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História

Beth da Canaã

História de: Elizabeth Teles
Autor:
Publicado em: 05/02/2021

Sinopse

Em sua história, Elizabeth fala de sua infância, da casa de sua avó Maria Júlia, e de seu bairro em São Luis (São Francisco). Fala de sua parceria com seu irmão e do começo na igreja Renovo, onde conheceu grandes amigos e cresceu no conhecimento do mundo em sua adolescência. Discorre sobre quando passou em Serviço Social na UFMA e as dificuldades para trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Em seguida, fala sobre sua entrada na ENEVA, dentro das conturbações da falência da MPX. Elizabeth fala sobre os desafios da maternidade e sua aproximação com a Vila Nova Canaã. Aqui, conhecemos o projeto de realocação e de construção de uma nova dinâmica de comunidade, através do Pólo Agrícola e do incentivo à educação e formação no interior de Paço do Lumiar.

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História completa

P/1 - Beth, vamos lá. Obrigado pela sua presença; me fale seu nome completo, onde você nasceu e em que data. 

 

R - Meu nome é Elizabeth Teles Moreira Bezerra. Nasci em dezesseis de outubro em São Luís do Maranhão, na capital. 

 

P/1 - Você nasceu em casa ou hospital?

 

R - Nasci na Maternidade Benedito Leite, referência em atendimento a mulheres grávidas. Acho que foi de manhã. 

Tive um problema no parto, passei alguns dias na UTI, mas deu tudo certo. 

 

P/1 - Seu pai e sua mãe contaram sobre esse dia?

 

R - Contaram. Foi um dia bem feliz e tenso, de nascer, ter complicação no momento da retirada e ter ido direto pra UTI. Falaram também da dor de ir pra casa e não poder levar a filha, mas que foi uma alegria dobrada quando [me] receberam.

 

P/1 - Você tem irmãos?

 

R - Tenho um irmão, Daniel Teles. 

 

P/1 - Ele é mais novo ou mais velho que você?

 

R - Mais novo que eu.

 

P/1 - Quantos anos?

 

R - Ele tem hoje 33 anos. 

 

P/1 - Quantos anos a menos que você?

 

R - Três anos. 

 

P/1 -  Qual o nome da sua mãe?

 

R - Raimunda Nonata Teles da Silva. Ela fez sessenta anos esse ano. [Ela é] meu orgulho, batalhou muito pra gente ter o que a gente tem hoje; me educou de uma forma muito forte, relacionada à realidade em que nós estávamos. Ela fez de tudo pra que as possibilidades realmente acontecessem na minha vida e na do meu irmão. 

Quando eu falo de possibilidades, não são questões materiais ou financeiras. São questões de caráter, de estudo, de percepções - hoje, pra mim, é o mais importante.                  

 

P/1 - Qual o nome dos seus avós por parte de mãe?

 

R - A minha avó é Maria Júlia. As lembranças boas que eu tenho da infância são todas relacionadas a ela - chá de erva cidreira, ela fazendo cafuné na minha cabeça… Ela ficava comigo e com o meu irmão alguns dias, enquanto minha mãe e meu pai trabalhavam. A gente morava perto da casa dela.

Eu nasci na Liberdade. O bairro da Liberdade é um bairro de comunidades vulneráveis, aqui em São Luís. É uma coisa que eu tenho muito forte na minha infância, porque eu cresci vendo outra realidade, várias coisas que me fizeram ter a percepção… Minha vocação, meu chamado, então foi muito bom. 

Eu lembro da minha avó ajudando várias pessoas, por conta do local que nós morávamos. Ela faz parte das boas lembranças da minha infância. 

 

P/1 - Como é o jeito dela? Como ela anda, fala…

 

R - A gente é muito parecida. Ela é um amor de pessoa; acho que uma das marcas dela que eu tenho muito, que fica muito latente em mim é a devoção. Ela realmente quer ajudar as pessoas, realmente se envolve com a vida das pessoas. É uma contadora de histórias, toda vez que me vê ela fala de mim quando bebê, quando eu cheguei na casa dela, quando ela me olhou… 

Minha avó é negra. Eu tenho muito orgulho dela, da cor. Quando eu era criança, não se tinha essa discussão; se tinha, eu não entendia, mas isso marcou muito a minha vida. Eu tinha muito orgulho de falar que ela é negra. Trabalhou muito pra criar as filhas dela, teve também uma vida bastante sofrida. 

Meu esposo é negro, e quando eu fui apresentá-lo pra minha família pensei nela na hora. Acho que muitas coisas têm a ver com ela, foi muito importante.

 

P/1 - E seu avô, qual o nome dele? Você o conheceu?

 

R - Não o conheço. Nunca tive contato nem referência dele. 

 

P/1 - Então quando você nasceu, sua avó já era sozinha. 

 

R - Ela era sozinha. Não me lembro de muita coisa dela com esposo. Ela teve um esposo que faleceu há pouco tempo - uns dois anos, um ano e meio - mas eu não tenho muita lembrança sobre isso.

 

P/1 - O que ela contava pra você? Você pode contar uma dessas histórias pra gente?

 

R - Ela contava a história do Cavaleiro da Lua, me contava história sobre os animais, a floresta. Ela gostava de ouvir bolero, então eu me lembro muito disso; eu no quarto dela, ela limpando o quarto e ouvindo bolero. Eu deitada na cama e ela fazendo cafuné. São lembranças boas. Ela fazendo chá de erva cidreira antes da gente dormir. [Era] uma avó muito carinhosa, muito devota. 

Meus pais tinham um relacionamento muito difícil na minha infância e ela ajudou muito, fez de tudo pra tirar a gente dessa esfera. Eu me lembro disso. Talvez ela nem soubesse o que estava fazendo, mas de alguma forma me tirava daquela tensão que algumas vezes eu vivia em casa. 

P/1 - Quem é o Cavaleiro da Lua?

 

R - É um super-herói. Ele era o resgatador de todas as coisas. Ela gostava muito de ler também, é uma coisa muito boa. 

Há dois anos, eu lancei uma meta pra mim mesma: menos redes sociais e mais leitura, então eu me lembro muito dela. Comecei a ler e vi o quanto a leitura me dá uma percepção completamente diferente do mundo. Você tem as suas opiniões e não é tendencioso, a, b ou c. Tem dado certo até agora. 

Quero fazer com meu filho também, pra que ele tenha mais o hábito e menos mundo virtual.

 

P/1 - Quando você ficava com ela, ela ia para a sua casa ou você ia para a dela?

 

R - Pra casa dela, na grande maioria das vezes.

 

P/1 - E como era essa casa? 

 

R - A casa dela era enorme. Ela tinha cachorros, sempre gostou de animais. 

Era um local onde todos os primos se juntavam; a gente se divertia, brincava, corria. A gente também almoçava junto.         

Às vezes, no final de semana a minha mãe ia pra igreja, então eu chegava na casa e tinha… Moravam todas as irmãs da minha avó lá, então eu lembro das dobradinhas que ela fazia nos domingos. Quando eu fiquei grávida, fiquei com muita vontade de comer as dobradinhas [dela]. 

Era um local [em] que os pombos iam, aí meu pai queria fazer armadilha pra eles. Eu me lembro muito disso. 

Era um lugar muito acolhedor, uma família muito unida. Todo mundo segurava na mão de todo mundo, como é até hoje. A família da minha mãe é uma referência pra mim. Eu tenho tias que são como mães pra mim, que me ajudaram durante todo o meu processo… Eu me sinto muito feliz por ter crescido num lar assim. 

 

P/1 - Tem alguma tia por essa parte que você - é complicada essa pergunta - que você gosta mais, te marcou mais? 

 

R -  Eu tenho duas tias que sim, me marcaram muito e são muito importantes pra mim. [Elas] me ajudaram na infância - na minha adolescência, então, nem se fala, me deram material, tanto escolar…. 

Gente…. (pausa para limpar as lágrimas) Eu vou conseguir.

[Elas me ajudaram] tanto com provisão, de apoio, tanto de material… Elas investiram muito na minha educação, o que me fez dar valor ainda mais.

Sempre me amaram muito, até hoje tenho um relacionamento muito bom com elas. Amam meu filho, a minha família. E elas fazem parte de um alicerce muito importante na minha vida. Investiram nos meus estudos, quando eu estava na faculdade me lembro que elas me deram um computador pra eu estudar, pra fazer a monografia, porque eu não tinha. Elas me ajudaram no meu primeiro emprego.

Eu sempre quis corresponder à devolutiva delas, não como uma moeda de troca, mas [pra] entender que estava valendo a pena.

Eu tive COVID, as duas se juntaram e providenciaram a minha alimentação e da minha família, remédio. Elas dizem que eu sou a sobrinha favorita delas. (risos) Não vou causar confusão porque é muita prima, mas eu sei que elas me amam. 

Quando os filhos delas nasceram, eu era adolescente… Hoje eu entendo, não deixo meu filho com qualquer pessoa. Elas pediam pra eu ficar com os meninos. 

Sempre foi uma relação muito boa. Sempre brigavam comigo quando eu estava errada, me orientaram em certos caminhos. Eu me sinto muito feliz e abençoada por conta disso.

 

P/1 - E qual o nome delas?

 

R - Concita e Zulima. 

[...]

 

P/1 - Você sabe a origem da sua avó e do seu avô? Sua avó é negra. O que eles faziam na região deles?

 

R - Eu não sei, não consigo te dizer. Sei que eles moravam em uma região vulnerável de São Luís, mais ainda do que a [região em] que eu estava, e que as filhas dela - quatro mulheres - batalharam muito pra que ela tivesse uma vida completamente diferente da que ela teve. Eu não me lembro de nuances. Alguém pode ter me falado, mas não me lembro.  

 

P/1 -  Que idade você tinha quando conheceu essa escola?

 

R - Eu tinha dezesseis anos. Foi muito importante. Tinha várias pessoas dessa idade - de São Luís, de várias igrejas que estavam juntas nessas viagens. Elas aconteciam anualmente.

Fiz aqui, fiz também em Belém. Fui à Ilha do Medo, que é uma ilha isolada aqui em São Luís; tive uma experiência bem horrível, o barco virou… (risos) Foi uma coisa bem louca, mas valeu tudo a pena. 

Essa escola me marcou muito porque eu defini, ficou muito claro pra mim qual era o meu propósito de vida. Eu não tinha dúvidas. Por conta da realidade em que eu estava, as pessoas cobravam: “Não, você tem que ir pra uma coisa que dê dinheiro”, só que isso nunca encheu meus olhos e a cabeça. Eu entendia que o meu propósito era aquele e que eu podia fazer da minha vida profissional algo em que eu realmente acreditasse. “Acredito nisso e quero viver disso.” 

 

P/1 - Só uma coisa: você, seu pai, sua mãe… Você cresceu no bairro da Liberdade, foi isso? 

 

R - Isso, mas na minha adolescência a gente mudou de bairro. A gente foi pra um bairro chamado São Francisco. 

 

P/1 - Na Liberdade, como era o bairro, sua rua?

 

R - Eu morava na Rua da Floresta, próxima a Rua da Vala - é desse jeito o nome. Eu tenho lembranças de tráfico de drogas; não sabia o que era, mas me lembro disso, andando na rua. Tenho lembrança de várias crianças na minha rua e como minha mãe tinha os receios dela dos nossos contatos na rua, ela deixava a gente muito dentro de casa. 

Eu me lembro de um dia que eu saí, as crianças da rua se juntaram, me esperaram na esquina e me bateram. Aconteceu. 

