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Basquete para salvar

História de: Leonardo de Moraes Pereira.
Autor: Thalyta Pedreira de Oliveira
Publicado em: 22/07/2021

Sinopse

Após passar um bom tempo se aventurando com o skate, Leonardo foi apresentado por seus amigos ao basquete. A partir daí, nunca mais abandonou o esporte. Após ser excluído por clubes da capital cearense, buscou por uma escola comunitária, local onde desenvolveu os talentos para o esporte. Foi campeão de basquete no Ceará. Posteriormente, foi convidado por uma ONG para ministrar aulas do esporte para crianças e jovens. Descobriu o amor pelo ensino e fundou a própria escola comunitária que se expandiu em Fortaleza. Para ele, o trabalho que realiza vai além do basquete: se trata de salvar vidas.

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História completa

Projeto Semana do Esporte pela Mudança Social Cabine PNUD Realização Museu da Pessoa Entrevista de Leonardo Moraes Pereira Entrevistado por Breno Castro Alves São Paulo, 05 de novembro de 2009 Código PNUD_CB016 Transcrito por Raquel O. Jordan Revisado por Izadora Telles P/1 – Então, por favor, qual é o seu nome completo? R – É Leonardo de Moraes Pereira. P/1 – Onde você nasceu, Leonardo? R – Nasci em Fortaleza, no estado de Ceará. P/1 – Que dia? R – Em 11 de fevereiro de 1974. P/1 – Você é esportista? R – Sou esportista. P/1 – Tem esporte na tua veia? R – Fiz, basquete. P/1 – Basquete? R – Cem por cento basquete. P/1 – Sempre foi do basquete? R – Não, já andei de skate anteriormente. Minha primeira paixão foi o skate, né, andei dois anos e, por condições, né, não ter condições de me manter no skate, dei uma parada e conheci o basquete através de uns amigos, fui jogar basquetebol. P/1 – Quantos anos você tinha? R – Tinha de 16 pra 17 anos quando comecei a jogar basquete. P/1 – E não parou mais? R – É, não parei. Até hoje estou com o basquetebol. P/1 – Entendi. Me diz então, o quê que o basquete... que lugar ele tem na tua vida, assim, quanto... quanto tempo se dedica a isso? Como que é a tua relação com o basquete? R – Tá... assim, quando eu comecei a jogar basquete... mais ou menos em 1990 e... 1992, com um grupo de amigos que jogava na praça do meu bairro, né, me chamaram pra jogar basquete. Comecei a praticar com eles. Na primeira semana, achava que não era pra mim, estava a fim de desistir, mas eles me incentivaram, né, e em um ano treinando com eles eu já estava jogando na equipe adulta com eles. A partir daí, treinando, treinando, mas, assim, comecei a sentir uma dificuldade. Quando eu comecei a me apaixonar pelo basquete mesmo, né, um ano já jogando, fui tentar jogar nos clubes de Fortaleza, mas, na época, era muita dificuldade. Tinha a ver com um esporte de elite, né, e a gente era muito... era excluído, tipo, se algum jovem da periferia fosse jogar nos clubes lá de Fortaleza... a gente não tinha muitas oportunidades. E a gente, assim... éramos pessoas que não sabiam jogar basquete, não dava pra aprender a jogar basquete com eles. Acabavam, um pouco, excluindo a gente, mas, é... tive essa dificuldade. Tive uma chance através de um amigo pra treinar no clube, treinei mais um ano, mas não tive também oportunidade pra estar jogando com as equipes principais. Voltei pra jogar lá na periferia, né. E através da periferia, na nossa comunidade, né, comecei a treinar com eles lá no Centro Social Urbano que é pela Prefeitura. Treinei com eles mais dois anos e através desse treinamento eu fui campeão cearense no ano de 2000, 2003, mas isso já... Bem, te contei até um pouco dessa história mais avançada em 2003, mas em 1992 ainda, voltando um pouco, né, era praticamente só jogando nas praças, nas praças mesmo, até conhecer o Centro Social Urbano lá do bairro pra começar a treinar. A partir daí que eu comecei a treinar com eles e fui jogar na equipe, né, e fomos campeões cearenses em 2003. A partir também do basquete, é... no CSU [Centro Social Urbano] comecei a ver que o basquete estava dando outras oportunidades pra mim como, tipo, ter vontade de querer ser professor, ensinar aos jovens, a praticar, mas não tinha o conhecimento de movimento social, como funcionava a educação pelo esporte, não conhecia isso... não sabia como funcionava. Era só treino como competição, esporte competitivo. P/1 – Hum hum. R – Não conhecia. Aí em 2007 eu conheci uma ONG [Organização Não Governamental] chamada Movimento Hip Hop, que é uma ONG de