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História

Boca Maldita, teu nome é Flamengo

História de: José Quintella do Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/04/2020

Sinopse

Explica o que é a Boca Maldita. Fala sobre as festas do clube.   

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História completa

 

P/1 - O senhor poderia contar um pouquinho o que é a Boca?

 

R - A Boca é um grupo que existe há uns vinte anos, mais ou menos… Um pouco mais de vinte anos, que se reunia na entrada lá do outro lado, quando a nossa entrada principal era pela [Praça] Nossa Senhora Auxiliadora. Logo ali, na entrada, tinha uma amendoeira muito grande, muito frondosa, e nós nos reuníamos ali embaixo, debaixo da amendoeira; tinha uma mesa grande e nós nos reuníamos ali. Era muita discussão, muita briga, muita oposição. 

Naquele tempo, a Boca era um pouco diferente do que é hoje; era muita oposição, muita brigaria, muita censura. Nós tínhamos um benemérito que foi diretor de futebol durante muitos anos e ele vinha do campo, do treino… Ele vinha com mais dois ou três colegas e foram se dirigindo para ali. “Não, não vamos para aquele lado não, porque ali é a Boca Maldita.” E não deu outra, nós aproveitamos e pegamos o nome Boca Maldita. Isso foi [em] 1984, [há] mais ou menos dezessete anos. 

Pegamos esse nome e nos batizamos - ou melhor, ele é que nos batizou. Ele era diretor de futebol durante muitos anos, Ivan Drummond, ele já é morto. Depois tornou-se membro da Boca Maldita, sorte para a Boca Maldita. Ele foi diretor de futebol, foi ele que arrumou o nome para nós, aí veio a sopa no mel. Nós viramos Boca Maldita. 

A Boca Maldita foi criada em quatorze de agosto de 1984 e nós tivemos como presidente… Sim, nós éramos 22 naquela época, ou pelo menos no dia em que se criou a Boca Maldita éramos 22, que foram os membros fundadores. Foi presidente pela primeira vez o companheiro que batalhou muito no Flamengo com as meninas do vôlei, ele trabalhava muito com as moças do vôlei, muito dedicado ao vôlei. Chamava-se.... Eu fui o vice-presidente… Carlos Kamai foi o primeiro presidente e eu, o vice-presidente. 

Naquela ocasião, nós, que estávamos no dia, nos intitulamos fundadores, mas não éramos só os 22. Éramos um pouco mais, talvez umas trinta ou trinta e poucas pessoas. Hoje nós somos um grupo de mais ou menos trezentos associados que também gostam de fazer um pouco de lazer, então já não é tanto para fazer oposição. 

Hoje tratamos do lazer: temos reuniões aos sábados, não deixamos de fazer reuniões festivas - fazemos todo último Sábado do mês porque comemoramos os aniversariantes do mês. Todas as quintas-feiras nós fazemos um chá - não é só homem não, a ala feminina é grande, faz campanha e briga, trabalha, ajuda. Nós fazemos uma festa todos os anos, há quatorze, quinze anos, à mãe funcionária -  não a mãe rubro-negro, mas a mãe empregada do clube. A Boca Maldita faz uma festa todos os anos com farta distribuição de presente para todas as mães empregadas do clube; todas comparecem e recebem um presente. Sorteamos brindes de maior valor, como bicicleta, televisor, rádio; recebem um ticket e é sorteado. 

Fazemos a mesma coisa no Dia dos Pais; fazemos no dia quinze de novembro o Reco-reco -  o Reco-reco é uma coisa antiga do Flamengo, essa festa começou lá na sede da Praia. Isso é para os mais velhos, os mais jovens, muitos nem sabem o que é isso, mas tinha o baile a rigor [no] dia quinze de novembro, nosso aniversário; descia-se as escadas e ia para a garagem do barco. O pessoal ia tirando as gravatas e tudo o mais, muitos já iam logo para a água, para nadar lá na praia e aí começava o chope, o biscoito e um chocolate. Tinha um rapaz que era do bar, ______,  ele era que providenciava o chocolate.

