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História

Berenice de Souza Torres

História de: Berenice de Souza Torres
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2020

Sinopse

Berenice de Souza Torres, nascida em 22 de setembro de 1980 em Pirá, Bahia, é a décima terceira filha da família. Berenice, desde que nasceu, foi rodeada pela pauta da importância da educação na vida de todos. Aos oito anos de idade veio com sua família para São Paulo e passou boa parte da vida na favela de Paraisópolis, onde cravou a luta pelos estudos, pela cultura e, principalmente, a luta por seus direitos. Estudante do CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério, tornou-se professora da Prefeitura de São Paulo e atualmente conclui o seu mestrado pela PUC-SP.

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História completa

P/1:  Bom dia, para começar geralmente a gente pede para você falar o seu nome completo, local e data de nascimento... 

R: Tá... Sou Berenice de  Souza Torres, mas gosto que me chamem de Berê. Nasci no dia 22 de setembro em 1980 em Pirá, Bahia. Bahia.....

P/1: Qual o nome dos seus pais? 

R: Então... Meu pai, Manoel Dias Torres, minha mãe Maria de Souza Torres, não são mais vivos, infelizmente. 

P/1: E eles são de...?

R: de Bahia, também! Agora o lugar eu não sei, mas deve ser perto daquela região... Riachão do Jaquipe, eu acho. São baianos também. Posso falar?

P/1: Pode, pode à vontade.

R: Não, desculpa. Eu ia falar deles..

P/1: Pode falar deles, também. Eu ia te perguntar, você sabe o motivo deles terem de dado o nome?

R: Ah... sim. O meu nome seria Lilian Débora, não sei por que, mas a família toda queria. Minha família toda queria, minha mãe, meus irmãos mais velhos... Eu sou a décima terceira filha, ein?. Caçula, sou a caçula dos dois, eles tiverem 13 filhos. Eaí todo mundo escolheu Lilian Débora, me contaram. Só que ai quando meu pai foi... chegou em casa, ele chegou com Berenice. Ai foi uma briga, por que ninguém gostou, achou muito feio e ele falou que não sabia falar Débora, falava “Debra”, ai não sei porquê foi Berenice. O fato que assim, até os meus 16 anos eu detestava do meu nome porque achava feio, pela herança da família que falava que Berenice era feio e que o nome era para ser Lilian Débora, aí cresci com isso.  Aí na escola, um professor muito legal, falou: “seu nome é lindoooo, Berenice, um nome chique, francês...”. Ai peguei isso, só que ai o que eu mais gostei é que ele falava assim: “quantas Berenices tem aqui na escola? Só tem você!”. E eu reclamei disso, falei: “só tem eu, em todo lugar, eu nunca vi uma Berenice na escola, até os 18 anos, e até hoje, nunca encontrei na faculdade, nada...”. Aí ele falou assim: “só tem você, você é única...”. Aí eu me apaixonei pelo meu nome por conta da interferência desse professor, da visão dele. Acho que ele percebeu e tava trabalhando identidade, e não... Eu tenho essa consciência hoje, mas eu acho que foi uma forma dele resgatar minha identidade de forma que eu gostasse, sabe, eu entendo hoje assim. Então com 16 anos eu me apaixonei por Berenice e cada vez mais... (risos). 

P/1: É um nome bonito... 

R: Eu acho, eu acho...

P/1: Agora, voltando para os seus pais, o que eles faziam? atividade deles?

R: Então... meu pai era carpinteiro, trabalhava em obra, “serventão” de obra mesmo em São Paulo. Trabalhou nas estradas do Brasil, em coisas de construção de shoppings e prédios... Então “piaozão”. E minha mãe era vendedora... produtos, era representante de vendas, diarista, doméstica. É... bem... classe popular D, mesmo. C, D, sei lá, acho que D, né.

P/1: Você os costumes deles? De casa? 

R: Ah sim! Meu pai gostava muito de cozinhar para a família, né, para os filhos... gostava de assoviar, gostava muito de ouvir notícia, é... ouvir rádio, notícia, ele era muito disso, de ler bíblia e conversar, conversar, falar, contar histórias. Meu pai lembro muito disso. Minha mãe era muito alegre, era muito sociável, gostava de conversar com as pessoas... era muito atuante das obras sociais também, ajudava muito nos trabalhos da igreja, cesta básica para as pessoas, ajudar... Todos os vizinhos, nascia filho, alguém adoecia, minha mãe tava lá ajudando. Então ela era muito de ajudar as pessoas e gostava muito de cantar. Muito de cantar. Era muito vaidosa e muito muito muito cuidadosa, assim, com a casa, com os filhos e com as pessoas. Minha mãe era muito de gente assim, de gente, gente.  Então, minha família sempre foi muito assim né, minha mãe, meu pai. Tanto que na minha casa quando eu tinha 14, 13, 12 anos, morava a gente e o pessoal que vinha da Bahia, eles acolhia todo mundo. O pessoal vinha pra minha casa, uma casa assim, pequena, morou assim, moraram 22 pessoas, 25 assim... E aí as pessoas vinham para casa, os meus pais arranjavam emprego, por que meus pais conheciam muita gente, assim, e então eu trago muito deles essa lembrança de acolhimento, de gente, de lidar com as pessoas... Mesmo eles tendo muita... sendo muito pobres, né, muito simples, não tinham recursos, mas o que eles tinham eles ajudavam. Eu falo que eram do povão, assim (risos). Muito da comuna, mesmo...

P/1: É... quais histórias o seu pai contava?...  Você lembra de alguma? 

R: Ah… o que eu sei e que sempre me deixa muito curiosa, é que assim.. Eles casaram e tiveram os dois primeiros filhos da Bahia, depois vieram para São Paulo, e aí nasceram uns aqui Santos, Guarujá, Santos e Guarujá eu tenho um monte de irmão que nasceram... Aí depois eles voltaram para Bahia, ai nascemos os últimos, assim, até a 13 que sou eu e depois eles voltaram para cá. Da história do meu pai, que ele me contava, o que me marcou e me marca até hoje é da vó dele. Que a vó dele era filha de escravos... era filha de escravizados, né?. E a avó dele, ele fala que tinha quase 100 anos, e contava história para eles todos sentados “assim”, inclusive para o meu pai, que meu pai era muito pequenininho e contava da época da escravidão, e contava da senzala... E meu pai contava isso “Olha, minha avó era uma negona, que veio de África por Cuba, era filha...”. Ela não chegou a ser escravizada, mas viveu como, porque ela viveu na casa da galera, dos senhores, dos pais dela que foram escravizados, no caso... E eu prestei atenção nisso já muito adulta assim, já depois que comecei a cavocar com uns 20 e poucos anos, então isso me marcou. Da história da minha mãe, o que minha mãe conta é que a minha avó, que é a mãe dela, é filha de um estupro de um fazendeiro e que foi lá na tribo da minha bisavó e estupro a minha avó. Hoje se fala estupro, né, mas naquela época não entendi assim. E minha vó que é filha de indígena com português é filha desse abuso aí. E a minha vó cresceu na fazenda desses portugueses lá na Bahia como empregada, ela e a mãe dela. Ela nunca foi filha, ela nunca foi reconhecida, né. E ele era, ela e minha bisavó eram empregadas desse fazendeiro português que a gente nunca teve contado. Então a minha avó traz essa história da indígena, que foi...  a minha avó é fruto disso. E da parte do meu pai que é neto de escravizados. Então eu falo que sou brasileira mesmo, assim... Daquelas, daquela parte oprimida sabe, tanto de um lado quanto do outro. E da parte do meu pai ele também acho que é neto ou bisneto de português, e da parte da minha mãe também. Mas não como... mas nunca foram reconhecidos como, eu digo que como pessoas, né, porque você crescer marginalizado, nem de um lado nem de outro, não foram considerados. Negros, indígenas, no Brasil... você imagina, né? Então a minha história é dai, o que eu lembro que me marcou muito e hoje reflito muito é essa questão de consciência de classe, de história, de identidade, eu trago... hoje o que me marca é isso, das minhas origens, tanto materna quanto paternas. Tanto que minha mãe tinha muitos traços indígenas e o meu pai era um negro muito misturado, um negro que tinha uns traços de… meio que sararás, era um negro meio claro, com os olhos sabe assim... Então eu sou fruto disso. Eu não reconheço na minha identidade, na minha história, o meu lado europeu, português no caso, por que eu não quero mesmo, por que antigamente não foi reconhecido, então eu não falo com orgulho assim, porque tem gente que fala: “ah porque sou neto de italiano, eu sou neto de português, de espanhol...”. Eu não, eu falo com muito orgulho que eu sou neta de indígenas e de africanos, que a minha origem é muito África e indígenas brasileiros. Então é o que me sustenta, é onde eu me reconheço. Nessas duas culturas assim, que foi... que no Brasil é muito misturado, né, mas a gente hoje, cada vez mais a gente se aproxima, né. Então da minha origem europeia, que é portuguesa... Porque Portugal você sabe, né, dizem que é a “favela da Europa, né” que é o lado pobre da Europa. Pobre ou rico, mesmo que fosse francês, espanhol, com essa história eu não me identifico em nada e não reconheço. Eu me reconheço muito de origem africana e brasileira mesmo indígena, e eu gosto muito disso. Lógico que tem revolta, têm tristeza pelo o que o meu povo sofreu. É o meu povo, né?. Eu tenho essa revolta, essa luta que a gente tem, essa resistência que a gente tem que o tempo todo resgatar para ser reconhecido, pra gente ser reconhecido como gente, e é nessa luta que eu me reconheço e tenho orgulho disso. Não tenho orgulho do sofrimento, do sofrimento eu tenho revolta, eu tenho raiva, tenho… não aceito... Mas tenho orgulho dessa força que o povo teve, de ser tratado como animal o tempo todo, ter sido subjugado e a gente tá aqui hoje, eu tô aqui hoje porque eles foram muito fortes. Eles lutaram de alguma forma por que eles sobreviveram, a família do meu pai tanto a da minha mãe, então essa história eu trago muito... Não sei se o meus pais tinham essa noção, essa consciência, eu acho que não tinha. Por que essa consciência nasce cada vez mais de dez anos para cá muito forte no Brasil, 15 anos, mas de 10 anos para cá esse movimento de resistência dos negros, da gente se valorizar, da gente se ver bonito, de reconhecer como a gente é forte, que a gente não é como eles ensinaram, que a gente é... E apesar de estarmos lá pela estrutura racial, né, do racismo estrutural que tem na história do Brasil né, mas é... Isso não é mais um tabu, a gente tá falando sobre isso, então falar sobre isso resgata essa minha identidade, que antes eu não tinha noção, tipo há dez eu atrás eu “ai....” dez anos? Há dez anos, quando eu terminei o meu curso de pedagogia tinha uma pauta lá na faculdade sobre multiculturalismo brasileiro, sobre miscigenação, e eu reproduzia, eu fala: “não, no Brasil somos um povo miscigenado, somos um povo multicultural, somos frutos de tudo isso...”. Eu reproduzia isso, por que eu não tinha consciência. E não somos, o mito da democracia racial, eu tinha totalmente isso, né, eu acreditava piamente isso há dez anos. Então eu falo dez anos mais por mim mesmo né. De dez anos para cá, mais especificamente de sete anos para cá que eu comecei a acordar para isso. Que foi um debate muito legal, mais na era do PT, né, no Brasil que puxou muito isso no governo do Lula. Acho que a nossa entrada na faculdade, da gente conseguir comprar carro, casa... O pessoal fala que o PT acabou com o Brasil, desculpa, eu não vou entrar nisso, mas não acabou. Não acabou mesmo, por que eu e muitos dos meus irmãos e sobrinhos conseguimos comprar casa, carro,terminar curso, muito na era do PT. E foi uma era que me trouxe para essa luta da questão racial, da questão étnica mesmo. Então eu acho eu resgatou minha identidade, lembrei da história dos meus pais, e ai eu prestei atenção e ai isso é muito forte hoje em mim. Então esse é o legado que eles deixaram, que em algum momento contaram isso para a gente. De outra forma e eu recebi isso para mim “nossa minha vó foi... nossa minha vó é fruto disso...”. E faz pouco tempo por que eu só tenho 38 anos né, tudo bem que minha mãe me teve com 47 anos, o meu pai 50, eu fui a última,  mas faz pouco tempo, eles são meus contemporâneos. Essa história “Brasil acabou com a escravidão”, acabou nada, porque eu sou fruto disso tudo aí. Então essa é a história deles. Imagina. Pessoas muito lindas meu pais, muito fortes, era do trabalho... Legado que eles deixaram para a gente: alegria sempre, honestidade, ser sincero o tempo todo e trabalhar para não ser pesado a ninguém. O que é que significa trabalhar para não ser pesado a ninguém? É você não depender de ninguém para sobreviver. Porque essa foi a história deles. Porque você pensa, um casal, naquela época com um monte de filho, não, dois filhos, vindo para São Paulo, sobreviver aqui... Todos estudaram, todos os 13, nós não temos... meus pais eram analfabetos, foram alfabetizados na idade adulta... minha mãe faleceu aos 66 anos e estava na 4ª série, mas os 13 filhos todos estudaram, todos terminaram o ensino médio e hoje alguns... eu, por exemplo, estou no mestrado de educação, faço mestrado de educação na PUC. Mas tenho irmã que já é enfermeira formada, irmão que fez administração, outra que faz psicologia, outra que fez pedagogia... Por que a minha primeira professora foi minha irmã, na roça ainda, na Bahia. Então para vocês ter noção, pensa num casal forte, fruto de toda uma história complicada, sempre ali marginalizados, oprimidos, mas conseguiram criar esse monte de filho, nenhum de pra ruim... ninguém virou... (risos)... E tudo bem se fosse né, por que quanto maior a miséria e a pobreza... por que é isso que a gente busca, né, a gente não, mas muitas pessoas escapam dessa forma. Mas no nosso caso não, dos treze, ninguém foi roubar nada, todo mundo foi trabalhar... Esse é o legado deles, de força para trabalhar para não ser pesado para ninguém, de ser honesto e de educação. Educação! Eles falam muito disso, para eles a educação o maior valor. Educada não no sentido... no sentido formal mesmo, né... E é isso... Ai, posso contar um pouco da minha infância agora? Não sei se você tem... 

P/1: Não, é isso... eu vou entrar na infância agora... Pode falar à vontade. 

R: Quando eu nasci a gente morava... os meus pais já tinham voltado de São Paulo, essa parte assim.. ai eu nasci lá, eu fui a última. Ai a gente morava na roça né, falava, o nome da roça era Fazenda Rural, era Fazenda Retiro, era Fazenda Retiro, isso mesmo! 

P/1: E onde ficava essa fazenda?

R: Essa fazendo ficava no município de Pintadas, eu nasci em Ipirá por que em Pintadas não tinha o melhor hospital. Então o que quê acontecia? Para o pessoal que conseguia... tinha algum recurso naquela época, ia para Ipirá. Eu nasci em Ipirá, eu morava na roça, na Fazenda Retiro no município de Pintadas, que era uma cidade menor que Ipirá. Ipirá já era uma cidade maior então minha mãe teve as duas últimas filhas, que é eu e a Miriam, lá. Mas os outros nasceram ou na roça mesmo (risos), com parteira ou aqui em São Paulo. E eu já fui dessa mais moderninha, última filha e tal... com 47 anos minha mãe, eu nasci bem na semana que ela fez, eu fui o presente de aniversário dela.. já nasci em Ipirá. E aí voltamos para roça, e na roça o meu pai tinha uma casa de farinha que antigamente eles faziam farinha, tal. Só que meu pai, quando eu nasci, ele já morava em São Paulo, ele ia pra Bahia duas vezes por ano. Por quê? na roça não dava para sustentar a gente, então ele ia, trabalhava e mandava dinheiro para sustentar os filhos e sustentar a roça. E minha mãe cuidava da roça, da gente, dos 13 e ainda vendia produto Avon era… sabe, e andava, andava, andava. Por que a nossa roça era muito pobrezinha, não tinha banheiro, nem poço, não tinha nem poço... a gente ia pro mar fazer as necessidades, para tomar banho... eu lembro disso, para tomar banho a gente ia buscar água longe com aquele baldinho e tal. E ai para  gente conseguir estudar o meu pai trabalhava aqui em São Paulo, era basicamente por isso. Por que? Porque era muito caro antigamente, não tinha... você não ganhava como hoje, lápis, caderno, conga, uniforme, e ai para gente conseguir estudar e o meu pai manter os 13 na linha, o meu pai trabalhava aqui nas obras em São Paulo e mandava o dinheiro para minha mãe, e minha mãe trabalhava tanto na roça, cuidando da gente e vendendo os produtinhos andando pra caramba... E ai minha irmã Veronice, que foi minha professora, fazia o magistério na cidade, em Pintadas. E a casa de farinha tava desativada porque a roça não tava mais produzindo legal e a gente não tinha mais motor... E daí o prefeito falou: “ah, já que sua filha (minha irmã tinha 17, 18 anos)... tá fazendo o magistério...”. Não tinha professora na região da roça num raio de não sei quantos... O povo nem estudava, só nossa família estudava e era muito criticada por isso, pelas voltas, pelo pessoal vizinho. 