Fortaleza também. Eles me convidaram pra ensinar um pouco do basquete para os jovens dessa ONG. Aí eu me interessei pela ideia. E começou a ter oficinas dentro dessa ONG e tive a oportunidade pra desenvolver projetos, saber trabalhar com jovens, que eu não sabia. Comecei a ter uma experiência e vi que tava tendo essa oportunidade de ensinar os jovens a jogar basquete. Aprendi a fazer os projetos e fiz um projeto de basquete de rua. Eu aprendi a jogar basquete convencional e fui jogar basquete o de rua que tem uma certa diferença. No basquete de rua, você tem a liberdade pra fazer suas jogadas e habilidades, no convenciona, você é limitado por causa das regras pré-definidas. Você não pode ter essa liberdade. E fiz o projeto social que é chamado Basquete Comunitário de Rua. Fiz esse projeto sem apoio de nenhum governante, apenas da ONG, por incentivo da ONG e por vontade minha mesma. Se eu chegar numas escolas e tentar fazer parceria com a escola pra montar uma escolinha... montei a primeira escolinha em 2007, em três de agosto de 2007 montei a primeira escolinha num bairro chamado Bom Jardim. Montei a primeira escolinha e aí conseguimos alguns materiais com escola e com a Associação do Bairro que deu um apoio pra gente. A partir dali foi dando certo, dando fruto do trabalho, muitos jovens participando, meninos e meninas a partir de oito anos até 29 anos. Foi dando certo e montei outra escolinha no bairro do Comissário, que é um bairro vizinho também, e hoje nós estamos com cinco escolinhas de basquete e uma é especializada só pra meninas, uma escolinha só pra mulheres mesmo, mas também tem os dias em que há o treino delas com os meninos também, que é nossa metodologia do trabalho também, a gente não separa tanto as meninas dos meninos no treino porque tem aquele preconceito em que as meninas não podem jogar com os meninos e tal, então a gente fez uma forma pros meninos estarem jogando juntos, pra terem essa oportunidade jogar com as meninas. Aí durante semana, terça e quinta é o treino só das meninas, segunda, quarta e sexta dos meninos junto com as meninas, né, aí a gente divide um pouco o horário só com os meninos segunda, quarta e sexta e um horário junto com meninos e meninas todo mundo junto... então... P/1 – Pode falar... pode falar. R – Então nós estamos com essas cinco escolinhas. O basquete é que a gente tá também trabalhando nos... no projeto social, a gente não trabalha só o basquete em si, só cinco minutos de jogo. Como o projeto é chamado Basquete Comunitário de Rua, a gente desenvolveu uma fórmula, uma metodologia pros jovens dentro da atividade do basquete, pra saber como é trabalhar junto com a comunidade, trazer mais jovens também pra dentro do basquete, fazer parcerias com a comunidade. Hoje os jovens da nossa escolinha, eles mesmos já têm um projeto junto com a gente. A gente coloca uma pessoa que já é experiente pra ser um professor de educação física, né, e um jovem pra ser o instrutor do basquete sendo acompanhado pelo professor de educação física. Eles fazem todo o trabalho e a partir daí a gente faz o trabalho de como de substituição. Se um professor que tem experiência não tá podendo dar o treino, aí os jovens entram, já começam a ser o próprio professor das escolinhas e cada escolinha dessas que eu falei, das cinco, já tem um jovem dando os treinos. Quer dizer, sou também treinador dessas escolinhas que eu coordeno. Do projeto em geral, mas também sou professor de um núcleo do bairro Bom Jardim, como eu falei anteriormente, eu... P/1 – Você pode falar. R – Como eu vim aqui pra São Paulo, né, vou poder ficar... já ficou um dos meninos que já tá passando pela nossa formação e que está tomando conta da escolinha, já tá dando treino e tudo, acompanhado pelo professor em educação física, né. P/1 – Bacana. Você é o coordenador geral? R – Sou coordenador geral. P/1 – Me explica um dia teu de trabalho? R – Oi? P/1 – Um dia regular seu de trabalho com é? Me conta isso? R – Na questão de coordenação, é quando não tô dando as aulas. Fico desenvolvendo os planejamentos. Não nos dias de treino, que são de segunda, quartas e sextas feiras, na parte da tarde que os treinos começam, de 18 às 21 horas de segunda, quarta e sexta é os dias em que eu fico dando as aulas e na parte da tarde é que eu tenho tempo pra poder me dedicar ao projeto porque eu tenho outra profissão. Tenho o meu trabalho e esse projeto estou como voluntário, né. Aí tenho a parte