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História

Barqueiro do Araguaia

História de: Edson Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Edson descobriu seu talento para o comércio desde cedo, quando ajudava sua mãe na venda de alimentos. Anos depois, quando vai tentar sua vida no garimpo de Xambioá, se vê novamente envolvido no comércio. Nessa entrevista, Edson conta um pouco dos 45 anos que passou viajando nos rios Araguaia e Tocantins.

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História completa

P/1 – Eu vou começar a fazer as perguntas, seu Edson, e depois os nossos amigos vão continuar. Fala o seu nome completo, por favor.

 

R – Meu nome é Edson Costa. Nascido em Marabá no dia 29 de agosto de 1930. Estado do Pará.

 

P/1 – Quando o senhor morava lá, o senhor lembra da época que o senhor era criança? Como o seu pai era, sua mãe?

 

R – Meu pai era castanheiro, primeiro produto de Marabá era castanha, o segundo borracha, terceiro foi ouro, diamante e continuou outras coisas que eu não tomei conhecimento.

 

P/1 – Mas ele foi fazendo tudo isso?

 

R – É, trabalhou na borracha, trabalhou na castanha, trabalhou no garimpo e em todos esses objetos ele trabalhou.

 

P/1 – O senhor lembra como ele era com vocês, com os filhos?

 

R – Lembro, lembro, lembro. Foi um bom pai, nos tratou bem, com amor, nos zelava bem. Nós trabalhava para o progresso, né? Toda vida, rapazinho garoto eu vendia bolo pelas ruas, fazia tudo, vendia peixe, fazia tudo em Marabá, que era preciso garoto fazer pra sobreviver. Nós fazia porque quando ele ia pra mata ficava com mamãe, a minha mãe muito trabalhadeira também, é gomadeira, lavadeira de roupa, trabalhava em casa particular pra nos aguentar e nós ajudando também. E fomos, foi uma vida pesada, mas alegre, satisfeito hoje contando a história, pra mim é um prazer.

 

P/1 – Quantos irmãos vocês eram?

 

R – De pai e mãe nós somos em três. E de pai somos dois. E particular, de consideração, éramos três, agora morreu um e ficou dois.

 

P/1 – E ele ficava muito tempo lá fora?

 

R – Passava. Ele ia pra castanha no começo de janeiro, os patrão avisavam os castanheiros e eles subiam pelo rio Itacaiúnas e iam para o local onde ali eles faziam o barraco pra zelar aquele ponto, para eles zelarem, era deles. Na hora que chegava o inverno, na época da castanha, eles iam pra lá tomar conta, botavam os castanheiros que eles quisessem. Depois o barco subia no rio Itacaiúnas pra buscar castanha lá onde eles estavam, trazia pra Marabá. E no decorrer do tempo, quando existiu aqui o garimpo Chiqueirão, aí eu já estava rapazinho, trabalhando, estudando, e um colega meu que eu me dei muito com ele em trabalho chegou lá e disse: “Edson, você quer enricar?”. Eu digo: “Quero”. A história é essa! Eu digo: “Quero” “Rapaz, vai embora pra Xambioá”, era Chiqueirão naquele tempo, não era nem Xambioá, Chiqueirão.

 

P/1 – Seu Edson, a gente vai falar do senhor antes de vir pra Chiqueirão.

 

P/2 – Seu Edson, qual o nome dos seus pais?

 

R – Pedro Costa.

 

P/2 – E sua mãe?

 

R – Maria Costa.

 

P/2 – O que eles faziam?

 

R – Papai era castanheiro, caucheiro e garimpeiro. E minha mãe era lavadeira, trabalhava de serviço doméstico na casa e era essa a sobrevivência nossa.

 

P/2 – Como o senhor descreveria seu pai e sua mãe?

 

R – Minha mãe e meu pai eram pessoas boas pra nós, pra todas as pessoas, população em geral em Marabá que conheceu nossa família dava muito valor.

 

P/3 – Você gostava de ouvir história?

 

R – Demais.

 

P/3 – Quem contava?

 

R – Os velhos. Antes emprega-se de contar história para os meninos e os meninos sentavam no chão ouvindo aquelas histórias. E eu peguei essa maneira que eu hoje tenho muitas histórias aqui de Trancoso, verso que o pessoal desce do Araguaí eu vou e pego todos os relatórios que ele traz, eu guardo.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. Os viajantes, viajam em canoa de Mato Grosso pra Belém, pra Trancoso, chega aqui e me procuram e eu vou, essa é a história.

 

P/2 – O senhor se lembra de alguma história que eles contaram, esse pessoal? O pessoal que o senhor falou que contava as histórias. O senhor lembra de algum?

 

R – Eram cantigas, história de Trancoso. “Menino, tu é muito inteligente?”, nós dizia: “Sou, senhor” “Me diga uma coisa, se eu lhe dou oito reais, a menina empresta mais oito, certo, e eu dou mais quatro reais. E aí então você reparte bem no meio e destrói, né? Você paga o da menina e aí quanto você ficou?”. Mas não é dizendo a quantidade, é só, daí você tem que responder pra mim. Por exemplo, eu vou fazer pra senhora a comparação. Pense um tanto aí em dinheiro, não é muito não, pouquinho.

 

P/1 – Eu?

 

R – É.

 

P/1 – Vinte reais.

 

R – Não, mas não precisa dizer pra mim, não.

 

P/1 – Ah, entendi!

 

R – Não precisa falar pra mim.

 

P/1 – Tá, vou pensar outro.

 

R – Pense. Pensou?

 

P/1 – Uhum.

 

R – Então o mesmo tanto emprestado pra José.

 

P/1 – Metade?

 

R – É. O mesmo tanto.

 

P/1 – Ah, já pensei.

 

R – Junte com o seu, com esse. Eu lhe dou mais dez reais. Junte também o que ele deu com esse e o que estou lhe dando.

 

P/1 – Certo.

 

R – Parta bem no meio e jogue lá, destrui. Pague o José. Pagou?

 

P/1 – Paguei.

 

R – Ficou com cinco reais.

 

P/1 – Ave maria! (risos).

 

P/4 – Acertou?

 

P/1 – Como que é isso? (risos).

 

R – Então as coisas que vêm ocorrendo era cantar (canta e bate palma): “Bombaquim, bombaquim, deixa eu passar carregado de filhinho pra Jesus filhinho. Bombaquim, bombaquim, deixa eu passar carregado de filhinho pra Jesus criar”. E aí ele me procurava: “Qual é de vocês que são os mais inteligentes?” “Eu sou” “Eu sou” “Então vou fazer uma pergunta a você: como foi a história de Rui Barbosa ou Pedro Álvares Cabral, ou um homem super inteligente desses?”. Teve um que foi representar o Brasil lá nos Estados Unidos. Aí chegou lá passando no meio dos estudantes, aí falaram assim: “Ah, esse cabeçudão que diz que vem representar o Brasil, cabeçudão desses”. Aí ele ouviu, né? Ele deu a volta, passou no meio das crianças e procurou. Saudou eles todos, saudaram e ele falou: “Olha, eu quero dizer uma coisa pra vocês. É nos pequeninos vasos que contêm os melhores perfumes” (risos). E assim por diante. Nossa, se contar eu passo a tarde todinha contando essas coisas que me ocorreram ali (risos).

 

P/2 – Você sabe qual é a origem da sua família?

 

R – Rapaz, ela era descendente de índio.

 

P/2 – Descendente de índio.

 

R – É. Meus parentes aqui foi descoberto, depois que eu cheguei no Araguaia, eu descobri tanto parente. Tem índio aí, não tem a aldeia dos Carajás?

 

P/1 – Sim!

 

R – Que Xambioá é nome indígena, então é proveniente da aldeia dos índios, Xambioá, aldeia dos índios.

 

P/1 – E o senhor conhecia lá no Pará algum parente indígena?

 

R – Lá no Pará, não, não conheci. A parte da minha mãe era Carolina, ela nasceu em Carolina. Meu pai foi em Conceição do Araguaia, aqui era sertão, naquele tempo era sertão.

 

P/4 – Você se lembra da casa onde passou a sua infância? Como era?

 

R – Eu passei minha infância em Marabá estudando, lutando igual eu falei para os senhores como foi meu serviço prestado e passei um tempo com meu padrinho. Ele me convidou para eu ir pra lá trabalhar junto com ele e eu fui. Ele me deu estudos, me deu o prazer de conhecer a cidade, conheci  Maré, conheci Belém, conheci Cametá, Mocajuba, Baião, Sino do Carmo, Tucuruí, de forma que aí vem chegando até Marabá.

 

P/1 – O senhor foi com o seu padrinho conhecer tudo isso?

 

R – Ele tinha um motor, naquele tempo tinha uns motores grandes que faziam essa linha e ele me colocou no motor para eu aprender a ser motorista ou piloto. Aí eu fui exercitar pra ser piloto ou motorista. Mas pra lá é muito perigoso as cachoeiras, daí eu fui tendo medo e desisti de lá, vim aqui pra Xambioá por causa de garimpo.

 

P/1 – Nessa época que idade que o senhor tinha, quando o senhor foi com seu padrinho?

 

R – Uns 15 a 18 anos.

 

P/1 – O senhor ficou esse tempo todo com ele?

 

R – Nessa idade foi, trabalhei dos 15 aos 18, 20 anos. Aí depois com 20 anos eu vim aqui pra Xambioá. Rapazinho novo, inexperiente da vida.

