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História

Aventura é tentar melhorar

História de: Francisco Frota Marino
Autor: Ana Paula
Publicado em: 23/01/2021

Sinopse

Vivia se mudando na época que seu pai era comerciante. Seu primeiro trabalho foi na mercearia de um parente. Depois de passar pelo Exército, mudou-se para o Rio de Janeiro. Fã de carteirinha de Juscelino Kubistchek, acompanhou a construção de Brasília e logo mudou-se para a cidade em 1968.

História completa

Projeto Cabine Brasília Realizado por Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Francisco Frota Marino Entrevistado por Claudia Leonor Brasília, 2 de fevereiro de 2006 Código:FBB_CB004 Transcrito por Susy Ramos Revisado por Giovanna do Carmo de Melo e Silva Oliveira P/1 – Queria novamente perguntar para o senhor seu nome completo, o local e a data de nascimento. R – Francisco Frota Marino, 25 de julho de 1937. P/1 – Em que cidade o senhor nasceu? R – Ipú, Ceará. P/1 – Seu Chiquinho, me fala o nome dos seus pais e qual a atividade profissional deles. R – Antônio de Souza Marino, Maria Frota Marino. Ele, funcionário público e ela, do lar. P/1 – Como funcionário público ele fazia o que? R – Ele era do Ministério da Saúde. Aquelas famosas endemias rurais, aquele processo todo de saúde. P/1 – Ele acompanhava? R – Acompanhava, trabalhava em campo, a espécie dele era tracoma. Naquela época, muito problema de vista das crianças, então ele se especializou nisso. Teve estágio em Fortaleza, depois aposentou-se, depois de quase 35 anos de trabalho. P/1 – Seu Chiquinho, o senhor cresceu em Ipú? Passou a infância lá, adolescência? R – Meu pai, quando funcionário, primeiramente comerciante, era igual cigano, andava de cidade em cidade, mas depois que arranjou esse trabalho, funcionário público, nós moramos em Tianguá e finalmente Ipú. Aí foi o período que eu servi o Exército, fui embora e ele morou em Sobral. Sobral morou 15 anos, aí o resto eu já estava... já saí de casa e fui lutar pelo pão de cada dia. P/1 – Mas o senhor passou a maior parte da infância em que cidade? R – Ipú. P/1 – Ipú? Conta pra gente como era a cidade nessa época. R – Ah, cidade pequena, eu estive recentemente lá, tem dez dias, evoluiu e melhorou, a cidade melhorou um pouco, mas naquela época, no duro mesmo, sem fazer nenhum gracejo, era a cadeia, não tinha hospital, duas farmácias e a delegacia, nada mais. P/1 – O senhor ficou lá até os 15 anos? Em Sobral? R – Não, morei no Ipú, depois fui comerciante; comecei a trabalhar com 7 anos de idade e depois me alistei, fui servir o Exército em _______. P/1 – Me fala uma coisa, o senhor aos 7 anos trabalhava como comerciante? R – Já como comerciante. P/1 – Onde o senhor trabalhava? R – No Ipú mesmo. P/1 – Mas era mercearia? O que era? R – Era mercearia de um parente, então eu, periodo de criança, meu pai sempre teve mercearia, então eu nasci, como se diz na linguagem comum, dentro do boteco. Voltamos para o Ipú, continuei trabalhando com um primo. Trabalhei até 15 anos, comecei trabalhando aos 7 anos. P/1 – Nessa época o que se vendia numa mercearia? R – O que se vendia? De tudo um pouco. Da farinha ao arroz, carne, eram secos e molhados, antigamente se chamava, né? P/1 – E a forma de pagamento era a caderneta? R – Alguns especiais, principalmente meu pai. Onde eu trabalhava tinha um crédito lá com o primo. P/1 – [risos]. Depois o senhor foi servir o Exército? R – Servi o Exército em _______. Fiquei um ano, de 1956 para 1957, aí fui embora para o Rio de Janeiro. P/1 – Por que para o Rio de Janeiro? R – Naquela época era coqueluche dos nordestinos ir embora, não tinha recurso, então... Eu, como as demais pessoas, aventura era essa, era tentar melhorar. No Rio