da tarde que eu faço a parte mais burocrática, o planejamento das atividades e também, junto com um dos meninos do projeto, sempre vão fazer o planejamento eu e o outro coordenador. Nós chamamos os meninos pra estarem participando no desenvolvimento das atividades semanais. P/1 – Hum hum. Cara, eu acho muito interessante esse... sabe, cada um aqui de vocês tem uma iniciativa pessoal, cada um tem uma batalha própria e foi lá e fez acontecer o negócio, sabe, e fez virar uma proposta pessoal por esforço, por trabalho. Eu digo isso pra dizer que... porra, meu! Eu acho muito admirável, muito legal e eu queria que você me falasse um pouco dessa tua energia pessoal, dessa tua garra de ir, correr atrás e fazer acontecer o negócio, sabe? R – Hum hum. P/1 – Como é que foi isso? R – No início quando eu comecei a jogar basquete, não tinha conhecimento de projeto social, não pensava em ensinar as pessoas, simplesmente jogava basquete. Aprendi a jogar basquete, né. E quando tive oportunidade de ensinar basquete, e pra ter vontade mesmo, de fazer correria mesmo, fazer todo o trabalho com toda dificuldade pra desenvolver o trabalho com basquete de rua, foi quando aconteceu que eu fui dar uma aula, já estava até, acho, que dando umas dificuldades, estava até um pouco querendo desistir do trabalho. Foi quando entrou uma menina na nossa escolinha que era deficiente auditiva. Nós também estamos trabalhando com as pessoas que tem deficiência também. Quando ela entrou no projeto, pra mim, assim... eu quando comecei a me comunicar com ela só no gesto mesmo do basquete, mesmo sem saber falar libras, era tanta dificuldade achando que não daria certo, mas quando eu percebi que ela entendia só no gesto de bola mesmo, eu no improviso com ela e ela conseguiu fazer as jogadas e eu vi que no primeiro dia de aula deu certo, aí eu percebi: “Não, que é isso aqui que eu quero, por isso é que eu quero fazer basquete mesmo.” Cê fala: “Ah, nos outros jogos das outras crianças você já tava participando, né?” Então não posso abandonar. É isso o que eu vou fazer, vou me dedicar ao máximo, independente de ter apoio ou não, vou estar fazendo, se eu conseguir aqui, vou estar fazendo. Eu não tô ganhando nada financeiramente, mas como pessoal eu tô ganhando. É uma coisa que eu amo jogar basquete e isso pra mim é uma coisa assim muito importante, muito pessoal mesmo de você estar ensinando jovens. Você vê que você tá ganhando o respeito. Você estar tendo o amor dos jovens, carinho, respeito dos jovens e você estar conseguindo passar isso pra eles. Pra mim é o que importa, não tem outra coisa que eu possa pedir. Por isso eu tô já esse tempo todo, desde 1992, com o basquete e tô vendo que a minha vida vai ser essa. Como eu tô até hoje jogando basquete, acho que não tem outra coisa. Trabalhar com jovens também, não só com basquete, também que eu faço outras atividades com jovem. Eu trabalho hoje, profissional mesmo, como educador social. Trabalho com jovens em situação de risco, jovens que usam crack, como numa casa de recuperação. Trabalho também com esses jovens. Tô recentemente nesse trabalho e tô tentando também penetrar o basquete de rua pra eles. Já tem é... até pode conseguir alguns materiais pra fazer as escolinhas e tudo, mas como eu tava falando, meu trabalho mesmo é voluntário. Tô ensinando os meninos e vai ver que eles tão gostando, em toda a segunda, quarta e sexta, de todos os treinos e também terça e quinta que são das meninas. Estamos lá há dois anos, estamos indo pro terceiro ano. Só em ver que os meninos estão lá todos esses dias pra mim não tem coisa melhor. P/1 – Eu sei que dada a proporção, você está em uma tentativa de salvar o mundo? R – Salvar as pessoas... P/1 – Sim. R – Isso. É natural da gente, a gente não fica planejando, pensando: “Ah, vou lá... eu quero ser... quero também isso e tal”. Nem todos os que planejam conseguem que algo aconteça. Vai acontecer naturalmente. É uma coisa de sentimento. Você vai vendo um trabalho, vendo as coisas acontecendo e você naturalmente está vendo que você tá mudando as coisas, você tá mudando as pessoas e, consequentemente, mudando o mundo, o lugar onde você vive. Esse trabalho em que a gente percebe isso é até também que falo um pouco da... porque nós temos também os núcleos comunitários do movimento que apoiam a gente. Eu acabei fazendo parte do movimento, faço parte desse movimento Hip Hop que é o MH20. Criamos um núcleo comunitário dessa ONG, em