P/1: Mas por qual motivo? 

R: Porque eles falavam que educação não enchia barriga, que estudar não enchia barriga, que lápis e caderno não enchia barriga. Que tinha que trabalhar na roça e por isso que o pessoal tinha muito filho... sei lá. E os meus pais, não. Meus pais não, não sei se essa cultura de São Paulo e tudo, falavam, não, que a gente tinha que estudar. E todo mundo estudava e metade do dia trabalhava na roça e era assim, quem estudava de manhã trabalhava de tarde e quem estudava de tarde trabalhava na roça de manhã.  Mas estudava! E aí todo mundo criticava. E aí minha irmã tava fazendo o magistério, se formando, né, para ser professora básica, do ensino básico, de primeira a quarta série e a casa de farinha que era... a gente fala “terreiro” lá, não fala quintal... que era bem no nosso terreiro assim, tinha a nossa casinha e a casa de farinha, aí o prefeito pediu para ser a escola rural da região. Ai a minha irmã nem tava formada ainda, tava no último ano e já foi professora de todo mundo ali da região. Como que era essa? era classe multisseriada, vocês não são da educação, vou te falar como que funcionava... era assim... Era uma sala de aula... Ai meu pai que reformou, com a minha mãe com minha mãe, o meu pai reformou a casa de farinha e cedeu e daí virou Escola Rural Fazenda Retiro.

P/1: Transformou a casa de farinha...?

R: Transformou a casa de farinha e aí virou a escola. 

P/1: Era farinha do que?

R: Farinha de mandioca (risos). Já ia falar besteira mas era farinha de mandioca mesmo (risos). E aí o... era uma sala que funcionava em dois turnos e a noite a minha irmã ainda ia para Pintadas que era a cidade que era fazia o curso. E eram quatro fileiras, primeira série, segunda série, terceira série e quarta série no mesmo lugar. Então funcionavam quatro séries e minha irmã tinha que dar conta de alfabetizar desde o comecinho e pela idade... E não era assim, você é analfabeto que você vai para a primeira série, não, era por idade e minha irmã conseguia alfabetizar. E eu, com seis anos já era alfabetizada, porque eu aprendi a ler acho que com quatro, cinco anos, por conta de todo um incentivo dos mais velhos e eu era a caçula, e todo mundo lia né. E lia muito a bíblia, a bíblia sempre foi a porta de... A minha mãe aprendeu a ler e o pai a bíblia. Eles foram estudar depois, mas eles foram alfabetizados para lerem a bíblia e funcionavam, liam muito bem. E aí, a gente... tá. Eu lia e escrevia e com seis anos eu era a aluna mais nova da minha irmã e eu ajudava a alfabetizar os outros, aí eu era chamada de “professorinha”, porque com seis anos eu já ensinava, eu já sabia. Ai essa história é legal, porque com seis anos eu falei: “eu quero ser isso”. E realmente fiz magistério depois, aqui em São Paulo, fiz Pedagogia, já fiz duas pós e hoje estou na terceira, stricto sensu. Sou professora de escola pública, né, da Prefeitura Municipal de São Paulo, mas aí... veio daí, veio dessa herança que sou hoje... O que eu falo é que eu tive o privilégio de escolher a minha profissão. Já ouvi muitas vezes as pessoas falarem que, isso é uma verdade “porque quem que faz pedagogia é por que... não é por que gosta, é por que é mais fácil, por que tem curso a noite, tal, tal, tal...”. para muitos sim, mas para mim não, é por que eu escolhi. Tanto que a minha família queria que eu fizesse Direito, eles falaram: “não a gente paga, todo mundo vai se juntar, a gente faz a firmagem e tal, a gente paga...”.  E aí eu falei: “não, eu quero ser professora, eu quero ser”. E sou hoje, quero ser e não estou arrependida, gosto e tenho muita consciência da minha profissão e muito orgulho de como nasceu, né, que foi da luta dos meus pais, da minha irmã, os meus pais formaram a minha irmã; minha irmã acabou sendo a Professora Veronice da região, a filha do seu Mané, né, por que meu pai era Manuel, a filha Dona Edite e do Seu Mané, a professora... E depois, meus vizinhos valorizaram muito. E aí viemos para São Paulo nesta época, acho que quando eu estava na segunda série viemos para São Paulo, já. E aí acabou a escola lá na região, não sei como tá hoje, enfim… os vizinhos choraram muito, lamentaram bastante. Eu tive outra irmã que chegou a dar aula nessa escola, por que ela era alfabetizada tal, mas ela não tinha o magistério, mas na falta da minha irmã a outra que assumia e foi legal, assim… foi escola formalizada, ia merenda, os materiais… Eu lembro que aquela cartilha, que vocês num… que não é da época de vocês, que é a “Caminho Suave”, que é a “vovó..” (risos) que o  Paulo Freire critica muito, com muita razão: “vovô viu a uva”, sabe essas coisas?; eu aprendi com essa cartilha, antes de entrar na escola e… por que minha irmã já dava aula, né? e… aquela “Caminho Suave” eu lembro com muita afetividade, porque eu lembro que quando… cada vez que chegava uma de alguma das séries eu lia por uma semana, fazia todas as liçõezinhas, tal… Aí eu lembro que tinha, eu lembro até hoje, que tinha naquelas cartilhas umas famílias assim, branquinhas né, na mesa… por que tudo tinha desenho... e uma empregada: negra!. Eu não tinha noção, mas na minha cabeça era aquilo, era o certo e nos livros de história também. Eu fui me dar conta disso, dessa coisa mamãe, papai e os dois filhinhos todos branquinhos e a empregada negra, quando eu tava no magistério aqui em São Paulo, no CEFAM. Tudo o que eu for falar, eu sempre vou buscar essa linha gente, porque nessa linha que eu me reconheço, que eu me identifico e tudo eu busco, assim, eu puxo para isso… por que essa é a história da minha vida, né, essa questão do racismo estrutural, essa bate muito forte… e no CEFAM um professor falou assim: “Por que sempre essa família, papai, mamãe, dois filhos, um menino e uma menina, a empregada e todos muito lindos, todos cheios de brinquedos e sempre brancos?”. Eu não me dava conta… “é assim a vida de vocês?” assim, o professor de história que fazia mestrado na USP na época, chamou a gente para essa questão. E essa familinha perfeita, com sofá, sabe… com.. geladeira, tapete… não era minha realidade e eu ficava sonhando com aquilo, e muitas vezes eu me sentia muito mal, me sentia feia, sabe: “nossa, eu queria ter aquele tapete, eu queria ter empregada”.... Só que eu nunca me do que aquela história, do que a Caminho Suave e os livros de história traziam para perpetuar aquele padrão de família: mamãe e papai, menino e menina branquinhos e a empregada negra… Ai depois veio o Monteiro Lobato por quem eu era apaixonada!!. Li toda coleção, na roça ainda, de Monteiro Lobato, tinha sete, sete ano, oito anos, sete ou oito anos, acho que oito anos, é já lia aqui em São Paulo, mas eu me apaixonei… não tinha noção da questão do Saci, da Dona Benta, da… Não tinha noção daquelas brincadeiras, e eu era muito apaixonada. Então quando com 16 anos eu comecei a ser conscientizada, me conscientizar e puxar… os professores do CEFAM, o que é CEFAM? Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério, que era como se fosse uma pedagogia técnica, sabe assim, primeira formação, que hoje não tem mais.  E os professores nos politizavam nesse sentido, sabe, puxavam para isso. Mas enfim, na roça foi essa história, e aí quando tinha de sete para oito anos meus pais venderam, viemos para São Paulo por que meu pai falava que em São Paulo ia ter trabalho, estudo melhor para todo mundo.

P/1: E aí veio a família toda? 

R: Todo mundo. É importante dizer que os meus irmãos mais velhos já moravam em Ipirá, nessa cidade grande ou em Salvador, porque não tinha na cidade pequena nem emprego e nem um ensino médio legal para eles, um… estudo melhor. Então meus pais pagavam o aluguel para eles, metade né, e eles também trabalhavam em Ipirá ou em Salvador para eles conseguirem trabalho e continuarem estudando. Então quando nós viemos para São Paulo, um já morava no Mato Grosso e outro ficou em Salvador, mas todo mundo veio, então viemos em 11 filhos, junto com meu pai em 1988, julho, chegamos aqui no frio… E meu pai tinha comprado uma casa lá em Embú, um terreno com… só que não deu tempo dele construir, bater laje e tal… Só que aí os filhos, minha mãe: “já vendemos a roça, tamo indo, tamo indo”. Aí meu pai, com aperto, pediu um dinheiro emprestado e comprou um barraco na favela, no Paraisópolis. E viemos pra esse barraquinho de madeira azul, todo né, pequenininho, todo aquele monte de caixa, um monte de gente… aquela.. aquele chão todo rachado, lesma, rato… era ratoeira para todo canto… Aí continuamos sem TV, TV por duas questões: primeiro que era caro pra gente e segundo porque éramos evangélicos e diziam que era pecado. Ficamos muitos anos sem geladeira porque era caro, não tínhamos condições de ter geladeira e vivíamos naquele barraco de madeira. E dai todo mundo continuou estudando e trabalhando, todo mundo aqui continuo a trabalhar, né, e estudando, eu e os outros. Aí meus pais faziam de tudo, estudavam alguns no Paraisópolis e os mais velhos em Pinheiros, assim, que falavam que as escolas eram melhores, tal. E cresci, fiquei no Paraisópolis dos meus sete, oito, oito… até os vinte… que hoje eu já tenho 38, né galera. Então é… então morei no Paraisópolis por um bom tempo, não vou lembrar, mas até uns 24 anos eu acho, 25 talvez. Aí eu estudei no Paraisópolis, depois é… fui pra o CEFAM no Itaim Bibi, que eu queria mesmo ser professora, com 15 anos eu fiz a matrícula, passei. Para passar no CEFAM era difícil, você tinha que fazer um teste, prova, e num sei… E consegui, graças a Deus, fiquei em primeiro lugar da turma, passar. E consegui fazer esse curso de magistério que foram quatro anos, que foi um divisor de águas da minha vida, tanto social quanto… social que eu falo não da minha estrutura social, mas da minha cabeça social, cultural, político, porque o curso de magistério, o que eu trago muito hoje, que é um diferencial, que é o cultural mesmo na minha vida: a gente viaja pra várias cidades do interior e do Brasil também, então eu conheci Paraty, as cidades históricas de Minas, Curitiba por esse curso… E fora os professores e fora a semana da consciência negra que teve em 1996, a primeira semana de consciência negra, que esse movimento já estava começando e teve no CEFAM. Foi aí que eu me vi bonita, fui me reconhecer como bonita, começar o processo, que meu cabelo tudo bem, que minha história tudo bem… Que meus professores trabalhavam muito nessa questão da identidade, do nome, que é de onde você veio… tua história no livro e a tua história como é… os professores… por isso que eu detesto essa história de escola sem partido. Eles nunca trabalharam com partido, mas a questão da... que o Paulo Freire traz muito… da conscientização política, de quem é você, da consciência de classe, de quem é você no mundo, porque você é assim?.. É culpa tua? não, né, não é culpa tua, existe toda uma história por traz disso. Então o CEFAM foi importante nisso, teve a semana da consciência negra também, teve aquele filme acho que é 1936, né? não tem um documentário da história do Brasil, que eles matam muitos índios, que  os portugueses vieram e massacraram, não sei… Tem um filme brasileiro que foi muito importante para mim também, fora as viagens. E a gente era muito… cobrado não, mas eles levava mesmo a gente pro museu, por exemplo, conheci o MASP, o MAM, bienal, por exemplo, a primeira Bienal da minha vida foi por conta do CEFAM… muitas exposições… de moeda… tudo que você imaginar de exposição o CEFAM levava a gente, de arte, de moeda, sei lá o que fosse. Conheci museus e minha paixão por museus foi daí. Teatro: a gente era muito… levava, tudo, “ah, vai ter uma peça de teatro não sei aonde” o CEFAM levava a gente, nunca tinha entrado no teatro na minha vida. Até hoje eu vou, assisto, vou por conta, pago. Vejo… o SESI, né, tinha muito de graça nessa época, não sei como que está hoje, mas fui muito por conta do CEFAM e fui muito por conta própria, já ia. Teatro, museus, viajar… esse gostinho de conhecer mais pelo Brasil, as diferenças dentro do Brasil e as coisas bonitinhas e as cidades históricas… por exemplo, Minas Gerais: quando eu pisei em Minas me deu uma tristeza tão grande, porque ali eu já estava consciente que quem tinha construído cada pedra eram os meus. Então eu viaja tanto na maionese, eu tinha 16, 17 anos, 17, que parecia que eu via os escravos trabalhando… tanto que eu falava “nossa, to com uma saudade mas uma tristeza, porque isso aqui foi construído com sangue e suor dos meus antepassados…”. E a gente entrou em uma senzala e aí eu já… eu entrei naquela senzala já assim né… “caramba… era pior do que isso”... e os brancos, meus amigos brancos entrando de boa… então já tinha uma certa consciência. Então tem o outro lado que eu visitei a casa do Guimarães Rosa, que eu já lia, tal, sempre fui muito apaixonada por leitura e aí eu gostei muito daquilo. Depois conhecemos Paraty, aí paraty tem muito a questão dos indígenas e dos escravos, dos quilombos. Até hoje eu vou muito lá, sou muito apaixonada, depois eu falo pra você (inaudível), você precisa conhecer, que tem a história muito bonita do Quilombo do Campeio. Então o CEFAM… ah, no CEFAM fui à minha primeira manifestação, né, que o Governo Covas queria cortar o projeto, como conseguiu depois com o PSDB cortar o projeto. Como funcionava o CEFAM? era um curso de quatro anos e integral, período integral, então a gente ficava quatro anos lá, porque era um médio com um técnico em magistério para se tornar professora. E então a gente recebia uma bolsa do governo que era um salário mínimo, por que? porque eram adolescentes se formando, estudando o dia inteiro, e fazendo estágio e tal. E o governo achou que era.. que tava gastando muito dinheiro e que a gente estava ficando muito “saidinho”, por que? porque os alunos saíam do CEFAM, os professores formados e iam na Assembléia Legislativa cobrar, fazer manifestação naquela época! E aí o governo federal não gostou muito, porque vinha de lá, não gostou e cortou. E aí quando, em 98, quando veio aquela primeira “nós vamos acabar com o CEFAM” nós saímos do Itaim Bibi, fomos caminhando com cartazes, um monte de adolescente e invadimos, invadimos mesmo, o Palácio do Governo, né, lá no Morumbi, e pra mim isso foi “ah nossa, o que é isso?”, pra você ver como a formação da gente nesse período adolescente é importante, né, jovem… Essa foi minha formação, então por isso que eu falo que o CEFAM é um divisor de águas, porque me abriu para cultura, esse gosto por museu, teatro, música, de me sentir bem, conhecer esses lugares e reconhecer esses lugares como meu, eu posso. Lógico que até hoje tem peças que eu vou e musicais que você olha assim e quantos negros tem? às vezes tinha só eu, mais um, mais dois, e o pessoal dependendo olha assim como se… o que você ta fazendo aqui, né? mas eu vou!. E então o CEFAM foi importante assim na minha vida, não para minha formação profissional apenas, mas para minha formação como pessoa, como mulher, como negra, e me reconhecer como negra bonita, sim… e eu me sentia muito… Tem um menino no CEFAM que eu gostava ai ele falou assim pra mim, um moleque branquelo, ai hoje eu falo (risos): “meu, como que eu gostei?”. E aí ele fala assim: “ai… eu até ficaria com uma menina negra (falando de mim), mas minha família não ia gostar, então…” . Na minha cara isso! só que… eu fiquei muito… só que foi bem na época que tava acontecendo toda essa desestrutura que eu tinha de ser negrinha, de ser feia… por que eu tinha essa estrutura, também? porque eu apanhei muito, não falei para vocês: no Paraisópolis, que eu estudei da terceira até a oitava série, eu apanhei… fui muito xingada... eu tinha muito apelido, muito apelido mesmo, “testa de amolar facão” é… “fuscão preto”, “piche de asfalto”, “a macaca chegou!”, “a carvão”, “filha do mussum”, tudo o que você imaginar e eu lembro que às vezes eu ouvia “a neguinha vai passar! a neguinha da Bahia!” eu tinha chegado da Bahia… isso na terceira série foi onde eu mais sofri, e eu tinha sotaque para falar o alfabeto “a b c d e f g h…” eu falava “a b c d e f gue h i je le me ne”... que era Nordeste, até hoje muitas cidades bem do interiorzinho falam o alfabeto assim assim. Então eu tinha três questões: eu era evangélica, negra e baiana. E aí tem gente que pergunta: “mas na favela? com um monte de pobre?”. E sim!. Eu sofri muito preconceito e racial era o pior, aí: “ah, a neguinha vai passar, vamo faze corredor polonês”. E me batiam! todo mundo ia chutando a minha bunda!. E na sala os apelidos, a professora ria junto. Tanto que eu falo que até hoje eu não aprendi matemática, por que depois do recreio era aula de matemática, era português na primeira e matemática na segunda, segunda parte. E aí, como eu apanhava no recreio e a pior parte era voltar pra sala e a professora ria, aí pronto, eu tive um bloqueio bem bem severo… eu passei depois, eu passei, consegui com outras coisas, mas usando a lógica e tal… Mas assim, até hoje tô tratando isso, tô tratando isso agora forte. Tratei outras questões mas agora tô tratando bem forte nessa com a minha psicóloga, desse trauma de ter apanhado, ter sofrido e a professora branca rindo junto. Me tratava diferente também, não me acolheu!. Então isso eu levei para minha adolescência, por isso que eu cheguei no CEFAM sem gostar muito do meu nome e me achando… eu era muito assim gente… por que eu era preta e preta tem que baixar… Sabe assim? eu era feia… ninguém vai me querer… Na igreja ninguém queria porque meu cabelo era presinho e lá era só as menina de cabelo grande… Então eu cresci já sabendo disso, que eu seria a preterida, que eu seria a última escolhida. 

