Busca avançada



Criar

História

Biólogo e permacultor

História de: Pedro Coelho Massela
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/01/2015

Sinopse

O educador, biólogo e permacultor Pedro contou sua história ao Museu da Pessoa em dezembro de 2014. Em seu depoimento ele relata o interesse pela natureza desde muito novo. Relembra como se decidiu pelo curso de Biologia e sobre os trabalhos que desenvolveu durante o curso. Conta como uma viagem de oito meses à Bahia durante o período da faculdade transformou sua forma de ver o mundo e a natureza. Ele conta detalhes da comunidade de Marizá, onde desenvolveu trabalhos de permacultura e decidiu-se pela sua profissão. Fala sobre o Projeto Quintal que desenvolve com um grupo de amigos e como começou a trabalhar como educador na ONG Quintal Mágico, situada em Osasco.  

Tags

História completa

Meu nome é Pedro Coelho Massela, nasci em 17 de julho de 1987, na região da Vila Leopoldina, Lapa ali, e assim me criei por muitos anos aqui em São Paulo. Minha mãe chama-se Maria Luísa Curado Coelho e o meu pai é Afonso Massela Júnior. Eu estudei primeiro numa escola chamada Panterinha, que era perto da minha casa, que também era super quintalzão, tinha árvore. A imagem que eu mais me lembro dessa escola de criança era eu comendo formiga. Eu sentava no quintal e ficava vendo as coisas, vendo as formigas, de vez em quando eu experimentava uma, tinha um gostinho de ferro. Depois eu me lembro dessa escola que eu estudei, que foi o Vera Cruz. Chegando à escola e vendo essa árvore, esse um canto que tinha um bambuzal aqui, eu falei pra minha mãe: “Ah, legal. Aqui pode ser”. Era uma bagunça legal, uma bagunça organizada. Eu lembro muito de aulas de Educação Física, que eu adorava essa coisa mais dinâmica, aulas de Artes, que tinha teatro também. Fui até o final do ensino médio. Fiz o ensino médio lá.

Já sabia o que eu queria, é Biologia, desde os 13 anos. Com 17, 18, quando eu comecei a prestar faculdade, começaram a vir outros nomes: Psicologia, veio Educação Física, porque eu sempre gostei muito de esporte, de me mexer, Ciências da Terra também, Geologia, me vieram essas coisas. Oceanografia também foi uma coisa que eu prestei por gostar muito do mar. Mas eu descobri que a Biologia englobava tudo isso e mais um pouco. Eu falava: “Desde os 13 anos, vai ser isso mesmo, Biologia, e pronto”. Teve até um episódio, que na segunda vez que eu tava prestando vestibular, que eu prestei três vezes vestibular pra entrar, a segunda vez eu queria Biologia, mas a Oceanografia era mais fácil, a nota de corte, eu fiquei: “Ah, mãe, não sei qual dos dois eu presto”. A gente escreveu em dois papeizinhos: Biologia e Ocenografia. Chacoalhou, escolheu, saiu Biologia. Eu falei: “Pronto”. Prestei e deu certo. Em paralelo da faculdade, eu comecei a ir com empresas de estudo do meio, inclusive com esse Rafael, que foi que me influenciou muito, eu entrei em contato com ele depois e ele me chamou pra ir com um colégio, inclusive eu fui com a minha escola, certa vez, na Serra da Cantareira, com os pequenininhos, levá-los e tal.  Como monitor ambiental. E achava muito legal. Apareceu esse projeto que chama Trilha Subaquática, que é do Instituto de Biociências, da USP, que ele trazia esse algo a mais além da informação. Além de levar o pessoal pra trilha, para o mar, tinha o mergulho, trilhas na mata, trilhas virtuais, que eram os painéis e tal, ele começou a tocar nessa questão do afeto, muito na questão do afeto, e isso, nossa, me pegou muito assim de que o afeto valia mais que mil palavras. Eu comecei a me encantar por isso. Nessa mesma época eu estava tentando começar a minha iniciação científica, entrei num laboratório de restauração florestal, na Ilha do Cardoso. E eu comecei ajudar, ajudar no campo, mateiro ali, de carregar mochila, a ir à frente com o facão abrindo a trilha. E adorava, fiquei por muito tempo só ajudando, o professor chegava: “Está na hora de você começar escrever seu trabalho”. Eu: “Não, não, eu estou bem aqui de ajudante. Eu adoro ir para o mato, carregar coisa, medir planta e tal”. E nessa eu comecei um pouco a experimentar a ciência, mas começou a me incomodar essa coisa de pra falar o que eu achava, eu teria que procurar alguém que já tinha dito pra por referência, e isso começou a me travar, eu desisti do laboratório e continuei só com a coisa de monitorias. Trabalhei muito tempo como monitor de mergulho livre no Trilha Subaquática, levando o pessoal pra mergulhar. Gente que nem sabia nadar às vezes ia mergulhar com a gente. E eu via como transformava instantaneamente o humor da pessoa, a energia. Alguns tiravam a cabeça da água e falavam: “Nossa, eu não sabia que tinha tanta vida aqui embaixo, nessa piscina”. 