 

P/1 – E antes dos 15 anos, quando o senhor era mais menino, o senhor falou que trabalhava, ajudava sua mãe, fazia bolo...

 

R – É, fazia tudo. Hoje eu admiro quando tem algum garoto que não ajuda a mãe dele, eu fico admirado, tem vergonha de ajudar. E eu fazia era gritar bolo, quando eu saía na rua de Marabá eu gritava: “Boleiro de arroz, temperado”, aí encosta moça para comprar e fazia aqueles relatórios todos pra poder vender mais (risos), a mercadoria tem que ter propaganda. E presença.

 

P/1 – O senhor era bom nessa?

 

R – Bom, ainda hoje.

 

P/1 – Como é que o senhor falava? Fala de novo (risos).

 

R – Bolo de arroz bem temperado, bem gostoso. Vamos chegar para comprar bolos que está na hora de comprar bolo pra tomar o café (risos). Eu relatava assim a história, mas agora já perdi até a prática, faz muitos anos, né?

 

P/1 – Muito bom, aí tinha bastante fregueses.

 

R – É, aí aparecia. Pode dizer.

 

P/4 – Quais eram suas brincadeiras favoritas?

 

R – Ah, era muita.

 

P/4 – E você tinha muitos amigos?

 

R – Tinha muito, muito mesmo. Eu fui um menino bem, nessa parte de amizade com os outros, nós tínhamos um campo lá em Marabá por nome Granito. E esse Granito nós ia pra lá e fugia pra jogar bola. É, estar correndo lá no meio, parecendo um toquinho, joga pra cá. E assim, e quando era pra jogar peteca, jogava todo tipo de brincadeira. Foi muito divertido, nunca fui triste, toda vida fui ativo. O meu trabalho, minhas brincadeiras, minhas colegagens conservei bem, graças a Deus, eu estou na idade que estou, mas tenho boas amizades.

 

P/2 – Seu Edson, na sua infância o que você queria, gostaria de ser quando crescesse?

 

R – Rapaz, a minha alegria, o meu prazer de ser era navegar no Araguaia, que lá não é Araguaia, chama-se Tocantins. Na parte de navegação nós temos aqui a navegação do rio Araguaia pro Tocantins, para lhe explicar a história é muito importante. Desce essa água aqui com o nome de rio Araguaia, quando chega lá no Apinajé ele cruza com o rio Tocantins, o rio Tocantins bate nele e o rio Araguaia perde o nome, ele não tem o nome mais de Araguaia, aí passa a ser Tocantins. Tocantins desce, chega em Marabá, Marabá é uma ilha desse jeito, desce por trás no rio Itacaiúnas, aí despeja no Tocantins e o Tocantins segue. Aí chega em Tucuruí, lá naquela época não era Tucuruí, era Alcobaça, o ponto de receber castanha, porque lá eles recebiam a castanha pra cortar a castanha, tem uma máquina de cortar castanha bem no meio, são contadas 100 castanhas, aí vai cortando. A que der 5%, 10%, 2%, 20%, aí diminui o preço da castanha. A castanha sadia é um preço e a castanha podre eles calculavam. Então lá era o ponto de apoio de catar castanha, chama-se crivo o nome do aparelho, feito de tábua, um sobe, bota a castanha lá no alto, ele _0:13:58_ despeja e os outros ficam aqui igual jabuti, empurrando a castanha prum lado apanhando aquelas folhas, eles conhecem. E vai jogando. E quando termina aquele trabalho eles iam pegar pra embarcar novamente e levar pra Belém. Lá vendia para o seu Marcos Latia, Américo Mendes e outros compradores que tinha lá em Belém.

 

P/1 – E a castanha que a gente come do Pará, ela vem em uma outra casca.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Quando ela ia pra Belém, ela ia nessas cascas.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Que depois ainda tem que abrir.

 

R – Ela abre lá em, que eu estou falando, a gente partia ela no meio pra ver se a amêndoa tinha mancha. Se tivesse mancha na amêndoa aí eles separavam, se dá 2%, 5%, 10% e ali baixava o preço porque é ectolitro, tem uma caixona grande e aí ele botava dentro e virava. “Virou”, o comprador, ia virando, mas já sabendo que a castanha era boa ou era média.

 

P/1 – Quando o senhor trabalhava pra ajudar sua mãe é em Marabá ou em outra cidade?

 

R – Em Marabá. Vendedor de peixe, vendedor de bolo, vendedor de toda coisa.

 

P/1 – Seu pai é que viajava muito.

 

R – Papai trabalhava na castanha, borracha e diamante e outros produtos.

 

P/1 – Na época da borracha o senhor lembra de alguma história dele?

 

R – Lembro muitas histórias. Quando chegava o pessoal lá, Marabá é uma ilha, como eu estou falando pra senhora a água desce aqui e desce por aqui, vem esse rio daqui despeja nesse. Aí o Tocantins despeja e vai embora, né?

 

P/1 – Sim.

 

R – Então lá era o ponto de apoio de botar gado pra engordar pra seguir a viagem pra frente. Então lá chega aquele pessoal que ranchava naquela ilha e lá viram as árvores assim e dizem: “Vamos apostar tiro”, naquele tempo existia muito 44 da papa amarela, rifle com nome americano e outros. Aí começaram a tirar. Quando foi no outro dia viram aquele leite derramado no chão e aí um pegou e colheu aquele leite e levou pra Belém. Chegou lá em Belém foram lá no laboratório, aprovou que era borracha. Trouxeram já o rancho com tudo, chegou em Marabá e deu grito: “Borracha foi em Marabá descoberta”. Aí foi vindo do sertão, de Carolina, desse mundo todo pra Marabá. E lá de Carolina pra Marabá desciam as balsas de buriti, cheio de buriti assim, tudinho, com a casa de palha por cima levar ao rancho arroz, farinha, carne, tudo, tudo, pra vender lá em Marabá porque o movimento era grande. Grande, grande mesmo. Aí quando depois o garimpo, quando descobriu o garimpo, aí todo mundo pro garimpo de diamante.

 

P/1 – Garimpo não era em Marabá.

 

R – Não, era lá embaixo, no Jacundá, Ipixuna, Bannach e outros lugares. E então no garimpo tem um aparelho, o escafandro, que eles dão o nome, se veste com aquele aparelho, aquela capa e uma cabeçona grande de bronze. Na hora que ele põe aquela cabeça, que põe o espelho, já o menino que está no pé da bomba já vão rodando a bomba. A nossa vida estava na mão deles, se ele parece um minuto lá, nós com 15, 20 metros de profundidade é um peso grande aqui e outro peso nas costas, dois pesos, um na frente e outro atrás. E aqui enxerga os peixinhos e passa tudinho aqui. Aí descobriram o garimpo e foi aquele maior coiso do mundo. Até que por fim eu também fui pro garimpo, aventurar, não fiz nada no garimpo mas gostei, peguei prática, conhecimento.

 

P/2 – E na sua infância, seu Edson, o senhor estudou?

 

R – Estudei, mas meus estudos não foram muito bons porque eu perdi a minha fase na época de estudo, eu estava estudando bem, estava sempre bem concentrado, já fazia boas contas, tudo, trabalhei em comércio pra cortar pano e sabia fazer aquela contabilidade todinha de pano, tinha que comprar cinco metros e 75 centímetros a tanto, eu multiplicava tudinho, tirava, dividia dava 500 reais. Naquele tempo 100, qualquer coisa, tinha que diminuir e sabia tudo, né? Aí fiz o quarto ano.

 

P/2 – O senhor tem lembrança da escola ainda?

 

R – Tenho! Meu professor foi o seguinte, vou contar essa história muito detalhada pra você saber. O meu professor foi castanheiro, que naquele tempo o movimento do pessoal era castanha, foi pra castanha. Chegou lá, a castanha é grande e os ouriços é grande, é igual aquele bem ali, ali é sapucaia, mas aquele mesmo.

 

P/3 – Daquele tipo ali.

 

R – Esse tipo mesmo. Aí já pega do talo e desce. Aí desceu, pegou bem na cabeça dele. Aí ele aleijou, depois foi pra Belém, tal e aí voltou e não pôde mais trabalhar e foi dar aula. Isso foi uma coisa, beleza, em Marabá, tem muitos alunos aqui na região que estudou com ele, professor bom. Depois passei pros colégios, tal e fui aumentando. Até chegar no ponto que nós vamos chegar, que eu vou chegar e contar outra historinha.

 

P/1 – O senhor passou em mais de um colégio.

 

R – Estudei no colégio lá de Marabá, aqueles colégios todos eu frequentei, fui pra um, pra outro.

 

P/1 – Até o quarto ano.

 

R – Quarto ano.

 

P/1 – E aí conseguiu aprender tudo isso que o senhor falou de contas e tudo.

 

R – O melhor professor que eu encontrei na minha vida foi comércio. Comércio.

 

P/1 – É?

 

R – Comércio é uma coisa boa.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque lá naquela época passava tudinho no lápis, nós não tinha máquina, não tinha nada, era tudo no lápis. Ou então na caneta que metia assim no tinteiro e escrevia. Então já tinha aquele lápis pra fazer a conta. A senhora comprava uma rede, comprava uma escova, comprava isso e aí eu ia somar tudinho aqueles preços, daquelas mercadorias, riscava aqui embaixo pra somar e dar o resultado quanto que a senhora está devendo, a senhora me dava, por exemplo, um dinheiro, naquele tempo não tinha cheque não, era dinheiro. Eu tinha que diminuir quanto era o meu e quanto faltava pra senhora, tinha tudo isso. E tinha o patrão só lá de olho.