Eu me lembro das festas de carnaval que passavam na rua e das brigas de tiro depois - me lembro da minha mãe pedindo pra gente se esconder debaixo da cama. 

Também tenho muitas lembranças fortes de lá… O meu primeiro contato com comunidades vulneráveis foi lá. A minha mãe sempre participou de ações sociais. Eu nunca vou esquecer desse dia em que a gente foi participar de uma ação social da Liberdade e fui pra um local onde [as casas] eram de palafita. Eu nunca tinha olhado palafita na vida, acho que tinha oito anos de idade. 

Foi muito bom, lembro que eu saí muito feliz nesse dia porque a gente entregou cesta básica, abraçamos as pessoas. Era uma coisa bem simples, mas pra mim foi muito importante. 

Nesse dia eu não consegui dormir, porque eu entrei na casa das pessoas e fiquei incomodada. “Mas por que eu estou dormindo aqui e os meus amigos que ficaram lá estão dormindo com colchão no chão?” Esse dia trouxe uma inquietude no meu coração. “Por que eu tenho isso, tenho comida… Será que eles estão comendo agora? “ Eu lembro que eu passei vários dias pensando nisso. 

Eu tenho uma foto desse dia, pra mim é uma lembrança muito forte. Não que eu vivesse numa situação boa diante da realidade, mas percebi que tinha pessoas que… “Como seria a escola deles, será que era de taipa? E aquele cheiro ruim, será que eles vão passar o dia inteiro com aquele cheiro?” Acho que tudo começou aí, pra mim ficou bem marcado. E estar lá ajudando foi muito bom. 

Do bairro tenho lembranças de vários amigos, mais relacionados ao círculo da igreja. Eles iam muito à minha casa, minha mãe sempre foi muito acolhedora. Tenho lembranças muito boas da gente em casa brincando, cantando, conversando.                                      

 

(PAUSA) 

 

P/1 -  Ainda sobre esse período na Liberdade, você disse que passava muito tempo com seu irmão em casa. Como era a relação com seu irmão nessa época? Como vocês lidavam com o dia a dia?

 

R -  Sempre fomos muito parceiros, muito amigos. Tinha, lógico, as brigas. Quem ia assistir Cavaleiros do Zodíaco ou ________. (risos) Mas a gente sempre teve uma relação muito boa. 

Amo meu irmão, ele foi um incentivador. Ele acreditou na minha vida, nas coisas que eu queria fazer, nos meus sonhos. Eu tenho muito orgulho dele, ele sempre teve uma inteligência acima da média e sempre correu muito atrás... Assim como eu, ele sempre estudou muito, batalhou muito. 

A gente teve uma situação… Na verdade, a gente passou por situações bem extremas. Eu estava no Rio a trabalho e ele não mora em São Luís, mora no interior do Maranhão. Eu estava lá na Eneva; no hotel, ele me ligou às onze horas dizendo que estava mal e precisava ir para o hospital em Teresina, mas não tinha ambulância.

Eu movi mundos e fundos e consegui um carro na madrugada pra levá-lo pro hospital. Ele chegou ao hospital, operou na hora. Eu fui do Rio direto pra Teresina, não fui pra casa, pra ficar com ele e ajudá-lo.

A gente tem uma relação de apoio, de cumplicidade. Eu confio muito nele. Ele me deu muito apoio quando eu decidi casar. Ele se dá muito bem com meu filho, meu filho o ama. Acho que a dor que eu sinto é de ele morar… Passar períodos longe de casa, mas sei que eu posso contar com ele.

 

P/1 - Quando vocês eram crianças, o que vocês faziam em casa? Assistiam TV, ouviam rádio?

 

R - Assistia muita TV, gostava de brincar no quintal com o que tinha, de amarelinha. [A gente] não tinha muitos amigos pra brincar, por conta da realidade que a gente tinha. A gente gostava muito de brincar de pega, de esconde-esconde. 

Ele gostava muito de ler, sempre gostou. Nossa mãe colocava muito a gente pra ler. A gente lia muito a Bíblia quando era criança. Eu me lembro da gente aprendendo a fazer o nome. 

Eu me lembro da gente na escola. Eu o defendia muito na escola, se alguém quisesse fazer alguma coisa com ele; me lembro dele na igreja, comigo. A gente sempre teve uma relação muito boa. 

 

Ele era o queridinho da vovó. Era o único homem de primos, então sempre foi querido por todo mundo. Tinha aquelas cenas de ciúme horríveis, mas tudo bem. 

Era líder de turma… O que eu me lembro dele é do fato de ele ser muito inteligente, de estudar muito. 

Como eu passei muito da infância [vendo] televisão, eu me lembro de muitas coisas da televisão. Eu me lembro do Castelo Rá-tim-bum, que era uma coisa rara que a gente gostava de assistir junto. (risos) Eu me lembro de alguns desenhos - Carmen Sandiego… Enfim, a gente não tinha uma infância muito externa. 

 

P/1 - Vocês ouviam rádio também? 

 

R - Tudo que a gente ouvia de música… Minha mãe sempre foi muito musical. Era tudo de música cristã. Eu me lembro disso, das estações. Ela sempre gostava de ouvir música de manhã cedo. A música sempre foi uma coisa muito presente na nossa vida, tanto é que meu irmão toca violão hoje. Eu me lembro disso, coisas boas.

 

P/1 - Sua mãe cantava?

 

R - Não. Acho que ela sempre teve vontade porque ela tem uma voz muito boa, mas ela nunca cantou, em nenhuma situação.                              

 

P/1 - E os pais do seu pai, você tinha relação com eles? 

 

R - Tinha uma relação distante. Não sei te dizer se foi por conta da situação que aconteceu. Já teve situações em que eu fiquei na casa deles. A minha relação distante - é estranho, né?  - não minimiza o amor que eu sinto por eles. Gosto bastante deles, sinto que eles me amam, me encontram com um amor muito grande.

Eu me lembro da minha infância na minha avó - o nome dela é Maria, ela era costureira. Eu me lembro dos vestidos lindos que ela costurava. E sempre [estava] muito preocupada com meu pai. 

Quando eu fiquei adolescente, eu me aproximei mais dela. Comecei a entender um pouco da história de vida dela, ela teve uma vida muito sofrida. Casou-se muito nova com meu avô, que durante um tempo a traiu muito, fez muito mal a ela. Mas, por incrível que pareça, ele teve uma história semelhante a do meu pai. Ele se arrependeu, voltou pra família dele.    

A igreja em que eu ficava, ela morava lá perto, então eu passava o dia lá com ela. A gente começou a compartilhar algumas coisas. 

Acho que uma coisa que ficou muito marcada foi quando ela começou a ter sinais de Alzheimer. Eu fiquei arrasada quando ela não se lembrava mais de mim. (pega o lenço para enxugar as lágrimas)

 

(PAUSA)  

 

R - Eu fiquei triste….

P/1 - Faz tempo isso?

 

R - Não. 

Gente, ninguém me preparou psicologicamente pra isso, tinha que ter ido pra terapia antes. 

 

P/1 - Toma seu tempo, tá?

 

R - Eu lembrei disso porque como eu não fui próxima dela, mas a gente estava se aproximando, eu fiquei com uma dor no coração. Perdi tempo, hoje ela não se lembra muito… Eu não sei lidar com a questão do Alzheimer dela, pra mim é muito dolorido; pra evitar essa dor eu evito encontrá-la porque me dá uma agonia muito grande. Tenho procurado trabalhar mentalmente sobre isso, porque não quero que nada aconteça com ela e eu ficar… “Eu podia ter feito isso, aquilo”. 

Foi uma coisa que me marcou, no dia que eu a olhei [e vi] os sinais de demência. O fato de ela não ter nem me reconhecido e de eu sempre tê-la visto muito ativa… Orava muito pela gente, eu me lembro disso; me levava pra igreja aos domingos, quando a gente estava lá. 

 

P/1 - Você começou a frequentar a igreja com quantos anos? 

 

R - Com quatro anos de idade. Acho que minha mãe, no meio daquela situação, se converteu e sempre levou a gente. Não me lembro de nenhuma fase da minha vida que não tenha sido vinculada a isso. 

Foi bom. Como a gente tinha uma vida muito difícil, acho que eu tive os danos minimizados por conta disso. Ter uma fé, ter Deus no meio dessa situação me ajudou muito. Eu não tive atos de revolta, nem nada. Acho que poderia ter tido um destino completamente, [isso] me ajudou.

 

P/1 - Que igreja você frequenta? 

 

R - Hoje eu frequento a igreja Renovo - não é a igreja dos meus pais -  por conta de várias questões, opiniões. 

Minha mãe me ensinou muito a ler a Bíblia. [Ela dizia:] “Escute tudo e retenha o que é bom.” Isso me deu um crivo muito bom, porque…

[...]

 

Eu inclusive entendo que Deus me fez passar por tudo isso pra eu estar hoje onde estou. O trabalho com projeto social… A minha alegria não é ver se essas pessoas ganharam dinheiro ou não. A minha alegria é ver que as pessoas tiveram uma melhoria na qualidade de vida delas. Isso pra mim faz diferença e tem a ver com o que eu aprendi enquanto cristã. É difícil, mas… Meu irmão sempre me ajudou muito com isso, a ter uma avaliação crítica das coisas. 

No lugar que eu estou, eu não me vejo no enclausuramento. Eu sou livre pra propor ideias. E dentro dessa escola que eu falei, das viagens que eu fiz, comecei a ver que o meu posicionamento poderia sim trazer uma mudança pros outros. 

 

(PAUSA)

 

R - Pra quem eu puder, eu falo a respeito dessa avaliação [crítica]. O Marco Feliciano não me representa; o Silas Malafaia, piorou… Não concordo com nada. E fico triste com esse estigma, porque não é uma coisa boa. 

[...]

 

P/1 - Eu queria perguntar agora sobre a sua escola. Você começou com seu irmão, estudavam juntos? Em que escola você começou?

 

R - Eu me lembro que a minha primeira escola foi comunitária, de um convento. Eu adorava a escola, tenho lembranças muito boas… Não tão boas, um dia eu cheguei chorando na escola porque meu pai tinha batido na minha mãe, então foi uma… É uma cena ruim. Mas das coisas boas eu me lembro que gostava muito de ficar correndo, gostava muito dos meus amigos, da aula. O nome da minha professora era Ana Maria.

Foi uma escola muito importante pra mim. Aprendi algumas coisas sobre valores, respeito.

Eu fiz uma coisa horrível uma vez. Eu me escondi dentro do convento pra comer um bolo que as freiras tinham feito. Elas não queriam dar pra ninguém, então eu invadi a cozinha delas depois do horário da escola, botei o bolo debaixo da mesa e comi. 

Meu pai ficou me procurando, todo mundo ficou me procurando na escola e ninguém me achou. Acho que já estavam a ponto de chamar a polícia, aí eu apareci com a boca cheia de bolo. (risos) Falei pro meu pai que eu tinha ido comer o bolo e ele ficou muito chateado comigo. 

Eu tenho lembranças muito boas da escola, do que eu aprendi. Português, Matemática, de como eu gostava de ler, de ouvir histórias. 

Tinha também o reforço, que era na Liberdade, com outros amigos. Era muito legal.             

Lembro de um professor que era mágico e se eu acertasse a tabuada toda ele faria uma mágica pra mim. 

A educação sempre foi uma coisa muito forte, muito presente. Minha mãe investiu muito, fez de tudo pra dar o melhor de educação pra gente.                     