Até os 25, 26, eu ainda fiz uns bicos de garçom.  Eu tinha 21 anos, estava trabalhando no restaurante da minha família, juntando dinheiro pra ir pra Austrália. E um grande amigo meu, o Felipe, um superparceiro de ideologias, que a gente se ajudou a achar nosso caminho, ele virou marceneiro e eu virei jardineiro. Ele chegou e contou de um lugar, que era no sertão da Bahia, que é um centro de permacultura chamado Marizá. E no que ele falou, aquela velha intuição que a minha mãe me ajudou a acreditar nela bateu, falou: “É isso, Marizá. Vamos? Quando? O mês que vem? Pronto. Vamos”. E fomos, foi mais uma vez que minha mãe falou: “Meu, vai”. Empurrou-me do ninho. Eu falei: “Mãe, mas eu vou trancar a faculdade, tal?”. Ela: “Não, tem que ir, cara, isso também é estudo, é aprendizado”. E me empurrou, falou: “Vai. Se você não gostar, você volta”. E, nossa, foi lá que eu renasci. Eu costumo brincar muito com o pessoal que eu nasci em São Paulo e renasci na Bahia. Porque foi um lugar que foi um portal de abrir a minha percepção pra esse meio de pegar na enxada, da terra, da nossa real pegada ecológica, o quanto a gente gasta pra estar aqui vivendo nesse mundo, de como dá trabalho viver da terra, de estar plantando, cuidando da casa, construindo a casa, cuidando da água, captando a água e lavando a roupa. E pensando em todo esse sistema, foi muito legal. E Marizá é um lugar com uma energia sutil muito forte. Então os meus canais de energéticos começaram a se abrir, de um tanto que eu até me assustei, meus 21 anos ali, de repente eu comecei a sentir um monte de coisa que eu nunca tinha sentido antes, comunicar com o invisível. E começou a ficar muito forte. Era um trabalho muito na terra. A época que eu fui era fevereiro, era muito quente, muito seco, a gente não estava plantando, a gente estava só preparando pra quando a chuva chegasse. Então era um trabalho muito de buscar folha seca dos cajueiros do vizinho e juntar. E buscar fibra de coco e voltar para o sítio. E buscar madeira. Eu fiquei oito meses na Bahia.

Eu voltei da Bahia com uma energia que até hoje eu não sei de onde veio, de estar emanando compreensão sobre a vida, compreensão sobre mim mesmo, intuição sobre as coisas. Eu estava com os sentidos aguçados de um jeito assim, que eu estava conversando com você, e de repente passava um pss atrás de você, eu já me desconcentrava. Eu voltei meio que um bicho, por estar tanto tempo no silêncio, com os sentidos superaguçados. Até dei uma bagunçada a hora que eu cheguei à cidade de novo. Mas a partir daí, com essa coisa emanando esse sonho, e com a fé nesse sonho eu comecei a buscar maneiras de por em prática tudo aquilo que eu tinha vivenciado, tanto no meu cotidiano, como no jeito de tratar as pessoas, essa coisa mais coletiva da Bahia, de vir cá e abraçar mesmo quem tiver vontade de abraçar, e fazer as coisas. E faltava uma terrinha pra plantar, porque eu morava em apartamento. Então estava, arranjava um monte de vasos. E de repente o Felipe, que é esse grande irmão, que caminhou comigo por tanto tempo, caminha ainda, ele começou a cuidar de um canteiro central de uma avenida, a Avenida Semaneiros, ali no Alto de Pinheiros. O canteiro central. Começou a plantar uma coisinha, eu comecei a plantar com ele também, já batizou de Crianteiro esse lugar. E eu comecei a reparar nisso, essa coisa já que aquele Projeto Trilha Sub já trouxe do afeto, e pensar nesse espaço como um espaço de educação, até que chegou a Cidinha, que era tia do Felipe, uma educadora incrível, trabalha com ONGs, fez trabalhos na África já com a criançada, era contadora de histórias, ela falou: “Então, vocês não querem fazer isso que vocês estão fazendo no canteiro na Cáritas com as crianças?”. E eu como já era educador, “crianceiro” desde pequeno, como diz minha mãe, desde pequeno já via criança, já abraçava, já queria cuidar. Eu falei: “Vamos”. A gente sentou, eu, o Felipe, mais o Michel, um amigo nosso, e a gente criou o Projeto Quintal, que vem acontecendo há uns três anos já, desde 2010 a gente começou o Projeto Quintal.