P/1: Isso foi do… até você entrar no CEFAM, né? 

R: É… quando eu entrei no CEFAM começou a desconstruir isso.

P/1: Então no ensino médio todo?

R: É, o ensino médio que foi no CEFAM,sim, mas ainda tinha toda a questão muito forte. Eu comecei a falar, não, não sou feia… mas assim, tirar totalmente não foi, foi mais depois. Quando veio  o “boom” de eu falar: “não, eu sou linda mesmo, sou poderosa, foda-se e dane-se”, foi aos meus trinta anos, mesmo. Com meus trinta anos, quer dizer, no CEFAM já começou um sou bonita, tal, tal, tal, pipipi… Isso já saiu, mas quando… mas para aquilo vir a tona mesmo, que eu uso meu cabelo hoje do jeito que eu quiser, eu coloco trancinha, eu não aliso, pá, eu hoje to com aplique, sabe, como peruca a hora que eu quero… mas peruca para fica bem deste tamanho, mesmo… uso trancinha, uso ele black… meu cabelo é bem igualzinho ao seu, desse tamanho. Então eu… isso foi aos trinta anos, com trinta anos que eu vim assumir mesmo. No CEFAM, quando eu tinha de 17,18 anos, eu já comecei a usar kanekalon. Fui muito criticada, mesmo! inclusive por cunhados, que hoje graças a deus eu… falava “ai isso fede… você lava como?”, esse negócio de se lava como… trancinha eu usei kanekalon direto de 98 até 20 e poucos anos, ou seja, dos 17, que quando eu coloquei não tinha 18 ainda, dos 17 até os… quando eu casei?...20, 21… até os 21 eu usei trancinha direto, kanekalon… Cada hora eu colocava de um jeito, que eu ja me reconheci como negro, penteado de negro, então vou usar trancinha porque é de negro e tal. E eu coloquei ainda tava no CEFAM, não. Não, minto, 97, foi 97 que eu coloquei.  E aí já tinha muito ataque: “você lava isso?”; “nossa, cabelo de corda, cabelo de mendigo e tal”, e eu resisti, me achava linda e pronto. Às vezes eu respondia assim: “ah, então eu abro o chuveiro, pego o shampoo e passo, ai ligo e aí eu tiro”. Assim com sarcasmo… Mas assim, fui muito atacada, só que a diferença… eu já… o CEFAM já tinha mexido comigo lá dentro foi essa minha transformação. Quando eu falo que estou tratando os traumas, é uma coisa muito lá dentro, de dor… Não é de aceitação, que a minha aceitação veio no CEFAM mesmo, só que de soltar o cabelo, falar vou tirar a trancinha, vou ficar com ele desse tamanho e vou usar como eu quiser, foi aos trinta. Porém, essa dor da infância de ter apanhado por ser preta, de ter sido muito xingada e ridiculariza e com o aval de professora, essa dor veio a tona com um episódio da minha vida e eu comecei a tratar da dor, mas a aceitação veio muito antes. Porque? porque a minha família, meus pais e meus irmão mais velhos falavam muito isso, dentro de casa: “se alguém mexer com você, te chamar de preta, fala que a gente resolve”. E a minha mãe não podia… quer dizer, a minha mãe não podia saber que os meus irmãos me defendiam na escola, por que com meus pais era assim, se brigava na escola apanhava em casa. Escola era muito sério, então. Só que os meus irmãos, eles protegiam, apesar que eles nunca agrediram alguém por isso, só que a gente já se envolveu, já me envolvi com briga na sala mesmo, eu lembro na quinta série um moleque veio me xingar de neguinha, crente do cú, crente tal, e aí eu fui pra cima dele com a caneta e nós dois levamos suspensão, só que meus pais foram lá e os pais dele, e ai eu não… eles me tiraram a suspensão porque meus professores todos me defenderam… aí quinta série: “não, ela não, ela é uma menina que… não, educada, ela é esforçada, é uma das melhores da sala… agora ele, não”. Então o menino acabou levando mesmo a suspensão e no meu caso eles suspenderam, né.  Eu já reagia, então eu acho que esse negócio da trancinha no CEFAM também tinha essa reação. Mas eu acho que tinha esse negócio da proteção dos meus irmãos por trás, de saber que eles se envolveriam em uma briga por minha causa ou pela causa da minha irmã, minha outra irmã, que é negra mas retinta que eu ainda, então sofria tanto quanto ou mais. De apanhar das meninas na rua mesmo, não era nem na escola. Mas assim, eu lembro que meu pai e minha mãe falava muito assim: “ceis tem que levantar a cabeça, se o mundo vem (o mundo eram as pessoas), se o mundo vem contra vocês, vocês tem que ir levando. Não vai bater em ninguém! Mas busca a força de Deus, tem que levantar a cabeça, não pode baixar”. Então essa coisa de não baixar a cabeça que os meus pais ensinavam tem a ver com esse negócio de resistência também, né. E os meus irmãos já… vamo na porrada! mas eles não batiam (risos) por que no fundo eles tinham medo dos meus pais descobrirem e tal... É… essa dor eu tô tratando, mas a minha aceitação foi na minha adolescência, já. E… só que a gente traz marcas né, então assim, hoje tudo.. os lugares que eu frequento, seja lá onde for, eu percebo se tem mais negro ou não tem, fico mais à vontade ou não, ah! é do meu gueto ou não. Hoje eu frequento os lugares de alto nível social e da minha galera. Eu transito nas bolhas, né, por conta de várias coisas...A minha formação cultural, dos projetos que eu aderi depois, vamos ao teatro e tal… os programas de levar as pessoas mais carentes ao teatro e por conta do mestrado também, eu vou em palestras bem… como que eu falo? bem para núcleos pequenos, sabe assim, bem elitizadas, no caso, aí eu me enfio lá porque cabe (risos), e da minha origem, da minha história eu frequento guetos e várias bolhas também, eu gosto disso, gosto porque aí que eu me reconheço e aí que eu me amplio, enquanto pessoa, de conhecimento de mundo e tudo mais… Mas o tempo todo eu to ligada, sabe, quem sou eu, da onde eu vim, que que tá acontecendo aqui, que que tá acontecendo aqui. Numa consciência que não me machuca nesse sentido. Me machuca quando eu vejo coisas e olhares, tanto para mim quanto para outras pessoas, e falhinhas… Ai isso machuca, machuca lá dentro, mas eu resisto, só que eu não deixo de pensar sobre isso, não deixo de observar isso, não deixo de… de… perceber isso. Porém, não são coisas que me levam para o buraco. Me fazem resistir. Mas é uma dor o tempo todo. Quem resiste, nunca tá… não existe uma dormência. Porque isso não é resistência, resistência é você ter consciência do que tá acontecendo ali, da tua vida, da tua história. Você ficar bem nisso tudo, bem assim, no sentido de viver, de sorrir, de levar aqui numa forma melhor, porém você tá ligado o tempo todo para transformar de alguma forma, tanto a si mesmo quanto aos outros, e falar assim: “não, é possível sim, vamos nessa”. Essa questão da valorização a gente tem que estar trabalhando o tempo todo, né, eu acho que a resistência é isso, é valorização também de tudo, do seu passado, de quem você é e da sociedade que está o tempo todo tentando te botar para baixo mas você está ali. Você não… eu não vou fechar os olhos pra isso, eu não vou fechar os olhos para quem olha para mim e fala… uma vez em um shopping, eu tinha 17 anos e fui perguntar a hora para uma senhora e a senhora segurou a bolsa: “ai menina, o que que foi?!!”; “calma senhora, eu só ia perguntar a hora”, só que na hora eu não me toquei…: “mas não é assim que se chega, achei que você ia me roubar, ai menina….”. Se fosse uma menina branca, ela não faria aquilo. Então, isso hoje acontece só que de outras formas… Tem restaurante que eu entro que é só assim… os olhares… Como bem, mesmo e tal, só que eu percebo aquilo, só que aquilo não me para. É o que eu falo, a dor existe, a gente percebe só que aquilo não me para, não esse é meu lugar, também. E se eu quiser que seja o meu lugar, vai ser até a hora que quiser, depois vou embora. E não é… o pessoal fala: “ah, você não fica se machucando?”. E não, não é, porque assim, se a gente começar  “ai, vou me machucar, não vou” o lugar nunca vai ser nosso, a gente nunca vai ocupar, e a gente tem que ocupar sim. Todos os lugares que a gente quiser e puder, a gente tem que ocupar, com dor ou sem dor, por que isso é resistir. Isso é luta, entendeu? E… ai, eu tava aonde, gente, que eu já me perdi… me para ai gente! 

P/1: Então… fiquei aqui com a questão da religião… Como que foi tudo isso para vocês? 

R: Ah, da religião! sim! Aí, já deu calor, vou abrir aqui. Da religião eu me considero cristã. Cristã, por que? Porque eu acredito em, Cristo, Deus e em Espírito Santo; sou criacionista, acredito em Jesus Cristo. Não frequento igreja há muitos anos, eu diria. Sinto falta, sinto… sinto falta às vezes do coral, que eu gosto muito de música, toco violão, tal, por conta da… ah tá, é uma herança dos meus pais, a questão da música, então todos nós tocamos um violão, minha irmã toca sax, contrabaixo, guitarra, lá em casa… e os sobrinhos foram nessa, os sobrinhos tocam mais, né, violoncelo, violino e tal… essa herança meus pais deixaram. Eu sinto falta da música, só que eu não consigo há um tempo frequentar a igreja, porque as igrejas são como essas outras instituições, com pessoas de todo o tipo, só que ali prega uma coisa… e eu tenho que viver essa coisa e quero que os outros vivam também, e aí tem gente que… eu prefiro não frequentar. Só que a minha fé continua sendo em Jesus Cristo e Deus, um deus de amor que acolhe a todos e ama a todos, independente da etnia, da história de vida, ele acolhe… Então eu acredito em um deus que acolhe; acolhe tanto que ele mandou o filho dele para essa humanidade tão podre e ele acolhe todo mundo. Para mim Jesus não discrimina ninguém, ele não discriminou. Na época de Jesus, lembra como as mulheres eram tratadas? e ele acolheu. Jesus acolheu todos, todos, todos e todas (risos). Jesus é de todos e de todas, ele ama todos e todas. E o Espírito Santo é aquele consolador, que vem… segundo as minhas crenças, né… que vem nos consolar e tal. Essa minha crença é uma herança dos meus pais, sim, mas é pessoal de vida também, que eu escolhi, porque eu tive várias experiências com Deus, de dor… que ele me acolheu, de coisas que eu alcancei dentro de mim e a presença dele sempre ali me renovando, Espírito Santo e o ensinamento dele, a palavra, a fé. (suspiro) Acalma quando eu preciso… E isso vem de Deus, na minha crença. Então isso não mudou. O que mudou é que eu não consigo frequentar igreja (risos). Gosto de algumas, adventista foi a última que eu frequentei… algumas… mas eu não tenho mais, eu não tenho ainda alguma que eu consiga, sei lá, que eu consiga ir lá todo… sabe, não consigo. Porém a minha fé tá nele, em Deus, Jesus Cristo, sempre. Mas também… é... eu gosto de muito coisa do budismo (risos), tem coisas do hinduísmo que eu gosto muito… é… alguma coisas das religiões das matrizes africanas que eu acho muito bonito e acho muito parecido com o evangélico, muitos… muitas coisas… engraçado: são religiões totalmente, né, diferentes mas que tem muitas coisas muito parecidas alí, das formas de culto e de… eu acho, tem coisas que eu acho muito legais também e... eu gosto muito de ouvir sobre religião, de estudar sobre religiões, de ver as diferenças e as semelhanças e do que tem de bonito… o muçulmano… quer dizer, sempre tem um ensinamento muito legal e muito parecido com o cristianismo das religiões…

P/1: Você pode falar dessa experiência com Deus, talvez no período da infância? Contar algum caso…

