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Bangu de Coração

História de: Manoel Fernando Moreira Pinheiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/07/2014

Sinopse

Nono filho de imigrantes portugueses, que vieram para o Brasil na década de 50. Cresceu em Bangu, formou-se e pós graduou-se em administração. Conta a importância das cartas para sua mãe, que era a única forma de ter notícias da família que vivia em Portugal.

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História completa

P/1 – Boa tarde.

R – Boa tarde.

P/1 – Manoel, eu queria começar a entrevista pedindo para que você nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Manoel Fernando Moreira Pinheiro, eu sou aqui do Rio de janeiro, a minha idade, eu tenho 50 anos.

P/1 – Sua data de nascimento?

R – Data de nascimento é 22 de novembro de 1963

P/1 – Tem um errinho na sua data de nascimento?

R – Exatamente, é… pois é, eu nasci no dia dois de novembro, mas o escrivão da época, eu acho que ele acrescentou mais um dois, acho, não, ele acrescentou um dois indevidamente, ai ficou 22 de novembro. Uma pena, né?

P/1 – Mas você comemora no dia…?

R – Eu comemoro no dia dois, em Finados, não muda muito (risos).

P/1 – Me conta sua formação, qual é a sua formação?

R – Pois é, a minha formação, ela é basicamente em Arte Gráfica, né, eu fiz um segundo grau em Arte Gráfica, depois eu me formei em Administração, fiz uma pós-graduação também, mas eu vivo em cima da minha profissão, que é técnico industrial, então, a minha formação gráfica mesmo, que hoje designo até a minha profissão seria um técnico gráfico.

P/1 – Você me disse a cidade onde você nasceu?

R – Disse. Rio de Janeiro.

P/1 – Rio de Janeiro? Você cresceu aqui no Rio?

R – É, eu nasci aqui em Bangu, né, sou Bangu até hoje (risos), de coração, sou vascaíno por opção (risos), também, por causa do meu pai, que era português. Mas assim, natural do Rio de Janeiro.

P/1 – Como é que foi a tua infância em Bangu? Conta um pouquinho. Uma lembrança tua.

R – Na época, nós morávamos num sitio, né, então foi muito legal, porque é uma infância, que hoje não existe mais, né, nós brincávamos com… tinha muito espaço, então, nós brincávamos até com osso de… naquela época, tinha mocotó, ai vinha aqueles ossinhos, né, e eu lembro assim, muito bem, o meu irmão pegava aqueles ossos e assim, com o tempo ele secava, e nós fazíamos daquilo um boizinho, vaquinha e era muito interessante, porque até os vizinho, nós tínhamos um… eram três vizinhos que eram muito colados, né, apesar de ser distante, porque era sitio, mas eles roubavam até os nossos ossinhos, porque eles achavam tão interessante e tão bonitos…

P/1 – Mas você esculpia?

R – Não era bem esculpido, mas eles eram assim, personalizados, cada um tinha um nome (risos), era muito engraçado isso. E também, nós formávamos, depois, várias construções, nós fazíamos assim, ônibus de caixa de papelão, ai fazíamos estradas, pavimentações, até por conta disso, eu deveria ser engenheiro, mas a vida nos leva, às vezes, para outros locais, né, e eu fui parar na…

P/1 – É uma forma de abrir a criatividade, né?

R – É, muito, muito.

P/1 – Desenvolver toda…

R – Muito mesmo. Foi uma infância muito bacana. Marcada por muitos contratempos também, porque o meu pai tinha bastante filhos e…

P/1 – Quantos irmãos você tem?

R – Ao todo, éramos nove.

P/1 – Bastante, né?

R – Bastante, eu era assim, os ultimozinhos, né, e então assim, pelo fato dele vir também de Portugal, então, ele…

P/1 – Quando ele veio?

R – Olha, exatamente a data, eu não sei exatamente.

P/1 – Mas a década?

R – Década de 50. Então, foi meio conturbado, ele sofreu bastante, né? Mas foi um…

P/1 – Ele veio sozinho?

R – Não, não… ele primeiramente, veio sozinho, ai ele veio indicado por uma prima, ai depois que ele veio com a minha mãe. Ai, a minha mãe trouxe…

P/1 – Ele veio casado?