É no espaço na Cáritas, em Santa Suzana. É uma ONG no Morumbi que já recebe as crianças no contraturno da escola e elas estão todo dia, têm aulas complementares de Kumon, inglês, capoeira. E a gente sentou pra pensar nesse jardim, como seria esse jardim. Pensamos muito no jardim. E a gente parou pra conversar, pegou uma cartolina nesse dia, o primeiro encontro, eu falei: “Como vai ser esse espaço aí?”. E eu lembro que a gente muito moleque, falou: “Não, então eu acho que a primeira regra é que tudo pode. Pode tudo nesse espaço”. Então essa foi a primeira regra do Projeto Quintal, que era que tudo pode, e não tem regra. Uma coisa assim: vamos ser feliz, vamos tocar violão, plantar, correr, brincar. Que era uma coisa que por intuição me fazia muito mais sentido, e pra eles também. Hoje em dia o Quintal virou Quintal Skate, por influência dos amigos, que desde pequeno eu ando de skate. E Terceiro Setor é que nem vírus, atua onde dá. Onde dá pra atuar, a gente está atuando. O espaço abriu, a gente ocupa. Então veio essa lei do incentivo ao esporte, a gente conseguiu viabilizar um projeto de skate, mas a gente continuou com a parceria de marcenaria e jardinagem, inclusive chegando o recurso, a gente partilhou o recurso. E a gente trabalhava em três, a gente está em dez agora, com marceneiros incríveis, uma galera que trampa com reaproveitamento de madeiras, de recursos.

Trabalhando com o Bruno, incrível a parceria com ele, nesse Viver Escola, e ele com a Amanda, e a Amanda já estava aqui trabalhando pra tirar as crianças da sala, pra ter uma floresta de novo. Porque o Quintal Mágico, ele era numa sede superarborizada, aí de repente tiveram que vir pra cá, uma coisa mais árida, e aí eles conseguiram viabilizar o projeto e estavam precisando de jardineiro educador. Alguém que fosse jardineiro e educador ao mesmo tempo. E a Amanda conversando com o Bruno, falando: “Pô, Bruno, mas o único jardineiro educador que eu conheço é você, e você já não tem tempo”. Ele falou: “Não, mas tem o Pedro. O Pedro também é jardineiro educador”. E nessa vim aqui conhecer, já me encantei muito com a possibilidade de trabalhar profissionalmente nessa coisa dos quintais, de estar metade do tempo me aprimorando como jardineiro, outra metade do tempo me aprimorando como educador.

Eu acho que o recurso do Criança Esperança foi uma coisa que realmente possibilitou de a gente continuar profissionalizando o nosso sonho. O nosso sonho e nossa, como um todo, como humanidade, nossa necessidade, que é parar um pouco de andar pelo único caminho que existe e olhar pra trás e ver os caminhos que já existiram, tanto com a terra, da simplicidade, de estar no quintal, a coisa do quintal. Então acho que eles foram os possibilitadores, o pai, o pai como aquela figura que provém e permite que a gente sobreviva, tenha alimento, tenha recurso, tenha roupa e tenha ferramentas pra trabalhar, tenha semente, tenha terra. Posso comprar esterco de vaca, quero uma muda de jabuticabeira, de poder sonhar alto. O Criança Esperança permitiu que a gente sonhasse alto. No Quintal, eu fui voluntário por muito tempo, e muitas vezes eu tirei do meu bolso o recurso. Eu estou trabalhando e pagando ainda. E o Criança Esperança permitiu muito essa inversão de: não, eu estou sendo pago pra fazer o que eu faço, com muito carinho, por que não? Por que não eu fazer o meu trabalho com muito carinho? Porque o pessoal também separa essa coisa. O trabalho é uma coisa que você faz, e hora que dá a sua hora, você sai e vai descansar, porque o trabalho te cansa e te consome, e está esperando chegar o fim de semana. Eu não, às vezes eu saio daqui e, tipo, falo: “O que eu vou fazer agora? O que eu mais gosto de fazer é o que eu estava fazendo. Que agora esse lugar virou um banco de germoplasma, um banco de diversidade. Tem muita semente, tem muita muda pra tirar aqui. Pela minha vida inteira eu acho que eu vou, estando aqui ou não, eu vou passar aqui: “Pô, eu estou querendo uma muda de não sei o quê” “Lá no Quintal Mágico tem”. Aqui tem muita coisa, inclusive fica aí a... Querendo muda de alguma coisa, pode vir ao Quintal Mágico pedir, porque está cheio. Muito graças ao Criança Esperança, e ao nosso trabalho também de buscar essa diversidade de trazer a floresta aqui pra dentro. Então esse recurso foi muito bem utilizado, em minha opinião, e muito bem escolhido por eles pra quem dar também. Porque a gente, meu, tá fazendo de coração, o pessoal aqui está levando a sério essa missão de tentar tirar o estereótipo de quem faz esse tipo de trabalho, aqueles excêntricos que estão ali na horta. Não, a gente é profissional, esse é o nosso trabalho mesmo. E é isso que gente está fazendo. E a gente sabe que isso é importante.

 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+