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História

Bebé de Mutum-Paraná

História de: Maria Nazareth de Souza (Bebé)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/12/2010

Sinopse

Neste depoimento Bebé nos conta sobre como nasceu, cresceu e viveu a maior parte de sua vida num seringal de Rio Branco. Quanto a isso, Bebé nos fala do trabalho na infância, sobre o processo integral da produção de borracha e a manufatura de chinelos, sapatos e outros produtos. Também conhecemos um pouco mais a respeito dos modos de subsistência dos moradores de Mutum-Paraná, sobre a pesca, o garimpo e a família de Bebé, criada a partir de seu casamento aos 12 anos.

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História completa

P – Fica bem à vontade, ignora esse monstro aqui do meu lado. (risos) Então, dona Bebé, pra começar eu vou pedir pra senhora me falar o seu nome completo, o lugar em que a senhora nasceu e a data em que a senhora nasceu.

 

 

R – Ai, a data que eu nasci já não sei mais não.

 

 

P – Pode ser só o ano.

 

 

R – Eu sei só o mês que eu nasci.

 

 

P – Tá ótimo, então fala pra mim.

 

 

R – Abril, no mês de abril.

 

 

P – No mês de abril. E qual o seu nome completo?

 

 

R – É Maria de Nazareth de Sousa.

 

 

P – Maria de Sousa. E você nasceu onde, dona Bebé?

 

 

R – Lá num riozinho que chama Rio Branco.

 

 

P – E o que tem lá nesse Rio Branco?

 

 

R – O que tem? O que tinha lá era... a gente cortava seringa.

 

 

P – Ah, você nasceu no seringal?

 

 

R – Foi, no seringal, meu pai morava lá.

 

 

P – Certo. E por que dona Bebé? É um apelido? De onde veio esse apelido?

 

 

R – (risos) Não sei não.

 

 

P – Então todo mundo te chama de Bebé desde sempre?

 

 

R – É.

 

 

P – Tá certo. Então me conta, a senhora nasceu no seringal, foi isso?

 

 

R – Foi no seringal.

 

 

P – E como foi isso? Não tinha hospital...

 

 

R – Lá nasci, eu me criei, lá no seringal.

 

 

P – E quem fez o parto da senhora?

 

 

R – Foi o meu pai mesmo.

 

 

P – Seu pai e sua mãe.

 

 

R – Foi meu pai. (risos)

 

 

P – Certo. E lá no seringal vocês viviam... vivia você, sua mãe, quem vivia no seringal?

 

 

R – Tinha mais gente lá, tinha mais três pessoas, né? Os outros trabalhavam era de... tirando cálcio, né? Tinha mais gente, mas era tirando cálcio.

 

 

P – Tirando cálcio?

 

 

R – Fazendo prancha, aquelas pranchas de cálcio.

 

P – E como...

 

 

R – Eles faz... aquelas pranchas de cálcio, faz aquelas (inaudível) aqui e tal, assim, né, aí coloca aqui e fica aquela (ameixa?) grande assim.

 

 

P – E isso eles tiram de dentro da seringa? Como é que tira?

 

 

R – Não, não é da seringa não, é do cálcio mesmo. A seringa é outra, né? A seringa é defumada, né? É defumada.

 

 

P – Entendi. E o seu pai, sempre ele era daqui da região também, ele era de onde?

 

 

R – Não, o meu pai era maranhense.

 

 

P – Maranhense?

 

 

R – É, do Maranhão.

 

 

P – E ele veio pra cá por quê? Por causa da seringa?

 

 

R – Veio... cortar seringa também.

 

 

P – E sua mãe também?

 

 

R – Também.

 

 

P – O que você lembra deles?

 

 

R – Deles eu não vou lembrar. (risos)

 

 

P – Você tem alguma lembrança de quando você era criança, deles?

 

 

R – Tem não.

 

 

P – Nem um pouco. Então me conta um pouquinho do trabalho na seringa, dona Bebé. Como que era o trabalho da seringa?

