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História de: Mauro Sancovski
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/09/2018

Sinopse

Neste depoimento Mauro Sancovski nos conta sobre como era o bairro Pinheiros, em São Paulo, na sua infância e do comércio que seu pai tinha. Mauro acabou perdendo o pai aos treze anos e a partir de então assumiu responsabilidades de um adulto. Tendo cursado Medicina na Faculdade de Medicina do ABC e se especializado em Ginecologia e Obstetrícia, Mauro nos conta também sobre suas experiências nessas áreas e dos partos que realizou na carreira.

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História completa

P/1 – Mauro, inicialmente eu gostaria que você me dissesse o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

 

R – Mauro Sancovski. Nasci em São Paulo, 30 de novembro de 1953.

 

P/1 – Mauro, como chamam os seus pais?

 

R – Meu pai era Mendel Sancovski e minha mãe Fani Sancovski.

 

P/1 – Eles são brasileiros?

 

R – Meu pai nasceu na Romania e minha mãe no Brasil, em São Paulo.

 

P/1 – E seu pai chegou ao Brasil quando?

 

R – Meu pai veio para o Brasil em 1933.

 

P/1 – Ele veio com a família dele?

 

R – Não, naquela época meu pai já tinha alguns parentes aqui que chamaram eles para virem para cá, a família, mas veio o meu pai sozinho e depois de uns três anos veio um irmão dele; do núcleo familiar só vieram os dois para cá.

 

P/1 – E onde eles foram morar inicialmente?

 

R – Eles moraram na Consolação. Meu pai tinha um primo que tinha uma alfaiataria e eles moraram no fundo da alfaiataria; naquela época todos esses imigrantes trabalhavam com clientela que eles chamavam, não é? Eles vendiam roupas nas casas, então esse primo dele que era o Henrique Sancovski tinha uma alfaiataria, meu pai morava nos fundos e trabalhava com vendas de roupas até que ele abriu uma loja depois aqui em Pinheiros.

 

P/1 – E você sabe como ele conheceu sua mãe?

 

R – Esse detalhe eu não sei, como ele conheceu ela eu não sei. É que meu pai faleceu eu tinha treze anos, então nunca entrei nesses detalhes com ele, realmente não sei. Eu vou conversar com a minha mãe e depois vou saber disso.

 

P/1 – Mauro, como foi a sua infância?

 

R – Eu, infância, infância eu sou o terceiro filho, eu tenho duas irmãs mais velhas, eu era o menor. A gente morava em Pinheiros numa casa na Rua Cunha Gago, era uma época tranquila, eram outros tempos, tempos em que a gente podia ficar na rua, andar de bicicleta. A princípio eu achava que foi uma infância boa, depois com o tempo a gente vai ficando mais velho e começa a achar que não foram tão boas assim algumas coisas, mas eu tinha a sensação que era boa. As minhas irmãs eram um pouco mais velhas e a gente se dava bem, mas não fazia grande parte do meu dia-a-dia. Eu tinha alguns amigos na rua, tinha o pessoal da escola, era uma infância aparentemente tranquila.

 

P/1 – Como é que era o bairro de Pinheiros nessa época?

 

R – Pinheiros era um lugar tranquilo, gostoso de morar. Tinha a Teodoro Sampaio que sempre foi a rua comercial, meu pai tinha loja na Teodoro, não só meu pai, mas muitos parentes, primos, conhecidos, o pessoal da época que imigrou junto com ele, então a gente andava na Teodoro e conhecia todas as lojas, conhecia todo mundo. Eu sou judeu e nas nossas épocas de festas eu lembro muito bem disso, era um pouco de orgulho de andar na Teodoro e ver todas as lojas fechadas por causa das festas. Hoje a gente anda na Teodoro é tudo pichado, seja festa ou não as lojas estão abertas, aliás, hoje todas as lojas estão fechadas porque estão falindo e deixando de trabalhar já na área, mas era muito tranquilo, a gente ainda andava na rua, almoçava no bairro, era... Pinheiros era muito tranquilo, eu continuo achando que Pinheiros ainda é bom, mas é muito mais agitado do que era naquela época.

 

P/1 – E como chamava o estabelecimento do seu pai?

 

R – Era Casa Mendel, meu pai abriu essa loja quando eu nasci, acho que em 1953 mais ou menos.

 

P/1 – E vendia o quê?

 

R – Eram roupas em geral para homens mulheres, crianças, tinha tudo. Alguém entrava lá e comprava roupa para todos os eventos e ele tinha uma clientela grande da coletividade ou não. Era interessante a loja, esse talvez tenha sido um dos fatores limitantes para coisas interessantes na minha área, porque como adolescente tem o problema de moda, naquela época não tinha tanto a moda, mas já existia e a loja era sempre tradicional, então eu via todos os amigos que tinham naquela época a calça lee e para eu ter uma calça lee eu tinha que comprar, não tinha na loja, eu lembro, eu fui ter meu primeiro jeans naquela época. Começou com calça rancheiro que se usava, não podia comprar, então o primeiro que eu comprei eu estava no cursinho, quando eu via todos os meus amigos já tinham, os primos já tinham e eu não podia comprar, porque eu tinha tudo na loja, não tinha sentido eu comprar roupa em outro lugar. Então eu acabava sempre me vestindo tradicional para não comprar em outros lugares, isso é uma coisa que me incomodou de moleque, mas por outro lado eu podia pegar um monte de coisa na loja. Era uma loja de linha fina, mas não moda como dizia minha mãe que meu pai na época era artigo de lei, aquele que se não vende fica na prateleira e continua valendo.

 

P/1 – Mauro, você tocou nas festas judaicas, como era a vida na comunidade judaica? Você sempre viveu?

 

R – A gente sempre viveu, mas na época de infância era um mundo diferente, hoje eu lido com muita gente, então eu falo que hoje ter um filho é muito complicado, porque hoje você “chofera” o filho o dia inteiro: tem que ir para a escola de manhã, para a escola de língua à tarde e ir para o judô, curso disso, daquilo e na minha época a gente ia para a escola normal e o resto estava livre para poder brincar, para poder estudar. Hoje isso não existe mais, então os tempos mudaram e mesmo o relacionamento das pessoas, isso eu tenho muito marcado para mim. Tinha épocas que uma filha de uma prima ia me buscar na escola, mas era um vínculo com a família até nos ramos mais longes, as pessoas se frequentavam, a gente convivia; hoje você não consegue que uma irmã ou um parente muito direto vá buscar um filho na escola, então eu lembro bem disso, eu tinha primos que iam me buscar na escola e ficavam à tarde. A gente se encontrava sempre e almoçava todos os fins de semana, não é almoçar só o núcleo com os primos, com os tios, com os avós, era muita gente. Hoje tudo fica mais difícil, por exemplo, esse meu primo que eu convivi quase que... Não o dia-a-dia porque ele morava no Brás e eu morava em Pinheiros seguramente sábados e domingos. Todo sábado e todo domingo e hoje eu falo com ele duas vezes por ano, no meu aniversário ele liga e no aniversário dele eu ligo para ele, quase que a gente não se encontra, a não ser que morra alguém ou que tenha uma grande festa que junta todo mundo. Então mudou muito isso, quer dizer, seguramente ele está mais fechado no núcleo dele, os filhos, namoradas de filhos e acho que nesse sentido dificultou.

 

P/2 – E qual era a festa que o senhor mais gostava?

 

R – Eu lembro de todas, por exemplo, das grandes festas judaicas Yom Kippur e Rosh Hashaná, porque a nossa sinagoga era aqui em Pinheiros também, então muitas vezes saía da sinagoga e era dia de jejum, por exemplo, mas ia gente em casa depois da reza, amigos do meu pai, amigos da minha mãe, parentes, a gente se reunia ainda depois de sair da sinagoga, conversava, são coisas que hoje são quase impossíveis... Eu lembro que eu morava na Cunha Gago e meu pai tinha loja na Cunha Gago, a Teodoro perto da Fradique, isso deve ter umas seis ou sete travessas. Naquela época meu pai fechava a loja religiosamente ao meio dia ia para casa, almoçava e à uma hora voltava e abria a loja. Todo o comércio fechava na hora do almoço e todo mundo almoçava em casa, minhas irmãs, é uma coisa que todo mundo sentava na hora do almoço; às seis e meia ele fechava a loja e estava em casa. Hoje não existe horário para isso, ninguém pode almoçar em casa e na hora do almoço ninguém para de trabalhar, quer dizer, até para, mas o serviço não para, a empresa não para, ninguém vai almoçar em casa, não se encontra ninguém. Eu trabalho muito e horário maluco, eu não almoço, uma vez eu estava falando com um rabino e ele falou: “Você tem que parar na hora do almoço, você tem que parar e ir para casa na hora do almoço”. O que eu vou fazer em casa na hora do almoço? Não tem ninguém na minha casa, os filhos não estão porque cada um está num horário e ele falou: “Melhor ainda, não tem ninguém, você pode ir e dorme uma hora, daí quebra o teu dia no meio, empurra tudo por uma hora para frente e descansa na hora do almoço”. Mas por quê? Não tem ninguém, cada um tem o seu horário, não dá para se encontrar na hora do almoço; almoçar naqueles tempos era diferente, eu lembro bem disso, a gente esperava meu pai chegar, almoçava e hoje eu consigo encontrar meus filhos às vezes num intervalo, eu chego já tarde em casa e eles também chegam tarde, eles chegam e saem. Eu também chego e saio, é muito mais complicada a vida.