 

P/1 - Então você gostava de ir pra escola.

 

R - Adorava. Sempre gostei muito. 

Mudei de escola depois que eu saí da Liberdade. 

 

P/1 - Você estudou nesse convento até que idade?

 

R - Até os sete anos. Fui pra uma escola um pouco melhor. Teve um ano que eu fui a melhor da turma, eu me lembro disso. (risos) Nessa escola eu entendi que eu podia fazer coisas completamente diferentes da realidade em que eu estava. Eu tive contato com pessoas financeiramente diferentes de mim, mas eu descobri que poderia mudar a minha história bem ali. Foi bom, foi importante. 

Depois disso fui pra uma escola perto da minha casa. Sofri muito bullying por causa do meu olho - não é de chinês, é de índio, né? O pessoal fala porque é um pouco pequeno. 

Nessa escola vivi uma situação terrível, meus pais não pagaram a escola. A diretora da escola me chamou… Fiquei com uma mágoa enorme dela, mas já perdoei. Ela me ameaçou porque meus pais não estavam pagando. Eu me lembro que fiquei com muito medo; falei pra minha mãe, ela ficou horrorizada. 

Depois eu tive que estudar pra entrar em uma escola pública novamente, pra fazer o ensino médio. Foi muito bom. Eu era uma peste na escola. (risos)

 

P/1 - Qual era essa escola?

 

R- Era o Liceu Maranhense. No primeiro ano, meu pai foi chamado. Eu, por brincadeira, joguei um livro… Bateu na cara do professor, não porque eu joguei,  mas foi aquela confusão.

No segundo ano… No ensino médio eu senti muita dificuldade [com matérias] do ensino fundamental. Eu não tive coisas que os outros tiveram, então entendi que tinha que retroceder em algumas coisas pra estudar. 

Como é importante, né? Eu comecei a entender que algumas coisas na educação do país… Não adianta, você tem que mudar desde a educação básica. 

Minha mãe me ajudou. Eu estava muito fissurada em entrar na universidade e tinha que ser pública, porque a gente realmente não tinha condição. Eu estudava muito, passava o dia na escola estudando. 

Nessa escola teve um projeto de pesquisa e extensão da universidade, com o curso de Psicologia. Acho que foi o meu primeiro contato com terapia, o que foi muito bom, por conta da situação que eu vivia, das coisas que eu passei na infância. Eu me lembro disso como se fosse um conforto muito bom durante a minha história; nunca tinha aberto nada pra ninguém, foi uma experiência bem bacana. 

O terceiro ano foi também complicado - o vestibular, você tem que estudar… Minha mãe acabou pagando um cursinho pra mim, o melhor da cidade. Conheci muitas pessoas de realidade completamente diferente, mas que me ajudaram também a estudar; viram a minha dificuldade com algumas coisas que eram básicas, porque eu não tive, mas até hoje eu tenho amigos marcantes na minha vida sobre isso. 

Quando terminei o ensino médio, no segundo ano eu passei no vestibular. Nossa, foi…(risos) Foi um dos melhores dias da minha vida. 

 

P/1 - Como foi esse dia? Conte pra mim.

 

R - Ah, foi maravilhoso. Eu estava em casa, meu pai e meu irmão estavam comigo. Minha mãe estava no serviço, trabalhava em uma gráfica [que ficava] quatro casas depois da nossa. 

Nessa época, o [resultado do] vestibular era falado pelo rádio. Essa era a minha ansiedade. Eles falavam a lista dos que tinham passado ou não…

 

(PAUSA)

 

R - Como eu não passei no primeiro e passei no segundo, a alegria foi dobrada. Meu irmão passou de primeiro e a gente passou junto. 

Foi um dia maravilhoso, parece que eu estava vivendo algo irreal, do mundo dos sonhos. Era uma coisa inacessível, naquela época não tinha políticas pra baixa renda nem pra cotas, não tinha nada disso. 

Tinha acontecido. Acho que foi a primeira vez que eu podia mudar a história da minha vida. 

A minha entrada pra universidade foi muito boa, fiquei muito feliz, mas não tenho amigos da universidade. São de um mundo completamente diferente do meu. Viam Serviço Social de uma forma diferente - não estou criticando que é menos nem pior, é uma visão diferente. Tenho pouquíssimas pessoas hoje que são minhas amigas, mas acho que a realidade que elas viviam e a que eu vivia nos afastou um pouco. Eu não vivi na universidade que muitos viviam - calourada, boteco, eu não tive. Eu estava tão focada na oportunidade que eu tive que não tive tempo pra isso. Não estou dizendo que é errado, estou dizendo que a minha situação me levou a isso. Não tive nem como pensar nisso. 

Entrei no mundo de Marx, uma loucura! (risos) Muita leitura, mas eu não podia ficar só estudando, tive que trabalhar. Minha mãe brigou muito comigo, mas eu precisava de coisas básicas pra universidade. Precisava de dinheiro pra comprar material, pra fazer várias coisas. 

Tive meu primeiro emprego, trabalhei como demonstradora de nebulizadores. Demonstradoras são aquelas que ficam no supermercado, dando as coisas. Foi uma loucura, eu trabalhava até onze horas da noite em algumas farmácias que ficavam abertas e no dia seguinte tinha que estar em pé. 

Essa loucura me preparou muito pra ser a Beth que eu sou. Não me arrependo, foi a oportunidade que eu tive. Tenho zero vergonha de ter feito isso. Passei muito tempo… Eu me lembro que foi minha tia Zulima que me deu a oportunidade e as coisas aconteceram de forma… Mesmo estudando, eu vendia horrores; fui uma das principais vendedoras do país. 

Foi muito bom, mas teve uma hora que eu tive de escolher: terminar a universidade ou trabalhar. Foi difícil por conta da situação financeira, mas eu decidi trabalhar em alguns lugares de forma voluntária, porque eu precisava adquirir conhecimento, e os estágios da universidade não eram remunerados. 

 

(PAUSA)

 

R - Comecei a estagiar, me voluntariar. Meu primeiro estágio foi no CRAS [Centro de Referência de Assistência Social], trabalhei no meio da implementação do Bolsa Família. Aí eu descobri que eu estava no lugar certo. 

Voltei pra Liberdade como estagiária de assistente social e chegava em casa morta de feliz. Eu tinha me acabado de andar, fazendo atendimento domiciliar. Nesse dia eu tive certeza: “Escolhi o que estava querendo. É meu propósito de vida.” 

 

P/1 - No primeiro dia que você voltou pra Liberdade. 

 

R - Isso, foi uma sensação maravilhosa. Eu voltei com conhecimento e com a perspectiva de que poderia ajudá-los. 

Eu fiz de tudo. Comecei a fazer reuniões com associações comunitárias, avaliação de violência doméstica, abuso. Eu mergulhei muito, tive [contato com] pessoas muito boas e suguei delas; ficava atrás, querendo aprender. 

Depois desse eu tive um estágio da universidade também, no Hospital da Mulher. Foi uma política pública do Maranhão, destinada à mulher, e foi uma experiência muito boa. 

Eu vi que a saúde é uma coisa essencial. Tive várias situações com pacientes mulheres que nunca tinham tido acesso à saúde e quando tiveram estavam em estágio terminal de câncer, então aquilo me deu um choque muito grande. Não pelo fato do câncer, mas por entender que aquela mulher foi privada a vida inteira de uma orientação, um recurso muito simples e que aquilo poderia ter poupado a morte dela. Aquilo me deu um impacto muito grande. 

Na minha experiência no Hospital da Mulher eu também tive profissionais muito boas, que me ajudaram. Eu nunca fiquei num estágio só no limite, sempre quis aprender mais, ajudar mais. Elas foram me dando mais autonomia, isso foi muito bom pra mim. 

 

P/1 - Você passou então em Serviço Social. E seu irmão?

 

R - Em Direito. 

 

P/1 - Na mesma faculdade. 

 

R - Isso, na Universidade Federal do Maranhão.

 

P/1 - Nessa época que vocês passaram na UFMA, vocês moravam em que bairro?

 

R - No São Francisco. A gente ficou muito tempo morando lá, porque a casa em que a gente morava era tipo um auxílio-moradia que minha mãe recebia.

 

P/1 - E a sua mãe trabalhava ainda na gráfica nessa época? 

 

R - Minha mãe trabalhou mais de vinte anos na gráfica. Ela saiu vai fazer seis anos. 

 

P/1 - Ela se aposentou?

 

R - Não, agora ela trabalha em outro local, junto com a minha tia Zulima. 

 

P/1 - Pra quem não conhece São Luís, como era ir de São Francisco pra UFMA, depois ir pro trabalho? Como era esse deslocamento?

 

R - Uma loucura. Eu sempre andei de ônibus, fui assaltada duas vezes de ônibus. Horrível, mas era o que tinha. Tinha o azulzinho, que a gente chamava, da universidade; era lotado de gente, o único recurso que tinha. 

Da minha casa pra universidade era uns quarenta minutos. Às vezes eu passava o dia fora de casa, saía do estágio e ia pra faculdade. Almoçava no RU, o restaurante universitário, que eram dois reais o almoço. Pra mim, economicamente era melhor.                                                       

Foi muito trabalho, muito estudo, muito cansaço, mas foi bom. Acho que eu tive que passar por isso pra destinação de valores, de algumas coisas importantes. 

Meu pai não trabalhava ainda e meu irmão estava também estudando e estagiando. Uma situação boa, de começar a ajudar a minha família, minha mãe. Foi como se eu estivesse honrando o que ela tinha feito durante anos.

O fato de a gente ter entrado na universidade foi uma alegria muito grande pra ela, ela sempre conversou muito isso com a gente. Nós somos os primeiros da família inteira que entramos na universidade, então pra mim foi um marco muito grande. Depois disso, várias outras entraram, tiveram formação, mas fiquei feliz de termos rompido essa barreira do campo das impossibilidades. Foi muito bom.

 

P/1 - Você se encontrava às vezes com seu irmão na universidade?

 

R - Sim, mas era difícil porque às vezes os horários não batiam. A gente se encontrava mais em casa mesmo. Quando eu tinha que estudar, conversava - a gente sempre conversou sobre os textos que eu tinha que ler na universidade. Era bem tranquilo, gostoso. A época da universidade foi de muito trabalho, muito estudo, mas deu uma aliviada em toda a tensão. E [deu] uma perspectiva boa, de que as coisas estavam no caminho certo. 

 

P/1 - Você leu coisas que te marcaram? Teve professores que te marcaram lá?

R - Eu tive professores que me marcaram. A professora Marina, um ícone do Serviço Social, me marcou muito em relação à questão social e a viabilidade de direitos. A professora Ednalva também tinha uma avaliação muito crítica a respeito do ser profissional. Você pode sim, se formar, seguir toda uma regra, todos os trâmites, ou pode se formar e ter uma perspectiva completamente diferente da sua vida e da vida das pessoas. 

Acho que é o que eu decidi fazer - digo que foi uma decisão. Você decide ter uma perspectiva diferente a respeito do fazer. Eu me sinto privilegiada de trabalhar, de estar com pessoas as quais eu tenho oportunidade de ajudar com informação e com acesso. 

Eu me sinto muito feliz em fazer isso. Peço muito a Deus pra não passar na vida de ninguém… “Ah, ela só passou aqui em casa.” Não, eu quero realmente que as pessoas tenham adquirido alguma coisa de mim - não por mim [e sim] porque vai me fazer valer a pena, valer a pena tudo o que eu passei, tudo o que eu corri.