 

 

R – Trabalho na seringa é bom. É bom, a gente cortava, juntava o leite, pegava e colocava na bacia, aí tinha o negócio de uma... assim, de barro, né? A gente chamava fornalha, né? Ali enchia de cavaco, coco, que é pra sair a fumaça, né? Que era pra defumar a borracha, rolar na fumaça.

 

 

P – E como é que defuma? Coloca ela na fornalha e deixa ela lá?

 

 

R – Não, a gente vai rolando no pau, num pau assim, ó, aquele tem um... atravessa assim, você põe um pau, a borracha tá aí. Aqui a gente (inaudível) de leite, né, e aqui vai só enrolando pra cá, né, o pau defumando. Aí lava de novo, é assim.

 

 

P – Entendi. E você tinha irmãos, dona Bebé?

 

 

R – Tinha.

 

 

P – Quantos irmãos?

 

 

R – Tinha bem uns quatro irmão.

 

 

P – Uns quatro irmãos.

 

 

R – É, quatro irmão.

 

 

P – Todos trabalhavam na seringa?

 

 

R – Não, esses não, eram pequenos. Só era eu, minha irmã e meu pai, né? Esses dois era pequeno.

 

 

P – Você era a mais velha?

 

 

R – A mais velha a minha... é.

 

 

P – A sua irmã é a mais velha?

 

 

R – É.

 

 

P – E com quantos anos você começou a trabalhar na seringa, dona Bebé?

 

 

R – Nós trabalhamos um (punhado?), até ficar grandona trabalhava na seringa ajudando meu pai.

 

 

P – Mas você começou com que idade?

 

 

R – Sete anos.

 

 

P – Sete anos?

 

 

R – Nós começamos nos sete anos, ajudar ele.

 

 

P – Até os sete anos você brincava, você fazia o quê?

 

 

R – Daí (inaudível) esse negócio de brincar, vamos trabalhar, né?

 

 

P – (risos)

 

 

R – É, trabalhar.

 

 

P – Trabalhava desde pequena?

 

 

R – É, desde pequena.

 

 

P – Quando não trabalhava na seringa, fazia o quê?

 

 

R – Vinha trabalhar na roça.

 

 

P – Na roça?

 

 

R – É, era na roça. Quando não ia pra seringa, vinha trabalhar na roça.

 

 

P – E o que tinha na roça?

 

 

R – Na roça era plantar arroz, plantar maniva, né? Com as mandiocas a gente fazia farinha, era assim.

 

 

P – E vocês vendiam esses produtos?

 

 

R – Vendia, aí vendia.

 

 

P – Vendia pra quem?

 

 

R – Pros patrão. Pros outros seringueiros que tinha, era assim.

 

 

P – Tinha muitas outras pessoas na região?

 

 

R – Não tinha muita não, só uns dez, mais ou menos.

 

 

P – Tá certo. E a borracha, vocês vendiam pra quem?

 

 

R – O patrão ia buscar, ia comprar lá.

 

 

P – Então o patrão ia lá?

 

 

R – Ia lá.

 

 

P – Ele passava de barco, como é que era?

 

 

R – De barco, era de barco.

 

 

P – E ele perguntava quem tinha e vocês vendiam?

 

 

R – Era, aí vendia. Ele já levava a mercadoria, e lá ele deixava a mercadoria e trazia borracha. Era assim.

 

 

P – Entendi. E deixa eu falar: o que mais você lembra de trabalho na roça? Você falou do arroz, falou de outras coisas; que mais que você lembra?

 

 

R – O quê? Arroz, era bom... arroz, a mandioca, tudo era bom, né? A gente fazia farinha, vendia...

 

 

P – O trabalho na roça era quando... como é que era? Eram seis meses na roça e seis na seringa?

 

 

R – Não. A gente fazia assim, né: dia de sábado a gente trabalhava na roça, né. Agora os dias de semana, a gente trabalhava na seringa. Era assim que nós fazia.