R: Aí… eu vou contar do meu filho, né. Eu fui mãe aos 21, casei com 20, né, fui mãe aos 21. E o meu filho nasceu muito prematuro, muito, muito prematuro. Foi na época que a minha mãe morreu e tal, né. E ele… é… é, não sei se eu conto isso… eu vou contar e vocês… não sei se vai ser legal… Mas assim, eu casei com o pai dele que conheci no CEFAM; aí ele era evangélico também, sabe aquela coisa? aí, casamos! Apaixonadíssimo. E logo engravidei. Acho que engravidei no segundo mês de casada; ele falava assim: “olha… eu acho que não vou poder ter filho, não sei o que lá, tenho algum problema…”. E eu falava: “não… se for para vir, vai vir, se você não puder, vai ser um milagre, vai vir um filho e tal”. Eu sei que engravidei e não acreditava que estava grávida (risos), porque eu acreditava mais que ele não podia me engravidar… E aí, depois, descobri que estava grávida e enfim… Só que foi uma gravidez muito complicada, quase morri e o meu filho também…  E eu lembro que na sexta-feira o pai dele chegou e: “ai, eu quero morrer…” e subiu na laje, que a gente tava construindo um puxadinho ainda no Paraisópolis, nessa época… “aí eu quero morrer, não sei o que, tô muito triste…” e não falava o porque ele queria morrer; “ai porque que eu casei, pra ter te engravidado…” aí aquilo acabou comigo, só que… hoje eu sei que aquilo acabou comigo, só que na época eu fiquei tão preocupada com ele… “mas amor, porque? não sei o que…”. Eu sei que eu entrei em trabalho de parto e não sabia… E ai querendo que ele ficasse alegre, muito preocupada, sem noção do que ele passava, depois vocês vão saber, ele… a gente “ah, vamos passear para você melhorar” e aí a gente tava no Solo Sagrado do Guarapiranga, passeando e tal… e meu filho mexeu legal e senti uma dor e falei: “nossa, ele vai nascer aqui”. Mas falei de brincadeira, gente, porque eu tava… não tinha nem sete meses ainda. E isso foi no domingo, eu tinha começado o trabalho de parto, sem saber, na sexta, na hora desse… que ele subiu na laje querendo se matar e não sei o que… E aí, quando foi na segunda, era minha consulta mesmo, já tava  marcada, consulta marcada e eu tava muito bem. Primeiro dia que eu tava bem na gravidez foi na segunda, que eu não senti enjoo nem nada… porque eu sofri muito na gravidez. Aí cheguei no hospital, que eu tava sozinha, minha mãe: “quer que eu vá com você?”; “não mãe, deixa eu ir sozinha e tal...”. Aí o médico atrasou, não sei o que… a barriga dura. Quando ele foi fazer o primeiro exame de toque eu já tava em trabalho de toque e o menino nasceu logo ali, quase, sabe. E “nossa, é muito risco, esse hospital não tem… o bebê dela é muito novo, vai morrer, não sei o que…”, enfim… tive o meu filhinho e com muito medo dele morrer e ele grave, pequenininho, todo roxo, não sei o que… Sei que conseguimos sair do hospital e ele foi transferido depois. E na ambulância ele teve várias paradas, várias paradas, várias paradas, e aí eu falei: “Ai, Jesus, não deixa o meu filho morrer, me da uma luz, qualquer coisa…”. Eu tava muito aflita e ai apareceu, isso eu atribuo à fé, apareceu num um carro: Jesus é esperança. E aquilo gente, até hoje, mas eu senti uma paz tão grande que eu senti: “meu filho não vai morrer”. Aí depois o meu filho piorou, os médicos me chamaram: “não tem mais jeito, tudo o que a gente podia fazer, já fazia, pode se despedir dele… Se vocês tiverem um deus, uma fé, apela aí para a santa que vocês puderem, porque a gente já não tem mais o que fazer, ele é a criança mais grave desse hospital inteiro”. E a gente veio orando, veio para casa chorando muito e a minha mãe orou e falou: “não, Deus, não sei o que”... Ai sei que ela orou na igreja e alguém viu um anjo e falou assim: “olha, eu to vendo um anjo passar”, gente assim… tô resumindo muito mas assim… o pai dele tinha visitado ele no domingo de manhã, mais uma vez os médicos desenganaram: “olha agora ele pegou pneumonia, o pulmão dele está muito verde”, ele não podia comer se não morria, então já era, assim… o médico mesmo falou para ele “se despede do seu filho porque se o caso dele já era grave, ele ta com pneumonia e já era…” não falou já era, mas falou assim “a gente não tem mais o que fazer, não depende da gente”. E ai falou de novo: “apela”. Isso a gente ouviu umas três vezes, essa foi a última. Aí a minha mãe orou na igreja lá, chamou a galera e a galera levantou e a alguém falou assim: “nossa, Deus está curando ele agora, passou um anjo”. Alguém viu, teve uma visão na igreja orando. E eu orando em casa e chorando pra caramba com o pai dele. E aí quando foi o outro dia, era dia de visita, o hospital não ligou, eu falei: “não morreu, né”. Ai no outro dia que eu cheguei lá, cadê? a incubadora tava vazia, e quando ta fazia, já tava na uti, aí já era, você fala: “nossa… o que que aconteceu, né?”. Só que me deu alguma coisa e eu falei que não né, Deus falou que ia curar ele ontem… alguém viu na igreja, teve uma visão… E quando eu cheguei ele tava fora da UTI e já tava tudo bem do nada. E no domingo ele foi desenganado e na segunda não, e teve aquele episódio da oração e tal, da fé. Eu atribuo muito isso, a…  é uma das experiências né, de milagre. Depois ele voltou para a UTI, aí minha mãe faleceu. Ele saiu da UTI e minha mãe faleceu em um acidente. Minha mãe era tudo para mim, tudo… E assim, ela cuidava de mim e do Nicolas e um mês depois que ele saiu da UTI, ela faleceu num acidente.

P/1: Aqui em São Paulo? 

R: É, aqui em São Paulo. Eu moro aqui desde os meus oito anos. E aí ela faleceu na Giovanni Gronchi, dois muleques passando de bicicleta trombaram nela, atropelaram e ela bateu essa parte e faleceu ali mesmo, rapidamente. E logo o meu filho voltou para a UTI de novo, e aí  pulmão paralisou, o médico chamou de novo, falei: “ih, já era… ele está com três, quatro meses, quase quatro mesmo… já era.”. Eu não falava já era, tá gente? são linguagens minhas… Ele tá muito grave, o pulmão já paralisou e agora a tendência é paralisar os outros órgãos. Aí eu lembro que o médico foi visitá-lo e eu comecei a orar na hora, o médico começou a passar a mão nele assim e eu falava: “Deus, que tuas mãos passem também e tananã…”. Sei que eles fizeram exame e imediatamente estava tudo bem. Então assim… e eu falei: “isso é milagre! é fé no Deus que ouve, é fé no Deus que crê ”. No Deus que creio, na minha fé que eu acredito, então assim tem outro episódios, muitos outros de tristeza, de milagre… Por exemplo, estar onde eu to hoje, uma menina que nasceu no interior da Bahia, pobre de marré deci, morou na favela, estudou na escola Homero, os professores não... a gente quase não tinha, porque naquela época tinha muito tiroteio naquela época dos anos 80, 90, na favela Paraisópolis tinha muito tiroteio e os professores não iam lá, os professores que eram formados tinham medo de ir, então não era… tinha toque de recolher e tal, e aí eu tive uma educação precária neste sentido, e com tudo isso eu consegui passar em primeiro lugar no ensino médio do CEFAM. Só que eu atribuo isso à leitura, quando eu falo “a leitura me salvou”, porque que a leitura me salvou? porque desde pequena com o incentivo de ler a Bíblia em casa, da minha mãe, da minha irmã professora e chegar livro… a minha irmã mais velha era muito apaixonada por leitura, já morava em Ipirá, já mandava muitos livros pra lá, então eu não tinha TV, eu lia, lia, lia, então a leitura me salvou, o que faltou de outras coisas de alguma forma a leitura compensou. Mas não compensou tudo, mas compensou muita coisa de… eu atribuo isso ao milagre também, os meus pais criarem 13 filhos nessa educação cristã, ninguém foi para as drogas, ninguém foi pra o crime, numa situação tão precária que a gente vivia na roça e na favela. Então esse milagre que eu falo de deus, essa educação que a gente teve também, tanto do caráter dos meus pais, mas dentro da igreja, que não podia beber, nao podia fumar porque era pecado e tal, tal, tal, sai pra ter certas amizades também era pecado, então isso de certa forma nos salvou, e a leitura me salvou. E hoje eu tô fazendo mestrado, tô terminando já, to em seis meses eu concluo o mestrado na PUC-SP, com toda essa defasagem do meio tão precário de onde eu vim, sendo a décima terceira filha ,morando em barraco de madeira por muitos anos, e hoje eu já tenho o meu apartamento quitado, tenho o meu carro quitado, tenho um salário… professor ganha mal e tal, só que assim, do Brasil eu tenho um salário muito legal, sou professora do Município de São Paulo, passei no concurso, muito difícil, 46 mil pessoas prestaram o concurso e foram chamadas, na minha época… cinco mil e poucas pessoas, eu fui em 800. Quer dizer, a menina que vem da Bahia, que vem da favela, que teve toda… um monte de irmão, ficou em 800 num concurso da prefeitura de São Paulo. E assim, essas coisas vem, de certa forma, a gente é fruto de uma história de vida, a história familiar é muito determinante. Então por isso que eu falo da minha fé, nessa educação cristã que eu tive nesse sentido. Não sou uma pessoa religiosa,  nossa sou religiosa… Não! eu tenho minha fé em Jesus Cristo, Deus, Espírito Santo é tudo, é base da minha vida, mas eu, eu gosto muito das outras coisas que tem nas outras religiões. Porque Deus é muito múltiplo, ele é um deus único mas é múltiplo em amor, em sabedoria, ele fez muita gente diferente, nós somos todos muito diferentes. Por mais que nós tenhamos semelhanças, nosso DNA não é igual, nossa digital não é igual. Entao não sou religiosa só que eu gosto muito desse assunto, principalmente de aprender sobre as outras religiões. Mas a minha fé tem esses milagres, eu gosto desses milagres. Tem um professor que fala que eu sou fora da curva: ‘Você é fora da curva’ (risos). Mas é isso, então do meu filho foi isso. Depois que eu fui descobrir, com dez anos de casada, que o pai dele era homossexual, que tinha sido abusada na infância durante quatro anos… não tô falando que foi, virou por isso… é outra história. Ele fala que foi, ele fala: “(inaudível), mas eu gosto…”. Tanto que hoje ele é casado com o parceiro dele, de certa forma meu amigo, virou meu amigo e tal. Ai hoje eu sei porque ele queria se matar, ele tava apaixonado por um cara do trabalho… Mas não me falou, vim descobrir depois, aí veio outro trauma que eu tratei também, depois ele tentou se matar na minha frente e na frente do meu filho, por que eu queria me separar e ele não queria, porque ele gostava desse padrão social de família, dizia que me amava que amava meu filho, que ele sentia muito bem nisso. Só que sexualmente isso não satisfazia, só que ele queria manter os dois. Só que não era possível. E ao mesmo tempo ele não queria se separar porque para ele doía muito, ele… essa sociedade é muito perversa e ele não queria enfrentar, e enfrentar é muito difícil, mas ele não queria. Então ele fez isso, nao sei se hoje isso foi chantagem para a gente ficar com ele, nao sei o que foi, ou se foi muita dor que ele tinha. Mas até hoje acho que ele não lida muito bem com isso, ele não se sente confortável em ser quem ele é porque ele acha que alguém foi culpado dele ter sido abusado e ele gosta disso porque ele foi abusado. Eu nao sei como está hoje esse trauma, já faz um tempo que a gente se separou em 2010, 2011. Mas é… meu filho nascer antes, foi desse foi desse, desse problema que ele tem, que é gerado pela sociedade, do pai dele. Casou por que ele queria ser normal, eu falo: ‘você é normal, você tem que se aceitar’. E depois foi uma correria para ele se aceitar, eu ajudei nesse sentido. Mas ele não queria se aceitar, não queria enfrentar a sociedade e ai jogou para gente essa dor também de outra forma, aí vem outra dor que você descobre a mentira, que mentiu, que enganou. Mas aí tem a dor dele, mas ai tem a dor que a sociedade já faz todo mundo passar, que já é pobre, já é preto, já… é um bolo nisso… Então já é outra história da minha vida que eu já superei também. Mas tem dor também, trago dores. Porque cada um tem suas dores, né. E essas dores, para mim, são todas provocadas por uma sociedade doente que a gente tem, de não aceitar as pessoas como elas são. Ou oprimir o máximo que puder para se sentir alguém. Eles assim, a sociedade, quando fala sociedade é a parte podre mesmo da estrutural de manter povão lá para a gente pisar e a gente no topo da pirâmide, sabe? perpetuar essa estrutura. Mas é uma sociedade hipócrita, doente, com tanta gente, sei lá, com os homossexuais, com todas essas esferas políticas, sociais e culturais. Só que, muitos escondem porque acham feio, então acha feio, todo mundo tem que achar feio, todo mundo vai achando que é feio ser gay, que é feio ser lésbica, que é feio ser preto, que é feio ser pobre, que é feio a cultura… Então é isso que eu acho doente nessa sociedade e a gente é fruto de tudo isso. Só que quem sofre é quem tá aqui. Só que quem ta em cima que tá no armário também, ou no armário do… sei lá… aí, eu posso falar o nome daquilo? depois vocês tiram. (risos).  Mas assim, essas pessoas poderiam ajudar e perpetuam essa doença, ajudam a continuar essa doença. Então tem gente que se mata porque gosta de pessoas do mesmo sexo, tem gente que se mata porque é preto e se acha feio, tem gente que se mata por que é japonês, entendeu? Então é a minha história, todos os lados que você imaginar tem dessa doença que a gente tem, que eu aprendo a conviver, a superar, a ser feliz. Eu me considero uma pessoa bem feliz, animada, para cima. Apesar das dores, mas eu sou. Então a minha fé, as orações, as meditações, a presença de jesus me dando força para superar vários obstáculos são vários, eu sinto hoje na minha vida. Então assim, eu tenho uma força que eu atribuo a Jesus, eu acredito muito, uma serenidade que vem dele, essa… lidar com a minha dor vem dele, uma paz, um amor que eu sinto… pode acontecer o que for no mundo, eu posso estar sozinha, sem ninguém ao meu lado, mas eu sei que Jesus estará comigo. A presença dele vai tá me acolhendo, vou tá no colo dele. Por que Jesus me vê como uma pessoa, ele não me vê como uma mulher, uma negra, nada. Ele me vê como uma pessoa como te vê, como ele vê o seu amigo. Então a minha fé me sustenta nisso, então a minha base é isso, é. Eu não vou à igreja, pra sentir a presença de Jesus. Tem muita igreja que eu critico mesmo, num guento, entendeu?! Então é… só que a herança que os meus pais deixaram e que eu escolhi e que faz sentido para minha vida, é essa. Eu tenho um consolo que só vem de Deus, que é o Espírito Santo que vai lá e: “Calma, filha. Aguenta mais um dia, vai dar tudo certo, olha para outras coisas, olha para outras pessoas”. Isso vem de Deus. E ter uma educação que poderia ser muito… sabe? essa questão que o evangélico tem: não aceita negro, não… não aceita negro, não; não aceita gay, não aceita não sei o que…. A minha mãe, não! Na minha casa já morou uma lésbica e um gay porque a família não aceitava e meus pais acolheram; os meus pais eram já idosos, meus pais não tinham educação formal, meus pais eram “evangélicãos”, só que na minha casa era assim: vinha todo mundo!. Minha mãe era amiga da mabumbeira, já as vizinha não… minha mãe era amiga dela, ela tava no enterro da minha mãe, sabe assim? a minha mãe era… podia ser quem fosse, minha mãe não… Eu lembro que tinha um amigo nosso que era aidético, né… ele tava com vírus HIV, eu tinha acho que uns dez anos, ele foi em casa, minha mãe foi com ele no mercado, e ele era bem afeminado, mesmo. E eu, criança, mas olha só, na estrutura: “ai que vergonha, minha mãe ta com ele, ele fala assim, todo não sei o que, tá doente”. E minha mãe abraçando ele no mercado, lembro até hoje, no Paes Mendonça e eu assim: “ai meu deus…. que vergonha!”. E minha mãe, não. Abraçando, acolhendo. E isso eu trago deles. Ou seja, que lindo que a minha e meu pai tinham Jesus de outra forma. Eles eram de igreja e tal, mas eles acolhiam pessoas, fosse aidético, fosse homossexual, fosse quem fosse de outras religiões. E eu lembro que o meu pai falava assim: “você pode ser amiga de todo mundo, só não vai fazer o que eles fazem”. Bandido? ia bandido na minha casa, só que era um respeito que eles tinham pelos meus pais, e meu pai falava: “somos amigos, só que não vamos fazer o que eles fazem, eles vem aqui, a gente dá um prato de comida, a gente ouve, só que vocês não vão fazer o que ele faz. A gente pode ser amigo de todo mundo, só não precisa fazer o que a pessoa faz. E isso é de você, vocês tem que escolher, vocês tem educação, vocês tem que fazer o que é certo…”. Só que o que é certo era não roubar, não matar e trabalhar. Esse era o certo. Eu cresci nisso. Então essa coisa de receber Jesus dessa forma, e de ver as pessoas do jeito que meus pais viam é muito… para mim é muito cristão isso, isso é cristão. Cristão não é eu não te aceitar por conta da sua sexualidade, ou por conta da sua religião… não é, Jesus é bem o contrário disso. Essa bancada da Bíblia. Nossa! que que é aquilo?: “ai, Brasil país cristão, família brasileira”. Família o que? o que que é família? Por que eu separei, criei o meu filho, somos uma família, depois constitui uma outra família, hoje sou casada com um japonês e tal… Mas assim, é outra família mas é família brasileira. Por que é mãe, pai filho… não sei… Meu ex-marido, Flávio, a mãe dele criou ele sozinha, ele só tinha ele e a mãe dele e era uma família. É família… Então que família? o que é família? o que é cidadão de bem?. Então eu questiono muito. E quando leva para esse lado da religião aí me revolta, então por isso que eu acho que não consigo frequentar a igreja, por causa dessas coisinhas, entendeu? assim, eu respeito todas as famílias, todas, família, família, não importa, né. E eu acho que ainda tem um pouco disso em algumas igrejas… eu não vou falar de todas, tá, porque tem igrejas muito legais, que você vê ali que acolhe todas as diferenças, como meus pais faziam, apesar de serem de igreja tradicional. Mas a igreja, tem muitas que… Se eu tô na igreja, tem muitas que… Ai, se eu to na igreja e encontro pessoas que… Mas aí é um erro meu, que eu tenho que aceitar tudo (risos), mas eu não aceito muito dentro da igreja a pessoa ter um pensamento muito limitado, que não é o pensamento de Jesus, porque Jesus era isso aqui, ó, todos, todas… é isso… Mas a minha fé eu acho que me sustenta nisso, de ter essa serenidade, esse olhar para vida desta forma mais… num olhar de aceitação, de consciência, de resistência e… que meus pais não era bobinhos não, tudo para eles eu acho que era resistência, eles acolherem as pessoas que era um ato de resistência; eles terem sido honestos na criação dos filhos era um ato de resistência;  eles defenderem a fé deles também era um ato de resistência, seja lá como for. Então a minha vida é meio pautada nisso daí. Gente, eu acho que eu falei muita coisa de umas coisas e parei de falar de outras, né?. 