 

P/1 - Senhor Quintella, eu interrompi o senhor quando estava falando do baile.

 

R - Sim, isso era lá na sede, que depois ganhou o nome de sede velha quando ganhamos a sede Nilton Santos, ali no Morro da Viúva. Então lá ficou como sede velha ou garagem - garagem, mas não de automóveis; era garagem de barcos, porque nós nascemos do remo. 

Então o pessoal descia… Primeiro já tinha sido um baile tremendo lá em cima. Tínhamos grandes dançarinos, como o Antônio Coqueijo, que é hoje um dos donos desse grupo de colégios que é o CEU, Centro Educacional da Lagoa, [um] colégio muito grande, de muito renome. O Coqueijo era um dos maiores dançarinos daquela época; quando começava ele saía para o salão, dançava, dançava… Acho que era o último, só quando parava mesmo é que o Coqueijo parava de dançar. 

Quando acabava a festa às quatro, cinco da manhã, era a hora do chope, do biscoito e do chocolate, isso era tradicional. Foi morrendo porque as pessoas vão envelhecendo, muitos foram morrendo; era aquela turma que cuidava disso, vai acabando… Aí a Boca chamou a si essa obrigação e nós passamos a fazer o Reco-reco. Com alvorada, com banda de clarim, pleiteamos o carro para o Corpo de Bombeiros e ele nos manda com os clarins. Alvorada seguida do chocolate, sempre tem um missa, que é rezada na Boca Maldita - ou melhor, não é uma missa, é um ato ecumênico pela metade, pois se constituiu de um padre e de um pastor protestante; brevemente vamos ter um rabino também. 

Tem alguns companheiros que reclamam: “Como é, Quintella? Não vai ter um rabino para melhorar essa situação?” Vai ter, mas por enquanto ainda não temos para fazermos a coisa certa; é sempre um ato ecumênico, nós temos um pastor protestante e um padre da Igreja Católica. E depois muito chope, muito biscoito, salgadinho e um bolo enorme para todo mundo. 

Isso é a festa do Reco-reco que é em novembro, sempre na sala da Boca Maldita… Ali na frente, porque dentro da sala não dá, então nós já ocupamos toda aquela área. 

E o Natal, que é a nossa festa máxima. Distribuímos brindes para todos os funcionários do Flamengo e sorteio dos brindes maiores, todos recebem um brinde e alguns são sorteados. Também nós compramos uns cinquenta presentes de maior valor, dez, quinze bicicletas, e distribuímos; um televisor, nunca mais que um televisor, uma coisa assim, todo ano nós fazemos isso. 

Contamos com a ajuda do Flamengo para isso. O Flamengo, às vezes, esperneia, não quer colaborar, mas de um modo geral colabora.

 

P/1 - Então, Quintella, a Boca tem esse lado social, mas tem um lado político muito forte.

 

R - Tem um lado político muito forte, mas quando eu assumi pela primeira vez, porque eu tenho a alegria e a honra de ter sido reconduzido algumas vezes à presidência da Boca, eu disse mais ou menos assim: “A Boca não quer e nem deve se imiscuir na política do clube, mas está pronta para aplaudir os acertos e criticar os erros.” Isso eu disse quando fui eleito pela primeira vez.

 

P/2 - E quando foi isso?

 

R - Essa primeira eleição, eu fui vice na primeira… Foi na terceira diretoria, dois anos depois eu fui eleito presidente, então eu disse isso, exatamente assim.

 

P/2 - O mandato é de quantos anos?

 

R - São dois anos.

 

P/2 - Quem pode se eleger para fazer parte da Boca Maldita, quem pode ser filiado da Boca Maldita?