 

P/1 – Era um bom treino.

 

R – Então isso foi, por isso que eu digo que o comércio é ótimo, é por isso, porque você pode crer que comércio ensina, ensina mesmo. Hoje não, hoje eu admiro porque é tudo na máquina, não faz mais. Dez noves fora. Quanto é dez noves fora? Não sei. Ô rapaz...

 

P/1 – Tinha muito cálculo mental, né?

 

R – É. Ou então fazia somar e tirar a prova dos nove pra ver se realmente está certa a conta.

 

P/2 – Como você ia pra escola?

 

R – Ah, naquele tempo tinha uma varinha, tipo umas coisas em casa, tinha o livro...

 

P/2 – Iam a pé?

 

R – Nós ia tudo era de a pé, não tinha carroça, nós não tinha transporte nenhum. Naquele tempo não tinha liberdade, naquele tempo quando batia a campainha (imita barulho de campainha), daí você ia empurrando o outro.

 

P/1 – Era longe da sua casa?

 

R – Não. Quando começou a cidade de Marabá, foi o que eu estou falando pra senhora e pros senhores, o lugarzinho era pequeno, depois é que foi se espalhando, chegando outras coisas. Mas assim, graças a Deus eu tenho essa honra de estar contando pra vocês minha vida.

 

P/3 – Quando o senhor começou a namorar?

 

R – (risos) Zé, me pergunta agora o seguinte, me pergunta agora referência Marabá pra Xambioá que eu vou contar, né? Ia mudando.

 

P/1 – A primeira namorada foi em Xambioá ou foi em Marabá?

 

R – Não, Marabá eu tive mas não era... eu tive uma brincadeira.

 

P/1 – É.

 

R – Mas o meu namoro quando eu namorei aqui no estado do Goiás, era Goiás naquele tempo, já foi uma coisa séria, eu estava com 26 anos.

 

P/1 – Ah, mas a gente ainda tem que saber lá da sua juventude. O senhor saiu de lá com 15, né?

 

R – Foi com 15 a 18.

 

P/1 – O senhor ficou viajando.

 

R – Viajando.

 

P/1 – Mas nos 15 o senhor se divertia como com seus amigos? Já era mais jovem, né?

 

R – Já, já. Mas aí eu já tinha aqueles amigos e tinha meu trabalho, porque eu trabalhava, nunca fui rapaz de andar bebendo cachaça, eu sou uma pessoa nessa parte sadia, eu nunca fumo, nunca fumei e ninguém aqui da minha família fuma, graças a Deus, nenhum fuma. E cachaça sempre usa, mas não assim, coisa pra fazer escândalo. Eu nunca bebi, bebi uma vez na praia lá porque me levava pra praia de Marabá, como chama lá? E lá me deram um produto que eu não sei o que era e eu me embebedei. E lá me largaram e foram embora pra cidade porque a cidade de Marabá é aqui e a praia é aqui em frente, viu? E me deixaram aqui e foram pra cidade. Quando eu acordei e fiquei olhando, o mundo estava assim, eu não sei onde estava, perdido no rumo, mas depois fui concentrando até que eu pude, eu fiz uma promessa comigo mesmo, nunca mais na vida eu vou fazer isso, acompanhar mal elemento, é que jovem a gente está _0:23:40_. E graças a Deus, o seu José ele pode falar, está aqui na frente minha me vendo e vendo o meu modo, da minha convivência, essa dona dele que também me conhece há muitos anos, conhece a minha família toda. Graças a Deus.

 

P/1 – E os irmãos, qual o nome dos seus irmãos?

 

R – O mais velho chama-se Vicente – chamava-se, né, Vicente de Paulo. Essa mudança de sobrenome é porque naquele tempo tinha umas promessas, tinha parteira, não era médica, era parteira. E as parteiras faziam pregação daquelas crianças e pediam lá à Nossa Senhora que fizesse o parto bem, ela botava e mudava o nome, o sobrenome da pessoa, então aquilo era escolha da parteira, que era a segunda mãe que nós tínhamos, a mãe legítima e a segunda mãe, que era a parteira. Naquele tempo meu. E com isso meu irmão ficou como Vicente de Paulo, que é referência a São Vicente que ajudou e foi um bom parto.

 

P/1 – E tem mais?

 

R – Tinha o Vicente, teve o Zeca. Aí interessante pra senhora e os mais que estão comigo, que papai casou com três Marias (risos). Minha mãe chamava-se Maria, depois mamãe morreu e ele casou com outra por nome Maria, aí conviveu um bocado de anos, nós fomos pro garimpo, remexemos lá tudo, eu acompanhando. Depois eu vim aqui pro Araguaia, meu pai ficou lá no meio da borracha, castanha, e quando ele vinha me visitar aqui no Araguaia ele chegou aqui e encontrou a mãe do Antônio dos Reis e começou a namorar com ela. Ele era moreno, mas gostava de, naquele tempo existia uns panos bonitos, roupa de linho, quando ele saiu da castanha ele comprava aqueles panos de linho, camisa, tinha tudo, sapato de couro de jacaré, o velho vinha e parecia...

 

P/1 – Era o linho, né, que era bem...

 

R – Era bem conceituado. Aí chegou aqui e namorou com ela, a mãe desse garoto e depois _0:25:47_ essa estrela aí, é dois. Todos os dois. Graças a Deus é aqui onde estou.

 

P/1 – Ele e mais outro irmão.

 

R – É. Esse é o João, esse daí se chama Antônio dos Reis e o outro chama José..

 

P/2 – João Costa.

 

R – E outro tem mais José, mas esse tem um que morreu. São três irmãos por parte de mãe, mas eu considero eles igual irmão de pai e mãe.

 

P/1 – O senhor estava contando, o senhor chegou a trabalhar com seu pai no garimpo?

 

R – Fui lá pro garimpo de Ipixuna, mas minha madrasta colocou vendas de bolo, de coisa e eu era o vendedor de bolo.

 

P/1 – No garimpo.

 

R – É. E aí o pessoal tinha aqueles poços pra secar, me gritava e eu chegava no meio do poço e gritava: “Ó o bolo!”, aí a turma: “Pra cá, pra cá”, eu mexia e vendia tudinho.

 

P/3 – O senhor tinha quantos anos nesse tempo?

 

R – Eu tinha uns 12 anos, mais ou menos, 12 pra 15 anos, nessa idade.

 

P/3 – E o que o senhor fazia com o dinheiro que ganhava?

 

R – Não, dinheiro ia pra minha madrasta.

 

P/3 – Ia pra madrasta.

 

R – É, ia pra ela, ela que era a dona, eu ia só ajudar as vendas pra poder subsistir, dar condição pra mim e pro meu irmão.

 

P/1 – Sua mãe morreu com quantos anos, seu Edson?

 

R – Eu tinha 18 anos.

 

P/1 – E depois o senhor falou que o seu tio levou o senhor pra navegar.

 

R – Foi. Exatamente.

 

P/1 – E aí o senhor saiu de Marabá, né?

 

R – Saí de Marabá. Agora nós vamos mudando o assunto. Eu estava em Marabá quando chegou um amigo meu daqui do Araguaia, que aqui era sertão naquela época, aí desceu lá em Marabá e me viu: “Edson, vamos pro Araguaia. Surgiu um garimpo em um lugar de nome Chiqueirão. Você chega hoje e amanhã está rico, uma coisa por demais, cristal é uma coisa por demais”. Eu não sabia nem o que era cristal. “Rapaz, o que é cristal?” “Uma pedra desse, você olha ela, ela tem o bloco dentro. É uma coisa, e faisqueiro compra tudo”. Aí: “Rapaz, não brinca, é mesmo?” “É”. Aí desisti do emprego que estava seguindo, talvez se estivesse ficado lá hoje eu sabia mais ainda, mas é...

 

P/1 – Qual era o emprego nessa época?

 

R – Eu estava trabalhando recebendo a castanha do povo e dando o recibo pra senhora, pro outro e praquele, depois eles vão acertar com o patrão. E eu acompanhava a castanha dentro da casa do motor pra vigiar se gente não mexia na castanha pra chegar na outra cidade pra despejar no armazém pra catar. Aí catava castanha, tornava a embarcar no motor e seguia pra Belém.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Aí lá em Belém que vendia pra outro, pra Marcos Matia, Américo Mendes e outros.

 

P/1 – Nós estamos vendo aqui as perguntas. O senhor já tinha viajado com o seu tio de barco pra cima e pra baixo.

 

R – Ele sempre ficava em casa e eu que ia, né, dentro do barco pra vigiar porque lá dava muita gente que tinha castanha, né?

 

P/1 – Ah, com ele que o senhor ia com a castanha!

 

R – É, exatamente. Pra vir de lá e despachar lá em Tucuruí e com isso eu ia ajudando a pilotar o motorista pra ajudar, pra aprender. Eu digo: “Vou aprender essa profissão”.

 

P/1 – E o senhor aprendeu com ele?

 

R – Não aprendi perfeitamente, não. Só dei uma desperta, mas não aprendi. O que me levou pra frente foi a região do Xambioá.

 

P/1 – Mas aí o senhor começou a contar como é que o senhor chegou pra cá. Um amigo.

 

R – É. Chegando lá em Marabá ele me convidou, disse: “Lá no Chiqueirão descobriram um garimpo de cristal e chega hoje, amanhã tá rico”. E isso colocou na minha cabeça que eu achava que a riqueza era melhor do que tudo.

