlação, é que eu fui o precursor do MSN. Que é o seguinte, o cargo mais fudido que tem dentro do banco é operador de telex. E aí se você fica cinco, seis meses no telex depois vai pra Contabilidade, pro Escriturário. E como eu fui pro Escriturário e não me dei muito bem, me voltaram pro telex, eu já saquei que eles iam me demitir. É um código do banco. Só que aí eu passava uma OP, Ordem de Pagamento, pra Montes Claros, por exemplo. O que é? Você pega um papelzinho e copia os números, favorecido. E passava. Te dava uma cópia, que era uma fitinha toda marcada, você pegava aquela cópia, grampeava junto e estava comprovado que passou. Só que eu inventei de escrever depois, terminada a OP eu escrevia: “Tudo bem? Recebeu bem?”, para a pessoa lá em Montes Claros. A pessoa respondia: “Sim, recebi”. Eu falei: “Genial, tem uma pessoa do lado de lá!”. Eu não sabia que tinha uma pessoa do lado de lá. Pra quê? Ficava até tarde passando OP, Cobrança e tudo, mas de repente eu montei uma rede de gente que conversava comigo por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Recife afora que você não acredita! Que eles também sacaram que também tinha uma pessoa do lado de lá. Pra quê? Era como é que estava o tempo, sua família, o seu filho, tudo por telex, que era o troço clé clé clé, lentíssimo, pesado, duro de bater aquela máquina de telex. Aí é claro que eles descobriram e me mandaram embora, óbvio.

Eu trabalhei no Jornal de Domingo, com o Wander Piroli, Gilberto Menezes, entre outros ali. Jilu, Angelo Prazeres, grande cronista, maravilhoso cronista. Tive uma aula de vida e de jornalismo tendo como Wander Piroli o editor. Meu editor me ensinou a escrever, me ensinou a interpretar situações desconcertantes. Só que eu trabalhava na polícia. Eu peguei um caso policial que nós pegamos um delegado que forjou um flagrante. Nós pegamos ele forjando flagrante e perseguimos o cara, começamos a chamar ele de ‘delegado mentiroso’. E capas. Capas e capas. Delegado mentiroso, roubo 48. Meio sensacionalista naquela época, mas. Até que um dia eu invadi, imagina, quando eu penso isso, está doido. Invadi a sala do Secretário de Estado da Segurança Pública, que era aquele torturador. Invadi, peguei o gravador e falei: “Por que o senhor está protegendo esse delegado mentiroso se ele forjou o flagrante?”. Em plena ditadura. Ali eu fiz entrevistas maravilhosas.  Se você pensar que isso foi 82, 83, 84 eu já estava nessa roda viva de jornalismo, de livro, morar sozinho, de me virar. Já tocava em boteco durante a noite e um dia o Oswaldo França Júnior e o André Carvalho me ouvindo tocar me sugeriram: “Afonso, por que você não faz aqui um bate papo com escritor no meio da sua conversa? Como acontecia com Vinícius de Moraes no tempo das garrafas, na década de 60”. Falei: “Legal”, daí fiz durante o primeiro semestre de 86, num bar que chamava Tom Carlos. Eu não fiz o meu projeto, fiz o projeto dele que chamava Bate Papo no Tom, era o Tom Carlos e seus feijões maravilhosos e eu tocava lá. Toda segunda-feira. Opção de lazer cultural às segundas-feiras, era o título assim. Eu fiz o primeiro com o França, depois o segundo com o Otávio Elísio, fui chamando as pessoas, não só escritores, a ideia não era voltada pra literatura, era qualquer um. Reinaldo jogador de futebol, pessoas que tinham um certo relevo. Sempre um Papo foi muito forte no Cabaré, fiz eventos memoráveis. Fiz um encontro marcado com Fernando Sabino e Hélio Pellegrino.

Era um momento do final da ditadura, anistia, início dos governos “democráticos”, onde as pessoas queriam muito conversar sobre temas, assuntos. E eu como sou jornalista me pautava pelos assuntos. Por exemplo, eu era agente literário do Gabeira, logo depois que ele voltou. E eu falava muito com o Gabeira e quando deu aquela ocasião do Césio 137 em Goiânia, o Gabeira fez a matéria pra Folha de São Paulo na quinta-feira, a matéria saiu no sábado, eu falei: “Gabeira, dá uma passadinha aqui” “Tá bom”. Segunda-feira ele estava no Cabaré Mineiro, lotado, falando sobre a questão do Césio 137. Eu pegando os ganchos jornalísticos e os assuntos que as pessoas queriam falar naquele momento com os convidados. Claro que também fiz Adélia Prado lançando Filandras, um livro lindo dela. Também fiz Darcy Ribeiro no dia que ele assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Social no Governo Newton Cardoso, no dia seguinte ele estava no Sempre um Papo. Angela Gutierrez assumiu a Secretaria de Cultura, uma semana depois foi ao Sempre um Papo. Ficou como se fosse um grande ambiente de debate porque naquela época isso era necessário. Cemig Sempre um Papo foi um pouco depois. Curiosamente eu fui por necessidade de patrocínio. No Cemig eu fiz eventos memoráveis com Dráuzio Varela, Amyr Klink a primeira vez, Jô Soares, Fernanda Montenegro. Foram eventos memoráveis.

Tem 12 anos, 15 anos que levo para outras cidades. Nós estamos falando do momento em que eu tinha na minha casa quando eu morei na, já maior, fui fazendo eventos. Eu tinha uma impressão de silk. O primeiro cartaz do Sempre um Papo quem me deu foi o Ziralzi, querido Ziralzi, irmão do Ziraldo. E era uma cartaz grande com uma tarja no meio, Sempre um Papo, tarja. O que eu fazia? Eu comprei uma máquina de silk que era do tamanho dessa sala aqui, o vidro, sem exagero. Eu passava o silk só com o nome das pessoas, data, hora e local, e saía pregando pela rua afora nos postes.

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