 

R - Pode se eleger para presidente da Boca qualquer sócio do Flamengo que não tenha sido punido pelo Flamengo e que tenha mais de três anos como sócio da Boca - isso para ser presidente da Boca. E para ser sócio da Boca Maldita ele primeiro tem que ser sócio do Flamengo por mais de três anos, não ter sofrido nenhuma punição e ser aceito pela diretoria da Boca.

 

P/2 -  Já houve algum caso da Boca ter rejeitado?

 

R -Sim, alguns casos em que a Boca não aceitou.

 

P/1 - Senhor Quintella, nós estamos chegando ao fim da entrevista, então é melhor... Gostaria que você fizesse a sua pergunta.

 

P/2 - Senhor Quintella, para o senhor, hoje, como seria o perfil de um flamenguista?

 

R - Primeiro eu acho que ele tem que ser um homem correto, trabalhador, honesto, e amar ao Flamengo. Amando o Flamengo, ele é um bom flamenguista. E se ele for um trabalhador, for correto, for um homem honesto, ele preenche todos os requisitos que nós, flamenguistas, rubro-negros… Gostaríamos que todos fossem assim, porque nós condenamos distúrbio, condenamos brigas, badernas, porque isso não é ser rubro-negro. Ser rubro-negro é ir ao Maracanã torcer, gritar, chorar, derramar lágrimas, suor - sem brigas, só com o amor ao Flamengo.

 

P/2 - Eu tenho uma pergunta interessante: se o senhor tivesse que escalar um time do Flamengo de todos os tempos, teria uma escalação?

 

R - Eu vou ligar aqui para o Carlinhos e ele vem escalar isso para você… (risos) 

 

P/2 - Se tivesse um grande time, de todos esses jogadores flamenguistas nesses últimos cinquenta anos que você acompanha...

 

R - Eu diria que nós tivemos aqui o Domingos da Guia, que inclusive é frequentador da Boca, tivemos o Valido, o Doutor Rubens - quem teve o prazer, a alegria de ver o Doutor Rubens pegar numa bola no Maracanã, era uma coisa. O Bria, o Tomirez, homem sem nenhuma técnica mas que a bola não passava, ou melhor, a bola até podia passar, mas o cara ficava e não adiantava nada. O Dida… Não dá, é muita gente boa. Agora mais recentemente, o Zico, fenômeno; pra trás ficou muita gente boa que eu não falei…

 

P/1 - O Leônidas poderia ser?

 

R - Um grande jogador. Aquelas bicicletas eram coisas maravilhosas, as bicicletas que ele dava, aquilo mexia com a gente. Leônidas foi realmente extraordinário. Mas nós temos muita gente boa que a minha cabeça de jovem não está lembrando.

 

P/1 - Senhor Quintella, eu gostaria de perguntar como se sente dando o seu depoimento para o Museu Histórico do Flamengo e ajudando a construir a história do nosso querido clube?

 

R - Eu me sinto muito bem, muito satisfeito, muito contente, mas eu tenho plena consciência que não acrescentei nada porque eu sou franco em datas, sou fraquíssimo em nomes… Tem tanta gente que… Zizinho frequenta a Boca Maldita, vinha muito aí com a esposa dele, a Rose. Esquecendo o Zizinho! Quem é que não lembra quem foi o Zizinho, quem é que não sabe quem foi o Zizinho. O Babá...

 

P/2 -. O Flamengo é um mundão...

 

R - O Flamengo é um mundão. Não dá, é gente demais. Hoje você vê, tem quinhentos mil garotos aqui querendo treinar no Flamengo, pai e mãe o dia inteiro dizendo para os técnicos, dizendo para os diretores das escolinhas: “Meu filho é o máximo! Ele mata no peito, corre na perna e dá...” É o dia inteiro contando as histórias que os filhos são maravilhosos, para ver se tem uma chance de treinar nas divisões de base do Flamengo. Por que? Porque o Flamengo é uma magia, o Flamengo é um sonho, o Flamengo é um amor, o Flamengo é arrebatador - o camarada esquece até a mulher! Deixa a mulher em casa e não vai para casa, esquece a mulher porque está aqui no Flamengo. Eu acho que eu estou nesse rol. 

