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História de: Anésio Cardoso Celestino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/08/2008

Sinopse

Identificação. Descrição da família. Mudança para Campinas com 15 anos para terminar os estudos. As dificuldades enfrentadas na infância e nos primeiros tempos em Campinas. O primeiro emprego e a mudança de casa. A paixão pelos esportes. O primeiro emprego em loja de móveis. A banca de jornais: mudanças ocorridas no entorno, clientes, exposição dos produtos, revistas mais vendidas e principais atividades. Descrição do horário de trabalho e do esquema de folgas. Formas de pagamentos. Aprendizado com o comércio e suas histórias.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Anésio Cardoso Celestino, eu sou da cidade de Porteirinha, Minas Gerais, nascido em 22 de julho de 1979.

FAMÍLIA
O meu pai chama-se Alvino Cardoso Celestino e minha mãe: Emília da Silva. Eles vieram de Minas mesmo. Meus avós moram lá, são de do norte de Minas e são lavradores. Nós somos em quatro irmãos; todos eles residem em Minas. Minha irmã trabalha num estúdio de rádio, meu irmão trabalha numa escola como professor e a minha irmã mais velha é dona de casa.

MIGRAÇÃO
Eu vim em 1994. Tinha 15 anos. Eu vim no intuito de terminar meus estudos e vim através de uma pessoa da família, uma pessoa conhecida. Vim acompanhado por ser menor de idade. Era um sonho sair pra conhecer a cidade de Campinas. Nunca, até então, eu tinha saído pra lugar nenhum. Meu pai morava aqui e eu, por ser o irmão mais novo, eu queria porque queria vir embora para cá terminar meus estudos, ter experiências de vida, trabalhar

CIDADES / PORTEIRINHA / MG
Em Porteirinha havia muita dificuldade. A cidade é boa, mas é pequena e a pobreza era muita. A gente trabalhava na roça. O comércio não oferecia oportunidade de trabalho. A cidade, por ser tão pequena, não dava oportunidade de trabalho, de um estudo mais avançado, o que dificultava, até conseguir um trabalho.

INFÂNCIA
Tinha muitos amigos. A cidade era pequena e a gente conhecia todo mundo, tinha muita diversão, muitos amigos, de futebol, vôlei e que se divertiam bastante. Não tinha violência, assalto, roubo, acidente, porque a cidade era pequena, não tinha trânsito, movimento...

MIGRAÇÃO
Quando cheguei foi tudo difícil porque eu nunca vivi longe da minha mãe, dos meus irmãos, da minha infância - a que eu tinha lá -, dos meus amigos. Ao chegar aqui, eu vi tudo diferente, a cidade grande... A dificuldade era maior por eu não ter o auxílio do pai, da mãe que moravam distante. Mas eu tinha um objetivo O meu objetivo era conseguir o estudo, principalmente, e trabalho. Não ter o auxílio do pai, pela distância da mãe, atrapalhou, mas eu tinha um objetivo no meu coração que era de ter aquilo com o que eu sonhei Viver independente. E lá eu não conseguiria Tinha que escolher: ou aqui, para alcançar meu objetivo - independência, uma perspectiva de vida melhor, coisas que lá eu não conseguiria - ou eu voltava para lá, para continuar a mesma vida, com a minha família, meus amigos próximos. Por mais que eu não tivesse meus amigos, eu ia fazer novas amizades, mas eu tinha que escolher. Aqui eu teria mais opção, mais conhecimento, perspectiva de vida, responsabilidade. Por ser adolescente ainda, a minha responsabilidade aumentaria, quando eu tomei essa decisão de ficar.