morei 12 anos. P/1 – Fazendo o que lá? R – Trabalhei na Tabacaria Londres, fui operário, e depois trabalhei mais cinco anos na Antarctica Paulista, no Centro do Rio de Janeiro. P/1 – O que era Antarctica? Era a cervejaria? R – Era Companhia Antarctica Paulista. Depois eu saí de lá, botei um bar em Senador Camarão, mas não deu certo, voltei novamente pro Ceará e nesse período era a construção de Brasília, já tinha um irmão aqui, falecido, Bartolomeu Marino. Eu tirava férias no Rio de Janeiro e acompanhava a construção da Capital. Naquela época já era um fã de carteirinha de Juscelino Kubistchek, e sou até hoje. P/1 – Por que? O que o senhor admirava na figura do Juscelino? R – Era um talento nobre. Hoje é mais fácil dizer o que se escuta na televisão e nos jornais, era uma pessoa que tinha um trabalho, era um estadista. O trabalho dele eu acompanhava, no Rio de Janeiro eu incentivava as pessoas pra vir embora pra Brasília, eu sabia que um dia chegaria a minha vez. Tirava férias lá, vinha visitar o irmão e a minha empolgação era realmente com Brasília. P/1 – Isso durante a construção? R – Durante a construção. P/1 – Conta pra gente a primeira vez que o senhor veio pra visitar o seu irmão e o senhor aproveitou e conheceu a construção, essa cidade em construção? R – Era aquela poeira gostosa que no duro mesmo não era uma poeira, no espírito de Juscelino eu comparava que aquela poeira era uma vitamina. Povo trabalhador, doutor Juscelino em cima, muitas outras autoridades na construção. A gente que vinha do Rio de Janeiro, acostumado com a praia, com o povo carioca, aqui não se estranhava muito porque aqui era uma colônia muito forte de todos os nordestinos, todo povo do Brasil. Era muito fácil a adaptação. Aqui achava, eu, no meu caso, que aqui eu estava na casa da falecida avó, e eu sonhava com Brasília. Tanto que em 1968 eu me transferi definitivamente. P/1 – Esse seu irmão que morava aqui, ele fazia o que? R – Ele trabalhava em um bar, era gerente do famoso ___ Bar. Era aqueles bar na W3, 507, aí de lá foi trabalhar na (ABB?) e foi garçom do Beirute no período de três anos, ele e o outro irmão, Aluísio. Quando eu me transferi comecei a trabalhar no Beirute, trabalhei um ano e pouco e, naquela época, houve a possibilidade de comprarmos a casa. Ele foi para o Ceará a passeio e eu já com espírito – acho que não é nem a palavra – empreendedor, mas de aventureiro, aí compramos a casa. P/1 – Deixa eu voltar um pouquinho, seu Chiquinho. O que o senhor se recorda em termos da cidade, dos prédios que estavam em construção, das avenidas, as primeiras vezes que o senhor veio pra cá? R – Recordação que tenho muito, toda vez que passo, inclusive, rezo pelo irmão, hoje é Super Maia, existe aquele antigo bloco que era dos funcionários do Banco do Brasil, e a W3, eram pouquíssimos restaurantes. Ontem mesmo eu passando lá, toda vez que passo lembro do irmão e, como católico, começo a rezar. É a minha imagem, e a igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, cuido da igrejinha. P/1 – Mas já existia, o Congresso já estava... R – Já, estava tudo funcionando. Eu estive um ano antes da inauguração e um ano depois que foi inaugurado, então eu sonhava, achava que aqui era meu lugar, tanto que é meu lugar que até túmulo no cemitério eu já tenho. P/1 – [risos]. Quando o senhor chegou aqui em Brasília, em que lugar da cidade o senhor foi morar? R – Eu fui morar primeiramente na W13, onde o irmão, não vou dizer morava, se acomodava. P/1 – Por que? R – Já era casado, no Rio de Janeiro, cariocamente falando, a gente chamava cabeça de porco, então ele já morava com uma amiga e eu fui me adaptando. Era uma casa tipo uma pensão de uma amiga nossa mineira. Todo mundo que