 

P/1 – Mauro, você falou da sua educação, onde você estudou?

 

R – O primário eu fiz na escola que era perto de casa, uma escola judaica que foi fundada pelo meu pai e alguns imigrantes da região, que era o Bialik e hoje é uma grande escola judaica; naquela época era uma escola pequena, eu morava na Rua Cunha Gago e a escola era na Cardeal Arcoverde, era uma casa na Cardeal Arcoverde e devia ter um pré-primário, primeira, segunda terceira e quarta, ano primário só tinha o jardim e até o quarto primário. Eram poucos alunos em cada classe, uns vinte alunos era a escola. Daí acabou o primário e eu fui estudar no colégio estadual. Eu fiz o ginásio e o colégio no Fernão Dias Paes na Rua Pedroso de Morais, que é um colégio do Estado e naquela época era um dos melhores colégios de São Paulo. É um grande contraste com o que é hoje também, quer dizer, eu lembro grandes professores meus do colégio foram para os cursinhos, para o Objetivo e realmente foi um bom colégio, mas como a escola não tinha ainda ginásio, o Bialik não tinha nem ginásio nem colegial, eu acabei indo para o Estado, mas continuei estudando hebraico, que a gente fez um negócio que se chamava seminário, era um curso de formação de professores de hebraico, era para a gente não perder o vínculo, então um grupo pequeno da minha turma acabou continuando estudando hebraico e a gente ia até a Casa de Cultura de Israel, que hoje é na Oscar Freire, mas naquela época era na Haddock Lobo e a gente tinha um curso lá de formação de professores, fizemos mais alguns anos lá; a gente ia à tarde, fazia o curso enquanto estudava de manhã no Fernão. Estudei o ginásio de manhã e depois o colegial eu fiz a noite no Fernão porque daí eu já trabalhava durante o dia.

 

P/1 – Mauro, como que você encarava os estudos? Como que você via isso?

 

R – Olha, eu sempre fui o cara certinho da infância, eu respondia as necessidades, então eu estudava, eu nunca fui o mais brilhante da turma, mas sempre fui um bom aluno, nunca tive dificuldades de estudar, estudava o necessário e nunca tive problemas com estudo. Minha mãe era muito rígida e ainda é nesse sentido, e tinha que estudar, estudava e ela estudava junto, tanto que do primário não tem grande dificuldade, mas também nunca tive dificuldades, o que existia naquela época de repente você queria ser o melhor aluno da classe, existiam essas manias, mas não tinha. Porque o melhor aluno era quem estava na direção da escola, então tinha essas coisas, existia uma competição nesse sentido, mas eu nunca me preocupei com isso não. Era um bom aluno e depois quando eu terminei o primário tinha naquela época admissão, que era o quinto ano, hoje são quatro anos e depois tinha o quinto ano para depois você entrar no ginásio e, no meu ano, não sei por que... Daí acho que foi liberado a feitura do tal do quinto ano e tinha um tipo vestibular para entrar, porque não tinha o número de vagas suficiente para dar conta de todos os alunos, isso no Fernão Dias, então foi um ano que teve um trabalho muito grande dos pais e dos excedentes, quer dizer, eu prestei exame lá, eu passei, mas faltavam salas, então alguns pais se reuniram e construíram junto com o governo... O governo construiu alguns galpões dentro do Fernão Dias, galpão de madeira e os pais, isso eu me lembro, nas férias iam pintando o galpão, envernizando carteiras velhas para montar. Eu sei que quando começou o ano letivo a gente estava com a sala pronta em balcão, isso acho que era na época do Laudo Natel. Eu lembro bem que a minha mãe foi lá conversar com ele para ele doar os barracões, eu sei que conseguiram isso e foi interessante. Daí eu entrei no ginásio do Fernão e foi muito bom, eu gostava muito do Fernão, então eu me lembro bem disso. E lembro do trabalho dos pais, isso para aquela época era uma coisa importante, conseguir isso foi legal e sempre fui bem também na escola, no Fernão não tinha isso de passar direto, não passar direto, quase sempre eu passei direto, nunca tive dificuldade de estudar ou não gostar de estudar, também nunca fui de me matar para estudar, não estudava e ia bem.

 

P/1 – Como surgiu a Medicina na sua vida?

 

R – De vez em quando eu paro para perguntar e não lembro, porque quando eu fiz o colegial naquela época existia o científico, o clássico e o normal. O normal normalmente eram as mulheres que iam para a carreira de Magistério. O clássico era normalmente o pessoal que ia para Humanas. E tinha o científico que dividia quem queria fazer Biológicas ou Exatas e a gente tinha que optar entre científico para Medicina ou científico para Engenharia, porque o terceiro ano era diferente, então eu acabei optando até por... Eu achava que ia fazer Arquitetura, então até o segundo colegial eu fiz para Arquitetura e daí o terceiro acabou a divisão naquela época, dividiu e eu fiz o normal com todo mundo, daí que eu decidi prestar Medicina. Não houve nenhuma influência na minha casa, o meu pai já era falecido, minha mãe nunca chegou para mim para dizer: “Você vai ser médico, você vai ser aquilo”. Eu não tenho nenhum médico na família, dos meus vínculos diretos não tinha ninguém, dos meus amigos tinha muita gente indo para a Engenharia e eu falei: “Não”, eu resolvi, porque eu fui com os amigos... Eu não consigo me lembrar porque eu optei por Medicina. A única coisa que eu tinha é porque eu gosto e sabe que muitas vezes eu paro para pensar e não sei. Apesar de ter feito colegial para Engenharia, no terceiro ano eu já sabia que iria prestar Medicina, e era o mais difícil, quer dizer, eu poderia ter prestado outras coisas, eu acho que a outra opção seria Arquitetura, eu gosto de desenhar plantas, calcular, eu sempre gostei disso. Eu acho que se eu fizesse Arquitetura também eu ia me sair bem, mas de vez em quando eu paro para pensar: por que a Medicina? Não sei.

 

P/2 – Como é que foi o cotidiano na faculdade de Medicina?

 