P/1: É verdade, tranquilo… É, uma coisa que eu costumo perguntar para as pessoas mas que eu costumo perguntar da infância, assim...

R:  Pode, vamos voltar lá. 

P/1: Qual é a sua primeira lembrança? a lembrança mais antiga que você tem?

R: Da infância?! gente, veio um monte. Ah, veio da roça né, eu correndo, fazendo… querendo a chuva, porque lá era uma região muito seca da Bahia, era a caatinga. Chuva lembra muito a minha infância, toda vez. Porque chuva era uma alegria, toda vez, porque chuva para gente era dinheiro; porque chuva ia brotar o feijão e a gente não ia passar fome, porque tinha época da gente passar muito… não fome, mas necessidade, mesmo. E aí, chuva era água limpa, era barro pra eu brincar, então: “vai chover!!!”. Porque uma vez por ano, duas acontecia do céu ficar preto, então chuva, brincar na chuva… Correr, ficar olhando o formigueiro, nuvens no céu, mato… mato, cheiro, barro, chuva, roça: isso me lembra muito a minha infância. Livros, também. Mas aí já era um pouco maior, né. Gibi, ficar lendo as folhinhas, eu lembro que a minha mãe deixava eu ler todo, tudo quanto era tipo de livro que era Sabrina… essas coisas que falam de sexo, sabem aqueles lá… aquelas coleções que vocês nem leem, que vocês não são contemporâneos, mas na nossa época era muitas que… eu lia, eu lia escondida, eu era muito precoce. Gibi, também; eu era viciada em gibi, tinha que ler gibi escondido e livros… gibi, tudo quanto era coisa de leitura eu gostava. Rádio, ouvir rádio, notícias, isso até hoje eu adoro, adoro, assim… Então o que eu lembro da minha infância é isso: Roça, que eu falei mais né, vaca, cachorro que tinha na roça, galinha…; livros, aí já mistura lá muito com aqui; roça, livros… o que que eu falei mais? acho que é isso…. Música! música também, que era cantar o tempo todo na minha casa, eu cresci ouvindo minha mãe cantar coral, meus irmãos tocarem violão… É música, roça e livros. É isso. E roça coloca aí, chuva, cheiro da chuva (suspiro), que hoje eu sei que é terra molhada, mas aquele cheiro fascinante… E assim, muita música, meus pais, gente…. muita gente… Minha infância acho que se resume nisso. 

P/1: Você pode falar um pouco do seu trabalho, também. 

R: Ah, do meu trabalho! hm… Eu trabalhei, desde que eu me formei no CEFAM, eu fiquei um tempo sem trabalhar para cuidar do meu filho, tal…. Mas eu trabalhei em escolas, em creches, na favela, na periferia e em escolas do Jardim Europa, aqui e tal. Então eu fui dum… 

P/1: Vários lugares…

R: É, vários lugares. Depois eu passei num concurso em Itapecerica da Serra, que foi em 2007, quando comecei a faculdade de pedagogia e aí dava aula pra primeira e quarta série. Longe pra caramba, Itapecerica da Serra. Aí em 2010 passei no concurso de coordenadora pedagógica, assumi também, já virei coordenadora, mas aquilo não gostava muito, eu já gostava mesmo era da sala de aula. Foi legal a experiência de lidar com um grupo de professoras, era uma escola grande, né, e eu lidava com muitas professoras, assim… eu era muito novinha ainda, né, de 29 para 30 anos. Para mim era uma grande responsabilidade, mas eu assumi o cargo porque eu tava na época da separação e eu precisava ganhar mais (risos), mas ai eu fiz o concurso de São Paulo e eu esperava São Paulo me chamar porque ia ganhar bem mais e trabalhar do lado de casa. Eu adorava alfabetizar, alfabetizava muito com música, com poesia e com brincadeiras… Eu levava as crianças muito… Essa formação do CEFAM de formar a gente fora das quatro paredes da sala de aula eu tenho na minha prática até hoje. Então em Itapecerica, com os maiores, que eu era a alfabetizadora, eu levava muito, eu brincava muito com eles, pegava giz: “vamos fazer uma brincadeira, lembrar palavras!’; eu me fantasiei, um dia de bruxa, um dia de fada, chegava na sala de aula cada hora de um jeito. Usei muita música, poesia e a dança para alfabetizar. Minha turma, assim, sem modéstia: saía produzindo textos, pequenos textos e grandes textos, porque eu trabalhei muito a questão da interpretação. Não era só aprender a ler, era aprender a interpretar, você tá lendo o que? interpretar figuras, músicas, cenas, né. Então eu levava muito para a sala de aula na alfabetização. Aí em 2011 eu assumi a prefeitura de São Paulo, já com educação infantil, (inaudível) professora de educação infantil, que é de zero a quatro anos, que é foi a minha paixão, que falei: “eu quero voltar para a educação infantil de base, mesmo”. Voltei hoje sou (inaudível), e trabalho muito com a música, com violão, com o meus bebês. E bebês, sim, sabem ouvir histórias, você faz um trabalho muito bonito quando você leva a música para a sala de aula, que é muito raro na escola, é raro professores que toca algum instrumento, em todas as escolas públicas. Existem em algumas? sim, mas é raro. Escola de bebes, creches, sim. Ah, mas eles… não. Da! A gente trabalha com música, eles cantam, eles se expressam e dependendo da idade que eu pego eu trabalho muito com isso, adoro. Com contação de história e com teatro também, que eu não consigo contar uma história e ficar só nisso, aí tem dia que eu tenho que fazer a voz do lobo e a voz da chapeuzinho. Essa, essa… isso que na minha formação teve, na minha igreja também, né, não falei mas na minha infância eu sempre fiz muita peça de teatro na igreja, sabe, de cantar…  Então essa coisa que tem da minha formação de pessoa e da minha formação técnica no CEFAM, e depois, posteriormente, foi menos mas foi na pedagogia, de trabalhar na sala de aula, levar a arte. A arte em forma de música, em movimento, de mudar a voz. Isso tem o tempo todo na minha sala de aula, é meu, não consigo dissociar. Então quando falam: “ah, a professora…”, não, é que eu gosto mesmo de música, em casa eu toco, faço vídeo, toco violão para mim, toco para as crianças, eu gosto de teatro, eu gosto de…. Então isso tudo tem na minha sala de aula, inclusive, foi esse mês, ainda, julho. Não, 28 de junho teve a Jornada Pedagógica que é um evento bem importante da Secretaria Municipal da Educação, e cada DRE, o que que é DRE? Diretoria Regional de Ensino, então a prefeitura de São Paulo tem a Secretaria Municipal que manda em todas as subdivisões, então eu sou da DRE Ipiranga, né, a DRE Ipiranga é a diretoria regional que cuida das escolas municipais da região central de São Paulo. Então eu trabalho na Bela Vista, que é onde eu moro, desde 2013 eu moro lá mas trabalho nessa escola há três anos e na Rua 13 de Maio, que é o CEI 13 de Maio. Treze de maio (risos)… E lá, então, eu fiz um curso falando de novo currículo que é um documento da educação infantil de São Paulo. A educação Infantil, gente, no Brasil, é muito novo porque antes era da assistência social e agora passou para a educação, né. Antes quem cuidava a assistência… não era considerado educação essa etapa dos zero aos seis anos, era da assistência social e desde 91 passou para a educação. E aí, nós inauguramos o nosso… inauguramos, não, nós lançamos o nosso currículo para educação infantil, agora. E aí fui fazer um curso, fui sorteada, graças a deus (risos), para fazer esse curso. E aí eu fiz o curso com as formadoras da rede, né, da rede municipal. E aí eu falei sobre o meu trabalho e eles falaram assim: ‘nossa, seus alunos cantam?’. E eu falei que sim, eles cantam, se expressam, eu trabalho com karaokê, também, com microfone e tudo… karaokê assim, com microfone acompanhado com violão. Aí eles falaram assim: “você pode trazer seus alunos nessa jornada?”. Jornada Pedagógica é um evento onde os professores têm palestras, os professores da rede municipal, e onde a gente também pode se inscrever e relatar as nossas práticas, como que é o trabalho… práticas pedagógicas. E aí eu fui convidada com os meus alunos, e aí eu fui, a prefeitura mandou um ônibus, foi todo mundo chique né, os pais acompanharam… e nós fomos nisso agora, com os alunos muito pequenos, de três anos, e eles cantaram num palco pra 500 pessoas, inauguramos ali, inauguramos, não, a prefeitura alugou a UNINOVE, e aí teria muitas palestras nesse espaço, nesse auditório, e nós cantamos lá, as crianças se expressaram… cantamos músicas brasileiras infantis, cantiga de roda… E foi muito interessante. E isso é um reconhecimento, né, o pessoal vê criança pequena como “ah, é criança pequena!”. Não! criança pequena entende, já é um ser que é, que é capaz, que precisa ser ouvido, que tem a sua personalidade. A criança não é o que vai vir a ser, ah vamos trabalhar com ele porque ele vai ser… Não, a criança já é, então essa é a minha concepção de criança, criança é!, ali naquele momento ele já é um ser que pensa, que fala e que produz cultura, ele é fruto de uma cultura, mas ele produz uma cultura. Bebe, sim. Porque ele é fruto de tudo aquilo e ele faz, porque ele já é. Não é que ele vai ser uma pessoa, ele é uma pessoa que tem voz e tal. Então trabalhando essa questão. Então meus alunos foram lá, cantaram, se expressaram num palco para sei lá quantas pessoas e alguns pais acompanhando, porque a gente tinha aquele medo, né? eles nunca fizeram aqui e nem eu nunca fiz aquilo com crianças tão pequenas. Mas foi muito gostoso, foi bem legal. Então na minha sala de aula tem isso, tem música, tem alegria, tem dança, tem movimento, tem batuque; e na minha sala de aula eles ouvem pagode, eles ouvem samba, eles ouvem música da umbanda, candomblé, música evangélica. Sim, tem bastante. Bastante também música de mantra, budista, hinduísta, tem também. E muita… muita… agora a gente tá trabalhando com Vinícius e Toquinho, né. Então tem também isso, tem Vinicius, tem Toquinho, tem MPB, tem pagodão… e agora eu descobri MC Soffia, né, hip hop… tá tendo hip hop na minha sala de aula. Então eu trabalho muito com esse resgate cultural da nossa cultura brasileira, músicas regionais têm também. Agora a gente ta com um projeto, nesse semestre a gente vai tá com músicas regionais, mas quando a gente  fala da questão cultural musical, vai mais ampla, trabalho com músicas não só do mundo, quando vem, quando acha alguma coisa legal ou quando os colegas trazem, mas de todas as religiões. Eu gosto disso, de usar as religiões… A escola é laica, se ela é laica e temos alunos de todas as religiões, todas as religiões serão ouvidas ali em forma de música. Não prego, ninguém para e nem nada de: oh, vamos agora ouvir… Não. Gosto de colocar música de várias partes da África, de vários estados, né, de vários países, inclusive: músicas angolanas, músicas nigerianas, têm músicas indígenas que agora já to coletando, coletando mesmo, assim, procurando músicas que como música indígena trabalhava no Brasil que seja fácil para eles cantarem… É… Eu tenho uma criança que é de Cabo Verde e agora vou chamar a mãe dela para apresentar as músicas de Cabo Verde… ai tenho criança que é filha de italiano… como a Rua 13 de Maio, o CEI 13 de Maio, não é um CEI que… os pais assim, 99% tem curso superior, moram ali na região, então é um público bem formado e informado e com a… classe média, né, classe média. É escola pública mas com um público diferenciado. Muito diferente do público que eu trabalhei no Capão Redondo. Já trabalhei no Capão Redondo, Campo Limpo , com esse público também, nessa… no CEI, o que que é CEI? CEI é Centro de Educação Infantil, a gente não fala creche, a gente fala Centro de Educação Infantil. Trabalhei também lá, em 2013 Capão Redondo, 2011 Jardim… Parque Regina, Campo Limpo e tal, e depois eu vim para o Cambuci em 2014, trabalhei no Cambuci e depois na Bela Vista que é onde eu tô hoje. Mas essa questão de trazer muita coisa para a sala de aula e trabalhar com movimento, dança e alegria, é a minha prática também, acho que se resumi nisso também, porque aí dá para a gente trabalhar muita coisa, né. Sou muito preocupada com a questão… porque eu falo de expressão? da criança de expressar com alegria? Porque eu fui muito calada, então na minha terceira série eu não podia falar, eu era preta, feia... e porque que eu gosto de trabalhar com essa multi? para todo mundo se sentir valorizado, todo mundo se sentir ouvido. Príncipe negão, olha que princesa negra, eu falo, negra linda, olha que príncipe negão, negão, negro, mas coloco o negão mas um negão poderoso e negro e negra. Tem muito isso no meu vocabulário, ah mas… trabalho com isso, vamos colocar as paredes das cores: “olha sofia, você é o que?” “aí sou rosinha”; “ai que linda você é rosinha”; “e você? amarelinho? ai que lindo amarelinho… branquinho? ai que lindo, branquinho… e você? ai, morena, negra!”. Eu não coloco assim, o negro em primeiro lugar, Eu valorizo todas as cores, porque vai ter criança que vai se sentir feia branca, feio moreno, feio negro, eu não faço essa coisa de supervalorizar um, eu valorizo todos. Eu valorizo bem o negro porque o negro socialmente é o mais desvalorizado, só que os outros também vão se sentir valorizados. Então agora, eu até fiz com eles antes das férias a paleta das cores, então a gente ta pegando pessoa de vários tons e tonalidades, né, que aí a gente vai montar a paleta de cores de pessoas, pessoas com essas diferentes. Então não se resume na diferença da música, é na cor da pele, do jeito de falar... ninguém vai rir de ninguém na minha sala, nem dos grandes nem dos pequenos, agora eu to com os pequenos. Tudo o que é diferente a gente valoriza! “nossa, o cabelo da Rossaianatu (similar)”, que é essa minha aluna de Cabo Verde, “ai que lindo, parece o cabelo da Berê”. E assim, outra coisa que eu levo muito para a sala de aula: eu uso muito turbante, de vários jeitos. Turbante que eu faço, turbante comprado. Uso muito turbante, uso muito flôr, uso muito faixa. Cada dia eu to de um jeito, eu sou multi, eu acho (risos), eu me considero multi. Multi em tudo assim, não tem um… um dia você vai me ver assim, outro dia você vai me encontrar na rua e eu já to de outro jeito. E isso eu levo também para a sala de aula, e os pais comentam: ‘ai Berê, eles veem uma negra na TV e comentam ai que linda é negra igual a Berê’. Criança pequena fala isso: “ah mãe, compra essa flor para eu colocar no meu cabelo; ai eu quero igual o da berê; roupa colorida…”. Eu também uso muita roupa colorida… É uma forma de ser em sala de aula o que me foi construído para ser, construída, é… valorizar essas diferenças mesmo, as multicoisas que a gente tem. Mas é saber que você é negra, que você é branca, que você é rosinha… Outro dia uma menina falou: “minha mãe falou que eu sou rosa”; e eu falei: “que comida você parece?”; “iogurte”; “ e o Pedro? professora que cor que o Pedro é?” e eu falei: ‘Branco, o Pedro é branco’; “que comida?” aí eu falei: ‘copo de leite!’; “e a Maria?”; “ela é mais amarelinha, parece doce de leite”; “e você, professora?”; “ah, eu pareço chocolate ou então café, ah chocolate ao leite” (risos). E a gente brinca com isso, para eles não crescerem como eu: perdida, me achando feia, sabe, alguém rindo de mim. Porque? ou é o jeito de falar e tal… E a música consegue trazer tudo isso, trazer todas as diferenças, valorizar cada uma mas deixar todas bonitas… a música assim, a música do samba, a música do pé, a gaúcha que é mais tal. Eu acho que é… o que eu trago para a sala de aula não dissocia da pessoa que eu sou como mulher, como mãe, como amiga e como profissional. É tudo... eu sou fruto da minha história de vida, tanto eu professora, quanto eu amiga, quanto eu tia, (inaudível) conhece bastante, quanto eu mulher, quanto eu cidadã. Eu sou uma só e várias. Sou multi sendo uma só. Então eu não consigo… sei lá… chegar na sala de aula… por que eu não sou isso aqui. Eu sou isso aqui: aê! bom dia! beleza e pá, e vai dar canja! é pra frente que se anda e tal!, pensa sobre isso: ‘ah, to triste…’; ‘tá, sinta sua tristeza, ela é legítima… ta triste? deixa a Mariana lá que ela tá triste... Mariana, tá feliz agora? então vem, vem dançar que passou’.  Eu sou essa, assim, eu tenho os meus momentos de observar tudo o que acontece, tudo não né… quem sou eu para observar tudo?. Mas o máximo que dá, observar por dentro, inclusive, o que tá me chateando, eu sei que eu o com raiva nesse momento de muita coisa desse governo (risos). Tô rindo aqui mas to com uma raiva danada desse presidente que a gente tem. É… então assim, esse é um exemplo macro, né, mas dos micros também, eu sei das minhas dores, dos meus limites, do que me chateia, do que não me chateia, do que me deixa feliz… mas sei das possibilidades, valorizo o que já passou, valorizo as histórias de vida, sabe, das famílias, dos meus alunos, dos meus familiares, dos meus colegas… eu sempre gosto de saber a origem, sabe assim, de onde você veio, de onde você é, como é sua família, para eu saber lidar com cada um… por que eu tenho muitos alunos… eu tenho poucos hoje, mas assim, muito assim, eu tenho dez exemplos, só que cada um é um, cada um tem história, então eu procuro conhecer cada família, sabe, para eu saber lidar com cada dor e cada alegria ali e sair dali e avançar. Como eu tento fazer comigo, né, lógico que a gente anda muito para trás, mas pouca gente anda pra frente e é isso né, a gente saber quem a gente é, de onde a gente veio e o porque que a gente é assim e o que que a gente tem que fazer para transitar melhor nesse mundo. Por que não é fácil, não é fácil não. Mas se a gente souber um pouco da gente por dentro e da nossa história a gente consegue. Então isso eu levo também em sala de aula, procuro conhecer as histórias dos alunos. Estourou o tempo, fio? (risos). 