 

P/2 – O senhor lembra quando, seu Edson?

 

R – Eu cheguei em 1952 pra cá.

 

P/4 – Como foi a viagem?

 

R – A viagem foi boa. Naquele tempo era de voadeira. Voadeira não, de barco motor 12, tenho até ele aí, é um motorzinho enrolado na corda e puxa. Ou então motor de centro, que é aquele motor grande e pá, são motores grandes de 80 cavalos, 60, 120, assim, né, de acordo com o tamanho do barco é a posição do tamanho do motor pra dar mais andamento. Que aí nós temos um trecho daqui pra Belém que é cachoeira, é cachoeira, tem um lugar que tem o nome de Capitariquara, que esse lá por cima é o Jacundá, nós tirava a castanha, botava aqui no carro, o carro passava daqui, deixava aqui, daí o motor entra aqui na cachoeira. Essa aqui, a cachoeira é muito perigosa. Pra cá é uma canal do inferno, dizem que lá passou um padre que o piloto disse: “Padre, erremo o canal!”, aí o padre disse que mandou bater as empanadas e foram rezar e quando deu fé tava do lado de baixo. E quem me revela essa história antiga, né, eu estou revelando hoje pra vocês. E por aqui passava no Capitariquara, uma pancada muito forte, aí pegava castanha de lá de baixo e seguia pra Belém.

 

P/1 – Entendi. Mas era perigoso.

 

R – Ave maria!

 

P/1 – Aconteceu alguma vez alguma coisa que o senhor ficou com medo?

 

R – Nós mesmo no motor andou, até parecia que ia alagar, mas não alagamos. Mas outros morreram, morreu muita gente.

 

P/1 – E nesse pedaço.

 

R – Nesse pedaço de Capitariquara morreu muita gente. Motor alagou, perdeu, acabou tudo.

 

P/1 – E quando passava por lá, qual era a sua sensação? O sentimento quando passava nesse lugar?

 

R – Ah não, ele avisava, o piloto já pregava as sanefe, dá o nome de sanefe a uns panos igual esse, pros marinheiros quando chegar perto pega as tirinhas de pau, bota assim no beiço e vai pregando a tábua tudinho, de uma ponta a outra. E fecha as portas, nós ficamos tudinho igual nós estamos aqui. Porque tem uns passageiros que vão na camarinha, que é os primeiros vão numa camarinha, numa salinha igual a essa daqui, bem arrumada. E o outro lá pra trás. Mas ali você não sabe pra onde vai e nem onde está, entendeu? Só vê o banzeiro, tombo do motor, pra lá, pra lá, aí você vai fazendo sua prece (risos).

 

P/4 – Aí onde vocês chegavam?

 

R – Estava do lado de baixo e embarcava castanha e ia pra Belém.

 

P/3 – E sua vinda pra Xambioá foi quando, seu Edson?

 

R – Foi em 1952.

 

P/1 – Que foi com o convite para o garimpo.

 

R – Foi esse rapaz.

 

P/1 – E aí o senhor veio. E o José perguntou da viagem, o senhor veio nesse barco, né?

 

R – Eu vim num barco, em outro barco que trazia passageiros. Eu deixei emprego lá e já peguei o trabalho pra cá.

 

P/1 – E foi tranquila a viagem?

 

R – Pra Belém?

 

P/1 – Não, aqui, pro garimpo.

 

R – Foi, foi.

 

P/1 – Não teve nenhuma...

 

R – Não, não teve nada.

 

P/1 – Aí cheguei, eu trouxe um trocadinho de Marabá do outro emprego aí fui lá pra chapada do Chiqueirão. E lá eu estacionei e fui ver como é que era o negócio do garimpo: “Garimpo é o seguinte: a gente vai lá pra região, você tira uma cata aqui,  a senhora tira outra aqui, o José tira outra aqui, o menino tira outra aqui, outra aqui, outra assim”. Eu fui lá e tirei uma cata aqui e uma aqui e assim. E aí pelejei, mas já tinha levado um trocadinho: “Vou botar uma quintandinha pra ver”. Botei uma quitandinha por lá e vai em cima, vai em baixo, e nunca vai nada, um vai sai uma pedra. Bonita, grande. Aí os garimpeiros que eram conhecedores do cristal disseram: “Essa pedra vale 100 mil reais”. Cem mil reais naquele tempo. É uma pedra boa, grande, tem muito bloco e isso e aquilo. Aí pronto, eu fui e segurei meu dinheiro, eles falaram pra mim. Terminou, não achei mais preço nenhum, até um tal que queimou, queima a coisa porque diz que você não quer o dinheiro, eles fazem um contrato entre eles e queima a pedra. Aí mandei quebrar.

 

P/1 – Por que queima a pedra? Não entendi.

 

R – É porque é o preço. A senhora bota um primeiro preço, chega lá e me bota 20 mil na pedra, uma hipótese. Aí eu não quero. Aí a senhora vai e fala pro Zé: “Ó Zé, tem uma pedra lá na casa do Edson, é uma pedra boa de cristal, vai lá. Nego que tem broca, estudo lá” “Quanto tu botou?” “Botei 20 mil” “Ó lá, repara bem”, aí vai lá: “Tem uma pedrinha aí, companheiro?” “Tenho sim, senhor. Pode entrar”. Entrou. “Está aqui a pedra” “Bota fora”. Aí lambe a pedra, passa a mão aqui por trás, vai aqui, vai. “É, tá bem. Rapaz, essa pedra tem um arreio de areia aqui, não dá pra fazer o preço que tu quer, não” “Quanto é que tu quer?” “Rapaz, 100 mil eu estou querendo” “Eu dou 25, tu quer?” “Não, não quero, não”. Aí foi nessa história, entre quatro, cinco, seis pronto, queimou.

 

P/3 – É malandragem de comprador de cristal.

 

R – Sabe o que é? Teoria de compradores.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Entendeu? Aí queimaram e eu mandei quebrar. Quebrou a pedra, aí piorou.

 

P/3 – Aí não deu nada.

 

R – Não deu nada. Aí, pronto, aí foi. Aí, conclusão da história: eu tinha esse botequinho que vendia guaraná, vendia outras coisas, vendia outras coisas. O cara dizia: “Olha Edson, no dia que _0:35:46_, eu venho acabar com essas garrafinhas suas, essas coisas” “Tá bom”. Quando ele chegou ele disse: “Edson,  hoje nós vamos falar o (inaudível). Hoje chegou o dia”.

 

P/1 – Chegou o dia? Passou o caminhão e eu não entendi direito. O senhor pôs a venda.

 

R – Foi, vendinha.

 

P/1 – Aí vendia guaraná...

 

R – Guaraná, essas coisas todinhas.

 

P/1 – Isso.

 

R – Leite Ninho e outras coisas. Cigarro, isso e aquilo.

 

P/1 – Aí aconteceu o quê?

 

R – O cara pegou e procurou comprar, beber. Ele mesmo só bebia guaraná com leite, aqueles copão de guaraná com leite. E os outros era pinga, cigarro, era tudo e eu... quando ele diz: “Ó, amanhã eu venho te pagar”. Até hoje (risos). Compreendeu? E eu fiquei no neutro, sem dinheiro e sem nada. Eu digo: “Meu Deus e agora, o que eu vou fazer?”. Eu digo: “Você quer saber? Eu vou já embora pra Marabá, pra minha terra porque lá eu tenho meu emprego, eu tenho tudo”.

 

P/1 – E não dava  pra cobrar o pessoal?

 

R – Nada, minha comadre! Quem sabe mesmo, quando toca no mundo é Deus. Ainda vai é fazer mal pra gente.

 

P/1 – É?

 

R – É. Aí eu fui pro rio, peguei uma passagem. Cheguei lá, eu fiquei debaixo de uma árvore e o barco chegou daqui. Encostou, eu fui lá. “O senhor pode me levar até Araguatins? Eu tenho um irmão em Araguatins, eu estou sem dinheiro, mas meu irmão mora lá, eu vou procurar falar com ele, ele paga passagem”. Ele viu eu: “Ó garoto, garimpeiro sem dinheiro eu não carrego”’. Ô dona, ainda hoje eu me lembro, quase eu, pensando na minha vida, como é que eu ia fazer. Aí eu voltei, fiquei debaixo da árvore pensando o que eu vou fazer. Se eu vou pro mesmo lugar, como é que eu vou fazer? E ele gritando:  “Vamos embora, vai (bate palmas), todo mundo embora, embarca”. Embarcaram, aí foram saindo, Deus tocou no coração dele, ele olhou assim: “E tu, garotinho? Não vai, não?” “Não, o senhor disse que não carregava garimpeiro sem dinheiro” “Não, eu vou aventurar, embora!”. Aí eu fui no rio assim, embarquei, ele disse: “O senhor sabe mexer com embarcação? Tem viajado em embarcação?”. Eu digo: “Já, senhor” “Então vai fazendo aí o que o senhor vê que é possível fazer embarcação”  “O senhor tem escovão?” “Tenho, sim senhor” “O senhor tem balde?” “Tenho, sim senhor” “Então me dê o balde e o escovão”. Ele me deu o balde, me deu o escovão e eu fui lá pra proa do motor, joguei água e joguei o escovão em cima, tcha tcha tcha tcha tcha, e joga água, fui até na polpa do motor, fiz o círculo todinho. Quando eu cheguei em Araguatina ele disse: “Não, você não vai pagar mais nadinha, eu quero que o senhor vá até Marabá comigo. O senhor não paga nada”. Aí fui pra Marabá, cheguei lá fiquei, trabalhei, trabalhei, quando retornei aqui (pausa). Nós estava onde?