chegava do Ceará, de Minas, ela amparava e tratava como filho. Eu me adaptei logo, fui morar com ele. Depois saímos e fomos morar no Guaraú I, ele ganhou uma casa, saí do Guaraú e fui morar em Taguatinga, ainda como solteiro. Deixei Taguatinga, vim morar na 409, eu e o outro irmão. Nessa época, todo mundo solteiro e a luta continuava, trabalhando. P/1 – Como foi para sair do Rio de Janeiro, lugar que tem praia, muito sol, e vir pro centro-oeste. Qual foi a mudança mais... R – Pra mim foi muito fácil porque praia por praia a água não deixa de ser salgada, correto; mas aqui tinha coisa melhor, o calor humano. Eu sempre digo que aqui eu fui recebido, em Brasília, como se estivesse chegando na casa da minha avó. Aqui era mais parente, mais conterrâneo, o calor humano melhor do que no Rio de Janeiro. Então foi fácil a adaptação, não quero ser egoísta, dizer que esqueci o Rio de Janeiro, que a minha faculdade foi realmente Rio de Janeiro. P/1 – O senhor sentiu alguma dificuldade com esses endereços diferentes, com letra? R – O duro mesmo, com o tempo isso vai se adaptando e se acostumando, Sul, Norte, a gente vai se acostumando. Um dá uma dica e tudo, é tanto que, lógico, hoje tem até dificuldade, mas já estou mais esperto. P/1 – Quando o senhor chegou aqui, logo em 1968, quais eram os lugares que as pessoas iam pra se divertir, o que tinha pra fazer nas horas de lazer, de folga aqui em Brasília? R – O cara que chegava de fora, principalmente o povo do Rio, paulista, dizia que a cidade não tinha vida. Tanto que não tinha vida, não tinha esquina, mas aí a gente foi se adaptando, e com isso até que nós pegamos essa situação e adaptamos o Beirute como um ponto de encontro das pessoas, ali começou já a ter outras casas e foi muito fácil a adaptação. Quem faz a sua vida noturna é a própria pessoa, eu tenho esse conhecimento. Você escolhe...é lógico que tinha dificuldade, porque os restaurantes, as casas noturnas eram poucas, mas o pouco era gostoso, era bacana, vai se adaptando. Cada um tem que se adaptar ao seu modo. P/1 – Como surgiu o Beirute na vida do senhor? O senhor começou trabalhando lá... R – Fui empregado dois anos, eu e mais dois irmãos. Quando o dono quis comprar, eu me joguei na aventura de comprar. P/1 – E como o senhor fez pra pagar? O senhor tinha uma reserva? R – No Rio de Janeiro eu não era tão gastador e sempre tinha uma economia. Vendi um boteco lá, fui pro Ceará, comprei uma mercearia, não deu certo, vim embora. Quando cheguei aqui já trazia um dinheirinho guardado. Foi fácil, logo de início me arranjaram pra trabalhar lá e o dono da casa, Zezinho Cauí, quis um dinheiro e eu já prontamente disse: “Vou te emprestar esse aí”. Naturalmente já com a ideia, não mais esperto, pra segurar aquela vaga: “Enquanto ele estiver com o meu dinheiro...”, foi dando tudo certo, comecei a trabalhar, economia, eu e os dois irmãos, e compramos a casa. Compramos a casa em 1970, depois da Copa do Mundo. A casa vai pra 40 anos, e na nossa mão está com 35, uma luta e uma batalha. P/1 – Qual a especialidade do Beirute? R – Comida árabe. P/1 – E sempre teve muito freguês? Tem muito árabe aqui em Brasília? R – De início é mais adaptação, uns 10%, 15%, mas a grande jogada que nós compramos é que a casa, naquela época, não estava com movimento razoável porque o ex-dono tinha inaugurado o (Arabesco?), vizinho, na mesma quadra, aí a concorrência, não vou dizer que era desleal, mas era grande. Quando nós compramos houve aquele calor humano em Brasília, que foram os garçons que tinham comprado, então o cara deixava de tomar uma cerveja no outro bar para nos prestigiar porque os garçons tinham comprado. Esse calor humano, nós começamos a trabalhar, desde essa história: “Vamos