R – Daí, quando eu entrei na faculdade, é assim... Eu entrei no primeiro ano que eu prestei para Medicina, era uma escola nova, era a Faculdade de Medicina do ABC, eu sou da terceira turma da escola. Aqueles anos foram uns anos que abriram muitas escolas de Medicina, então quase todas novas. A gente tinha as tradicionais que eram a USP [Universidade de São Paulo], Paulista e Santa Casa, o resto era tudo novo. As escolas eram novas e a minha escola tinha uma filosofia muito boa, na época que ela foi criada era uma filosofia mais humanística, uma filosofia mais preventiva, então eu tive muito disso lá, a gente tinha um vínculo muito grande com os professores dessa área. E eu entrei na escola com uma ideia de participar, então a minha escola era em Santo André, eu era moleque, eu entrei na escola eu tinha dezessete, eu terminei o primeiro ano com dezessete anos ainda, porque eu faço anos dia 30 de novembro, eu acabei o primeiro ano eu não tinha dezoito anos ainda. Então eu não podia nem ir de carro, todo mundo tinha carro e eu ia de carona, só tirei carta no outro ano. Aí entrei na escola, tive um bom entrosamento, mas entrei querendo fazer as coisas, eu entrei no primeiro ano, era “primeiranista”, meio “chucro”, não sabia o que fazer, fazia o que tinha que fazer na escola, agora participação dentro da escola eu sempre ficava olhando fulano. Eu tinha uma mania de achar que as pessoas às vezes... Tinha gente que enganava, era minha ideia, tem pessoas que fazem o gênero e acabam ganhando espaço, então eu via gente trabalhando no primeiro ano da faculdade, assim que entrou já convidaram para trabalhar no Diretório Acadêmico, para trabalhar na Atlética e ninguém me convidou para nada, então eu ficava: “Esses caras que estão indo para lá não merecem o prestígio que deram para eles, acho que eles estão enrolando” e no fim a gente viu que isso aconteceu mesmo, quer dizer, a primeira impressão nem sempre é... Eu ficava meio frustrado, mas até que me convidaram para trabalhar no Departamento Científico. Eu sei que quando chegou no segundo ano eu já estava no Diretório, era representante, eu sei que depois do meu segundo ano até o sexto na faculdade eu tive todas as... Eu ocupei todos os cargos que tinha lá dentro, eu fui tesoureiro do Diretório, tesoureiro geral, fui presidente do Diretório, fui representante dos alunos, comecei como representante no Departamento de Medicina Preventiva, representante no Conselho de Departamento na Congregação, eu sei que eu terminei a escola passando por todos os grandes cargos e para mim foi muito importante, quer dizer, eu trabalhei muito na escola, além da parte de formação, na parte de trabalhos de dirigir Assembleia a gente pegou uma época difícil. Na época da ditadura a escola tinha muita greve, como escola nova mil problemas, toda hora greve e aquela pressão, porque não pode fazer greve, porque tem dedo duro, porque tem isso, tem aquilo, mas a gente conseguiu passar e a gente nunca teve grandes problemas nem com a censura nem com a polícia e nem com a escola. Peguei uma época em que a escola também se firmou um pouco mais, foi a época que a escola foi reconhecida, mas a gente fez um trabalho muito legal e lá também era um prédio isolado, longe da faculdade... Eu acho que tenho mania de barracão, quer dizer, nós criamos um barracão lá dentro para efeito do (Omo?) dessas escolas comunitárias que eram barracões para fazer o Diretório, que a gente chamava de casinha do pateta, daí a escola depois acabou cedendo a área que deveria ser do Diretório, que era no subsolo da faculdade e hoje ela tem um prédio à parte. Eu curti muito a escola, tive bons amigos lá, lógico, a gente ia com muita gente de Pinheiros, a gente ia em cinco, revezava o carro, sempre ia um carro cheio daqui, cinco, seis pessoas, cada vez um ia de carro foi um período gostoso.

 

P/2 – Senhor Mauro, alguma vez durante a sua estada dentro da Faculdade de Medicina você teve alguma dúvida com relação... “Eu não quero mais isso? Não era isso que eu pensava?”

 

R – Não, nunca aconteceu isso não. É que a gente passa por vários problemas na vida, mas é que eu também tenho uma capacidade de acomodação relativamente grande e eu... Às vezes a minha esposa fala que se eu fizesse Arquitetura eu também seria um bom arquiteto e acho que desde que eu faça uma coisa que eu goste eu desempenho ela bem. Na faculdade eu nunca tive problema de... Eu vejo que eu trabalhei depois na USP um tempão, a minha esposa também e às vezes a gente começa a ver a postura dos alunos que entram no primeiro ano, segundo você vê, faça uma redação, um texto de como você está se sentindo, você vê que muita gente está revoltada que não era bem isso que queria... Vejo meu filho, sempre quis fazer Medicina também e de repente eu vejo por que ele não fez? Porque ele quer curtir o fim de semana, ele quer curtir a noite e quem faz Medicina complica um pouco isso. Alguém que quer fazer Medicina de antemão já fala não, eu vou fazer Medicina, mas eu não quero esse tipo de dedicação. Ele até pode se dar bem, mas é mais complicado, porque o próprio curso é assim, já começa que é um curso de período integral, você fica o dia inteiro na escola, daí você tem que estudar, não tem jeito e aí você estuda a noite. Daí você perde a sua vida própria, você acaba perdendo os seus amigos que fazem outras áreas, que estão todo dia ou na balada ou no happy hour e você não consegue acompanhar. Eu lembro de ter sofrido assim, não de chacoalhar “não sei se é isso que eu queria ou não”, mas eu tinha uma amiga que morava perto da Gabriel Monteiro da Silva, então quantas tardes a gente indo estudar na casa dela e a noite eu passava na Brunella e via o pessoal tomando sorvete. E a gente tinha que ir lá para casa para estudar, não podia estar nessas coisas, isso realmente incomodou muitos anos, mas fazia parte das coisas, não é?

 

P/2 – E algum colega da época de escola seguiu também a carreira de Medicina?

 

R – Da minha turma?

 

P/2 – É.

 

R – Ah, tem um dos grandes amigos meus de colégio que fez cursinho comigo e fez Medicina, da minha turma de primário, porque essa turma do Bialik era uma turma pequena, era uma turma de vinte alunos e a gente brincava que eram vinte alunos e tinha quatro Mauros. Eu nunca entendi se Mauro era nome da moda daquela época, porque numa classe de vinte alunos terem quatro Mauros era complicado. Mas para você ter uma ideia, dos quatro Mauros três fizeram Medicina, outro amigo meu, o Newton que era um grande amigo meu fez Medicina também. É, acho que dessa turma toda nós somos acho que cinco de 25 que foram para Medicina. Sabe que eu nunca parei para lembrar, mas acho que somos só nós e que cursou comigo... Não, o Newton foi para Jundiaí e o outro Mauro entrou no outro ano em Sorocaba, o outro entrou na Paulista. A gente foi mais ou menos contemporâneo, porque um entrou depois, mas depois... Inclusive com o Newton foi que eu abri o consultório depois, meu primeiro consultório foi junto com ele lá em Pinheiros também e foi legal.

 

P/1 – E das áreas da Medicina, quando você entra você tem muitas opções, você deparou com muitas áreas novas, qual foi a primeira que te causou impacto?

 