P/1:  Só pra aproveitar… 

R: Pode perguntar à vontade. 

P/1: Queria saber como foi o primeiro emprego? esse processo de conseguir o primeiro emprego, como que você se sentiu? 

R: Ah… muito legal o primeiro emprego. Eu tava procurando, sai procurando lá no Campo Limpo, né,  Jardim das Palmas, eu e minha amiga, a gente pegou currículo e foi… a gente se formou em 99 e em 2000 a gente começou a andar e procurar emprego com currículo na mão. Nas escolinhas, escolas do bairro… Aí tinha a Escola Lua de Cristal e aí a gente bateu e pra mulher: “ah, a gente tá procurando emprego…”. “Vocês são formadas?”. Por que naquele tempo não era… nessas escolas de educação infantil de bairro não pegava quem era formado muito, e a gente era do CEFAM, tal né. Aí meu salário era R$ 150,00, isso em 2000. Eu trabalhava o dia inteiro, das oito às sete e meia da noite ai limpava… era um monte de aluno de bebê a quatro, cinco anos… e ficávamos eu e minha colega sozinhas com esse monte de bebê e crianças. E aí a filha da dona vinha, que eram duas professoras que eram donas da escola, mas só apareciam lá a noite. Então a dona vinha, trazia almoço pra todo mundo e depois saia. Tinha que levar marmita. Aí eu ganhava R$ 50,00 de passe, passe escolar, já ouviu falar? que hoje vocês tem bilhete, era um passinho escolar (risos) e R$150,00 em dinheiro, então a gente trabalhava o dia inteiro e era feliz: “nossa, meu primeiro emprego”. Só que não era reconhecido, não era assinado nem nada. Trabalhei uns meses, bastante… o dia inteiro. Hoje eu sei que era uma responsabilidade não ganhando nada. Em seguida fui trabalhar na BabyPlace, berçário e escola, que era uma escola bilíngue aqui no jardim europa. Porque? a patroa de uma das minhas irmãs, porque minhas irmãs, todas elas trabalharam em casas de família para pagar os cursos, né, hoje elas… tem uma concursada há uns anos já no hospital estadual, outra no município e outra trabalha no Hospital São Luís há uns anos. Mas todas elas foram empregadas domesticas também para pagarem os cursos que elas faziam. E uma das patroas, no ano 2000 ainda: “olha, minha filha, você tem uma irmã professora? minha filha estuda numa escola aqui no Jardins…”. Jardim Europa ou Jardim América? aqui… Jardins! e ai, ela me levou para lá… e eu era ADI, o que que é ADI? Auxiliar de Desenvolvimento Infantil, por que como eu não tinha pedagogia… só que eu trabalhava…  ei eu já ganhava R$ 300,00, uma cesta básica e trabalhava muito. Por que as professoras trabalhavam umas quatro horas lá e ganhavam R$ 2000 e pouco; e eu trabalhava o dia inteiro, ganhava R$ 300,00 e era… ficava com todos os alunos, em vários momentos, não era com cada… era com todos. Então era uma responsabilidade muito grande. Quando eu entrei nessa escola teve um episódio de racismo, hoje eu sei, teve uma mãe que quis tirar um: “Porque é negra… você vai deixar um negro trabalhar aqui?” e chegou a tirar o menino. Não. Primeiro ela pressionou a dona, só que a dona não chegava em mim e falava: “Ai, Berê, ela não gostou de você”... mas lá dentro eu falei: “mano… negra!” uma loira feia! ô lora feia! E aí, tipo… (risos)... eu sei que ela falou, pra pressionar, que o menino tava com dedo na boca e eu puxei o dedo do menino. Nunca existiu isso! nunca!. E aí eu falei que não, que isso não tinha acontecido, ai: “meu filho falou que você puxou…”, enfim, a dona não me mandou embora e ela tirou a criança da escola. Teve isso mas teve… tinha muitos franceses lá, pessoal de fora porque os pais trabalhavam nas multinacionais da paulista e deixavam os filhos lá. Pelos estrangeiros eu sempre fui muito elogiada: “ai que linda, nossa…”. Porque? porque eu era a única negra trabalhando com criança na escola e só tinha uma negra na faxina, uma negra na cozinha e eu era a negra que eles viam… porque eu tava trabalhando diretamente com os filhos deles, eu era auxiliar. E aí, por esses eu era muito elogiada. Eu lembro que teve uma galera que viajou pra França, voltou e trouxe presente para mim: “Olha, meu filho viu uma Berenice e comprou”, só que ela ficou com a Berenice, ela me deu perfume e tudo e a Berenice era que ela comprou na França com as trancinhas, e o filho se apaixonou pela Berenice, colocou o nome da boneca de Berenice. Aí teve outro episódio de assédio, que tinha um ricão lá que queria me dar carona, queria que eu entrasse no carro dele de todo jeito e tal, ai eu me assustei e sai da escola. E depois… aí eu fui trabalhando em outras até chegar na Prefeitura de São Paulo, aí trabalhei em creches legais já ganhando R$ 700,00,  trabalhei no Paraisópolis, que foi muito importante, poucos meses porque eu engravidei, tive que sair porque eu passava muito mal. Mas eu trabalhei com 35 crianças lá, bem no meio mesmo, no CEI grande no Paraisópolis e aí era legal que eles já pagavam a faculdade, eles já valorizavam assim… E aí foi muito importante trabalhar ali, onde eu tinha crescido, não onde eu tinha nascido, né. Trabalhar com o meu povo, e eu lembro que eu gostava muito, tudo o que eu podia para fazer com aquelas crianças de brincadeira, eu fazia. Eu era muito querida pelos pais e pela gestão, tanto que eles me contrataram de novo, só que eu resolvi não trabalhar para cuidar do meu filho, porque meu filho precisava mais de mim do que eu do emprego. Não que eu não precisasse, né, mas assim, prioridade eu priorizei o meu filho, ficar com ele até ele ter três quatro anos pra ele ficar bem mesmo, aí eu voltei pra vida né, aí eu voltei, fui, fiz pedagogia e to trabalhando até hoje. Mas é… foi bem difícil o começo. É que eu levava muito… tudo eu agradecia muito: “Ai, agradeço ter emprego”. Eu trouxe muito como experiência, eu não trago assim: “nossa, eu fui explorada, né, 150, 300, depois 500, 700, nossa, que exploração …”. Teve? teve. Foi? foi. Era desigual? era. Se eu fosse branca eu seria talvez professora da escola e não auxiliar, mas eu trouxe como experiência, eu transformei nisso, de experiência de vida, de que bom, que bom que foi assim porque hoje eu valorizo muito mais o salário que eu tenho, o lugar que eu trabalho e eu to me formando pra dar aula… ano que vem eu quero dar aula numa faculdade, com mestrado e tal, então assim… mas não quero sair da minha base, do meu emprego, da educação infantil, que eu me reconheço ali, muito né. E… então, tudo o que veio para mim eu trago e foi muito positivo, que Deus me colocou naqueles lugares, quer dizer, possibilitou que eu passasse ali, foi possível eu passar ali para eu valorizar muitas coisas hoje e entender outras pessoas, entender outras formas de vida, outros profissionais e outras pessoas que estão até hoje naquele lugar, né, pra eu não me sentir… não. Então eu acho que todas as minhas experiências profissionais foram muito válidas, e eu comecei assim, ganhando R$ 150,00 há 19 anos atrás (risos) e hoje tá bacana.

P/1: E dessas escolas que você passou, pelo o que eu entendi, você passou por umas bem elitizadas e outras mais periféricas também…

R: Bem periféricas… 

P/1: E quais são as diferenças principais? 

R: Tudo! 

P/1: Pessoas, assim…

R: Não. Público: branco. Das elitizadas. É tanto que na 13 de Maio, escola pública, o povo não era elite, mas tem uma condição de morar ali naquela região, uns moram na Alameda Santos, Jaú, outros moram… poucos, mas tem em invasão e outros são filhos de zeladores. Mas assim, público: branco, escola, né... em sua totalidade. Funcionários, foi pra segurança, cozinha, faxina:  preto. Isso em escola pública até hoje também, maioria, tem muito pretos mas... Professores em escola pública você vê uns negros, poucos, mas vê; escola particular, onde eu passei não vi nenhum. É… mas assim, o que eu percebo muito em todas as escolas, a minoria negra, na minha escola, hoje: nós temos 22 professores lá, 22 ou 26… tá, ativos 22, tem três negras. Poucos homens né, os professores que tem, a maioria homossexuais, sempre maravilhosos. A experiência com eles é muito boa, o conviver, você aprende um jeito de trabalhar que é muito diferente, é muito legal. Mas assim, um público de escola de rico ou escola de classe média: branco. O outro: preto. Preto não, gente, pardo, ai você vai… Quanto mais periférico vai escurecendo e a escolaridade diminuindo, quanto mais centralizado é… vai clareando o negócio. No centro tem muitos bolivianos, chineses, pessoal de outros… sei lá, é… tem lá, tem libanês, tem uma galera assim mais… centro é centro, né? a diferença é que tem muito estrangeiro. Então você encontra um negro francês, aí um. Um que veio da Costa Rica, aí o resto, ai você encontra libanês , não sei o que, boliviano e etc e tal. Isso é muito, muito visível essa diferença. Hoje em dia na periferia você encontra muitos jovens pais… agora esse ano não sei, 2016, mas até essa era do Lula, muitos estavam fazendo faculdade, já também. Apesar de não serem formados, já estavam começando, fazendo faculdade. Então hoje, se você voltar lá, eu converso com as minhas alunas e muitos já tiveram. Então os pais que têm crianças de três, quatro anos, já estão formados, alguns, né, até esse ano (risos), porque nesse novo governo a gente não sabe como vai ser daqui a quatro, oito, seis anos. Mas acho que a diferença é essa mesmo, quanto mais periferia, mais escuro vai ficando, menos escolaridade, o emprego é mais sub, né, e isso é muito impactante mesmo. Você trabalha numa escola no Jardins, até os professores… escola particular, é muito raro… eu visito algumas por conta do meu mestrado. Visitei a Concept agora, uma escola nova que a mensalidade é R$ 8.000,00, a mínima, a mais baixinha é oito mil. Fica aqui no Jardins, na Nove de Julho, bem no começo assim, perto da Rua Groelândia, ali. Eu vi negra na faxina e na portaria. Não vi professor, não vi um aluno, um sequer, de tantos alunos que eu vi. Eu acho que isso é desnecessário dizer mas é importante, olha que contradição: é isso, escola de rico você vai ver branco, escola de… escola pública, maioria negro e quanto mais periférica, que é do racismo estrutural que eu falo, que ta… “racismo não existe…” existe sim, boçal! você sabe de quem eu to falando, existe sim. Quem trabalha com educação, sabe, sabe disso. Tu tem mais alguma coisa?  

P/1: Qual a diferença do seu trabalho com esses alguns… uns.. dois públicos? tem alguma diferença? 

R: Não, não muda muito não. Eu trabalho… eu valorizo bastante assim, a alegria. Porque são crianças. Então a questão das diferenças… o acolhimento das diferenças, tem importância para mim pra mim pros dois públicos da mesma forma, né, você acolher as diferenças quando você é desse público ou quando você é desse, é a mesma coisa. Você valorizar a vida quando você é daqui ou quando você é daqui é a mesma coisa. Você trabalhar com alegria, com as brincadeiras, com o ouvir o público, não muda muito. Agora muda de criança para criança o tratamento sim, tem criança que você ouve mais, acolhe mais, tem mais um jeito de falar. Tem criança que não gosta muito do coiso… muda de criança pra criança, não de público pra público, entendeu? Tem criança que precisa de mais carinho, de mais acolhimento, independente da classe social; tem criança que não gosta muito, então eu respeito muito as diferenças nesse sentido; eu sou o que a criança precisa de mim, ou o que ela quer de mim, se ela quer mais proximidade ela vai ter, se não quer não vai ter, se ela quer mais elogio vai ter, se não… Tem isso, se a criança precisa de mais firmeza e mais limite é assim que vai ser até você entender que comigo não: “você não vai bater na minha cara, entendeu?”. Entendeu? tem criança que precisa que fala assim, tem criança já não, você não precisa nem alterar a voz, mas tem criança que precisa daquilo, pra você… entendeu? existe um limite aqui, você não vai: “ahhhh!!!!” com a criança, também não vai dar peteleco, mas tem hora que você precisa se colocar. Não é só alegria o tempo todo, tem hora que não, vai pedir desculpa sim, tá entendendo…: “você é pai dela? é mãe dela? Não. E nem se fosse. Então vai pedir desculpa, aqui não. Aqui você não vai xingar. Porque você xingou?”. Ai você descobre que a criança passa por uma coisa também. Mas acho que não, não tem. Não sei, nunca pensei muito sobre isso (risos), mas acho que é desse jeito ai… não me vi diferente com os públicos, não. 

