Busca avançada



Criar

História

Boi da Fé

História de: Therezinha de Jesus Jansen Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Therezinha de Jesus Jansen Pereira fala um pouco sobre sua infância, brincadeiras e sua relação com as irmãs na escola. Conta sobre sua bisavó e sua luta contra o machismo no século XIX. Aborda também seus projetos Tambor de Crioula Morro de São Benedito e Bumba meu Boi da Fé em Deus de Therezinha Jansen, onde organiza festividades com música, religiosidade e cultura.

Tags

História completa

Therezinha de Jesus Jansen Pereira, 79 anos precisamente, porque 15 de dezembro. Filha de Manuel Jansen Pereira Júnior e Joana Carneiro Jansen Pereira, a rainha dessa casa. A minha mãe era de origem humilde, ela nasceu na cidade do Rosário, uma cidade aqui do Maranhão, próxima. E o meu pai era de família riquíssima, na época o maior patrimônio financeiro econômico era o dele. E pra ele namorar com ela foi uma luta terrível porque ela era muito séria também, não queria que pensassem que ela estava namorando com ele pra se aproveitar da riqueza dele. Então, ela se recusou peremptoriamente: não, não, não e não. Mas ele relutou e ela disse que: "Se ele quisesse procurar uma rica, ele já tinha casado". Então, ele procurou a pessoa que ele achava que ia fazer parte da vida dele, que ia ser aquela companheira que ele idealizou. Casaram, graças a deus foram felizes, foi um matrimônio de longos anos. Uma prole de 25 filhos normais, sendo 20 homens e cinco mulheres. Eu tive a felicidade de ser a vigésima quinta filha dela, caçula. E sete abortos, que ela perdeu. Então, ela teria 32 filhos. Agora, para o colégio, era Dedé que nos levava para lá. Estudamos no Santa Tereza. Tudo que eu tenho hoje eu devo em parte às irmãs Doroteias porque eu passei 15 anos lá, todas nós estudamos lá, as mulheres todas. Naquela época era só feminino o colégio, agora é misto. Mas eram só meninas que estudavam lá.Era uma tranquilidade, não tinha essa violência que tem hoje. Que hoje a gente vive presa. Tudo em grade. Porque dentro de casa a segurança que a gente tem é somente Deus. Hoje ninguém tem segurança na rua. Todo canto, passa, pega a bolsa, o cara se importando se é nossa. E pra mim, pessoalmente, a maior tristeza que eu vejo, é que hoje não são são os adultos que fazem isso, são jovens. A maioria, jovens. Menino de 15, 16, 17 anos. Eu tenho um trabalho social também, com o pessoal lá da sede. Na área de lá. Eu tenho um trabalho não só cultural, mas ao lado deles, social.Na sede da brincadeira. Eu tenho dois grupos de cultura. Tem a casa que é a nossa sede, e tem o barracão, que é onde a gente faz os ensaios, onde faz as reuniões. Vai de uma rua à outra. Mas na época era chamado trabalhador de capatazia. Porque pegava as sacas de açúcar, de arroz, botava nas costas. Trabalhava lá, era seu Laurentino Araújo. Eu era o contador geral do Estado. Fomos e fomos e fomos e fomos. Ele adoeceu. Pra não estender muito, assim, eu estou resumindo um pouco mais. Ele adoeceu, levei num médico, o médico: "Ih, dona Therezinha! Ele está com uma pneumonia. Tem que ser internado". Um dia o médico mandou me chamar lá, eu fui. "Olhe, dona Therezinha, seu Laurentino não quer mais ficar. Disse que ele sabe que vai morrer. Então, ele quer ir pra casa, morrer em casa."A senhora está brincando? A brincadeira é sua. Agora eu posso morrer tranquilo". Mas, quando eu disse aquele "sim", eu disse por dentro de mim, eu digo: "Não, ele está cansado demais. Ele é habituado a ter essas crises, depois ele melhora. E eu venho conversar com ele com calma pra semana pra ele botar outra pessoa pra tomar conta do Boi dele". Ele foi, se acalmou, se acalmou. Digo: "Está tranquilo?". "Estou. Agora ele pode morrer". Fui lá fora, a velhinha dele, também já idosa, arrastando o pé. Olhei, estava alguma coisa ______, vim pra casa. Quando foi na semana seguinte, vieram me chamar. Quando eu cheguei lá, o homem falou: "Ele morreu". A minha palavra empenhada até hoje. Porque eu já tinha dito que sim, não é? E pronto. Hoje o Boi da Fé em Deus está com uma faixa de 120 brincantes. Criança na faixa de quatro, cinco, seis, 15, 16 anos. Para o ano, se Deus me der vida, eu quero ver se eu coloco mais umas 20 crianças. Porque eles estão me pedindo demais. Que, independente da parte cultural, eu faço a parte social.Então, hoje a cultura do Maranhão faz parte da minha vida. Quer dizer, me absorve de uma maneira tal, eu sou membro da Comissão Maranhense de Folclore. Tenho um currículo que está sendo atualizado agora. Com mais de 50 itens. Entre medalhas, certificados, medalha de comendadora, de patrimônio, de Câmara de Vereador, de Dia Internacional da Mulher e por aí vai. Mas isso só não junta, não compensa, não preenche. Então, o que preenche é esse convívio com as pessoas que a gente escolheu pra estar no dia-a-dia.A origem do boi é o boi zabumba, origem, raiz, cultura, tradição. Praticamente vindo de uma cidade, Guimarães, aqui do interior do estado do Maranhão. E muita gente chama também sutaque guimarantino, pelo lugar, Guimarães. Então, daí é que vieram o sutaque da cultura. A história do boi é o seguinte: um fazendeiro muito rico, muito rico, rico mesmo e dentro da fazenda dele, ele tinha um boi muito lindo que era da predileção dele. Tinha um capataz da fazenda que era aquele vaqueiro que tomava conta de tudo, era o responsável por tudo e chamava Nego Chico, que era Francisco, mas todo mundo só chamava Nego Chico. E ele era casado com uma mulher que era chamada Catilina. Então, ela resolveu engravidar. E dessa gravidez, ela sentiu desejo de comer a língua do melhor boi do patrão do marido dela. Loucura, como é que eu vou desajar a lingua do boi do patrão, que sustenta meu marido, me sustenta? Eu estou com tudo aqui dentro, não é uma loucura? E ele meteu o pé na parede: "Não, isso eu não vou fazer. Como é que eu vou tirar a língua do boi do meu patrão? E como é que eu vou viver? Você não está grávida?". "Mas tu queres perder teu primeiro filho? Se eu não comer isso, eu vou perder o menino e você vai ficar culpado". E aquela danação e vai, não vai. Até que ela muito imprensou e ele resolveu roubar o boi do patrão dele pra mandar tirar a língua pra dar pra ela. O boi sumiu, então o patrão começou: "Você tem que me dar conta, você que é o responsável!". "Mas o boi estava aqui, e desapareceu". "Então, vá procurar, quem roubou vai ter que mostrar onde é que está". Foi lá, luta, luta, luta, trouxeram um boi: "Não é esse. Leva". Trouxeram outro: "Não é esse, leva". Por último ele resolveu dizer que ele tinha mandado roubar o boi pra tirar a língua. O dono da fazenda chamou as índias, que eram quase como delegadas. "Vamos se reunir e prender este homem. Ele tem de dá conta de meu boi". Elas foram e trouxeram ele preso. Ele confessou que ele tinha roubado o boi por um pedido da esposa dele que estava desejando comer a língua do boi e ele não quis perder o primeiro filho dele. "Mas você vai se virar, eu quero meu boi". Foi aquela luta, aquela guerra danada. Ele mandou soltar e ele saiu atrás, e por ali ele mandou seguir. Até que encontraram o boi. Eles vieram e contaram pra eles, os detalhes, muito detalhado, muito pequeno... Trouxeram o boi e o boi estava passando mal, que ele estava sem língua, não podia comer. Mandaram busca o pajé, naquela época pajé tinha força. Mandaram buscar o pajé. O pajé veio e faz remédio daqui e faz remédio dali, o boi melhorou um pouquinho. Todo mundo ficou contente, inclusive o dono. Melhorou, melhorou até que ele conseguiu ressuscitar o boi e foi a festa da fazenda. Mas dentro da cultura popular isso é só parte da comédia, que é chamada "Alto" ou muitos chamam "Matança" também, mas o nome próprio dentro da cultura é o "Alto do Boi". É isso mais ou menos que resume o "Alto do Boi", da cultura do Maranhão.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+