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História

Beatriz Aparecida de Lima

História de: Beatriz Aparecida Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2015

Sinopse

Beatriz é uma jovem musicista e professora de música que contou sua história ao Museu da Pessoa em fevereiro de 2015. Beatriz recordou a infância e o convívio com os avós que a criaram. Falou sobre as dificuldades da mãe em ficar com ela e por isso a decisão de morar com a avó materna. Relembrou as escolas em que estudou, o interesse pela música desde muito cedo na igreja que frequentava. Foi tocando na banda da igreja que conheceu seu namorado, também musicista. Falou sobre a seleção para entrar na Emesp e a ajuda que recebeu da família do namorado.  Emocionada, recordou do problema de saúde que teve na época do vestibular e que a fez descobriu ser sofrer de Lúpus. Finalizou falando sobre a importância do projeto Educadores sem Fronteiras na sua formação e sobre seus sonhos de terminar a faculdade e investir na carreira de musicista.

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História completa

Meu nome é Beatriz Aparecida Lima. Eu nasci em São Paulo, no dia 23 de julho de 1994. A minha mãe se chama Maria Aparecida Lima. Ela nasceu dia 16 de agosto de 1970. Eu não conheço o meu pai. Minha mãe é auxiliar de limpeza e serviços gerais, essas coisas. Minha mãe tem uma personalidade bem forte. Desde pequena eu acabei morando com a minha avó. Eu morei pouco tempo com a minha mãe. Mas ela é bem companheira, amiga, e sempre tenta ajudar da forma que pode. Eu ainda moro com minha avó.  Tenho um irmão por parte de mãe que tem 17 anos agora, o Douglas. Ele não mora comigo.

Quando minha mãe me teve ela acabou tendo uns problemas com o meu pai e ele acabou sumindo. A minha mãe precisava trabalhar pra conseguir dar uma força e ela me deixava na casa da minha avó depois que eu voltava da escola. Eu fui ficando, um dia, dois dias, quando vi todas as minhas roupas já estavam lá, todas as minhas coisas. Ela acabou se casando de novo e formando outra família. Eu acabei ficando com a minha avó, ainda mais depois que meu avô acabou falecendo. E minha avó é muito calma, muito na dela também, mas isso também em relação a criação que ela teve. Ela morou na roça, com os pais sempre daquele jeito meio afastado. Então eu acho que eu também tive uma criação um pouco dessa. Eu sei que ela me ama e tudo mais, mas ela às vezes é um pouco afastada. Se você tem comida e tem um lugar pra morar pra ela está ótimo. Então essa questão mais fraterna mesmo eu acho que foi um pouco mais distante.

Minha avó é aposentada hoje. Mas ela trabalhou muito tempo em um asilo, ela sempre conta muitas histórias desse asilo, que ela trabalhava na lavanderia e tudo mais. Ela teve um problema acho que por conta de mexer com produtos químicos ela acabou tendo uma alergia e isso proporcionou outras coisas que acabaram levando-a a se distanciar da empresa e se aposentar posteriormente. Eu moro num conjunto habitacional, que eles chamam de CDHU. Todo mundo de lá, basicamente, veio de outro local que era uma favela e o governo conseguiu tirar as pessoas daquele local e colocar nesse de agora. Na verdade eu nasci no meio dessa transição, nessa mudança. Eles estavam conquistando e tudo mais um lugar melhor, uma moradia melhor e foi que eu nasci. Assim, no primeiro eu nasci e moro lá até hoje, então eu já vi tudo mudar lá. Eu nunca saí muito de casa. Mas sempre tinha muitas crianças na rua brincando, som alto e é um lugar bem humilde. Aquele tipo de lugar em que as pessoas saem na rua pra conversar no final de semana e ficam lá à tarde conversando, conversando.

Na verdade a minha família não é muito religiosa. Eu tinha uma prima que ela ia à igreja e ela me chamou pra ir um dia, eu fui indo, ela saiu e eu continuei. Meus pais, minha mãe, minha avó, eles nunca me acompanharam, sempre ia sozinha. Eu lembro até uma vez que eu, como eu sempre estava lá eu fiz primeira comunhão cedo e o padre até não queria fazer porque: “Nossa, mas ela é muito pequena. Ela vai fazer e vai sair da igreja e tudo mais”. Teve um ano que eu tive que morar com a minha mãe e nesse ano eu tive que me afastar porque era longe o local. Eu lembro que depois quando eu voltei a morar com a minha avó eu fui à igreja e eu cheguei na porta da igreja eu não entrei porque eu fiquei morrendo de vergonha, porque eu me lembrei do padre falando que eu ia me afastar. Depois eu lembro que pra eu voltar, dava sete horas no sábado, eu ia, chegava à porta da igreja, não conseguia entrar. Teve um dia que eu falei: “Ah, quer saber? Eu cheguei até aqui, eu vou entrar”. Eu entrei, depois que eu entrei eu nunca mais saí de novo, mas foi engraçada essa parte.