lá no Beirute, os garçons compraram o Beirute”, aí graças a Deus até hoje estamos remando, nem tudo são flores, mas estamos lutando. P/1 – Quem era a freguesia do senhor mais antigamente? R – Pessoal funcionário, jornalista, sempre foi, como se diz, a casa do jornalista, onde a gente sabe a notícia antes de dar no Jornal Nacional. Foi na época do Collor, de todos políticos, vários políticos já passaram por lá, eu fui garçom de alguns, deixo de citar nomes pra não entrar no campo político porque a política não faz o meu filé. P/1 – Seu Chiquinho, tem alguma história engraçada, pitoresca que o senhor pode estar contando pra gente do Beirute? R – Contar, a gente pode contar, agora, o pai do santo não é possível. P/1 – Pode ficar à vontade. R – Em 1970, quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo, três ou quatro fregueses... a gente ainda era garçom, mas já estava quase tudo alinhavado pra gente pegar a casa um mês depois. Aí os caras desfilaram na 109, um deles desfilou pelado, quer dizer, um deles é lógico que no mundo político ele está por aí e esse outro freguês que ficou pelado já faleceu, mas aquilo deu manchete, deu tudo. Na hora, o cara tão entusiasmado, na hora tirou a roupa e mostrou o bumbum pro povo. P/1 – Era desfile do que? Carnaval? R – Era Copa do Mundo, 1970. O Brasil foi campeão do mundo. P/1 – E o pessoal assistia lá no Beirute? Tinha televisão? R – Assistia, eles dizem que a Copa do Mundo começou na 109. Os caras botaram lá, não tinha trio elétrico, era frevo! Quando foi na Copa do Mundo, em 1958 eu estava no Rio, 1962, 1970, em 1974, aí a quadra tornou-se um palco de comemoração, decisão de campeonato, principalmente quando ganhava o Flamengo, e alguém inventou isso. Eu é que não fui. P/1 – [risos]. Mas levou a fama, né? R – Levei, naturalmente. Sou responsável por alguma coisa. P/1 – Isso permanece até hoje, seu Chiquinho? Com as outras Copas? R – Hoje, em circunstância do horário, como foi a última, era quase de manhã cedo, então hoje está perdendo um pouco. Abriu mais casas, então hoje o torcedor procura o lugar mais à vontade, e a nossa, por não ter estrutura, a gente muitas vezes é obrigado até a fechar. P/1 – Da onde vem a freguesia do senhor? R – A freguesia vem, naquela época, muito conhecimento: o pessoal da UnB [Universidade de Brasília], o pessoal fazendo direito, o pessoal funcionário, Câmara e Senado. E hoje tornou-se aquele ponto, o que não deixa de ser uma responsabilidade muito grande, porque o cara vem de fora, já tem como ponto turístico: “Foi no Beirute?”. Vai no Rio de Janeiro, não vai ao Pão de Açúcar? É aquela tal maneira, é o povo que diz, eu apenas sou testemunha da história. P/1 – E o senhor está aqui há quantos anos, seu Chiquinho? R – 35. P/1 – Primeiro, qual o lugar de Brasília que o senhor mais gosta, com exceção do Beirute? R – A igrejinha de Fátima, carne de sol do (Chic Chic?), meu amigo Rubinho me disse, me perdoe o comercial, mas é verdade, e na 307, um bar de um amigo meu, Feitiço Mineiro. P/1 – [risos]. R – Pra variar um pouco. P/1 – Tem comida mineira, tudo? R – Tudo. P/1 – O amigo que o senhor está falando é o Jorge? R – Jorge. P/1 – Como o senhor conheceu o Jorge? R – A gente, mexendo com esse movimento do sindicato, e ele é do mesmo ramo, ele é meu freguês e a gente terminou se conhecendo. Muitas vezes ele diz: “Esse é meu mestre!”, coisa e tal, mas eu acho que ele é muito mais inteligente do que eu porque eu continuo só com uma casa e ele já tem umas oito, mas qualquer dia a gente vai tomar um pouco de coragem, pegar uma grana com ele e botar mais uma pra gente. P/1 – É uma concorrência leal? R – Quase justa e perfeita. Nunca...teve uma época que ele esteve pra comprar uma casa na 