DESAFIOS
Eu consegui o primeiro emprego e fui morar no meu trabalho. Aí foi mais sofrimento, porque eu não tinha amigos, não tinha pai, não tinha mãe, não tinha ninguém. Ao mesmo tempo, eu não querendo passar dificuldade, não falar pra minha mãe que eu estava sofrendo, acabei escondendo tudo isso dela. Ela, até então, achava que estava tudo bem, mas me chamava, a todo o momento, pra voltar pra lá, pra casa. Eu falei que não, porque eu tinha objetivo e eu queria alcançar. Por maior que fosse a dificuldade, eu ia lutar, ia conseguir, continuar. Eu, por noites, não dormia. Eu morava sozinho, tinha 18 anos, não tinha ninguém. Não tinha família, não tinha mais ninguém. Mesmo assim, eu continuava. Eu estava morando num porão. Eu dormia no local de trabalho, onde todo mundo entrava, todo mundo saía. Eu esperava as pessoas irem embora, para poder fazer a minha cama, que era no meio do salão, no porão. Eu pensava em desistir, voltar, tinha minha casa lá, tinha meu quarto, tinha tudo lá. Não tinha tudo o que eu sonhava. Os anos foram passando, fui superando, consegui. Mesmo trabalhando nesse emprego, eu fui me dedicando mais, me esforçando. Terminei os meus estudos, consegui arrumar outros empregos. Eu fazia serviços extras para poder manter e continuar a minha vida. Eu comprava num mercado próximo ali no Cambuí, no Extra, Abolição. Nesses mercados aqui nas proximidades. Eu morava no Bosque. Nessas ocasiões, eu morava sozinho, não era todo dia que eu me alimentava. Eu não tinha experiência de cozinhar. Muitas vezes, eu comprava pronto. Com o passar do tempo, eu fui aprendendo a lidar, a fazer o alimento, o arroz com o feijão. Nesses momentos difíceis, eu fui aprendendo receitas e outras coisas.

FORMAÇÃO
Eu estudei no São Bernardo e na Matosinha, nas escolas chamadas José Maria Matosinho. Estudei lá uns três anos, 97, 98 e 99. Foi onde eu terminei o meu segundo grau. Eu queria ser jogador de futebol. Eu gostava muito de futebol. Quando eu morava em Porteirinha, eu praticava esporte, principalmente vôlei e futebol. A gente tinha uma escola que jogava futebol, praticava vôlei. Tínhamos um time de vôlei. Mas chegando aqui, eu não tive oportunidade.

TRABALHO
Após tirar minha habilitação, com 18 anos, eu comecei a trabalhar como ajudante de loja de móveis. Pela dedicação, pela vontade que eu tinha – e eles viram isso em mim – continuei a trabalhar com eles. Aprendi muita coisa. Trabalhei como ajudante, fazendo entregas. A loja é aqui no Cambuí. De uns Italianos. Chamava Decorações Michelangelo. Vendia móveis para Campinas e região. E muitas oportunidades surgiram ali. A loja funcionava das oito e meia às 18 e 30. Aos sábados, ela funcionava das oito e 30 às 13 horas. Isso em 2002. Trabalhei também em postos de gasolina, como frentista, trabalhei de motorista, entregando móveis, fazendo montagens, para Campinas e região.

CIDADES / CAMPINAS / SP
Trabalho há dois anos na banca do Bosque. Houve muitas mudanças, mas sempre permanecemos lá, embaixo do viaduto Laurão. Houve obras ali há pouco tempo, há menos de um ano, mudou muita coisa, teve melhorias. Aquela avenida principal, da Norte-Sul, mudou muito o comércio. Ficou mais conhecida. As saídas para o Interior ficaram melhores, principalmente para o trânsito. Fizeram um trabalho, ali embaixo do Viaduto Laurão e melhorou muito. Com as obras, sofremos um grande problema porque ficamos praticamente o tempo todo parados. A banca era 24 horas e nos vimos num dos momentos mais difíceis que passamos, porque ficamos isolados por causa das obras. Mas, mesmo assim, a gente continuava lá, abertos para atendimento ao cliente. Chegamos a conversar com clientes, ligavam lá e a gente conversava. Não dava pra chegar lá, principalmente de automóvel. A gente conversava com o cliente pra ele deixar, se viesse de carro, nas proximidades. Pra poder atender o cliente, a dificuldade era essa. Era muito difícil de chegar, poder parar.