P/1: Eu queria voltar um pouco para perguntar… queria que você contasse um pouco dessa questão da autoestima e também.. não sei se é no relacionamento com o pai do seu filho… é, relacionar isso, essa questão da autoestima com os seus amores na adolescência… 

R: Ata…. Muito bem! Nossa, boa pergunta. Na minha adolescência eu não fui aquela adolescente de namorar muito... Mesmo porque, realmente, gente, os meninos… não sei se eu  trazia um pouco daquele… escolhiam mais aquelas meninas mais brancas, do cabelão e tal. E então… o que eu gostava não gostava de mim. Então na igreja eu namorei um menino só e fiquei com outro. Esse outro gostava muito das meninas mais negrinhas, acho que foi o único menino adolescente que eu conheci que ficava comigo e com a minha outra minha amiga pretinha (risos) que ele “nossa, são as globelezas, não sei o que”. Na adolescência eu acho que eu fiquei com um menino assim e namorei com um assim… da igreja. Eu não transitava muito nesse mundo. Nunca fui em balada, antes dos trinta… Trinta anos aí, depois do divórcio, aí eu fui, fui pra balada, Vila Madalena total, escola de samba e tal. Mas não, eu fui…. Eu tinha um pouco disso também. Na escola, imagina, um menino falou não, no curso de magistério no ensino médio que foram quatro anos, majoritariamente mulheres. Alguns meninos, né, homo, poucos, héteros pouquíssimos, e um desses era a minha paixão. E era esse menino que não ficaria comigo por que eu era negra, apesar que falava: “você é linda, é a menina mais popular da escola”. Assim, eu era popular, todo mundo gostava de mim, eu organizava campeonato seja lá do que fosse, organizava paródia, aquela coisa toda… mas era legal pra ser amiga, porque eu era negra. E daí na escola eu conheci o Flávio, então uma das coisas que eu me apaixonei e aceitei logo tudo é que era raro… um menino na escola gostou de mim… Então tem isso também, né, ele falou: “nossa que assumiu e tal…”. De certa forma, eu acho que o inconsciente tinha isso: “eu vou embarcar porque né…”. Nossa, uma negra namorando na escola era raro de se ver. Gente, era raro de se ver uma negra namorando na escola e as mina branca pegava um, pegava outro, negra era raro. E aí… era tudo muito… ele era muito fofinho, muito romântico… hoje eu vejo que ele era muito carente, né, e eu também, eu vinha de uma carência afetiva nesse lado de namoro muito forte, muito grande… E ele eu não sei porque… tinha os problemas dele, mas enfim… E foi bem legal mesmo, a gente vivia… a gente conquistou assim, nosso primeiro apartamento juntos, carro, faculdade… faculdade dele, principalmente, depois a minha. Então a gente conquistou bastante coisa junto. Aí eu casei virgem, tal, a gente se descobriu, ele também era, né, ele tinha 21 e eu 20, depois a gente logo foi pai que foi naquela… naquele contexto todo. Aí durante meu casamento, eu sempre fui muito de conversar, não gosto de brigar, aquela coisa pouca… Eu era menos briguenta, muito menos… hoje eu me coloco mais, já sou mais, não que sou briguenta mas eu já me coloco. Antes eu era mais de agradar… entendeu? Hoje não, hoje eu já me coloco. E quando eu descobri, primeira coisa que veio foi… que ele já chorando e tal… eu falei: “não, eu falei que ia ser sua amiga e eu sou sua amiga, né”.  Ele que se desesperou. Na hora não, na hora me deu um gelo tão grande, uma coisa tão que eu não esperava que me paralisou. Falei: “nossa, preciso acalmar esse menino”, veio, juro que veio isso na minha cabeça. Falei: “nossa, preciso ajudá-lo”. Ele tava tão desesperado, né. E aí na hora veio minha mãe e meu pai acolhendo as pessoas. Foi a primeira cena que veio, falei: “nossa, minha mãe e meu pai acolheram essas pessoas… nossa, mas é o pai do meu filho…”. Aí veio muita coisa, nossa… é o pai do meu filho, o que é que eu vou fazer?. E ao mesmo tempo veio assim… eu não sei o que é ser mulher, eu nunca fui… quer dizer, a minha relação sexual eu não era mulher pra ele, eu era o que… então veio… isso ao longo, né. Ai depois eu falei: “preciso me sentir mulher, preciso transar com homem de verdade, com hétero mesmo, pra eu me sentir mulher… por que então, o que é que eu sou?”... Ao mesmo tempo eu me senti feia, eu falei que ele fez isso comigo porque eu sou negra. Ai eu falei: “porque que você me escolheu?”, “ah porque você acha que eu escolhi qualquer uma? porque você era bonita, inteligente, popular…”. Ai eu fiquei pior ainda, é... porque depois “ah, porque eu te amo, porque eu gosto de você e tal…”. Então veio, sim, minha autoestima foi de certa forma pro lixo, sim, porque achei que era culpa minha… é porque… o que que eu tenho? eu sabia… ah, porque eu não tenho pênis? mas que que era?... ao mesmo tempo eu sabia separar. Ai ficou… foi um conflito muito grande. Ao mesmo tempo que eu tinha dó dele… eu tinha dó mesmo!, que ele queria morrer, eu tinha medo dele morrer… eu tinha dó da história dele, eu tinha uma revolta, porque ele me enganou. Porque que me enganou? porque eu falei com ele: “se você tivesse me falado, de repente eu tinha casado com você mesmo assim, ou não né...”. Mas ai hoje eu já penso diferente, enganou… ai eu não falo mais que é dele, aí é um problema maior né, é meio que social mesmo. Porque a mãe dele quase morreu, até hoje, quando soube que o filho dela…: “tem que acolher, é meu filho”. Mas ela quase… Eu que contei pra ela, porque ele foi internado quando ele tentou suicídio na nossa frente, né. Hoje eu não sei se foi cena, o que é que foi, mas enfim. E ela ficou muito mal. Ai me contou que uma vez quando ele tinha nove anos alguém chegou nela e falou: “oh, seu filho parece uma menina, cuidado” e ela chegou nele e “não, você é menino, tem que… homem é homem, com mulher”. Aí ele falou que pensava em morrer desde a hora que a mãe dele falou isso, porque como ele tinha sido abusado dos quatro aos seis anos e depois com oito anos, ele achou que… o normal na cabeça dele era homem com homem. E quando a mãe dele fala isso: “é errado, é errado, é errado!”, aí ele se matou por dentro e levou essa dor, e tentou casar e toda essa coisa. Ai a minha autoestima caiu. Só que sempre assim, orando, a força de Deus, sabe aquela coisa? E não, e tal… e eu comecei a ler e estudar. E eu tinha muitos amigos homossexuais também que me ajudaram e falavam: “mas porque? Berê, não é você, é o gênero que a gente gosta, não é a mulher que a gente não gosta… é diferente”, “ai mas eu tenho cor…”, sabe, assim, uma… pra vocês entenderem, depois vocês colocam do jeito de vocês: “Berê, não é o seu, né, você é mulher, a gente gosta de…” ai eu tentei… ai eu fui, se eu já tinha amigos, eu me enfiei nesse meio para entendê-los, ai eu comecei a aceitar mesmo e ajudá-lo, nesse sentido. Falei: “não, prefiro você vivo do que você morto e tal tal tal; vai pro psicólogo”. Aí eu comecei até, louca na época, né, eu tinha muito medo dele se matar e eu comecei até a procurar namorado pra ele, e ele começou a sair com alguns, cada final de semana tentando achar alguém legal. Ai eu tinha medo de algum deles matarem ele, que era muito legal, né, na minha cabeça: “nossa, ele é muito legal, bobão, alguém vai enganar”. Mas não, até parece. Bobona era eu. E aí eu falei: “não, você tem que arranjar alguém firme, um cara legal, tal, não sei o que...” mas aí, o que é que aconteceu? nesse mesma época que eu comecei a procurar pra ele, eu já tava: “não, preciso ser mulher e meu filho precisa de mim, não….”. Vinha assim, minha autoestima baixa: “não, eu sou bonita! nossa, eu sou uma negra linda, todo professor da faculdade era apaixonado por mim…”, sabe? ai eu fui atrás também e nunca fiquei sozinha (risos). Aí eu namorei muito!. Aí fui conhecer o mundo, né, gente?. Aí um dia ele veio: “Ai, estraguei sua vida…”, falei: “não! por causa de você eu conheci um monte de pinto, ah que delícia, outra vida. ”. E isso me ajudou, de certa forma, a descobrir a mulher que eu sou. Ai eu fui entender o que era gozar de verdade, meu corpo, me valorizar: “nossa, eu consigo; eu consigo ser mãe sozinha, que delicia ser mãe sozinha, eu consigo ser mãe e pai. Depois, eu consigo, eu sou bonita, vou escolher quem eu quiser, agora eu que escolho!”. Ai eu descobri o mundo, né gente? Eu descobri como eu era linda (risos), porque o que vinha de cara atrás, assim, negro, branco, azul, amarelo… Eu tinha uma questão com negros, porque? na minha adolescência eu gostava de negão. Na época dos pagodes, anos 90, vocês tão ligado não, né? vocês são novinhos. Mas nos anos noventa, pagodeiro era o “pá” e jogador de futebol sempre, né? tudo negão. E aí eu amava pagode, não podia porque era de igreja, mas gente… não adiantava, não adiantava, eu sempre gostei de samba, amava pagode. E o meu sonho era ter um pagodeiro do lado, negão, pra… porque negão era tudo na época, todo mundo queria os negão, pagodeiro e tudo mais, né?. E eu lembro que… na semana da consciência negra foram os negros… ai gente… jogar capoeira na escola e foram os negros tocar também os pagodes na escola. E eu era louca. E  as minhas amigas brancas ficavam também com os negros, os meninos negros da rua, porque era modinha, começou a ficar modinha, né?. Só que eles só queriam as brancas! gente, nenhum negro me queria… E aquilo me revoltou de uma forma, que quando eu tinha 18 anos, eu namorei com o irmão do marido da minha irmã só porque ele era negro. Eu não gostava dele em nada, ele não tinha nada a ver comigo, mas eu namorei com ele só porque era negro. E eu me sentia do lado dele, entendeu? Aí depois eu terminei porque não dava mesmo, né. E aí eu comecei uma revolta com os negros, mesmo. Porque na rua eu era paquerada por brancos, ai sim. Era a maioria branco que me paquerava, juro pra vocês, era branco, loiro, já fiquei com muitos loiros, mesmo, gringo pra caralho, porque eram eles… Os negros… O negro que eu amei, que eu fiquei, assim, foi um negro francês, que só gosta de negra, que tem toda uma estrutura diferente da nossa. Mas ai eu parei. Por revolta, hoje eu sei, de sentir atração, um tempo, hoje não, mas um tempo, por homens negros, sabe. E os brancos, sim. Alguns, hoje, eu entendo que eram pro sexualização, seja lá o que for, mas me assediavam e os negros não. Ai eu fiquei muito revoltada uma época com os homens negros, de olhar na rua… na rua eu só via negro com loira ou com branca, e umas muié feia, viu?. “Um negão tão bonito com essa véia… mulher feia… essas branquela…”. E, sabe, quando eu olhava assim para os negros na rua, tiravam assim… Então essa questão, quando a gente fala dessa questão da solidão da mulher negra, quando muito negros criticam a gente de “palmiteira”, não é gente, porque a estrutura tá em todos nós, tanto na gente quanto nos homens também. Eu não vou… eu não sou de criticar os homens negros. Veja que eu to falando uma coisa que aconteceu comigo mas eu não to criticando, porque eles fazem parte dessa estrutura também, a gente também faz. A mulher negra é a última a ser escolhida, autoestima, sabe essas coisas? é a última, ela tá sempre lá. Hoje eu lido com isso o tempo todo, né, eu me sinto bonita, sim, me sinto poderosa, etc e tal. Só que eu sei que a escolhida, muitas vezes, vai ser a branquinha de classe… pra emprego, pra seja lá o que for. Entendeu, a cara estampada que vai estar lá… Tanto que quando eu fui convidada com os meus alunos para ficar no palco, que foi a primeira vez na história da educação infantil de São Paulo, que crianças vão com uma professora para um palco, cantar para outras professoras da rede, quinhentas professoras da rede, eu pensei na hora, falei: “Nossa, é uma negra… É uma mulher negra que está marcando história na educação infantil em São Paulo”. Então isso vem, também, então eu levo isso também muito assim. Acho que isso é uma questão da autoestima também, né. E minha mãe, como minha mãe era muito vaidosa, sempre cheirosa, sempre sorridente, também tem isso dela, tem isso dela também. De certa forma, minha mãe tava trabalhando a minha autoestima ali. Porque quando eu descobri que o cara que eu apaixonada, casada há dez anos, toda certinha, toda não sei o que, que tinha me traído e etc e tal, que a minha autoestima vai lá embaixo, ao mesmo tempo ela sobe e fala: “não, agora quem vai mandar na porra toda, sou eu, aqui! vou ficar com o homem que eu quiser!”. E eu fiquei com os homens que eu quis, que eu escolhi, todos os que eu quis, eu fiquei. E tô casada com o que eu escolhi, não fui mais a escolhida. Eu escolho. Outros quiseram casar, ai separa… facebook e instagram. E ai, não, hoje eu tô com uma pessoa maravilhosa, japonesa, japonês maravilhoso, muito… a gente só difere na etnia e tal (risos). Mas é muito legal nosso relacionamento e tal. Mudou muita coisa também, um pouco mais aberto, um relacionamento mais moderno, mais aberto e tal, mas é de muito respeito, muito carinho, muito amor. Tudo o que a gente passa, nos constitui; a gente é fruto da nossa história, de bom e de ruim. Então eu tava conversando com uma pessoa hoje, que eu… por mais que eu seja militante da causa negra, não sou aquela loucona: “Ah!!!”. Eu sou militante na minha vida, no meu jeito, no meu trabalho, na rua, na minha casa, na minha família. Mas eu não tenho aquela coisa de nos separar: negro tem que ficar com negro. Eu acho que isso não rola, porque isso nos limita, né. Quem quer ficar, fique. Você tem que ficar com a pessoa independente da cor, da onde ela é, do sexo, sei lá… você tem que ficar com uma pessoa que combina com você. E aí eu sou casada com um japonês, meu relacionamento não é do “tradicionalzão”, é mais aberto, mais tranquilo, mas muito verdadeiro. Não é de mentira, é muito legal assim. Justamente para não dar espaço para a traição, que é o que eu sofri, eu tive isso, né. ENtão a gente é mais livre. É… e é isso… hoje eu não tenho… se eu gosto de uma pessoa eu fico com a pessoa. Eu sou hetero, é hetero que fala? hetera (risos) sei lá como é que é. Mas assim, com homens eu não tenho essa coisa de negão, de só japonês, de só gringo…. Não, namorei com um francês que queria casar, não fui., porque, vai me tirar da minha terra? do meu povo? não vai!. Morar lá em Paris? não, o que, vou estudar lá, fazer o doutorado, ficar uns mesinhos lá, mas morar lá, não. Mas é… hoje… então, é isso, hoje eu escolho… é… hoje eu sou livre, me considero muito livre. Isso não me tira da minha fé, né. É isso. Eu sou um pouco de tudo isso. Eu sou livre, me considero consciente, me considero muito aquém do que eu deveria. Eu acho que eu sei muito pouco da vida e quanto mais eu estudo mais eu estudo, menos eu sei. Tô desesperada agora, preciso terminar o mestrado…. Como é que eu vou terminar minha pesquisa e fazer isso?! não sei o que eu tenho que fazer… como é que eu vou fazer, eu tenho muita coisa para ler, não to conseguindo. Até falei pro meu professor, eu chorei: “ ai eu não sei nada, minha história de vida… eu não tenho conteúdo, eu não tenho nada”, “não, você tem, sua história é bonita” “não mas minhas colegas da PUC…”, isso é verdade, “...elas têm outra formação, elas vieram de outras escolas que elas têm conteúdo, eu não tenho”, e ele falou: “não, você tem conteúdo, diferente delas, mas você tem”. Mas eu não me sinto. Aí, respinga na minha história. Eu queria saber mais, eu queria ter tido, estudado legal da minha terceira a oitava série. Eu queria ter tido professores, sabe, ter uma escola forte. Eu não tive, foi muito precária. Muitas vezes não tinha professor mesmo, a gente passava com outra pessoa mandando a gente copiar trabalho, porque os professores não iam pra favela pra levar… tinham medo de levar tiro. Então, eu trago essa dor, essa revolta de… poderia ter estudado em uma escola melhor e não estudei. Poderia ter tido acesso a recursos que eu não tive. E agradeço, ao mesmo tempo eu agradeço muito aos meus pai porque eles não tinham nada e ele fizeram isso de mim. O pouquinho… se eu sou hoje uma professora, foi da resistência deles. Fruto disso, e dos meus irmãos mais velhos. Os meus irmãos e irmãs são a minha base, sabe, minha família é minha base de tudo o que eu sou hoje, eu sou fruto deles, de cada um, dos doze. Dois já faleceram, há pouco tempo, mas sou fruto de tudo isso. Então, eu trago sim. Eu sou um pouco revoltada com esses temas sim, um pouco, talvez muito. Sou revoltada porque é uma estrutura que eles querem manter da gente, quando eu falo a gente, pobre, continuar sem nada. E o que a gente tem, eles querem tirar. E o que a gente não tem, também. Então, eu poderia sim, hoje já ter meu doutorado, que é meu sonho, pós doutorado, se eu tivesse tido oportunidades melhores de vida; de morar em um lugar melhor, de… sei lá, de ter… de querer ter uma bicicleta e não podia, querer ter uma TV e não podia, querer ter… comer… comer coisas diferentes. Eu fui comer chocolate com dez anos, sabe, a primeira vez que eu comi chocolate na minha vida. É… então eu trago isso na minha história, eu trago essa dor de… Porque que essa história de porcaria do nosso Brasil, foi assim… E ao mesmo tempo, puta merda, essa história tão nojenta foi assim, mas o meu povo está aqui, tem negro na rua. São os que mais morrem? são. Nós somos o povo que mais morrem, nós somos o povo que mais morre, nós somos o povo que mais… se for gay então, piorou, né. Mas assim, ao mesmo tempo que eu tenho essa dor, essa revolta, eu tenho muito orgulho de eu ser quem eu sou, porque eu sou fruto. É realmente aquela frase “a gente é fruto deles, dos nossos antepassados, da resistência deles”, né?. Então eu acho que sou isso aí, sou… quem sou hoje? Acho que sou hoje, eu acho que sou: orgulho, gratidão e dor. Mas uma dor consciente, uma dor que quer se movimentar. Não é uma dor que quer ficar parada. É uma dor que faz ir pra frente, que faz falar, que quer ser ouvida. Eu quero ser ouvida, eu quero ser ouvida. Porque eu sou voz… eu posso estar sendo pretensiosa, mas eu acho que eu sou voz de muitas, muitas negras que nasceram na roça, nasceram na favela… que hoje já resistiram a tanta e ai vem a vida e dá mais capote em você… Você já é negra, aí vem e dá um capote, e você ta lá… vem e fala uma coisa e você ta lá… e vem… É isso. Mais alguma coisa? 