 

 

P – Não tinha descanso?

 

 

R – Não.

 

 

P – E o domingo?

 

 

R – Só o domingo! Só o domingo, aí a gente ia pescar...

 

 

P – A folga do domingo era pescar?

 

 

R – Era, pra pescar.

 

 

P – Que mais fazia além de pescar?

 

 

R – (inaudível) em casa, assim que a gente fazia, né?

 

 

P – Tá certo. E tinha festa, vocês iam pra casa dos outros, se encontravam, o que fazia mais?

 

 

R – Não, ninguém aqui ia pras casas alheia não, ficava em casa mesmo.

 

 

P – Ficava em casa mesmo?

 

 

R – Quando não ia trabalhar, ficava em casa mesmo.

 

 

P – Tá certo.

 

 

R – Era assim.

 

 

P – E aí você cortou seringa dos sete anos até grande?

 

 

R – Até ficar grande. Até quando casei. (risos) Até quando eu casei, que cortava a seringa.

 

 

P – E quando a senhora casou?

 

 

R – E depois que eu casei, aí foi que eu fui cortar seringa mesmo.

 

 

P – A senhora casou com quantos anos?

 

 

R – Doze. (muitos risos)

 

 

P – Doze anos a senhora casou? (risos)

 

 

R – Foi, doze anos.

 

 

P – Doze anos. E onde você conheceu seu marido?

 

 

R – Quantos anos?

 

 

P – Onde? Conheceu no seringal mesmo?

 

 

R – No Jaci.

 

 

P – No Jaci?

 

 

R – No Jaci.

 

 

P – Ah, então você saía daqui e ia pra outros lugares também?

 

 

R – Foi lá, foi pro Jaci. Meu pai adoeceu, fomos pro Jaci, né? Fui lá, arrumei esse noivo, aí casei. (risos)

 

 

P – E como era o Jaci, era muito diferente daqui?

 

 

R – Era demais, ali era muito ruim, cheio, não é como hoje em dia não.

 

 

P – O que tinha lá? Conta pra mim.

 

 

R – Ali era ruim, ruim. Tinha umas casinhas assim, uma carreirinha de casa assim, de um lado, outra do outro e pronto. Era.

 

 

P – E você não gostou de sair daqui pra ir pro Jaci?

 

 

R – Não.

 

 

P – E aí você ficou lá enquanto o seu pai tava doente?

 

 

R – Era, só enquanto o meu pai tava doente.

 

 

P – Tá certo. E aí encontrou esse noivo?

 

 

R – Aí casei, no seringal de novo.

 

 

P – Me conta desse noivo. Quando você conheceu seu marido?

 

 

R – Eu... quantos anos?

 

 

P – Não, onde.

 

 

R – Conheci ele lá mesmo. Ele ia casar com outra, né, aí... (risos)

 

 

P – A senhora roubou o marido dela!

 

 

R – Não, não roubei. (risos) Não roubei não! Aí a outra não quis mais, né, acabou o casamento. Como amanhã, eles iam casar, né? Ela acabou com o casamento. Aí ele perguntou se eu queria casar, né? Daí eu falei que queria, né.

 

 

P – Sem saber?

 

 

R – É. Aí casamos e fomos lá pro seringal.

 

 

P – E o que ele fazia, o seu marido? Quantos anos ele tinha?

 

 

R – No seringal ele foi cortar seringa. Ele trabalhava na seringa lá.

 

 

P – Ele era mais velho do que a senhora?

 

 

R – Era.

 

 

P – Quantos anos ele tinha?

 

 

R – Eu não me lembro quantos anos ele tinha, sei que ele era mais velho do que eu. Era (inaudível), né?

 

 

P – E ele era soldado da borracha, ele era o quê?

 

 

R – Não, ele não era soldado da borracha não.

 

 

P – Ele só cortava seringa também?

 

 

R – Só.

 

 

P – E aí a senhora se juntou com ele e foi morar onde?