 

P/1 – Aí o senhor conseguiu ir até Marabá.

 

R – Fui até Marabá. Cheguei lá e fiquei em Marabá. Quando foi passado uns tempos, esse mesmo rapaz que me convidou chegou lá e disse: “Edson, não dei sorte no garimpo”, no garimpo não deu pra ele, não, já estava trabalhando no outro emprego. Aí ele disse: “Rapaz, vai pra Araguaia trabalhar comigo lá, eu mexo com motor e tu vai trabalhando também comigo”. Eu vim com ele. Cheguei aqui, chama-se Joaquim Borges, foi meu professor, foi meu mestre. Chegou aqui, ele me botou pro quatro e meio, o motor mais fraco que tem na região. E eu trabalhei com ele. Dentro da cachoeira.

 

P/1 – Mais forte?

 

R – Mais fraco. Dentro da cachoeira eu era do remo, lá na proa e ele lá na máquina lutando pra subir as pancadas. E aí vai em cima, vai embaixo, até que um moço chegou: “Edson, tu quer comprar um motor? Nós compra motor, tu compra mercadoria da minha mão e vai trabalhar”.

 

P/1 – Só um minuto. Seu Edson, nesse motor que o senhor falou que era fraco, o senhor falou que passava em lugares que tinham muita cachoeira?

 

R – Muita. De Marabá, aqui, até o Alto Araguaia.

 

P/1 – Como é que faz pra navegar?

 

R – Quando não tem força de subir?

 

P/1 – Como é que faz pra navegar esses lugares?

 

R – Dá o cabo. Nós temos um cabo amarrado na proa do barco aqui, o barco é aqui, vamos supor, e aqui tem um cabo e uma corda grande. Aí eu vou, ele pega essa corda e eu pulo aqui no seco e vou lá pra frente com uma corda e esses dois, três companheiros, de lá ele entra na pancada e nós daqui. De acordo com o motor ajuda e nós aqui colhendo, até passar a pancada. Aí passou a pancada nós só vamos colocar a mercadoria dentro e torna a subir, na outra do mesmo jeito e assim era pra chegar até aqui pra vender a mercadoria, que aqui foi um lugar que...

 

P/1 – Tem que tirar a mercadoria toda do barco?

 

R – Toda. Toda. E assim fui lutando, foi logo que eu comprei um motor e comecei a trabalhar, lutar, trazendo todas as coisinhas e comecei a fazer frequesia em Marabá, Araguatins, comprando pra lá, comprei em Belém as coisas e vinha trazer aqui pro Araguaia. A gente tem uma mala de sola, bonita, a gente enchia de mercadoria, de perfume de lá de Belém. Lá tinha a perfumaria Phebo, um sabonete, brilhantina, tudo e eu tocava nesse sertão aqui, na ladeira grande, por todo lugar eu andava com essa mala e vendia tudo.

 

P/1 – Quando o senhor fala ladeira grande é o quê?

 

R – É um comerciozinho de lá, os moradores lá na serra. Hoje está lá tudo mato.

 

P/1 – Mata?

 

R – É. Mas naquele tempo...

 

P/1 – Mas o senhor vinha de Belém até onde de barco?

 

R – Até aqui, Xambioá, e daqui eu parava e ficava vendendo por aí assim e depois pegava o barco e tornava a subir, ia pra Conceição do Araguaia, que aqui nós temos dado local, né? Tem o beiradão e nós somos os navegadores que vão vendendo a mercadoria. Vendia sal, açúcar, sabão, querosene, brilhantina, tudo enfim. Quando ele conhece o barco, na hora que vem as mulheres arribam o pano assim, aí a gente já sabe. Atravessava, uma vez eu atravessei num banzeiro, cheguei lá, digo: “Pronto!”, ela diz: “Não, moço, estou lavando a minha roupa aqui, não estou chamando ninguém, não” (risos). “Então desculpe, pelo amor de Deus”.

 

P/4 – Passava muitos dias, né?

 

R – É ansiedade de vender, aquela ansiedade.

 

P/1 – Como é que chamava a pessoa que vendia assim?

 

R – É o barqueiro e o beiradeiro. Tinha muitos, né? Era eu, Claudio, era Beto, era Dega, tudo era barqueiro, que dá de vender as coisas.

 

P/1 – E quantas pessoas iam no seu barco?

 

R – Daqui lá, nessa época tinha muito passageiro, muito.

 

P/1 – Não, mas pra dirigir o barco.

 

R – Não, pra dirigir eu sempre gostava de levar menos por causa da mercadoria, porque o meu barco ficava apertado, eu levava menos passageiro, mas tinha outros que levavam mais.

 

P/1 – Mas quem dirigia era só o senhor?

 

R – E eu peguei a pilotar em 1952, 1954, 1955, em 1956 eu casei. Casei pelo retrato. Cheguei numa agenda em Marabá, num barco cheio de mercadoria e cheguei num lugar por nome Landi. Aí tinha uma senhora lá, ela disse: “Toma um cafezinho aqui em casa” “Vamos embora, menino, tomar um café na comadre Cidoca”. Aí fomos pra lá. Chegando lá ela foi passar o café e eu fiquei na salinha. Aí vi o retrato assim, na parede. Aí quando ela veio eu disse: “Dona Cidoca, me diga uma coisa, quem é essa senhora aqui?” “É minha sobrinha” “Onde mora?” “Lá em Barreira de Santana, sertão”. Eu disse: “Dona Cidoca, eu vou dizer uma coisa, se der certo eu vou me casar com essa menina” “O senhor não desmerece não” “Não digo nada" “E pra melhor lhe dizer ela está em Xambioá”. Eu digo: “É mesmo?” “É” “Se a senhora quiser fazer alguma coisa pra lá eu estou a seu inteiro dispor”. Ela fez uma cartinha e nessa carta botou que eu tinha olhado o retrato dela e tinha apaixonado e tal, mas que não era má pessoa e se desse certo ela não levasse a mal, não. Quando cheguei aqui fui levar a carta pra ela, cheguei lá, entreguei a carta, falei que qualquer coisa que ela precisasse pra Marabá, eu estava às ordens, tal, era navegante aqui. E se a senhora quiser também, já fui logo me expondo, tinha uma brincadeira de um bar, uma brincadeira bonita de pano no boi, faz no modo de um boi, entra debaixo o cara e tinha uma brincadeira de boi ali. Eu convidei ela: “Se você quiser participar da brincadeira do boi, nós chegamos até lá”. Ela disse: “Tenho uma colega” “Pode levar a colega”. E levou. À noite eu estava lá já no linho (risos), camisinha de, cheguei lá e dei chocolate, alguma coisa que ela quisesse eu... aí teve uma festa aqui, eu já vim pra festa. Eu sabia, paraense, todo paraense é danado pra dançar. E eu gostava de uma festa. De tudo eu gostava, Baião, Cametá, Mucaju, Vila do Carmo, tudo. Nós parava nessas cidades tudinhos aí. O pessoal, como dizia, o marinheiro de bordo (risos), ia de boa. Aí pronto, aí foi logo, quando dei eu falei: “E aí?”, se ela achava que ia dar certo. “Ah, depende do papai”.

 

P/1 – Mas rápido assim?

 

R – Mandei avisar, ele em Barreira do Santana e ele veio. Cheguei aqui, eu já fui logo, porque naquele tempo tinha os padrinhos da gente, por exemplo a senhora, outro, outro, juntava nós quatro, cinco pra ir lá pedir aquela moça em casamento ao pai dela. Nós fomos todos lá: “Seu Edson é um homem barbado, trabalhador, bom rapaz, tal, tal”. Deixei minha ficha. Aí ele: “Se for pra casar, quando o senhor quer?”. Eu digo: “Até amanhã se quiser”. Ela: “Então vambora”. Embarquemo, no outro dia embarquemo no meu barco mesmo e fui bater em Araguatins. Lá casei, em 1956 eu casei.

 

P/4 – Você lembra do dia do seu casamento?

 

R – Não me lembro, não. Mas tem oito filhos. Tinha nove, morreu um, ficou oito.

 

P/1 – Seu Edson, o senhor chegou lá, já conheceu, convidou pra festa e já pediu em casamento?

 

R – Falei com ela, né?

 

P/1 – Naquele dia mesmo da festa.

 

R – Na festa. A festa era particular, mas a gente ia fazer as festas, eu era conhecido, os barqueiros tudo aqui era conhecido.

 

P/1 – Mas tudo num dia só. Chegou, já foi na festa.

 

R – Na festa, fomos na brincadeira do boi, no outro dia na festa.

 

P/1 – E aí já falou se queria casar.

 

R – É. Ela prontificou-se, já mandei avisar o pai dela. Ele veio aqui, aí já conversei com ele e deu tudo certo. Mas já tinham trazido minha ficha também, minha ficha eu deixei em Conceição, esse mundo afora tem minha ficha.

 

P/1 – E pra casar lá onde o senhor casou com ela casava no papel?

 

R – É, casei com ela no juiz, até o juiz não dispensou o casamento, era seu Manoel Borja o juiz nesse tempo de Araguatinga (risos). Um festão, graças a Deus. Me ofereceram uma festa muito boa.

 

PAUSA

 

P/3 – Seu Edson, nesse tempo que o senhor navegava, como era a pesca de lá pra cá?