R – Olha, quando a gente entra na Medicina é complicado, porque a gente entra e o primeiro ano é um ano básico que você não vê área nenhuma, hoje eles estão mudando, hoje a gente procura pegar o “primeiranista”, porque o curso é muito pesado e sem dúvida que o estudante de Medicina entra e ele é cerceado de um monte de outras coisas do mundo externo e é muito árido o primeiro ano, então a gente está tentando mudar dentro das escolas e que ele tenha um pouco mais de vínculo já como um pseudo médico, aí ele consegue ter um contato com o paciente, porque até o terceiro ano ele não... O estudante de Medicina não vê o doente, é tudo aula teórica, aula prática, aula de laboratório, mas paciente ele não via, então a gente está tentando dar um pouco mais de clínica para ele, para ele começar a ter um gosto mais de estar fazendo Medicina. Na minha época não tinha isso, então o primeiro ano era Anatomia, Histologia, algumas matérias básicas e é muito difícil você tentar entender o que você quer mesmo. Depois que você vai entrando nas clínicas as coisas vão mudando e eu tenho a sensação que isso vale para todo mundo, que a gente não gosta daquilo que não sabe. Então dificilmente alguém vai chegar e dizer: “Eu quero fazer tal coisa”, mas não tem a mínima noção. Alguém que não gosta de Física: “Eu não gosto, porque eu não sei Física”, se você souber entender você vai passar a gostar; “não gosto de Matemática”, não gosta porque tem dificuldade, depois que aprendeu, por exemplo, a minha filha queria ir para uma área que não fosse exata porque não gosta de Física, não gosta de... Até que ela foi para o cursinho e no cursinho ela viu: “Por que nunca me ensinaram desse jeito?”, é outro pique até hoje eu não entendo isso porque no cursinho conseguem ensinar direito e na escola não, é outro estilo de aula, não sei se o professor é melhor, se ele é mais bem remunerado onde entra... A motivação é outra, ela não foi para a área de exata, mas ela descobriu que não era tão ruim assim estudar Física, não era tão ruim estudar Matemática, ela está em outra área, mas tem Estatística e acaba mexendo com isso. Então eu entrei na escola sem saber o que eu queria, porque eu nem sei por que eu fui fazer Medicina, nessas circunstâncias aí falar “ah, eu tinha vocação”, eu não sei, eu nunca lidei com isso, eu perdi o meu pai eu tinha treze anos, então será que o fato do meu pai ter morrido, as doenças dele, será que... Mas eu nunca na minha vida tentei imaginar que eu ia estudar para viver a doença do meu pai, tem gente que entra na escola para fazer isso, não é? Hoje eu lido com diabéticos e muitos pacientes diabéticos vão fazer Medicina, querem fazer Endocrinologia e cuidar de diabéticos, então eu nunca fui... A ideia que eu tenho é que a influência do meu pai ter ficado doente, ter morrido, não teve influência nem na escolha da Medicina, porque eu escolhi muitos anos depois e nem na escolha da especialidade, por que eu fui escolher o que eu faço? Eu faço GO [Ginecologia Obstetrícia], eu acho que eu entrei na escola para não fazer GO, porque eu falava “eu não quero fazer nem Psiquiatria e nem Ginecologia Obstetrícia”, não sei nem porque eu falava isso e hoje são as duas áreas que eu lido melhor. Minha mulher é psicóloga e eu sou dos Ginecologistas da minha área, dos professores, um dos que mais se preocupa com os aspectos emocionais do paciente, porque você pega a maior parte dos cirurgiões: são muito técnicos e estão pouco ligando para o psiquismo e muito médico é onipotente no sentido de que eu trato as doenças e a cabeça é outra coisa, a cabeça é o Psiquiatra e eu tenho uma noção, então eu entrei e as coisas que eu imaginava que não queria foram as que eu fiz, porque eu faço GO com envolvimento do emocional tendo uma participação importante, o que me levou a isso? Talvez tenha um motivo, tudo é questão de oportunidade na vida, então eu entrei na faculdade e eu tinha muitos amigos e uma amiga que eu me dava muito bem, a irmã dela era ginecologista, ainda é uma ginecologista importante que é a Albertina Duarte e que foi a chance que eu tive no terceiro ano de acompanhar alguém, então eu fui junto com ela num plantão lá na... Onde que era? Sei lá, não lembro agora, num Hospital longe que era para vê-la fazer um parto, que era para acompanhar o plantão dela e eu me lembro, eu entrei lá e não sabia nada do que eu estava fazendo, daí ela mostrou “dá para ouvir o coração do bebê”, mostrou como é que era, daí ela falou: “Escuta aí para você ver como é que é”, eu entrei numa sala e vi um monte de mulheres deitadas e eu morrendo de medo falei: “Eu vou tentar ouvir”, mas eu não entendia nada, eu era “terceiranista”, eu não sei se essa mulher já deu a luz ou se não deu a luz, de repente eu vou escutar o coração do bebê e ela já deu a luz e eu vou ficar com uma cara de idiota, eu não entendia nada do que estava acontecendo, mas acho que eu fui com ela e depois acompanhei ela no ambulatório que ela fazia, então no quarto ano eu já trabalhava como Ginecologista e ela me ensinava tudo que eu tinha que fazer. Então, eu e a irmã dela, a gente atendia uns pacientezinhos, isso era outros tempos, hoje isso seria altamente antiético, proibido, mas muitas coisas que se permitia naquela época hoje seriam inaceitáveis, então isso já fazia... E daí tiveram as oportunidades para quem ia fazer Obstetrícia naquela época, existia plantões para “quartoanista” de Medicina mesmo que eram as grandes maternidades de São Paulo, hoje chama a Casa Maternal Leonor Mendes de Barros que ainda existe, lá tinha estágio pra “quartoanistas”, “quintoanistas” e “sextoanistas”, era o auge do... Para quem queria fazer especialidade tinha que fazer isso e era uma oportunidade, quer dizer, igual eu falei no primeiro, segundo e terceiro você não via doente e você tinha a oportunidade no quarto ano de entrar dentro de uma maternidade que tinha trinta, quarenta, cinquenta partos por dia e contato com o paciente, então quase todo mundo prestava esse concurso e eu prestei concurso e entrei na Casa Maternal. Entrei muito bem, consegui plantão de domingo, então eu dava plantão de domingo, porque para mim era muito importante, eu não faltava na escola. E o plantão de domingo era tido como um dos melhores plantões, porque, entre aspas, os mais ferros eram os que estavam no final de semana que era para não faltar na escola, então eu fiz Maternal e era um esquema decrescente, assim, era um funil, tinha acho que naquela época cinco “quartanistas”, quarto “quintoanistas” e três “sextoanistas”, então além de você entrar você tinha que ir muito bem, porque depois tinha um novo concurso e você continuava o ano que vem o novo concurso para o sexto e eu fiz Casa Maternal no quarto, quinto e sexto ano, isso fez com que eu ficasse um cara muito bom em Obstetrícia e, como eu falei, você acaba gostando daquilo que você sabe, então eu acabei definindo pela especialidade em função disso e tem mais outros motivos que eu fiz. Não só Maternal eu fiz naquela época, existia a casa Maternais que eram para a infância que hoje é o Hospital Pérola Byington, a Clínica Infantil Ipiranga basicamente e o Amparo Maternal, o Amparo Maternal não tinha grandes estruturas nessa época, mas a Clínica Infantil tinha e também tinha concurso, eu prestava todos os concursos que tinham. Eu passei na Clínica Infantil e ao mesmo tempo eu dava plantão na Casa Maternal no domingo e na Clínica Infantil do Ipiranga eu dava plantão a cada quinze dias, eu dava plantão na segunda, era cruzado, eu não fiz. E quando eu estava no sexto ano a Clínica Infantil era para quarto e “quintoanista”, só sexto ano não tinha e daí no sexto ano quando acabou a Clínica Infantil eu fui no primeiro ano que o Amparo Maternal organizou o esquema de acadêmicos dele, aí eu prestei concurso e entrei no Amparo, porque foi a época que o Amparo, o Professor Camani, que era da Escola Paulista assumiu a direção clínica e melhorou o padrão de lá e eu entrei lá. Então eu acabei tendo a oportunidade de fazer tudo isso e senti que a Obstetrícia tinha algumas vantagens, a primeira era que eu sabia e segundo que da Medicina é uma das áreas mais felizes, não é? A gente lida com muitas alegrias, acho que quase sempre é festa em que pesa em alguns momentos e que não possa ser considerado, pode ter problemas, mas na grande maioria você lida com a vida e segunda coisa é uma especialidade clínica e cirúrgica, eu tenho muitas clínicas então eu lido com diabéticas, com paciente, com pressão alta, com lúpus, com todas as doenças e eu tenho cirurgias também, é diferente de uma área só clínica que não põe a mão no bisturi. Então era uma área que juntava tudo, era um área feliz e eu tenho poucos doentes, eu não tenho doentes, eu tenho clientes, a maioria é gente saudável e mesmo os poucos que tem alguma coisa são da área Ginecológica, não são aqueles doentes que vão morrer e que vão sofrer, existe isso também. Então eu acho que da Medicina é uma das áreas mais felizes, juntou tudo uma área que eu tive oportunidade de aprender e de chegar ao sexto ano, o sexto ano eu era... Eu fui fazer residência, mas eu sabia muito mais do que qualquer cara que tinha terminado uma residência, porque eu fiz somando o tempo que eu fiz Maternal, Amparo e Clínica Infantil Ipiranga, se somar tudo isso dava vinte anos de residência. O volume que tinha era uma época em que São Paulo era diferente, existia uma entidade que a gente não escuta hoje que era o indigente. Era o INPS, então quem não tinha direito ao INPS era indigente e era atendido pela rede da Prefeitura, então o Amparo Maternal, por exemplo, parava uma ambulância e deixava uns cinco, seis dez pacientes que não tinha direito a nenhum outro lugar, então no Amparo eu evoluí, no Amparo virei chefe de plantão. E tinha plantão de doze horas que a gente tinha quarenta, cinquenta partos em doze horas. Isso era uma loucura, fazia um parto, ia para cima e fazia outro; fazia outro, voltava, tirava a placenta de um, a placenta de outro, era uma loucura.

 

P/2 – Mauro você tocou num fato, acho que é bastante interessante, entrando nessa linha de produção de fazer o nascimento das crianças, você ainda se lembra do primeiro bebê que você trouxe ao mundo? Você tem essa memória?