 

 

R – No seringal.

 

 

P – Aqui em qual seringal?

 

 

R – Aqui no (inaudível). Rio Branco.

 

 

P – No Rio Branco, de novo, então você voltou.

 

 

R – Foi...

 

 

P – Pro mesmo sítio da senhora?

 

 

R – Foi...

 

 

P – Tá certo. E como é que foi a vida de casada? Era muito diferente? A senhora casou nova...

 

 

R – (risos) Casei. Ah, a vida não era muito boa não.

 

 

P – O que não era boa? O que era difícil nessa vida?

 

 

R – Por que não era? Que ele queria me bater, né? (risos) Esse negócio de apanhar...

 

 

P – Não era com você.

 

 

R – Não, não era comigo não.

 

 

P – E aí a senhora se defendia, você fazia o quê? Puxava a peixeira?

 

 

R – (muitos risos) Nós brigava. (risos) Não, fora de brincadeira, era mesmo.

 

 

P – E aí você ia embora de casa, continuou lá, o que você fez?

 

 

R – Não fui embora não, fiquei em casa mesmo, passava raiva. (risos)

 

 

P – Passava raiva, tudo bem.

 

 

R – Passava raiva, acabou.

 

 

P – E aí vocês trabalhavam juntos na seringa?

 

 

R – Era.

 

 

P – E me conta um pouco desse trabalho na seringa, dona Bebé. Pra quem não conhece, como é que é? Seringa é tudo igual, só tem um tipo de seringa, como é que é?

 

 

R – Não, não tem só um tipo de seringa não. Tem a seringa verdadeira, que essa tem um leite bom, né? E tem essa que corta que o leite dela é assim amarelo, que é leite de (inaudível), (inaudível), né, a folha dela é diferente da outra.

 

 

P – E como ela é, como eu sei que ela é a verdadeira?

 

 

R – A gente conhece pelo leite.

 

 

P – Pelo leite?

 

 

R – Pelo leite. Que o leite dessa verdadeira, o leite é branco.

 

 

P – E ela tem uma folha diferente?

 

 

R – É, diferente da outra.

 

 

P – A outra como é que é, a falsa.

 

 

R – A outra (inaudível) um negocinho composto como uma folha de ingá. A folha da outra.

 

 

P – E o corte é tudo igual pra cortar, tem jeito diferente, tem corte diferente?

 

 

R – Tem, aqui a gente corta... o menino lá no sítio ele tinha uma faca, né? Ainda tenho a faca que eu trouxe, eu guardei, né? Aí... aqui a gente chega, aqui na seringueira, né, vem com a faca aqui, a gente corta aqui, ó. Que é a bandeira, né. A gente corta, corta. Aí a gente pega a tigela, né, a tigelinha, aí a gente embute aqui pra aparar o leite, né? É assim. (risos)

 

 

P – Tá certo. E aí depois, o que fazia com a borracha? Com esse leite? Você tirava o leite e fazia o quê? Você disse que defumava...

 

 

R – Defumava pra vender, fazia borracha pra vender.

 

 

P – E você fazia alguma coisa; fazia bolsinha, sapatinho, fazia alguma coisa?

 

 

R – Fazia sapato.

 

 

P – Conta pra mim, o que você fazia...

 

 

R – Sapato, meu pai fazia sapato, fazia chinelo de borracha assim, eles fazia.

 

 

P – Tudo em casa?

 

 

R – Tudo em casa.

 

 

P – Como é que era o chinelo? Como é que fazia? Me conte.

 

 

R – Fazia fôrma, ele fazia a fôrma, né? Agora na fôrma, a gente enrolava (inaudível) com pano, né? Forrava com pano, costurava, aí era melhor pra defumar. Melava direitinho a (inaudível) bem, ai defumava, né? Defumava bem, bem defumadinha, aí colocava pra secar. Quando tava seco, aí a pessoa cortava todinho assim... olha o jeito da sandália assim.