 

R – A pesca era da seguinte maneira. Quando eu saí de lá desse retrocesso do garimpo eu desci pra Marabá, retornei de Marabá, passei aqui no Xambioá e eu encontrei um moço que quis que eu trabalhasse no comércio dele, por nome Antônio Rodrigues morando em Antonina, por base de Santa Isabel. Já fui morar lá na Antonina e trabalhar no comércio com ele. Trabalhei cinco anos no comércio com ele, secos e molhados, e comprando babaçu, não era castanha, era babaçu, pra levar pra Belém, é outro produto, é amêndoa do babaçu que a mulherada quebrava e levava pra Belém. Então eu morei na Santa Isabel na linha do lado pra Antonina, lugar que eu fiquei era Goiás naquele tempo. E do outro lado Pará. Hoje é Tocantins, né? Então de lá eu convivi ele nesse trabalho e fui me dedicando e fui melhorando as coisas pra mim, clareando a vista.

 

P/1 – Mas nesse barco que o senhor ajudou a limpar, que o senhor foi até Marabá, depois aconteceu isso que o senhor acabou de falar. E como é que o senhor voltou pra Xambioá?

 

R – Voltei em Xambioá em outra embarcação. Fiquei lá, trabalhei lá de novo, aí meu colega disse: “Rapaz, vamos lá pra Xambioá, vai trabalhar no Araguaia que é melhor, o dinheiro sai melhor”. Aí eu vim e ele me deu toda condição de eu trabalhar com ele e ele foi meu mestre. Chama-se Joaquim Borges, me deu essa oportunidade.

 

P/3 – Em relação à pesca o senhor não tem nada a dizer?

 

R – Tenho, tenho muita coisa a dizer.

 

P/3 – Então fala um pouco dessa pesca aí.

 

R – A pesca é o seguinte. Eu cheguei aqui e depois surgiu as pescas. A primeira colônia que criou aqui foi em Conceição do Araguaia, eu me filiei lá na colônia. Se eu mostrar pra senhora o tanto de carteira que eu tenho da colônia, todas essas colônias aqui do Xambioá, Conceição do Araguaia, São Geraldo tenho carteira, Xambioá eu tenho carteira da primeira colônia. Depois é que veio os meninos aqui. Eu tenho carteira de todas essas coisas porque gostei toda vez de ver mais ou menos porque qualquer coisa a gente está com documento, é melhor do que estar... e na Marinha, eu sou cadastrado na Marinha, tenho aqui a carteira da Marinha também aqui de forma que qualquer coisa que a Marinha chegue aqui: “Cadê a carteira da Marinha?” “Tá aqui” “Cadê o barco?” “Tá ali” “Qual é o nome do barco?” “Pássaro veloz”. Pássaro veloz é nome indígena, significa Xambioá. Vocês sabiam? Eles sabem. Sabe?

 

P/3 – Sei sim.

 

R – Sabe que Xambioá é pássaro veloz?

 

P/1 – Seu Edson, mas o senhor também pescava?

 

R – Ah sim, voltando pra pescaria. Eu sabia que tinha muito peixe que eu morei na região de peixe, foi na ilha de Coco, dentro da Cachoeira de Santa Isabel eu morei com a minha tia, minha tia foi buscar nós pra morar com ela. Aí ela veio, preferiu aqui porque tinha garimpo de diamante dentro da Cachoeira de Santa Isabel, ela disse: “Vamos pro garimpo de diamente que nós enrica ou qualquer coisa melhora a condição”. Eu vim com ela pro garimpo de diamante na ilha de Coco, uma muriçoca. E lá é muito peixe, muito peixe, eu fazia assim em cardume, quando é no tempo que sobe o cardume vinha assim, o peixe vem assim. De forma que quando surgiu o marisco eu disse: “Quer saber, eu vou largar esse negócio e fui pro marisco”. Aí eu já tinha motor, entrei com o motor e o seu Antônio Padeiro como meu amigo e compadre pra trabalhar comigo e o _0:52:06_ dali, um _0:52:08_ que tem ali, foram os três. E eu botei um último ajudante pra tirar água e subimos aqui, esses igarapés rio Maria, água fria, pau d’arco, tudinho nós remexemos, viu? Mas o marisco é o seguinte, quando chegava lá acabava o gelo.

 

P/1 – Acabava o gelo.

 

R – O gelo, que nós levava o gelo pra botar o peixe pra gelar. Aí voltava com uma quantidade de peixe menos, aí chega aqui e dá prejuízo, dividir por três ou quatro, né? Aí eu vi que não tava dando não, eu digo: “Não, rapaz, esse negócio não tá dando, não”. Fiz umas viagens aí, aventurei, aventurei, deu não, acabando o motor. E aí já tinha família pra segurar, meus filhos pra sustentar aqui também.

 

P/1 – Já tinha todos os filhos?

 

R – Já tinha uns quatro, cinco filhos.

 

P/1 – Aí na pesca o senhor teve essa experiência mas não continuou.

 

R – Foi. Aí depois abriram as colônias e os pescadores têm uma falha muito grande que eu achei, sabe o que é? Que os pescadores entram na região do outro. Eu sou daqui dessa colônia e vou pescar no Pau-d'Arco, lá é outra colônia. E os de lá vêm pescar aqui. O de Marabá vinha pescar aqui e levou foi caminhonada cheia de peixe pra Marabá, viu? Isso eu digo porque eu sei a história todinha, viu? E sei que era o dono da colônia lá de Marabá e faziam isso. Então surgiu em Araguatins colônia, e todo mundo se espalhou no rio pescando. Aí o peixe, porque pega o grande e o pequeno, o pequeno não serve, aí ele jogava pro jacaré, pro urubu, pra essas coisas e só traz o peixe de classe, né?

 

P/1 – E na pesca o senhor só tentou o marisco?

 

R – Só e foi aventura. E aí passei a comprar pele, pele silvestre. Pele de onça, pele de jacaré, pele de gato, catitu, essas coisas. E tudinho nós vendia aqui.

 

P/1 – E o senhor transportava no barco.

 

R- No barco. Daqui nós vendia pro pessoal e eles levava pra fora.

 

P/1 – E o senhor ia até onde levando essas peles?

 

R – Até aqui, Xambioá. Em Xambioá vendia pro pessoal, que os comerciantes aqui, seu Pereirão e outros me compravam. Aí eles compravam e levavam pra outra cidade.

 

P/3 – O senhor não aventurou vender o peixe salgado no barco, não, né?

 

R – Não, não, não. Nós trazia mesmo era pra cá pra ver se vendia aqui porque tinha mais preço.

 

P/3 – Naquele tempo não tinha comercialização porque todo mundo pegava o peixe, né?

 

R – É.

 

P/3 – Porque tinha muito peixe, todo mundo pegava peixe.

 

R – Era peixe demais.

 

P/3 – Não comerciava naquele tempo.

 

R – E aqui a carne vinha do Mato Grosso, a carne de gado. E eu tentei fazer essa aventura, subi com o barco, cheguei ali na Barreira de Santana o temporal me pegou, um vento, fu, aí ela me alagou. Molhou minha farinha toda, molhou tudo, acabou tudo, foi no fundo. Aí fui pra casa do meu sogro, estive lá, no outro dia nós viemos tirar. Aí os caboclos já chegaram, nós demos farinha pra eles e depois quando vi, fiquemos, a farinha estava enxutinha, só as laterais molhando. Aí tiramos a farinha, a massa e fomos retorra, retorremos e botemos de novo no barco e eu toquei, que aí tem uma ilha muito grande, são 80 léguas de comprimento e 40 de largura, a ilha do Bananal. Por aqui pelo lado da esquerda chama-se Javaé, aí eu entrei no Javaé que é um braço, mas saí muito longe. Eu entrei por aqui e aí é fazenda de todo jeito, gado, é tudo. E lá o gado era barato e ele me fez comprar tudo. Farinha, cheguemos lá não tinha um galão de farinha. Aí nós vendeu a farinha tudo e trocamos tudo de carne. Trocamos tudo de carne, aí pegamos os couros assim pro meio do motor, couro de gado, e salguemos lá mesmo, dentro do barco. Descemos, quando chegou uns três, quatro dias que nós já tava com essa arrumação cheguemos aqui a _0:56:17_ estava assim de bicho. E aí o que faz? “Vamos entrar em _0:56:23_”. Lá fomos lá pra dentro do _0:56:24_, lavemo essa carne todinha e fomos ressalgar de novo. Ah, moça, mas cheguemo aqui não tinha carne de jeito nenhum.

 

P/1 – Mas deu pra aproveitar a carne?

 

R – Deu, deu. Estando salgadinha limpou tudo, lavemos bem lavado e depois foi, acabou.

 

P/1 – E o senhor fez uma vez só esse tipo de viagem?

 

R – Não, aí eu continuei, mas foi com uma outra maneira, aí já o negócio melhorou, já peguei a prática, tomei conhecimento, já sabia qual era a mercadoria de preferência lá pro sertão. E aí já comecei a trabalhar, trabalhei 45 anos de trabalho prestado no Araguaia.

 

P/1 – Quarenta e cinco anos com barco.

 

R – Com barco. Comecei com motor de 12, passei pra quatro e meio e foi praquela luta que teve um bom de centro e trabalhei muito. Graças a Deus estou muito satisfeito com a minha vida porque lutei pela minha vida mas estou aqui e estou contando a história com alegria e amor e dedicação.