Eu vou me acabar de chorar no depoimento da [Vila] Canaã, porque dá aquela sensação de que “poxa, deu certo. Era o que eu queria.” 

O próprio fato de eu ter escolhido Serviço Social não me traz nenhum ganho, nenhuma gana pelo dinheiro. Não é isso, é uma coisa muito maior.

Tive o meu primeiro emprego como assistente social numa clínica de saúde mental. Foi muito bom, um universo completamente diferente; foi meu primeiro trabalho com multiprofissionais e tive como proporcionar um acesso de direito e apoio a eles, à família com dependentes. Eu vi que eu poderia, de alguma forma, tentar diminuir algumas angústias relacionadas a isso com o fazer profissional, falando: “Olha, eu vivi isso, sei como é, mas você pode mudar a perspectiva disso.”

Era uma clínica em que tudo girava em torno do serviço público, então eu fiquei muito feliz de iniciar minha carreira tendo essa oportunidade, mas passei pouco tempo nesse emprego. 

Nesse emprego eu conheci o meu marido; acho inclusive que eu fui pra lá só pra conhecê-lo. Eu o conheci e um mês depois eu fui pra Eneva. 

Foi assim… Eu nunca, eu não tinha… Foi meu primeiro namorado! Eu não tive namorados; a minha vida era tão louca, eu tinha outras prioridades. 

[...]

 

Deu certo, eu tenho certeza que ele é o amor da minha vida. Pelo fato de ser enfermeiro, tratar das pessoas, a gente tem uma visão igual a respeito de várias coisas. Eu sei que se tivesse uma pessoa do meu lado que fosse indiferente a isso eu teria uma vida muito complicada, mas ele é muito parceiro. 

Eu passei o meu segundo aniversário longe de casa e fico muito feliz de ter um parceiro. [Ele disse:] “Eu sei que você está triste por estar longe da gente, mas você está feliz porque está vivendo algo que sempre sonhou.” É muito difícil você ter essa compreensão, não ter a visão machista a respeito disso.                       

Enfim, eu o conheci; a Eneva chegou com o nome de MPX aqui no Maranhão e naquela época era o Eike - eu não sei se ele era o primeiro na lista dos mais ricos do país.


 

R - Essa empresa era do grupo X, a MPX. 

Fiz o processo seletivo. A primeira pergunta que me fizeram foi se eu sabia inglês. [Respondi:] “Eu não sei.” Só sabia o básico porque tinha um curso gratuito na universidade. Na hora me cortaram da seleção, mas por conta da minha experiência… Eu não tinha nenhuma experiência profissional com comunidades, com empresa contratada, mas eu tinha muito trabalho voluntário nas costas. Desde a minha adolescência tive muito trabalho e a minha experiência nessa Escola Timóteo chamou a atenção deles, por incrível que pareça.

Eu botei no meu currículo porque eram as únicas coisas que eu tinha. Conversei com todos os donos das instituições, perguntei se podia fazer isso e eles me autorizaram. Eu gosto de lembrar disso [porque] a pessoa que me entrevistou pediu pra eu falar [sobre] e eu falei - com todo o amor que eu estou falando aqui pra você - de como eu fazia atendimento domiciliar… 

Acabei a entrevista. Vi que a pessoa se emocionou muito e fui chamada. 

No meu primeiro dia de emprego, a pessoa que me escolheu disse: “Você foi escolhida porque eu sei que tem muito amor dentro de você pra fazer o que você faz, o que é difícil de encontrar.”           

No Maranhão, recém-formada, eu agarrei a oportunidade com unhas e dentes. Entrei numa empresa privada da qual eu não conhecia o universo. Estudei muito, eu não entendia o que as pessoas falavam. Quando eu chegava em casa eu ia atrás, porque eu não queria passar vergonha. O que era licenciamento, stakeholders, acessibilidade… 

Eu entrei lá como analista de relacionamento com comunidades, ou seja, eu não era só assistente social. Eu tinha várias outras funções. Recebi um presente muito bom, que foi o meu primeiro projeto - o projeto da Vila Canaã.

 

P/1 - Antes de entrar nisso, eu queria voltar um pouco pra perguntar sobre o seu marido. Como é o nome dele?

 

R -  O nome dele é Oséas. Ele também nasceu, por coincidência, numa família cristã. A gente tem coisas completamente compatíveis. 

Pra falar do Oséas, acho que uma característica muito forte dele - quem anda com a gente sabe - [é que] ele é muito parceiro. A prova disso é que eu trabalho muito viajando e toda vez que é possível eles estão comigo. É uma alegria muito grande, nunca pensei que teria a minha família junto comigo no meio disso. 

Ele é enfermeiro, trabalha no Hospital do Câncer do Maranhão. Ele é plantonista local, já deu aula em cursos técnicos de Enfermagem, mas hoje está única e exclusivamente no hospital.

[...]

 

R - Eu entrei na Eneva namorando com ele, então ele viu que o meu ritmo de vida mudou completamente. Eu tinha que ficar até tarde. Ele sempre foi muito parceiro, me estimulou  a continuar estudando, mesmo trabalhando. 

A gente sempre teve vários planos. A gente se casou de uma forma muito difícil, muito louca, sem dinheiro. Enfim, deu tudo certo. 

Depois de um ano de casados, a gente decidiu ter filho - o Benjamim, que é cara do pai. (risos) Foi uma gravidez muito difícil porque eu fiquei grávida na época do zika vírus. Eu fiquei com muito medo. É como se a gente estivesse com COVID, só que mexia com uma coisa muito maior, que era o seu filho. Você não sabia se o seu filho ia ter alguma coisa ou não relacionada àquilo. Chorava demais à noite.

Na época, o Oséas não trabalhava em São Luís. Trabalhava no interior e voltava durante a semana. Foi uma época difícil pra gente. 

Nessa época, eu quis conhecer outras mulheres grávidas. Tive a oportunidade de ver mulheres que não tiveram a chance que eu tive, tiveram filhos com microcefalia. Eu quis ajudar, não queria me sentir privilegiada; eu entendia que poderia ter acontecido comigo. 

A primeira coisa que aconteceu com elas foi que os companheiros [a] largaram, na maioria dos casos. Eu fiquei bem impressionada. Por um tempo eu tentei ajudar, dar cesta básica, pagar aluguel - queria fazer isso, porque era muito difícil. 

Na época que o Benjamim nasceu, meu marido largou [o emprego no interior], nos últimos dias antes dele nascer. Ele entendia que tinha que ficar com a gente. Isso foi uma coisa que me deixou muito feliz. 

Depois eu falo como é que foi a Eneva e a gravidez.

O Benjamim nasceu no dia doze de junho, Dia dos Namorados. A gente não tinha a menor ideia que ele iria nascer nesse dia, tanto é que eu recebi uma cesta de Dia dos Namorados. Na hora que a cesta chegou, eu estava saindo de casa, com contração. 

Meu marido queria que eu tivesse parto normal, mas eu sou muito frouxa. (risos) Foi um domingo. Cheguei, ligaram pro médico. O médico [disse]: “Ainda bem que você me ligou cedo, senão eu ia pra cachaça e não ia poder fazer o parto do menino.” 

Foi muito bom, um dos melhores dias da minha vida. Ver meu filho bem foi uma sensação muito louca. Ser pai e ser mãe é uma sensação muito louca - ter meu filho, minha família comigo. 

Eu adoro ser mãe. Assim como em outras coisas na minha vida, eu decidi não viver o estigma da mãe que trabalha fora e se sente culpada. Sou muito feliz fazendo o que eu faço e sendo mãe, então por que eu não poderia juntar as duas coisas? 

A gente adaptou o Benjamin à nossa rotina. Ele sempre viajou… Lógico que eu passei a minha licença maternidade toda focada nele. Depois que eu voltei pro trabalho eu quis ter aquela postura, mas não. O Benjamim quer uma mãe feliz e no meu caso não é uma mãe dentro de casa, cuidando única e exclusivamente dele. Não é o que eu quero, não é a minha realidade. 

Eu comecei a trabalhar isso em mim. A minha vida profissional mudou depois que eu virei mãe; ele deu uma importância e uma força que eu nem sabia que tinha. 

Ele participa de tudo. Ele conhece a Canaã. No feriado, Dia das Crianças, eu o levei pra onde? Pro polo. “Quer correr sem COVID, sem nada? Vamos pro polo.” Eles conhecem meu filho. 

Ele foi adaptado pra vida que a gente tem. Não concordo que eu tenha que fazer mudanças por conta da criança, até porque ele não precisa de nenhum cuidado especial. Se conversar com ele, ele vai falar de avião, de hotel, de escolas, de horta, porque eu tento incluí-lo. Como ele não teve a realidade que eu tive, eu não quero que ele tenha uma percepção errada do mundo. Eu quero muito que ele tenha valores, então faço questão de tê-lo perto de mim em algumas situações que são importantes, que ficaram de lembrança da minha infância. Quero que fiquem como lembranças e como valores pra ele.

 

P/1 - Quantos anos ele tem?

 

R - Ele tem quatro anos.

Outro dia a gente estava no supermercado e pela primeira vez ele se tocou que tinha uma pessoa dormindo na rua. “Mamãe, ele tá dormindo na rua! Ele não tem cama!” Eu falei assim: “Tá vendo, filho? A gente tem que ajudar.” À noite eu conversei com ele: “Tá vendo como a gente tá na cama, quentinho? A gente pode ajudar. A gente pode orar, pode estudar pra que ele tenha uma cama quentinha um dia.”     

Uma coisa também que ficou muito marcada: eu fui a primeira pessoa da minha equipe que teve que viajar pós-COVID. Sinceramente, eu fui por conta daquelas pessoas porque eu vi que o sofrimento no interior da Amazônia estava dilacerante. As pessoas não sabiam lidar, muita gente desempregada… 

Foi um sofrimento e eu sofro com o sofrimento das pessoas, não sei ser indiferente. É antiprofissional? Não sei. Eu sei que não consigo ser indiferente a isso. 

Foi uma decisão difícil. Oséas me apoiou e quando fui conversar com Benjamim, eu falei: “Benjamim, a mamãe precisa ir porque precisa ajudar as pessoas.” [Isso] o marcou muito. “A mamãe precisa ajudar as pessoas.” Eu expliquei como: a gente leva comida, leva máscara pra quem não tem. 

Ele entende hoje, eu tento passar pra ele o que é o trabalho. Não quero que ele entenda que o trabalho tira a mãe dele, que o trabalho é uma coisa ruim. Não é. 

Eu tenho um suporte muito grande do meu marido. Não tenho da minha família um [grande] apoio. Eu tenho uma pessoa que nos ajuda com isso e a gente gasta financeiramente pra estar junto, pra gente é importante estar junto em vários lugares.    

 

(PAUSA)

 

R - Esse trabalho de vocês é lindo, viu? Até eu tinha esquecido de coisas da minha vida.      

   

 

P/1 - Vamos entrar nisso, então.  Você entrou na MPX na época e estava trabalhando como analista. Foi em…? 

 

R - Isso. Foi em 2011. Comecei como analista júnior na MPX, única e exclusivamente com o polo e a Vila Canaã. 

 

P/1 - Foi a primeira missão.

 

R - Eu queria contar como dentro da MPX a minha vida mudou, de forma bem rápida. Depois eu quero focar só no polo. 

 

P/1 - Claro. 

 

R - Eu comecei no projeto e vinha pra cá direto. Passava o dia com eles. 