P/1:  Então, você falou dos seus irmãos tudo, da sua mãe… Como que é essa relação hoje, assim? 

R: Então… hoje… nós somos… ainda mais depois, né, da perda da minha mãe em fevereiro de 2002, e depois em 2011, dezembro, a perda do meu pai, a gente se uniu muito. Aí em 2013 eu perdi um irmão, aí em 2010 a gente descobriu que o que tava desaparecido já tinha falecido no dia do acidente. Então perdemos quatro: meu irmão mais velho, meu outro irmão, que era um musicista assim, multi, tocava tudo que você imaginar… desenvolveu esquizofrenia e tal. Mas assim, nós somos muito unidos hoje. Sabe, aquela coisa, hoje eu entendo que é mais do que aquele apego de família, de oração, que a minha mãe sempre orava e falava: “ora a Deus para vocês serem unidos, ora a Deus…”. Mas eu acho que tem um pouco da raíz africana, sabe, meu avô contando da avó dele que se reunia pra contar história. Então a gente é muito… quando dá a gente se reúne. Pergunta pro Glauber, a gente se reúne, quando dá, uma vez por mês, e a gente faz festa, aquele monte de baiano falando, comendo e cantando e depois a gente ora… aí a gente sempre resgata muito a histório dos nossos pais, brincadeiras que um outro fazia na infância…

P/1: Quais eram as brincadeiras? 

R: Ah… brincadeira de apelido, contar que o outro escondia a bola de baixo do braço… escondia lá na roça pinha, aí o outro achava. E dos apelidos, e de história, que a cobra soprou no ouvido da outra que não sei, sabe assim, essas coisas de… de coisa engraçada que passou, de coisa triste também. Que quando a gente chegou em São Paulo, eu lembro muito disso, a minha irmã lá, com dezoito anos, ela pegou um saco de farinha, que era equivalente a um saco de cimento nas costas, e o povo na rodoviária: “nossa, uma mulher carregando”. Então a gente era chamada de tratorzão, então assim, tem muita brincadeirinha assim e a gente ri muito. E a gente tem um grupo no Whatsapp, e a gente tenta manter ou resgatar o que meus pais queriam, que era essa coisa da união, né. Então vira e mexe tem um desentendimento de Bolsonaro e Lula, tem, mas a gente não… isso não é maior que a nossa relação mesmo, de estar junto, de tá perto. E um muito diferente do outro, mas com muita semelhança ao mesmo tempo, né. Então até quem mora em Mato Grosso, que mora em Salvador, todo dia é áudio, é vídeo no grupo da família, como é que você ta, to bem, que Deus te abençoe. E a gente tenta resgatar o mais forte e mais forte mesmo, de dois anos para cá tá bem forte essa questão do resgate de tentar ficar junto o máximo que a gente puder. Então os que tão longe, que não pode se reunir nesses aniversários que a gente tenta comemorar, então uma vez por mês, que é sobrinho marido e tudo hoje, então a gente tenta fazer um aniversário uma vez por mês de todo mundo do mês. Tem mês que não dá. Esse mês de julho não deu, só que aí mês que vem a gente vai se reunir, mês passado a gente se reuniu. Sempre na casa de um com comida. Tem que ter comida, gritaria e música e muita zoeira, sim, e a oração, os cânticos, né, da bíblia e é isso. A gente está assim hoje. A gente tem muito medo de perder um o outro também, porque foi muito difícil perder a minha mãe, meu pai, esses dois.  A gente tem medo, a gente fala assim, enquanto a gente ta vivo, vamo tenta convive o máximo que a gente puder, porque quando um for, a gente não sabe quem vai, a gente conviveu, a gente resgatou, a gente não vai ter aquele, nossa… aquele remorso, sabe. Então é isso que a gente tenta… mas acho que nisso tem muita africanidade nesse negócio e indígena, coisa de índio também, sabe, de indígena, sabe. Essa coisa de reunir, reunir com comida e música. Mesmo com Bolsonaro atrapalhando (risos).

P/1: É… pra fechar aqui assim, duas mensagens assim, que você… Alguma para as próximas gerações assim, pensando no futuro, e outra pensando no seu passado, da ancestralidade, assim, algo que você diria para as gerações que vão vir.

R: Você tá falando do geral ou mais do nosso povo, assim, do povo negro, tal, do meu povo? 

P/1: Você especifica. Pro seu tataraneto e uma para o seu tataravô, assim. Algo meio nessa linha.

R: Nossa que difícil isso… Falar a partir do passado, né. A partir do passado… cara, passado e futuro. Eu acho que assim… Puta, agora você me pegou. Eu acho que a gente primeiro, tem que… hoje eu to aprendendo muito isso… a gente tem que valorizar muito quem a gente é, e o que a gente é, é fruto da nossa história. Então conhecer, o que eu gostaria de deixar para o meu povo: conhecer o máximo da história de vida desde os seus avós, valorizar tudo o que eles passaram, né, de bom ou de ruim. Todas as lutas serem valorizadas e nunca, nunca desprezar a história, o contexto histórico, contexto histórico social, a gente é fruto o tempo todo do contexto histórico social. Porque que tem gente que não se reconhece, que se acha muito feio, que aqui não é o meu lugar? porque ele não tá valorizando o contexto dele, então valorizar a história pessoal, a história familiar e o contexto histórico e social. Não tá dissociado isso. Eu sou fruto hoje, fruto de uma mãe e de um pai que teve uma história numa sociedade, num lugar, num Brasil, que Brasil é esse, como que foi construído. Então, o que eu quero deixar é conhecimento, busquem conhecer, conhecer a história, quem você é… e hoje, você é isso, só que você é fruto de tantas coisas que aconteceram, de tantas resistências, de tantas lutar e de tantos açoites que fizeram para você não estar aqui hoje, para eu não estar aqui hoje. Essa negra aqui, teve muita coisa e tem até hoje. A questão do extermínio… Então valoriza, conheça a história mesmo, mas não conheça a história de um ângulo só, mas de vários ângulos. Outra coisa, não se prenda a uma coisa só. Tenta ver todos os pontos de vista, sabe. A vida não tem só um ponto de vista, tem vários. Então se coloca em todos os lugares para você construir o seu. Você tem um mas você não pode ser um bolsonarista só, um lulista, ou um partido, sabe. Procura conhecer, acho que quanto mais a gente conhece do contexto histórico social e de várias visões, várias visões políticas inclusive, mais a gente consegue o nosso lugar aqui dentro com mais tranquilidade e com a visão ampliada de mundo. Buscar conhecimento, quando eu falo conhecimento não é conhecer tudo, é conhecer o máximo que você puder da sua história, né, aí você vai, aí entra filosofia, entra religião, entra sociologia, entra história mesmo. E quem você é. Então a gente tem valor, na minha concepção existe um Deus que nos criou e que permite que as coisas aconteçam, mas sempre tem um escape. E nunca perder a esperança mesmo, esperança do amanhã melhor. Quando eu falo amanhã melhor, não é naquela visão romântica, ah amanhã  vai ser melhor, mas melhor na sua visão da onde você está. Então, assim, hoje eu me considero uma pessoa muito melhor do que o que eu era antes e melhor porque eu me sinto muito à vontade nesse corpo que eu sou, na história que eu tenho. Eu não tenho vergonha, jamais. Antes, eu falo isso porque eu já tive vergonha de falar: “ai morei na favela… nasci na roça… sim, sou negra”. Sabe, desde os 16 anos, “sou negra”, não sabia nem o que era negra, sabia que eu era feia porque eu era preta, sabe essa coisa?. Mas é, quando você conhece, busca, busca isso mesmo e de vários pontos de vista e não de uma só religião, de uma só visão política, ou de ou seja lá do que for, ou de uma filosofia, não. Mas busca vários porque assim você vai se conhecer e se sentir confortável sendo quem você é. Então eu sou hoje Berenice, fruto de muitas cabeças, muitas mãos, pro bem e pro mal, sabe. De muitas lutas, de muitas resistências. Eu sei disso porque a vida me jogou pra isso, pra eu conhecer, professores bons, tive professora muito ruim, tive (risos), mas tive muitos professores bons. Principalmente a minha irmã que foi a minha primeira professora. Outra coisa que eu deixo é: conhecer, é ir valorizar as pessoas, sua família, mesmo; a história deles. Tem gente que não tem boas relações com os familiares, mas procura conhecer porque, investigar, sabe, eu gosto de investigar. Hoje eu fico investigando a minha dor daonde veio, me investigo. Se investigar é conhecer, né, de certa forma é buscar conhecimento. Seja lá de que forma. E nunca perder a fé. Fé ou esperança, seja lá como quiser. E sempre existe sim, um dia após o outro, um dia melhor que o outro. Eu acredito muito nisso, que hoje eu tô muito triste mas amanhã eu vou tá muito feliz. E quando eu tiver feliz eu vou falar: “hoje eu tô muito feliz!”. Porque quando eu tiver triste eu vou falar: “Hoje eu tô muito triste, beleza, mas ontem eu tava feliz”. E é isso, a outra coisa, acolher os sentimentos, sabe, acolha… vem uma tristeza, acolha… acolher não é “ai vou ficar triste para sempre, porque…”. Olha ela pegando o microfone… É pensar sobre aquilo, “porque que eu to triste, que que me deixou assim? daonde vem isso? porque? como é que eu posso fazer para isso melhorar? porque que eu to me sentindo mal? porque que aquele olhar me deixou mal? ah, porque que aquele olhar me deixou tão feliz, pra cima?”. Entendeu? acolher é assim, tudo o que você passar, pensar sobre aquilo, pra lá na frente você não querer se matar com um monte de… um bolo de coisa de tanta coisa que você… uma salada que você não conseguiu separar os ingredientes, sabe. E eu acho que isso é conhecimento também. Você acolher os sentimentos de alegria, de tristeza, de insatisfação, de frustração. Conhecer os seus limites. Você é limitado, todo mundo tem os seus limites, mas a gente não precisa ficar naquilo o tempo todo, a gente pode avançar, né. Então avançar é sempre possível, mas a gente só avança quando a gente reconhece os nossos limites. Sim, eu tenho muitos limites, eu não conheço muitas coisas, eu queria saber muitas coisas que eu não sei. Eu queria… sei lá saber tocar mais línguas, tocar mais instrumentos, conhecer mais sobre filosofia, história, sociologia. Mas ai sabendo disso eu vou falar: “peraí, qual idioma que eu quero falar?”. Francês, por exemplo (risos). Então, é conhecer e reconhecer mesmo os limites, e acolher também… Porque eu sei que eu não sei muita coisa por conta da minha história de vida, e tudo bem. E porque eu também sei muita coisa por conta da minha história de vida, né. Eu posso não saber o que você sabe, mas eu sei muitas coisas diferentes. Eu acho que é isso… tá meio confuso, né? 

P/1: Não, normal (risos). 

R: (risos) Tá muito confuso. 

P/1: Não tá muito confuso, não. 

R: Cara, eu falo muito, que horror… Ele quer usar o banheiro (risos). Ta apertado, né, calma. 

P/1: Eu acho que é mais isso mesmo… Deixa eu te perguntar, você tem algum sonho? 

R: Tenho. Vários sonhos. Não vou falar de todos não porque não são tópicos, mas… ah… eu quero estudar mais, eu quero fazer doutorado… Eu quero conhecer o Brasil inteiro, quero conhecer outros países, sabe, conhecer, passar, fazer cursos… Um curso na África, outro curso na… sei lá, na França. Um curso no… acho que em três países da África tá bom, sabe. Eu quero conhecer mais a cultura brasileira, quero conhecer outras coisas da cultura mundial. Quero aprender outros instrumentos, violão clássico, mesmo. Quero aprender a tocar piano. Quero aprender a falar inglês e francês. Francês e inglês. Quero conhecer o mundo, quero conhecer o Brasil. E eu sei que não é o tópico mas o meu maior sonho seria os negros não sofrerem mais racismo, isso é muita utopia, mas é o meu sonho. Meu maior sonho é esse, é igualdade. Falar igualdade é meio ruim porque eu gosto da diferença, né. Mas é não ter mais discriminação e preconceito com ninguém, porque os outros também sofrem, né, só que eu acho que o nosso preconceito é mais tabuzado, ninguém quer falar. Mas discriminação e preconceito, não existirem mais, esse é um sonhaço. Todo mundo ser do bem, tipo Jesus e tal. Mas é conhecer mesmo, conhecer cultura, quero conhecer o mundo, quero conhecer mais negro, tocar, estudar, estudar, estudar. É isso. Cantar pra caramba.

P/1: Acho que é isso mesmo.    

 

 


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