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História

Bixiga, a Minha Bela Vista

História de: Edésio Soares Santana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2020

Sinopse

Chega a São Paulo, conhece o bairro da Bela Vista. Mora durante algum tempo na região, frequenta o centro, gosta da arquitetura, faz compras, se diverte na Bela Vista. Descreve situações engraçadas vividas no bairro, descreve personagens da região. Fotografa o centro.

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História completa

P2: Boa tarde.

R2: Boa tarde.

P2: Por favor, seu nome completo, local e data de nascimento.

R2: Edésio Soares Santana, nascido em Fortaleza –Ceará, em 7 de junho de 1974.

P2: Edésio, qual é o seu Centro aqui na cidade de São Paulo? Os lugares em que você anda?

R2: Os lugares que eu gosto aqui no Centro? A Bela Vista está incluída dentro Centro, de acordo com aquele mapa ali que vocês fizeram. Então, a Bela Vista. Quando eu vim para São Paulo, eu saí de casa com 18 anos e o primeiro lugar onde eu coloquei os pés foi no metrô Anhangabaú. Foi o ponto de partida, porque eu tinha que achar a casa de um amigo que era na Bela Vista. Cheguei a morar lá algum tempo. Estou morando perto de lá, mas é meu lugar referencial aqui em São Paulo. É o lugar com o qual eu me identifico mais.

P2: Você frequenta o Centro da cidade a trabalho, a lazer?

R2: Frequento. Costumo vir aqui sempre porque eu gosto do clima. Não sei, esses prédios antigos. É uma coisa gostosa de se ver. Eu acho mais legal para fazer compras do que ir a um shopping center. Acho que você tem mais coisas para ver no Centro da cidade, que não sejam referentes só às compras, do que em um shopping center. É um conjunto de coisas que puxam para cá.

P2: Nessas suas caminhadas aqui para fazer compras, lazer etc., já se deparou com algum personagem interessante, diferente, que te chamou a atenção?

R2: Sim. Uma vez eu... eu tiro minhas fotos de vez em quando e eu estava com uma maquininha tirando umas fotos preto e branco e tinha uma mulher que era camelô. Ela estava desmontando a barraquinha. Estava sentada com uma pose assim, sabe? Com a mão na cintura, olhando para o lado. Eu parei e disse: “deixe eu tirar uma foto sua?” Ela disse: “ah não, deixa eu me arrumar.”  Eu disse: “do jeito que você está. Nem respira.” Ela ficou lá e fez uma pose toda... eu tirei e tenho essa foto até hoje. Outra vez eu estava andando e tinha um cara sem braço. Ele não tinha um dos braços. Estava pintando na esquina da Ipiranga com a São João. Assim, no meio da São João ele colocou uma tela e estava pintando. Eu tenho essas fotos até hoje. Essas duas fotos foram os episódios mais pitorescos que eu vi aqui.

P2: Essas pessoas ainda estão nesses lugares?

R2: Não, eu nunca mais vi. Tinha outro que também era mendigo que ficava ali na Consolação... no comecinho da Avenida Ipiranga. Ficava sentado dia e noite. Ali, parado, sentado. Estava sempre com um cobertor cobrindo a cabeça. Não xingava ninguém. Nunca falava nada. Nunca notei que estivesse comendo. Eu passava lá e observava. Sempre parado na mesma posição. Eu falava: “esse cara é um monge. Alcançou o nirvana e a gente pensa que ele está pedindo esmola...” [risos]. “O monge da consolação”, a gente brincava com os colegas. Mas também foram pessoas que eu nunca mais vi. Vi uma vez e depois não vi mais.

P2: Um episódio que aconteceu com você e que te marcou.

R2: Aqui no Centro? Uma vez eu tive que fazer um trabalho para a faculdade ali no mercado municipal, mercado central, não sei. Eu e minha namorada. Nós fomos em um dia que não era frio e saímos com uma máquina desse tamanho [mostra com a mão]. Morrendo de medo de sermos assaltados. Então ela colocou um casacão, colocou a máquina por dentro e foi fingindo que estava grávida. Só que era uma coisa meio absurda, porque estava um calor desgraçado [risos]. E foi aí que a gente chegou ao mercado. As nossas fotos ficaram lindas. Foi uma coisa engraçada. Na Bela Vista tem várias histórias, se der para considerar como Centro.

P2: Conta uma.