As coisas foram acontecendo de forma rápida dentro da empresa. As pessoas viram que eu poderia pegar outros projetos e foi o que aconteceu. 

Na verdade, eu entrei na Eneva como representante de uma empresa terceira, aí eles me admitiram muito rápido na MPX. A pessoa que era minha chefe me indicou pra vários outros projetos, confiava muito em mim. Viu que eu tinha muito potencial, mas não tinha experiência. 

Eu, como uma maranhense, com um quadro de emprego muito difícil aqui, agarrei a oportunidade com unhas e dentes. Fui muito atrás.

O tempo foi passando, a empresa foi mudando. Teve o tempo da recuperação judicial, que foi muito difícil. 

Trabalhar na Eneva me remete muito a resiliência. Teve muita gente sendo demitida por conta da recuperação judicial, a saída do Eike, a venda da empresa. Tive dias muito difíceis; você ver seu colega sendo demitido por conta de corte… Mas eu estava sobrevivendo, de forma inexplicável. 

Às vezes, numa crise, a primeira coisa que tem corte são algumas coisas sociais. Mesmo assim, acho que a minha experiência de vida me [fez] conseguir trabalhar com poucos recursos, naquele momento difícil. Eu fiz de tudo pra peteca não cair por respeito às pessoas, principalmente, e também por que eu sei que isso era importante dentro da empresa. 

Se você me perguntar, passa um filme: muita gente saindo, muita gente entrando, chefe saindo, hierarquia entrando. Muita coisa acontecendo. E fui assumindo de forma natural outros projetos dentro da empresa. 

Como eu tenho muito o perfil de aprender, quero aprender, eu me tornei a Beth do mundo corporativo. Comecei a aprender várias coisas, tive muita maturidade com muitas coisas, em lidar com stakeholders, com outras empresas, com o institucional, com lideranças comunitárias, de uma forma muito rápida. Lógico que teve marcos importantes sobre isso, mas eu mudei, sou uma Beth completamente diferente [da] insegura e imatura que entrou.

Uma das coisas que me marcou muito dentro da Eneva foi como a empresa resistiu àquele quadro de possível falência, apostando numa coisa que foi de um “visionário”, o Eike, e como a empresa conseguiu reverter. A Eneva cresceu de forma muito grande dentro do Maranhão, com a questão do gás no interior.

As coisas foram mudando, foram crescendo. Uma coisa que me marcou muito foi a resiliência; não abandonar o projeto da Canaã foi uma coisa que me fez ter respeito pela empresa. Eles não largaram mão da Canaã. Eu disse: “Acho que eu estou no lugar certo”, porque era uma coisa que eu não iria abrir mão.

A Eneva sabe dos meus valores. Se você perguntar, todo mundo [vai dizer]: “A gente conhece a Beth. A Beth é disso, a Beth se estressa quando mexem com alguma coisa que ela entende que é mentira.” A segunda coisa é ter meu trabalho de nove anos reconhecido dentro da empresa. Pela história que eu tive, é uma coisa boa você ter o diretor da empresa [dizendo]: “Vamos calar todo mundo aqui, porque eu quero ouvir.” Meu cargo não é dos altos da companhia, mas você ter respeito é uma coisa que não se paga. Eles confiaram: “O que você falar a gente vai realizar, porque a gente entende que até agora está dando tudo certo.”

Outra coisa também: eu me sinto muito respeitada enquanto mãe. Desde a minha gravidez até hoje, eu nunca tive problemas relacionados ao Benjamim. No dia que eu quero ficar com meu filho, eu fico; no dia que eu quero levar o Benjamim pra fazer alguma coisa comigo, viajar, ele vai. Isso, pra gente que é mulher, não tem preço. 

Todo mundo deveria respeitar, mas não é uma realidade. As empresas não respeitam, as mulheres têm filhos e são demitidas. Isso também é um adicional. Eles respeitam a minha história, respeitam o fato de eu ser mãe.

A última coisa é a oportunidade que eu tive de mudar de vida. Eu hoje viajo o país inteiro… Não é o país inteiro, eu tenho acesso a outras comunidades que eu não teria de outra forma. 

Nos últimos anos, eu tive uma ascensão muito grande dentro da companhia; o trabalho foi dando certo. Tudo começou quando o projeto da Canaã ganhou um prêmio nacional; foi também um dos melhores dias da minha vida. Eu nunca pensei que isso fosse acontecer comigo e com o projeto - não porque é um prêmio, mas [porque] pela primeira vez eu vi [que] o projeto é bom. Você está tão dentro de um mundo que você não sabe o tamanho de algo que poderia mudar a vida das pessoas. 

Eu escutei dos avaliadores coisas maravilhosas. Eu chorava que nem uma criança. É um projeto que prova que o acesso à política pública muda a vida das pessoas. 

O dia da premiação foi um dos melhores dias da minha vida. O Oséas estava comigo, tinha gente da empresa comigo. 

Acho que [a partir] desse dia muitas coisas mudaram comigo dentro da Eneva. Eu nunca fui desvalorizada, mas muitas coisas melhoraram. Eu tive mais confiança, mais acessibilidade, e nos últimos anos me deram o desafio muito louco de começar a viajar pras outras unidades pra começar a trabalhar. Comecei indo pra São Gonçalo do Amarante, que é a unidade de Pecém, comecei a ir para o interior e finalizei indo pra Amazônia, pra Boa Vista. 

Se você me perguntar como foi isso, foi uma loucura, mas deu supercerto. Fui promovida enquanto coordenadora, ou seja, tenho a responsabilidade de todos os projetos sociais. E eu pedi uma coisa: “Se eu ficar dentro do escritório, vocês vão me matar. Eu quero ir pro campo porque me dá prazer e porque eu entendo [que] o meu trabalho é com a comunidade. Eu quero estar lá, eu não quero ter a minha equipe e estar [no telefone] falando “façam isso e isso”. Quando o bicho pegar, eu quero estar lá.”       

Eu sei que poderia ter uma vida muito mais cômoda, mas eu aceitei e estou adorando. Pra mim, pessoalmente, está sendo uma experiência incrível ter acesso a outras comunidades. Ver a experiência que eu tive aqui no Maranhão, que é o que a Eneva está apostando, ser realizada em outros lugares - principalmente relacionada à agricultura familiar. 

Tem sido maravilhoso ter essa perspectiva, essa avaliação e trabalhar com essa gestão de pessoas. Hoje meu telefone toca… Esses dias me ligou um venezuelano, porque em Roraima é uma questão muito grande… Você fica com uma diversidade muito grande. Esses dias eu acordei [e pensei]: “Onde é que eu estou mesmo?” (risos) Eu estava em Boa Vista. 

Se você me perguntar “você sempre quis isso?” eu vou responder: “Sim, eu sempre quis isso pra minha vida.” Eu não pensei que iria viver isso casada, pensei que não iria me casar e viveria isso solteira, mas com minha família é um adicional. Eu estou vivendo um sonho.

Sobre o futuro, eu desejo realmente ganhar o mundo. Não falo com ambição. Eu falo aqui: eu quero ganhar muito, eu quero ter outros projetos. Quero conhecer o Camboja, quero passar as minhas férias no Haiti, participar com ONGs de ações comunitárias. 

Hoje eu quero que as oportunidades que eu tenho não mudem a Beth, eu luto muito por isso porque estou em um mundo completamente diferente do qual eu vi, mas quero que as oportunidades que tenho agora me levem a fortalecer o que de essencial eu tenho em mim, que é servir os outros. Quero passar a minha vida fazendo isso. Quero ir pro Camboja, pro Haiti, pra Colômbia; quando o Benjamim crescer quero que ele esteja com a gente pra viver isso. É meu sonho de vida. 

“Beth, você não quer ir pra Europa?” Eu quero, já pensei nisso, mas não é uma prioridade. Se eu tiver oportunidade de fazer uma viagem [pra] fora, seria pra fazer isso. É algo quem me dá prazer, [que] eu amo fazer. Se fosse outra coisa, não seria a Beth. 

Vamos falar da Canaã? 

 

P/1 -  Vamos. Depois a gente volta pra sua história pessoal. Queria te perguntar como foi o dia que chegaram em você e disseram: “Tem esse projeto aqui na Vila Nova Canaã, a gente vai fazer uma mudança.” Como foi isso?

 

R - Quando eu fui participar da entrevista, era uma profissional pra cuidar só do projeto, pra fazer o acompanhamento psicossocial, o monitoramento. Só que eu vi que o projeto tinha vários outros potenciais. 

O meu primeiro dia na Canaã… Menino, eu cheguei muito assustada. As pessoas estavam revoltadas com a empresa, muita reclamação, inconformismo, muitas promessas que não eram cumpridas. Eu estava no meio do furacão. Fiquei assustadíssima na primeira reunião. 

 

P/1 - Você chegou aqui ou era na Vila Madureira?

 

R - Eu não participei do processo de implantação, da mudança deles. Eu cheguei meses depois. 

Eles estavam começando o polo. A empresa estava demorando pra fazer algumas coisas e eles estavam muito revoltados. Uma empresa de assistência técnica agrícola estava começando lá e comecei a ter contato com eles.

Seu Zacarias… Meu Deus do céu, eu estava morrendo de medo das pessoas, porque eles estavam muito agressivos. Mas o tempo foi passando, eu comecei a trabalhar aos fins de semana, porque eu quis, e comecei a entrar na vida deles. Comecei a perceber que debaixo daquela revolta toda tinha pessoas com uma perspectiva, uma esperança na mudança que eles tiveram. E eu comecei a apostar nisso. 

Eu me envolvi muito com a agricultura familiar. Hoje eu quero um sítio, porque fiquei apaixonada pela agricultura familiar. Comecei a colher com eles, eles me ensinavam; aprendi a colher, a irrigar. Almoçava com eles, passava o dia com eles e isso trouxe uma proximidade muito grande. 

Aí eu comecei a conhecer o projeto; apresentei pra Eneva uma proposta de trabalho. O fato de eu ser assistente social ajudou bastante, porque comecei a estudar sobre o leque de acesso a políticas públicas que eram importantes pra eles, que eles e eu mesma não conhecia há dois anos. E começou a dar certo.

Eu me lembro de uma vez que o seu Zacarias… Vocês vão conversar com ele, ele é maravilhoso. Ele é o maior plantador da história da Canaã. Uma vez ele me ligou, dizendo que faltou luz na Canaã. [Eu disse:] “Tem que ligar pra companhia de energia elétrica.” Eu percebi que a emancipação, o protagonismo era o gancho, e comecei a trabalhar isso neles. 

Fiquei tão feliz quando o seu Zacarias me disse que tinha ido ao prefeito porque não tinha asfalto, não tinha isso, não tinha aquilo… Aí eu vi: esse é o caminho. 

Eu comecei a entender que a Eneva tinha sim obrigações que tinham que ser feitas. Na empresa todo mundo me conhece; eu trabalho em uma empresa privada, mas sou muito crítica. No dia em que a Eneva falhou, nós erramos, falhamos, e agora vamos acertar. Resolvemos todos os passivos quanto a isso.

Paralelamente, comecei a acreditar na pesquisa e extensão dentro da comunidade e do polo. Conheci uma pessoa, o Altamiro -  acho que ele também vai participar das entrevistas - e a gente teve uma dobradinha muito boa. Ele começou a ampliar algumas coisas que ele sempre sonhou de agricultura familiar lá [no polo] e eu tinha um terreno de pessoas boas, que queriam aprender. 