109, negócio ter fechado e ele dizia: “Com respeito ao velho Chico não vou pra lá!” Eu dizia: “Não, se você vier aqui vai movimentar a quadra”. E eu já tive concorrência com o próprio pessoal do (Arabesco?), não era uma concorrência, ele tinha a clientela dele, nós tínhamos a nossa, tanto que quando faltava uma coisa no Beirute, nós pegávamos lá, e assim vice-versa, faltava lá, ele pegava no Beirute. Isso era muito bom e confortável porque movimentava a quadra, e concorrência tem que haver, sem concorrência não existe acho que nem futebol. Como seria o Botafogo se não tivesse o Flamengo? O que seria do Flamengo se não tivesse o Vasco? Até na religião tem que ter a concorrência. Você prefere o “santo São Jorge”, o outro prefere São Benedito, é a vida. P/1 – O senhor é devoto de Nossa Senhora de Fátima? R – São Francisco. P/1 – São Francisco? R – Sou afilhado do homem. P/1 – Por que? R – Naquela época a dificuldade... inclusive a minha mãe conta problema no parto, aí fazia aquela promessa. Tanto que agora em janeiro, dia 17, eu estava lá na igreja e mais uma vez agradecendo, nas horas difíceis realmente tenho quase certeza que foi ele que me salvou. Já passei por dificuldade, inclusive assalto, coisa parecida, e tenho certeza que houve a mão dele. P/1 – Quando o senhor chegou aqui, qual o lugar que o senhor foi morar mesmo, junto com seu irmão? R – Na W3, 709. P/1 – E hoje o senhor mora onde? R – Eu me escondo no Lago Norte. P/1 – Do outro lado da cidade! R – Dou outro lado da cidade. P/1 – Seu Chiquinho, me fala uma coisa, ao longo desses anos que o senhor está aqui, o que o senhor viu de transformação da cidade que chama atenção? O que mudou em Brasília? R – Acho que mudou tudo, em referência a transformação da cidade, ela mudou. Os políticos que bem fizeram e tudo o mais, já passou outros administradores, mas o que realmente melhorou em Brasília foi na atual administração Joaquim Domingos Roriz. Eu pra ele dou dez, ele é um homem trabalhador e talvez aprendeu um pouquinho com Juscelino Kubistchek. Quem sabe se, espiritualmente falando, não é o espírito de doutor Juscelino? P/1 – O senhor está assistindo a minissérie agora? R – Um pouquinho mais tarde porque tem outro programa, Big Brother, e aquele eu faço uma confusão danada, não sou adapto a esse negócio e estou perdendo, mas estou deixando para os últimos capítulos porque eu sou Juscelino doente, de carteirinha. P/1 – É mesmo? R – Com todo o prazer e toda a satisfação. P/1 – Aqui tem o memorial do Juscelino, né? R – É, inclusive em 1956, eu era recruta, soldado, e houve aquele movimento pra não dar a posse do Juscelino, e eu dizia pros companheiros: “Nós temos que ir pro Rio de Janeiro defender esse homem porque ele deve estar certo. Se ele ganhou, por que ele não leva?” Então praticamente sem conhecer bem a história do doutor Juscelino, eu já era Juscelinista de carteira. P/1 – A gente estava falando lá fora, o Beirute vai fazer 40 anos? R – Vai. P/1 – Conta pra gente, vocês vão comemorar? Como é isso? R – Tem um filho aí que está movimentando mais com essa situação, mas a gente é cutucado pela clientela que não quer deixar passar em branco, então a gente vai fazer o que pode, dentro das possibilidades. A gente está vendo contato com algumas repartições pra ver se há uma ajuda, porque dizer: “Vai comemorar, o Beirute está em festa!”, vai ser pior do que o Maracanã ou o Pacaembu, então tem que ter apoio de todo mundo, inclusive a compreensão e a orientação das autoridades, do governador local, por aí. P/1 – O senhor falou que é mais comida árabe, mas que tipo de comida especificamente? R – Comida árabe total, todo tipo de comida árabe: quibe cru, grão de bico, berinjela, coalhada e pratos