 

P/3 – Seu Edson, daquele tempo pra cá teve aquela Guerrilha do Araguaia. O senhor presenciou alguma coisa da guerrilha?

 

R – Eu carreguei os guerrilheiros. Quando eles chegaram aqui não davam demonstração do que eram, nem apoio de terra, de compra de terra. Eu morando aqui nesse lugar, eles chegavam: “Esse é o Paulo, Daniel, Dona Dina” e os outros que eu não me recordo. Bem aí atrás, na minha frente aqui era um hotel, meus compadres, gente muito boa, Pedrinho Baiano e dona Rosinha, gente boa demais. Aí os guerrilheiros chegavam e ranchavam, hospedavam aí. Aqui atrás tinha a dona Luzia e tinha outros hotéis pra acolá, e aí eles espalharam tudinho. No dia de viajar eles vinham pra cá: “Nós queremos fazer uma viagem pra Santa Cruz”, uma currutela que tem lá embaixo, aí eu comprava gasolina, eles davam dinheiro, tudo, tudo. Comprava gasolina, botava no barco e aí comprava o rancho tudinho e nós descia. “Encosta aqui, encosta ali, encosta ali, encosta acolá”, encostava no lugar que ele pedia pra encostar, encostava. Às vezes ele dizia: “Vou saltar bem aqui”. E eu falava como dono do barco, conhecedor: “Olha, aqui não tem estrada, não meu amigo”. Aí ele: “Não, é porque eu quero olhar essa área aqui, nós viemos aqui pra olhar terra, então vamos olhar essa área, essa terra aqui”. Saltava um, dois ali naquele e tocava no mundo, eu seguia a estrada, chegava até lá na Santa Cruz, na currutela e lá ficava, passava um dia, dois dias, três dias conforme eles sumiam dentro do mato: “Tal hora nós vamos sair”. Quando era na hora eles vinham, embarcavam e tornava vir pra cá. Chegava aqui, de repente eles viajavam e a gente não sabia pra onde era, pra onde não era, que eles não diziam.

 

P/3 – Mas pagavam a viagem tudo certinho?

 

R – Pagava, pagava. Aí eles hospedaram uma vez, eles estavam aí no hotel da dona Cecília quando a comadre levantou cedinho e foi pra trocar as cobertas da cama, né? Quando chegou lá ela olhou, quando foi entrando surgiu um monte de dinheiro em cima da cama. Aí um virou pra ela e disse: “A senhora é muito esperta, né, curiando a gente” “Não, desculpa, eu entrei sem saber, vim trocar as cobertas das camas”, daí saiu. Ela não deu publicação, não deu nada, acabou, né? Ninguém sabia, ninguém sabia o que eles queriam fazer. Até hoje eu sou encabulado porque aqui nós temos um buraco, não sei se esse Zé conhece, mas talvez tenha visto falar, que tem um furo aqui nessa Serra das Andorinhas, essa serra aqui que corre de lá até... então tem um túnel, entra ali no pé da serra e vai sair lá na ponta, lá no alto. E lá dentro dessa serra um pessoal, uns colegas meu, inclusive esse que me convidou pra vir pra cá, entrou lá e me disse:  “Edson, lá é um túnel com um buraco que tem pra cima, pra todo lado e vai sair lá”. Ninguém sabe se foi feito por eles ou se foi obra da natureza, né? Eu sei que a coisa que eles mais compraram, coisa que até hoje eu sou admirador, era lata. Porque de antes a gasolina vinha toda enlatada, eram duas latas em uma caixa e nós comprava lá pra vir.

 

P/1 – Eles compravam as...

 

R – Eles compravam as latas, as latas secas.

 

P/1 – Pra levar.

 

R – Até hoje não sabem onde jogaram essas latas, até hoje.

 

P/3 – Lata vazia que eles levavam.

 

R – Compravam tudo.

 

P/1 – Eles compravam lata vazia.

 

R – As latas vazias, comprava tudo. Aí eu não sei pra que é, pra que não é. E o seu Paulo, que era o chefão mais alto, Daniel, dona Dina e outro que eu não lembro mais o nome.

 

P/3 – Osvaldão.

 

R – Osvaldão. Ah, Osvaldão era um... aqui ele também tem um livro aí, História de Xambioá, a História da Guerrilha tem aqui.

 

P/1 – O senhor tem aí?

 

R – Tenho.

 

P/1 – E seu Edson, como eles eram na conversa com o senhor?

 

R – Na conversa eles chegavam aqui, não tinha palestra igual nós estamos aqui, não. Só chegavam, eles faziam uma empreitada logo: “Quanto que o senhor vai fazer a viagem?” “Tanto” “Não faz por menos?” “Não. Nós vamos demorar, qualquer coisa, tem uma demora, isso e aquilo” “A gasolina toda é por nossa conta. E o rancho. É só o motor e o seu trabalho” “Faço por tanto”. E isso não era só eu não, era muitos, muitos motor aqui, uns pra baixo, outros pra cima, outro prum lado, pro outro, era assim.

 

P/1 – E o senhor tinha ideia do que eles vinham fazer depois? O senhor ficou sabendo?

 

R – Não, o final da história todinha foi essa aqui que concluiu, que eles estavam aqui pra conquistarem o povo, amansando o povo. Porque o povo da mata, aí tinha enfermeira, tinha médico tinha tudo. Eles tratavam da gente, o pessoal da mata e não cobravam nada.

 

P/1 – Mas trataram os moradores daqui também?

 

R – Eles não se abriram aqui não, mas lá na mata mesmo.

 

P/1 – Na mata.

 

R – Na mata, no Pará. Tem abóbora, tem não sei o quê, tem toda planta aí, tudo vai sair no outro rio por nome rio Itacaiúnas, foi onde eu disse pra senhora que encontra com o rio Tocantins, lá embaixo. Aí ele fazia tudo. A Dina era uma mulher bem simpática, conversadeira, explicativa das coisas. E eles também eram muito assim, tratavam a pessoa com atenção. Não dizia, não a finalidade da história. “Não, a finalidade é que nós estamos procurando uma terra boa pra se localizar”. Tanto que o Paulo ficou pra acolá, na gambeleira. Eles chegaram a entrar e tocar: “Seu Paulo, aí não tem” “Não, é porque eu vou olhar essa área aqui”, até que localizou o seu, o Osvaldão ficou pra acolá. O seu Paulo e Daniel ficou aqui nos perdidos, entendeu? Outro ficou pra abóbora. Então separaram-se assim, mas eles tinham um rádio de comunicação.

 

P/1 – Tinha um rádio.

 

R – Tinha um aparelho. Mas para mim dizer eu não sei o que eles falavam.

 

P/1 – E a dona Dina, que era mais simpática, chegou a conversar com você, você e ela?

 

R – Conversava direto, ela era muito popular. Em questão de doença aqui com esse povo, ave maria, mulher, eles só tratavam bem. Quando foi metralhado o primeiro guerrilheiro lá, que eles trouxeram o corpo dele, botaram lá na delegacia pra todo mundo ver como era a história, eu fui lá olhar. E eles entocaram na mata. Foi o tempo que eu larguei eles e fui trabalhar pro Exército, o coronel major Bandeira era o chefe daqui e esse se deu comigo porque eu era um barqueiro mais velho, ele se deu muito comigo e aí deu preferência pra mim, aí eu andava com ele pra cima e pra baixo.

 

P/1 – Aí levava ele.

 

R – Levava o soldado a andar atrás desses guerrilheiros. Aí eles se espalharam.

 

P/1 – Mas eles ficavam perguntando alguma coisa pro senhor? O exército perguntou?

 

R – Eles perguntavam o que eles tinham dito pra gente, mas eles não falavam com nós, não explicavam nada, nós não pode adiantar nada porque eles não explicavam. A finalidade da história deles era essa, que andava à procura de terra. Pois é, a história.

 

P/2 – Ele queria falar um pouco sobre o Paulão, Osvaldão.

 

P/5 – Por exemplo, Márcia, na época eu tinha 14 anos, né? E eu trabalhava de barco aqui atravessando gente de um lado pro outro. E a gente quando vai pra lá ou pra cá tem que aguardar a vez de passageiro pra gente ir, né?

 

P/1 – Só um minutinho, começa de novo, por favor.

 

P/5 – Na época eu tinha 14 anos e eu trabalhava de barco, barco de madeira, barco grande. E quando a gente atravessava pra ir de um lado pro outro, quando chegava do lado de Tocantins ficava aguardando passageiro pra voltar pro lado de São Geraldo. E lá em São Geraldo a Dina tinha uma farmácia, bem na beira do rio, ela e o Tonho, o marido dela. Então eu ficava, enquanto esperava passageiro eu ficava do lado de fora do balcão, claro, sentado numa cadeira e conversando testa a testa com ela. Ela era muito, como meu irmão falou, muito simpática, os dois. E o que eles faziam? Eles levavam medicamento pro Parazão aí, tratava gente e não cobrava nada, você entendeu? E o Osvaldão, só de passagem mesmo assim, ela ia e eu via. Ele tinha quase três metros de altura, o chão tremia quando ele pum pum pum. Era. O bicho era pretão mesmo e grande mesmo. Era uma massa de caboclo, sabe? Esse eu não cheguei a conversar com ele, não. Só assim, ele ia, eu vinha, você entendeu? Só esses dois que eu tenho conhecimento. Paulo só de nome mesmo assim, mas o mais assim que eu tenho, que eu morava no São Geraldo na época, então eu conversei com eles aí. E quando o exército baixou foi de uma vez, foi surpresa, né, Edson?