 

R – Sabe que não. De vez em quando eu paro assim... Eu tive um grande professor que era o Professor Paulo (Gofe?), e o (Gofe?) andava com uma cadernetinha no bolso dele e ele lá marcava todos os partos que ele fez, então acabava uma cadernetinha, era uma cadernetinha pequena pretinha e daí acabava essa ele guardava e fazia outra. Teve uma época que ele saiu como pai do século ou pai do ano, saiu na capa da Veja e tudo, daí eu paro para pensar, eu não sei quantos partos eu fiz, todo mundo tem essa curiosidade: “Quantos partos você já fez?”. Como eu trabalhei nesses lugares que tem muito movimento e comecei como quartanista e o que faz o quartanista? Ele fazia o parto, às vezes ele começava, ou então um quintanista fazia um fórceps quando era indicação de fórceps, ele locava o fórceps e daí ele saía e você terminava o parto. A gente começava assim. Então ficava muito difícil eu saber se eu comecei o parto, se eu terminei ou eu depois como quintanista assisti milhões de parto onde eu ajudei e o parto entrava no meu nome. Como chefe de plantão teoricamente tinha cinquenta partos e eram todos na minha responsabilidade, eu pus a mão em todos? Nem todos, mas isso não significa nada. Então eu nunca me dei o trabalho de saber se eu fiz esse ou se fiz aquele. De vez em quando eu vejo aí alguém falar que fez dez mil partos, é mentira. Primeiro que para o cara fazer dez mil partos, se ele fizer as contas da idade dele, ele tem que fazer um parto atrás do outro e às vezes ele soma o parto de todo mundo num plantão como se sendo um parto dele. E hoje, se eu for tentar levantar eu não vou conseguir descobrir, porque muitos não estavam no meu nome e fui eu que fiz e muitos estão no meu nome e não fui eu que fiz, porque eu ajudei ou porque entrei. Então eu desisti de querer saber quantos tem. Mas eu fiz muito parto na vida, agora você falou do primeiro, eu tenho um problema de memória por isso que é bom gravar as coisas, porque eu não lembro assim qual foi o primeiro parto que eu fiz, não lembro, é gozado isso, não é?

 

P/1 – Mauro, retomando ainda dentro da profissão, você se lembra de algum caso delicado que tenha te chamado a atenção nesses anos? Alguma coisa que...

 

R – Muita coisa. Tem gente que gosta de guardar as coisas e para cada situação eu tenho lembranças, então são muitas coisas interessantes. Uma coisa que me marcou muito, eu lembro, eu estava no Amparo Maternal e quem dirigiu o Amparo... Ele foi criado por uma irmã que chamava Dominique, a irmã Dominique era uma velhinha, já bem velhinha nessas alturas, e ela andava lá pela casa e um dia eu fiz um parto lá. E o Amparo, ele fazia os partos naquela época, era chamado hospital da mãe solteira, por quê? Quem não tinha assistência nenhuma e normalmente a mulher que engravidava fora do casamento e era abandonada ia dar a luz, porque ela não tinha nenhuma assistência, mas não tem porque um hospital da mãe solteira, um hospital de quem não tinha assistência e muitas pacientes davam a luz, mas não estavam felizes, porque deram a luz no sentido de que não era uma gravidez planejada, as condições dela eram ruins e a assistência que se dava ao parto não era uma assistência que a gente poderia chamar hoje de humanizada. A mulher tinha dor durante o trabalho de parto, pouco se fazia. A gente tentava fazer o melhor possível, mas um hospital com quarenta, cinquenta partos, não tinha como fazer e naquela época nem existia esse conceito de fazer analgesia de parto, a paciente tinha que aguentar todas as dores do parto e isso era assim, então poucas vezes a gente via uma mulher tão feliz depois do parto. E eu fui falar a uma paciente depois que nasceu uma criança que estava emocionada, chorou e pegava e abraçava a criança e a irmã passou bem naquela hora e eu falei: “Puxa irmã, é tão difícil a gente ver aqui no Amparo uma mãe ficar tão feliz quando nasce uma criança”, ela acabou comigo a irmã, ela falou: “O senhor está muito enganado, todas as mães ficam felizes quando nascem os seus filhos, é que nem todas se manifestam igual essa”. Quer dizer, isso pode ser verdade mesmo, é uma coisa que mexeu comigo, porque perto de muita gente que não queria mesmo, as que eventualmente não desejavam a gravidez, mas quando nasce uma criança ela está tendo a felicidade de estar tendo a criança. Ela pode estar preocupada, ela pode estar com dor, ela pode ter um monte de outros motivos que não dão essa emoção toda e isso é uma coisa que me marcou de uma forma bem importante. Agora por “n” motivos a gente tem muitas histórias no sentido de serem partos. Acho que a grande vantagem do parto para quem faz e para quem gosta do que faz é que para mim cada parto é um parto, cada um tem uma história, não é um parto a mais que eu estou fazendo. Eu estou fazendo um parto de um casal, de uma mulher, de uma família e tem essa história ou teve dificuldades de ter esse filho ou teve dificuldade de engravidar, ou teve problemas em outras gestações ou não teve problema nenhum, mas está sendo aguardado ou não estava sendo aguardado e virou o motivo da espera, quer dizer, sempre tem uma história em cima disso. Então não é uma coisa mecânica que eu estou fazendo um parto, para eu fazer parto sempre foi um prazer, é uma coisa que eu curto, é uma alegria eu estar trabalhando fazendo isso daí. Então eu não tenho dúvida, uma vez eu vi uma entrevista do Adib Jatene naquela época que ele era ministro e o repórter assim: “Mas como ministro o senhor dá conta de fazer tudo isso que o senhor faz? O senhor é ministro, o senhor é diretor do hospital, o senhor tem o seu hospital, o senhor opera, como o senhor consegue fazer tanta coisa e ainda faz ginástica, faz isso...”. Ele falou: “O segredo é fazer aquilo que a gente gosta, se a gente faz aquilo que a gente gosta nada disso é maçante, nada é cansativo”, e eu vivo exatamente dessa forma. Todo mundo que eu encontro fala: “Ah, você é obstetra, coitado, te acordam de madrugada”, eu acordo de madrugada, mas eu nunca xinguei ninguém porque me acordam de madrugada, eu nunca fiz isso. Eu sempre acho que tem motivos, se alguém chamou tem motivos. Alguém vai ao Pronto-Socorro às duas horas da manhã, chega lá: “Ah, eu vim aqui porque eu não consigo dormir”. Tem muitos colegas que ficam loucos com pacientes que engessam o braço e não tem que engessar, entendeu? Querem punir a mulher, mas se alguém se deu ao trabalho de sair da casa dela de madrugada e ir para outro lugar, ir para o Pronto-Socorro, sabendo como é esse esquema, ela deve ter algum problema, não foi de graça e se você está lá aproveita, eu quero dormir no plantão, então não adianta. Então eu sempre encarei dessa forma, se eu estou num plantão é para atender e se o paciente for lá ele precisa do atendimento e se me ligam de madrugada eu nunca xinguei ninguém porque liga, porque eu estou com raiva, eu atendo... A minha mulher briga comigo porque diz que eu atendo como se estivesse realmente acordado, eu estava dormindo e às vezes fico até sem graça de falar com a pessoa que eu estava dormindo para ela não ficar constrangida de ter me acordado. Mas, por outro lado, está errado do meu lado, acho que tem que falar que estava dormindo mesmo e ele que lide com o problema de ter me acordado, mas nunca me incomodou isso como sair para fazer um parto. Até acabei vivendo um... Dentro da nossa vida a gente mudou o esquema para que isso deixasse de ser um problema, a minha mulher entra nos partos comigo. Quando eu casei, eu dava cinco plantões por semana quase, minha mulher fazia uma agenda mostrando os dias que eu estava em casa, era o contrário: “Olha, você não está, não está”. E ela era jornalista naquela época e até acabou trabalhando, teve uma época que ela era da imprensa da própria associação médica, da Associação Paulista de Medicina. Então os dias que eu estava em casa ela tinha reunião à noite, porque reunião de médico é sempre à noite. Então a gente não se encontrava quase. Daí não deu para ela continuar trabalhando na área de jornalismo e eu fui desmamando os meus plantões, eu fui diminuindo o número dos meus plantões e daí nós tivemos os nossos filhos e ela me acompanhava nos partos. A gente foi descobrindo o seguinte: que às vezes depois do parto uma paciente ligava e não era para falar comigo, era para falar com a minha mulher: “Ah, como é que é?”, pedia opinião para ela, discutia, então a gente começou... Ela acabou fazendo instrumentação e daí em vez de eu ir... A gente ia jantar fora e daí toca o bip, tem um parto, então eu ia fazer o parto e ela ficava sentada esperando, aí estragava o programa. Então o que a gente fez? Ela fez instrumentação e vai ter um parto? Em vez de jantar agora a gente ia fazer o parto, ela entrava junto comigo e instrumentava e ela começou a ganhar também e conversava com as pacientes. Então virou um programa, eu mudei de programa e em vez de ir jantar fora agora eu vou fazer um parto. E quantas vezes a gente saía de parto, por exemplo, naquela época eu trabalhei muito no Santa Catarina, fui diretor de lá, saía do Santa Catarina e ia tomar café da manhã no Maksoud. Então virou um programa: “Ah, passei a madrugada inteira acordado, que bom agora nós vamos tomar café às seis horas da manhã no Maksoud”. Então acabou mudando o nosso esquema de vida. Daí com essa história de ela estar junto com os pacientes, as pacientes começaram a conversar muito e ela virou uma psicóloga na época, mas sem diploma, então ela foi fazer Psicologia e acabou se formando e hoje ela é psicóloga, é diretora de ensino. Então a gente acabou mudando, hoje se eu tiver que fazer um parto a qualquer momento não atrapalha a minha vida. É um prazer. Ah, um fim de semana se eu estiver no Guarujá eu volto e ela volta comigo, eu faço o parto, não tem problema. Então para mim parto não é problema, é um prazer fazer parto, muita gente fala devia fazer só ginecologia que é tudo mais ou menos programado, convencional, mas como hoje meu atual professor, o chefe lá, o Peixoto diz: “Aquele médico que faz só Ginecologia é um médico triste”, porque não fazer Obstetrícia é muito triste, porque a Ginecologia tem doença, tem câncer, a Obstetrícia é alegria da especialidade, então você pegar... Um pai me dar uma fotografia da filhinha é uma coisa muito boa.