Eu adorava ir pra escola porque eu sabia que eu ia ter as minhas amiguinhas lá porque eu ia estar com elas, ia brincar com elas e quando tinha férias, pra mim as férias eram uma eternidade, parecia que não acabava nunca e eu era louca pra voltar logo pra escola pra voltar a fazer as cosias, pra estudar. Eu gostava de ir pra escola. Passei por todos os níveis da escola possíveis porque eu precisava ficar em algum lugar. Eu lembro que eu era muito pequena, minha mãe me deixava bem cedinho na escola tinha uma senhora hoje, que hoje é senhora, que ela sempre ia me buscar e me deixava na casa da minha avó. Me lembro de poucas coisas dessa fase, mas eu lembro que quando eu era pequena eu era muito bochechuda, ainda continuo sendo, mas eu era mais ainda, as professoras gostavam de morder minha bochecha.

Eu sempre achei que não dava pra viver de música. Na igreja eu comecei com violão. Na verdade tudo aconteceu depois que eu entrei numa banda que era da igreja e não tinha baixista. Me deram um baixo, uma caixa e falaram: “Vá lá”. Eu falei: “Poxa, e agora? O que eu faço?”. Eu comecei a pesquisar umas coisas, eu também entrei no YouTube e vi que tinha mulheres que tocavam baixo, porque geralmente baixo é um instrumento mais masculino. Isso me animou porque eu gostava muito do som, mas achava que não era pra mim. Eu comecei a estudar e comecei a melhorar também algumas coisas. Foi aí que eu conheci o meu namorado, foi tocando numa igreja que o baterista da banda não foi, meu namorado estava lá. A gente tocou junto pela primeira vez, nem se conhecia, isso foi muito legal. Depois que eu conheci a família dele que eu vi toda essa vontade que eles tinham e todo mundo muito super pra frente. Eles acreditavam naquilo. Aí eu comecei a perceber e começou a nascer uma sementinha em mim, eu falei: “Nossa, mas será que eu posso?”. No último segundo do último ano eu falei: “Não, eu vou prestar música. Eu acho que é isso que eu tenho que fazer”.  Foi quando eu entrei na Emesp. Na Emesp eu entrei como contrabaixista, eu já entrei tocando baixo. A irmã do meu namorado é baixista também, toca muito bem. Muito engraçado, ela tem a mesma idade que eu, é bem maluca essa história, e ela me deu um mês de aula antes da prova, porque ela já estudava lá. Depois eu tive uma visão diferente, algumas coisas. É claro que tinha que aprimorar muitas coisas, mas graças a ela consegui entrar na Emesp que pra mim foi, nossa, eu fiquei muito feliz. Depois que eu entrei também é muito difícil você sair porque se você gosta mesmo, se você decide ir pra outra área, ou você decide e larga tudo, ou você continua naquilo. Eu decidi ficar.

Meu namorado chama Ulisses. Então, na verdade a gente trocou e-mail naquele dia, a gente começou a conversar e combinamos de tocar junto um na igreja do outro, pra conhecer e fazer uma ligação entre as igrejas e os jovens da igreja também. Depois disso a gente era muito amigo, muito amigo mesmo, e a gente conversava todos os dias, todos os instantes, todos os momentos que fossem possíveis. Depois a gente começou a perceber que no fundo, no fundo a gente já estava gostando um do outro, mas ninguém queria meio que assumir muito. Mas foi muito legal. A gente já namora vai fazer quatro anos.

Eu fui ao médico, você vai, faz um exame, aparece uma coisa diferente, você vai de novo, aí aparecem outras coisas diferentes. Aí eu fiquei assustada. Pra mim o pior dia foi quando eu cheguei e o médico disse que eu estava com suspeita de câncer. O Enem mesmo eu fiz assim morrendo, mas eu fui, mas não adiantou muito porque depois eu até passei, não sei como, mas eu passei na primeira fase da Unesp, tirei uma ótima nota na redação do Enem que eu nem esperava, só que eu não consegui me inscrever em nada, não consegui fazer segunda fase, não consegui fazer nada porque estava travada na cama. Foi quando eu cheguei no médico e aí ele deu a notícia. A primeira coisa que ele falou quando ele olhou pra mim, ele falou: “Não é câncer”. Eu emagreci muito, eu perdi uns sete quilos e eu já era magra, então eu fiquei muito magra. Minha boca estourou toda, eu não conseguia comer direito, ficava na cama com dor nas costas e estava toda inchada, toda enorme. E aí eu comecei a fazer o tratamento que eu tenho Lúpus, com certeza acabou desenvolvendo por conta desse estresse todo que eu tive nesse ano, que foi muito difícil.