Deu supercerto. Eles começaram a ter apoio dos estagiários, dos alunos do mestrado de Agroecologia, dos alunos de Administração e Contabilidade pra aprender a cuidar da contabilidade da associação. 

Os agricultores começaram a trabalhar individualmente e a se organizar coletivamente, o que me deixou extremamente feliz. Começaram a entender que o braço deles era mais forte se fossem todos juntos, tanto pra reivindicar alguma coisa na empresa quanto no [poder] público. 

Durante esses nove anos, eu vi a Canaã se reerguer. Eu vi um projeto social dando certo, de [propiciar] mudança de vida. Vi pessoas que largaram suas vendas aqui na Canaã e foram viver de agricultura; tenho uma professora que pediu licença sem vencimentos porque ela é apaixonada por agricultura e se sustenta daquilo. Várias coisas deram a entender pra eles que era o caminho certo. 

As pessoas me perguntam muito por que a Canaã deu certo. É um assentamento que a Eneva largou há três anos, a gente não faz [mais] manutenção e aporte financeiro grande, é tudo com eles. Por que deu certo? Porque não existe projeto social que seja eficaz sem investimento privado, política pública e fortalecimento de protagonismo social. Não existe, é enxugar gelo. 

Eu entendi que tudo que a Eneva desse não seria suficiente pra que eles fossem protagonistas e emancipadores da história deles [mesmos]. Eles começaram a acessar as políticas públicas desde as básicas, como saúde - no posto de saúde da Canaã, a gente começou a garantir que a equipe da saúde da família tinha que vir e eles tinham que ser atendidos. A própria doação da empresa articulava a execução da política pública na comunidade; segurança, o que diminuiu muito o índice de possível marginalidade ou uso de drogas, e educação. 

A gente teve o curso do EJA [Educação de Jovens e Adultos], uma eliminação de analfabetismo dos reassentados, dos que vieram realmente da Vila Madureira, e vi que isso mudou. Eles tinham orgulho de assinar o nome deles e começaram a pensar melhor: “Não, eu não tenho que aceitar isso. Eu posso mudar, posso reivindicar, posso ter uma escola melhor. Quero ter uma escola comunitária junto.” 

A educação mudou a vida deles, o acesso à agricultura. Hoje, todas as vendas deles são relacionadas às grandes políticas [públicas] de acesso: o Programa Nacional de Alimentação Escolar, Programa Nacional de Alimentos, editais do Banco do Brasil, do Bradesco, Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária]. Tudo isso eu digo que foi um investimento da Eneva lá atrás, que os fez ser agentes de direito. Eu fico orgulhosa, vou mandar pra você várias matérias falando isso deles, pra vocês entenderem que eles se veem como reassentados. 

Um desafio também foi desvincular a marca da Eneva do projeto deles, porque eu tive várias instituições que não queriam apoiá-los: “Não, vocês são bancados pela Eneva.” Então a gente tirou e começou a ter a marca do polo agrícola, que foi uma coisa que deu certo também. Eles entenderam o quanto é importante eles terem essa marca e que a marca eram eles. Eles começaram a ter isso e principalmente o recurso - durante esses oito anos, eles tiveram uma movimentação de caixa de aproximadamente 650 mil reais de política pública, eu não estou tirando o que a Eneva fez. 

Ver que eles não usarem esse dinheiro pra deteriorar o que eles tinham me deixa muito feliz, me diz que aquelas visitas domiciliares, aqueles dias que eu passei nas casas deles, ensinando, estando com eles, fez uma diferença grande. Eles assumiram uma postura de protagonistas. Antes eram os reclamadores, os chorões, e hoje não, são agentes de direito. Hoje são totalmente envolvidos com a política de Paço do Lumiar; relacionado à agricultura familiar, eles são reconhecidos no Estado do Maranhão como um dos grandes polos de cultura orgânica. 

Quero ressaltar uma coisa que foi muito difícil, mas que eu não me arrependo: foi levar pra Eneva a ideia de mudar a agricultura rudimentar pra agricultura orgânica. [É] bom pra vida deles, pra saúde deles, pros produtos deles e pra rentabilidade deles. [Isso] me deu muito trabalho, mas deu supercerto. É uma aposta; eles mudaram, viram que era bom pra saúde deles. 

No período de COVID eu fiquei morrendo de medo. A minha preocupação foi com eles, porque tem pessoas… A maioria [tem] acima de cinquenta anos. Eles [é] que me ajudaram quando eu fiquei doente. (risos) Eles me deram uma visão de vida boa.

Eu, enquanto assistente social… Não é uma ideologia, nem demagogia. O acesso à educação, saúde, a política pública muda sim a vida das pessoas. Quando eu falo de mudar a vida, eu falo de dignidade. São coisas básicas e que eu queria muito [que] por onde eu passasse as pessoas tivessem a oportunidade que eles tiveram.

Acho que eu sinto orgulho de trabalhar na Eneva por entender isso, que um projeto social não é você dar bens, promover auxílios, doações. Não é nada disso. É você fazer algo que possa gerar mudança e qualidade de vida pra essas pessoas. 

O projeto da Canaã faz parte da minha vida. Eles conheceram uma Beth completamente inexperiente no começo. Eles me viram casar, me viram grávida, conhecem a minha família. Eu faço questão que eles participem de todas as coisas importantes da minha vida, gosto de contar pra eles. Eu me sinto muito amada, muito respeitada. Eles jamais deixariam nada… Em relação ao meu caráter, alguma coisa que alguém falasse de mim. Eles fazem parte dos momentos importantes da minha vida, de tudo o que eu passei. Nos meus aniversários, eles querem estar comigo; eu trouxe um bolo pra comer junto com eles, faço questão. A gente quer estar próximo.

Eles confiam em mim. Eu digo que a arma do meu trabalho é a minha palavra e eu cumpro com ela. Eu toco pessoas, faço mundos e fundos, mas eu tenho que cumprir a minha palavra.

Uma época preocupante foi quando o seu Zacarias ficou com câncer. Nossa, eu tinha que ser uma fortaleza pra ele, fiquei com muito medo - não por conta do trabalho, mas porque ele é uma pessoa importante pra mim, na minha vida. Eu tive a oportunidade de visitá-lo no hospital e ele estava me dando mais força do que eu estava dando pra ele. Vê-lo bem e ele me dizer que o próprio modo como ele mudou de vida, pra uma coisa mais natural, o ajudou a vencer aquilo me deixa muito feliz.

Tive perdas. (chora) Tive agricultores que morreram por conta de ‘n’ situações, que doeram como se fossem… São meus amigos, são da minha família. Mas eu fico feliz de tê-los ouvido falar que foi importante eles terem me tido na vida deles, assim como eles foram importantes na minha vida. 

Hoje eu amo agricultura, gosto de comer salada. Aprendi tudo com eles, foram eles que me ensinaram. Eles me ensinaram sobre resiliência, sobre dignidade, sobre palavra, sobre fé. Eles são pra mim inacreditáveis, um exemplo de superação. A alegria deles entenderem que hoje eles têm acesso a isso me diz que a minha caminhada valeu muito a pena. 

A Canaã me proporcionou coisas maravilhosas profissionalmente, pessoalmente. Profissionalmente, eu sou a Beth conhecida na Eneva por conta do projeto da Canaã. As pessoas me vinculam muito, tanto é que eu estou em outros projetos, mas por escolha pessoal. Eu estou aqui, eu não os deixo. 

A gente está com uma perspectiva de implantação do cacau orgânico. Eles estão felizes, eu estou mais ainda. O papel hoje da empresa é: “Estou aqui lhe olhando e vou lhe empurrar pra você caminhar.” A gente quer apoiar a implantação do projeto porque a gente viu que eles têm potencial; a gente chamou profissionais de fora pra avaliar. 

Nosso papel não é mais o que era antes - um pouco assistencialista, era assim mesmo no começo; a gente hoje tem uma postura completamente emancipatória. O projeto da Canaã foi o que levou a Eneva ter essa característica em todos os outros projetos: de emancipação, mudança de vida, resultado. Hoje eu trabalho com outros projetos de agricultura no interior do Maranhão e são frutos desse projeto aqui, então o reflexo do que teve aqui está trazendo consequências positivas pra outras pessoas. 

Eu trabalho no Maranhão com agricultura familiar, com quebradeiras de coco e também com comunidades quilombolas. “Beth, a gente quer que eles se tornem o polo agrícola da área do Complexo de Parnaíba.” Isso me enche de um orgulho… “Pô, deu certo.” 

Fico feliz também quando recebo pessoas de fora e me falam: “Eu fui em outros projetos e você não tem noção de como é projeto com reassentamento.”  A gente não tem uma causa na justiça de reassentado contra a Eneva, não tem confusões, nada disso porque a gente resolveu que o trabalho só daria certo se a gente realmente escutasse a comunidade e entendesse o que pra eles era importante de mudança de vida - da perspectiva social, educacional, financeira. A gente teve essa virada de chave. 

Acho que eu sou privilegiada de ter vivido isso nesse projeto, tenho orgulho. Entendo que é um legado pessoal. Onde estou eu falo deles, de como a gente conseguiu fazer. 

Por conta desse projeto, eu fui chamada pra trabalhar em outros locais muito bons, com uma devolutiva financeira muito boa, mas o que me prende não é isso. Eu tenho paixão. Digo que no dia que eu perder a paixão, aí acabou tudo. E o compromisso com as pessoas - tem o compromisso da Eneva, mas tem o compromisso da Beth. Eu queria muito que eles tivessem na cabeça deles a minha pessoa como uma pessoa de fidelidade, de cumprimento de palavra, de acordos.

Estou feliz. Acho que esse projeto é importante, acho que a gente está fazendo num tempo muito atrasado (risos), mas acho que é o ideal, tenho como mostrar frutos e resultados agora. Vai ficar um legado pra gente.

Como eu falei, a Eneva está enlouquecida pra [ver] o resultado do documentário; a gente está com o primeiro relatório de sustentabilidade, [ele] vai ser lançado com o documentário, então vai ser uma dobradinha boa. A Eneva tem orgulho deles, eles estão em todas as redes sociais da empresa, em todos os documentos da empresa. Estão em tudo. Talvez não tenham a dimensão [disso], eu tento explicar ao máximo, mas eles são o orgulho da companhia. Um legado que eles deixaram aqui no Estado do Maranhão. 

A minha expectativa do projeto [de memória] é a melhor possível, de proporcionar a valorização… Eu te disse, eles estão felizes em ter a oportunidade de contar a história da vida deles e daquilo que eles trabalharam. Eu sei que eu trabalhei, mas o trabalho é 100% deles. Eles podiam ter uma postura diferente, “eu não quero a Beth”, mas eles decidiram acreditar nessa ação de política pública. 

É isso, eu espero a gente comemorar o resultado do documentário. Já disse pro Renato [produtor do projeto] perdoar, porque eu quero todo mundo do projeto aqui pra gente comemorar junto com eles. Espero que seja o primeiro de outras coisas, que a gente tenha outros projetos da Eneva muito bons, pra ter como documentário. O que eu acho maravilhoso é ter isso, uma fidelidade de produzir resultados, que fidelizem aquilo que a gente está falando. 

Acho que é só. Tem alguma coisa que eu esqueci? Não, é isso.

 

P/1 - Na verdade, eu tenho algumas perguntas. Pode ser?

 

R - À vontade.

 

(PAUSA)

 

P/1 -  Você falou do Altamiro. Parece que tem uma coisa de trazer o que há de mais moderno pra cá. É essa a ideia?