 

P/2 – Só recapitulando. Então a Ginecologia e a Obstetrícia não são necessariamente ligadas?

 

R – Não, eu estava pensando esses dias... Antigamente a especialidade era Ginecologia e Obstetrícia, mas hoje cresceram muito as duas áreas e a gente vai descobrir que as duas não são tão irmãs assim. As duas mexem com a mesma mulher, mas existe uma área onde as duas se encontram, por exemplo, na fertilidade a mulher está tendo dificuldade para engravidar, engravida e passa para a Obstetrícia, mas grande parte da Ginecologia hoje não tem nada a ver com... Tanto que é possível fazer só Ginecologia e é possível fazer só Obstetrícia. Por exemplo, dentro da minha carreira universitária eu só faço Obstetrícia, eu sou professor de Obstetrícia, não dá para eu dar aula de Obstetrícia e de Ginecologia como os meus amigos da Ginecologia não conseguem dar aula de Obstetrícia. Dentro da Obstetrícia eu tenho hoje muitas áreas que a gente não consegue pegar tudo como dentro da Ginecologia também, por exemplo, eu coordeno uma residência médica, a residência de Obstetrícia está na minha mão, a residência de Ginecologia está num... Inclusive até hospitais são diferentes. A residência do SUS [Sistema Único de Saúde] eu coordeno a residência médica na Maternidade de Interlagos e da mesma residência de Ginecologia eu estou no Pérola Byington, não tem nada um com o outro, na realidade hoje são totalmente... É que o que dificulta um pouco é o cara fazer só Obstetrícia. O professor (Gofe?) que era um ex-professor nosso fazia só Obstetrícia, o consultório dele só tinha mulher grávida, lógico que escapava depois que você faz um parto numa paciente daí ela começa a menstruar, ela tem um probleminha ela procura você, não tem como falar: “Não, não vou te atender, mas procura outro Ginecologista”, vai procurar outro médico é complicado. Mas ele fazia isso, ele abria mão, ele só fazia parto, mas também complica, porque depois você vai ficando muito mais velho e nem sempre você conseguindo fazer todos os partos, a tua clientela vai ficando mais velha, então você... Eu vejo os ginecologistas, vão envelhecer, mas os pacientes dele também, então daqui a pouco está com sessenta anos, setenta anos fazendo as consultas das mulheres que estão com sessenta anos, setenta anos só que ela vai envelhecendo junto, então eu acho que tem que fazer as duas especialidades. O que muita gente não consegue fazer é a Obstetrícia, porque a Obstetrícia demanda você se dedicar um pouco mais, então tem gente que só faz Ginecologia, porque não acorda de madrugada, não tem problema de fim de semana.

 

P/2 – Mauro, como é que você começou a trabalhar com a gravidez de alto risco? Elas surgiram ou você se interessou pelo caso?

 