 

 

P – Igualzinha a sandalinha assim?

 

 

R – Era. Cortava aqui assim, cortava aqui dos lados assim, se quisesse fazia essa correia aqui assim, fazia. Era assim.

 

 

P – E aí fazia chinelo, fazia bolsinha, fazia... o que fazia?

 

 

R – Fazia tudo.

 

 

P – Conta pra mim, tudo o quê?

 

 

R – Bolsa, chinelo, esse negócio de carregar... cartucho, né? Que chamava capanga... o senhor não sabe como é não?

 

 

P – Capanga?

 

 

R – É, aqui tem uma tampa, a gente enche de cartucho. (risos)

 

 

P – Tá certo.

 

 

R - (inaudível).

 

 

P - Capanga... aí isso o que vocês faziam, vocês vendiam ou era pra vocês?

 

 

R – A borracha?

 

 

P – Esse material que vocês faziam...

 

 

R – Não, era pra gente usar mesmo, esse negócio de calçado era pra gente usar mesmo.

 

 

P – Tá certo. E aí você tinha a roça, tinha a seringa e dava pra viver?

 

 

R – Dava, ixi!

 

 

P – Passava necessidade?

 

 

R – Não. Que tinha muita caça, muito peixe, é assim.

 

 

P – E a senhora pescava também?

 

 

R – Pescava.

 

 

P – Desde pequena?

 

 

R – Desde pequena.

 

 

P – Como que pescava, conta pra gente.

 

 

R – Pescava de caniço, de anzol...

 

 

P – Como é que pesca de caniço?

 

 

R – De linhada... o caniço é uma linha numa vara... (risos) é uma vara e aí a gente põe a... encaixa o anzol naquela linha, aí vai pescar. Coloca uma isca, né, de peixe ou carne mesmo e vai pescar. É assim.

 

 

P – E esse rio dava muito peixe?

 

 

R – Dá.

 

 

P – Hoje ainda dá muito peixe ou não?

 

 

R – Dá muito peixe, dá muito peixe.

 

 

P – Tá certo. E de que mais vocês se alimentavam? Vocês comiam peixe, comiam...

 

 

R – Ah, a gente comia, era pra comer. Peixe, carne, tudo pra comer.

 

 

P – E aí a senhora ficou nesse seringal, no sítio, quanto tempo? Até quando?

 

 

R – Nesse daqui?

 

 

P – É, com seu marido.


R – Esse daí eu passei muito tempo. Aí ele morreu, eu vim embora pra cá.

 

 

P – Foi seu único marido? A senhora teve filhos?

 

 

R – Tem esses que tem... aquele ali.

 

 

P – A senhora teve quantos filhos? No total.

 

 

R – Dez.

 

 

P – Dez filhos?! (risos) E com quantos anos a senhora teve o primeiro? Não precisa ser quantos anos. Como é que foi o primeiro filho? Foi lá no seringal também?

 

 

R – No seringal, foi lá no seringal.

 

 

P – Você teve todos os filhos no seringal?

 

 

R – Não. Não, foi, foi. Todos dentro do seringal.

 

 

P – Como é que é ter o filho no seringal?

 

 

R – Não é ruim não. (risos)

 

 

P – E o marido da senhora ajudou a fazer o parto? Tinha uma parteira?

 

 

R – Não, não tinha negócio de parteira não.

 

 

P – Era só você?

 

 

R – Só.

 

 

P – E vocês vinham aqui pra Mutum, Mutum já existia?

 

 

R – Já. Depois que nós viemos do seringal, viemos morar no sítio.

 

 

P – E o que tinha aqui em Mutum?

 

 

R – Nesse Mutum aqui não tinha nada não. Só umas quatro pessoazinhas e pronto.

 

 

P – Tinha poucas pessoas?

 

 

R – Tinha, bem pouquinha.

 

 

P – A senhora chegou a ver o trem funcionar?

 

 

R – Cheguei.