 

R - Sim. A gente pensava no polo com uma inovação de tecnologia social e de agricultura. Ele começou a apostar em várias coisas, sementes modificadas geneticamente, produção de inovação tecnológica, novos maquinários que eram importantes pra agricultura familiar. 

A gente tem no polo hoje culturas e atividades que são novas no campo do orgânico dentro do Nordeste. O modo de fazer agricultura orgânica é um modo diferente dos outros por meio da rotação de culturas, por meio da subsistência; no manejo orgânico nada se joga fora, então eles utilizam de tudo. Eles têm convênios com as prefeituras e outros órgãos; eles não sabem, mas o porto de Itaqui, que é o grande receptor de soja e milho… Eles pegam esses resíduos porque é bom pra agricultura familiar deles, então eles não gastam mais com adubo nem nada. 

É um manejo diferente, que no início deu um custo alto. Foi investimento da empresa, com irrigação automatizada, telados e outras coisas, mas valeu a pena. Eles têm outra visão de cultura, tanto é que eles ensinam outros agricultores.

 

P/1 - Eles ensinam outros da região. 

 

R - Ensinam outros da região. Os alunos vão pegar aula com eles. Isso é bem bacana.

Acho que a Universidade Estadual do Maranhão tem total parte interessada nisso, por meio do Altamiro. O que tinha de inovação ele conversou comigo e a gente apostou. Deu supercerto.   

 

P/1 - Em algum momento eles foram ensinados [a usar] essas técnicas…

 

R - Sim, por todos esses nove anos eles foram ensinados, tiveram oficinas práticas. Teóricas [foram] poucas, porque pra tirar o agricultor lá da área dele era um pouco complicado. Não é a realidade deles. Mas tiveram durante vários anos oficinas práticas. É coisa inovadora? Eles querem aprender. Eles têm esse perfil de apostar no novo, por isso no cacau orgânico, que não tem no Maranhão, eles querem apostar. Vai ser uma inserção de cultura nova dentro [da cultura] deles, mas eu levei a ideia pra eles e eles decidiram apostar. 

Também tem apoio da Embrapa, dos institutos do Senai e do Sebrae. Tem uma articulação de rede muito grande com esses parceiros, com as Secretarias Municipal e Estadual de Agricultura, então eles têm um know-how e stakeholders bem grandes. 

 

P/1 - Até que ponto essas parcerias foram viabilizadas pela Eneva e até que ponto eles saíram atrás [disso]?

 

R - Bem no meio do caminho, a Eneva começou a falar pra eles que eram importantes essas parcerias. A gente começou a articular, mas nunca em nome da Eneva. A gente trabalhava em nome da associação [do polo agrícola] e os orientava. O que eu sempre fiz: “Eu posso até escrever, mas você vai pegar na minha mão pra eu te ensinar.” Tinha um termo jurídico nosso pra ajudar, mas é assim que se faz. Onde é que vai? Eu ia com eles. No começo eu falava, hoje quem fala são eles. 

É uma forma que eu decidi trabalhar que eu não digo que fiz sozinha, porque eu não tenho domínio sobre algo que é deles, mas foi uma coisa conjunta, até que eu entendi que era hora de tirar a mão. 

Hoje, as parcerias, quem faz… A parceria com a prefeitura sobre a serragem foram eles; do porto, eles me procuraram porque sabem que a Eneva trabalhou lá, então eu faço a ponte pra que dê certo. 

 

P/1 - Então hoje é o contrário: eles vão atrás de você e dos outros. 

 

R - Sim, hoje a moeda virou. Eles têm essa postura de mostrar o trabalho.

Uma coisa bem legal que eu esqueci: duas vezes ao ano, acho, a gente tem uma feirinha deles dentro da usina. Eu queria fazer isso, porque foi de um local [de] onde eles saíram e que eles voltam hoje, com a vida completamente mudada, apresentando a produção deles. É bem bacana a interação deles com os colaboradores, que ficam mais orgulhosos ainda em saber que a Eneva tem um projeto como esse. Eles se sentem valorizados.

 

P/1 - Eles voltam pra [região da usina] de Itaqui, pra [onde ficava] a Vila Madureira? 

 

R - Isso. [Eles dizem:] “Bem aqui era a minha casa.”  (risos)

A gente tem essa troca, eu não sinto… Na verdade, o processo de reassentamento é a última coisa que uma empresa quer fazer porque é um processo complicado e dolorido. Você sente falta, mas não sente mais dor. “A minha vida está diferente. Eu sinto falta da lembrança que eu tinha” - você vai ouvir muito isso, do meu avô quando pescava, quando fazia, acontecia  - “mas eu gosto, a minha vida mudou.” 

Eu procuro respeitar muito essa lembrança deles. 

 

(PAUSA) 

 

P/1 - Como foi a sobrevivência de hábitos culturais deles? Como vocês pensaram essa parte? 

 

R - Adorei a pergunta. Uma das coisas importantes num processo de reassentamento é você ter o desafio de não quebrar a identidade da comunidade. Quando eu falo de comunidade, é lógico que eu falo muito da questão cultural. Foi uma coisa que eu sempre tive cuidado e sempre batalhei pra que não tivesse essa quebra, então em todas as etapas da Canaã a minha preocupação era a continuidade e perpetuação da cultura pras outras gerações. 

A primeira coisa: a agricultura. “O meu avô é agricultor. Eu não quero ser agricultor não”, como se agricultor fosse uma coisa vergonhosa e não é nada disso. Eu comecei a trabalhar isso dentro da escola da Canaã. A produção deles vinha pra escola e quando um aluno estava comendo, [eu dizia]: “Foi teu pai que plantou isso aí, foi teu avô que plantou”, então mudou. Hoje, dessa geração que a gente trabalhou, muitos deles estão fazendo curso de técnico agrícola ou engenheiro agrônomo; eles podem aprimorar aquilo que os pais e os avós estão fazendo. Isso pra mim é um ganho que não tem dinheiro que pague. 

Outra coisa: a identidade cultural. Eles têm a questão do teatro muito forte, a questão da dança do tambor de crioula, que é algo do Maranhão, então a empresa sempre fez ações com encontros, sempre apoiou encontros, oficinas. Criou espaços pra que esses grupos se reunissem, única e exclusivamente com a perspectiva de perpetuação. 

Vou te dar um exemplo: eu tive uma oficina - uma oficina não, um projeto cultural de tambor de crioula, em que a gente pegou um dos grandes mestres de tambor de crioula no Maranhão e trouxe ele pra cá. Ele fez várias oficinas; elas tiveram um reforço, desde a produção das roupas, a produção do tambor e das danças… Eu disse assim: “Só vai ficar no projeto quem trouxer os filhos e netos.” As filhas e os netos vieram, foi uma experiência maravilhosa. Eles usaram o espaço da igreja, porque na Madureira o tambor de crioula se reunia na igreja. 

A gente já teve ‘n’ cursos de aprimoramento de teatro, arte circense e fortalecimento da cultura. Já os levei ao teatro, já teve apresentações em que eu os levei pra conhecer o teatro. 

No final, uma das coisas que a gente fez, que marcou o tempo de emancipação, foi a entrega da Casa de Cultura, que era um espaço pra eles se reunirem, lendo e aprendendo mais sobre isso, e na entrega a gente fez um grande festival de cultura da Canaã. Eu pedi pra eles se organizarem, eles se apresentaram; foi uma noite linda, apresentaram tudo que estavam fazendo de dança, teatro. 

Outra coisa também: todos os anos, quando a empresa faz um seminário, que é um encontro de lideranças, as apresentações culturais são eles. Eu não abro mão deles fazerem, de estarem em algumas coisas da usina. Procuro fortalecer ao máximo, tanto eles quanto a geração futura. Eu tenho uma virada de geração que já conseguiu adquirir isso. 

Eu costumo fazer isso quando consigo identificar… “Pô, não tá legal. Não estão mais se reunindo.” Eu procuro resgatar isso. O último que a gente fez foi há dois anos e a gente viu que não teve uma quebra, eu consigo observar isso. 

 

P/1 - Você falou muito do processo em geral. Agora você poderia me dar o exemplo de algumas pessoas específicas que tiveram mudanças na vida, contar a trajetória dessas pessoas pra mim?

 

R - Sim. Acho que tem a Cleonice - mulher, professora, lutadora, que veio de uma perspectiva bem diferente deles. Ela era a única que tinha ensino superior durante o processo. Ela lutou junto comigo pra que eles fossem alfabetizados com o EJA. Tenho um orgulho muito grande de ter feito isso, de fazer algo tão básico, e tenho muito orgulho dela, porque ela não… “Ah, já estou formada, já tenho emprego.” Não, ela se envolveu na questão e quis trazer luz a quem não tinha. A educação é isso. 

Ela se empenhou, participou de todas as aulas, fez questão de organizar. Ela está à frente de todas as questões culturais [em] que ela sente dificuldade deles, ela está no meio, por ser uma pessoa mais esclarecida, mais direcionada. 

Como agricultora, ela é uma das quais eu mais me orgulho; ela representa o empoderamento feminino de uma forma maravilhosa. Não de forma demagógica ou de discurso, mas ela pediu licença sem vencimentos pra ficar na agricultura familiar, pra viver daquilo. O exemplo que ela me dá me emociona muito, porque ela podia ter uma perspectiva de vida completamente diferente, mas decidiu acreditar nesse projeto - não só por ela, mas por eles também. 

Ela é uma mulher que está à frente - toda movimentação, mobilização social, ela está à frente. Ela mostra com orgulho pra família dela o que ela fez da vida dela, a mudança que ela teve. Ela costuma dizer que é moradora da Canaã, agricultora, radialista, dançarina de tambor de crioula e professora; ela tem muito orgulho de todos os marcos e trajetórias da sua vida e do projeto. É uma memória viva.

Era uma pessoa que tinha tudo pra odiar o relacionamento com a Eneva, mas é uma das [pessoas em] que mais eu vejo potencial de liderança. A minha maior alegria é vê-la feliz com a vida que escolheu, com a oportunidade que teve.

Outra pessoa que me chama muito [a atenção] é a dona Isabel. Ela teve uma filha estuprada e morta numa área próxima à antiga Vila Madureira. Não se tem como dimensionar a marca e a dor de ter perdido a filha desse jeito, mas ela não se abateu. Foi uma mulher que me deu um exemplo de superação, de força, de garra, de família… Ela é uma sobrevivente. 

Ela passou anos analfabeta. Participou do EJA e eu nunca vou esquecer do dia que eu a vi assinando seu nome. (chora) Pra mim fica uma lembrança muito forte, do orgulho de uma coisa tão simples, mas tão importante pra ela. Ela fala isso com muita alegria. 

A vida dela é muito marcante. Acho que vai ser um dos depoimentos que vocês vão olhar e que vai ser muito bom. 

Ela é a líder do tambor de crioula, é muito respeitada na comunidade. Ela mantém essa questão cultural muito viva. Ela tem o coração muito agradecido, porque ela entende que a Eneva tem esse olhar em relação à cultura, algo que é importante pra elas. 

É uma mulher de pegar no batente, de fazer acontecer. 

Ela sofreu um acidente doméstico e perdeu a visão de um olho, mas ela não deixou a agricultura. Se eu falar qualquer coisa aqui, eu não tenho como dimensionar o quanto isso é importante pra eles. Ela leva os filhos, tem netos lá trabalhando; ela tem filhos [que são] dependentes químicos, uma vida muito sofrida, mas não se abate. É um exemplo de superação. Todo mundo quer conhecer a história da vida dela. 