R – A grande mudança das coisas que me fizeram trabalhar com Obstetrícia é igual eu falei, a grande vantagem é que ela tem a parte clínica e a parte cirúrgica e dentro da parte clínica o que é? É trabalhar com problemas de endócrino, problemas de hipertensão e isso eu sempre gostei, quer dizer, dentro da faculdade eu adorava endócrino, mas vou fazer só endócrino? Não tem graça, eu vou ser só um clínico, não vou ter mais nada, então na Obstetrícia eu conseguia fazer tudo. Eu me formei no ABC, então eu me lembro disso como se fosse hoje, eu fui falar com... Eu queria fazer carreira universitária, do jeito que eu estava vinculado na escola com diretórios e congregação eu sempre quis fazer carreira, daí fui falar com o professor: “Olha, eu quero ser professor, o que eu faço? Faço residência aqui ou faço residência fora?”; “Mauro, faça a melhor residência que você puder e depois você volta”. Eu prestei concurso e fui para a USP que era a melhor residência de Ginecologia, entrei lá, fiz minha residência lá, meu R1 [residência de primeiro ano], R2 [residência de segundo ano]. E quando eu estava no R3 [residência de terceiro ano] surgiu a possibilidade de contrato dentro do hospital, daí eu fui indicado para ser contratado como médico do Hospital das Clínicas e eu entrei como médico no Hospital das Clínicas. Entrei e a área que eu mais gostava lá dentro era a área de endócrino, que no começo era comandada naquela época pelo Doutor (Oggi?), que era um cara muito legal, a gente fazia ambulatório junto com ele e era interessante. O R2 que me acompanhava sempre na residência era o Jair e eu ficava pendurado lá, que era uma coisa que eu gostava. Aí terminei minha residência e o Doutor (Oggi?) era plantonista, mas aí a clínica dele cresceu muito e ele resolveu sair do hospital, ele saiu, daí o Jair assumiu a Endocrinologia. O Jair é um grande amigo meu ainda hoje e daí ele era o chefe da Endocrinologia. E eu queria fazer endócrino também e ainda comentava em casa com a minha mulher todos os trabalhos que tem chamam o Jair para fazer, porque ele é o chefe da endócrino, vai ter que dar uma aula num congresso, quem vai dar aula? O Jair que é o chefe da Endócrino, eu falei: “Ana, eu vou ficar aqui marcando na Endócrino, mas o chefe dele é um ano mais velho que eu, então eu vou ser sempre o segundo, nunca vou ser ninguém aqui”. E a gente aprendeu uma coisa na vida que quando você quiser uma coisa, mesmo que seja o lugar da outra, você não precisa querer destruir a outra, você queira que a outra consiga uma coisa melhor para ele e que ele largue o que você está querendo. Então o que eu tinha que fazer? O Jair tinha que conseguir uma coisa melhor para ele para largar o lugar para eu pegar e na realidade, honestamente, eu não queria o lugar dele, eu queria o meu lugar, mas eu era sempre o segundo, não é que era o lugar dele que eu queria, mas o mundo é assim, ele viu que fazer clínica para ele era muito difícil, ele era muito estressado e hoje ele é diretor de um dos grandes convênios de São Paulo, uma das melhores medicinas de saúde que é a Lincx. E ele foi da Omint que é uma grande, e hoje lá na Lincx ele basicamente não é dono, mas ele tem uma posição excelente lá, então foi uma coisa muito boa para ele, daí ele saiu do HC [Hospital das Clínicas] e ele saindo do HC eu assumi a chefia da Endócrino e daí eu virei o chefe da Endócrino. No HC eu tive uma posição muito boa, eu era o chefe da Endócrino, era o chefe do ambulatório, era chefe do plantão, já fui chefe da enfermaria, chefe do hospital de alto risco, quer dizer, dentro da estrutura do HC eu trabalhei vinte anos lá dentro. Eu circulei em todas as áreas administrativas que tinha e lá a gente acaba aprendendo, então o que eu gostava muito era de alto risco, mas a parte do endócrino hoje, não é para falar dentro da área de diabetes na gravidez, endocrinopatia geral que mexe com tireóide e tudo isso tem gente boa no Brasil? Tem muita gente boa, mas tem que juntar duas coisas: tem que ser boa e tem que ter experiência. Eu tive a grande chance da minha vida de aprender tudo isso com gente boa, aprendi com o (Oggi?), com o Jair, com os clínicos que trabalhavam comigo, o Lerário, o Professor Bernardo que é gente muito boa e aprendi com eles. Mas eu tive uma grande chance de ter o movimento do HC na minha mão e com isso também ter o meu movimento de consultório. Então hoje, sem nenhuma falta de modéstia, eu acho que tem muita gente que sabe tanto quanto eu, mas tem pouca gente que tem a experiência que eu tive. Eu acho que tive essa grande chance de ter isso tudo na minha mão e é lógico que a gente acaba se envolvendo. Hoje sou chefe da Obstetrícia da Faculdade de Medicina, eu tenho três hospitais grandes na minha mão e lido com alto risco o dia inteiro. Então é pressão alta, diabetes, todas essas coisas, a gente acabou pegando um gosto que eu acho assim, só a Obstetrícia seria muito interessante o parto em si, mas eu consigo mexer com uma coisa muito mais ampla que é pegar gestações complicadas e fazer com que a paciente tenha o seu filho de uma condição boa e isso é extremamente gratificante, é uma coisa... E com uma segurança muito grande, é muito legal, acho que isso é importante. Dá para gente fazer... Esses dias eu estava chateado, porque eu entrei no hospital, estava induzindo o parto que esse caso era um óbito fetal, a criança tinha morrido e eu falei: “O que é o caso?”; “É uma diabetes”. Eu falei: “Não vejo diabética perder bebê há muito muitos anos” e não admito que perca, mas o que aconteceu? Ela estava... Não, a briga era assim, ela estava bem controlada, era uma paciente que fazia tudo direitinho, fazia auto monitorização, ela estava muito compensada, mas eu falei: “Não pode morrer, tudo que eu falo e que eu ensino não tem como”, ou ela não está compensada ou ela não pode morrer para o diabetes, aí induzimos e tal até que nasceu e quando nasceu, daí... Infelizmente na Medicina tem muito disso. Eu tinha um professor que a gente dizia que ele era meio maluco, mas ele dizia o seguinte: “Quem é a pessoa mais importante no hospital?”. Pergunta para o aluno e o que o aluno vai falar? “É o paciente”, e ele falava: “É o paciente coisa nenhuma, é você, tudo que você faz é por você então quer tratar bem do paciente tudo bem vai curar, mas o que você quer é saber que você curou o paciente, que esse é o teu desejo, muito maior do que o paciente cure é você saber que você curou o paciente” e a gente para pensar: será que é isso mesmo? Será que é verdade? Eu sempre brinco com os alunos, hoje eu falo: imagina que você está no Pronto-Socorro e atende um casal, a mulher está com uma crise asmática, você vai lá, conversa, fica batendo papo com o marido, trata a mulher, ela dá uma boa melhorada e o marido fica até teu amigo. Daí eles vão embora e na semana seguinte ou quinze dias depois você está lá no Pronto-Socorro e você encontra o fulano lá e aí você vai lá cumprimentar, “tudo bem? Como é que vai sua esposa?”. Ele fala: “Morreu”. Você afunda lá embaixo da terra, “morreu”, o que passa na tua cabeça: será que ele não tratou direito? Será que ela teve alguma coisa que ele não fez diagnóstico e o cara deve estar pensando nisso, “não, não doutor o senhor foi excelente, o senhor deixou ela ótima, ela estava feliz da vida, ela foi até viajar, coisa que ela nunca fez, foi lá visitar a mãe dela, mas daí ela estava atravessando a linha do trem, o trem passou e matou ela”. Daí você sente um alívio, não é? Não fui o responsável, mas a mulher morreu do mesmo jeito, quer dizer, você está preocupado com o paciente ou com você? A mulher morreu e você está feliz porque não foi você o responsável pela morte dela. Então essa história da diabetes que eu estava falando era a mesma coisa, eu estava puto da vida, como é que essa mulher perde o filho, fez tudo que eu mando fazer, não pode perder, daí induzimos e quando nasceu eu até tenho a foto, ela tinha duas circulares, o cordão estava dando volta duas vezes e o cordão enforcou o bebê. É uma situação muito difícil acontecer fora do trabalho de parto, num trabalho de parto até é possível, mas a gente acompanhando consegue descobrir isso, se não eu assusto todas as mulheres falando que o bebê pode morrer enforcado e aí a mulher não dorme mais na gravidez. Não é uma situação que não existe, eu posso falar, vai existir no trabalho de parto e para isso o médico tem que estar do lado e nesse caso foi um acidente. A criança mesmo depois de morta tinha marca, a depressão do cordão no pescoço, então não tinha nada com diabetes, lógico. Fiquei chateado, a criança morreu, mas para mim que cuido de diabetes é muito importante saber que não foi a diabetes que determinou isso, ela não morreu porque eu deixei de fazer alguma coisa. Até para a mãe acho que é importante saber que ela fez o controle, perdeu o bebê, não resolveu o problema dela. Então tem desses dissabores de vez em quando, mas não foi culpa nossa. Acho que tratar de gravidez de alto risco é muito gratificante ao mesmo tempo em que tem as complicações.

 

P/2 – E quais são os fatores que provocam uma gravidez de alto risco? O diabetes é um deles?

 

R – Tem um monte, qualquer doença faz dar a pressão alta, diabetes, lúpus, pneumopatia, cardiopatia.

 

P/2 – Então qualquer doença pode transformar em alto risco?

 

R – Porque eu gosto de Obstetrícia eu tenho que circular por todas as áreas clínicas sem necessariamente ser o clínico. Algumas áreas eu sei bastante. Endócrino eu sei, a cardiopatia eu não sei tanto, a hipertensão eu sei, então algumas áreas eu preciso do suporte dos especialistas para acompanhar uma grávida e tem áreas que eu administro sozinho, então tem essa vantagem, a grande vantagem é que a mulher tem todas as áreas da Medicina nela e na gravidez eu posso ter complicação de quaisquer uma das outras áreas.

 

P/1 – E hoje em dia com a tecnologia disponível, qual é a idade máxima que se diz que não há uma gravidez de risco? Existe isso ainda?

 

R – Não existe isso. Eu posso ter uma menina de catorze anos e é de alto risco porque ela é uma adolescente, eu posso ter uma com quarenta anos e não ter risco, quer dizer, riscos teóricos ela tem, mas afastados os riscos ela não tem risco nenhum, quer dizer, quarenta anos ela pode ter diabetes, ela pode ter pressão alta, ela pode ter criança com alteração genética, cromossômicas, mas não tem isso ela leva a gravidez normal, dá a luz normal sem problema nenhum. Acho que hoje a gente tem que quebrar os tabus e idade não é problema, o importante é saúde, entendeu? Se ela está bem em qualquer idade, é idade. Isso hoje é qualidade de vida, se o indivíduo tem uma boa qualidade... É igual tratar a menopausa. Eu tenho um amigo que diz que a gente não deve fazer esse negócio chamado terapia de reposição hormonal, a gente tem que fazer uma terapia de qualidade de vida. Se eu pego uma mulher com sessenta anos, mas que sempre se alimentou bem, fez ginástica, ela não vai ter osteoporose, ela não tem colesterol alto, ela não tem nada, é mulher que não precisa tomar hormônio depois; muitas vezes você vai ter que dar uma corrigida em alguns sintomas, mas é uma mulher que a boa qualidade de vida determina que ela deva ter uma vida saudável daí para frente. Então acho que as minhas especialidades hoje que a gente lida com muita mulher normal na GO, eu tenho mulher que chega para lá e: “Eu vim aqui para saber se está tudo bem, eu não tenho nada”, então é uma especialidade muito legal. Agora o médico tem que estar ciente disso, eu tenho que estar tranquilo para mandar uma mulher ir embora da minha sala sem dar uma receita para ela e isso os médicos não estão preparados. Uma coisa que a gente tem que fazer é mudar a cabeça de médico, o médico foi feito para tratar doente e está errado, não é isso, a gente foi feito para preservar a saúde e quando ela não está boa tem que colocar no lugar, então eu preciso atender uma mulher... E mulher tem muito disso, ela vai para o consultório sem ter doença nenhuma, eu tenho que conseguir atendê-la, bater papo com ela, ver se está tudo bem e mandar embora sem receita também, porque ela não tem doença não tem que tomar nada, o duro é segurar essa vontade de fazer uma receita.

 

P/1 – Mauro, além da carreira atuando ali na clínica mesmo, como que é essa coisa de ser professor para você? Trabalhar com educação?