 

 

P – Funcionava aqui?

 

 

R – Funcionava.

 

 

P – E passava muita mercadoria, passava muita gente?

 

 

R – Passava... passava.

 

 

P – Eles paravam aqui? Como que era?

 

 

R – Parava.

 

 

 P – A senhora andou de trem?

 

 

R – Andei.

 

 

P – E como foi andar de trem pela primeira vez?

 

 

R – Eu achei bom, né?

 

 

P – Gostou de andar de trem. E criar os filhos, foi muito difícil criar os filhos?

 

 

R – Não foi muito bom não, né? (risos)

 

 

P – Como é que foi, contra pra mim como você criou os seus filhos. Todos no seringal...

 

 

R – No seringal é bom porque não tem esse negócio de adoecer, né? A pessoa já vive mais tranqüila, né? No seringal.

 

 

P – Mas não tinha nem doença? Não tinha malária, não tinha nada?

 

 

R – Não, não, não. Não tinha esse negócio de malária não. De jeito nenhum.

 

 

P – Lá no seringal tava todo mundo sadio?

 

 

R – É, tudo era sadio.

 

 

P – E aí esse sítio que você tem aqui em Mutum... é em Mutum o sítio ou não?

 

 

R – É, lá.

 

 

P – É lá?

 

 

R – É.

 

 

P – Vocês compraram ele, vocês fizeram, como é que foi?

 

 

R – Meu marido fez lá, ninguém comprou não.

 

 

P – Seu marido fez?

 

 

R – Foi.

 

 

P – E aí você foi viver no sítio?

 

 

R - Foi, no sítio.

 

 

P – Aí a vida no sítio foi mais fácil do que no seringal?

 

 

R – Lá no sítio foi bom, né?

 

 

P – Foi bom? O que mudou?

 

 

R – Mudou muita coisa, viu? A gente tinha as coisas da gente, fazia e vendia e aí era bom.

 

 

P – Que mais teve lá no sítio de diferente? Mutum começou a mudar muito também?

 

 

R – Começou.

 

 

P – O que mudou em Mutum?

 

 

R – Começou a mudar muito depois que chegou o garimpo, né? Aí mudou.

 

 

P – Então teve uma época de garimpo boa aqui?

 

 

R – É.

 

 

P – Onde que era o garimpo aqui?

 

 

R – No Madeiro.

 

 

P – No Madeira?

 

 

R – No Madeirão.

 

 

P – E era garimpo do que, de ouro?

 

 

R – De ouro.

 

 

P – Seu marido trabalhou no garimpo?

 

 

R – Não, ele nunca trabalhou no garimpo não.

 

 

P – Vocês só tinham a roça, viviam da roça?

 

 

R – Só na roça mesmo. Ele não trabalhou no garimpo não, porque ele disse que não gostava de trabalhar em garimpo não, não ia pro garimpo não.

 

 

P – E aqui nesse sítio vocês só produziam pra vocês mesmo, pra poder comer, ou vocês vendiam, como é que era a vida?

 

 

R – Era pra gente comer e pra vender.

 

 

P – Pra vender. Sempre venderam então?

 

 

R – Era, pra vender, que eles faziam farinha pra vender, ia pro garimpo, farinha, ele fazia pro garimpo...

 

 

P – Ah, então vendia muito pro garimpo?

 

 

R – Vendia.

 

 

P – Deixa eu perguntar outra coisa pra senhora: depois do garimpo, o que mais mudou muito aqui em Mutum? O que trouxe mudança?

 

 

R – Pra mim não mudou lá essas coisas não, né?

 

 

P – Não mudou muita coisa?

 

 

R – Não.

 

 

P – O garimpo foi a última grande coisa assim?

 

 

R – Foi, foi o garimpo.

 

 

P – Veio a serralheria pra cá também?

 

 

R – Serraria?

 

 

 P – É.

 

 

R – É, serraria.

 

 

P – E aí a vida de seringa a senhora abandonou? Não teve mais vida de seringa?