Você não conte que eu contei a história de uns e outros, porque a ciumeira vai ser grande. 

Seu Zacarias é um líder nato, mas no meio da liderança ele tem muito amor. Ele ama a Canaã, a vida dele não existiria sem a Canaã, então ele se envolve com os problemas dos pequenos e dos grandes. Eu vejo um líder não preocupado com o ego dele, mas preocupado com as pessoas e com as coisas, pra que deem certo. Ele tem a humildade dentro dele, de ajudar, mas ele também tem a força de lutar na Eneva, na prefeitura, naquilo que ele acha que é justo.                                                        

Acho que ele é um dos grandes agricultores locais, teve uma mudança de vida bem grande. Ele, pra mim, é um exemplo 100% de integralidade do processo rudimentar e do orgânico. Eu vivia brigando com ele: “Não queime seu lixo, não queime as coisas.” Ele, inclusive, sofreu um incêndio dentro do polo; queimou telado… Ele foi tentar apagar o fogo e se queimou. Foi um episódio ruim, só ele estava lá. Mas acho que ele aprendeu nesse dia que ele tinha outros caminhos pra seguir. 

É um cara que participa de tudo na minha vida. O Benjamim estava pra nascer e ele me ligando. Meu marido [disse]: ”Rapaz, deixa o meu filho nascer, pelo amor de Deus.” 

Ele é um exemplo de liderança. Acho que se o país tivesse mais pessoas com o perfil dele, a gente teria também uma perspectiva diferente. 

 

P/1 - É difícil escolher um ou outro, não é?

 

R - É difícil. Tem marcos. Acho que o que os envolve [é] a mudança, a oportunidade que eles tiveram. Eu fico pensando muito: se a Eneva não tivesse ido pra lá, se não tivesse acontecido isso, como seria a vida deles? 

 

P/1 - Isso mudou bastante do que eles tinham de perspectivas lá e aqui.

 

R - Com certeza. Antes eles queriam só uma casa, hoje não. (risos) Eles têm um futuro diferente pra seus filhos, pros netos deles. É completamente diferente. 

Nessa avaliação, a perspectiva de vida deles mudou. Pra mim é muito claro no discurso deles, o que eu ouvia antes e o que eu ouço agora. Antigamente eles queriam o que comer hoje; hoje em dia eles querem avançar, querem um negócio, querem entrar pra política. 

O que eles desejam é o que eu desejo: ganhar o mundo. É uma coisa parecida.      

 

(PAUSA)

 

P/1 - Eu queria perguntar agora sobre a relação da Canaã com [as comunidades] ao redor, que tem aparecido também. Como você vê a relação daqui com os outros bairros? Mudou ou não? 

 

R - Mudou, eles veem a Canaã como uma referência. Na verdade, veem a Canaã como um sonho, “era tudo o que eu queria que tivesse acontecido comigo.” Falo isso com orgulho, mas com uma dor no coração. Eles já procuraram a Eneva, [perguntando]: “Tem como fazer a mesma coisa aqui?” Só que são propósitos diferentes. 

Eles têm sim as pessoas da Canaã como uma forte liderança e como um possível resgatador da situação deles. Eu consigo observar essa situação, isso pra mim é muito claro. Eles querem pegar as experiências da Canaã e trazer pra eles.

O que eu faço? Eu incentivo muito. Eu digo: “Vocês tiveram a vida mudada, podem mudar a vida das pessoas.” Procuro sempre incentivar a integração. 

Eu me preocupo com algumas coisas, como a ocupação irregular. Eles já tiveram a área deles invadida, então eu, como empresa, tive que fazer uma intervenção, por conta da própria comunidade. Mas acho que temos mais ganhos do que perdas nessa possível relação. Acredito que a Canaã pode acabar se tornando um grande polo de todas esses outros ao redor. 

Eles já têm uma diferença dentro do município de Paço do Lumiar, são muito respeitados. As pessoas conhecem, dão boas referências. 

Eu avalio que é uma coisa boa. Apesar dos riscos, eu vou ter mais ganhos que perdas.                                   

Nas últimas ações e projetos que a gente teve, eu tive pessoas… “Por favor, aceita a Vila do Povo.” Não tem como dizer não, né? Agora essas pessoas fazem parte da vida deles, então eu tento fazer da melhor forma possível pra agregar. Eu acho importante. 

 

P/1 - Você tem algum receio de desagregação do que tem aqui, dos moradores venderem as casas? Que a associação…

 

R - A partir do momento que eu trabalho pra que as pessoas tenham autonomia a respeito da vila delas, eu corro o risco de elas tomarem a decisão que elas quiserem e irem por outro caminho. É que nem filho, a gente orienta: “Eu acho que o caminho bom é esse aqui, você pode seguir.” Ele tem a opção de ir embora ou ficar. 

Qual a minha avaliação hoje da Canaã? Está aqui quem é “raiz Canaã”, quem se identificou e tem esse perfil. Eles são muito unidos, acho isso bom. Acho que tinha que segregar, sair quem tinha que sair. 

Isso é um exemplo tanto daqui quanto do polo, era pra 95 famílias. Hoje eu tenho 23. O polo é um bom negócio? É um ótimo negócio. Aqueles 23 fizeram do limão uma grande limonada e estão dominando aquilo. Eu já ouvi falar: “Isso é um indicativo ruim.” Eu não acho, acho que é um indicativo que sim, aquelas pessoas estavam destinadas a mudar a vida delas. 

Quando você trabalha com o social você tem que levar em conta o caráter, a história de vida das pessoas. É tanta coisa… Eu ficaria triste se eu tivesse um polo que o pessoal usasse só pra veraneio, pra ficar em sítio, descansando. Aí eu estaria com meu coração no chão. Mas vendo que eles dominaram aquela área de sessenta hectares, eu não tenho como dizer que o projeto não deu certo.                                       

É uma coisa que tinha que acontecer. Eu fico feliz, acho que sempre desejei lá no fundo que ficasse quem se identificasse mesmo com o projeto, que tivesse a questão da emancipação, do protagonismo. Às vezes eu ficava tão chateada nas reuniões de comunidade… “Ai, eu quero isso e aquilo.” E não é isso, só que a mudança não tinha que partir da Eneva, da Beth; tinha que partir deles. 

Eles começaram a ver… “Seu Zacarias disse que não, é a gente que tem que ir atrás da pintura nova do posto de saúde", como está agora. Eles entenderam que a Eneva não é mãe e pai, que eles são grandes e podem ir atrás do direito deles. 

As segregações também têm muito a ver com a história da Canaã. Eles me contam: “A pessoa que saiu, na verdade, nunca foi da Canaã. Ela ficava lá só no fim de semana, mas durante o cadastro acabou entrando.” Eu tenho anos de conversa com eles, então consigo identificar que realmente não era uma pessoa que fazia parte da vida deles. Tanto é que a gente fez um trabalho aqui pra que não quebrassem os vínculos afetivos, é uma coisa muito importante num processo de reassentamento, que uns ficassem perto dos outros. Eu consegui identificar isso no começo.

Pra mim, o resultado da Canaã é positivo. Eu não gosto de colocar de forma quantitativa, tanto é que eu não fico falando da questão da renda. Acho que, dada a questão do acesso a direitos, da execução deles, da efetividade na vida deles - na educação, saúde - tem um índice de assistência básica altíssimo aqui. Eu tenho uma baixa de câncer prevenível muito baixo. 

“Mas você está pegando uma comunidade”, mas eu vou pegar outra comunidade com a mesma quantidade, o mesmo perfil. São indicativos que me dão [certeza] que deu certo. “Mas você não tem indicativos ruins?” Tenho, teve estruturas que a empresa deu que não sei porque deu, não deu certo. Eles não usaram, abandonaram. Isso é um indicativo ruim, ou seja, me dá a entender que não houve envolvimento da comunidade dentro do processo de doação.

 

P/1 - Hoje então a Vila Canaã é um modelo de comunidade pras outras que a Eneva está trabalhando.                                                                              

 

R - Esse é o modelo pra Eneva. O projeto social que a Eneva quer a partir de agora tem que seguir o modelo da Canaã. Índice de educação, de política pública, de melhoria de qualidade de vida… Acho muito bacana, fico feliz de fazer parte disso. Na verdade, eles aceitaram uma ideia muito louca de uma maranhense. (risos) Trabalhar com agricultura familiar no meio de uma recuperação judicial… E deu certo pro polo, pra mim e pra Eneva. Uma história se confunde com a outra.

 

(PAUSA)

 

P/1 - Como você vê o futuro da vila?

 

R - Boa pergunta. (risos) Eu vejo… Por conta da atual situação, eu os vejo crescendo, com uma visibilidade muito grande dentro do Estado do Maranhão. Pelos índices de saúde e educação que eles têm, eu vejo uma comunidade 100% preparada pra se envolver politicamente em questões importantes dentro do município e do Estado. Vejo várias pessoas preparadas pra assumir lugares de liderança de associações agrícolas dentro do Estado e do município de Paço do Lumiar. Eu vejo o polo crescendo nacionalmente -  uma coisa que eu não só desejo. Eu consigo ver, é real. Na área de agricultura familiar e orgânica, pelo andar em que eles estão… Não tiveram baixas significativas durante a COVID, ou seja, souberam resistir. 

“Beth, qual foi o apoio que vocês deram?” Eu estava ali, só olhando. Se alguma coisa acontecesse… Mas não foi preciso algumas coisas drásticas.

Eu vejo os produtos deles indo pra fora, os vejo sendo reconhecidos por sua trajetória em outros estados. E eu vejo a Eneva do lado deles, não atrás deles. 

É um orgulho pra gente. Eu não entendo que a Eneva vai sair. Quando se fala em sair, a gente deixou de ter vários desembolsos financeiros, mas a gente quer estar do lado deles, porque a história da Eneva se confunde com a história deles. 

Eu os vejo dando aulas pra outras pessoas, vejo os filhos e netos deles envolvidos, o que é importante nessa propagação. 

Eu vejo muita coisa boa, muita luta que eles ainda vão ter. Eles estão em um Estado com um dos piores IDHs [Índice de Desenvolvimento Humano] do país, então tem toda uma questão cultural, financeira, social, mas acho que eles já romperam com muitas coisas. Vejo a melhor perspectiva possível, vejo aquele local lotado de fornecedores, eles transformando aquilo num negócio grande pra eles. É isso.

 

P/1 - Última pergunta: como é que foi contar um pouco da sua história hoje? 

 

R - (risos) Inesperado. Acho que eu sinto muito orgulho. Toda vez que eu conto a história da minha vida, me dá uma alegria, uma força grande, de entender que tudo deu certo. Que eu poderia ter tido um destino completamente diferente. Eu nasci num campo de impossibilidades, mas deu certo. Eu não me arrependo de nada. 

Não queria que nada tivesse sido diferente, que tudo tivesse sido como foi. Sou feliz pela história que eu tive, pelas pessoas que eu encontrei, pelas experiências que eu vivi, pelos lugares que eu fui. 

Só peço e desejo que eu não deixe de ser a Beth nunca, em nenhuma situação. Sou feliz com as minhas escolhas, com meu propósito de vida - com o meu chamado, como eu falo. Eu sou feliz. 

 

P/1 - Obrigado, Beth. Foi um prazer. 

 

R - De nada! Parabéns, o trabalho de vocês é lindo. Eu não sabia que o resultado do [projeto do] Museu da Pessoa seria tão legal desse jeito. Estou muito feliz.


 


 


 

 

 


 


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