 

R – Acho que é uma das coisas mais gratificantes, acho que o ser professor... Minha mulher diz que eu nasci para ser professor, acho que é uma das coisas que é muito recompensador, é muito gratificante. Na clínica é meio complicado isso, hoje em dia o médico perdeu muito o papel dele, antigamente o médico era aquele conselheiro da família, hoje ele é descartável. Hoje a gente tem um problema sério em relação à medicina, é que ela descaracterizou; hoje os médicos não têm mais pacientes, hoje a mulher é paciente de um convênio, o médico que está no convênio, ela vai nesse, se esse médico sair do convênio ela vai a outro. Eu nunca vou esquecer, eu tive uma paciente que teve uma dificuldade enorme de engravidar, eu a acompanhei, me adorava, ela engravidou, fiz um parto, ela me adorava, eu fiz outro parto e por uma coincidência muito grande eu encontrava com ela em quase todas as minhas férias. A gente tinha as crianças pequenas, eu ia para Lindóia para esses lugares que a gente vai quando tem criança pequena e encontrava com ela nas férias, ela me adorava. Um dia minha mulher teve uma curiosidade e perguntou para ela na sala de espera: “Se o Mauro sair do convênio, qual seria a sua atitude?”, esperando que ela falasse assim: “Não, eu continuo”, ela virou e falou: “Eu procuro outro médico”, e eu confirmei isso, eu saí do convênio e nunca mais vi essa paciente. E como ela, cinquenta outras que me adoravam mandavam cartão no final do ano enquanto eu estava no convênio, eu era médico delas, recebia cartão de natal: “Nunca vou esquecer-me de você, você é o responsável, salvou meu filho”, mas o tempo faz esquecer tudo isso. O dinheiro fala mais alto, quer dizer, se falar não, mas a situação econômica é difícil, ela precisa ir ao convênio para não pagar consulta. Eu não acho que é isso, eu acho que é a desvalorização das pessoas. Eu tenho paciente que fala: “Mauro, eu só confio em você, eu não posso pagar consulta, eu quero ir aí, mas olha, o meu convênio é outro, tem outros médicos, o que a gente pode fazer?”. E a minha mulher sempre diz uma coisa: “Existem duas coisas para você fazer: uma coisa é falar ‘eu não posso nada’ e outra coisa é falar ‘eu não posso tudo’”. Então de repente eu não posso tudo, é “Mauro, eu não posso pagar a sua consulta”, mas não é falar não posso nada. “Não, eu não posso pagar um tostão para você”, mas será que se o pneu do carro dela furar ela não vai trocar o pneu nesse momento? Será que ela não vai almoçar fora nenhum dia, porque almoçar fora de repente é uma coisa que não justifica, porque ela pode comer em casa e gasta um terço do valor. Então é questão de valorizar o que é importante, para ela é importante comer fora, mas não é importante ir ao médico, então a gente percebe o seguinte, infelizmente na clínica a gente sofre muito com isso. Você imagina que o paciente te valoriza, mas ele te usa, você tem um paciente na frente e depois para e ele acha que você não fez mais que a obrigação, não tenha dúvida, eu fiz mesmo mais que a minha obrigação, mas a gente... Isso me magoa muito, é uma coisa que incomoda, não são todos, eu posso até... Tem pacientes, quando a mãe deles que moram no exterior vem aqui, que levam para mostrar quem é o médico que fez nascer a filha dele, entendeu? Então isso mexe com a gente, mas é uma minoria; na maioria das vezes nasceu, tudo bem e gente fica muito chateado com isso, tem gente que argumenta: “Não, eu não posso pagar, mas esse é o seu valor eu não vou nem discutir com você”, entendeu? Acho até que deve existir essa situação, tem gente que gostaria, mas acha que pedir para eu dar um desconto ou pedir para eu atender de graça, discutir comigo, esse aspecto seria depreciativo para mim, então acha que não deve nem me incomodar. Não sei, eu luto por aquilo que eu quero, se eu quero ser atendido por fulano de tal mesmo que eu não posso eu vou chegar e conversar: “Olha, eu queria muito ser atendido por você, mas não posso, como a gente pode negociar isso?”, mas acho que tem paciente que não quer... Mas no consultório tem muito disso, tanto que eu atendia convênio, eu tinha trinta pacientes por dia, eu parei de atender convênio e hoje minha agenda é livre, pode marcar a hora que você quiser, as condições mudam muito. E por que eu estou falando isso? Porque na aula é diferente, você dá aula e as pessoas te valorizam mais, então, por exemplo, eu sempre dei aula na USP, mas na USP é muito fragmentado, cada um dá a sua aula, e como lá eu era o responsável pela área de Endócrino, então eu dava aula de diabetes e gravidez. Agora eu estou na Faculdade de Medicina do ABC, eu sou responsável por toda a Obstetrícia, então eu organizo o curso, por exemplo, esse ano foi extremamente gratificante, nós mudamos totalmente o programa do curso e o curso foi tido como o melhor curso da faculdade. A gente acabou o curso e nós recebemos presente dos alunos, coisa muito difícil, os alunos gravaram um vídeo com mensagens para gente agradecendo o curso, então isso é muito gratificante, você vê que o cara aprende e eu tenho noção disso, é muito legal. Eu já dei aula em outras escolas, já fui professor em outras escolas, eu lido com residente de todas as áreas nos lugares que eu faço assessoria em residência, então eu vejo que o meu aluno é muito bem preparado e isso dá muito gosto. Eu vejo um aluno meu lá da Faculdade de Medicina do ABC apresentando um caso eu vou para lá com tesão, toda vez é... Eu posso estar sete horas da manhã lá, é lógico que atraso um pouquinho, a minha mulher fala: “Tem que ir às sete horas?”, mas eu vou com prazer, porque eu chego lá eu curto o que estou fazendo, eu sou meio elétrico, eu estou sentado aqui porque não tem jeito, mas eu não consigo ficar sentado, eu fico em pé dando aula, eu fico o tempo todo em pé, fico lá das sete da manhã até as dez ou onze horas, o tempo que precisar, porque eu curto o que eu faço, então dar aula acho que é a coisa mais gostosa que tem. Além de que você está lidando com jovens e você acaba incorporando um pouco isso, não é? A gente vai ficando mais velho e você lidar com aluno é muito bom.

 

P/1 – Mauro, a gente está entrando no período final da entrevista e, como última pergunta, se você tivesse que mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o que você mudaria?

 

R – Eu mudaria muitas coisas (risos). Eu falei muito pouco disso, mas na minha profissão eu não mudaria isso, nessas coisas, eu mudaria na minha forma de agir de adolescente, eu fui uma pessoa muito cordata, fazia tudo certinho, tem essa frase: “Se eu pudesse eu teria andado mais descalço, eu teria feito um monte de coisas”, sabe? Tem até a música, quer dizer, incorporado... Eu teria mudado um pouco nesse sentido, eu era muito certinho, perdi meu pai com treze anos e nesse período eu tive que assumir muitas coisas de adulto, então eu fui adulto muito cedo. Eu fui cerceado de muitas coisas, eu tive a oportunidade de... Ia para acampamento, no fim de acampamento quando todo mundo já se conhecia e eu estava fora do lugar, então eu sofri muito com essas coisas, eu teria mudado isso, eu teria sido um pouco mais liberado na minha adolescência para que não sofresse as consequências disso agora. Mas do ponto de vista de família, de casamento, de... Casaria com a minha mulher vinte mil vezes a mais, a profissão eu faria a mesma coisa, as minhas opções da profissão eu faria igual, só gostaria de ter mais recompensa em relação ao que eu faço, podia estar mais rico e tal, mas não mudaria isso não. Eu vejo... Uma vez eu... A minha esposa foi num grande professor aí e ele já é aposentado, o professor é médico, então ele chegou para ela e falou: “Eu sou um médico frustrado, não era isso que eu queria fazer, eu queria fazer outra coisa, eu fiz isso por causa da minha mãe”, e ela falou: “Mas a vida inteira você fez isso?”, e hoje ele é um dos professores mais renomados do mundo e não era o que ele queria fazer. Então é interessante isso, eu não acho que faria tudo o que eu fiz, eu teria feito talvez de formas diferentes em algumas coisas, mas eu faria principalmente em termos de família, de casamento e de profissão, eu não mudaria não, eu faria igual.

 

P/1 – Mauro, eu gostaria de te agradecer em nome do Museu da Pessoa por essa oportunidade da gente estar gravando esse depoimento.

 

R – Obrigado a vocês.

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