 

 

R – Abandonei, que meu marido saiu do seringal, né. Aí nós saímos tudo do seringal.

 

 

P – E dona Bebé, me conta uma coisa: o que você acha dessa usina que tá construindo aí?

 

 

R – Ah, agora me engasgou. (risos)

 

 

P – Vai alagar o seu sítio, vai alagar aqui a sua casa?

 

 

R – Não. Lá no sítio não vai alagar não. Aqui diz que vai alagar, né, mas lá no sítio não.

 

 

P – E isso te incomodou, te deixou triste? O que isso mudou pra você?

 

 

R – Que lá é alto...

 

 

P – Você vai sair daqui de Mutum?

 

 

R – Se Deus quiser. (risos)

 

 

P – Você tem vontade de ir embora daqui?

 

 

R – Eu não tenho vontade de me ir embora daqui não, mas que vai alagar tudo... o jeito que tem é sair, né?

 

 

P – Aí não tem jeito, vai ter que ir?

 

 

R – É, não tem jeito.

 

 

P – Depois que o marido da senhora morreu foi muito difícil? O marido da senhora morreu faz muito tempo?

 

 

R – Tá com uns três anos, né, (Nenê?)?

 

 

Voz externa à entrevista (Nenê?) – É, vai fazer quatro anos agora.

 

 

R – Quatro anos agora.

 

 

P – Então foi uma vida inteira juntos? Desde os doze anos?

 

 

R – Vivi muitos anos...

 

 

P – Mas depois melhorou? Depois daquele começo difícil?

 

 

R – Melhorou. (risos)

 

 

P – E diz que a senhora é uma mulher valente, que a senhora enfrentava o povo aqui.

 

 

R – (risos)

 

 

P – Conta pra mim essa história.

 

 

R – Foi (inaudível) que aconteceu, não foi?

 

 

P – Agora eu quero saber. Me contaram, quero ouvir da senhora, me conte. O que aconteceu?

 

 

R – (risos) (inaudível) não.

 

 

P – Pegaram terra da senhora?

 

 

R – O negócio é que eu fiz um correr porque veio com negócio de fiado. Eu digo: “Peraí”. (risos) Correu.

 

 

P – Ele fugiu da senhora? E agora você vai embora pro sítio, depois que alagar aqui, você tá pensando em ir pra onde, dona...

 

 

R – Lá pra baixo.

 

 

P – Lá pra baixo.

 

 

R – (inaudível) ninguém (inaudível) mais não.

 

 

P – E a senhora já tem neto?

 

 

R – Tem. Um (gêmeo?) do outro.

 

 

P – Tem muito neto?

 

 

R – Tem.

 

 

P – E ser avó é muito diferente de ser mãe?

 

 

R – É, no caso... avó?

 

 

P – É.

 

 

R – É, porque os filhos chateiam muito a gente, né? (risos) Faz muita raiva...

 

 

P – E os netos não?

 

 

R – Não, os netos vive pra lá e... né? Já não chateia muito a gente não.

 

 

P – A senhora tem neto, bisneto e tataraneto?

 

 

R – É, tenho neto, bisneto...

 

 

P – Tudo isso?

 

 

R – É.

 

 

P – E dá conta de ser vó de toda essa gente? (risos)

 

 

R – Ah, com certeza, né? (risos)

 

 

P – Tá certo, dona Bebé. Eu queria te agradecer por ter conversado aqui com você um pouquinho. (risos) Você quer me contar mais alguma coisa?

 

 

R – Não, que eu tô com a minha cabeça doendo. (risos)

 

 

P – Ah, tá certo.

 

 

R – Ah, eu tava deitada, que eu tava com dor na cabeça, enjoada e fui me deitar, vou dormir. Mas não dormi não.

 

 

P – Tá bom então, dona Bebé. Obrigada, viu, dona Bebé. A gente vai encerrar aqui.

 

 

R – Obrigada também.

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