R – Ele veio casado. Ai, veio com a minha mãe, ai a minha mãe também passou uma situação difícil no navio, porque o meu irmão mais velho era pequenininho e ele passou muito mal no navio e naquela época, teria que jogar se morresse, né, e ela chorava muito, porque achava que ele ia morrer, ele poderia ser jogado do navio, né? E naquela época não tinha como… assim, congelar, eu não sei exatamente os termos, né, mas alguma coisa assim, eu lembro que a minha mãe falava isso.

P/1 – Mas só vieram com um filho, os outros nasceram aqui?

R – Não, vieram três. Vieram três, é. Uma família bem portuguesa.

P/1 – Ai, do quarto pro nono já nasceram aqui?

R – É, já nasceu aqui já.

P/1 – E eles foram direto pra Bangu, como é que foi?

R – Pois é, foram direto pra Bangu. Parece que viveram também uma época em Padre Miguel, eu não lembro, que eu já sou bem mais novinho, né? Então assim, eu não sei, não tenho esses detalhes. Eu assim, me lembro que o meu pai contava, a minha mãe também, né?

P/1 – Eles são de que cidade de Portugal?

R – Pois é, eles são Castelo de Paiva, que pertence ao porto, uma cidade muito bonita, por sinal, eu fui lá visitar, fui conhecer a cidade deles, fiquei emocionado demais. Eu, pra mim, assim, uma coisa… viver a historia dos meus pais, né?

P/1 – Me diga o nome deles, dos seus pais.

R – João Batista Pinheiro e Ana Moreira Vieira, de quem eu tenho muitas saudades.

P/1 – Ele ainda tá vivo?

R – Não, os dois estão…

P/1 – Os dois estão…?

R – É, os dois falecidos, mas ela marcou muito a minha vida. Se é… o que eu tenho hoje, né, assim, de educação, de tudo, eu devo a ela. Ela foi uma pessoa maravilhosa, uma pessoa que eu gostaria de rever, né, assim que eu pudesse, em outra vida, né, seria um prazer muito grande para mim.

P/1 – Só Deus sabe…

R – É! Só Deus sabe!

P/1 – Manoel, me conta uma coisa, tem algum lado da sua vida assim, alguma historia que você lembre de carta, até dos seus pais para Portugal?

R – Ah, muito!

P/1 – Que o Correios tenha aproximado também a…

R – Nossa, os Correios foram… eram… era assim, o elo, né, porque a minha mãe, ela recebia as cartas dos Correios, né, e assim…

P/1 – Da família?

R – Da família. Então, só tinha esse elo, não tinha telefone, não existia outro meio de comunicação, se não fosse os correios, então os Correios foram o que marcaram a época da minha mãe, né? E eu me lembro assim, com muita tristeza que foi a única vez que eu vi a chorar, foi quando ela recebeu uma cartinha falando do pai dela, que tinha falecido e ela tem uma historia muito triste, porque quando o meu pai veio e o meu pai ficou, meu avio, no caso, o pai dela, não queria que ela viesse, porque ela achava que ele nunca mais ia vê-la, né? E de fato, nunca mais a viu, ele veio a falecer e foi quando ela chorou muito, devido esse fato, né? então, através dos Correios, nós tínhamos as informações, tanto para passar a informação daqui pra lá, o sofrimento, a saudade que ela tinha, né, e isso até assim, rebateu na gente, porque hoje, eu não consigo ficar muito longe da família, porque eu sinto… ela conseguiu passar todos os sentimentos, né, pra gente, essa dor que tinha de ficar longe da família, era muito forte. Acho que o imigrante sofre muito com isso.

P/1 – E ela recebia assim, ela recebia também… ela teve essa noticia triste, mas deve ter tido outras também contentes.

R – Ah, muitas alegrias, né, nascimentos de sobrinhos, né, enfim, muitas coisas bacanas também que ela passava daqui pra lá, falando no Brasil, como que acontecia, né, e engraçado que ela pedia a minha irmã mais velha para escrever. Então, era uma coisa que a minha irmã gostava muito era de escrever. Então, ela ficava escrevendo as cartinhas e até recentemente… é uma pena não ter essa carta aqui agora, mas eu fui visitar uma das irmãs, que ainda esta viva, e era o principal… era assim, era o elo de mais aproximação, ou seja, que mais escrevia, né, pra ela. Então, até a minha irmã, há pouco tempo, lembrou: “Poxa, ainda temos cartas da tia Augusta”, né, ela escrevia de lá pra cá e a minha mãe escrevendo de lá pra cá com muitas saudades.

