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História

Baixinha, mas pretensiosa

História de: Maristela Soubihe
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

A história de Maristela é uma homenagem a vida. Afinal, o que mais se pode esperar de uma criança que por livre e espontânea vontade se dedica ao cuidado intensivo dos avós, um deles acamado? O que explica uma criança limpar a dentadura e ser a última companhia nas noites dos membros mais velhos da família? Hoje, Maristela entende o sentimento que a movia: amor. Mais que inocência e empatia, aquilo era amor. Maristela é uma mulher decidida, feliz e orgulhosa da vida que tem. Uma médica que tem medo de sangue e agulha só com muita força e convicção do seu dom enfrentaria os anos de graduação e residência para alcançar a plenitude de sua carreira: o cuidado ao próximo.

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História completa

A primeira vez que minha mãe me viu lavando a dentadura do meu avô, ela achou que eu tinha algum problema! Ela me disse: “Filha, criança nenhuma faz isso. Quem cuida de idosos chama geriatra”. Decidi na hora: “Então tá, então eu vou ser geriatra”. “Mas pra ser geriatra você vai ter que ser médica”. A gente estava na rua, nós morávamos no meio do quarteirão e a casa dos meus avós era na esquina. “Só que você vai ter que fazer Medicina”. Eu falei: “Mãe, mas eu tenho medo de sangue, eu tenho medo de agulha”. Eu sofri com a ideia de ter que ser médica pra ser geriatra. Mas passei a ser médica nesse minuto.

Dali pra diante eu comecei a brincar de médica. Aprendi a medir a pressão do meu pai, a furar seu dedo porque ele é diabético desde muito cedo. Então eu ia examinar, media a pressão dos meus avós. E examinava mesmo, media a pressão mesmo! E comecei a me envolver um pouco mais. Mas eu tinha e tenho até hoje problema com sangue. Tem essas coisas da Medicina que não me pertencem, mas o lado humano da Medicina é a minha vocação.

Eu não era necessariamente a neta favorita. Isso não estava em questão, não precisava do retorno deles. A minha relação com meus avós era de mim pra eles. E o meu avô paterno e meus avós maternos são pessoas que eu conheci e convivi muito. Me transformei médica geriatra por causa deles, pela convivência com eles. Não tenho nenhuma dúvida disso. Eu cuidava de todos eles desde muito nova. A última noite de vida deles foi comigo! Entre oito e dez anos de idade eu era cuidadora dos meus avós por amor, não era por outro motivo. Daí é que nasceu essa minha relação com a terceira idade.

Pra mim, a faculdade começou quando eu realmente pude botar a mão nas pessoas. Até então, quando era teórico, eu fui me arrastando, fui sofrendo um pouco, talvez eu quisesse até estar de férias numa praia, porque era difícil. Mas quando eu passei a ficar em contato com as pessoas, aí pronto: eu nasci. Tive sorte de ter um professor de Geriatria, isso fez muita diferença. Quando eu descobri que eu podia atender as pessoas na casa delas e ver os cuidados, aí minha alma se encontrou!

Ir à casa dessas pessoas significa que elas não podiam ir ao consultório. Então você leva alívio pra dentro da casa e elas ficam muito agradecidas. Isso tem um significado maior do que o consultório, tem uma diferença. Proporcionar isso é uma realização humana, é o que faz a alma da gente vibrar, fazer o bem! Mesmo que a minha conduta não resultasse na melhora da saúde, mas “o médico chegou” é um alívio, tira uma angústia muito grande. Essa relação humana justifica minha vida. Minha especialidade é essa: o ser humano, a vida.

Eu digo que eu sou uma das pessoas que não deixa os pacientes morrerem porque eu os mantenho vivos em mim até quando eu viver. Porque eu lembro dos seus nomes, das famílias, da doença, se duvidar eu vou lembrar da data que eles morreram. E eu não faço força nenhuma pra isso! Fui aprendendo a não ter medo da morte porque dá pra viver até o último minuto. O morrendo não é no gerúndio: é vivendo até morrer, não é morrendo até morrer. Essa relação de vivendo até morrer me conforta, me traz um pouco mais de esperança de que naquele minuto final vem uma alegria, algo que faça valer a pena. Como profissional, o que eu posso proporcionar é o acolhimento, o que eu acho muito valioso. Então eu invisto em valorizar os últimos momentos. Hoje, a morte me assusta menos porque eu entendo que existe vida ali e que existindo vida até ali essa vida deve ser valorizada. Encontrei a motivação na vida nos últimos momentos.

Geriatria é a medicina biográfica. É primeiro eu me aproximar do ser humano e depois me envolver com as doenças dele. O idoso tem muitas doenças, é comum que as doenças crônicas aconteçam todas na terceira idade. E é comum que eles tomem um mundo de remédios. Muito provavelmente vou conseguir tirar um remédio ou outro, mas eu não vou curar doença crônica. Eu vou ter que ensinar esse ser humano e caminhar junto com ele. A geriatria tem esse lado de humanização que é a essência da especialidade. É pra todas as especialidades? Lógico que idealmente é, mas é que nesse último capítulo do livro, você tem que cuidar do indivíduo e das suas doenças, mas tão mais do indivíduo. É pra isso que eu vim ao mundo: conviver com a biografia da pessoa, ter a convivência com a vida dela e com o que a vida dela representa. Isso é muito rico.

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