 

R – Foi.

 

P/5 – O exército baixou de uma vez. Aí eu passava, não tinha hora não, o exército queria vir pra cá, pra base ali, tinha que trazer eles, né, de noite. E a metralhadora só rangendo, pararara. E o medo? Mas tinha que vir, né? Era prestação de serviço mesmo, não era nada obrigado, a gente tinha que vir, né? Estava ali pra eles, pagavam tudo direitinho, tal, não tinha problema, não. A convivência foi essa na época da guerrilha que eu tive, eu fui, 1971, 1972, 1973, 1975 eu fui pra Brasília tentar meus estudos e graças a Deus consegui tudo.

 

P/1 – Então vocês ficavam mesmo mais levando, trazendo, dando abrigo.

 

P/5 – Justamente.

 

P/1 – Hospedagem, alimentação.

 

P/5 – No caso do exército a gente fez esse serviço também, atravessando de um lado pro outro, entendeu?

 

P/1 – E o senhor disse que trabalhava... alguém quer perguntar mais alguma coisa?

 

P/5 – O que me impressiona, Márcia, com relação à navegação do meu irmão Edson, é que à noite ele pilotava, não sei, não batia, né, Edson?

 

P/1 – Então, a gente já vai terminar, seu Edson. O senhor falou dos 40 anos...

 

R – Quarenta e cinco.

 

P/1 – Quarenta e cinco anos que o senhor navegou.

 

R – Foi.

 

P/1 – Então, antes da gente terminar, o que o senhor poderia dizer desse trabalho, a coisa mais marcante pro senhor navegar tanto tempo assim?

 

R – Da época que eu cheguei em Xambioá que eu expliquei pros senhores, que eu vim pra cá, cheguei a praticar nos motores e comecei a gostar, tomei aquela posição, vi que o negócio podia me dar resultado. Aí procurei logo casar, com esse casamento teve mais força para eu trabalhar melhor, né? Porque eu assumi uma responsabilidade muito grande. E forma que aí eu gostei do trabalho, fui muito, muito dedicado ao meu trabalho, fui bem sucedido, fui muito feliz com minhas boas amizades que eu fiz, retornando agora até o momento, é o momento do meu trabalho eu estou parado aqui porque agora eu fui operado do coração. Botei dois marca-passo e aí o médico me suspendeu de eu puxar o cordão pra não fazer força no aparelho, aí estou com um, tiraram um agora e botaram outro. Estou aqui com ele, um do lado, mas o médico disse: “Não faça força no braço que é para não prejudicar o aparelho”.

 

P/1 – Edson, e desse rio Araguaia, o senhor conhece muito ele.

 

R – Conheço. Conheço aqui o rio Araguaia, conheço o Tocantins, uma parte, e conheço aqui a viação rio Lontra, conheço os igarapés, que nós damos o nome de igarapé a esses menores, né? Então conheço os igarapés, conheço Mato Grosso, conheci a ilha do Bananal por dentro e por fora, Javaé e o rio Araguaia que corre aqui do lado à direita.

 

P/1 – O que você pode dizer pra gente, cada rio tem um jeito.

 

R – É, cada rio tem um sinal, um jeito de trabalhar, de comunicação e de sobreviver.

 

P/1 – E do rio Araguaia que passa aqui por Xambioá, o que o senhor falaria desse rio?

 

R – Aqui é o Xambioá, o rio Araguaia é esse que banha aqui Xambioá e São Geraldo, são as duas cidades, uma em frente da outra.

 

P/1 – Se o senhor pudesse falar pra gente desse rio, como é que é esse rio, dá pra falar?

 

R – O rio Araguaia é um rio caudeloso, um rio bonito, um rio muito satisfeito pra navegar, com a alegria que ele solta pra gente é um modo de um sorriso, quando ele solta aqueles banzeiros é o mesmo que uma pessoa quando está sorrindo pra gente alegre, recebendo a gente alegre, satisfeito. Então aquele banzeiro é muito bonito. Mas não é com isso que você vai se embelezar e penetrar na margem dele com aquele banzeiro porque o resultado daquele sorriso é o fracasso.

 

P/1 – Como assim?

 

Vários – As ondas

 

R – Alaga, alaga a embarcação igual eu alaguei. Igual eu alaguei, perdi motor, mercadoria, mas tirei o resultado porque eu fiz esse trabalho que eu falei pros senhores ainda agora, que eu retorrei a massa e prossegui viagem.

 

P/1 – Entendi. Mas o rio Araguaia tem essa característica que o senhor falou.

 

R – E deixando lembrança pra senhora ver o que é mais bonito, até o meu irmão fez uma poesia, eu gostaria que ele dissesse a poesia pra senhora ver, pro senhor ver e a lembrança do meu trabalho com referência a que ele fez pra mim. Passa essa.

 

P/5 – Primeiro eu vou dizer uma aqui, porque eu achei que a gente fosse lá pra colônia do pescador. Então, Márcia, e meu amigo.

 

P/1 – Você não quer sentar? Ele pode sentar ali do lado do irmão dele. Pera aí, só um pouquinho que ela vai colocar a cadeira pra você ficar mais perto dele (arrumando as posições).

 

P/5 – Ali descendo tem a ilha de campo, subindo tem a praia do murici, certo? Então é o seguinte: “As terras de Xambioá são banhadas pelas águas do lindo rio Araguaia, que ainda nos oferece suas maravilhosas praias. Descendo de rio abaixo, observando os encantos, nós vamos nos deparar com uma praia existente na famosa linha de campo. Quando se está de férias e vem passear por aqui, não pode deixar de ser visitada a praia do muricy. Essa praia é referência pra todo esse nosso povo, chegou até a ser cenário de um programa da Globo. O rio Araguaia também nos oferece alimentos oriundos dos pescados que são bem alocados com carinho e com amor na...”

 

P/3 – Colônia...

 

P/5 – “Colônia do pescador. A colônia a que me refiro, como se nela estivéssemos, eu não a conheci com vista, eu não a conheci com visão, vocês bem sabem o porquê dessa minha afirmação. Quando da primeira vez que eu vim aqui visitar, fui muito bem recebido por todos que aqui estavam, daí fui convidado a adentrar pelo recinto, para que eu possa ter a noção de como perceber, sem mesmo poder olhar tudo o que aquele (corte). E fui muito bem guiado, com bastante carinho, pelo meu grande amigo, o querido Zé Gordinho”.

 

P/1 – Agora o verso pro seu irmão.

 

P/5 – Porque eu me baseio na realidade, sabe Márcia, quando eu faço essas coisas. “Quando ainda não existiam muitos tráfegos terrestres por falta de rodovias, nós tínhamos grandes barqueiros transportando cargas e passageiros nos leitos de nossos rios. Naquela época os barcos eram feitos de madeira com toldos e caseolas para dar grande conforto aos pilotos e passageiros. Tinha também a cozinha, onde eram preparadas todas as refeições servidas no dia a dia. Os barqueiros carregavam em seus barcos alimentos, remédios e vestuários para poder bem atender os moradores portuários. Mas também eram atendidos os moradores das encontas. E o grande pioneiro de toda essa jornada era o senhor Edson Costa” (palmas).

 

R – Muito bem, obrigado (risos). Agora eu quero que você diga a última, com referência aos peixes, pra ela ouvir o que era minha poesia aqui.

 

P/5 – O peixe? Qual é?

 

R – (incompreendido). Pode?

 

P/1 – Pode falar a última então.

 

P/5 – “Araguaia é um rio muito belo, que ainda não nos oferece”... essa aí eu não peguei direito, não. Pode desgravar né?

 

P/1 – A gente depois vai dar esse vídeo todo pra você.

 

P/5 – É?

 

P/1 – Pode começar de novo.

 

P/3 – Eu estou lembrando.

 

P/1 – Mas foi mais importante a gente terminar com a que ele fez em sua homenagem, essa foi a mais importante.

 

R – Mas essa aí que ele vai terminar é bonita, era minha, né, daí eu passei pra ele citar por mim porque por causa do aparelho...

 

P/1 – Mas o senhor fez uma poesia também?

 

R – É, tem essa.

 

P/1 – Então vamos deixar ele falar agora.

 

R – Pera aí, só um momento.

 

P/1 – Ah, o senhor tem escrita. Tem que decorar ainda, né? Achou?

 

R – Achei outra, vou mostrar essa.

 

P/3 – Quando começamos a entrevistar eu perguntei qual era o seu sonho. O senhor falou que era ser piloto, né?

 

R – Exatamente.

 

P/3 – O seu sonho foi realizado?

 

R – Foi realizado, está sendo realizado.

 

P/3 – Está sendo realizado.

 

R – Que por essa pilotagem minha eu fiz muita amizade, criei muita amizade no beiradão, nas cidades, em todos os órgãos que eu frequento sempre eu divulgo a boa amizade com as pessoas, viu? Você mesmo é testemunha do meu causo que quantos anos eu frequento a sua sede gostando muito do seu trabalho, sou um admirador, por questão de estar sempre evoluindo, estar progredindo, nunca caiu, está sempre pregando a frente com os trabalhos, com a luta, com a dificuldade que você tem, mas você tem isso tudo. Zé, eu quero te dar os parabéns pelo seu trabalho, viu? E agradeço de Deus que você sempre seje feliz, por toda sua vida.

 

P/3 – Obrigado, seu Edson.

 

FINAL DA ENTREVISTA

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