SEGREDOS DO COMÉRCIO
Numa banca de jornal, temos um jeito de colocar as revistas. Sempre expostas, sempre em locais que o cliente chega e vê. As revistas que são lançamentos têm os locais apropriados, que facilitam. A intenção é que o cliente chegue e veja tudo organizado. Locais fáceis para as pessoas já pegarem a revista, ficar à vontade. Sempre tem os locais. Todas as revistas têm os locais apropriados, os setores delas, para identificar melhor. A gente divide por setor, lá na banca. São divisões que a gente coloca não só para facilitar o nosso trabalho, como pra proporcionar melhorias pro cliente. Chegando, ele já sabe onde fica tal revista, o produto que quer, que precisa.

CONSUMO
A maior procura é de revistas sobre moda, negócios, oportunidades. Revistas que falam sobre negócio, sobre a vida, notícias, comércio, que ajudam o comerciante, o empresário a lidar com o seu negócio. São vários tipos de revistas ou fatores que os clientes procuram. Chegam lá e encontram. A revista mais vendida é a Veja. Tem a procura de revistas como a Exame, Caras, todas são procuradas, mas umas revistas têm mais saída; as que falam sobre o país, sobre notícias do mundo. Trabalhamos também com bala, chiclete. A pessoa vai pra comprar uma revista, um refrigerante, alguma coisa, e acaba levando outras. O jornal mais vendido é o Correio Popular, de Campinas. Também O Diário do Povo, de Campinas. E tem o jornalzinho Jaca, um lançamento, que saiu agora, do Correio. O Estado, a Folha são os mais vendidos, e aqui de Campinas, o Correio Popular.

TRABALHO
Recebemos os jornais às 5 horas da manhã. Nós começamos às 6 e ficamos até às 10, durante a semana, até quinta-feira. Nos finais de semana, a banca é 24 horas. A partir de sexta-feira, ela funciona 24 horas. Meu horário é das 6 às 14 horas, de segunda a sexta. Finais de semana, eu trabalho das 13 às 21.

CONSUMO E EMBALAGENS
Geralmente, o cliente já sabe o que vai comprar, o que ele quer. Muitas vezes, o cliente não sabe o nome da revista porque leu em alguma matéria dentro de outra revista. Às vezes, citamos a revista que ele se refere, que tipo de matéria traz informação, ele fala o assunto e nós levamos o cliente até determinada revista. Por exemplo, de moda, sobre automóveis, negócios, futebol. São assuntos diferenciados. Algumas revistas vêm embaladas. Algumas vêm plastificadas, outras não. A grande maioria não vem plastificada.

FUNCIONÁRIOS
Nós trabalhamos em três funcionários. Fazemos revezamento. Tenho folga toda segunda-feira. A gente organiza os funcionários pra não atrapalhar um ao outro. Durante a semana fazemos um horário; finais de semana, para cobrir folga, fazemos outro horário.

FORMAS DE PAGAMENTO E CLIENTES
A maioria paga em dinheiro. Aceitamos cartão Visa, cheque, mas a grande maioria paga em dinheiro. A gente trabalha com empresa que pega jornal todo dia e depois paga de uma vez. Isso facilita tanto para o comércio quanto para a empresa. Principalmente, jornais e revistas que saem toda semana. Eles acabam optando, conversando com o proprietário a respeito de como seria a forma de pagamento. Poucos optam por pagar por mês; a grande maioria paga à vista: compram e já pagam. Às vezes, o cliente chega, não quer se expor, acaba tentando disfarçar pra não falar alto o nome de determinada revista que ele procura. Ele acaba levando a revista errada por estar nervoso ou por não querer dar na cara que é aquela revista que ele quer. Ele acaba levando a revista, aí em determinado momento, ele volta, pedindo desculpa, que não seria aquela revista, que era outra revista Geralmente, acontece de a pessoa levar a revista pensando que é um determinado assunto, principalmente, revistas que trazem fitas. Acabam errando na hora de levar e voltam pedindo, envergonhadas, meio sem jeito de falar, que não é aquela revista que queriam. Revistas eróticas, principalmente. São situações meio constrangedoras, acaba sendo engraçado. A gente respeita os gostos da pessoa sem preconceito. Acontece de tudo, de tudo A gente vê muitas coisas. Convivo com isso, naturalmente, com todo respeito ao cliente. As revistas eróticas são colocadas numa sacolinha. Ela já vem discreta; não precisa ter vergonha, ou seja, não vai atrapalhar em nada. Ela já vem totalmente selada, nada atrapalha. Têm coisas que não podem ficar expostas. O cliente pode chegar numa boa, sem problema nenhum.