nacionais. Temos parmegiana, diz a clientela que em Brasília é o melhor, não sou eu que digo, e aquela tal maneira, então a gente, é uma luta pela sobrevivência. E eu devo tudo isso, mais uma vez - eu acho que é porque sou muito fã, incondicional -, devo tudo a Juscelino Kubistchek. Espero que ele esteja em um bom lugar com a devida cobertura do nosso grande arquiteto do universo. Que Deus ilumine e dê para o nosso povo de Brasília, os brasilienses, nossos candangos, paz e amor e muita tranquilidade, e um pouquinho de trabalho. “Trabalho, Deus é amor”, já dizia um garçom meu antigo, nós fomos garçons juntos, “Trabalho, Deus é amor.” E o amor, Juscelino dizia: “Revelação do infinito. Não há cidadania se você não tem trabalho, dignidade”. Uma cesta básica para quem está com fome, mas o negócio é trabalho, emprego. P/1 – Falando em amor, essas coisas, o senhor é casado? R – Casado. P/1 – Conta como o senhor conheceu sua esposa. R – Meu casamento foi no Rio de Janeiro, por isso eu sou carioca de coração. De cabeça, cearense, está na cara. Conheci lá por intermédio de um ex-cunhado. A gente era solteiro no Rio de Janeiro, quando eu a vi pela primeira vez, eu já querendo mudar um pouco a vida de solteiro, eu fui nessa. Fui noivo em Minas algumas vezes – noivo, como se diz, no apalavrado [risos]. - mas quando fui embora pro Rio de Janeiro, terminei também com ela porque era solteiro, queria ficar sem nenhum vínculo e, na volta, no dia que eu comprei o Beirute, com um dia ela chegou aqui. Comprei em um dia e ela apareceu no outro. P/1 – Mas sem ter combinado? R – Coincidência da vida. Então eu dizia pra um irmão já, o falecido Bartô, eu digo: “Pra mim vai dar tudo certo ou tudo errado. Vou comprar amanhã!”, e casei depois com seis meses, então era tudo ou nada. Tirei a última ficha e joguei no bicho. Mas estou ai, lutando, já tenho três filhos, todos os três formados, e me dou por realizado. Mais uma vez agradeço ao meu anjo da guarda e ao doutor Juscelino Kubistchek de Oliveira. P/1 – Tem mais alguma coisa que o senhor acha que ficou faltando, seu Chiquinho? R – Não, acho que está completo, e se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga a Juscelino que mande um futuro presidente que tenha no mínimo 10% da garra dele. A gente está bem servido, 10%. P/1 – Fantástico! Só 10% está bom? R – Já está bom demais! Botar o povo pra trabalhar, o povo precisa trabalhar! P/1 – Quais são as características do Juscelino que chamam a atenção do senhor? R – Juscelino eu conheci bem de perto, além de um grande estadista, um homem inteligente, era humano, era criativo. Ele dificilmente condenava, primeiro ele ouvia. Isso eu vi bem de perto e meu irmão, falecido, era também fã incondicional dele pela natureza humana dele. E o próximo que ganhar, Deus proteja que tenha 10% da garra dele já estou satisfeito, de Juscelino. Dignidade, honradez e a maneira muito gostosa de querer trabalhar e levar a vida sorrindo e dançando. P/1 – Fantástico, seu Chiquinho! Só pra gente terminar, queria que o senhor falasse um pouco dos seus filhos. R – Tem o Marcelo Dantas Marino, mais velho, odonto; Francisco Emílio Dantas Marino e Kelly Dantas Marino; e já tem um netinho, então com a paz de Deus eu já estou bem servido. Se não tenho nada, tenho alegria e muita disposição pra trabalhar. P/1 – Algum deles ajuda o senhor no Beirute? R – Os dois, todos os dois estão lá dentro, inclusive se faltar amanhã já tem garra e condição de tocar o barco. P/1 – Então tá. R – Valeu? P/1 – Aham. Em nome do Museu da Pessoa, agradeço a entrevista do senhor. Obrigada! R – Muito obrigado, Deus lhe pague, fique com Deus! P/1 – Amém! ----Fim da entrevista---
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