Eu passei por muitos problemas na faculdade porque eu estava começando, eu não sabia muito das coisas, mas eu corri muito atrás. Eu acho que esse primeiro momento foi um momento muito legal que eu pude ocupar a minha mente. Tudo que eu não aprendi antes, tudo que eu não pude aprender antes eu tentei aprender naquele momento. Então eu me esforcei e me esforço até hoje. É claro que quando você tem uma educação musical defasada, você vai passando por alguns processos de reconstrução. Então é como se eu tivesse uma linha, mas ela está toda quebrada, eu tenho que reparar aqui, fazer um reparo, ir fazendo, reparando, reparando e parece que não tem fim, mas está indo. Está sendo muito bom lá. Lá é uma ótima escola, eu tinha muito preconceito com faculdade particular. Falava: “Ah, faculdade particular é só pra rico, só pra...”. Mas não. Tem muita gente que está correndo atrás, que está suando pra se manter e que acredita e que tem sonhos. E você faz a faculdade, tudo depende de você lá. Uma coisa que eu pude ver, você tem que correr atrás. Um texto, um livro, um vídeo, uma música. Tudo é você. Se você não fizer ninguém vai fazer pra você e ninguém vai trazer pra você e falar: “Olha, está aqui”. Principalmente os professores. Eles estão pra te dar uma direção, mas quem é que vai fazer isso mesmo somos nós.

Sobre o Educadores sem Fronteiras, foi muito legal porque eu estava no terceiro ano do ensino médio e eu já vinha estudando já. Desde o primeiro ano eu comprei um livro daquele desse tamanho de vestibular e eu ia fuçando ele. Eu lembro que eu cheguei na escola e na minha escola, eu estudava ali na ETEC Raposo Tavares, e foi muito legal porque do lado da escola que eles fizeram o instituto. E estava escrito: “Aulas...”. Era diferenciado. Estava bem escrito bem diferente. E eu falei: “Nossa, será que eu consigo entrar e consigo estudar? Ia ser muito bom”. Eu fui, eu lembro que eu não falei nada, nem pra minha mãe, não falei pra ninguém porque eu já fazia muitas coisas também, ia ficar bem mais sobrecarregado, mas eu mesmo assim fui. Eu cheguei e eu não pude ficar até o final, porque era como se fosse uma entrevista. Eu falei pra ela, expliquei, eu falei que ela nem fosse me ligar mais, mas ela me ligou na mesma semana. Ela falou: “Você ficou interessada, tudo mais.” “Fiquei, né?” “Então vem aqui, a gente vai começar as aulas no final de semana”. Eu comecei a ir, foi muito bom porque lá só aconteceram coisas boas, professores maravilhosos e o lugar muito diferenciado. Eles não ensinam, eles fazem com que você veja as coisas de outra forma, de modo que o mundo tem outras funcionalidades, não é só aquilo que a gente vê, estagnado ou sempre a mesma coisa. Se a gente traz o que a gente faz no cotidiano pra dentro do estudo e aplica isso, fica muito mais fácil de entender.

Eu era da turma de final de semana, mas a turma de final de semana também tinha uma aula que acho que era na sexta-feira que era uma aula mais artística, que a gente estava por dentro de teatros, de imagens, até a gente confeccionava também. Era muito legal. Só que essas aulas eu acabei indo bem pouco porque não dava pra eu ir. Mas as aulas de final de semana tinham as disciplinas e os professores, sabem tudo! Isso é muito legal. O Paulo mesmo é assim, o Paulo sabe falar de todos os temas, mas a gente tinha dividido. Por exemplo, o Paulo falava de matemática, de história e física. A gente tinha outra professora como, por exemplo, a professora Juliana, que ela falava de biologia. Era mais ou menos duas horas pra cada professor, de aula.

Na verdade eu não sei muito sobre o Criança Esperança. O que eu sei é mais do midiático, mais o que passa na televisão, que é um projeto social superlegal, que tenta ajudar de todas as formas e de todas as maneiras, não é só com a doença, não só com a falta de estrutura, mas eu sei bem pouco. Sei mais das arrecadações que acontecem todos os anos, que tem os patrocinadores, essas coisas que acabam levando o Criança Esperança e trazendo mais pra um âmbito geral da sociedade.

Eu acho que é muito importante. Eu acho que falta um pouco do apoio, da ajuda. Nem todo mundo tem a mesma estrutura, nem todo mundo tem pai, nem todo mundo tem mãe, nem todo mundo nasceu, como dizem, perfeito, né? Mas eu acho que esses incentivos são muito bons porque ajudam e dão o apoio, porque se você pensa, a gente já vive uma sociedade bem desestruturada. Pensando até mesmo familiarmente, eu acho que emocionalmente, as pessoas passam por problemas e eu acho que isso é bem legal pra desenvolver, pra ajudar. Os Educadores mesmo eu acho incrível porque os professores são voluntários, e essa doação também é muito importante porque se não tiver o pontapé inicial não vai pra frente.

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