LIÇÕES DO COMÉRCIO
O comércio me trouxe uma responsabilidade a mais. Trouxe o aprendizado. O patrão passa tudo de atendimento ao cliente, de como receber as pessoas, de como lidar com as pessoas. Todo tipo de pessoas que a gente vê num determinado estabelecimento. Eles, às vezes, chegam de formas que a gente tem que superar, ou seja, não ser grosseiro, falar como tem que falar, ser educado. Não somente isso, mas em todos os meios de como lidar com a pessoa, de responsabilidade, de saber o que o cliente quer, de estar sempre atendendo o cliente como ele quer. Existem muitas diferenças entre um comércio e outro, mas a forma de atendimento é sempre a mesma, sempre um mesmo objetivo. Tem que ser Talvez não fosse diferente de quando eu trabalhava na loja de móveis, no posto de gasolina... Experiências diferentes. No posto, chegava e abordava os clientes com “boa tarde” ou “bom dia”, perguntava ao cliente qual o determinado tipo de combustível que ele queria abastecer, sempre sorrindo. Às vezes, a gente tinha a oportunidade de conversar com o cliente, histórias da vida dele. Como a gente conhecia alguns clientes, tinha essa intimidade de conversar, sempre alegre, com o cliente. A gente levava muito a sério o trabalho. Tinha alguns momentos de descontração, de brincadeira, mas não muito. Aprendi não somente a responsabilidade, mas a preocupação com o meu horário. Estou no meu horário, a minha preocupação é atender o cliente de forma que ele possa voltar. E outra, me deu mais experiência de vida. A experiência que tem nos proporcionado o convívio com todas as pessoas. É muita gente Essa banca de revistas, por ser uma banca 24 horas, tem a procura de muitas pessoas, públicos diferentes. Todo o tipo de pessoas. A gente conversa com pessoas que são doutores, responsáveis em determinadas áreas. A gente aprende muita coisa. Muitas, muitas coisas que a gente coloca em dia na convivência com as pessoas, com a família, com a vida corrida no dia-a-dia de hoje. A gente aprende não somente com as notícias que recebemos todos os dias - a gente está por dentro do que está acontecendo no país... Isso nos ajuda a quando uma pessoa nos procura para saber determinado assunto, matéria. Determinado assunto de produto que ela procura. E também somos um ponto de informação Pessoas que passam ali. Então é muito importante lá. Eu adoro Adoro Eu gosto de trabalhar lá. Aprendi muito. Tenho aprendido com as pessoas que vão lá, por ser um local bastante procurado, por ser uma banca maior de Campinas, a banca mais procurada para tudo É uma das bancas mais antigas ali do Bosque. Isso nos ajuda a informar a saída, os locais, os pontos de encontro, shopping, bairros da cidade, os caminhos para o Interior, para o interior da cidade. Isso ajuda a gente a ajudar muitas pessoas; elas param ali para pedir informação.

MEMÓRIAS DO COMÉRCIO DE CAMPINAS
Esse projeto é muito importante para o comércio, para as pessoas que residem e trabalham em Campinas. Eu agradeço muito essa participação. Têm muitas histórias de vida diferentes que podem ajudar. Como muitas histórias de vida de pessoas que mudaram a minha vida. Já ouvi histórias de pessoas, o que me ajudou muito por refletir sobre aquilo. Eu tenho aprendido nesses anos que eu tenho vivido aqui em Campinas, no comércio, no dia-a-dia, na dificuldade, na escola. Essa história vai continuar; sonhos vão se realizar. É só o começo. Tenho muita coisa pra aprender tanto na vida, quanto na família; muita coisa pra aprender, pra colocar em prática. Tudo aquilo que realmente é bom

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