P/1 – E você conheceu a sua família lá, depois?

R – É, conheci algumas pessoas, vieram alguns tios dela falecer também, né? Mas, tive oportunidade de conhecer assim, familiares que eu nunca tinha visto, foi uma emoção muito grande! Uma choradeira só (risos).P/1 – E você escreve carta, ainda?

 

R – Olha, muito pouco, mas de vez em quando, eu escrevo até… até assim, pra manter registros, né? Eu até comecei a fazer um diário quando eu fui a Portugal, então seria uma forma também de… a gente acaba escrevendo, não de uma forma assim, bem direta, vamos dizer, aos correios, mas sempre registra alguma coisa. Importante.

 

P/1 – Me conta do seu trabalho também na Casa da Moeda. Quando é que você começou?

 

R – Pois é! Eu comecei a trabalhar nessa área gráfica para a concorrência da Casa da Moeda, né, então foi assim, o meu primeiro emprego foi numa multinacional, que fazia as cédulas do Brasil, quando não… no caso, a Casa da Moeda não fazia, depois, por coincidência, ironia do destino, eu vim a trabalhar, passei no concurso, fui chamado, né e vim a trabalhar na Casa da Moeda e assim, interessante também, porque a Casa da Moeda também… muitos não sabem, mas a Casa da Moeda não faz só as cédulas de dinheiro, né, ela faz os selos dos Correios também e fazem coisas muito bacanas, né, são cada selos assim, bem bacana, bem diferenciado, e assim, é uma… é um valor agregado que a Casa da moeda tem em fazer também, os selos diversificados, né, com tipos de impressos diferentes, lá nós chamamos de processos de impressão diferentes. Então, assim, no ramo gráfico, existem vários processos: offset, calcografia, rotogravura… e assim, a contento, até dos Correios mesmo, procuramos unir esses tipos de processos que são bem complexos.

P/1 – Você trabalha em quê, especificamente?

R – Eu trabalho na área de produto mesmo, na Engenharia de Produto, ou seja, a minha área, todos os produtos que vêm da Casa da Moeda passam pelo meu setor, né, ele vem numa criação, e isso se faz gerar através da Engenharia, né, fazem com que o trabalho aconteça dentro das fábricas.

P/1 – Nesses anos de trabalho, qual é um produto, assim, da Casa da Moeda que tenha te despertado maior admiração?

R – Olha, os selos, principalmente, porque pela diversidade dos processos, né? Então, assim, eu sou um gráfico bem vibrador, então eu curto essas coisas de juntar os processos, né? Então, quando você tem um processo de rotogravura, de calcografia junto, um offset, ou um acabamento diversificado em hot stamping é um luxo, né? É uma coisa muito bacana e é gratificante ver depois de acabado. Então, os selos nos proporciona isso.

P/1 – E o estande aqui? O quê que vocês apresentam?

R – Pois é, eu não estou assim, diretamente ligado na composição dos estandes, né, eu apenas, como eu sou mais da área técnica, né, eu vim mais visitar…

P/1 – Ah, você veio visitar!

R – Eu vim visitar, então assim, eu não posso especificar exatamente, mas eles trouxeram, além de selos, moedas, medalhas, né, para mostra mesmo, né? Fazer uma amostragem da Casa da Moeda, o quê que ela faz. E é um estande muito bonito, vale a pena visitar.

P/1 – Então tá! Tem alguma outra historia que você gostaria de deixar registrada?

R – Assim, no momento… no momento, eu não lembro assim, de uma historia especifica, né, não tenho assim uma… você fala profissionalmente?

P/1 – É! Ou ligada ao seu trabalho, ou até de memória da… de alguma carta, de alguma…

R – Ah, eu acho bacana essa ligação, né, os selos com as cartas, né? eu acho muito legal essa coisa do colecionador, né, de buscar… eu vejo que isso é uma coisa muito mais profunda do que eu sentia, né? A gente percebe que a filatelia é uma coisa muito mais abrangente, vamos dizer até infinita, né, de algo que eu não conhecia. Fiquei encantado com essa historia da filatelia.

P/1 – Queria te agradecer de você ter colaborado aqui com a gente, ter dado o seu depoimento.

R – Tá bom! Eu que agradeço a oportunidade, né?

P/1 – Obrigada.

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