 

P/2 - E as mulheres sabem jogar futebol?

 

R - Sabem. Nós estamos com um time, um bom grupo de moças. Nosso time feminino está muito bom, está muito bom mesmo - Neném que o diga, pergunte ao Neném que ele sabe, está muito bom nosso time feminino.

 

P/1 - O senhor acha importante o Flamengo preservar a sua memória?

 

R - É importante, quem não tem memória não tem vida. Isso é extremamente necessário, se lembrar dos seus ídolos do passado. A garotada só sabe que existe o Romário, mas não sabe do Doutor Rubens. Quando ele entrava no Maracanã que… “Pega, Rubis, Doutor Rubis”; a galera não sabia dizer: “Rubens”, então o nome era Rubis. Essa galera maravilhosa, formidável, há que se preservar isso. Babá, pequeninho, que maravilha, e tanta gente que eu não me lembro. Se eu soubesse que eu vinha falar com vocês eu até tinha feito uma lista de duzentos jogadores, vocês me pegaram de surpresa. (risos) 

A Tereza me disse: “Olha, estão esperando você ir ali.” Eu disse: “Mas agora eu vou almoçar com o Arquimedes.” Senão eu preparava uma lista com os maiores craques do Brasil, os maiores craques do mundo. O Mozer, de hoje, o Gilmar, recentemente, que agora é nosso Superintendente de Futebol - que craque, que disciplina desse rapaz como jogador de futebol. Tem que preservar isso, senão esquece e os garotos só vão lembrar do Leandro, que jogou muito bem, deu uma grande alegria; do Romário, essa turma de hoje que eu respeito muito, que me deu as grandes alegrias que eu disse. Foi a Taça Guanabara, essa foi a maior de todas agora, porque quando foi a do campeonato não, já tinha bebido água cristalina, já estava… Não estava com muita sede, se bem que eu só fui para casa de manhã, não sei se eu estava tão sem sede assim. (risos)

Comecei lá no La Mama com o Carlinhos, com a Tereza, que é a Diretora Social da Boca Maldita, com meu filho, ele se chama José Antônio, com a minha nora, Malba; fomos lá para o La Mama e depois fomos mais para outros cantos, viemos para a Boca Maldita. E no dia seguinte - às nove horas começou a festa -, às oito horas  estávamos eu e o Arquimedes, no domingo, já tomando as providências para a festa  que nós fizemos na Boca Maldita, que acabou às seis horas da tarde. Ali nós almoçamos, lanchamos, também bebemos em comemoração ao campeonato.

Preservar é importante, é a vida; quem não preserva não tem memória, não tem vida.

 

P/1 - A gente queria agradecer a sua entrevista e contamos com o senhor  e com a Boca Maldita para ajudar a tocar essa ideia de levantar o Museu Histórico do Flamengo.

 

R - Nós agradecemos a vocês e uma coisa tenha certeza, o lema é o seguinte: “Boca Maldita, o seu lema é o Flamengo.” Isso com a aquiescência de outros companheiros e do meu vice-presidente, Arquimedes Paranhos, esse homem que me ajuda em tudo. Eu não conseguiria fazer nada na Boca Maldita sem o Arquimedes Paranhos, porque na maioria das vezes eu sou explosivo, eu brigo, eu contrario as pessoas, e o Arquimedes sabe ajeitar tudo que eu faço de errado. Então eu mandei fazer uma placa que diz: “Boca Maldita, teu nome é Flamengo.” Está lá na porta, por isso vocês contem conosco sempre, porque nós estamos sempre a serviço do Flamengo. Estamos sempre prontos para servir ao Flamengo, em qualquer situação. Muito obrigado!





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