R2: Eu morava na Rua Santo Antônio, no comecinho da 13 de Maio, bem onde tem os barzinhos: Café Piu-Piu, enfim, todos aqueles lugares. Eu e meu colega dividíamos um apartamento. Eram três colegas dividindo apartamento e a gente saía, ia para balada e falava: “o bom é que a gente está do lado de casa e se a gente tomar um porre tem onde cair”. Às vezes eu voltava para casa bêbado e falava: “anda até o poste”, aí eu andava até o poste; “atravessar a rua”. Tinha que dar esses comandos. Assim eu conseguia chegar em casa. A gente pegava... A gente bebia muito vinho, nossa! Tinha um barzinho que se chamava “Chope House”, na rua Santo Antônio. Era assim, a gente estava lá e era um barzinho de headbangers, aqueles caras cabeludos, jaqueta jeans, olhando torto para a gente, diziam: “o que esses dois estão fazendo aqui?”. Eu tinha um cabelo comprido, mas não tinha a cara de mau. E aí a gente ficou lá no meio e chegaram duas meninas e começamos a paquerar de longe e, de repente, chegou um alienígena, que era um cara vestindo blazer com um copo de uísque na mão. Chegou perto da menina e começou a encher o saco dela: “você é linda, tem uns dentes maravilhosos, rá-rá-rá!”. A gente via a coitada da menina olhando com aquela cara de “socorro, ninguém vai me salvar!?” [risos]. Aí bateu uma coisa e nós dois falamos assim: “vamos lá?” [risos]. A gente começou a conversar, parará, e daí a cinco minutos saímos puxando a garota e as amigas pelo braço. “vamos aqui, a gente vai comprar uma garrafa de vinho”. Eu saí puxando. E aí o cara, ele...a gente estava vindo assim, os quatro, um segurando na mão do outro,  quando o cara vai e puxa  meu amigo pelo braço e diz: “já que vocês vão ali na frente, vamos ficar aqui batendo um bom papo enquanto eles vão e voltam, rá-rá-rá”. E aí, saímos eu e as duas meninas, a gente correndo e quando a gente olhou para trás estava o meu colega de refém lá. Então saímos e tinha um barzinho...nossa, como é mesmo o nome do bar... era um barzinho assim, era um muquifo, só tocava heavy metal, hard rock, Deep Purple, Led Zeppelin, essas coisas. E aí, a gente foi e conseguiu entrar nesse bar porque a menina tinha ficado com o porteiro e a gente entrou de graça, enquanto ela ficou se amassando lá com o cara. A gente bebia vinho Chapinha, que era um vinho horrível. Parece mata-rato que você abria com o abridor. Era com chapinha mesmo. A gente bebeu vários vinhos Chapinha e, várias horas depois, a gente foi lembrar que nosso colega estava no Chope House [risos]. Daí eu voltei para lá. Não rolou nada, a gente só ficou amigo. Eu voltei para o lugar e lá estava o meu colega e o outro cara sentados na calçada, o cara já todo decomposto, cabelo em pé, blazer jogado no chão, garrafa de uísque faltando dois dedinhos para acabar e os dois bebaços, falando: “senta aqui, esse cara é muito gente boa, é meu irmão.” No final das contas o cara acabou namorando... Esse cara chato acabou namorando a menina que a gente salvou [risos]. A gente ficou amigo por pouco tempo. A gente se via de vez em quando lá. A coisa não passou muito disso. Foi uma história engraçada para contar, tem várias. Teve uma época que a gente andava por aí e pegava uns cinco litros de vinho e retornava segurando no braço. Tinha uma turminha de hippies que a gente conheceu, quer dizer, eram amigos nossos de classe média alta, mas que as meninas andavam sempre de saias indianas e os caras tinham cabelos aqui [mede com a mão] e tocavam violão e alguém sentava e falava: “nossa, cara, acho que vou fazer uma poesia assim: luzes lilases coroam o céu de outono numa noite de espetáculos”. Aí todo mundo falava: “pô, cara, isso é lindo” [risos]. E aí, de repente, a gente via que tinha um bando de... tinha uns hippies, esses de verdade, que vendiam pulseirinha e tal, sentados, do lado da gente, numa seda, tocando violão e um não sei que... Eu tocava gaita na época. Aí eu estava tocando todo escondidinho para ninguém me ver tocando. De repente: “ô, vem cá, toca com a gente.” Aí rolou uma jam session. Eu tocava super mal. Até hoje, mas os caras estavam tão loucos que não prestavam atenção em nada [risos]. Era uma época legal. A Rua 13 de Maio tem muita história boa. Esse pessoal que eu conheci, continuamos nos falando até hoje. São meus melhores amigos aqui em São Paulo. Teve gente que se casou. Teve gente que virou megaempresário, sei lá. Um viajou para os Estados Unidos. Outro virou professor de música. Outra, sei lá. A gordinha virou geração saúde, sabe, tipo aquelas malhadas. Mas é muito estranho você ver o rumo que todo mundo tomou. Olhando as fotos daquela época, todo mundo cabeludo, sem muita ideia do que queria fazer.

P1: Legal. O que você está achando de contar essas histórias aqui para a gente?

R2: Acho legal. Acho que é uma maneira de... Acho uma puta de uma ideia do Museu da Pessoa, porque essas coisas são importantes. Não a minha história especificamente. Você ver o relato dessas pessoas que estão aqui na exposição no Centro. Nossa! Você vê e fala: “é gente de verdade”.  Acho que uma coisa muito mais palpável do que ver a história do pai do Duque de Caxias, que é toda distorcida e que tem cinquenta versões. A versão dele que a gente aprende na escola. No meu caso, você tem depoimento gravado em vídeo é uma maneira de você...A vida da gente é muito rápida. Acho que acabamos ficando de alguma maneira pelas fotos que estão com os amigos ou coisas que falamos e alguém gravou. Eu estava passando e achei essa ideia legal.

P2: A gente agradece muito sua colaboração.

R2: Obrigado.

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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