que a gente trabalha em vários bairros de Fortaleza que dentro deles tem essa escolinha de basquete, né, basquete, futebol de rua, que é o “travinha três contra três” e o “dança de rua e grafitagem”. O DJ também tem todo esse trabalho, né, que eu sou coordenador também. E os meninos também que começaram no basquete, hoje são coordenadores do núcleo. A gente investe muito com jovens lá. Hoje tem a coordenadora financeira, que é uma menina que tem 18 anos, né, entrou e tá desde o início com a gente. Tem a coordenadora de comunicação, coordenador de esportes também do núcleo, tem todo esse trabalho que já é um trabalho também bem conhecido dentro da comunidade. Juntando o projeto do basquete, nós temos junto com o núcleo comunitário, o movimento Hip Hop, né, e isso tá somando forças. A gente faz a correria junto com os meninos atrás de apoio. O que nós conseguimos até hoje também é graças a própria comunidade, que ela sempre tá ajudando a gente. Os pais tão participando com a gente, acompanhando o nosso trabalho. A gente apresenta pra eles o projeto quando os jovens vão se inscrever. Hoje estamos com escolinhas com 80 jovens, né, entre meninos e meninas, crianças, a partir de oito anos de idade que estão participando dessas escolinhas. A outra turma tem entre 300 e 400 jovens participando. P/1 – Que bacana, meu. Então, já encaminhado pro final, achei muito interessante tudo que você colocou, muito legal esse trabalho com basquete e realmente o esporte é uma ferramenta de transformação que tem que ser utilizada, que precisa ser mais utilizada. Eu queria que você pensasse um pouco e tentasse encontrar alguma pessoa que você tocou pelo esporte, pelo basquete, sabe, alguém que, por essa iniciativa do basquete de rua comunitário, de fato teve a vida alterada. Queria que você me contasse uma história de alguém pra gente terminar. R – Ok então. Há um jovem que está na nossa escolinha também há dois anos, né, desde o início do projeto, que é o Alan Jeferson, que é o que tá dando as aulas hoje lá em Fortaleza, né, em um dos nossos núcleos que é no bairro Bom Jardim. Ele não gostava de basquete de maneira nenhuma, tipo assim, odiava, só pensava em jogar futebol e não conhecia o basquete, e quando nós apresentamos o projeto ele foi meio que pra ver como é que era, mas, sem estar muito a fim de treinar. Ele começou a treinar e ele percebeu, depois de alguns meses, o que ele estava querendo com o basquete. Foi uma mudança que acho que fez pra vida dele. Como hoje ele é o coordenador de esportes lá do núcleo do movimento Hip Hop, hoje tá sendo pra vida profissional dele muito importante, até o incentivando a quer se formar em educação física através do basquete, através do projeto que ele conheceu. Tem uma que eu acho que mudou muito na vida dele também é que quando ele entrou no projeto ele era uma pessoa que era envolvida com questão de bebida alcoólica, essas coisas tipo, todo final de semana. Através do basquete, ele se afastou totalmente desse problema que ele tinha, criou um projeto dele também que é chamado Movimento Basquete Cultura de Rua, né, fez esse projeto que é também pra crianças e jovens até 17 anos. Ele fez esse projeto e tá incluído junto com o nosso, tipo, tá fortalecendo o nosso, né. Pra ele isso tá sendo muito bom. Eu acho que pra ele, como história de vida, é muito importante. É um cara que tá incentivando outros jovens, tá querendo criar um núcleo na comunidade, tá incentivando outros jovens a quererem ser instrutores de basquete, a se formarem, estudarem bastante, serem professores de educação física, né, ele puxa muito pra essa questão pra formação do esporte pra ele ser professor de educação física. Então ele tá como exemplo lá. Hoje ele tá no nosso núcleo e eu acho que foi um trabalho muito importante que foi feito. Ele também agarrou muito essa questão e hoje tá incentivando outros jovens e fazendo todo o trabalho na comunidade, dentro da escola dele. É bastante conhecido. Eu até conversei com ele esses dias antes de viajar pra cá, que ele me pedia muito pra eu trazer experiência pra ele, né, sobre esse evento, materiais que eu pudesse estar passando pra ele, pra ele poder aprender mais ainda e eu acho que mudou completamente a vida dele... P/1 – Que legal. R – Bem responsável... P/1 – Legal. Um prazer conversar contigo. Obrigado por tua entrevista. R – Tá legal. P/1 – Legal? R – Beleza então.
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